BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

terça-feira, 27 de outubro de 2020

A EUCARISTIA – BOSSUET. 5ª PARTE.



5ª Meditação


A necessidade de sermos felizes;

somos infelizes porque procuramos

a felicidade onde ela não está.

Vamos buscá-la em sua verdadeira fonte.


“Senhor, dai-nos sempre esse pão”, esse pão do qual haveis dito que dá a vida eterna. É o que dizem os Judeus; e exprimem desta maneira o desejo de toda a natureza humana, ou, antes, de toda a natureza inteligente. Ela quer viver eternamente; quer não sentir falta de nada; numa palavra, quer ser feliz.

É ainda o que exprimia a Samaritana, quando, havendo-lhe Jesus dito: “Ó mulher! Aquele que bebe da água que eu dou nunca tem sede”, responde ela logo: “Senhor, dai-me essa água, para que eu nunca tenha sede e não seja obrigada a vir aqui tirar água, num poço tão profundo, com tanto custo”. Repito, a natureza humana quer ser feliz; não quer ter nem fome nem sede; não quer ter necessidade alguma, desejo algum a satisfazer, trabalho algum, fadiga alguma; e isto, que outra coisa é senão ser feliz?

Eis o que quer a natureza humana, eis o seu fundo. Ela se engana nos meios; tem sede dos prazeres dos sentidos; quer exceder; tem sede das honras do mundo. Para conseguir uns e outros, tem sede das riquezas; a sua sede é insaciável. Ela pede sempre, e nunca diz basta; sempre mais e sempre mais. É curiosa; tem sede da verdade, mas não sabe onde achá-la, nem qual verdade pode satisfazê-la; apanha dela o que pode por aqui, por acolá, por bons, por maus meios; e, como toda alma curiosa é leviana, deixa-se enganar por todos aqueles que lhe prometem essa verdade que ela busca.

Quereis nunca ter fome, nunca ter sede? Vinde ao pão que não perece, e ao Filho do homem que vo-lo administra; à sua Carne, ao seu Sangue, onde está conjuntamente a verdade e a vida, porque é a Carne e o Sangue, não do filho de José, como diziam os Judeus, mas do Filho de Deus. “Ó Senhor, dai-me sempre esse pão!” Quem é que não tem fome dele? Quem é que não se quer assentar à vossa mesa? Quem é que não quer se assentar à vossa mesa? Quem poderia jamais deixá-la?

Mas, para nos aguilhoar mais do desejo de nos aproximarmos dela, Jesus Cristo diz-nos que não é coisa fácil ou comum. Há que ser amado por Deus, tocado, puxado, prevenido, escolhido. Vede quantos dos seus ouvintes se afastam dele, quantos murmuram, quantos se escandalizam! Os seus próprios discípulos retiram-se-lhe da companhia; há mesmo entre seus Apóstolos uns que não creem. Quanto mais esses infiéis se desviam, tanto mais os verdadeiros discípulos devem aproximar-se.

Vinde, escutai, segui o Pai que vos puxa, que vos ensina interiormente, que vos faz sentir vossas necessidades, e em Jesus Cristo o verdadeiro meio de saciá-las. Comei, bebei, vivei, alimentai-vos, contentai-vos, saciai-vos. Se fordes insaciáveis, seja Dele, da sua verdade, do seu amor; porquanto a Sabedoria eterna diz, falando de Si própria: “Os que me comem ainda terão fome, e os que me bebem ainda terão sede”. Oh! Acabamos de ouvir da boca Dele: “Aquele que bebe da água que eu der, nunca terá sede”; e ainda: “Aquele que vem a mim, nunca terá fome, e aquele que crê em mim nunca terá sede. Jamais terá fome nem sede de outra coisa senão de mim; mas terá uma fome e uma sede insaciável de mim, e nunca cessará de desejar-me. Ao mesmo tempo que será insaciável, será todavia saciado, porque terá a boca na fonte: ‘Os rios de água-viva sair-lhe-ão das entranhas. A água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água borbulhante para a vida eterna’.” Ele terá, pois, sempre sede da minha verdade; mas também poderá sempre beber, e eu o conduzirei à vida em que ele nem sequer terá mais que desejar, porque eu o rejubilarei pela beleza da minha face, e lhe satisfarei todos os desejos.

“Vinde, pois, Senhor Jesus, vinde; o Espírito diz sempre: Vinde; a Esposa diz sempre: Vinde. Vós todos que escutais, dizei: Vinde, e aquele que tem sede venha; venha quem quiser receber gratuitamente a água-viva. Vinde, não se exclui ninguém. Vinde, não custa nada, só custa querer. Tempo virá em que já não se dirá: Vinde. Quando esse esposo tão desejado vier, então não precisaremos mais dizer: Vinde. Diremos eternamente: Amém, assim é, está tudo cumprido; aleluia, louvemos a Deus; ele fez bem todas as coisas; fez tudo o que prometera, não há mais senão que louvá-lo”.


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Fonte: Jacques-Bénigne Bossuet, Bispo de Meaux, “Meditações sobre o Evangelho” – Opúsculo “Eucaristia”, Cap. V, pp. 31-34. Coleção Boa Imprensa, Livraria Boa Imprensa, Rio de Janeiro/RJ, 1942.


segunda-feira, 26 de outubro de 2020

“IDE, E APRENDEI O QUE QUER DIZER: QUERO MISERICÓRDIA E NÃO SACRIFÍCIOS...”. (Mat. 9, 13; Os. 6, 6; I Sm. 15, 22-23)

 


Parábola dos Servos Devedores

(Evangelho segundo S. Mateus, 18, 23-35)1


Este Domingo chama-se o Domingo dos devedores, ou do perdão das injúrias, porque no Evangelho se lê a parábola dos devedores segundo S. Mateus, a qual nos ensina a perdoar de coração a nossos irmãos as ofensas que deles temos recebido, se queremos que Deus nos perdoe a nós os pecados que cometemos contra a sua divina Majestade.

Naquele tempo: Disse Jesus aos seus discípulos esta parábola: Por isso, o reino dos céus é comparado a um rei que quis fazer as contas com os seus servos. E, tendo começado a fazer as contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos. E, como não tivesse com que pagar, mandou o seu senhor que fosse vendido ele, e sua mulher e seus filhos, e tudo o que tinha, e se saldasse a dívida. Porém, o servo, lançando-se-lhe aos pés, lhe suplicava, dizendo: Tem paciência comigo, e eu te pagarei tudo. E o senhor, compadecido daquele servo, deixou-o ir livre e perdoou-lhe a dívida.

Mas este servo, tendo saído, encontrou um dos seus companheiros, que lhe devia cem dinheiros, e, lançando-lhe a mão, o sufocava, dizendo: Paga o que me deves. E o companheiro, lançando-se-lhe aos pés, lhe suplicava, dizendo: Tem paciência comigo, e eu te pagarei tudo. Porém, ele não quis, mas retirou-se, e fez que o metessem na prisão, até pagar a dívida.

Ora, os outros servos seus companheiros, vendo isto, ficaram muito contristados, e foram, e referiram ao seu senhor tudo o que tinha acontecido. Então, o senhor chamou-o, e disse-lhe: Servo mau, eu perdoei-te a dívida toda, porque me suplicaste; não devias tu logo compadecer-te também do teu companheiro, como eu me compadeci de ti? E o seu senhor, irado, entregou-o aos algozes, até que pagasse toda a dívida.

Assim também vos fará meu Pai celestial, se não perdoardes do íntimo dos vossos corações cada um a seu irmão.

Moral da história: Tornarmo-nos duros e implacáveis por causa de uma injúria que recebemos, e negarmos a reconciliação a quem nos ofendeu com uma simples palavra menos delicada, não será condenarmo-nos a nós mesmos?

Propósitos: 1. Sê generoso, ativo, pronto em perdoar todo o mal, e todas as injúrias que te houverem feito, lembrando-te de que tua liberalidade e generosidade neste ponto deve ser a medida da que Deus há de usar contigo. 2. Perdoa generosamente as injúrias, perdoando de coração com sinceridade, e sem que te fique o menor resquício de ressentimento.



O Culto Externo

e a Lei da Liberdade.


“E Samuel disse: Porventura quer o Senhor holocaustos e vítimas, e não quer antes que se obedeça à voz do Senhor? A obediência vale mais que as vítimas; e é melhor obedecer do que oferecer a gordura dos carneiros. Porque o desobedecer é como um pecado de magia, e o não querer submeter-se é como um crime de idolatria. Porque, pois, tu rejeitaste a palavra do Senhor, o Senhor te rejeitou a ti, para que não sejas rei”.2

“Porque o que eu quero é a misericórdia e não o sacrifício, e o conhecimento de Deus mais que os holocaustos”.3 Isso tudo quer dizer que:

O exercício da caridade tem mais valor diante de Deus do que os próprios sacrifícios.

“E se vós soubésseis o que quer dizer: Quero a misericórdia e não o sacrifício, jamais condenaríeis inocentes”.4 Ensina Nosso Senhor que:

É mais agradável a Deus a misericórdia, a bondade para com o próximo, do que o culto externo (sacrifício) sem a caridade, como era o culto dos fariseus orgulhosos.

Portanto cristão: “Falai, pois, de tal sorte e de tal sorte procedei, como estando para ser julgados pela lei da liberdade. Porque o juízo (será) sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia; mas a misericórdia triunfa do juízo”.5

O julgamento (juízo) pertence somente a Deus, autor da Lei. Ele sancionará a prática da Lei, condensada na misericórdia.

“Sede, pois, fazedores da palavra e não ouvintes somente, enganando-vos a vós mesmos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não fazedor, este será comparado a um homem que contempla num espelho o seu rosto nativo; porque considerou-se, e, tendo-se retirado, logo esqueceu como era. Mas, quem fixar a sua vista na (doutrina do Evangelho que é a) lei perfeita da liberdade, e perseverar nela, não sendo ouvinte esquecido, mas executor da obra, este será bem-aventurado no que fizer”.6



Oremos: “Converte-te, ó Israel, ao Senhor teu Deus, porque pela tua iniquidade é que caíste. Tomai convosco palavras (de arrependimento), convertei-vos ao Senhor, e dizei-lhe: Tira-nos todas as nossas iniquidades, aceita este bem (ou bom desejo que temos); e nós te ofereceremos (em vez de) novilhos, os louvores dos nossos lábios”.7 Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.



Oremos: Senhor, guardai vossos servos, usando continuamente de misericórdia com eles, para que por vossa proteção sejam livres de todos os males, e não busquem em suas boas obras senão a vossa glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo... Amém.


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1.  XXI Domingo Depois de Pentecostes.

2.  I Sm. 15, 22-23.

3.  Os. 6, 6.

4.  Mat. 12, 7.

5.  Tg. 2, 12-13.

6.  Tg. 1, 22-25.

7.  Os. 14, 2-3.


sexta-feira, 23 de outubro de 2020

SOBRE A MULHER CRISTÃ: COMO SALVAR-SE E COMO CONDENAR-SE.


“Ora, se alguém não tem cuidado dos seus,

e principalmente dos de sua casa, negou a fé,

e é pior do que um infiel”.1

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"Contudo, (a mulher)

salvar-se-á pela educação dos filhos,

se permanecer na Fé e na Caridade e na Santidade,

unidas à Modéstia".2


Meditação sobre a

Fugida de Maria para o Egito.


Para sujeitar-nos a vontade (divina), dá-nos quase sempre a Providência um modo de viver diferente daquele que desejamos. Alegra-se Maria com a vida retirada, e pela terceira vez a vemos apartar-se de seu modesto domicílio.

A primeira vez, porque instava-lhe a amizade, que fosse visitar sua prima Isabel; a segunda por obedecer às ordens do soberano (Imperador Augusto), e a terceira, porque o amor materno lhe põe diante dos olhos o perigo a que estava exposto seu inocente Filho: um tirano O ameaça de morte; os céus lhe revelaram, e Maria foge para o Egito, deixando a pátria, a família, e a modesta morada; mas acha-se rica, porque leva consigo o seu tesouro; Jesus repousa em seu regaço.

Se em todos os acontecimentos e mudanças porque passamos no decurso de nossa peregrinação, pedíssemos a Deus que nos acompanhasse, andaríamos sempre seguros e sem inquietações. Atravessa Maria áridos desertos, nos quais padece sedes ardentes; mas sofre-as com paciência, como quem sabia que à voz do Altíssimo faria rebentar, para as saciar, de áridas penhas fontes puras e límpidas; se as feras acudiam em ação de a quererem devorar, Ela as olhava com desassombrado semblante, e sentia-se com forças para lutar com elas, e defender seu Filho; porém, essa serenidade que lhe assistia na presença do perigo, sabia a Santíssima Virgem, que a devia ao Senhor do universo que trazia nos braços, e serena ria-se para os tigres, que vinham lamber-lhe os pés. Os áridos desertos são para nós o mundo, as feras são as nossas próprias paixões: tais são os inimigos que nos levam de vencida, quando por imprudência nos adiantamos numa estrada que a Providência não nos havia destinado.

Quem se ocupa presentemente de consultar a sua vocação, não segundo o instinto por vezes falível da natureza, mas sim em conformidade com as ordens imutáveis da Divindade? Maria continuamente submissa, não se opôs nunca à vontade da Providência com desejos contrários a seus decretos, ou por um mero espírito de independência. Ama a solidão por gosto e inclinação, mas Deus lhe destina uma vida agitada; obedece, parte, e não vacila nunca entre a sua obrigação, e suas inclinações: salvar seu divino Filho, é o seu único pensamento, e seu voto, o mais ardente, o não afastar Dele nunca os olhos.

Vós que sois mães, inteirai-vos agora do grande, do nobre ministério de que sois encarregadas. Os prazeres frívolos, a vida independente deve cessar, desde que Deus vos ilumina com um filho. Desde este momento cessais de ser senhoras de vós mesmas, e a vossa salvação dependerá, do modo com que educardes esta criança que a Providência vos confiou. Deus vos há de pedir conta de sua alma, e a vossa há de responder por ela, se por ventura por vossa culpa se perder. Uma mãe deve à imitação de Maria não arredar-se nunca do filho, e dar-lhe com suas virtudes um bom exemplo. Se ela lhe ensina a ser devoto, e o não é; se lhe recomenda de ser assíduo em seus deveres, e falta ao mais sagrado de todos, desamparando a casa e os filhos, para se entregar a vãos prazeres, destrói com suas ações os bons efeitos de suas palavras. Deste dever não estão desobrigados os pais, e aquele que desdenha de cumpri-lo, pagá-lo-á bem cruamente.

Sim, dizem as ações mais que as palavras, e nas famílias que vivem bem e religiosamente não por ostentação, mas por zelo e fidelidade, o amor da virtude penetra sem custo na alma dos filhos, e nela se grava docemente, e se fortifica com o hábito de bem realizar.

A mulher que objetar que é duro que, sendo moça e rica, a obriguem a privar-se dos divertimentos, e a passar uma vida solitária e monótona, não é verdadeira e de coração mãe. Se o fosse, não acharia ocupação mais deleitosa que a de velar junto ao leito do filho, e ensinar-lhe a pensar, e a amar. Ao princípio um sorriso dele, e depois o seu amor seriam a sua recompensa, e passados anos as virtudes do filho serão a glória da mãe, e cada qual admirando-o se inclinará com respeito, vendo passar aquela que fez que naquela alma tão nova brotasse o entusiasmo da piedade e do dever, e quem sabe se seu esposo, talvez leviano e pouco temente a Deus, admirado, e confundido com o admirável exemplo de sua mulher, não se converterá a Deus, de quem emanam todas as graças e virtudes.

Grande é por certo a recompensa, e superior a quantas honras confere o mundo, porém, para merecê-la cumpre, à imitação de Maria, peregrinarmos pelo deserto, lutar com mil obstáculos, e pelejar com a gente mundana que não cessará de bradar: “Quereis converter vossa vida em um contínuo tormento, e fazer vosso filho santo?…”. Si, responderá a mãe verdadeiramente cristã: quero fazer uma vida sisuda e ocupada com austeros deveres, e por mais árdua que ela vos pareça, eu a prefiro às festas estrondosas; por isso, que assim desfrutarei da alegria e paz de alma, e da aprovação de minha consciência; e quando meus dias forem cheios, serei respeitada em minha velhice, e venerada por meus filhos: vê-los-ei crescerem à minha sombra como arbustos vigorosos, cujas flores odoríferas se derramarão sobre minha velhice.

E vós, mundanos, que entregais ao capricho do acaso a vossa salvação, e a de vossos filhos, qual será o vosso interior doméstico em vossa velhice? Um inferno antecipado; mal com vossos filhos destituídos de virtude e de ternura, e ainda mais mal com vossa própria consciência, amaldiçoareis uma vida que não vos causa senão amarguras, e tereis medo da morte, terrível precursora do castigo dos maus.

Se Maria nos oferece um perfeito exemplar dos deveres de uma mãe, vejamos por outra parte como o nosso divino Salvador nos ensina a cumprir com os deveres do filial reconhecimento. Na vida de Jesus Cristo tudo é ensino; a antiga lei dizia: Honra teu pai, e tua mãe. Nosso Senhor ensina-nos ainda melhor com seu exemplo. Ele fica escondido na paterna morada por espaço de trinta anos, obedecendo à sua Mãe, e a seu pai putativo, e o dominador do universo cumpre com os deveres de um filho obediente, e acha um prazer indizível em passar os dias junto Àquela Mãe do céu bendita, e que não tardará que o seja também da terra. Quem nos revelará as grandes e sublimes conversações que o Deus-Homem tinha com seus pais? Que maravilhas se passaram no modesto domicílio de Nazaré! Se a dita de Maria nos causa inveja, quem nos tolhe de nos tornarmos dignos de iguais graças? Deus se dá àquele que a Ele se entrega. Mas será por ventura no bulício do mundo que poderemos entregar-nos a Deus? Colocamo-Lo em esquecimento e Ele nos desampara. Maria fugiu do mundo para de todo se entregar a Deus, e Deus durante trinta anos disseras que viveu unicamente para sua Mãe. Quem não dobrará os joelhos diante da Virgem Santa, vendo que o Salvador do mundo amou, e respeitou Aquela que escolhera para ser sua Mãe?

Na ordem moral tudo se enfraquece, quando a religião se apaga nos corações: desta verdade vemos uma triste prova no pouco respeito, e por conseguinte no pouco amor que os filhos tem aos que lhes deram o ser. Uma educação efeminada, carinhos demasiados da parte dos pais fazem que os filhos se acostumem a fazerem todas as suas vontades, e a não conhecerem o freio da obediência, e de um temor acompanhado de amor e de respeito. Sim, o amor é sempre acompanhado de certo temor; porque aquele que ama teme de ofender, ou de afligir o objeto de seu amor, e receia de não fazer por ele quanto o dever e o amor que lhe tem, requerem.

Que triste deve ser o resultado desta educação efeminada, que se dá aos meninos nos primeiros anos, a qual, passados anos, desperta em suas almas paixões as mais terríveis! Apenas lhes nascem as asas, ei-los que se deitam a voar, deixando o paterno ninho, e se engolfam com certa espécie de furor nos mares da independência, onde deparam com maus costumes, e com a perda da alma. Os pais que durante vinte anos os deixaram correr à rédea solta no verdor da mocidade, em vão as colhem e pretendem fazerem-se obedecer; rebela-se o mancebo como o potro, que nunca conheceu freio; donde se geram rompimentos, escândalos, cessação de toda a felicidade doméstica, total esquecimento de todos os princípios da religião, e isto de geração em geração; porque um filho mal criado deve necessariamente ser um mau pai, pelo mesmo teor que foi mau filho.

Vós que tendes a dita de ter pais virtuosos, amai-os com toda a ternura, e obedecei-lhes como a Deus. Que podeis vós fazer que seja mais conforme com a razão? Eles vos desejam ver felizes, mais do que vós mesmos o podeis desejar; e sua experiência vos aponta a estrada por onde o podeis conseguir. Amai-os pois, tende cuidado deles na velhice; não vos esqueçais de que eles gastaram quantas forças tinham em ter cuidado de vossa infância, de vigiar e tremer sobre vossa mocidade; que viveram 20 e 30 anos somente para vós; vivei pois para eles alguns dias.


Práticas

Para que se possa bem julgar do quanto cada um deve à sua mãe, pondere-se nos desvelos que Maria prodigaliza a Jesus, em seu amor constante, em seus temores extremos, e na inteira abnegação que de Si mesma faz. Por Ele afronta Ela todos os perigos, e é insensível a todas as fadigas: assim é que ama uma mãe cristã. Ela não vê, tirando o que deve a Deus, outra coisa mais que o que deve a seus filhos: seu amor se eleva acima da terra, e não são as delícias dela que deseja, mas sim a felicidade eterna: por isso, sente-se com forças para resistir a suas fogosas paixões, e para ensinar-lhes a amar a vida grave e retirada, a qual faz que conservemos sempre a persuasão de que Deus nos está vendo, o que não tolhe o desfrutarmos dos prazeres inocentes, que são próprios de nossa idade.


Glória ao Pai… Ave Maria…


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Fonte: Madame Tarblé des Sablons, Mês de Maria ou Nova Imitação da Santíssima Virgem, Undécimo Dia, pp. 195-206. Traduzido do Francês por Caetano Lopes de Moura, Publicado por J. P. Aillaud, Editor, Paris, 1845.

1.  I Tim., 5, 8.

2.  I Tim., 2, 15.


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