BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

A HORA SANTA DO MÊS DE MARÇO.

Origem da Hora Santa

Ao amantíssimo Coração de Jesus, cujas delícias são estar com os homens, é que devemos a origem do pio exercício chamado Hora Santa. Aparecendo um dia à Bem-aventurada Margarida Maria, o divino Salvador manifestou-lhe até que excesso Ele tinha amado os homens, e queixou-se amargamente de não receber deles senão a ingratidão, coisa que mais sinto que tudo o que sofri na minha Paixão, ajuntou Ele. Se os homens me retribuíssem com algum amor, em pouco tempo estimariam o que fiz por eles. Mas eles só têm frieza e repulsa a respeito de todos os meus anseios de lhes fazer o bem. Tu, ao menos, dá-me este prazer, de suprir a ingratidão deles quanto te for possível. Isto é o que te peço:

“Primeiramente, receber-me-ás no Santíssimo Sacramento todas as vezes que a obediência te permitir. Além disto, comungarás todas as Primeiras Sextas-feiras de cada mês. E todas as noites da Quinta para a Sexta-feira, far-te-ei participar da tristeza mortal que eu quis sentir no Jardim das Oliveiras; e esta participação de minha tristeza te reduzirá a uma espécie de agonia mais difícil de suportar do que a morte. Tu me acompanharás na humilde súplica que apresentei então a meu Pai em todas as minhas agonias; e para isto, levantar-te-ás entre as onze horas e meia-noite, e ficarás prostrada comigo durante uma hora com a face contra a terra, tanto para aplacar a ira divina, pedindo misericórdia pelos pecadores, como para honrar e suavizar de alguma modo a amargura que senti quando meus Apóstolos me abandonaram: é o que me constrangeu a lhes repreender o não terem podido velar uma hora comigo”.

A Bem-aventurada foi fiel a esta “Hora” de adoração, e o Coração de Jesus, que nunca se deixa vencer em generosidade, soube recompensá-la por inumeráveis favores.

Daí é que vem o costume, entre as almas fervorosas, de consagrar à oração uma hora da noite da Quinta-feira para a Sexta-feira, a fim de honrar as dores do Coração de Jesus no Jardim de Getsêmani.


Hora Santa de Março

Coração Aflito de Jesus, Vítima Universal.

Assim como todas as águas vão lançar-se no mar, assim todas as aflições se reuniram no Coração de Jesus. Ele as aceitou com o mais sublime devotamento, impelido por Seu amor para conosco, amor que chegou ao excesso e, perdoem-nos a expressão, à loucura: pois, não é uma loucura de amor da parte de Deus, ter querido se carregar de todas as iniquidades do mundo, a fim de sofrer o castigo delas?

Jesus Cristo sabia que todos os sacrifícios dos animais, oferecidos a Deus no passado, não tinham podido satisfazer pelos pecados dos homens, mas que era necessária uma Pessoa Divina para pagar o preço da Redenção: que fez? Ofereceu-Se à Seu Pai, para aplacar Sua ira e obter nosso perdão. Dois caminhos, então, apresentavam-se ante Ele, um, de prazer e glória, outro, de padecimentos e opróbrios; qual deles foi escolhido? Como Ele queria não só nos resgatar da morte, mas ainda conseguir o amor de nossos corações, renunciou ao prazer e à glória, e escolheu os padecimentos e opróbrios.[1] Assim é que este amável Senhor, sem ser obrigado, tomou sobre Si todas as nossas dívidas, como claramente se exprime o Profeta Isaías: Vere languores nostros ipse tulit - Verdadeiramente Ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas.[2]

Eis que, então, o Coração de Jesus, a Inocência, a Pureza, a Santidade mesma, é carregado de todas as blasfêmias, de todas as torpezas, de todos os sacrilégios, de todos os roubos, de todas as impurezas e de todos os crimes dos homens; ei-Lo tornado, por nosso amor, objeto das maldições divinas, por causa de nossos pecados pelos quais Se obrigou a satisfazer à eterna Justiça; ei-Lo carregado de tantas maldições quantos pecados mortais foram, são e serão cometidos sobre a Terra. Neste estado é que Ele se apresenta a Seu Pai, como culpado e responsável por todos os nossos crimes, e Deus, Seu Pai, O condena por isso a padecer morte infame da cruz. Então, foi que nosso Salvador se prostrou com a Face por terra,[3] como se tivesse vergonha de levantar os olhos para o Céu, vendo-se carregado de tantas iniquidades. Então, foi que Ele experimentou aquela imensa angústia que lhe fez dizer: Minha Alma está triste até a morte.[4] Ó Pai eterno, como podeis ver Vosso Filho amadíssimo em tão grande aflição? Bem sei, diz o Padre eterno, que Meu Filho é inocente, mas, pois que Ele se encarregou de satisfazer à Minha Justiça por todos os pecados dos homens, convém que Eu O abandone a todas às aflições que esses pecados merecem: Eu O feri por causa da iniquidade de Meu Povo.[5]

Ó caridade incomparável do Coração de Jesus! Ele, nosso Deus, fez-Se nosso Fiador, obrigando-Se a pagar nossas dividas, segundo a bela expressão do Apóstolo;[6] e, depois de ter satisfeito por nós, prometeu-Nos da parte de Deus a Vida Eterna. Também o Eclesiástico nos recomendou, há muitos séculos, nunca nos esquecermos do benefício que devemos a Este Celeste Fiador,[7] que quis padecer tanto para nos obter a salvação.

Ó caridade infinita do Coração de Jesus! Os médicos fazem todos os esforços para curarem o enfermo por quem se interessam. Mas, qual é o médico que toma sobre si a enfermidade de outrem, para o curar? Jesus Cristo é o único Médico que tomou sobre Si nossas enfermidades para as curar. O Verbo Divino não quis enviar outrem para fazer este misericordioso ofício; Ele mesmo se dignou vir, para ganhar todo nosso amor.

Ó caridade verdadeiramente divina do Coração de Jesus! Ele não se contentou de oferecer à Justiça Divina uma satisfação suficiente, quis que ela fosse superabundante; digo superabundante, porque, para nos resgatar, uma simples súplica do Homem Deus bastava; mas, o que era suficiente, não satisfazia o Coração mais amante que tem havido e pode haver.

Ó caridade verdadeiramente inefável e inaudita do Coração de Jesus, Vós nos obrigais a pormos em Vós confiança sem limites, pois nada pode nos perturbar tanto, quanto Vós nos podeis sossegar. Cerquem-me os pecados que tenho cometido, apertem-me os temores do futuro, armem laços contra mim os Demônios; se peço misericórdia a Jesus Cristo que me consagrou Seu Amor até morrer por mim, não posso perder a confiança. Como, com efeito, poderia me abandonar o Deus, que por amor de mim se entregou à morte? Ò Coração de Jesus, Vós sois o Porto Seguro daqueles que, na tempestade, recorrem a Vós! Ó Pastor vigilante, é errar, não esperar em Vós, uma vez que se tenha vontade séria de se corrigir. Vós dissestes: “Sou Eu, não temais, Sou Eu que aflijo e consolo. Eu envio algumas vezes a Meus servos tribulações que se assemelham com o Inferno; mas, não tardo em os livrar delas e consolá-los.

Eu Sou vosso Advogado: vossa causa é Minha. Eu Sou vossa caução: vim pagar vossas dividas. Sou vosso Salvador: resgatei-Vos com o Meu Sangue, não para vos abandonar, mas para vos enriquecer, tendo vós Me custado tão alto preço.

Como fugirei de quem Me busca, Eu que saí ao encontro daqueles que queriam me ultrajar? Eu não voltei Meu rosto daqueles que Me feriam; voltá-lo-ei daquele que quer Me adorar? Como Meus filhos podem duvidar que os amo, vendo-Me entre as mãos de Meus inimigos por seu amor? Já Me viram desprezar aquele que Me deu seu amor, ou aquele que implorava Meu socorro? Eu chego ao ponto de ir à procura de quem não Me busca”.


Prática

Minha confiança no Coração de Jesus será sem limites, pois o amor que Ele me tem, é sem limites. Venham perseguições, securas, escrúpulos, tentações, temores de perder-me, direi sempre com o Salmista: Ponho, Senhor, minha alma entre vossas Mãos; confio plenamente em Vós, porque me resgatastes.[8]


Afetos e Súplicas

Meus Jesus, se Deus Vos carregou de todos os pecados dos homens,[9] com que peso não aumentei pelos meus a Cruz que levastes até ao Calvário? Ah! Meu terno Salvador, Vós víeis já, então, as injúrias que eu vos havia de fazer: apesar disto, não deixastes de amar-me e preparar-me estas grandes misericórdias, de que me cumulastes depois. Se, então, vos tenho sido tão caro, eu, o mais vil e ingrato dos pecadores, que tanto Vos ofendi, justo é que, a vosso turno, Vós me sejais caro, ó meu Deus, Bondade e Beleza infinitas. Ah! Oxalá nunca Vos houvesse contristado! Agora, meu Jesus, vejo toda a indignidade de meu procedimento. Malditos pecados, enchestes de amargura o Coração tão terno e amante do meu Redentor! Perdoai-Me, meu Jesus, arrependo-me de Vos ter ofendido: no futuro sereis o único objeto de meu amor. Ó Amabilidade infinita, eu Vos amo de todo o meu coração, resolvido a não amar mais senão a Vós. Senhor, com Santo Inácio Vos digo: Dai-Me vossa Graça e vosso Amor, e satisfeito fico. Amém.

Oração Jaculatória

Cordeiro sem mancha, tantos padecimentos que sofrestes por mim, não fiquem perdidos!


Exemplo

Joaquim Gaudiello, irmão leigo da Congregação do Santíssimo Redentor, foi toda a sua vida ardente amigo da cruz, o que o tornou singularmente caro ao Coração generoso de Jesus.

Quando ele se resolveu a ser religioso, perguntaram-lhe porque queria abraçar condição tão humilde: “É porque, respondeu ele, quero com o desprezo do mundo seguir a Jesus Cristo vilipendiado e desprezado”. Joaquim não cessou de fazer a seu corpo guerra cruel, sujeitando-o à mortificação e ao trabalho, e, o que é digno dos maiores elogios, soube unir os trabalhos manuais com o mais alto espírito de oração. Recorria a Deus em todas as suas necessidades, “porque Ele é meu Pai, dizia, a Ele recorro como filho Seu”. Jesus no Santíssimo Sacramento tinha absorvido seu coração; ele vivia tão ávido da Santa Comunhão, que lhe permitiram fazê-la todos os dias. Em seus momentos de lazer, recolhia-se à igreja para derramar seu coração no Coração do amável Jesus. Como Jesus era toda a sua glória, Joaquim não tinha em conta alguma as vaidades do mundo, e punha toda a sua felicidade nas humilhações e nos desprezos. “Que é o mundo, costumava dizer, ainda às mais altas personagens, que é o mundo senão uma sombra, um fumo, mas, fumo do Inferno?” Apenas na idade de 22 anos, enfermou-se, e dessa doença morreu. Interrogado como passava no leito de dores: “contemplo no meu espelho”, respondeu mostrando o crucifixo. Seu amor dos padecimentos e sua conformidade com a vontade de Deus eram verdadeiramente admiráveis. A um padre que lhe perguntou certo dia, quando ele queria ir para o Céu, respondeu todo alegre: “Quero ir, quando meu Jesus o quiser”. Seu amor ao Santíssimo Sacramento era tão terno, que parecia transformá-lo em serafim, quando diante do tabernáculo. Um dia num transporte de amor, ele disse ao padre Mazzini: “Tomai um cutelo, abri meu peito, tirai meu coração e colocai-o no tabernáculo junto do Santíssimo Sacramento”. Sua tristeza era não poder morrer crucificado como Jesus Cristo. Dizia-se-lhe, para o consolar, que seu leito era uma cruz: “Não, respondia gemendo, não é cruz para mim, porque sou fortificado por Jesus crucificado e consolado nas amarguras”. Puseram diante dele uma pequena estátua de Jesus atado à coluna; apenas a viu, desfez-se em lágrimas, e disse suspirando: “Ai! Não poder eu tornar-me semelhante a Vós, ó meu Jesus flagelado por mim! Enviai-me padecimentos e chagas, ó meu Salvador!” Sentindo que a morte se aproximava, ele testemunhou desejo de receber a Extrema Unção, dizendo: “É a última consolação que Jesus Cristo nos deixou na Sua bondade”. Depois de ter recebido a Santa Comunhão, ficou arrebatado fora de si; sua figura assumiu ar angélico, e todo o dia ele ficou neste estado sobrenatural. Pela tarde, perguntaram-lhe como estava: “Eu sinto, disse, Jesus no meu coração”. Na véspera de sua morte, exclamava em celeste transporte: “Paraíso! Paraíso!” Sendo o primeiro redentorista que morria, ele dizia a seus irmãos, por último adeus, estas luminosas palavras: “Eu sou o porta-estandarte!” Sua agonia foi um ato ininterrupto de amor, e ele expirou pronunciando os Santos Nomes de Jesus e Maria, em 1741. O Senhor se dignou manifestar, por diversos prodígios, a santidade de Seu servo. Santo Afonso lhe chamava “moço dotado de todas as virtudes”.

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Fonte: “O Sagrado Coração de Jesus, segundo Santo Afonso de Ligório...”, pelo Pe. Saint-Omer, CSsR, Cap. “Hora Santa de Março”, pp. 218-225; 5ª Edição, Tipografia de Frederico Pustet, Ratisbona, 1926.

*Tradução Portuguesa feita da 83ª Edição, pelo Exmo. Revmo. Sr. D. Joaquim Silvério de Souza, Arcebispo de Diamantina.

[1]  Hebr. 12, 2.

[2]   Is. 53, 4.

[3]  S. Mat. 26, 39.

[4]  S. Mat. 26, 37-38.

[5]  Is. 53, 8.

[6]  Heb. 7, 22.

[7]  Eclo. 29, 20.

[8]  Salm. 30, 6.

[9]  Is. 53, 6.


domingo, 25 de fevereiro de 2024

JESUS TRANSFIGURATUR.

 

“Naquele tempo, tomou Jesus consigo a Pedro, a Tiago e a João, seu irmão, e levou-os de parte a um monte muito alto, e transfigurou-se diante deles. E seu rosto ficou resplandecente como o sol, e seus vestidos alvos como a neve. E eis que lhe apareceram Moisés e Elias, os quais falavam com Ele. E falando Pedro, disse a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui; se te apraz, façamos aqui três tendas, uma para ti, outra para Moisés, outra para Elias. Ainda não tinha acabado de falar, e eis que uma nuvem resplandecente lhe faz sombra. E eis que da nuvem saiu uma voz que dizia: este é meu Filho muito amado, no qual tenho todas as minhas complacências; ouvi-O. E ao ouvirem isto, os discípulos, caíram de bruços e temeram muito. Mas chegou-se, e tocou-os e lhes disse: levantai-vos e não temais. E erguendo os olhos, não viram a ninguém senão a Jesus. E descendo do monte, impôs-lhe Jesus preceito, dizendo: não digais a ninguém o que vistes, até que o Filho do homem ressuscite dentre os mortos”.1


O Evangelho da Missa deste dia é do cap. 17, 1-9, de São Mateus, e contém a história da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre o Monte Tabor.

Havia pouco tempo que, instruindo o Salvador os Seus discípulos acerca das verdades da religião, lhes tinha feito uma pintura bastante viva das humilhações e trabalhos, que havia de sofrer. Estas imagens tristes eram de molde a aterrar homens ainda materiais e imperfeitos. Sem dúvida, para sustentar sua fé ainda fraca, para despertar seu alento ainda tímido, lhes disse o Salvador, que alguns dos que se achavam ali não morreriam sem terem visto o Filho do homem em Sua glória. De fato, passados seis dias, escolheu Jesus três dos Seus Apóstolos, Pedro, Tiago e João e os levou consigo para o cimo de um Monte alto, que se crê ser o Tabor.

Como não queria que este Mistério fosse conhecido e tornado público antes da Ressurreição, não levou consigo senão um pequeno número de pessoas. Tomou três de Seus discípulos; este é o número mais completo de testemunhas que exigia a Lei para que não fosse suspeito. Escolheu para testemunhas de Sua glória aqueles que bem depressa O haviam de ser de Sua agonia, para nos ensinar que se queremos ter parte em Sua glória, devemos também tê-la em Seus trabalhos e humilhações. Tendo chegado ao alto do Monte, retirou-se um pouco só, e pôs-se em oração.

Então transfigurou-se, isto é, deixou-se ver em todo o resplendor de Sua glória, não já como puro e simples homem, mas como Homem-Deus. O resplendor de Sua Divindade, e a glória de Sua Alma Bem-aventurada apareceram visivelmente em Seu Corpo por alguns raios daquela luz admirável, que até então havia contido estancada em Sua origem. Seu rosto apareceu luminoso e resplandecente como o sol, Seus vestidos alvos como a neve; não se converteram essencialmente, nem se transformaram, diz São Jerônimo, só receberam um brilho resplandecente daquela luz viva que irradiava de todo o Seu Corpo.

Pode dizer-se em certo sentido que a vida comum do nosso Salvador e Sua humildade exterior, eram propriamente uma transfiguração, pois que aparecia em um estado alheio à Sua natureza, ao passo que a glória de Sua transfiguração era em estado natural; e era preciso um milagre contínuo para obstar a que Sua glória e Majestade não irradiassem, e se mostrassem em Seu rosto, e bastava só suspender o milagre para se mostrar tal como apareceu então.

Seu Corpo estava como uma nuvem em redor do sol.

Naturalmente devia estar todo brilhante pela luz que encerrava, e que encobria. Nesta atitude de Majestade não quis Jesus aparecer só; Moisés e Elias apareceram a Seu lado falando com Ele. Quis Jesus Cristo que o Legislador em pessoa e um dos mais ilustres Profetas dessem aos Apóstolos, testemunho de que era Ele a quem convinha tudo quanto a Lei e os Profetas tinham figurado ou predito do Messias. Eis aqui um sinal do Céu, diz Jesus Cristo, o qual os fariseus lho haviam pedido dias antes, mas de que não mereciam ser testemunhas. Elias, dizem os Padres, estava ainda vivo, e apareceu em corpo natural; Moisés, ressuscitou para esta cerimônia, e depois tornou a dormir no Senhor. O assunto da conversação de Jesus com Moisés e Elias, dizem os Padres, versou sobre os suplícios e a morte que o Salvador havia de sofrer em Jerusalém; os Apóstolos foram salteados de um doce espanto, causado pela admiração e gozo que lhes inspirava a vista deste prodígio.

Então São Pedro todo arroubado de amor, e abandonando-se ao gozo de que estava possuído, em uma espécie de êxtase, exclamou: Ah! Senhor, que bom é isto! Quereis que fixemos aqui nossa morada? Em parte alguma poderemos estar melhor; permiti que não saiamos daqui, levantaremos três tabernáculos, ou tendas, uma para Vós, outra para Moisés, outra para Elias. São Pedro não consultara na presente conjuntura senão seu bom coração, e deixa-se arrebatar de sua vivacidade ordinária e do ardor de sua devoção. Ainda não havia acabado de falar, quando uma nuvem resplandecente os envolveu; e ao mesmo tempo saiu do meio da nuvem uma voz que dizia: “Este é o meu Filho muito amado, em quem tenho as minhas complacências; ouviu-O como a vosso Mestre, e obedecei-Lhe como a vosso Rei”.

Esta voz não se ouviu senão depois de terem desaparecido Moisés e Elias, para que estando só Jesus Cristo, dizem São Jerônimo e São João Crisóstomo, não se pudesse duvidar de que se dirigia a eles.

O resplendor desta nuvem e o som desta voz, fizeram tal impressão nos Apóstolos, que cheios de terror caíram com o rosto em terra; e no mesmo instante toda esta glória desapareceu. Aproximando-se então Jesus Cristo, disse-lhes: “Levantai-vos, não tenhais medo”. Começaram então a erguer os olhos, e vendo-se sós, tranquilizaram-se. Queriam ir contar aos outros Apóstolos o que acabava de acontecer; porém, Jesus ao descer do Monte, pôs-lhes ordem de que nada dissessem até a Sua Ressurreição.



Meditações sobre a Transfiguração do Senhor


Não podemos ser felizes nem mesmo nesta vida, 

senão estando com Jesus Cristo.


1. Considera que se procura de há muito tempo o ser feliz sobre a terra, porque a felicidade, mesmo a desta vida, não é fruto da terra que habitamos. Desde a maldição que sobre ela atraiu o pecado do primeiro homem, não produz senão abrolhos e espinhos. A amargura está espalhada em todos os seus frutos. De fato, o mundo, ainda que magnífico em suas promessas, não tem podido fazer até aqui mais do que desgraçados. Os mais aconchegados, os que têm tirado maior quinhão dos bens desta vida, são aqueles que conhecem melhor o vácuo dos bens criados.

Salomão, o mais opulento e feliz, o mais poderoso de todos os príncipes, confessa ingenuamente a sua indigência. No meio da abundância, e da mais florescente e continuada prosperidade, não pode deixar de confessar que tudo é ilusão e vaidade. Para se ser feliz é preciso que a razão esteja tranquila, que tudo esteja em calma; e esta paz do coração não pode ser presente do mundo; no meio dos bens, das honras e dos prazeres é onde se goza menos quietação; só Jesus Cristo é o que pode imperar às ondas e aos ventos. As paixões são o tirano do coração do homem, as prosperidades tornam-nas altivas, fortificam-se como a idade, e nunca são tão violentas como quando a idade não as debilita, e as nossas forças têm decaído. A abundância de bens criados é uma fonte perene de cuidados e de inquietações; a multiplicidade dos prazeres é uma necessidade sempre progressiva de desgostos e de pesadelos; não há nenhum, seja qual for, que não esteja cheio de amargura. As honras lisonjeiam, mas só deslumbram aqueles que as veem nos outros.

Que nuvens, que tempestades, até sobre o trono! Em uma palavra, as cruzes nascem por toda a parte; não há estado, nem condição no mundo, nem particular, nem família, que estejam isentas delas; talvez que até sejam mais abundantes, onde há mais comodidades. Se as queremos arrancar, picamo-nos logo em seus espinhos, e como tudo está semeado deles, se se arrancarem, veem-se logo nascer outros muitos. Queremos ser felizes? É necessário afastarmo-nos do tumulto; não é bastante ainda; é necessário subtrair-nos para o alto da montanha; e como por toda a parte nos levamos a nós, e conosco levamos por toda a parte a fonte e a causa de todas as nossas penas, isto é, a nossa índole, o nosso humor, as nossas paixões, as nossas disposições, o nosso amor-próprio, se Jesus cristo não está conosco para apaziguar os ventos, para abonançar as ondas, para produzir a calma, em toda a parte somos desgraçados.



2. Considera que só onde se acha Jesus, reina a calma, a paz e a abundância. Se se está na barra agitada pelos ventos e pelas vagas, nada há que temer; a calma produz-se desde o momento em que Ele aparece, Se se acha em um deserto estéril, acompanhado de multidão imensa de povos, sem outra provisão além de cinco pães, não tem mais do que abençoá-los, e logo os multiplica até sobrarem muitos cestos, depois de satisfeita a multidão. Se os discípulos se veem opressos de temor e de perplexidades, não é preciso mais do que aparecer-lhes e anunciar-lhes a paz, logo ficam tranquilos.

Enfim, se sobe ao cimo de uma alta montanha, ainda que fale só de Sua Paixão, e das humilhações de Sua morte, ainda que os Apóstolos estejam cheios de tristeza e de pesar, basta-lhe fazer aparecer um débil raio de Sua glória, para transformar aquele lugar escarpado, solitário e espantoso, num paraíso na terra, e para cumular todos os que estão com Ele de tantas doçuras que exclamam: que já não há que pensar em buscar a felicidade em outra parte, e que se teriam por ditosos em permanecerem ali eternamente, contanto que Jesus permanecesse também. Por mais que se amontoem tesouros sobre tesouros, se reúnam todos os prazeres, e se multipliquem as honras todas do mundo, todos estes encantos são exteriores; o coração não fica menos sujeito a suas mágoas, nem menos entregue a inquietações mortais; quando muito é uma vítima coberta de flores na véspera de ser imolada. Só o pensamento da morte basta para perturbar todas as festas, embeber de cruel amargura todos os prazeres. Só pertence ao serviço de Deus o fazer que desapareçam todas estas névoas; só o amor que se tem a Jesus e o amor que Jesus nos tem é que produzem as doçuras de uma paz que o homem carnal não pode compreender.

Esta doce paz que a alma frui, é um gosto antecipado das alegrias do Céu; compara a doçura inalterável, e a modéstia das boas almas com o humor sempre arrebatado, enfastiado e sombrio dos mais felizes do século. Derramam-se lágrimas aos pés de um crucifixo; mas que alegria, que doçura encerram estas lágrimas! Derramam-se no mundo, são inesgotáveis as fontes, donde correm para os mundanos; que amargura, que angústia, inseparável de todos esses prantos, tanto mais amargos quanto mais secretos! Busquem, estudem, amofinem-se os homens por achar uma sombra só que seja de felicidade sobre a terra, não poderão dizer: eu sou feliz, senão enquanto estiverem com Jesus Cristo. Tornai-me, Senhor, sensível esta verdade por minha experiência. Eu vejo todo o meu bem, ó meu Deus, em unir-me a Vós.



3. Considera que o primeiro desígnio do Salvador, mostrando-se a Seus discípulos em Sua glória, e irradiando resplendores de luz, foi o mostrar-lhes um raio daquela glória, que ocultava no véu de Seu Corpo mortal, e do que destina em Seu reino para aqueles que O servem fielmente. Queria também animá-los a levar a Cruz, e ensinar-lhes que Deus algumas vezes, ainda que de passagem, faz gostar aos Santos as doçuras celestiais, pelas delícias do espírito, verificando-se o que Ele mesmo disse: que Seu jugo é suave, e Sua carga leve. Depois disto teremos dificuldade em nos consagrarmos ao serviço de um Senhor tão liberal, sabendo que um dia havemos de gozar d’Ele em Sua glória, e talvez nos dê desde já algum gosto antecipado da felicidade que nos espera no Céu?

Consideremos o modo, por que o Salvador se transfigurou. Foi permitido que a glória de Sua Alma, que havia sempre tido oculta, brilhasse e se difundisse por todo o Corpo. Mal assombra, logo resplandeceu como o sol. O Evangelista teria dito mais resplandecente do que o sol, se houvesse no mundo coisa, a que pudesse compará-lo. Mas demos mil ações de graças a este divino Salvador, por ter até aqui privado por nosso amor Seu Corpo da glória que lhe era devida; hoje faz-lhe justiça, deixando-lhe gozar de Seu direito, posto ser por muito pouco tempo, a fim de contemplar a obra da nossa salvação.

Podia Jesus Cristo testemunhar-nos mais evidentemente o Seu amor, do que no-lo mostra, privando Seu Sagrado Corpo de uma glória tão justa, tão grande, tão legítima, e isto só no desígnio de o sacrificar por nós na Cruz? Ó meu divino Salvador! Que não possa eu, por amor de Vós, renunciar a todas as alegrias do mundo! Quão vantajosamente recompensado seria um dia na estância dos Bem-aventurados!

Moisés e Elias apareceram ladeando o Salvador, como para dar testemunho de que n’Ele se tinham cumprido a Lei e as profecias. A Paixão, e a Morte do Redentor foram o assunto da conversação, como a grande obra e o fim de todas as maravilhas que Deus havia de obrar a favor do Seu povo. Bom Deus! Quantos prodígios reunidos num! Quantos Mistérios em um só!



4. Considera qual deve ser a glória e a felicidade dos Santos no Céu, quando alguns raios da de Jesus cristo, tornada sensível só por alguns instantes, cumulam os que são testemunhas dela, de uma alegria tão pura, tão completa, tão inefável. Os três Apóstolos ficam absortos. Bem estamos aqui, exclama São Pedro em nome de todos. Que haverá mais doce em outra parte, comparável com o que nos causa o brilho de vossa glória?

Por mais súbito que fosse o seu arroubamento, a sua admiração e alegria, nem por isso era menos racional, nem menos justo.

Pode alguém estar com Jesus Cristo, ser discípulo Seu sem ser por Ele amado? E pode alguém ser amado de Jesus Cristo, sem experimentar um contentamento e uma alegria sensível? Mas São Pedro pensa bem o que diz, prevê os inconvenientes e os contras do que propõe? Quem os porá a coberto das intempéries das estações sobre aqueles penhascos? Quem os alimentará sobre aquela espantosa solidão? Mas que há que temer, quando se está com Jesus Cristo? Que bem pode faltar-nos quando se possui o Autor de todos eles? Com Ele está-se perfeitamente feliz sobre o Monte, nas planícies, como no deserto; sem Ele é-se sobremaneira desgraçado, ainda quando se estivesse nos palácios dos grandes, e sobre o trono.

Mas não se fala mais que de cruzes em Sua companhia, não se ambiciona outra coisa senão humilhações, não se alimenta mais do que de adversidades; em Sua companhia devemos mortificar-nos, fugir do mundo, ter horror às Suas máximas; mas isso mesmo prova que é ali, onde se é solidamente feliz. Porque em estado tão constrangido, no meio de tudo o que é contrário aos sentidos, de tudo o que incomoda tanto a natureza, quem pode causar uma alegria tão inalterável, doçuras tão suaves, contentamento tão pleno? É preciso que a alegria seja muito sólida, que a dita seja muito real quando é tão sensível e permanente no retiro. Acha-se porventura uma tranquilidade semelhante no mundo? A felicidade é um fruto estranho, desconhecido às pessoas do mundo, dizemos nós mesmos. Só no serviço de Deus e na companhia de Jesus Cristo é que ela nasce e se frui a largos sorvos.

Concedei-me, Senhor, por vossa graça, que eu faça constantemente a doce experiência disto; eu quero estar inseparavelmente convosco em todo o tempo da minha vida; compreendo pelo Mistério da vossa gloriosa Transfiguração, que é preciso estar longe do tumulto, amar a mortificação, viver no recolhimento e no retiro, para ter parte em vossa glória e, é este o partido que tomo desde agora.

Oremos: Ó Deus, que nos vedes destituídos de toda a virtude, guardai-nos interior e exteriormente e, defendendo o nosso corpo de toda a adversidade, purificai a nossa alma dos maus pensamentos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo… Amém.


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Fonte: Pe. Croiset, “Ano Cristão”, Vol. XIII, pp. 232-244, 236-238, 244-245, Segundo Domingo da Quaresma; Tradução do Francês pelo Pe. Matos Soares, Porto, 1923.

1.  Mat. 17, 1-9.

sábado, 24 de fevereiro de 2024

AS BOAS OBRAS E O INFERNO, NUM ESPANTOSO CASO.

 

HISTÓRIA MEMORÁVEL E ANTIGA,

DA QUAL, ENTRE OUTRAS

VERDADES CATÓLICAS,

SE PROVA, CONTRA OS SECTÁRIOS,

A NECESSIDADE DAS BOAS OBRAS

PARA A SALVAÇÃO ETERNA.


Na cidade de Cartago na África, nos tempos de Nicetas, patrício,1 houve um soldado pretoriano, oficial de certo magistrado maior, o qual estragara muito com pecados, sua primeira idade e depois, por ocasião de uma pestilência geral, compungido e temeroso com a mortandade de tantos tão repentinamente, se retirou, com sua mulher, a uma pequena propriedade rural no interior. Porém, nem aqui o deixou o Demônio prosseguir quietamente seus exercícios de devoção e penitência, antes o fez cair em adultério com a mulher de um rústico seu vizinho. Não muito tempo depois, adoeceu e morreu de males, porque os males da pena se proporcionam com os males da culpa: Per quae peccat quis, per haec et torquetur.

Havia, em distância de uma milha, um Mosteiro, cujos religiosos, rogados pela mulher do soldado, o acompanharam e enterraram na sua igreja à hora de Terça. Mas, estando depois rezando Noa, ouviram uma lastimosa voz, que parecia sair daquela mesma sepultura e dizia: Misericórdia, tende de mim misericórdia. Certificados, mais que daquela parte procedia aquele gemido, acodem logo a retirar a laje da sepultura; acham vivo o soldado. Uns o levantam da cova, outros lhes desamarram, outros lhe perguntam o que lhe aconteceu, e todos admirados, estavam pendentes da boca do redivivo, esperando novas do outro mundo. Mas ele, podendo mal formar algumas palavras, entre muitos gemidos, rogou que o levassem à presença de Talássio, varão santo que florescia então naquelas partes. Levado ali, com efeito, informaram a Talássio2 do que se tinha passado, o qual por três dias continuou em dar-lhe as consolações e doutrinas em tal caso, oportunas, e no quarto dia o veio a reduzir a que contasse o que lhe acontecera. Cuja relação, acompanhada com pranto e interrompida com suspiros, foi a seguinte:



Irmãos caríssimos: – Quando eu estava em passamento e já quase arrancando, vi diante de mim3 uns feros negros agigantados, cuja vista me era mais odiosa e insofrível, que qualquer outro tormento, e a alma, conturbada e medrosa, se encolhia todo o possível dentro de si mesma. Daí a pouco, vi dois mancebos formosíssimos, e logo a minha alma saltou fora do corpo e se lhes pôs nas mãos e comecei a voar em sua companhia por essas regiões aéreas. Onde encontramos várias tropas como de delatores e cobradores, que cercavam os caminhos e detinham os passageiros. E havia também muitas como alfândegas ou mesas, cada uma com seu almoxarife, com livro de razão e pediam conta, uns deste vício, outros daquele, cada qual do que lhe tocava, e sem pagarem não os deixavam passar adiante. Ninguém pode explicar a severidade, aperto e miudeza com que faziam o seu ofício.

Cada vez que eu empatava em algumas destas alfândegas, via que os meus dois companheiros, metendo a mão em umas bolsas em que levavam todas as minhas Obras Boas, que tinha feito, tiravam com que pagar aos cobradores, que pesavam tal por tal, palavra proveitosa por palavra ociosa, verdade por mentira, aplicação na reza por distração e, enfim, virtude por vício, com exigência e sumo rigor; e feito isto, passávamos livres adiante. Até que chegamos à alfândega da luxúria, que estava muito acima, e já as minhas bolsas iam vazias. Ali me agarraram os delatores e me representaram vivissimamente na memória, quanto neste vício tinha delinquido, que era muito e mui feio, porque da idade de 12 anos comecei a depravar-me. Oh! Anos de minha perdição e miséria! Estava eu desconsoladíssmo e desanimado por ver tanta fealdade, de que não podia negar ser o autor. A isto acudiram meus companheiros, dizendo que tudo o que pertencia a este ponto estava perdoado de graça, quando deixara a cidade e me retirava a melhor vida. Porém, da contrária parte, replicaram que, ainda depois da retirada, cometera adultério duplicado, de casado com casada. Neste passo, os meus companheiros, não achando nas bolsas virtude que pôr contra tão grave pecado,4 deixaram-me ali, como penhor ou represália, e se ausentaram.

E logo aqueles Demônios, arrebatando-me furiosamente, me açoitaram e derrubaram em terra, para a qual, abrindo-se, fui levado por umas cavernas medonhas, por umas encruzilhadas subterrâneas escuríssimas e apertadíssimas, até chegarmos ao reino da morte eterna, onde com os miseráveis condenados moram a tristeza imortal, a dor inconsolável, o pranto, o rugir dos leões famintos e, finalmente, a total ausência de Deus, irado e irreconciliável. Dizer o que ali se passa, sem que jamais possa passar, por toda a eternidade, não cabe na língua humana; e por isso, eu antes, quereria calar-me. Choram os réprobos lágrimas que queimam e ninguém se condói. Ouve-se o bater de dentes e não há esperança de remédio. Puxam do íntimo do espírito uns gemidos mui tristes e prolongados e não aparece o rosto da misericórdia, porque tudo ali é

confusa multidão de ais e clamores,

de atormentados e atormentadores.

Aqui fui arremessado como infame remador de galés, condenado, segundo o que me parecia, ao mesmo remo da miséria última e interminável; aqui a estive chorando até que, à hora que depois conheci ser de Noa, vi outra vez os dois Anjos, a quem comecei a rogar com quanta instância pude, que me tirassem daquele calabouço, para fazer penitência com que aplacasse a Deus e satisfizesse por meus pecados. “Em vão rogas, me responderam os Anjos, porque nenhum dos que aqui estão sairá senão no dia da Ressurreição Universal”.5 Porém, perseverando eu, todavia, em pedir tempo de penitência e prometendo de a fazer cumpridamente, disse um dos Anjos para o outro: Ficas por fiador deste, que fará penitência, se tornar ao mundo? Fico (respondeu ele), e vi que lhe deu a mão, a qual o outro aceitou. E logo ambos me tiraram fora e trouxeram a terra e me meteram dentro da sepultura junto ao meu cadáver, dizendo: “Entra donde há pouco te afastaste por divórcio”. E a minha alma via a sua natureza própria à semelhança de um cristal transparente ou de um diamante bem lavrado, e a do seu corpo, onde havia de entrar, por modo de um montinho de lodo escuro e sumamente asqueroso, e se lhe fez mui duro e molesto o mandamento de entrar ali e tornar a ser moradora de tão triste, imunda e estreita casa. O que vendo os Anjos, lhe disseram: “No corpo pecaste, no corpo é preciso que faças penitência”. Minha alma lhes requeria que a deixassem ficar fora; porém, eles responderam: “Desengana-te que, ou hás de entrar aqui ou tornar para onde te trouxemos”. Entrou então, quase violentada. E comecei a clamar desde a sepultura Misericórdia, que foi a voz que ouvistes.

Acabando o soldado de referir a história,6 o venerando e piedoso Talássio, lhe rogava que comece para sustentar a vida que Deus, por especial providência, quisera conceder-lhe; porém, não o pode convencer a isso, dizendo que a vida, lhe era dada toda para penitência. Dali por diante andava de igreja em igreja, de peito e rosto por terra, e de quando em quando, levantando a voz, lançava este horrendo pregão: Ai dos pecadores, que não fazem penitência! Oh, que tormentos os esperam! Ai dos pecadores, que mancharam seus corpos com deleites torpes! Oh, que Inferno os espera! Deste modo perseverou quarenta dias contínuos, com notável fruto dos que o ouviam e sabiam do que tinha acontecido, que não deviam ser tão duros de coração como aqueles de quem o Patriarca Abraão disse ao rico avarento, quando lhe demandava um pregador saído do outro mundo para convertê-los: Lá tem a Moisés e aos Profetas, e, se a estes não dão crédito, também não o darão aos mortos ressuscitados. Purificado, enfim, aquele espírito com esta saudável quaresma de penitência, havendo três dias antes, dito quando se havia de partir, no último deles se desatou do corpo felizmente.



Deste maravilhoso caso, consta notoriamente a verdade, de que só as obras de cada um o acompanham, ao passar deste mundo e a importância suma, de que as obras boas prevaleçam às pecaminosas. Não porque os pecadores não se salvem só com um ato de verdadeira contrição, que façam no último instante de sua vida, ainda que esta fosse toda consumida em ofensas de Deus, nem porque muitos não se salvem com menos exercício de virtudes que de vícios, uma vez que a morte os colhessem em estado de graça, senão porque o dom da perseverança final e o auxílio eficaz para fazer esse tal ato de contrição, Deus, que não o deve de justiça (pois é mera graça Sua), porventura, que não o dará, ou não costuma dar, senão atendendo as balanças de nossas obras, contrapesando a das boas com a das pecaminosas. Por onde importa muito empregar bem o tempo em carregar daquelas e descarregar destas, porque, acabando-se o dia e entrando a noite, já nem uma nem outra diligência se pode fazer, como nos avisa nosso Salvador:7 Venit nox, quando nemo potest operari. Quanto mais que bem sabe cada um os pecados que cometem, ao menos em confuso e sem ofender a verdade daquele texto:8 “Delicta quis intelligit? Quem entende os delitos? Porém,9 se lhe estão já perdoados ou se é digno do amor ou do ódio de Deus, isso totalmente ignora, e, por conseguinte, sempre lhe importa andar solícito em fazer cada dia mais e mais certa a sua eleição e salvação por obras santas, como nos admoesta o Príncipe dos Apóstolos.10 E, ainda no caso que de certo soubesse estar em amizade de Deus, sempre deve procurar adiantar-se nela, pois nesta vida não tem limite certo (como erradamente afirmaram os begardos, ou beguinos, condenados no Concílio Vienense, que congregou o Papa Clemente V11), e, conforme forem agora em uma alma as riquezas da caridade, serão depois os graus e aumentos de sua glória. Não desprezemos, pois, este terceiro amigo (que é o exercício de boas obras), pois ele só é o fiel e verdadeiro.


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Fonte: Obras Primas da Literatura Portuguesa – “Nova Floresta”, pelo Pe. Manuel Bernardes, Oratoriano, Primeiro Tomo, Título IV, Cap. XXII, Amizade, pp. 171-177. Nova Edição. Livraria Lello & Irmão, editores. Porto/Lisboa, 1949.

1.  Zamaras, tom. 3, Annalium.

2.  Este Talássio foi Monge e Presbítero, de nome célebre, de nacionalidade grega, ou, pelo menos, douto naquela língua.

3.  Representou Deus a esta alma, por símbolos materiais, o que espiritualmente passa no Juízo de qualquer outra em termos equivalentes.

4.  Note-se a gravidade do pecado de Adultério, que muitos tão facilmente desprezam.

5.  Deve-se entender, que sairão as almas dos condenados, para dar conta, e aparecer no Juízo Universal, porém, tornam depois para o Inferno, juntamente com os seus corpos, porque será confirmada a sentença da sua reprovação eterna.

6.  O tornar esta alma ao seu corpo, nada tem contra a boa teologia, porque a exceção não tira a regra, antes a confirma, nem a dispensação particular derroga a lei comum. Suspende Deus a Sua sentença final e decretória, pelos fins que Ele sabe, como em outros exemplos têm feito, e lhe mostrou o Inferno e o rigor de Seu juízo, para que muitos se convertessem.

7.  Joan. IX, 4.

8.  Salm. XVIII, 13.

9.  Ecle. IX, 1. “Nescit homo utrum amore vel odio dignus sit”; Ecle., V, 5. “De propitiato peccato noli esse sine metu”.

10.  2º Ped. X, . “Fratres magis fatagite, ut per bona opera certam vocationem, et electionem faciatis”.

11.  Ano de 1311.


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