Coração
de Jesus, Centro dos corações.
O
Coração de Jesus é todo caridade. Deus charitas est.
Também Ele quer que todos os cristãos se amem mutuamente: esta era
a recomendação em que mais insistia, antes de deixar este mundo:
Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei.
Pode-se
dizer que este é o grande Mandamento do Coração de Jesus. São
Jerônimo refere de São João Evangelista, que, quando seus
discípulos lhe perguntaram porque tantas vezes lhes recomendava o
amor fraterno, respondeu-lhes: Porque é o Preceito do
Senhor: se for cumprido em toda a sua extensão, basta para a
salvação.
Também nada fere tanto a Jesus Cristo como a violação deste
Preceito; aquele que falta na caridade, fere-O na pupila dos olhos,
mete-Lhe um espinho no
Coração.
Para
evitar esta desgraça, consideremos que amar o próximo é amar a
Jesus. Santa Catarina de Gênova dizia um dia ao Senhor: Meu
Deus, Vós me ordenais amar meu próximo e eu não posso amar senão
a Vós só. Mas nosso Salvador
lhe respondeu: Minha filha, aquele que Me tem amor, ama
tudo o que Eu amo. Com efeito,
quando se ama uma pessoa, amam-se também seus parentes, seus servos,
seus retratos e até suas vestes, porque estes objetos são amados
por ela. A razão então que deve nos levar a amar nosso próximo, é
que ele é amado do Coração de Jesus. Também o Apóstolo São João
declara mentiroso aquele que ousa dizer, que ama a Deus,
tendo ódio a seu irmão.
Por
outro lado, fazer bem ao próximo, é regozijar o Coração de Jesus;
porque Ele prometeu considerar como feito a Si o bem que
fazemos ao menor de seus irmãos,
isto é, a nosso próximo.
Santa Catarina de Gênova concluía daí que, para ver
quanto se ama a Deus, basta ver quanto se ama o próximo.
No
Coração de Jesus Cristo é que se reúnem os corações caridosos;
Ele é o centro dos corações.
Ó, quão bom é, quão agradável habitarem os irmãos juntamente,
diz o salmista. São Lucas faz um elogio perfeito dos primeiros
cristãos, dizendo que eles tinham um só coração e uma
só alma: Cor unum et anima una.
Num
corpo bem constituído, não pode haver senão um coração; ora, a
Igreja não é, conforme São
Paulo, o Corpo Místico e Espiritual de Jesus Cristo?
Os membros da Igreja devem, pois, ter um só coração em Jesus
Cristo. A santa caridade é o fruto da oração que o Salvador fez a
Seu Pai, na vigília de Sua morte, pedindo que Seus discípulos
fossem um, pela caridade, como Ele é Um com Seu Pai.
Este é um dos principais frutos da Redenção, predito por Isaías:
O lobo habitará em paz com o cordeiro, e o leopardo com a
cabra; um não fará mal ao outro;
isto é, que os discípulos de Jesus Cristo, apesar da diversidade
dos países, dos gênios, dos costumes, deviam viver em deliciosa paz
entre si, por meio da caridade divina que os animaria.
O
Apóstolo nos ensina em poucas palavras, como é necessário
conservar a caridade: Revesti-vos,
diz ele, como os eleitos de Deus, de entranhas de
misericórdia.
Como a gente traz sempre consigo o vestuário e cobre-se com ele,
assim em todos os nossos pensamentos, palavras e ações, devemos
trazer conosco a caridade, e ser inteiramente cobertos por ela.
Ó,
quanto é agradável ao Coração de Jesus a alma verdadeiramente
caridosa! Ao contrário, que espinho é para o Coração de Jesus a
alma que fere a caridade!
Prática
Examinar-me-ei
muitas vezes sobre a virtude da caridade; sondarei meus pensamentos,
para ver se não faço juízos temerários; meus sentimentos, para
ver se não tenho contra alguém antipatia voluntária; minhas
palavras, para ver se não resvalo em maledicências e injúrias;
minhas ações, para ver se presto a meu próximo os serviços que
posso, segundo meu estado, fortuna e talentos.
Afetos
e Súplicas
Ó
Coração de meu terno Redentor, quão longe estou de parecer
convosco! Vós fostes caridade para com vossos perseguidores, e eu
sou cheio de rancor e ódio para com meu próximo; Vós orastes com
tanto amor em favor daqueles que Vos crucificavam, e eu só penso em
vingar-me quando me causam algum desgosto. Perdoai-me, Coração de
meu Jesus; não quero ser mais o que fui no passado; dai-me a força
de amar a quem me ofende, e de fazer-lhe o bem. Não me abandoneis à
força de minhas paixões; fazei que nunca mais me separe de Vós.
Ai, que inferno seria para mim, se, após todas as graças que me
tendes feito, eu me visse de novo separado de Vós e privado de vossa
amizade. Não o permitais, ó meu amor, eu Vos suplico pelo Sangue
que derramastes do Coração de Jesus, livrai-me de cair fora de
vossa graça; se prevedes que ainda Vos hei de ofender, antes
fazei-me morrer agora que penso estar na vossa graça. Ó Deus de
amor, dai-me vosso amor. Ó poder infinito, socorrei-me. Ó
misericórdia infinita, compadecei-Vos de mim. Ó Bondade infinita,
atraí-me inteiramente a Vós. Eu Vos amo, ó amabilidade suprema. Ó
Maria, Mãe de Deus, rogai a Jesus por mim; o poder maternal que
tendes sobre seu Divino Coração, constitui minha esperança. Amém.
Oração
Jaculatória
Coração
de Jesus, dai-me o verdadeiro amor do próximo.
Exemplo
Aquele
que não tem zelo, não tem amor, diz Santo Agostinho. Para
prová-lo, necessário nos é ainda voltar ao capitão Marceau, de
quem já falamos. Apenas convertido, fez-se apóstolo. Começou por
levar para Deus sua mãe, que tinha a desgraça de viver na
incredulidade. “Ó minha mãe, escrevia-lhe ele, escutai-me,
escutai a vosso filho, outrora incrédulo… Tendes um coração tão
bom; é possível que ele não seja de Deus? Com a oração tudo se
alcança”. Sua mãe amava a leitura dos romances e folhetins de
certo jornal. O filho, ontem ainda ímpio, incrédulo, pouco comedido
em seu procedimento, dissuadiu-a de continuar essas leituras: “Não
tenhais a menor dúvida, boa mãe; estas leituras são más, excitam
as paixões”. A mãe não tardou a render-se. Esta conquista
tão cara não bastava ao capitão. Ele queria ser apóstolo de todos
aqueles com quem conversava. Pode-se dizer incalculável, o bem que
ele fez a seus amigos. Encontrando um dia certo oficial convertido na
mesma época que ele, perguntou-lhe se frequentava a Confissão.
“Sim, respondeu o oficial, nas grandes festas”.
– “Mas,
vosso diretor não vos fixa a época?”
– “Não,
confesso-me, absolvem-me, e nada mais”.
– “Mas,
meu caro, é necessário pedir a vosso Confessor, que vos determine a
época da volta. Na vida espiritual tudo deve ser regulado como num
navio”.
E
Marceau conduziu seu amigo a outro Padre. Este, descobrindo no
oficial uma alma de eleição, determinou-lhe que se confessasse de
quinze em quinze dias, depois de oito em oito dias, e pouco depois,
mais vezes por semana. Marceau sabia que o homem não pode nada por
si mesmo, e por isso, fez-se apóstolo principalmente da oração.
Neste fim, distribuía profusamente um opúsculo de Santo Afonso de
Ligório, intitulado: O Grande Meio da Oração.
Ele trazia sempre consigo muitos exemplares desta obra. Devorado do
zelo das almas, ele quis contribuir para a propagação da fé até
nos países longínquos. Não contente de oferecer, cada ano, para
isto, largas esmolas, chegou a oferecer sua pessoa mesma, para
transportar Missionários para a Oceania. O navio comprado para este
fim, foi denominado a Arca da Aliança,
em honra da Mãe de Deus. Na direção deste navio, Marceau
desenvolveu zelo inteiramente apostólico. Oração em comum,
cânticos, celebração do Santo Sacrifício, distribuição do pão
da palavra divina, conversações edificantes, tudo falava de Deus na
Arca da Aliança.
Marceau tinha até obtido o favor de possuir no navio a Santa
Eucaristia, ante a qual ele passava todos os dias longas horas de
adoração. Quando chegou o Mês de Junho, consagrado ao Coração de
Jesus, ele o fez celebrar por exercícios espirituais, e nesta
ocasião, puderam ver o cumprimento das Promessas feitas à
Bem-aventurada Margarida Maria. Houve belas conversões, edificantes
comunhões, e o comandante não cessava de dizer nos transportes de
sua alegria: “Bendito seja o Sagrado Coração de Jesus!”
No mesmo tempo, a fim de satisfazer a sede ardente que tem da
salvação das almas o Sagrado Coração de Jesus, ele fazia
sacrifícios e penitências para este passageiro ou aquele
marinheiro, que lhe parecia mais separado de Deus. Como ele tinha
especial devoção à Paixão de Jesus Cristo e às Dores de Maria,
viam-no frequentemente ocupado em fazer o caminho da Cruz
(Via-Sacra), para a conversão das almas. “Eu não faço
assim senão para Deus, dizia
ele, e para o bem das Missões”.
E com esta piedade, Marceau era sempre afável, sempre amável e
sempre amado. Um parisiense, que tinha vivido com ele quatro anos,
dizia: “Marceau é o que vi de mais belo na minha
vida”. Um Sacerdote,
arrebatado pelo fogo divino que animava esta alma, chamava-lhe o
missionário dos Missionários.
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Fonte: O
Sagrado Coração de Jesus, segundo Santo Afonso de Ligório, ou,
Meditações para o Mês do Sagrado Coração, a Hora Santa e a
Primeira Sexta-feira do Mês; coligidas
das Obras do Santo Doutor pelo Padre Saint-Omer, C.Ss.R., “A
Primeira Sexta-feira do Mês de Outubro”,
pp. 351-356.
5ª Edição Portuguesa, Tipografia de Frederico Pustet, Impressores
da Santa Sé. Ratisbona/Alemanha, 1926.