BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sábado, 29 de janeiro de 2022

SÃO FRANCISCO DE SALES, E O VERDADEIRO E O FALSO ZELO.

 

Do Verdadeiro Zelo: ódio ao pecado.

Do Falso Zelo: ódio ao pecador.


Um pecador famoso veio um dia lançar-se aos pés de um bom e digno Sacerdote, protestando com muita submissão vir para achar o remédio de seus males, isto é, para receber a santa absolvição de suas faltas. Um certo monge chamado Demófilo, achando, no seu entender, que aquele pobre penitente se aproximava demais do Santo Altar, entrou em cólera tão violenta, que, precipitando-se sobre ele a grandes pontapés, expulsou-o e exortou-o para fora dali, injuriando ultrajantemente o bom do Sacerdote, que, consoante o seu dever, docemente acolhera aquele pobre penitente; depois, correndo ao Altar, tirou dele as coisas santíssimas que ali estavam e carregou com elas, com medo, como queria fazer crer, de que pela aproximação do pecador o lugar houvesse sido profanado. Ora, tendo feito essa bela façanha de zelo, ele não ficou nisso, mas festejou-a grandemente junto ao grande São Dionísio Areopagita, por uma carta que lhe escreveu sobre isso, da qual recebeu uma resposta digna do espírito Apostólico, de que era animado esse grande discípulo de São Paulo. Pois São Dionísio lhe fez ver claramente que o seu zelo fora indiscreto, imprudente e impudente conjuntamente, visto que, embora o zelo da honra devida às coisas santas seja bom e louvável, todavia fora praticado contra toda razão, sem consideração nem julgamento algum, dado que ele empregara os pontapés, os ultrajes, injúrias e exprobrações num lugar, numa ocasião e contra pessoas a quem devia honrar, amar e respeitar; de modo que o zelo não podia ser bom, exercido como era com tamanha desordem. Mas nessa mesma resposta esse grande Santo relata outro exemplo admirável de um grande zelo procedente de uma alma muito boa, estragada todavia e viciada pelo excesso da cólera que excitara:

Um pagão seduzira e fizera voltar à idolatria um cristão candiota,1 recém-convertido à fé. Carpo, homem eminente em pureza e santidade de vida, e que há grande aparência de ter sido Bispo de Cândia, concebeu por isso tamanha cólera como nunca sofrera tal, e deixou-se arrastar tanto por essa paixão, que, levantando-se à meia-noite para rezar segundo seu costume, concluiu consigo mesmo não ser razoável que os homens ímpios vivessem mais, rogando à Divina Justiça matar com um raio aqueles dois pecadores juntos, o pagão sedutor e o cristão seduzido. Vede, porém, Teótimo, o que Deus fez para corrigir a aspereza da paixão de que o pobre Carpo estava dominado. Primeiramente fez-lhe ver, como a outro Santo Estêvão, o Céu todo aberto, e Jesus Cristo Nosso Senhor sentado num grande trono, rodeado por uma multidão de Anjos que lhe assistiam em forma humana; depois ele viu em baixo a terra aberta como um horrível e vasto báratro2 e os dois desviados, a quem ele desejara tanto mal, à beira desse precipício, trêmulos e quase desmaiados de pavor, por estarem prestes a cair dentro, atraídos de um lado por uma multidão de serpentes, que, saindo do abismo, se lhes enroscavam nas pernas e com as caudas lhes faziam cócegas e os provocavam à queda; e, do outro lado, certos homens que os empurravam e batiam para os fazerem cair, de modo que eles pareciam estar a pique de ser abismados naquele precipício. Ora, considerai, rogo-vos, Teótimo, a violência da paixão de Carpo. Porque, conforme ele mesmo contava depois a São Dionísio, ele não fazia caso de contemplar Nosso Senhor e os Anjos que se mostravam no Céu, tanto prazer achava em ver embaixo a angústia tremenda daqueles dois míseros maus, incomodando-se somente com o fato de tardarem eles tanto a perecer, e esforçando-se portanto para os precipitar por si mesmo; e, não o podendo fazer logo, despeitava-se com isso e os maldizia, até que enfim, levantando os olhos ao Céu, viu o meigo e mui compassivo Salvador que, por uma extrema piedade e compaixão do que se passava, se levantou do seu trono e, descendo até o lugar onde estavam aqueles dois pobres miseráveis, lhe estendeu a Sua mão providente, ao mesmo tempo que os Anjos também, uns de um lado, outros de outro, os retinham para impedi-los de cair naquele tremendo abismo; e, por conclusão, o amável e bondoso Jesus, dirigindo-se ao colérico Carpo, diz: olha, Carpo, bate agora em Mim; pois estou pronto a padecer mais uma vez para salvar os homens; e isto Me seria agradável se pudesse suceder sem o pecado dos outros homens. Porém, ademais, reflete o que te seria melhor, estar neste abismo com as serpentes ou ficar com os Anjos que são tão grandes amigos dos homens. Teótimo, o santo homem Carpo tinha razão de entrar em zelo por aqueles dois homens, e o seu zelo excitara justamente a cólera contra eles; porém, uma vez movida, a cólera deixara a razão e o zelo para trás, ultrapassando as fronteiras e limites do Santo Amor, e por conseguinte do zelo, que lhe é o fervor. Convertera o ódio do pecado em ódio do pecador, e a dulcíssima caridade em furiosa crueldade.

Assim há pessoas que pensam que não se possa ter muito zelo, se não se tem muita cólera, achando não poderem acomodar coisa alguma se não estragarem tudo, conquanto, ao contrário, o verdadeiro zelo quase nunca se sirva da cólera: porque, assim como não se aplica o ferro e o fogo aos doentes senão quando não se pode fazer de outro modo, assim também o santo zelo não emprega a cólera senão nas extremas necessidades.


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Fonte: São Francisco de Sales, “Tratado do Amor de Deus”, Livro X, Cap. XV, pp. 540-543. 2ª Edição, Ed. Vozes Ltda, Petrópolis/RJ, 1996.

1.  Pertencente à Ilha de Cândia ou Creta.

2.  Abismo, voragem (o Inferno).


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

A GLÓRIA DA ESCOLÁSTICA: O BOI MUDO!


“… Temendo os Superiores que segunda vez lhe roubassem aquele tesouro, enviaram-no para Roma, donde o Geral da Ordem o fez partir para Paris, e dali para Colônia, onde estava então ensinando teologia Alberto Magno, o mais famoso doutor que naquele tempo tinha a Ordem dos Pregadores.

Sob a direção de tal mestre, fez Tomás assombrosos progressos; porém, tão ocultos no véu da modéstia, que os seus condiscípulos chamavam-lhe o boi mudo. Mas, por maior cuidado que tivesse de confirmar pelo silêncio a opinião menos vantajosa que corria da sua capacidade, a penetração do seu espírito transluzia através da profunda humildade, e aquele pretenso boi mudo, tornou-se dentro de pouco tempo o oráculo de todo o universo e o Anjo das Escolas…

A facilidade que tinha em aclarar e resolver as dificuldades mais obscuras, comprovam o que o Papa João XXII diz na Bula da sua canonização: Que a sua doutrina teve mais de infusa que de adquirida…

Posto que houvesse recebido por especial privilégio o dom da pureza, nada poupou que pudesse servir à conservação de tão delicada virtude. Nunca fitou o rosto de mulher alguma, e toda a vida evitou escrupulosamente todas as conversações que pode escusar com este sexo…

A ternura de Santo Tomás para com a Santíssima Virgem constituiu desde o berço parte do seu caráter. Muitas vezes lhe apareceu esta Soberana Rainha durante a vida; e poucos dias antes de morrer assegurou-lhe que ele nada tinha pedido ao Filho por intercessão da Mãe, que não tivesse conseguido.

Seria interminável a relação das virtudes e das maravilhas deste grande gênio. Nunca deixava de pregar a Palavra de Deus; e estando a exercer este Ministério pela Oitava da Páscoa na Basílica de São Pedro, curou de um fluxo de sangue uma mulher, que tocou a fímbria das suas vestes.

A sua vida foi uma perpétua cadeia de milagres, o mais visível dos quais, como notaram os próprios Sumos Pontífices, é que um só homem em menos de vinte anos pudesse ensinar com inaudito aplauso em quase todas as universidades mais célebres da Europa; combater e dissipar com os seus escritos os maiores inimigos da Igreja; converter com os seus sermões grande número de pecadores e de hereges; compor aquela prodigiosa multidão de sapientíssimas obras, que podem chamar-se o Tesouro da Religião; explicar com tanta precisão e com tanta solidez os Mistérios mais obscuros da teologia; ensinar com tanta unção e nitidez as verdades da moral; expor com tanta clareza nos seus sábios comentários os livros da Sagrada Escritura; satisfazer tão plenamente a quantas dúvidas que incessantemente e de todas as partes lhe propunham como a oráculo; e apesar disto, dar todos os dias muitas horas à oração; não se dispensar quase nunca dos mais ordinários exercícios da comunidade; macerar a sua carne com austeríssima penitência, sem embargo de ter uma saúde débil. Tal foi a vida de Santo Tomás de Aquino.

Mas não se deve admirar, diz Santo Antonino, falando do nosso grande Santo, que um homem que nunca perdia a Deus de vista e tinha frequente conversação com as celestiais inteligências; que um homem, a quem tantas vezes se viu arrebatado em êxtases maravilhosos, durando alguns por espaço de três dias inteiros; um homem a quem os Apóstolos São Pedro e São Paulo ditavam a exposição de suas Epístolas; não se deve admirar, que um homem assim possuísse uma ciência tão profunda e operasse tantas maravilhas em favor da Religião…”.1



Doctor communis Ecclesiae

O Papa Pio XI “como seus antecessores, é a Santo Tomás que recorre para dirigir a especulação teológica e filosófica. Com ênfase não comum, Pio XI, em Alocuções e, principalmente, na Encíclica Studiorum Ducem,2 valoriza a doutrina de Santo Tomás e o proclama Doutor Universal da Igreja. Lê-se nesta Encíclica: A sua doutrina3 acerca da ciência metafísica, não obstante ter sido frequentemente impugnada por uma crítica contumaz e injusta, retém integralmente toda sua força e esplendor, como o ouro, que por ácido algum pode ser dissolvido. Bem dizia o nosso Predecessor Pio X: Não se pode abandonar S. Tomás nas questões metafísicas, principalmente, sem grave detrimento4”.5

“… o Cardeal Gaetano não hesitou em escrever – e o texto é citado na Encíclica:6 “Santo Tomás, porque teve em suma reverência os Doutores Sagrados, herdou, em certo sentido, o pensamento de todos eles... As obras do Angélico, escreve ainda Leão XIII, contém a doutrina mais conforme ao Magistério da Igreja”.7


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1.  Pe. Croiset, “Ano Cristão – ou Devocionário para Todos os Dias do Ano”, Vol. III – 7 de Março, pp. 88-84. Traduzido do Francês, revisto e adaptado às últimas reformas litúrgicas pelo Pe. Matos Soares, Professor do Seminário do Porto, A. Campos – Livraria Católica, São Paulo, 1923.

2.  29/5/1923.

3.  De S. Tomás.

4.  Cfr. Santiago Ramirez, “Introduction a Tomás de Aquino”, Madrid, BAC, 1957.

5.  D. Odilão Moura, O.S.B., “Ideias Católicas no Brasil – Direção do Pensamento Católico do Brasil no Século XX”, Cap. III, pp. 92-93. Ed. Convívio, São Paulo, 1978.

6.  Leão XIII, Carta Encíclica “Aeterni Patris”, de 4/8/1879.

7.  S. Tomás de Aquino, Exposição Sobre o Credo, Apresentação, pp. 9-10. 4ª Edição, Tradução de D. Odilão Moura, O.S.B., Edições Loyola, São Paulo, 1997.


quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

REMINISCÊNCIAS.


“Ubi Petrus, Ibi Ecclesia”: “Esse aforismo se deve a Santo Ambrósio, Doutor da Igreja, Bispo de Milão e Mestre de Santo Agostinho. Insere-se no seguinte contexto: ‘Este é Pedro, a quem disse Cristo: Tu és Pedro e sobre essa pedra edificarei a Minha Igreja’. Portanto, onde estiver Pedro aí estará a Igreja. E onde está a Igreja não há morte’ (‘Ipse est Petrus cui dixit: Tu es Petrus et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam. Ubi ergo Petrus, ibi Ecclesia. Ubi Ecclesia, ibi nulla mors’, In. Ps. XL, n. 30, ML, XIV, ed. 1844 sqts., col. 1082)”.1

Predestinação e Graças suficientes: “Aquilo que se chama em teologia ‘graças suficientes’, oferecidas por Deus mas recusadas pelos que irão para o Inferno, são a mesma coisa que São Paulo chama os ‘gemidos inenarráveis do Espírito Santo’, com que Nosso Senhor persegue o pecador, até a hora de sua morte, com a Sua misericórdia”.2



Bi-milenário de Nossa Senhora: “Três canonistas franceses, entre os quais Jean Crété, lembraram às Autoridades do Vaticano, em 1979, que os cálculos conjecturais mais prováveis indicavam o período 1979-1980, como o que melhor compreenderia a comemoração do Bi-milenário do Nascimento de Nossa Senhora. Nenhum interesse despertou esta lembrança. Mais uma vez enviaram ao Vaticano em 1983 a lembrança do fato, já que o período 1983-1984 poderia também ser adotado para tal comemoração, tendo em vista a alegada diferença 4 ou 5 anos entre as datas reais dos fatos bíblicos e a referência que deles ficou. Desta vez tiveram uma resposta: Não é oportuna a comemoração.3



Os Papas e os Anjos da Guarda: “O grande Papa Pio XI falava com muita devoção no seu Anjo da Guarda e dizia que sempre se aconselhava com ele. Pio XII, numa famosa Alocução, lembrava que, com o favor de Deus, teremos uma eternidade de alegria na companhia dos Anjos: ‘Aprendei a conhecê-los desde agora’. O Papa João XXIII, com grande simplicidade entretinha familiar conversação com seu Anjo da Guarda”.4


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1.  Revista Permanência, Ano I, n. 2, Novembro de 1968, p. 31.

2.  Revista Permanência, n. 208-209, Março-Abril de 1986, p. 4.

3.  Revista Permanência, n. 176-177, Julho-Agosto de 1983, p. 9.

4.  Revista Permanência, n. 53, Março de 1973, p. 52.


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