BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

O CATOLICISMO, É O CRISTIANISMO INTOLERANTE EM MATÉRIA RELIGIOSA: QUEREIS SABER O POR QUÊ?



A Intolerância Católica

Cardeal Pio – 1841
Sermão pregado na
Catedral de Chartres
(Excertos)

Meus irmãos(…)

Nosso século clama: “Tolerância, tolerância”. Tem-se como certo que um Padre deve ser tolerante, que a religião deve ser tolerante. Meus irmãos, não há nada que valha mais que a fraqueza e eu aqui estou para vos dizer, sem disfarce, que no mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade e que esta sociedade deve ser necessariamente intolerante. Mas antes de entrar no mérito, distinguimos as coisas, convenhamos sobre o sentido das palavras para bem nos entendermos e assim não nos confundiremos.

A tolerância pode ser civil ou teológica. A primeira não nos diz respeito e não falarei senão uma pequena palavra sobre ela. Se a lei tolerante quer dizer que a sociedade permite todas as religiões porque, a seus olhos, elas são todas igualmente boas ou porque as autoridades se consideram incompetentes para tomar partido neste assunto, tal lei é ímpia e ateia. Ela exprime não a tolerância civil como a seguir indicaremos, mas uma tolerância dogmática que, por uma neutralidade criminosa, justifica nos indivíduos a mais absoluta indiferença religiosa. Ao contrário, se, reconhecendo que uma só religião é boa, a lei suporta e permite que as demais possam se exercer por amor à tranquilidade pública, esta lei poderá ser sábia e necessária se assim o pedirem as circunstâncias como outros observaram antes de mim. (…)


Deixo porém este campo cheio de dificuldades e volto-me para a questão propriamente religiosa e teológica em que exponho estes dois princípios:

1º – A religião que vem do Céu é verdade e ela é intolerante com relação às doutrinas errôneas.

2º – A religião que vem do Céu é caridade e ela é cheia de tolerância quanto às pessoas.

Roguemos à Nossa Senhora vir em nossa ajuda e invocar para nós o Espírito de verdade e de caridade: “Spiritum veritatis et pacis”. Ave Maria.

Faz parte da essência de toda verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas. Onde nada é certo, onde nada é definido, pode-se partilhar os sentimentos, podem variar as opiniões. Compreendo e peço a liberdade de opinião nas coisas duvidosas: “in dubiis, libertas”. Mas logo que a verdade se apresenta com as características certas que a distinguem, por isso mesmo que é verdade, ela é positiva, ela é necessária e por consequência ela é una e intolerante: “in necessariis, unitas”. Condenar a verdade à tolerância é condená-la ao suicídio. A afirmação se aniquila se ela duvida de si mesma, e ela duvida de si mesma se ela admite com indiferença que se ponha a seu lado sua própria negação. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo do direito de propriedade. Quando se possui alguma coisa é preciso defendê-la sob pena de ser despojado dela bem cedo.

Assim, meus irmãos, pela própria necessidade das coisas, a intolerância está em toda parte porque em toda parte existe o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, a ordem e a desordem. Que há de mais intolerante do que esta proposição: “2 + 2 fazem 4”? Se vierdes me dizer que 2 + 2 fazem 3 ou fazem 5, eu vos respondo que 2 + 2 fazem 4.


Nada é tão exclusivo quanto a unidade. Ora, ouvi a palavra de São Paulo: “Unus Dominus, una fides, unum baptisma”. Há, no Céu, um só Senhor: “Unus Dominus”. Esse Deus cuja unidade é seu grande atributo, deu à terra um só símbolo, uma só doutrina, uma só fé: “una fides”. E esta fé, esta doutrina, Ele confiou-as a uma só sociedade visível, uma só Igreja cujos filhos são, todos, marcados com o mesmo selo e regenerados pela mesma graça: “Unum baptisma”. Assim, a unidade divina que esplende por todos os séculos na glória de Deus, produziu-se sobre a terra pela unidade do dogma evangélico cujo depósito foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo à unidade hierárquica do Sacerdócio: Um Deus, uma fé, uma Igreja: “Unus Dominus, una fides, unum baptisma”.

Um pastor inglês teve a coragem de escrever um livro sobre a tolerância de Jesus Cristo, e o filósofo de Genebra disse, falando do Salvador dos homens: “Não vejo que meu divino Mestre tenha formulado sutilezas sobre o dogma”. Bem verdadeiro, meus irmãos. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma, mas trouxe aos homens a verdade e disse: se alguém não for batizado na água e no Espírito Santo; se alguém, recusa-se a comer a Minha Carne e a beber o meu Sangue, não terá parte em Meu reino. Confesso que nisso não há sutilezas, há intolerância, a exclusão a mais positiva, a mais franca. E mais, Jesus Cristo enviou seus Apóstolos para pregar a todas as nações, isto é, derrubar todas as religiões existentes para estabelecer em toda a terra a única religião cristã e substituir todas as crenças dos diferentes povos pela unidade do dogma católico. E prevendo os movimentos e as divisões que esta doutrina vai incitar sobre a terra, Ele não se deteve e declarou que tinha vindo para trazer não a paz mas a espada e acender a guerra não somente entre os povos, mas no seio de uma mesma família e separar, pelo menos quanto às convicções, a esposa fiel do esposo incrédulo, o genro cristão do sogro idólatra. A afirmação é verdadeira e o filósofo tem razão. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma. (…)

Falam da tolerância dos primeiros séculos, da tolerância dos Apóstolos. Mas isso não é assim, meus irmãos. Ao contrário, o estabelecimento da religião cristã foi, por excelência, uma obra de intolerância religiosa. No momento da pregação dos Apóstolos, quase todo o universo praticava essa tolerância dogmática tão louvada. Como todas as religiões eram igualmente falsas e igualmente desarrazoadas, elas não se guerreavam; como todos os deuses valiam a mesma coisa uns para os outros, eram todos Demônios, não eram exclusivos, eles se toleravam uns aos outros: Satã não está dividido contra si mesmo. O Império Romano, multiplicando suas conquistas, multiplicava seus deuses e o estudo de sua mitologia se complica na mesma proporção que o da sua geografia. O triunfador que subia a Capitólio, fazia marchar diante dele os deuses conquistados com mais orgulho ainda do que arrastava atrás de si os reis vencidos. A mais das vezes, em virtude de um Senatus-Consulto, os ídolos dos Bárbaros se confundiam desde então com o domínio da pátria e o Olímpio nacional crescia como o Império.


Quando aparece o Cristianismo (prestem atenção a isso, meus irmãos, são dados históricos de algum valor com relação ao assunto presente), o Cristianismo quando apareceu pela primeira vez, não foi logo repelido subitamente. O paganismo perguntou-se se, ao invés de combater a nova religião, não devia dar-lhe acesso ao seu seio. A Judeia tinha se tornado uma província romana. Roma, acostumada a receber e conciliar todas as religiões, recebeu a princípio, sem maiores dificuldades, o culto saído da Judeia. Um imperador colocou Jesus Cristo assim como Abraão entre as divindades de seu oratório, como viu-se mais tarde um outro César propor prestar-lhe homenagens solenes. Mas a palavra do profeta não tardou a se verificar: as multidões de ídolos que viam, de ordinário sem ciúmes, deuses novos e estrangeiros serem colocados ao lado deles, com a chegada do Deus dos cristãos, lançam um grito de terror, e, sacudindo sua tranquila poeira, abalam-se sobre seus altares ameaçados: Ecce Dominus ascendit, et commovebuntur simulacra a facie ejus. Roma estava atenta a esse espetáculo. E logo, quando se percebeu que esse Deus novo era irreconciliável inimigo dos outros deuses; quando viu-se que os cristãos, dos quais se havia admitido o culto, não queriam admitir o culto da nação; em uma palavra, quando constatou-se o espírito intolerante da fé cristã, é aí então que começou a perseguição.

Ouvi como os historiadores do tempo justificam as torturas dos cristãos: eles não falam mal de sua religião, de seu Deus, de seu Cristo, de suas práticas; só mais tarde é que inventaram calúnias. Eles os censuram somente por não poderem suportar outra religião que não seja a deles. “Eu não tinha dúvidas, diz Plínio o jovem, apesar de seu dogma, que não era preciso punir sua teimosia e sua obstinação inflexível”: Pervicaciam et inflexibilem obstinationem. “Não são criminosos, diz Tácito, mas são intolerantes, misantropos, inimigos do gênero humano. Há neles uma fé teimosa em seus princípios, e uma fé exclusiva que condena as crenças de todos os povos: Apud ipsos fides obstinata, sed adversus omnes alios hostile odium”. Os pagãos diziam geralmente dos cristãos o que Celso disse dos Judeus, com os quais foram muito tempo confundidos, porque a doutrina cristã tinha nascido na Judeia. “Que esses homens adiram inviolavelmente às suas leis, dizia este sofista, nisto não os censuro; eu só censuro aqueles que abandonam a religião de seus pais para abraçar uma diferente! Mas se os Judeus ou os cristãos querem se dar ares de uma sabedoria mais sublime que aquela do resto do mundo, eu diria que não se deve crer que eles sejam mais agradáveis a Deus que os outros”.

Assim, meus irmãos, o principal agravo contra os cristãos era a rigidez absoluta do seu símbolo, e, como se dizia, o humor insociável de sua teologia. Se só se tratasse de um Deus a mais, não teria havido reclamações; mas era um Deus incompatível, que expulsava todos os outros: eis porque a perseguição. Assim, o estabelecimento da Igreja foi uma obra de intolerância dogmática. Toda a história da Igreja não é outra que a história dessa intolerância. O que são os Mártires? Intolerantes em matéria de fé, que preferem os suplícios a professarem o erro. O que são os símbolos? São fórmulas de intolerância, que determinam o que é preciso crer e que impõem à razão os mistérios necessários. O que é o Papado? Uma instituição de intolerância doutrinal, que pela unidade hierárquica mantém a unidade de fé. Porque os Concílios? Para frear os desvios de pensamentos, condenar as falsas interpretações do dogma; anatematizar as proposições contrárias à fé.


Nós somos então intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina: nós disto fazemos profissão; nós nos orgulhamos da nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, pois que a verdade é uma, e consequentemente, intolerante. Filha do Céu, a religião cristã, descendo sobre a terra, apresentou os títulos de sua origem; ela ofereceu ao exame da razão fatos incontestáveis, e que provam irrefutavelmente sua Divindade. Ora, se ela vem de Deus, se Jesus Cristo, seu Autor, pode dizer: Eu Sou a Verdade: Ego Sum Veritas, é necessário por uma consequência inevitável, que a Igreja Cristã conserve incorruptivelmente esta verdade tal qual a recebeu do Céu; é necessário que ela repila, que ela exclua tudo o que é contrário a esta verdade, tudo o que possa destruí-la. Recriminar à Igreja Católica sua intolerância dogmática, sua afirmação absoluta em matéria de doutrina, é dirigir-lhe uma recriminação muito honrável. É recriminar à sentinela ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar à esposa ser muito delicada e exclusiva.

Nós ficamos muitas vezes confusos do que ouvimos dizer sobre todas essas questões até por pessoas de senso. A lógica lhes falta, desde que se trata de religião. É a paixão, é o preconceito que os cega? É um e outro. No fundo, as paixões sabem bem o que elas querem quando procuram abalar os fundamentos da fé, pondo a religião entre as coisas sem consistência. Elas não ignoram que, demolindo o dogma, elas preparam para si uma moral fácil. Diz-se com uma justeza perfeita: é antes o Decálogo que o Símbolo que as fazem incrédulas. Se todas as religiões podem ser postas num mesmo nível, é que elas se equivalem todas; se todas são verdadeiras é porque todas são falsas; se todos os deuses se toleram, é porque não há Deus. E se se pode aí chegar, não sobra mais nenhuma moral incômoda. Quantas consciências estariam tranquilas, no dia em que a Igreja Católica desse o beijo fraternal a todas as Seitas suas rivais!

Jean-Jacques foi entre nós o apologista e o pregador desse sistema de tolerância religiosa. A invenção não lhe pertence, se bem que ele tenha ido mais longe que o paganismo, que nunca chegou a levar a indiferença a tal ponto. Eis, com um curto comentário, o ponto principal do Catecismo genovês, tornado infelizmente popular: Todas as religiões são boas; isto é, de outra forma, todas as religiões são ruins (…).

A filosofia do século XIX se espalha por mil canais sobre toda a superfície da França. Esta filosofia é chamada eclética, sincrética e, com uma pequena modificação, é também chamada progressiva. Esse belo sistema consiste em dizer que não existe nada falso; que todas as opiniões e todas as religiões podem ser conciliadas; que o erro não é possível ao homem, a menos que ele se despoje da humanidade; que todo o erro dos homens consiste em crer possuírem exclusivamente toda a verdade, quando cada um deles só tem um elo e que, da reunião de todos esses elos, deve-se formar a corrente inteira da verdade. Assim, segundo essa inacreditável teoria, não há religiões falsas, mas elas são todas incompletas umas sem as outras. A verdadeira seria a religião do ecletismo sincrético e progressivo, a qual ajuntaria todas as outras, passadas, presentes e futuras: todas as outras, isto é, a religião natural que reconhece um Deus; o ateísmo que não conhece nenhum; o panteísmo que O reconhece em tudo e por tudo; o espiritualismo que crê na alma, e o materialismo que só crê na carne, no sangue e nos humores; as sociedades evangélicas que admitem uma revelação, e o deísmo racionalista que a rejeita; o Cristianismo que crê no Messias que veio e o Judaísmo que O espera ainda; o Catolicismo que obedece ao Papa, e o protestantismo que olha o Papa como o anticristo. Tudo isto é conciliável. São diferentes aspectos da verdade. Da união desses cultos resultará um culto mais largo, mais vasto, o grande culto verdadeiramente católico, isto é, universal, pois que abrigará todas as outras no seu seio.

Esta doutrina que qualificais de absurda, não é de minha invenção; ela enche milhares de volumes e de publicações recentes; e, sem que seu fundo jamais varie, ela toma todos os dias novas formas sob a caneta e sobre os lábios dos homens entre as mãos dos quais repousam os destinos da França. – A que ponto de loucura nós então chegamos? – Nós chegamos ao ponto onde deve logicamente chegar todo aquele que não admite o princípio incontestável que estabelecemos, a saber: que a verdade é uma, e por consequência intolerante, exclusiva de toda doutrina que não é a sua. E, para juntar em poucas palavras toda a substância deste meu discurso, eu lhes direi: Procurais a verdade sobre a terra? Procurai a Igreja intolerante. Todos os erros podem se fazer concessões mútuas; eles são parentes próximos, pois que têm um pai comum: Vos ex patre diabolo estis. A verdade, filha do Céu, é a única que não capitula.

Vós, pois, que quereis julgar esta grande causa, tomai para isto a sabedoria de Salomão. Entre essas diferentes sociedades para as quais a verdade é um objeto de litígio, como era aquela criança entre as duas mães, quereis saber a quem adjudicá-la. Pedi que vos deem uma espada, fingi cortar, e examinai as caras que farão os pretendentes. Haverá vários que se resignarão, que se contentarão da parte que vão ter. Dizei logo: essas não são as mães. Há uma cara, ao contrário, que se recusará a toda composição, que dirá: a verdade me pertence e eu devo conservá-la inteira, eu jamais tolerarei que ela seja diminuída, partida. Dizei: esta aqui é a verdadeira mãe.


Sim, Santa Igreja Católica, vós tendes a verdade, porque vós tendes a unidade, e porque vós sois intolerante, não deixais decompor esta unidade. É este, meus irmãos, nosso primeiro princípio: a religião que desce do Céu é a verdade, e por consequência, ela é intolerante quanto às demais doutrinas.

Não nos pedi pois a tolerância em relação às doutrinas. Encorajai ao contrário, nossa solicitude em manter a unidade do dogma, que é o único laço da paz sobre a terra. O orador romano disse: a união dos espíritos é a primeira condição da união dos corações. E este grande homem faz entrar na definição mesma da amizade a unanimidade de pensamento em relação às coisas divinas e humanas: Eadem de rebus divinis et humanis cum summa charitate juncta concordia.

Nossa sociedade é sujeita a mil divisões; nós nos lastimamos disso todos os dias. De onde vem este enfraquecimento das afeições, este resfriamento dos corações? Ah! Meus irmãos, como seriam os corações aproximados onde os espíritos estão tão distantes? É porque cada um de nós se fecha no amor de si mesmo. Queremos pôr fim a essas dissidências sem número que ameaçam destruir todo espírito de família, de cidade e de pátria? Queremos não ser mais estrangeiros, adversários e quase inimigos uns dos outros? Voltemos a um Símbolo e nós reencontraremos logo a concórdia e o amor.



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O Perigo da
Confraternização
Universal das Religiões

Dois mil anos atrás, já se havia empreendido, às margens do Mediterrâneo, a edificação de uma espécie de Panteon. Os cristãos foram cordialmente convidados a colocar ali uma estátua de Jesus, que se acotovelaria com as de Júpiter, Mitra, Osíris, Atis, ou Ammon. A recusa dos cristãos é a chave mestra da história… Ninguém pode compreender o mistério da Igreja, ninguém está em sintonia com a fé dos primeiros tempos, se não avaliar que o mundo esteve então muito perto, de perecer na confraternização e na compreensão mútua de todas as religiões...”.


Fonte: Chesterton, “O Homem Eterno”.


terça-feira, 15 de outubro de 2019

ANTIGAS HERESIAS, QUE LEMBRAM AS NOVAS.


O Montanismo
(Heresia do séc. II-III)

Uma doutrina de todo ponto contrária ao gnosticismo e tão exagerada como ele, formulou-se no Montanismo. Assim como o gnosticismo tinha substituído aos fatos históricos e às ideias reveladas do Evangelho as extravagâncias do pensamento e as fantasias da imaginação, assim também o Montanismo pretendeu que a objetividade do Cristianismo devia absorver completamente o indivíduo com o seu pensamento e vontade. Só a inspiração pode dar ao homem uma certeza pessoal e verdadeira. Daí o caráter exterior da seita, que ameaçava transformar o Cristianismo num monaquismo exagerado, do mesmo modo como o gnosticismo o convertera em uma teologia mística.


Montano, seu fundador, nascido em Pepusa, na Frígia (pelo ano de 170 d.c.), provavelmente, antigo sacerdote de Cibele, logo que foi recebido no seio do Cristianismo, apresentou-se como inspirado pelo Espírito Santo, como o órgão mais poderoso do Paráclito, que até então aparecera, ameaçando com os castigos mais severos e mais próximos aqueles, que se insurgissem contra ele e o perseguissem. A inspiração, de que Montano se dizia dotado, era só momentânea; eram uns como arrebatamentos passageiros, que lhe roubavam toda a reflexão e consciência de si mesmo. “Eis o Deus, eis o Espírito Santo, que fala”, exclamava Montano nos seus êxtases proféticos (necesse est excidat sensu). Mas o viver do pretendido profeta estava bem longe de se assemelhar à vida pura e celeste dos que, nos tempos Apostólicos, recebiam os dons da visão e da profecia. Suas revelações tinham principalmente por objeto preceitos morais muito rigorosos, cuja realização levaria a Igreja à sua idade madura e viril. Era preciso renunciar a toda a atividade científica, evitar todos os gozos terrestres e procurar o martírio. A impureza, o assassínio, as segundas núpcias excluíam para sempre da Igreja. O espírito de profecia devia ser permanente na verdadeira Igreja do Novo Testamento, assim como o tinha sido na do Antigo; e os discípulos de Montano eram os seus depositários e seus órgãos. Dos Apóstolos, esse dom passara para Ágabo, Judas, Silas, para as filhas do Apóstolo Filipe em Hierápolis, para Ananias de Filadélfia, para Quadrato, para Montano e para as duas santas mulheres Priscila e Maximila. Pretendendo conservar a Doutrina da Igreja Católica (Tertull., de Virginib. Veland., c. 2), Montano dizia: “A moral carece de se aperfeiçoar; deve tornar-se mais rigorosa; o próprio Deus mostrou bem claramente esta gradação, passando do Velho para o Novo Testamento, através das instituições e dos meios de salvação progressivos de um e outro”. Os Bispos católicos reunidos em diversos Sínodos opuseram-se a este espírito de ilusão e de mentira, a este rigorismo moral. Declararam Montano e as duas mulheres “falsos profetas, possessos” e quiseram submetê-los aos exorcismos eclesiásticos. Então, Montano e seus aderentes separaram-se da Igreja Católica, e os Montanistas, Perpusianos ou Catafrígios, constituíram uma igreja própria na Ásia e na Frígia, sua sede principal, espalharam-se pelo Ocidente. O altero Tertuliano foi seduzido na África (por volta de 205) pela severidade destes Princípios morais, até o ponto de expor com maior clareza o que Montano entrevia em sua fantástica imaginação, e tornar conhecido o erro dogmático do Montanismo, que negava a cooperação do Espírito Santo na Obra de Jesus Cristo (cfr. Dieringer, Sist. dos fatos divinos, T. II, p. 206; Tillemont, T. III, pp. 211-220). “Cristo, dizia ele, prometendo aos Apóstolos a descida do Espírito Santo, não queria por certo significar por esse modo que a revelação não estava completa n’Ele e por Ele, porque diz positivamente: ‘Ela receberá do que é Meu e vo-lo anunciará (Jo. 16, 13-14; cfr. XIV, 26; XV, 21); Ele vos dará testemunho de Mim e vos fará lembrar tudo o que Eu vos tenho dito’; isto é, que o Espírito Santo devia explicar, desenvolver e acomodar ao mundo o que Jesus Cristo já tinha ensinado”. Mas Tertuliano, interpretando mal as palavras do Salvador: “Ainda tenho muitas coisas que dizer-vos, porém, não as podeis compreender agora” Jo. 16, 12), pretendia que era passando o tempo em que Jesus Cristo tomava em consideração a fraqueza dos homens; que o Espírito Santo tinha descido sobre Montano e as duas profetisas; que tinha completado a revelação interior para elevar a vida humana à sua perfeição, e que por consequência aos fiéis corria o imperioso dever de observarem os novos mandamentos do Espírito Santo.


Os católicos mostraram-se pouco dispostos a abraçar este erro, já condenado por muitos Sínodos reunidos na Ásia Menor desde os tempos Apostólicos. Os Montanistas deram-lhes o nome de ‘carnais’, ao passo que a si próprios se chamavam ‘espirituais’. Apelaram para Roma, confiados nas recomendações dos Confessores de Lião e de Viena. O Papa (Eleutério ou Vítor?), sendo iludido, já se mostrava favorável a esta doutrina, quando o Confessor Praxeas, vindo apressadamente a Roma, lhe descobriu todos os erros, e o obrigou a rejeitá-los. A sua polêmica tornou-se então ilimitada e febril, e chegaram ao extremo de repelir a Autoridade Doutrinal da Igreja Católica (Tertull., de Pudicitia, c. 21, p. 744).

O gnóstico egípcio Hieracas (Epiph. Haer. 67) desenvolveu princípios de um rigorismo e severidade ainda mais exagerados do que os dos Montanistas, com quem aliás tinham muitas afinidades.

Uma seita contrária ao iluminismo dos Montanistas nasceu da polêmica apaixonada, que eles excitaram. Esta nova seita, menos numerosa, não só negava o dom de profecia dos Montanistas, mas todo e qualquer dom do Espírito em geral. Tão superficial na doutrina, como exagerada na reação, rejeitou o Evangelho e o Apocalipse de São João, porque os Montanistas lançaram mão deles para fundamentar a sua opinião acerca do Espírito Santo e o seu ‘chiliasmo’ chegou a combater a Divindade de Cristo e as relações do Verbo Divino (Logos) com a natureza humana, de onde lhes veio o nome irônico de Aloges (cfr. Hèfélé, Os Aloges e suas relações com os Montanistas – Revista trim. de Tub., 1851, p. 564 ss), dado por Santo Epifânio. Eram anti-montanistas, porém, antes de tudo, inimigos da Divindade do Verbo”.


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Fonte: Dr. João Alzog, Professor da Universidade de Friburgo em Brisgau, “História Universal da Igreja”, Tom. I, 2º Período, Part. II, Cap. II, Art. LXXIII, pp. 199-201. Trad. de José Antônio Freitas; Ernesto Chardron, editor. Porto. 1882.


Obséquios que devemos fazer a Maria, por nos granjear, o Afeto do seu Sagrado Coração.


1. Ter afeto especial à virtude da castidade por amor de Maria. Assim, por lhe serem agradáveis, tanto amaram esta virtude Santo Eduardo, Santo Aleixo, Santo Eleazar, e outros inúmeros Santos. O Bem-aventurado André de Chios, em uma perigosa enfermidade, tendo feito à Virgem uma promessa, de viver castamente, se Nossa Senhora lhe restituísse a saúde, de súbito ficou bom, e se vestiu todo de branco, para dar público testemunho da graça recebida, e do compromisso, que com a Rainha das Virgens assumira, de viver em pureza.

2. Venerar as imagens de Nossa Senhora. Fácil é praticar este obséquio para com a Virgem, cujas imagens frequentemente se nos deparam; e com isto muito se apraz a Rainha do Céu. Uma jovem que se educava em um mosteiro de Bolonha, viu que, quantas vezes as monjas se inclinavam passando por uma imagem de Nossa Senhora, tantas lhe depunham no seio uma rosa: pelo que se deliberou a fazer-se freira. (March. Diario, 25 Fever.)

3. Termos em nossos aposentos as imagens da Virgem, ou trazê-las conosco. O Demônio tanto teme disto que, conforme refere o segundo Concílio de Nicéia, prometeu a um ermitão, que não mais o tentaria em desonestidade, se ele tirasse da cela a imagem de Maria. Luiz, o Pio, imperador, trazia sempre consigo uma imagem da Mãe de Deus; e indo à caça, enquanto se divertiam os da sua comitiva, ele se ajoelhava ante a sagrada efigie.

4. Saudar a Virgem com cinco Salmos, cujas primeiras letras formam o Nome de Maria. E são:

O cântico Magnificat; o salmo 119 – Ad Dominum cum tribularer; o salmo 118 – Retribue servo tuo; o salmo 125 – In convertendo; e o salmo 112 – Ad te levavi oculos meos.

O Bem-aventurado Joscione todos os dias praticava esta devoção; e depois da morte lhe nasceram cinco rosas, duas nos olhos, duas nos ouvidos, e uma na boca, cada uma das quais tinha impresso sobre as folhas a primeira sílaba dos sobreditos salmos. Tanto à Santa Virgem agradou esta santa alma com semelhante obséquio!

5. Ensinar às criancinhas louvarem e invocarem Maria. São Francisco de Bórgia e o Bem-aventurado Luís de Gonzaga tiveram esta felicidade – que as primeiras palavras que aprenderam a proferir, foram os nomes de Jesus e de Maria; e o Bem-aventurado Luís, ainda pequenino, ao subir uma escada repetia em cada degrau este santo Nome.

6. Tomar como armas de defesa o santo Nome da Virgem. A venerável Jacinta Marescotti costumava escrever o santo Nome de Maria em alguns pedacinhos de papel, e, enrolando-os, os engolia, como que desejando pô-los em seu coração. São Edmundo, indo ao seu leito para dormir, com o polegar traçava na fronte o Nome de Jesus e de Maria. Ao menos não entreis a dormir sem terdes invocado um e outro destes Nomes sacrossantos.

7. Recitar devotamente a antífona: “Beata viscera Mariae Virginis, quae portaverunt aeterni Patris filium, et beata ubera quae lactaverunt Christum Dominum – Bem-aventurada as entranhas da Santíssima Virgem, Nossa Senhora, que carregaram o Filho do Eterno Pai; e Bem-aventurados os virginais seios que alimentaram a Jesus Cristo, Nosso Senhor”. Um clérigo, que durante muitos anos perseverara nesta devoção, caiu depois enfermo, e a tal extremidade chegou que enlouquecia de dor, e com furor tamanho que lacerava a própria língua; quando, aparecendo-lhe a Virgem Santíssima, com algumas gotinhas do seu virginal leite o refrigerou, lhe restituiu a saúde, e o deixou submerso em um mar de celestiais doçuras; pelo que, por gratidão, completamente renunciou ao mundo, e se fez monge. (P. Barry, Paraíso, 4 de Fevereiro)


Fonte: Rev. Pe. João Pedro Pinamonti, S.J., “O Sagrado Coração de Maria Virgem proposto à Devoção dos Fiéis”, Consideração V, pp. 129-132. Duprat & Comp., São Paulo/SP, 1904.


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