BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Vamos a Belém: aí acharemos o Coração de Jesus Menino, que se Revela à nossa Fé.

 


Para contemplar com amor e ternura o nascimento de Jesus Cristo, devemos pedir ao Senhor o dom de uma fé viva. Se entramos sem fé na gruta de Belém, teremos apenas sentimentos de piedade. Aqui a fé deve ser o nosso guia e o nosso archote: com ela veremos e admiraremos; esperaremos e seremos cumulados de bens; amaremos e nosso coração dilatar-se-á.1 A fé nos conduzirá à confiança, a confiança ao amor, e o amor nos introduzirá no Coração de Jesus.


Todo Mistério exige nossa fé, mas principalmente o Mistério da Encarnação; porque, admitido este, todos os outros tornam-se críveis pela palavra mesma do Verbo Encarnado.


Entremos na gruta, mas entremos esclarecidos pela viva luz da fé; sem ela que veríamos? Um nascimento em tudo ordinário. Mas com a fé veremos este Menino novo que Deus devia criar,2 tendo um Coração novo, delícias do Paraíso, objeto dos afetos e complacências do Pai celeste.


O homem privado da fé não veria no presépio senão um menino como qualquer outro; o cristão vê ali o Verbo feito carne,3 tendo um Coração de carne como o nosso, mas animado pelo amor eterno que o fez descer sobre a terra para atrair o homem para Deus; vê ali o Filho único de Deus, igual a seu Pai, eterno como seu Pai, onipotente como seu Pai, imenso, sábio, feliz, soberano Senhor do Céu e da terra, dos Anjos e dos homens, mas que, para dar seu Coração ao homem e para o resgatar, abateu-se até tomar a forma de servo, revestindo-se de carne humana. Ah! Se a fé não nos desse certeza disto, quem creria em tal prodígio!


Sem o olho da fé, não veríamos neste berço de palha senão um menino estranho, que nada tem de comum conosco; mas tendo a fé por guia, veremos nele um irmão muito amado. Ó homem, considera este prodígio, exclama Santo Agostinho, eis que teu Deus tornou-se teu irmão! Ele se fez filho de Adão como tu; não dedignou-se de tomar olhos, mãos, pés, enfim, um Coração de carne, semelhantes aos teus. Ó excesso de amor divino! Estando mortas para a graça, todas as almas às quais, impossível era renascer por suas forças só para a vida, o Filho de Deus, movido pelas entranhas de sua misericórdia, desceu do Céu para ressuscitá-las. Mas, Senhor, pergunta Jó, que é o homem, este ser desprezível, tão ingrato para Convosco; que é o homem para que o torneis tão grande, honrando-o e amando-o deste modo?4 Dizei-me, ó meu Deus, que Vos importam a salvação e a felicidade do homem? Porque lhe sois tão apegado, que vosso Coração não parece ocupado senão em o amar e o tornar feliz?


Sem a fé, que veríamos ainda em Belém? Um menino que não tem o uso algum de suas faculdades, incapaz de nos conhecer e amar. Mas, que nos diz a fé? Ela nos diz, que Jesus, desde o primeiro instante de sua vida, teve o perfeito uso da razão, o espírito dotado de inteligência divina para nos conhecer, e o Coração cheio de amor divino para nos amar. Assim, as lágrimas de Jesus Menino foram muito diferentes das dos outros meninos: estes choram de dor, ao passo que Jesus chorava de compaixão e amor para conosco. Assim também, ao sugar leite dos seios de Maria, fazia-O para nutrir o Corpo que Ele queria nos dar em sustento na Santa Comunhão; então, Ele pensava em converter esse leite em seu Sangue para o derramar na sua Morte e oferecê-lO como preço de nossa redenção. Ó Deus amantíssimo, Vós pensáveis então em mim, como em mim havíeis pensado desde toda a eternidade.


Sem a fé, enfim, Jesus seria para nós o que Ele é, ai! Para muitos, um Deus desconhecido. Entremos então na gruta com fé viva, e vejamos na lapinha, sobre uma pouca de palha, este tenro Menino que chora. Ah! Como Ele é belo! Que amor inspira! Seus olhos lançam dardos de fogo nos corações daqueles que O desejam; seus vagidos são chamas que penetram os corações que O amam! O presépio, a palha, tudo nos clama: Amor ao Deus Menino, que nos traz seu Coração!


Prática


Do fundo do meu coração direi: Creio firmemente que o Filho de Deus se fez homem, que o Evangelho é sua palavra, que a Igreja é sua obra, que o Papa é seu Vigário infalível. Creio, pois, tudo o que a Igreja manda crer; rejeito tudo o que Ela reprova.



Afetos e Súplicas


Terno e amável Menino, embora eu Vos veja tão pobre nesta palha, reconheço-Vos e adoro-Vos como meu Senhor e meu Criador. Compreendo o que Vos reduziu a tão miserável estado: é vosso Coração, é vosso amor para comigo. Ó meu Jesus, quando, após isto, penso no modo pelo qual Vos tratei no passado, nas injúrias que Vos fiz, espanto-me de que tenhais podido suportar-me. Ah! Malditos pecados, que tendes feito? Enchestes de amargura o Coração de um tão bom Senhor! Por piedade, caro Salvador meu, pelos padecimentos que sofrestes e pelas lágrimas que derramastes no presépio de Belém, dai-me tão grande dor, que me faça chorar toda a minha vida os desgostos que Vos causei. Abrasai-me de amor para Convosco, mas de amor tal que compense todos os meus crimes contra Vós. Eu vos amo, terno Salvador meu, eu Vos amo, ó Deus feito menino por mim! Eu Vos amo, meu amor, minha vida, meu tudo! Prometo-Vos não amar de agora em diante senão a Vós. Ajudai-me com vossa graça, sem a qual nada posso. Ó Maria, minha esperança, do Coração de vosso divino Filho alcançais tudo o que quereis: rogai-Lhe que me conceda seu santo amor. Minha Mãe, atendei-me.


Oração Jaculatória


Ó Coração adorável, iluminai aqueles que não Vos conhecem.



Exemplo


Mostrava-se em Nápoles pela festa do Natal de 1641, um presépio de curioso artifício, e entre o grande movimento de gente que entrava na igreja, levado parte pela devoção, parte pela curiosidade, chegou-se também um escravo turco, que estava mais distraído apascentando os olhos somente no material daquele objeto cuja piedade ignorava. E quando chegou a colocar os olhos na formosura do Menino Deus deitadinho nas suas palhas, e ladeado de dois rudes animais, reparou que o Menino olhava para ele com um sorriso em Seu semblante, e estendendo a Sua mãozinha para fora das faixas, lhe acenava com o dedo indicador. Duvidou a princípio se era verdade o que via, mas o Menino o tirou da perplexidade, chamando-o com voz clara e distinta. Veio, enfim, assustado e tremendo; e o Menino acrescentando favores por cima de favores, e maravilhas sobre maravilhas, fez o ofício de Catequista e lhe ensinou em poucas palavras os rudimentos da Fé, e lhe disse que se batizasse, porque brevemente estaria em Sua companhia no Céu. Como podia a palavra de tal Senhor não ser eficaz e poderosa? Pediu logo, o escravo turco, o Sacramento do Batismo, para se fazer verdadeiramente livre e filho de Deus. E como tivera tão Bom Mestre, se achou instruído para O receber. Seguiu-se-lhe uma doença, na qual pediu o Sagrado Viático, confessando que não podia morrer sem que primeiro O recebesse. E tanto que entrou o Senhor em seu peito, logo saiu aquela ditosa alma do seu corpo, a tomar posse pacífica do inefável bem que lhe fora prometido.


Fonte: O Sagrado Coração de Jesus, segundo Santo Afonso de Ligório, ou, Meditações para o Mês do Sagrado Coração, a Hora Santa e a Primeira Sexta-feira do Mês; coligidas das Obras do Santo Doutor pelo Padre Saint-Omer, C.Ss.R., 1ª Parte,Belém”, pp. 30-34. 5ª Edição Portuguesa, Tipografia de Frederico Pustet, Impressores da Santa Sé. Ratisbona/Alemanha, 1926.


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1Is., 60, 5.

2Jer., 31, 32.

3Jo., 1, 14.

4Jó 7, 17.


segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

A SANTA MISSA NOS LIVRA, DE UMA MULTIDÃO DE MALES.


Acreditai que, além dos favores que solicitamos na Santa Missa, nosso boníssimo Deus nos concede muitos outros sem que os peçamos.

É o que ensina claramente São Jerônimo: absque dubio dat nobis Dominus quod in Missa petimus; et, quod magis est, saepe dat quod non petimus. “Sem dúvida alguma, o Senhor nos dá todas as graças que pedimos na Santa Missa, contanto que nos sejam de vantagem; mas, o que é mais admirável, muitas vezes nos dá o que não pedimos”.

Podemos dizer, por isso, que a Santa Missa é o sol do gênero humano espalhando seus raios sobre os bons e sobre os maus, e alma não há tão pérfida sobre a terra, que, assistindo à Santa Missa, dela não aufira qualquer grande bem, e muitas vezes mesmo sem nele pensar ou pedi-lo. Santo Antonino conta que, um dia, dois jovens libertinos passeavam numa floresta. Um deles havia assistido à Santa Missa e o outro não. Levantou-se subitamente furiosa tempestade, e no meio dos trovões e relâmpagos ouviram eles uma voz que clamava: “Mata! Nata!” No mesmo instante o raio esbraseou o ar e feriu aquele que não assistira à Santa Missa.

O companheiro apavorado, prosseguiu o caminho, buscando um refúgio, quando ouviu novamente a mesma voz, que repetia. “Mata! Mata!” O pobre rapaz nada mais esperava senão a morte. Uma outra voz, porém, respondeu: “Não posso, pois ele assistiu à Santa Missa. A Santa Missa a que ele assistiu impede-me de feri-lo”.

Oh! Quantas vezes DEUS não vos livrou da morte, ou, pelo menos, de numerosos e graves perigos, graças às Santas Missas a que tiverdes assistido! Disso nos assegura São Gregório no quarto de seus Diálogos: Per auditionem Missae homo liberatur a miltis malis et periculis, diz o Santo Doutor. “Sim, é verdade que, aquele que assiste devotamente à Santa Missa será preservado de muitos males e perigos, se bem que disto não se aperceba”.

Santo Agostinho chega a afirmar a preservação da morte súbita, o golpe mais terrível com que a Justiça Divina fere os pecadores. Qui Missam devote audierit subitanes morte non peribit. Eis, diz-nos este Santo Bispo, um preservativo admirável para evitar a morte imprevista: assistir todos os dias à Santa Missa e com toda a devoção possível. Quem se munir de tão eficaz salvaguarda viverá sem temor dessa terrível desgraça.

Existe certa crença, por alguns, atribuída a Santo Agostinho, de que durante o tempo em que se assiste à Santa Missa não se envelhece, mas a força e o vigor do fiel se mantém como estavam no começo. Não me preocupa saber se isto é ou não verdade, mas digo sem receio que, mesmo envelhecendo em idade, não se envelhece em malícia, pois, na expressão de São Gregório, uma pessoa que assiste com devoção à Santa Missa conserva sua alma no caminho reto: Justus audiens Missam in via rectitudinis conservatur.

Cresce sempre em mérito e em graça, e faz na virtude novos progressos, que o tornam agradável a seu DEUS.

E muito mais, ajunta São Bernardo, se ganha assistindo a uma única Santa Missa (se considerar seu valor intrínseco), do que distribuindo a fortuna aos pobres e peregrinando a todos os santuários mais famosos da Terra. Audiens devote Missam aut celebrans multo magis meretur, quam si substantiam suam pauperibus erogaret, et totam terram peregrinando transiret. Ó tesouro incalculável da Santa Missa! Compreendei bem esta verdade: podemos merecer mais assistindo ou celebrando uma só Santa Missa, se a considerarmos em si mesma e em todo o seu valor intrínseco, do que se distribuíssemos nossa fortuna aos pobres, e em seguida partíssemos a percorrer o Mundo como peregrinos, visitando com a maior das devoções os santuários de Jerusalém, Roma, Compostela, Loreto, etc.

São Tomás de Aquino, nos garante que na Santa Missa estão encerrados todos os frutos, todas as graças e todos os imensos tesouros tão abundantemente espalhados pelo Filho de Deus sobre a Igreja, sua Esposa, no Sacrifício cruento da Cruz. In qualibet Missa inventur omnis fructus et utilitas quam CHRISTUS in die parasceve operatus est in Cruce.

Detende-vos aqui, um instante: fechai o livro, interrompei a leitura, e reuni todas estas vantagens, tão abundantes, que proporciona a Santa Missa. Ponderai-as bem em silêncio e, depois, dizei-me se tendes ainda dificuldades de crer que uma única Missa, considerada em si, e em relação a seu preço e valor intrínseco, tenha uma eficácia tão grande que baste, como ensinam os diversos doutores, para alcançar a salvação de todo o gênero humano.

Suponde que Nosso Senhor JESUS CRISTO não tivesse sido crucificado no Calvário e que, em lugar do Sacrifício cruento da Cruz, houvesse instituído somente a Santa Missa, com a ordem formal de não se celebrar senão uma sobre a Terra. Pois bem, admitindo esta suposição, sabei que essa única Missa, celebrada pelo Sacerdote mais humilde do Mundo, teria sido mais que suficiente, considerado o seu valor intrínseco, para obter de DEUS a salvação de todos os homens.

Sim, uma única Missa bastaria, no sentido que acabamos de explicar, para obter a conversão de todos os hereges e cismáticos, de todos os infiéis e de todos os maus cristãos; para fechar a porta do Inferno a todos os pecadores, e para esvaziar o Purgatório de todas as almas que lá se purificam. E nós, miseráveis, com nossa tibieza, nossa falta de devoção, e as escandalosas distrações com que assistimos à Santa Missa, quantas barreiras lhe opomos à ação e restringimos a eficácia de seu poder!

Quisera subir ao cume das mais altas montanhas e de lá bradar com voz retumbante: Povo insensato, povo transviado, que fazeis? Por que não acorreis às igrejas para aí assistir a todas as Santas Missas que puderdes? Por que não imitais os Santos Anjos, que, no dizer de São João Crisóstomo, descem do Céu em legiões, quando se celebra a Santa Missa, e se mantém diante de nossos altares, velando-se com as asas em sinal de profundo respeito? Esperam o momento bendito da Santa Missa a fim de, com mais sucesso, intercederem por nós, pois sabem muito bem que é essa a ocasião mais propícia para nos alcançarem as graças celestes.

E vós! Que confusão para vós terdes até agora tão pouco apreciado a Santa Missa; e mais, de ter tantas vezes profanado uma ação tão santa, sobretudo se for do número daqueles que se atrevem a dizer temerariamente: “Uma missa a mais, uma missa a menos, isto é ninharia!”


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Fonte: São Leonardo de Porto-Maurício, O.F.M., “Tesouro Oculto – ou, As Excelências da Santa Missa”, conforme a edição romana de 1737 dedicada a S. S. O Papa Clemente XII.


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

AS NÚPCIAS DE SÃO JOSÉ COM A VIRGEM MARIA.

 


Maria , após haver-se consagrado ao Senhor, com voto de virgindade, deseja certamente permanecer por toda a vida no Retiro do Templo, aplicar-se ao estudo e à meditação da Sagrada Escritura e desempenhar os encargos que Lhe confiavam as mestras.

Seus genitores haviam falecido e, se regressasse a Nazaré, estaria só em sua casinha. Mas, o que não pensava, pensaram e providenciaram os Sacerdotes do Templo e os seus parentes.

Não se conhecia então o preço da virgindade, e o uso dos hebreus não permitia que uma jovem permanecesse núbil. E, sendo filha única, para não permitir passasse a herança paterna a famílias estranhas, devia desposar um parente.

Maria contava então os seus dezesseis anos, razão pela qual o Sumo Sacerdote A convidou para passar ao estado matrimonial e, sendo filha única, a desposar um dos próprios parentes. Tendo Ela porém, manifestado o voto de virgindade, não quis decidir por si só uma questão de tanta importância; pois estava escrito que se deviam observar os votos feitos a Deus e, por outro lado, não queria autorizar um uso desconhecido na nação hebraica. Convocou, portanto, os doutores da lei, para decidir o que se devia fazer.

Todos concordaram ser necessário consultar o Senhor e, tendo eles entrado em oração, o Sumo Sacerdote dirigiu-se ao Santuário. Enquanto oravam todos, ouviu-se, do fundo do Propiciatório, uma voz que dizia ser a vontade de Deus fosse Maria dada por esposa, entre todos os descendentes de Davi aptos para o matrimônio, àqueles em cujas mãos florescesse o raminho, segundo a profecia de Isaías: “Do tronco de Jessé sairá um ramo e de sua raiz brotará uma flor”.1

Manifestada essa disposição do Céu, todos os jovens da família de Davi reuniram-se no Templo com um raminho na mão. Todos desejavam aparentar-se com Maria; somente São José, humilde e recolhido, de prudente juízo, de belo e gentil aspecto, achava-se confuso, julgando-se indigno de tamanho bem. Além disso, tendo feito voto de virgindade, estava decidido a observá-lo; todavia, abandonava-se ao divino querer.

Enquanto oravam todos e os Sacerdotes ofereciam a Deus o sacrifício, eis que o ramo de José, depositado com os outros sobre o altar, produz uma flor que se abre pouco depois num alvíssimo lírio, dando-lhe assim a preferência sobre todos os outros pretendentes; os quais por despeito terão quebrado seus ramos como apresenta magnificamente o pincel de Rafael no seu quadro dos esponsais.

Também os Padres e os Doutores da Igreja concordam em dizer que São José foi escolhido para esposo de Maria pelo próprio Deus. Narra São Jerônimo, que Deus falou ao Sumo Sacerdote, ordenando-lhe colocar na mão dos parentes de Maria um ramo seco; o jovem, cujo ramo brotasse, seria o esposo de Maria.



Esse fato explica o costume de representar o Santo com um bastão florido na mão.

A verdade da narrativa simbólica, é que esses esponsais tiveram um fim sacerdotal; que o autor da escolha foi Deus e que só o amor da virgindade uniu para sempre aqueles dois Corações Imaculados. Foi a virgindade, a pérola preciosa do anel que brilhou aos olhos de Maria, quando José o ofereceu para possuir a Sua mão; a virgindade solenizou essas núpcias, que sem ela jamais se teriam realizado.

O humilde Santo, ao ver-se tão claramente escolhido por Deus para Esposo da Virgem Maria, de preferência a muitos jovens ricos, sentiu-se muito comovido.

Avisada Maria, ainda prostrada diante da Majestade divina, exultou em Deus, sabendo que José era um espelho de pureza e de santidade. Descendo depois ao Templo, acompanhada por suas mestras, foi apresentada, pelos Sacerdotes, a José. Ali, pela primeira vez se viram de perto e se mostravam muito felizes, sabendo ser tudo possível a Deus, que conhecia o seu voto de pertencerem somente a Ele.

Foi tão afortunado e feliz esse matrimônio que a terra nunca viu nem verá jamais um igual. Nem a Maria podia tocar melhor esposo, nem melhor esposa podia aparecer a José. Eram dois Corações verdadeiramente dignos um do outro, plenos de virtudes e de graças.

Não foi o capricho ou a paixão, o interesse ou outro motivo humano que levou José e Maria a unirem suas existências em uma, mas exclusivamente a vontade de Deus, manifestada através da vontade dos parentes e através da lei mosaica, à qual não era lícito subtrair-se.

José encontrou em Maria um Coração ardente de virginal afeto, uma companheira ideal para a vida, um conforto e um suave sorriso nas fadigas e perigos. Maria encontrou em José o guarda fiel de sua virgindade, um Coração de esposo amantíssimo, um amparo e segura defesa para Si e para o Divino Infante.

Portanto, José possuía Maria, senhora escolhida como o sol e mais bela que a lua, que apareceu circundada por celestial majestade e resplandecente de maravilhosa beleza. Afirmam ainda antiquíssimas tradições, que Maria era a mais bela jovem hebreia, e não nos custa acreditá-lo, pois, pelo voto feito, era virgem no pensamento, no coração e no corpo; sua alma estava cheia de graça, era a privilegiada de Deus, de quem recebia dons extraordinários para a alma, dons que transpareciam exteriormente e Lhe formavam a beleza do corpo.

Eis o elogio do Espírito Santo à sua Esposa: “Toda és formosa, amada minha, e em ti não há mácula. Vem do Líbano, esposa minha, vem, e serás coroada. Feriste-Me o coração, esposa minha, com um só dos teus olhares, com um só cabelo do teu pescoço. Como é belo o teu amor, ó irmã, minha esposa! As tuas carícias são mais suaves do que o vinho, e o odor dos teus bálsamos excede o de todos os aromas. Mel destilam os teus lábios, ó esposa, mel e leite estão debaixo da tua língua, e o odor dos teus vestidos é como o odor do incenso. Jardim fechado és, irmã, minha esposa, fonte selada”.2

São José era artífice, escreve o Padre Huguet, e ganhava o pão com o suor da fronte na profissão de carpinteiro. Mas diante de Deus, que não julga o homem pelas aparências, e sim pelo coração, era justo, rico de bens espirituais e grande de verdadeira grandeza.

Escreveu São Epifânio: “Homem algum foi mais nobre e mais rico que José aos olhos de Deus; nenhum o igualou jamais em ciência, pureza e santidade”. Por isso, o Senhor o estabeleceu Chefe de sua Família, custódio do mais precioso de seus tesouros.

As palavras de Faraó a seu povo faminto: “Ide a José”, deveriam ser, nos séculos, a resposta de Deus a seus filhos desejosos de graça: “ide a meu fiel servo José”.

Ao celebrar-se esse matrimônio, que a Igreja comemora a 23 de Janeiro, Maria, segundo a opinião mais corrente, contava 16 anos e José cerca de 33. De fato, devendo ser ele o conforto e amparo da Esposa e do Menino Jesus na penosa fuga para o Egito, no regresso à pátria, e devendo também providenciar o sustento da Sagrada Família com o seu trabalho, era necessário que fosse de idade vigorosa e robusta; de outra forma, teria constituído um peso em vez de alívio.



Acrescenta Gérson que, se os antigos pintores o representaram velho, foi para mostrar a maturidade de sua mente e as cãs de seus virtuosos costumes; e também por parecer conveniente, naqueles tempos em que a virgindade de Maria não se achava ainda bem radicada nos corações, pintar o Seu Esposo um tanto velho, para subtrair toda ocasião de suspeita contra a ilibada virgindade de ambos os esposos.

Diz uma Santa, que José, ao ver a delicada donzela de olhos baixos, coberta de virginal rubor, permaneceu extático de admiração e percebeu no coração a voz de Deus que lhe dizia: “José, meu servo fiel, eis que te dou como esposa a mais cara criatura que existe na terra. A ti confio este tesouro, para que sejas o seu custódio. Esta puríssima pomba será a tua fidelíssima companheira; ambos vos conservareis virgens, sendo a virgindade o nó estreitíssimo de vossas núpcias. O vosso amor se unirá em um, que me será consagrado, sendo Eu o objeto de todos os vossos afetos e de todos os vossos desejos”.

Escrevia Bossuet: “Maria pertence a José e José a Maria, porque se deram um ao outro. Mas como se deram? Ó castidade, eis o teu triunfo! Dão reciprocamente sua virgindade e sobre esta virgindade, cedem, um ao outro, mútuo direito. Que direito? O de guardá-la um ao outro. Sim! Maria tem direito de guardar a virgindade de José e José o direito de guardar a virgindade de Maria. Deste direito, nem um nem outro podem dispor; e toda a fidelidade desse matrimônio consiste em conservar a virgindade. Eis a promessa que os une; eis o acordo que os liga. São duas virgindades que se unem para conservar-se eternamente de modo recíproco, com uma correspondência de castos desejos. Parece-me ver dois astros, que só entram em união pela luz que comunicam uma ao outro e que se unem reciprocamente”.

Terminadas as cerimônias das núpcias, que em tais circunstâncias se faziam estre parentes e amigos, Maria e José, depois de voltarem ao Templo para agradecer ao Senhor e obsequiar os Sacerdotes e as mestras, encaminharam-se, em companhia de alguns parentes próximos, para Nazaré, à casa de Maria, que seus pais Lhe haviam deixado.

Explica São Francisco de Sales, no décimo nono entretenimento: “Oh! Que divina união entre Nossa Senhora e o glorioso São José; União que tornava José participante de todos os bens de sua cara Esposa e o fazia crescer maravilhosamente na perfeição pela contínua comunicação com Ela, que possuía todas as virtudes em grau tão alto, que nenhuma criatura o pôde atingir”.

São José era quem mais Lhe assemelhava. De fato, Maria era como um espelho polidíssimo exposto aos raios do sol divino, raios que Lhe traziam à alma todas as virtudes em sua perfeição. Estas refletiam-se depois tão bem em São José, que Ele parecia ser tão perfeito e possuir as virtudes em grau tão alto quanto sua Esposa.

Dizem os naturalistas, que duas flores, plantadas uma junto da outra, se de cores diversas, por exemplo, uma amarela, outra vermelha, permutam suas cores ao menos em parte; isto é, a amarela toma um pouco de vermelho e a vermelha um pouco de amarelo. Se, em vez de ser assim, são ambas da mesma cor, por exemplo, vermelhas, então sua cor se aperfeiçoa, tornam-se mais vermelhas.



Apliquemos esta propriedade das flores a Maria e José: Antes das núpcias eram dois lírios de virginal candor, colocados porém a distância: Maria em Jerusalém, José em Nazaré. Após o matrimônio, estes dois lírios foram colocados próximos, no mesmo jardim, pela mão de Deus. E essa proximidade, em vez de ofuscar, muito lhes aperfeiçoou o candor. Assim, se José e Maria antes das núpcias eram virgens ilibados, foram também virgens e mais nobres ainda após as núpcias. Tal convivência durou por toda a sua vida; e como em suas núpcias, a virgindade desposou a virgindade, na convivência após as núpcias, foi um anjo de pureza a viver com outro anjo de pureza. Foi a convivência de dois Corações êmulos no candor virginal.

Diz São Bernardo: “O privilégio de ter Maria por Esposa foi concedido a José, de preferência a todos os outros de sua nação, porque ele era verdadeiramente da casa real de Davi, isto é, não degenerado em relação a seu avô, antes seu verdadeiro filho, por estar ornado de tanta fé, santidade e devoção. Era e foi achado por Deus, como Davi, homem segundo o seu Coração, a quem podia confiar o Mistério sublime da Encarnação do Verbo no seio da Virgem Imaculada, que vigiaria diligentemente como depósito da Sabedoria divina; Mistério que nenhum outro príncipe da terra conheceu”.

Estamos na preparação próxima da vinda de Jesus ao mundo. A casa de Davi, em decadência, ergue-se de novo, e o Senhor, herdeiro de todas as promessas, pode entrar com honra. O Mistério, porém, por fins providenciais, não deve ainda manifestar-se e permanece oculto na sombra da união dos dois cônjuges virgens, abençoando assim o estado matrimonial com a abundância de suas graças.

Maria, nesse novo estado, ganha em José um testemunho incontestável de sua virgindade, superior a toda dúvida, um custódio amantíssimo e seguro, um conselheiro fiel, um amparo e conforto para a sua singular vocação.

Doravante, os dois Santos Esposos serão os poderosos padroeiros do Estado de Virgindade e do Matrimonial; as fadigas comuns, os cuidados e dificuldades da vida transformar-se-ão em méritos para o reino de Deus, e cooperarão na vida do Salvador para a redenção do mundo.


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Fonte: Pe. Tarcísio M. Ravina, da Pia Sociedade de São Paulo, “São José – Na Vida de Jesus Cristo, na vida da Igreja, no Antigo Testamento, no Ensino dos Papas, na Devoção dos Fiéis, nas Manifestações Milagrosas”, 1ª Parte, PP. 26-33; Edições Paulinas, Recife, 1954.

1.  Is., 11, 1.

2.  Cânt., 4, 7-14.


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