BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

1ª Sexta-feira do Mês de Janeiro


A Devoção ao Sagrado Coração,
é uma Seta Reservada

Santo Agostinho diz, que Deus, para conquistar o amor dos homens, lançou-lhes nos corações diversas setas de amor. Quais são elas? São, primeiro, as criaturas, depois o Verbo Encarnado, e enfim, a Devoção especial ao Sagrado Coração, reservada para estes últimos tempos. Todas as criaturas que vemos, são setas de amor; Deus as fez para o homem, a fim de ganhar seu coração.

Por esta razão, Santo Agostinho parecia ouvir as vozes com que elas lhe pregavam o amor divino. Parecia-lhe que o sol, a lua, as estrelas, as montanhas, os campos, os mares, os rios, as flores, os frutos, os pássaros e os peixes lhe bradavam, uns após outros: Agostinho, ama a Deus; Agostinho, ama a Deus; porque Deus nos criou para ti, para te atrair ao seu amor.

Todos estes objetos são então outras tantas setas de amor, que devem inflamar o coração do homem; mas, como se não bastassem, o Pai eterno chegou ao extremo de nos dar seu próprio Filho, seu Filho muito amado. Deus amou tanto o mundo, diz Jesus a Nicodemos, que lhe deu seu Filho único!1 Oh! Que seta de fogo é Jesus Cristo! Como suas qualidades divinas são capazes de arrebatar todos os corações! Quando as filhas de Jerusalém perguntavam a esposa dos Cânticos pelas qualidades do seu Amado: Qualis est dilectus tuus?,2 ela respondia com açodamento amoroso: Meu amado é escolhido entre mil; é de uma beleza que excede todas as belezas. Sua cabeça é brilhante como o ouro puro; seu rosto é como um lírio branco e vermelho… E assim continua, empregando os emblemas mais expressivos para descrever a Jesus Cristo, até que, não sabendo mais que dizer, termina por estas palavras: Enfim, meu Amado é todo desejável; ele não é como os outros filhos dos homens: entre todos se distingue pela beleza;3 é tão perfeito, que não lhe falta perfeição nenhuma: é, em tudo, o mais belo. Com efeito, em qualquer situação de sua vida que Jesus Cristo se apresenta ao nosso olhar, parece-nos todo desejável, todo amável, seja como menino na lapa, seja como simples operário na oficina de São José, quer como solitário no deserto, quer como pregador do Evangelho, percorrendo a Judeia e Galileia; mas em lugar algum nos parece mais amável do que sobre a Cruz, onde O vemos com o Coração transpassado, e na Eucaristia, onde se digna dar-se a nós como Vítima, companheiro e alimento: Totus desiderabilis, talis est dilectus meus.

Esta seta ardente abrasou muitas almas que se consumiram de amor para com Deus; mas ai! Muitos corações contudo ficaram endurecidos. Que fez o Senhor? Apareceu à Bem-aventurada Margarida Maria, dizendo-lhe: Eis aqui o Coração que tanto amou os homens! O caçador reserva a sua melhor flecha para o último arremesso, a fim de melhor assegurar a presa que persegue; assim Jesus Cristo, entre todos os seus benefícios, guardou a devoção especial para com seu Sagrado Coração como uma seta de reserva, até estes últimos tempos: e agora Ele quer ela se propague por toda parte, como para dar o último golpe, e ferir com seu amor os corações dos homens: possuit me sicut sagittam electam, in pharetra sua abscondit me.4

É agora então, alma cristã, é agora o tempo de amar: É agora a época do amor: Ecce tempus tuum, tempus amantium.5 E qual será a prova de amor que ides dar a Jesus Cristo? Ah! Ides procurar-lhe agradar; ides tomar por vossa divisa: Agradar a Deus e morrer!… Oh! Quanto é belo agradar a Deus! Se quereis saber o que se entende por agradar a Deus, escutai o que escreveu o Padre Antônio Torres: “Significa agradar a esse Coração cheio de amor, ao qual devemos tanto; ser agradável aos divinos olhos sempre cheios de solicitude para nosso bem; satisfazer a esta vontade divina, sempre ocupada em nos amar. Agradar a Deus é o fim para que fomos criados, o fim a que devem tender todos os nossos desejos, a regra que deve dirigir todo o nosso proceder. Agradar a Deus é o que os Santos buscam antes de tudo; é o que levou tantas virgens a se consagrarem ao Senhor nos claustros; é o que tornou insensíveis às calúnias e às injúrias os que foram perseguidos; é o que tornou doces aos Mártires os tormentos e a morte mesma. Agradar a Deus é uma coisa tão excelente, que se deve preferi-la a todos os interesses, a todas as felicidades… Eis aí o que quer dizer: Agradar a Deus”.

Aquele que deseja agradar a Deus perfeitamente, deve tomar as resoluções seguintes:

1º Evitar toda falta venial voluntária.
2º Despir-se de todo afeto às coisas da terra.
3º Nunca deixar seus exercícios ordinários de oração e mortificação, quaisquer que sejam o enojo e desgosto que neles ache.
4º Meditar todos os dias na Paixão.
5º Submeter-se à vontade de Deus em todas as contrariedades.
6º Pedir sem cessar a Deus o dom de seu santo amor.

Prática

Tomarei por divisa: Agradar ao Coração de Jesus, e morrer. Seu amor para comigo é sem limites! Não chegarei a amá-lO também sem reserva? Isto alcançarei, se puser em prática os meios acima indicados.

Afetos e Súplicas

Meu Senhor, meu Deus, meu amor, meu tudo, sei que só Vós me podeis tornar feliz, nesta vida e na outra; mas não quero Vos amar para minha própria satisfação; todo meu desejo, no amor que Vos consagro, é contentar vosso divino Coração: quero que minha paz, minha felicidade, durante toda a minha vida, consista unicamente em unir minha vontade à vossa santa vontade, ainda que me fosse preciso sofrer para isto todos os males. Vós sois meu Deus, e eu sou vossa criatura; ah! Que posso desejar senão agradar a meu Soberano Senhor, a meu Deus, que me consagra amor de predileção? Ó meu Jesus, Vós descestes do Céu para levardes cá na terra vida pobre e mortificada por amor de mim; renunciou a tudo e não quero mais viver senão para Vos amar; todo meu prazer será Vos agradar. Eu Vos amo, ó meu amável Redentor, eu Vos amo com todas as minhas forças. Para que me permitais Vos amar, tratai-me como Vos agradar! Estou resolvido a Vos satisfazer quanto me for possível. Ó Mãe de Deus, tornai-me semelhante a Vós, não na glória, que não posso merecer no mesmo grau que Vós, mas na graça de agradar ao Senhor e de fazer como Vós sua divina vontade.

Oração Jaculatória

Dulcíssimo Coração de Jesus, feri meu coração com vosso santo amor.

Exemplo

A Madre Mélin tinha privado da comunhão a Bem-aventurada Margarida Maria na primeira sexta-feira do mês. O Senhor, para a punir, ameaçou-a com o tirar-lhe uma jovem professa de grande esperança: era a irmã Rosália Verchère. Ainda na flor da idade, pois tinha apenas dezoito anos, caiu de repente perigosamente enferma, e em poucos dias corria risco de vida. Margarida Maria se tinha posto em oração para pedir a Nosso Senhor seu restabelecimento, e foi-lhe respondido que esta irmã continuaria enferma, até que a superiora tirasse a proibição quanto à comunhão da primeira sexta-feira do mês. Não podendo resolver-se por si mesma a fazer conhecer as graças que recebeu do Coração do seu Amado, a Bem-aventurada recorreu a uma irmã antiga, Maria Madalena, em quem tinha grande confiança. Escreveu-lhe, pois, o bilhete seguinte: “No Sagrado Coração de Jesus Cristo, é que vos escrevo este bilhete, minha querida irmã, pois Ele assim o quer. Não vos surpreendais que me dirija a vós na extrema pena que padeço por causa de minha irmã Verchère. Esta manhã, levantando-me, pareceu-me ouvir distintamente estas palavras: Dize a tua superiora que ela me dá grande desgosto… proibindo-te a comunhão que eu te tinha mandado fazer nas primeiras sextas-feiras de cada mês, a fim de satisfazer, oferecendo a meu eterno Pai os merecimentos de meu Sagrado Coração, a sua divina justiça pelas faltas que se cometem contra a caridade. Visto como te escolhi para seres a vítima expiatória destas faltas, e ela te proibiu cumprir minha vontade nisto, estou resolvido a sacrificar para mim, como vítima, a irmã que está enferma”. A irmã Madalena não hesitou em aconselhar-lhe que declarasse tudo à superiora; a Bem-aventurada o fez, apesar de sua extrema repugnância. A Madre Mélin respondeu que lhe permitiria a comunhão na primeira sexta-feira do mês, mas contanto que ela rogasse a Jesus pelo restabelecimento da irmã Verchère. Margarida obedeceu, e a enferma, cuja morte parecia inevitável, saiu logo do perigo. Entretanto, a Bem-aventurada, que tomou as palavras da superiora como simples promessa, não ousava ainda recomeçar suas comunhões. Também a irmã Verchère, saída das portas do túmulo, continuava com grandes dores. Durante os cinco ou seis meses que ela esteve na enfermaria, a Bem-aventurada lhe fez frequentes visitas, e ao mesmo tempo conjurava ao Coração de Jesus que acabasse a cura que tinha começado. Mas Nosso Senhor, declarou positivamente que ela não seria atendida, senão quando tivesse recomeçado suas comunhões da primeira sexta-feira do mês. Pelo que Margarida resolveu-se a falar de novo à superiora; esta não quis resistir mais tempo a uma vontade do Céu tão claramente manifestada. Logo a irmã Verchère ficou completamente sã.


Fonte: O Sagrado Coração de Jesus segundo Santo Afonso de Ligório ou Meditações para o Mês do Sagrado Coração, a Hora Santa e a Primeira Sexta-feira do Mês, coligidas das Obras do S. Doutor pelo Padre Saint-Omer, Redentorista, Cap. A Primeira Sexta-feira do Mês de Janeiro, pp. 288-294. 5ª Edição, Tipografia de Frederico Pustet – impressor da S. Sé, Ratisbona, 1926.

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1Jo. 3, 16.
2Cânt. 5, 10.
3Salm. 41, 3.
4Is. 49, 2.
5Ez. 16, 8.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

ASSIM ERA O ENSINAMENTO CATÓLICO EM 1938. PARTE 2.


Sobre a Missa Exequial
para Pecadores Públicos

Revmo, Senhor.

Para orientação geral e tranquilidade de consciência peço o especial favor de responder no Boletim, se é lícito celebrar Missa – na forma do costume – isto é, exequial nos dois casos seguintes:

I

Uma verdadeira desgraça abalou, hoje, profundamente, toda a cidade. Em virtude de uma desavença sobre negócios particulares, desapareceram duas figuras de destaque nos círculos locais.

Cerca das treze horas, encontraram-se no Bar Selecto, à praça Coronel Salles, o Prefeito Municipal, sr. Elias Augusto de Camargo Salles, e o comerciante Vicente Cella. Ambos discutiram sobre as suas relações e chegaram a exaltar-se. E ante à surpresa coletiva dos que os circundavam, ambos se empenham em luta e sacaram das suas respectivas armas, fazendo fogo simultaneamente, um contra o outro. Foram disparados três tiros de cada arma. Todos atingiram ao alvo. Em consequência dos graves ferimentos que receberam, os contendores faleceram quase que incontinente.

II

José – casado em facie eclesiae – abandonado pela mulher legítima – mesmo pela falta de juízo da mesma – vive maritalmente com Joanna – solteira – disposto a legitimar sua união logo que a situação permitir, isto é – quando for viúvo – cumprindo no demais os deveres de católico – lamentando mesmo de não poder fazer antes. Voltando uma noite para casa, é apanhado por um trem da estrada de ferro, de maneira tal, que só se conseguiu reunir o corpo em fragmentos. Pode ter a Missa exequial em consideração da sua boa disposição e intenção?

Um Vigário da roça.



Respostas

O Revmo., consulente poderá encontrar bastante amplamente expostos nesta mesma Revista, ano de 1936, pág. 124-130, os princípios canônico-morais que regem esta matéria acerca da Missa exequial e sepultura eclesiástica dos públicos pecadores.

Limitamo-nos a responder aqui em poucas palavras quid sentiendum acerca dos casos propostos.

Quanto ao 1º caso, parece que este reveste todas as circunstâncias em que os canonistas proíbem a sepultura eclesiástica e consequentes Missas exequiais, de 7º, 30º dias, e aniversários, visto como os dois homens morreram in ipso actu peccati objective gravis, absque ullo paenitentiae signo, conforme o que o caso afirma.


Quanto ao 2º caso, apesar da vontade de José de sair do seu estado de pecador público, o fato é que sua vontade mostrou-se ineficaz e que o mesmo voluntariamente permaneceu nesse lamentável estado, e nele morreu, absque paenitentiae signo.

Pelo que parece-nos não haver sólido motivo de dúvida de que ao mesmo caso deva-se aplicar proibição da sepultura eclesiástica.

Alguém poderia, porém, objetar: Não teria José, talvez, antes de morrer, ao sentir aproximar-se o trem e com ele a morte, emitido algum ato de contrição e ter assim dado paenitentiae signa? Esta objeção parece-nos carecer de qualquer valor moral. Com efeito, convém aqui lembrar que o arrependimento deve ser público ou de fato, quando há dele muitas testemunhas, ou, ao menos, emitido em tal circunstâncias que possa tornar-se público, isto é, deve o mesmo ser conhecido ao menos por uma testemunha que dele possa dar fé; em caso contrário, o arrependimento não se presume. Se, pois, nem uma pessoa sequer tiver sido testemunha do arrependimento ante mortem de um público pecador, como no nosso caso, ao pecador que assim morreu, deve ser denegada a sepultura eclesiástica.

É a doutrina comum dos moralistas. Citaremos aqui apenas D’Annibal, I. 116: “… sufficit de his (de signis paenitentiae) unus testis. Verum, si non appareat paenitentes decessisse, arcendi sunt sepultura ecclesiastica; quia paenitentia, cum sit aliquid facti, non praesumitur”.

P. MARIO NOVARETTI.

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Fonte: Revista do Clero, Ano XIX, Janeiro de 1938, p. 31-32.


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