BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sexta-feira, 5 de junho de 2020

A PRIMEIRA SEXTA-FEIRA DO MÊS DE JUNHO.


A Guarda de Honra do Sagrado Coração

Todos os reis da terra têm sua guarda de honra, formada do que a nação possui de mais nobre e devotado. O Reis dos reis, Jesus Cristo, quis também ter Sua guarda de honra durante Sua vida mortal. Em Belém, no Egito, em Nazaré, ela compunha-se de Maria e José; era pequena pelo número, mas muito grande pela dignidade das personagens. Durante Sua vida pública, o Salvador recebeu de Seu Pai, para O acompanharem nos seus cursos e participarem de Seus trabalhos, os doze Apóstolos e os setenta e dois discípulos. No Calvário, vemos a corte do Redentor crucificado formada de Maria, Sua Mãe, algumas santas mulheres, Maria Madalena e São João, aos quais podemos ajuntar o Bom Ladrão. Estes últimos poderiam chamar-se, por título especial, a Primeira Guarda de Honra do Sagrado Coração; porque eles não foram somente as testemunhas constantes das chamas de amor que Dele surgiram durante a Paixão, mas ainda tiveram o grande privilégio de O ver aberto pela lança do soldado Longino, e de contemplar a Chaga Dele, quando os membros frios de Jesus foram depostos nos joelhos de Sua Mãe. Os olhos de amor puderam então descobrir os Mistérios do Coração de Jesus pelas aberturas feitas no Seu Corpo, diz São Bernardo. Quem não teria querido participar da felicidade destas almas fiéis? Mas que digo? É esta a linguagem da fé? Não temos na Eucaristia este mesmo Corpo que foi pregado na Cruz, este mesmo Sangue, que foi derramado no Calvário, este mesmo Coração, que foi aberto para nos dar asilo?



Quereis então, alma piedosa, fazer parte da Guarda de Honra do Sagrado Coração? Ide muitas vezes visitá-Lo no Santo Tabernáculo. Oh! Quantos são agradáveis ao Coração de Jesus aqueles que O visitam muitas vezes, e fazem consistir suas delícias em Lhe fazer companhia nas igrejas onde Ele reside em Seu Sacramento! Ele exigiu de Santa Maria Madalena de Pazzi, que ela O fosse visitar trinta vezes por dia. São Luís de Gonzaga sentia-se de tal modo arrebatado pelos suaves atrativos do Salvador, que, ao separar-se do Tabernáculo, com ternura comovente lhe dizia: Deixai-Me, Senhor. O grande Apóstolo das Índias, São Francisco Xavier, ia refocilar-se de seus grandes trabalhos diante do Santíssimo Sacramento. São João Francisco Regis fazia a mesma coisa; e quando achava a igreja fechada, consolava-se ficando de joelhos diante da porta, exposto à chuva, ao frio, para assim fazer corte, ao menos de longe, ao Divino Consolador. Todos os Santos tiveram sempre esta devoção. Fiquemos persuadidos de que a alma que se conserva diante do Santíssimo Sacramento, por pouco recolhida que seja, recebe de Jesus Cristo mais consolação do que o mundo poderia dar por todas as suas festas e prazeres. Oh! Quão delicioso é estar com fé ao pé do altar!

Se queres fazer parte da Guarda de Honra do Sagrado Coração de Jesus, não deixeis passar dia algum sem assistir à Missa. O Senhor concede em todo tempo Seus favores, quando Lhe são pedidos em Nome de Jesus: mas durante a Missa Ele os concede com mais abundância; porque nossas orações são então fortificadas e acompanhadas pelas do Coração de Jesus, oferecendo-Se para nos obter as graças de Seu Pai. Conforme o santo Concílio de Trento, o tempo da celebração da Missa é justamente aquele em que o Senhor está sobre Seu Trono de Graça. São João Crisóstomo afirma que os Anjos esperam este momento precioso, a fim de intercederem mais eficazmente por nós; o mesmo Santo acrescenta que aquilo que não se alcança durante a Missa, dificilmente se poderá alcançar em qualquer outro tempo. Oh! Que tesouros de graças podemos então obter para nós e para os outros! Não esqueçamos que, ouvindo a Missa, nós a oferecemos com o celebrante: não nos dispensemos, pois, Dela. O Venerável João de Ávila, extenuado por uma longa viagem, dispunha-se a não celebrar naquele dia; mas Jesus Cristo lhe apareceu e, descobrindo-lhe Seu peito, fez-lhe ver Suas Chagas, principalmente a do Sagrado Lado: esta visão animou o servo de Deus, e ele disse a Missa, não obstante a fraqueza em que estava.


Se queres fazer parte da Guarda de Honra do Sagrado Coração, aproximai-vos o mais possível da Santa Mesa. Felizes aqueles que têm fome do Pão dos Anjos!… Os teólogos concordam em dizer, que a Comunhão nos procura mais graças do que todos os outros Sacramentos, porque nela recebemos a Jesus Cristo, Autor mesmo da Graça. Quando um príncipe faz por sua própria mão um dom a alguém, este dom é sempre maior que o que ele concede por intermediários. Eu não sou digno de comungar constantemente, dizeis vós. Escutai o que dizia uma santa alma: Por isso mesmo que eu conheço minha indignidade, quisera comungar três vezes por dia; porque comungando mais vezes, espero tornar-me menos indigna. Quanto mais fracos nos sentimos, tanto mais devemos usar do remédio, que nos é oferecido na Comunhão; quando um muro pende, põem-se-lhe escoras, não para endireitá-lo, mas para impedir que ele caia. Não é grande bem ser preservado, pela Comunhão, da queda no pecado mortal? Comungai muitas vezes, Filotéia, dizia São Francisco de Sales, comungai o mais frequentemente que puderdes, com licença de vosso Pai Espiritual; e crede-me, as lebres tornam-se brancas nas nossas montanhas, porque comem só neve; à força de comerdes a pureza mesma, neste Divino Sacramento, tornar-vos-eis inteiramente pura. Mas muitas vezes uma pessoa foge da Comunhão, porque sabe, que a Comunhão frequente não concorda com a vida de prazeres, amizades mundanas, vaidades, estima própria, mesas regaladas; eis aí porque evita comungar com frequência. Temem-se as repreensões interiores, que Jesus Cristo faz cada vez que é recebido em Seu Sacramento de amor; numa palavra, a razão porque muitos só raramente comungam, é porque desejam viver com mais liberdade. Que dizeis a isto?

Prática

Todos os dias irei fazer um momento de guarda diante de Jesus Cristo na igreja; se não me é possível ter este favor, pedirei a meu bom Anjo para que vá em meu lugar, e leve meu coração e todos os meus afetos para meu bom Rei amadíssimo.



Afetos e Súplicas

Querido Salvador meu, Vós Sois o Senhor do Céu, o Rei dos reis, o Filho de Deus: como Vos vejo nas igrejas, abandonado de todo o mundo? Junto de Vós só percebo Anjos e algumas almas fervorosas. Ah! Quero ajuntar-me a eles para Vos fazer companhia: não me recuseis esta honra. Sim, a Vós irei, para conversar convosco a sós, ó Divino Solitário, ó Único amor de minha alma! Insensato fui, eu Vos abandonei, eu Vos deixei só, para ir mendigar junto das criaturas alguns prazeres miseráveis e envenenados; mas agora, iluminado por Vossa graça, não tenho mais outro desejo que viver solitário convosco, que quereis viver solitário por amor de mim. Ah! Quem me dará asas? E forças para sair deste mundo, onde tantas vezes achei minha ruína, fugir e morar sempre convosco, que Sois a alegria do Paraíso e o verdadeiro Amigo de minha alma? Senhor, apegai-me ao Vosso Coração, a fim de que não me separe mais de Vós, e ache minha felicidade em fazer-Vos muitas vezes companhia nas igrejas. Por Vossa solidão no Santo Tabernáculo, concedei-me contínuo recolhimento interior; fazei que minha alma se converta em oratório solitário, onde só me ocupe convosco, a quem submeto todos os meus pensamentos e todas as minhas ações, e consagro todos os meus afeto, a fim de que Vos ame sempre, suspirando sem cessar pelo momento em que sairei da prisão de meu corpo, para ir Vos amar e Vos ver sem véu no Céu. Eu Vos amo, Bondade infinita, e espero Vos amar sempre, no tempo e na eternidade. Ó Maria, rogai a Jesus que me prenda a Seu Divino Coração por Seu amor, e não permitais que me suceda ainda perder o grande tesouro de Sua graça.

Oração Jaculatória

Louvado e agradecido seja a cada momento o Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!1



Exemplo

Não basta falar cristãmente, dizia Marceau, este grande amigo do Coração de Jesus. Edifiquemo-nos com a devoção deste capitão de fragata para com a adorável Eucaristia. Quando ele teve a felicidade de converter sua mãe, recomendou-lhe instantemente a audição da Santa missa, ainda quando isto lhe custasse muito, e a visita ao Santíssimo Sacramento. “Jesus Cristo, dizia ele, está presente sobre os altares; lá espera nossas orações, e nós O deixaríamos?” E a fim de dar novo peso à sua recomendação, contava-lhe que, se ele havia entrado tão facilmente no seio da Igreja, era por ter, desde o começo, assistido fielmente à Missa todas as manhãs, e visitado cada dia a Nosso Senhor na adorável Eucaristia. Um dia, seus amigos lhe disseram: “Não sabemos como fazes, Marceau; teus marinheiros estão sempre contentes, quaisquer que sejam os serviços que lhes mandas: e os nossos se queixam, clamam, ficam furiosos; não podemos domá-los”.“Senhores, disse Marceau, vou indicar-vos como procedo: quando vejo que eles estão descontentes, vou passar uma hora ou duas diante do Santíssimo Sacramento, por sua intenção, e então tudo corre bem”. Alguém lhe mostrava num conflito entre os oficiais: “Por que espantar-vos? Disse Marceau, eu comunguei hoje!” Comandante da Arca d’aliança, ele tinha estabelecido a bordo a mais bela ordem. Começava-se o dia pela oblação do Santo Sacrifício. O capitão mesmo preparava os ornamentos, depois reivindicava para si o privilégio de ajudar à Missa. Ele ajudava cada dia três, e durante elas ficava como aniquilado de joelhos. Tendo Marceau sabido que muitos marinheiros murmuravam por ele comungar todos os dias, reuniu-os e disse-lhes: “Em vez de vos escandalizardes e murmurardes, deveis regozijar-vos. Se eu não comungasse todos os dias, ao menor descontentamento que me désseis, meter-vos-ia todos no mar”. Certo dia um amigo manifestava o temor que tinha de comungar, porque faltava-lhe o fervor. “E eu, respondeu o comandante, porque sou um miserável, é que comungo tantas vezes; tenho necessidade de um remédio cotidiano para me sustentar”. Em 1851, quando foi acometido da enfermidade de que morreu, ele quis ir recomendar seus pios projetos ao Santuário bendito do Coração de Jesus, Paray-le-Monial. A irmã que lhe prestou os derradeiros serviços, dizia: “Nunca encontramos modelo mais perfeito em todas as virtudes”. Quem poderá desesperar vendo Marceau, livre pensador, tornar-se um santo! Nele se verificou a bela palavra de São Francisco de Sales: “Uma só alma fervorosa dá mais glória a Deus que mil cristãos negligentes e tíbios”.


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Fonte: O Sagrado Coração de Jesus, segundo Santo Afonso de Ligório, ou, Meditações para o Mês do Sagrado Coração, a Hora Santa e a Primeira Sexta-feira do Mês; coligidas das Obras do Santo Doutor pelo Padre Saint-Omer, C.Ss.R., A Primeira Sexta-feira do Mês de Junho”, pp. 324-331. 5ª Edição Portuguesa, Tipografia de Frederico Pustet, Impressores da Santa Sé. Ratisbona/Alemanha, 1926.

1.  Indulgenciada (24 de Maio de 1776).

quarta-feira, 3 de junho de 2020

HORA SANTA DO MÊS DE JUNHO.


Coração de Jesus
Afligido por Causa dos
Pecados do Mundo


Parece que o Coração de Jesus nos convida ao pio exercício da Hora Santa, por estas palavras do Profeta Jeremias: Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai-me e vede se há dor igual à minha dor.1 Para conceber toda a extensão e intensidade dessa aflição, é necessário que meditemos: de um lado, o amor que nos tinha o Coração de Jesus desejoso de nos salvar a todo preço, de outro, o horror que Ele tinha do pecado, causa de nossa perdição. Seria muito, alma fiel, consagrar cada mês uma hora a esta meditação tão salutar?

Jesus trazia todos os homens no seu Coração, por que Ele amava todos. Mas sendo eles todos pecadores, que eram para o Coração amante de Jesus, senão cruéis espinhos que O dilaceravam, segundo o pensamento de Santo Agostinho? É portanto, verdade que nós temos sido os algozes desse Coração amabilíssimo, e algozes mais cruéis do que aqueles que rasgaram o Corpo do Salvador.

Com efeito, procurai no Jardim das Oliveiras, e não achareis nem algozes para O flagelar, nem espinhos, nem cravos, e entretanto o Sangue Divino corre. Ele teve, diz São Lucas, um suor de sangue que corria na terra em forma de gotas de chuva.2 Qual pode ser a causa deste suor? É a previsão de seu suplício que O lança nestas agonias? Não, porque ele se ofereceu espontaneamente a padecê-lo.3 Ah! Não busquemos aqui outra causa que os nossos pecados. Da mesma sorte que o lagar faz correr o vinho da uva, assim nossos pecados fizeram correr o Sangue das veias sagradas de Jesus Cristo. Quantas vezes não temos contribuído para esta aflição aumentando o peso de nossas faltas? Ah! Pesemos aqui a malícia do pecado, a fim de maldizer para sempre o que tanto afligiu o Coração deste bom Senhor.

O pecador aflige o Coração de Jesus, porque desonra a Deus,4 cuja glória o Salvador veio restabelecer. Não renuncia, com efeito, à graça santificante e à amizade divina por uma indigna satisfação? Se o homem consentisse em perder a amizade divina para ganhar um reino, e até o mundo inteiro, certamente faria imenso mal, porque a amizade de Deus vale mais que o mundo e mil mundos. Mas porque o pecador ofende a Deus? Por um pouco de terra, por um movimento de cólera, por um prazer brutal, por um fumo, por um capricho. Quando o pecador se põe a deliberar se consentirá ou não no pecado, toma, digamos assim, a balança na mão, para ver o que pesa mais, o que é preferível, a graça de Deus, ou essa paixão, esse fumo, esse prazer; quando em seguida dá seu consentimento, declara, quanto o pode fazer, que essa paixão, esse prazer, valem mais que a amizade de Deus! Não é isto desonrar a Deus? O pecador aflige também o Coração de Jesus, porque entrega-se ao poder do Demônio, cujo império o Salvador veio destruir. Quando a alma consente no pecado, diz a Deus: Senhor, retirai-Vos de mim.5 Ela não o diz com a boca, mas de fato, porque sabe que Deus não pode ficar com o pecado: pecando, ela O obriga então a separar-se. E expulsando a Deus de seu coração, faz entrar nele imediatamente o Demônio para tomar-lhe posse. Pela mesma porta pela qual sai Deus, entra o Inimigo, que vem estabelecer-se como senhor em lugar de Deus. Quando se batiza um menino, o Coração de Jesus se regozija, porque o Padre intima ao Demônio a ordem de sair dessa alma e dar o lugar ao Espírito Santo. Mas quando o homem consente no pecado, o Coração divino se aflige, porque o pecador diz a seu Deus que saia de sua alma e ceda o lugar ao Demônio. Não é isto restabelecer o império de Satanás, destruído pela Redenção?

Enfim, o que aflige o Coração de Jesus, é que o pecador O obriga a pronunciar sobre sua cabeça a fatal sentença de condenação: Retira-te de Mim, maldito, vai para o fogo eterno.6 Desgraçado daquele que rejeita as graças que Jesus Cristo lhe granjeou por tantos trabalhos e dores! Ah! Seu maior tormento no Inferno, será pensar que Deus, para atraí-lo a Seu amor, deu Sua vida sobre uma Cruz, e que ele, de seu motu proprio, quis se perder, e de modo irreparável para sempre!… durante toda a eternidade!… Ó eternidade!…

Prática

Oferecerei muitas vezes ao eterno Pai as aflições do Coração de Jesus, em reparação de meus pecados e de todo o mundo.

Afetos e Súplicas

Assim, meu Jesus, não foi a vista dos açoites, dos espinhos e da Cruz, que Vos causaram tanta aflição no Jardim de Gethsemani, foi a vista de meus pecados, cada um dos quais acabrunhou Vosso Coração com tanta dor e tristeza, que Vos fez suar Sangue e Vos reduziu à agonia. Eis aqui como respondi ao amor que me testemunhastes morrendo por mim. Ah1 Dai-me parte da dor que sentistes por causa de meus pecados no Jardim das Oliveiras, a fim de que esta dor me conserve em aflição durante todo o resto de minha vida. Ó meu terno Redentor, pudesse eu agora Vos consolar, por meu arrependimento e amor, tanto quanto Vos tenho afligido! Do fundo de minha alma me arrependo, ó amor meu, de ter preferido satisfações miseráveis do que a Vós: disto me arrependo, ó meu Jesus, e amo-Vos sobre todas as coisas. Apesar de meus pecados, sei que me pedis meu amor: Amareis, dizeis, o Senhor Vosso Deus de todo vosso coração e de toda vossa alma.7 Sim, meu Deus, eu Vos amo de todo o meu coração, eu Vos amo de toda a minha alma: dai-me Vós mesmo todo o amor que de mim quereis. Se outrora procurei a mim mesmo, quero agora procurar somente a Vós: conhecendo que me tendes amado mais do que os outros, quero também Vos amar mais que os outros. Atraí-me sempre, meu Jesus, atraí-me cada vez mais a Vosso amor pelo odor de Vossos perfumes, isto é, pelos doces atrativos de Vossa graça. Dai-me, numa palavra, a força de corresponder à ternura de um Deus para com um verme da terra ingrato e infiel. Ó Maria, Mãe de misericórdia, assisti-me com Vossas orações.

Oração Jaculatória

Eterno Pai, perdoai-me pelos merecimentos do Coração de Jesus.

Desposório Místico de Santa Rosa de Lima


Exemplo

Santa Rosa de Lima teve o feliz destino de tornar-se esposa do Coração de Jesus. Um dia em que ela estava cercada de algumas de suas companheiras, veio uma borboleta, que, voando algum tempo à sua esquerda, pousou sobre seu coração. Depois de ter estado aí alguns instantes numa atividade contínua, voou, deixando na roupa da virgem donzela um coração perfeitamente desenhado. Todas as pessoas presentes notaram com surpresa esta pintura misteriosa, mas sem compreenderem sua significação. Rosa também não compreendeu. Somente ouviu uma voz que lhe dizia: Rosa, dá-Me teu coração. Um dia Jesus Cristo lhe apareceu com Sua divina Mãe, e disse-lhe esta palavra, a mais suave e amável que um Deus pode dirigir à Sua criatura: Rosa de Meu Coração, sede para sempre Minha esposa fiel. Para não perder a lembrança de tão grande benefício, ela formou o desígnio de mandar fazer para si um anel nupcial. Rosa comunicou este projeto a seu irmão, sem lhe falar do que sucedera. Este bom irmão, desejando ver logo cumprida a vontade de Rosa, tirou medida no dedo dela e desenhou o anel num papel, ornando-o com um pequeno medalhão representando Jesus Cristo. Restava só tratar-se da divisa que devia cercá-lo. Rosa, com o olhar, consultava a seu irmão; este não fez esperar sua decisão: tomou a pena e escreveu estas palavras: Rosa de Meu Coração, sede Minha esposa. Grande foi o espanto desta santa donzela, vendo seu irmão reproduzir, sem o saber, as mesmas palavras que Jesus Cristo lhe dirigira na maravilhosa aparição com que a honrara. Ela foi esposa fiel, porque, não obstante ficar no mundo, amou a Jesus Menino, a Jesus nos tormentos, e a Jesus na Eucaristia, de um modo superior ao que nos é possível imaginar. Na idade de quatorze anos já ela comungava três vezes por semana. Rosa preparava-se para o Divino banquete, como se cada vez fosse a última de sua vida. “Não há neste mundo, dizia ela, prazer, nem gozo que possa dar uma ideia da alegria que sinto no delicioso festim, em que minha alma faminta come a Carne de meu Deus”. Por um efeito de sua devoção para com o Santíssimo Sacramento, ela assistia cada dia a todas as Missas que se diziam na igreja dos Dominicanos. Nos dias em que havia exposição do Santíssimo, ficava em adoração desde a manhã até a tarde. Quando se nomeava a Santíssimo Sacramento na conversação, ela inclinava a cabeça; um de seus mais deliciosos prazeres era ouvir exaltado pelos pregadores este inefável Mistério. Não contente de ornar os tabernáculos com flores naturais que ela cultivava no seu jardim, fazia artificiais de beleza surpreendente. Uma parte de suas noites era consagrada a esta ocupação, reservando o dia para trabalhar para sua família, que não tinha grande fortuna. A feliz esposa do Coração de Jesus deixou a terra para receber a coroa das Virgens, em 1617.


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Fonte: O Sagrado Coração de Jesus, segundo Santo Afonso de Ligório, ou, Meditações para o Mês do Sagrado Coração, a Hora Santa e a Primeira Sexta-feira do Mês; coligidas das Obras do Santo Doutor pelo Padre Saint-Omer, C.Ss.R., “Hora Santa” de Junho, pp. 238-243. 5ª Edição Portuguesa, Tipografia de Frederico Pustet, Impressores da Santa Sé. Ratisbona/Alemanha, 1926.

1.  Lam. 1, 12.

2.  Luc. 22, 44.

3.  Is. 58, 7.

4.  Rom. 2, 23.

5.  Jó 21, 14.

6.  Mat. 25, 41.

7.  Mat. 22, 37.

domingo, 31 de maio de 2020

AO DEUS DESCONHECIDO E MISTERIOSO.



Como são felizes aquelas duas pessoas!” Comentavam, não sem inveja, os habitantes de uma pequena cidade, onde vivia um par de irmãos.

Ele era o chefe de uma grande filial, e quase não dispunha de tempo suficiente para as refeições. Chegasse, porém, à tarde, cansado e exausto de fadiga, encontrava a casinha feito um brinco. A irmã organizava tudo, com tanto asseio e carinho, que ele se sentia tão bem, a ponto de esquecer os aborrecimentos dos negócios. Nenhum sinal de poeira se encontrava sobre os móveis; ao contrário, ela guarnecia com um ramalhete, e no extremo inverno, ao menos com uma florzinha o aposento do irmão. Uma roupa agradável estava sempre reservada para o repouso dele. Enfim, tudo o que se possa imaginar em comodidade estava preparado.

Quando se aproximava a hora da chegada, corria ela pressurosa da cozinha para a janela, a fim de recebê-lo com o sorriso nos lábios e uma palavra de saudação. O irmão de tal forma já se tinha acostumado a tudo isso, que o recebia com uma indiferença sem par. Nem sequer refletia que toda aquela atividade e gentileza da irmã eram dirigidas, unicamente, a ele. Ignorava que a mana, que o fazia viver como nobre, era miseravelmente pobre. Disposta a fazer qualquer sacrifício pelo irmão, nada mais recebia dele do que a moeda fria para as despesas da casa, e um ou outro presente, por ocasião do aniversário dela ou do Natal. Seu coração só pulsava para os negócios; que restava lá para uma irmã?

Não notava que ela se tornava sempre mais pálida, não sentia como depois de certo tempo, ela devia empregar todas as forças, para comparecer sempre alegre como antes; não reparava como cambaleava pelo quarto, amparando-se aqui e acolá.

E, quando um dia, não pode mais abandonar o leito, ele não deixou de externar um mal humor. O médico, que atestou ser bem sério o estado da doente, ele o reputou, interiormente, por um idiota.

Entretanto, quando depois de alguns dias, viu o cadáver pálido da irmã baixar ao ataúde, ficou abatido e prosternado como um ébrio.

Os dias seguintes mostraram-lhe, bem ao claro, que espírito bom tinha deixado a casa. Só agora ele reconhecia o amor grande e infatigável de sua irmã, amor que antes deixara despercebido e considerara-o tão natural. Ah! Se ela lhe aparecesse uma única vez, para de joelhos, dar-lhe os agradecimentos!

O que acabo de narrar, meu amigo, não é uma novidade. Tu mesmo já viveste este episódio. Ele se repete em todos os lugares, em todas as cidades, em quase todas as famílias. Não é lamentável? Mas, muito mais triste é o fato de não sentirmos aquele amor inflamado que desde o nascimento nos embala, nos protege, e nos acompanha, passo por passo, nesta vida; aquele amor, tão grande como Deus mesmo: refiro-me ao Amor personificado em Deus, – o Espírito Santo. É verdade que ainda pensamos Nele uma vez, na Festa de Pentecostes; talvez um lampejo de sua veneração nos inflamou, momentaneamente, ao recebermos o santo Crisma. Depois disso, tudo caiu no esquecimento. Até mesmo as orações que Lhe dirigimos não nos aquecem mais, nem sequer evocam à consciência a lembrança daquele infinito Amor.

Como aquele irmão “solícito”, que habitualmente presenteava a irmã em determinadas ocasiões, assim também nós, com os corações frios, de quando em vez jogamos uma palavra ao Divino Espírito Santo. Entretanto, Ele nos ama muito mais do que uma mãe nos pode amar. Pois, já nos amava desde toda a eternidade. Foi Ele que formou o nosso ser e nos insuflou o sopro da vida; é Ele a quem todos nós agradecemos os dotes do corpo e as faculdades do espírito. Foi Ele que nos transformou em Templos de Deus, e guarneceu esses Templos com admiráveis prerrogativas. Será possível que só nos lembremos disto tudo, quando Ele se separar de nós, e separar-se para sempre?

Não, seria a perdição eterna!

Por isso, esforcemo-nos por conhecer esse Divino Espírito, esse Espírito misterioso, infinito, eterno, esse Paráclito, que nos foi enviado por Jesus, a ser-nos Guia na encruzilhada desta vida.

A esse fim nos devem conduzir as leituras seguintes.

Quando o grande Apóstolo das Gentes na sua terceira viagem chegou à Éfeso, procurou alguns habitantes, entre os quais supunha, com grande perspectiva, encontrar compreensão para o seu Evangelho.

Encontrou, então, doze homens, mais ou menos, que, mui possivelmente, em uma viagem a Jerusalém, tinham conhecido São João Batista, ouvido suas pregações sobre o Messias vindouro, e recebido o batismo de suas mãos. Achou portanto, entre eles, um terreno favorável. Interrogou-os, então: “Recebestes o Espírito Santo, quando abraçastes a fé?”1 Eles responderam admirados: “Nem sequer ouvimos dizer que há um Espírito Santo”.2 Não tinham, pois, percebido a advertência de São João Batista, de que o futuro Messias havia de batizar em fogo e no Espírito Santo.3

A mesma coisa sucede, hoje, entre os católicos; a doutrina do Espírito Santo e a sua voz nos corações de muitos são ouvidas sem atenção.

Mas a principal solicitude de São Paulo foi, como atesta a sua pergunta aos discípulos do Batista, ministrar-lhes o conhecimento da Terceira Pessoa em Deus, toda sua força e superabundância.

E nomeadamente foi Saõ Paulo o instrumento predileto do Espírito Santo, que não se cansava de indigitar, sempre de novo, o Divino Paráclito, correspondendo ao exemplo do Divino Mestre, que timbrava em inclinar a atenção dos discípulos para o Espírito divino: O Espírito Santo será sempre o Vosso Guia. Quando titubeardes na Missão Divina de pregar, Ele inspirar-vos-á a palavra inflamada e verdadeira.

Será o Paráclito Divino que lhes esclarecerá, plenamente, os ensinamentos de Nosso Senhor, e preserva-los-á do erro. Até mesmo perante reis e príncipes não precisarão temer os pecadores iletrados; pois a autoridade soberana, a Terceira Pessoa do Deus Trino falará por eles.

Não sois vós que falais, mas o Espírito de Vosso Pai é que fala em vós”.4 Quando, em face das dificuldades apostólicas, o temor se acercar deles, ser-lhes-á a força invencível. Em seu nome devem batizar os convertidos, do mesmo modo que em nome do Pai e do Filho.

Tão grande é o Espírito da verdade, que pecados contra Ele não podem ser perdoados. “Quem proferir palavra contra o Filho do Homem será perdoado; mas quem falar contra o Espírito Santo não será perdoado nem neste mundo, nem no futuro”.5 O Divino Salvador chega ao ponto de reputar por um bem a Sua separação dos Apóstolos, porque, por este meio se lhes possibilitará a chegada do Divino Consolador: “É-vos conveniente que Eu vá; porque, se Eu não for, não virá a vós o Consolador; mas, se Eu for, vo-lo enviarei”.6

Quão grande é a consideração em que o Divino Mestre tem o Espírito Santo, expressando estas e muitas palavras; e como soube com isto, acender nos corações dos Apóstolos uma grande ânsia pelo sublime Hóspede! Toda a confiança do Homem-Deus sobre a atividade dos Apóstolos e da Igreja repousa no Espírito Santo. E, realmente, foi em virtude do Espírito Santo que os discípulos renovaram a face da terra. Não é de admirar que São Paulo não se canse de mencioná-Lo em suas pregações e Epístolas.

Ao mesmo escopo devem servir as leituras que seguem. Enquanto os filhos do século são dominados pelo espírito do mundo, queiramos conhecer mais de perto a Terceira Pessoa misteriosa em Deus, e aprender a amá-La. Ela não nos deve mais parecer como uma coisa secundária. A palavra “Espírito Santo” deve encontrar um eco profundo em nossa alma. A oração dirigida a Ele deve tornar-se uma exigência do nosso coração. Sim, queiramos esforçar-nos por fazê-Lo no Amigo inseparável e Companheiro na travessia desta vida.

Quando São Paulo chegou à Atenas, a cidade dos filósofos antigos, encontrou altares, erigidos em honra das diversas divindades. Em um deles deparou com a curiosa inscrição: “Ao Deus desconhecido”. Os atenienses pagãos receavam ter esquecido alguma deidade, e com isso queria aplacar a sua cólera.

Para muitos católicos o Espírito Santo é também um “Deus desconhecido”. Ergamos-Lhe, pois, um Altar em nosso coração. Sim, temos obrigação de fazê-lo, pois somos “Templos do Espírito Santo”.7 É possível que queiramos deixar este Templo completamente vazio? Não, temos de edificar-Lhe um altar, conhecendo-O mais de perto, e tributando-Lhe assim, um culto de maior veneração e amor. Não queiramos unicamente ser portadores do nome de um templo, mas sê-lo na realidade. Rezemos, pois, diariamente ao Espírito Consolador, e pronunciemos o seu nome com muita devoção, para que possamos compreender as leituras seguintes, para que Ele nos ilumine e nos torne partícipes da Sua doutrina.



Ó Deus, que ilustrastes os corações dos Vossos fiéis com as luzes do Espírito Santo, concedei-nos que, no mesmo Espírito compreendamos o que é justo, e nos alegremos sempre com a Sua consolação”. Nós vo-Lo pedimos por Cristo, Nosso Senhor. Amém.


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Fonte: Rev. Pe. Agostinho Kinscher, “Dem Unbekannten Gott – Ao Deus Desconhecido”, Cap. I, pp. 7-12. Editora Mensageiro da Fé Ltda. Salvador/BA, 1943.

1.  At. 19, 2.

2.  At. 19, 2.

3.  Mat. 3, 11.

4.  Mat. 10, 20.

5.  Mat. 12, 32.

6.  Jo. 16, 7.

7.  I Cor. 6, 19-20.

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