(A Igreja Celebra a 6 de Janeiro)
A
Epifania, que significa: aparição ou manifestação do Salvador ao
mundo, foi sempre considerada como uma das festas mais célebres e
mais solenes da Igreja, já por causa dos três Mistérios que estão
compreendidos nesta solenidade, já porque se considera como festa
peculiar da vocação dos gentios à fé. Celebrava-se no Oriente já
no século III, e penetrou no Ocidente pelos fins do século IV.
Três
Mistérios celebra a Igreja nesta única festividade por ser tradição
antiquíssima, que sucederam no mesmo dia, ainda que não no mesmo
ano: a Adoração dos Reis; o Batismo de Jesus, por São João; e o
primeiro milagre, que o Salvador fez nas bodas de Caná da Galileia.
Esta palavra grega Epifania,
cujo significado é aparição ou manifestação,
convém perfeitamente a todos estes três Mistérios.

Manifestou-se
Jesus Cristo aos Magos, os quais, seguindo a estrela miraculosa, O
vieram reconhecer por seu Rei, por seu Deus, por seu Salvador, e Rei,
Deus e Salvador de todo o gênero humano; manifestou-se
a sua Divindade no Batismo, por meio daquela voz do Céu, que a
declarou; manifestou-se
a sua Onipotência no primeiro milagre que fez. Por terem sido estes
os principais meios de que Deus se serviu para manifestar na terra a
glória de seu Filho, a Santa Igreja reúne-os todos três sob o nome
de Epifania, embora seja a Adoração dos Reis o principal objeto do
Ofício, da Missa e da Solenidade deste dia.
É
muito provável, que ao mesmo tempo que os Anjos anunciavam aos
pastores o Nascimento do Messias na Judeia, a nova estrela O
anunciasse também no Oriente.
Esta
estrela foi sem dúvida observada por muitos, porque o seu
extraordinário resplendor e a irregularidade do seu curso a faziam
distinguir entre todas as outras; porém, somente os Magos,
esclarecidos por uma luz interior, conheceram o que significava
aquele fenômeno, e nem um momento hesitaram em ir procurar Aquele
que a estrela anunciava.
Os
orientais chamavam Magos
aos seus “doutores”, como os hebreus lhes chamavam “Escribas”,
os egípcios “profetas”, os gregos “filósofos”, e os
latinos “sábios”. A palavra Mago
na língua persa também significa “sacerdote”.
Em
todas estas partes eram sumamente respeitados pelo povo, que os tinha
por depositários da ciência e da religião.
A
Igreja dá o nome de Reis a esses três homens ilustres, fundada nas
seguintes palavras de Davi:
“Os reis de Tarsis e das ilhas, lhe oferecerão
presentes; os reis da Arábia e de Sabá lhe trarão dons”,
como penhor da sua veneração, fidelidade e obediência. Funda-se
além disso numa tradição antiga, a que não se pode marcar época.
Pinturas
antiquíssimas deste Mistério representam-nos pessoas coroadas, com
todas as insígnias da dignidade real. Acrescente-se a isto os
testemunhos dos Padres mais célebres da Igreja, como Tertuliano, São
Cipriano, Santo Hilário, São Basílio, São João Crisóstomo,
Santo Isidoro, São Bêda, Teofilato e muitos outros.
Além
disso, as nações orientais, quando os reis eram eletivos,
escolhiam-nos entre os filósofos, e se eram hereditários,
procuravam instruir os príncipes nas ciências, de sorte que
pudessem merecer o título de sábios. Assim o observa Platão,
quando trata da educação dos príncipes da Pérsia, acrescentando
que principalmente a astronomia era considerada como uma ciência
digna dos soberanos.
Tendo
os três, que alguns chamam Gaspar, Baltasar e Melchior, observado
uma estrela mais brilhante que as ordinárias, julgaram que era
aquela a estrela de Jacó, anunciada pelo profeta Balaão, cujas
predições conheciam bem, como sinal de um rei que havia de nascer
para a salvação dos homens.
Esclarecidos
ao mesmo tempo por uma luz interior, pela qual conheceram que aquele
astro havia de servir-lhes de guia para encontrar o Messias, tomaram
o caminho da Judeia, onde sabiam que nasceria Aquele Rei tão
desejado de todas as nações. O Evangelista diz-nos só que eles
vieram doo Oriente, isto é, de um país que era oriental com relação
a Jerusalém e a Belém. A opinião mais verossímil, é que vieram
da Arábia-Feliz, habitada pelos filhos que Abraão teve de Cetura,
sua segunda mulher, a saber: Jecsan, pai de Sabá, e Madian, pai de
Efa.
Isto
prognosticou Davi claramente quando disse: “Que o Messias
seria adorado pelos reis dos Árabes, e de Sabá, os quais lhe
ofereceriam ouro da Arábia”.
Isto
mesmo tinha anunciado o profeta Isaías, dizendo: “Uma
inundação de camelos te cobrirá, de dromedários de Madian e de
Efa; todos virão de Sabá, trazendo ouro e incenso, e anunciando o
louvor ao Senhor”.
Não
favorecem pouco esta opinião os presentes que os três monarcas
ofereceram a Jesus, porque o ouro, o incenso e a mirra nascem
principalmente na Arábia.
Foram
guiados os Magos pela estrela durante toda a viagem. Ser-via-lhes de
guia este novo astro, como outrora a Coluna de Fogo ia conduzindo os
Israelitas pelo deserto, quando saíram da escravidão do Egito para
a terra da promissão; mas quando os três reis se aproximaram de
Jerusalém, a estrela desapareceu. Por essa razão entraram naquela
cidade, para se informarem do lugar onde havia nascido o novo Rei que
eles vinham adorar, e cuja estrela tinham visto. Grande espanto
causou ver aqueles homens, vindos de país tão distante, perguntarem
por um novo Rei dos Judeus, a quem os próprios judeus não
conheciam, e cujo nascimento ignoravam inteiramente. Quem mais se
assustou foi o rei Herodes, que quis vê-los, para se informar
minuciosamente do motivo que ali os trazia.
Cioso
da sua dignidade, e temendo perder a coroa, que indignamente possuía,
mandou logo que comparecessem no palácio todos os sacerdotes e
escribas da lei, isto é, aqueles que tinham obrigação de explicar
ao povo as Escrituras, zelando a sua interpretação e vigiando para
que não se introduzisse algum erro contrário ao seu verdadeiro
sentido.
Bem
conhecia ele que um rei, cujo nascimento o Céu anunciava com sinais
tão extraordinários, não podia ser outro senão o Messias; e por
isso, reunida a assembleia dos doutores, limitou-se a dirigir-lhes
estas palavras: Dizei-me: onde há de nascer o Salvador? Todos, a um
voz, responderam que em Belém, pequena cidade da tribo de Judá,
segundo a profecia de Miqueias, quando assegura que a desconhecida
povoação de Belém, não obstante a sua pequenez, teria a glória,
de que foram privadas as cidades mais ilustres, de dar um Príncipe e
um Governador geral a todo o povo de Israel. Não foi necessário
mais nada para encher de perturbação o ânimo e o coração daquele
ambiciosíssimo príncipe, cuja crueldade era igual à imensa ambição
de que estava possuído.
Desde
logo resolveu mandar matar Aquele Menino, e, chamando os Magos à
parte, fez-lhes muitas perguntas capciosas. Rogou-lhes principalmente
que o informassem com toda a exatidão do tempo em que lhes aparecera
a estrela; e, reconhecendo neles muita piedade, e exortou-os a que
prosseguissem na sua viagem.
“Ide,
lhes disse, ide a Belém, pois é lá que há de nascer o
Rei prometido, o Libertador do seu povo; informai-vos de tudo o que
respeita a esse Menino, e voltai à minha corte, onde vos fico
esperando com impaciência, para que me participeis o que tiverdes
observado; porque eu também quero ir adorar esse Divino Monarca”.
Deste modo pretendia Herodes enganá-los artificiosamente, para os
fazer cair no laço que lhes estava armando.
Logo
que os Magos se despediram dele e retomaram o caminho, o Senhor lhes
tornou a enviar o seu resplandecente guia. A estrela que tinha
desaparecido, logo que entraram em Jerusalém, apareceu de novo, logo
que saíram, e conduziu-os diretamente a Belém.
Não
é fácil imaginar o gozo que inundou os corações dos Magos, quando
viram de novo aquele astro, e sobretudo quando o viram deter-se sobre
o humilde presépio onde estava o novo Rei. Entraram, e depararam com
O que buscavam. Estava o Menino nos braços de Sua Mãe, e nenhum
sinal exterior O diferenciava dos outros meninos. Contudo, a mesma
luz interior, que lhes deu a entender o que significava a estrela,
fez com que facilmente descobrissem através daquele exterior
humilde, a Augusta Majestade e a Suprema dignidade d’Aquele Deus
feito homem.
Cheios
de fé e respeito, prostraram-se na Sua Presença e O adoraram como
Senhor Soberano do Céu e da terra, e como Salvador dos homens, e,
visto que era costume do seu país, não se apresentarem nunca diante
dos grandes, com as mãos vazias, ofereceram-Lhe o que lá havia de
mais precioso: ouro, incenso e mirra. Então se cumpriu à letra o
que Davi predissera do Messias, quando disse: “Os reis da
Arábia e de Sabá lhe trarão presentes”.
Tencionavam
os Santos Reis voltar por Jerusalém, mas apareceu-lhes em sonhos um
Anjo do Senhor, aconselhando-os a que seguissem outro caminho, e não
retornassem a Herodes, cujos maus desígnios descobriram então.
Coisa
estranha! Que os estrangeiros venham de países tão remotos adorar o
Salvador do mundo, e que O não conheçam os judeus, no meio dos
quais acaba de nascer! Poderiam ter eles indícios mais claros da Sua
vinda? Mas de que serve a luz aos que são voluntariamente cegos?
Quem terá a culpa, de que Herodes não lograsse a mesma dita que os
Magos? Envia-lhe Deus três Príncipes estrangeiros para que lhe
anunciassem o Nascimento do Salvador do mundo na Judeia; os seus
próprios doutores instruem-no com toda a clareza sobre o lugar onde
o Messias nasceu.
E
que efeito produzem todas estas instruções, todas estas graças,
num coração ambicioso, irreligioso, ímpio? A perturbação, a
velhacaria e a crueldade. Um coração puro, um coração religioso,
mal vê a estrela, põe-se logo a caminho para adorar O que ela
anuncia. Uma alma toda mundana, um hipócrita, faz servir a religião
à sua ambição, à sua avareza insaciável.
Como
é bem verdade que sempre se encontra a Deus, quando de boa fé se
procura! Se não houver estrela, nem por isso faltará guia; tudo
depende da retidão das nossas intenções, e da sinceridade do
coração. Só a nossa malícia é que apaga ou inutiliza a luz da
graça. Inutilmente brilhará, se voluntariamente fechamos os olhos.
O lugar do prazer nunca o foi da virtude. Apenas os Magos se
retiraram da corte do ímpio Herodes, viram reaparecer a estrela que
se lhes ocultara. A volta da graça sensível não é demorada por
muito tempo, mas é preciso que não desanimemos, é preciso avançar
sempre e perseverar até ao fim, imitando deste modo os Magos.
Nunca,
porém, apareçamos diante de Deus com as mãos vazias. A caridade, a
mortificação, a piedade, são oferendas muito do Seu agrado; um
coração contrito e humilhado é sempre bem recebido.
Segundo
a opinião mais comum entre os Santos Padres, os Magos chegaram a
Belém treze dias depois do Nascimento do Salvador. Era tempo
suficiente para virem da Arábia.
Quase
todos os Padres dos primeiros séculos, são de opinião que a
estrela era um astro novo, cujo resplendor, como diz Santo Inácio
Mártir, excedia o de todos os outros, o qual Deus tinha criado para
anunciar aos homens o Nascimento do Rei dos Céus. Finalmente, é
tradição constante, que estes primeiros gentios que vieram adorar O
verdadeiro Deus, eram verdadeiramente reis, isto é, príncipes
soberanos de uma ou de muitas cidades, como eram os da Pentápolis.
Os
mais célebres Padres da Igreja são de opinião, que o Batismo do
Filho de Deus, o milagre da conversão da água em vinho, e a
Adoração dos Magos, tiveram lugar no mesmo dia, posto que em anos
diferentes. Por esta razão a Igreja reúne estes três Mistérios
numa só festa, como uma tríplice Epifania ou Manifestação,
celebrando: o dia em que Jesus Cristo se manifestou aos Magos por
intermédio de uma estrela; o dia em que se manifestou a São João,
pelo testemunho do Seu Eterno Pai; e o dia em que se manifestou aos
Discípulos por meio do seu primeiro milagre.
Tão
célebre tem sido, desde os primeiros séculos da Igreja, esta
tríplice festa, que, achando-se Juliano, que depois foi cognominado
o Apóstata, em Viena de França, no ano de 361, não se atreveu a
deixar de assistir aos divinos ofícios deste dia; o Imperador
Valente, ainda que Ariano, estando em Cesaréia de Capadócia no dia
da Epifania, julgou-se obrigado a assistir à Missa, juntamente, com
os fiéis, persuadido de que, se o não fizesse, o teriam por ímpio.
Discorramos
agora somente sobre o primeiro destes Mistérios, deixando para os
dias seguintes o falar dos dois restantes.
Pelo
que diz respeito aos três Reis que tiveram a felicidade de vir
adorar o Salvador do mundo, observaremos que é fácil compreender a
abundância de graças e dons sobrenaturais, de que foram cumulados,
assim como a viva fé, a ardente caridade, o zelo puro e generoso com
que regressaram as suas casas, onde morreram santamente, depois de
terem anunciado as maravilhas de que haviam sido testemunhas.
É
por certo, que uma graça e vocação tão singulares, uma fidelidade
tão generosa e tão exata, não podiam deixar de conseguir
semelhante sorte. Assim o crê a Santa Igreja, permitindo o culto que
publicamente se lhes presta.
Assegura-se,
que as relíquias desses primeiros heróis do Cristianismo foram
transportadas da Pérsia para a Igreja de Santa Sofia de
Constantinopla.
Mais
tarde foram transportadas para Milão, onde estiveram, segundo
Galesino, 670 anos.
Finalmente,
em 1163, Frederico Barbaroxa transladou-as para a Catedral de
Colônia, onde se conservam ainda hoje com singular veneração. O
relicário que encerra estes santos corpos é talvez o mais belo que
há no mundo.
No
dia da Epifania, em Roma, a multidão vai à igreja de Ara coeli,
para celebrar esta festa que fecha o ciclo das festas do Natal. Sai
uma procissão da igreja, que para sobre a escadaria, donde se domina
a cidade de Roma. O celebrante sobe a um estrado e, em frente do
Vaticano, cuja alta silhueta se vê ao poente, faz uma cruz sobre a
cidade de Roma, com o “Menino” miraculoso, cuja graciosa
imagem foi solenemente coroada a 2 de Maio de 1897.
Este
Santo Menino, é feito de pau de oliveira e remonta ao ano de
1647. Foi esculpido em Jerusalém por um humilde frade Franciscano.
Trazido depois a Roma, tornou-se objeto de muita veneração. Tem a
sua carruagem, na qual é transportado a casa dos doentes, que
desejam a sua visita.
_______________________________
Fonte: Pe.
Croiset, “Ano
Cristão”, Vol.
I, dia 6 de
Janeiro,
pp. 72-78.
Traduzido do Francês e adaptado às últimas reformas litúrgicas
pelo Pe. Matos Soares, professor do Seminário do Porto. Tip. “Porto
Medico”, Ltda. Porto. 1923.