
SENTENÇA AFIRMADA POR DEUS
Sim!
Pois Ele já deixou afirmado esta sentença, quando, falando da
salvação gratuita de Israel e sobre a Nova Aliança, determina:
“Tu,
Jacó, não me invocaste, nem tu, Israel, fizeste caso de mim…
Antes me tornaste como que um escravo com os teus pecados, e me
causaste pena com as tuas iniquidades. (Apesar disso) sou eu, sou
eu mesmo que apago as tuas iniquidades por amor de mim, e não me
lembrarei mais dos teus pecados”.
E em outro lugar:
“E
ninguém ensinará mais ao seu próximo, nem ao seu irmão, dizendo:
Conhece o Senhor; porque todos me conhecerão, desde o mais pequeno
até ao maior, diz o Senhor; porque perdoarei a sua maldade, e não
me lembrarei mais do seu pecado”.
E
isto faz lembrar, também, daquela messiânica afirmação Divina
pelo
Profeta Ezequiel, quando diz:
“E
derramarei sobre vós uma água pura, e vós sereis
purificados de todas as vossas imundícies, e eu vos purificarei de
todos os vossos ídolos. E dar-vos-ei um coração novo, e porei
um novo espírito no meio de vós; e tirarei da vossa carne o coração
de pedra, e dar-vos-ei um coração de carne. E porei o meu Espírito
no meio de vós, e farei que andeis nos meus Preceitos, e que
guardeis as minhas Leis, e que as pratiqueis. E habitareis na terra
que eu dei a vossos pais; e vós sereis o meu povo, e eu serei o
vosso Deus”.
Na
Nova Aliança, o conhecimento de Deus será mais perfeito e mais
íntimo,
por isso, São Paulo volta a reafirmar esta mesma sentença Divina,
quando diz aos Hebreus:
“Porque,
depois de ter dito: Esta (é) a Aliança que eu farei com eles depois
daqueles dias, diz o Senhor: Porei as minhas leis nos seus corações,
e as escreverei nos seus espíritos; e jamais me lembrarei dos
seus pecados e das suas iniquidades. Ora, onde há remissão desses
(pecados), não é necessária a oblação pelo pecado”.
Então,
diante destas sentenças consoladoras que o nosso Bom Deus nos
revelou, devemos com o coração cheio de alegria e confiança,
cantar os louvores do Profeta-Rei, quando com o coração
despedaçado, pelo reconhecimento do seu pecado se expressou assim:
“Tende
piedade de mim, ó Deus, segundo a tua misericórdia; segundo a
multidão das tuas clemências, apaga a minha iniquidade.
Lava-me
inteiramente da minha culpa, e purifica-me do meu pecado…
Asperge-me
com o hissope, e serei purificado; lavar-me-ás, e me tornarei
mais branco que a neve… Aparta o teu rosto dos meus pecados, e
apaga todas as minhas culpas…”.
Com
essas piedosas e verdadeiras leituras, afirmamos que, sim,
quando Deus perdoa os nossos pecados, as nossas iniquidades, os
nossos crimes, sim,
Ele não se lembra mais deles.
A
Verdade Eterna se encarnou e tomou a nossa natureza humana, e pela
Sua sagrada boca proferiu esta espantosa sentença, que só o
verdadeiro e único
Deus poderia afirmar:
“Não
julgueis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim (para os)
destruir, mas sim (para os) cumprir. Porque em verdade vos digo que,
enquanto não passar o céu e a terra, não desaparecerá da lei um
só jota ou um só ápice, sem que tudo seja cumprido”.
E com mais ênfase, ainda,
afirma:
“Na
verdade vos digo que, não passará esta geração, sem que se
cumpram todas estas coisas. O céu e a terra passarão, mas as
minhas palavras não passarão”.
E
as palavras de Cristo são
estas, referindo-se ao procedimento de Deus com a alma arrependida de
seus pecados:
“… E,
levantando-se, foi para seu pai. E, quando ele estava ainda longe,
seu pai viu-o, e (esquecendo-se
dos seus erros) ficou movido de compaixão, e, correndo,
lançou-lhe os braços ao pescoço (do
filho pródigo), e beijou-o… E o pai (esquecendo
de toda a ingratidão de seu filho) disse aos seus servos:
Tirai depressa o vestido mais precioso, e vesti-lhe, e metei-lhe um
anel no dedo e os sapatos nos pés; trazei também um vitelo gordo, e
matai-o, e comamos e banqueteemo-nos, porque este meu filho estava
morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi encontrado… era,
porém, justo que houvesse banquete e festa, porque este teu
irmão estava morto (pelo
pecado), e reviveu
(pelo arrependimento sincero e pela força da graça divina),
tinha-se perdido (pela
tentação da ilusão dos prazeres do mundo) e foi
encontrado (pela infinita
misericórdia de Deus).

Talvez,
para nós, seja um pouco difícil de entender o incompreensível amor
de Deus por nós, mas, como
Ele disse ao Profeta Samuel: “não julgo o homem pelo
que aparece à vista; porque o homem vê o que está patente, mas o
Senhor olha para o coração”.
E externando ainda mais a sua bondade, afirma: “Porque
os meus pensamentos não são os vossos pensamentos; nem os vossos
caminhos são os meus caminhos, diz o Senhor. Porque, quanto os céus
estão elevados acima da terra, assim se acham elevados os meus
caminhos acima dos vossos caminhos, e os meus pensamentos acima dos
vossos pensamentos”. Sois Vós “que julgas segundo a equidade, e que sondas os afetos e os
corações”, porque
se “o Inferno e a perdição estão (patentes)
diante do Senhor; quanto mais o estarão os corações
dos filhos dos homens!”
Eis aí a incompreensibilidade do Amor de Deus, que esquece
inteiramente de todos os pecados que, arrependidos, são lançados na
infinita fornalha da
Misericórdia divina, que se acha escancarada no Sacramento da
Penitência. Arrependidos, peçamos perdão a Deus, que de Sua parte
esquecerá definitivamente os nossos numerosos pecados.
Mas,
agora, falando do Sacramento da Penitência, ensina
o Reverendíssimo Padre Fr. Frutuoso Hockenmaier, O.F.M.:
“suponhamos, caro amigo, que tenhais gravemente ofendido a Deus e
que, por causa dos vossos pecados, Deus vos deixe a escolha: ou
fazerdes a mais rigorosa penitência durante toda a vida ou serdes
entregue aos tormentos eternos do Inferno. Dizei-me qual seria a
vossa escolha? Se refletirdes bem, mais suportáveis sempre vos
parecerão os rigores da penitência do que o Inferno; pois, antes
sofrer por algum tempo que penar por toda a eternidade!
Ora,
a infinita misericórdia de Deus não exige tanto de vós. Por causa
dos merecimentos de Cristo, Ele se contenta com pequenos sacrifícios.
Não requer de vós senão a Confissão contrita e sincera de vossos
pecados, feita a um Sacerdote obrigado ao mais absoluto sigilo, para
purificar-vos da alma todas
as suas máculas.
Mal
havia o filho pródigo começado a humilde confissão de seus erros,
e já o pai não se lembra mais da sua ingratidão. Abraça-o e lhe
dá o ósculo da paz…
Assim procede Deus também
convosco, quando vos aproximais arrependido do Tribunal da
Penitência.
Adota-vos
de novo, dá-vos o vestido nupcial da graça santificante,
restituindo-vos o direito ao Céu. Não
se lembra mais das vossas culpas. Todos os vossos pecados mortais são
perdoados, e outrossim os veniais, se deles vos arrependeis. Deus os
apaga do Livro das Dívidas; estão para Ele como que sepultados para
sempre no esquecimento:
“Se o ímpio se converter de todos os pecados que
cometeu… certamente viverá, não morrerá. De todas as
transgressões que cometeu, não haverá lembrança contra ele”.
Mas
é preciso também lembrar que, “Separando-vos de Deus,
embora por um só pecado mortal, perdeis todas as boas obras e todos
os merecimentos adquiridos até então. Talvez tenhais servido a Deus
fielmente por muitos anos, ajuntando assim um riquíssimo tesouro de
méritos para o Céu; se, porém, cairdes num pecado mortal e,
permanecendo neste estado de desgraça, sairdes desta vida, Deus
não se lembrará de todas as vossas boas obras: uma vida sem
alegria e consolo, uma vida cheia de tormentos inauditos, a morte
eterna, serão vosso quinhão”.
Essa
realidade, do perdão definitivo de Deus, é crido e obedecido tanto
no Céu, como na terra e mesmo no Inferno. Esses pecados remidos na
Confissão sacramental, não serão levados em conta no Juízo
Particular e nem no Juízo
Final, porque são extintos definitivamente por Deus. Depois de
perdoados, nem o Demônio pode usá-los como matéria de acusação,
como veremos no exemplo à seguir.
E
para ilustrar essas linhas, vai aqui narrado um horroroso caso, mas
que, muito instrutivo e
edificante, para finalizarmos
com chave de ouro este brevíssimo
ensinamento.
Exemplo
Vicêncio,
Bispo belovacense, refere o seguinte caso, cuja admiração parece
dificultar, de algum modo, a sua veracidade.
Em
Roma – diz – viviam debaixo do santo jugo do Matrimônio duas
pessoas principais e de virtude afamada, as quais, havendo alcançado
de Deus, por orações, um filho, se afastaram com mútuo
consentimento. O marido se retirou a fazer vida monástica. Ficou a
mulher criando o filho, e com tão demasiado mimo, que não ousava
afastá-lo de seus peitos. Como cresceu, degenerou ou torceu o amor
natural em carnal. Foge a consideração de deter-se neste passo.
Enfim, aquela matrona, tida geralmente por exemplar de virtudes,
pariu um neto. E, por tapar um crime com outro, o sepultou em um
lugar imundo de sua casa. E logo, por não perder o crédito que
imaginava ter para o seu Confessor, foi continuando como antes com
ele, cometendo outros tantos sacrilégios quantos Sacramentos
recebia.
Naquele
tempo, apareceu em Roma um clérigo, que se deu a conhecer nela
brevemente por homem insigne em todas as ciências. Era oráculo
continuamente consultado em questões árduas, especialmente para
descobrir furtos, levantar figuras, prognosticar futuros e outras
coisas semelhantes. Estando um dia em presença do imperador e outros
muitos príncipes, e ocorrendo na prática louvar-se a vida exemplar
daquela senhora, começou ele
a gracejar, e logo a escurecer, e, finalmente, declarou o engano em
que estavam, contando o sucesso de que ela presumia não serem
sabedores, mais que Deus e a própria consciência.
Todos
se admiraram, muitos não creram, outros se escandalizaram. Então
ele, com segurança e ousadia, disse: “Acenda-se na praça
uma fogueira. Venha essa mulher à minha presença. Se a convencer do
seu crime, arda ela na fogueira; senão, arda eu”.
Pareceu
importante ao bem público e crédito da virtude, aceitar esta
proposta. Chamada a matrona, veio. E, como ouviu em presença de
tantos a enormidade do seu pecado, o coração e os olhos se cobriam
a si mesmos, estes de lágrimas, aquele de pavor e confusão. Porém,
mandada satisfazer e falar em sua defesa, respondeu brevemente que,
em caso tão grave, devendo com razão faltar-lhe o espírito e se
atar-lhe a língua, pedia prazo, para desafogar com Deus a sua dor e
constituí-Lo protetor da sua inocência; e, acabado o prazo,
responderia.
Foi
a desculpa não só aceita, mas louvada. E a matrona, aproveitando-se
da dilação em que a sua causa estava posta, correu
à oração e alcançou
uma inspiração que, a
ensinou e conduziu a escolher por meio de encobrir a Roma o que
estava público, e revelar
ao Confessor o que tinha encoberto.
Luciano, Sacerdote de letras e virtude, a
ouviu, quase não
ouvindo, pois mais chorava e soluçava. Tão
profunda contrição alcançou, que a penitência sacramental foi um
Pai Nosso, e a repreensão consistiu em lhe aconselhar que recorresse
ao amparo da Mãe de Deus.
Os
dias que restaram para o cumprimento do fatal prazo, gastou em bater
às portas da divina clemência, por meio de Maria Santíssima, com
quanta força pode. E lhe alcançou, para isso, esta
mesma Senhora, que não está na Sua mão, não condoer-Se dos
aflitos, não agraciar aos atribulados.
Chegou
o tempo. Ajuntou-se o consistório. Saiu a matrona em público. O
temor lhe derrubava os olhos em terra, a
fé lhe levantava o coração ao Céu.
Estava presente o acusador e, mandado propor de novo o seu libelo,
saiu dizendo que não
estava ali o réu. E, mostrando-lhe a mulher, olhou uma e outra vez e
afirmou que não era aquela,
antes começou a dar-lhe muitos elogios, abonando sua virtude. Logo,
como desesperado e confuso, espumava pela boca, torcia os olhos e
fazia outros medonhos gestos.
Os
circunstantes, não só pasmados, senão também amedrontados, se
benzeram. E, neste momento, o acusador, soltando um ar de cheiro
pestilencial, conheceram todos que era o Demônio, adversário comum
e acusador de nossas almas. Que assombro ficou
em todas as almas,
que alegria e agradecimento
no coração da matrona, que honra para Deus, que crédito para a
virtude, deixa-se à consideração dos que lerem.
Notas
Explicativas
do
referido caso.
I
–
Quando estes dois consortes pediam a Deus com lágrimas o bem da
fecundidade, longe estavam de considerar que a esterilidade era para
eles maior bem. Não olharam os lavradores tanto para as mudanças do
céu e influências das estrelas, se viram que a terra, em lugar de
frutos, lhes produzia espinhos. Pedir a Deus filhos – arriscada
petição que no seu despacho pode ter o seu castigo: quem sabe se
serão frutos que deleitam, se espinhos que magoam? Muitos Santos têm
a Igreja por filhos que foram filhos da oração. Porém, nem sempre
desta nascem Batistas e Samuéis. Importa pedirmos em nome de Cristo,
conforme Ele mesmo nos ensinou. E, sendo o Seu nome Jesus ou
Salvador, não pede em nome do Salvador quem não pede coisa ordenada
para a salvação. Que importava que estes casados carecessem de
fruto? Eram nobres e ricos? Fizeram-se pais dos pobres e titulares na
casa de Deus. Deixaram por herdeira a piedade, como fizeram também,
em Roma, João, patrício romano, e sua mulher, fundando a igreja de
Santa Maria Maior.
II
–
Então, desembaraçados do peso dos bens da fortuna, e livres ainda
do novo vínculo da natureza, podiam ambos caminhar mais depressa ao
retiro para servirem a Deus. Depois escassamente o pode fazer um só:
o outro fica no século, entre poucos anos e perigos muitos. Não sei
se acho que louvar neste afastamento,
tanto que não foi de ambas as partes. Doutro modo, o que fica, mais
parece que pretende a liberdade própria do que a perfeição alheia.
Os sagrados Cânones não permitem voar um dos casados à religião e
ficar outro no século, salvo se se atar ao voto de castidade, ou a
mulher passar de cinquenta anos e o varão de sessenta, sem suspeita
de incontinência. Mas não seria a religião o deserto para onde
este homem fugiu, senão outro qualquer retiro voluntário, que não
é por isso nem o mais seguro, nem o mais meritório.
III
–
Tratava a mãe a este filho com demasiada carícia e neste descuido o
foi levando da idade da inocência à da razão, e desta à da
malícia. Não se acautelava como aquele monge que, estranhado de
outra pessoa pelo desvio que mostrava a sua própria mãe, respondeu
perguntando-lhe que estudava. Disse ele que Lógica. E o monge
continuou: “Pois
sabe que o Demônio também é lógico e, como lógico, ensina a
fazer esta precisão: ‘mulher e não mãe’. Ainda mal que outras
vezes a tem já ensinado”.
Santo
Albano, Mártir, foi havido de um rei das partes setentrionais em uma
filha do mesmo rei, ficando, com perversa
monstruosidade, ele avô de seu filho, e ela mãe de seu irmão.
Mandemos ao fogo que reconheça diferença de pólvora prendendo
nesta e naquela outra não, quando ambas estão próximas. Nos pais
de famílias e nos superiores já nenhuma malícia é mal fundada,
sendo em ordem à cautela. A lei de Deus proíbe-lhes o juízo
temerário, mas a obrigação do ofício lhes impõe a vigia
cuidadosa. Do amor lascivo mais dista o amor espiritual do que o
natural, e, contudo, quantos corações que, se pegava o fogo do
espírito e caridade, vieram depois a pegar-se o fogo infernal da
concupiscência?
IV
–
Sepultou o filho incestuoso em um lugar imundo… e o segredo também,
porque o sepultou em seu coração. Fiou-se do Demônio para o
pecado, não se fia de Deus para o perdão. O incesto tapou com o
parricídio, o parricídio com o sacrilégio, muitas vezes repetido.
Isto é o que, na exposição de São Gregório, disse
Isaías: que um vício chamaria por outro vício (pilosus
clamabit alter ad alterum).
Oh, cega, buscas escuridade onde tuas fealdades não apareçam?
Esconde-as no peito de um Confessor e fecha-as com o selo inviolável
de um Sacramento: Pro
anima tua ne confundaris dicere uerum: est enim confusio adducens
peccatum, et est confusio adducens gloriam et gratiam.
Quando o negócio não topa em menos que na salvação da tua alma,
porque te hás de envergonhar de descobrir a verdade nos ouvidos de
um Confessor? Adverte que, assim
como o pecado cometido causa vergonha, assim a vergonhar de confessar
o pecado causa outro pecado.
Logo, se por causa da vergonha não te confessas, e não te
confessando incorres em maior pecado e, por conseguinte, maior
vergonha, por amor da mesma vergonha devias confessar-te. E esta
mesma confusão que, vencendo-te, causa em ti novos pecados e maior
Inferno, vencendo-a tu, causará graça e glória maior: graça como
fruto do Sacramento, glória como fruto da graça (est
confusio adducens gloriam et gratiam).
V
–
Quem duvida que estas e outras muitas razões proporia o Anjo para
render aquele coração? Mas
estava nele empolgada a mão de um forte inimigo e a opinião boa em
que se considerava no conceito dos Confessores. Que dirão de mim? Em
que conta ficarei com eles? Que razão tão grosseira e por
desbastar! Que haviam de dizer os Confessores? Que não era mais
valente que Sansão, nem mais sábia que Salomão, nem mais justa que
Davi, nem mais amante de Cristo que Pedro. E todos estes caíram
miseravelmente. Que haviam de dizer? Que a estátua da sua virtude se
arruinou, porque, enfim, tinha os pés de barro; porém, que de novo
podia levantar-se e crescer mediante a virtude de Cristo, não em
forma de estátua fantástica, senão de monte firme e assentado.
Diriam que a sua natureza era frágil, pois caíra; porém, que a sua
contrição era sólida, pois se levantava. Diriam que buscava a
virtude verdadeira e não a suposta, pois, a troco de parecer bem a
Deus, não reparava em parecer mal aos homens. E, dado que a
prudência lhes faltasse para o julgar assim, mais barato lhe saía o
Céu comprado por afrontas, do que a honra pelo Inferno. Mas o mesmo
pecado gera trevas que escurecem a razão.
VI
–
Pro esta e outras muitas causas importa que os Confessores não
mostrem fazer conceito da virtude dos seus penitentes, principalmente
mulheres, nem estranhem as suas faltas ordinárias, nem lhes demandem
maior perfeição do que o Espírito Santo lhes comunica… Que os
frutos de uma alma boa são como os de uma árvore, que, não se
maduram a puro amassar
com os dedos, senão com os raios do sol, lenta e eficazmente.
VII
–
Estando, pois, esta mulher enferma e inchada de hipocrisia, como
outros o estão de hidropisia, e não lhe aproveitando os remédios
mais brandos, ordenou o Médico celestial outro remédio mais forte:
mandou que o abrissem para vazar o humor corrupto, isto é, permitiu
ao Demônio que descobrisse o seu pecado.
VIII
–
Apareceu este em figura de eclesiástico para fundar melhor a opinião
de douto e verdadeiro. Ostentava-se universal nas ciências, porque,
havendo perdido todos os dons da graça, que pertencem a fazer a
vontade reta, lhe ficaram somente os da natureza, que pertencem ao
entendimento sutil. E, pelo apetite natural que o homem tem de saber,
engana o inimigo por esta via a grande parte do mundo, desde que, no
princípio dele, lhe saiu bem aquela tentação: Eritis
sicut Dii scientes bonum et malum.
Mas, com toda a sua ciência, ignorou um ponto que a mais vil
criatura lhe pode ensinar, como lhe lançou em rosto São Miguel:
Quis sicut Deus
(quem pode comparar-se a Deus).
IX
–
Descobriu-lhe os pecados publicamente. Justa pena, que a confusão
que recusou padecer para com um Sacerdote que se havia de calar, por
meio de outro fingido Sacerdote a padeça em presença de tantas
pessoas. O que o inimigo pretendia com isto era infamar a virtude e
desesperar a pecadora e abreviar-lhe a vida, temendo da sua emenda.
Por isso, apressa tanto a acusação e logo a sentença, e esta de
fogo, para que aquela alma passe de um incêndio temporal a outro
eterno.
X
–
Sujeita-se ao talião, se não provar o delito. Mas não era o
partido igual, porque o espírito réprobo já não podia deixar de
arder para sempre. E esta pecadora, com um pêsame de coração e um
Pai Nosso de penitência, certamente se livra da culpa e facilmente
se podia livrar da pena.
XI
–
Prudentíssima eleição foi a de tomar tempo para resolver-se. O
mesmo Deus, para fazer todas as coisas, fez primeiro o tempo; e,
quando houver de castigar o mundo sem misericórdia, jurará um Anjo
em Seu nome de não haver mais tempo (quia
tempus non erit ultra).
Perguntemos
aos moradores do Céu e aos encarcerados do Inferno, quanto vale o
tempo. E todos responderão, que tanto como a eternidade. Quantas
almas, por um instante mais ou menos de vida, vêm ou não vêm a
Deus, enquanto for Deus!
XII
–
Recorre à Virgem Mãe? Grande sinal de salvação!…, porque esta
Senhora é sinal grande que não aparece no Céu, senão para nos
guiar para o Céu (signum
magnum apparuit in Caelo, mulier amicta sole).
Se não houvesse criminosos, inútil era haver cidade de refúgio.
Mais
fácil parece ao pecador desconfiar de Deus do que de Maria
Santíssima, porque, suposto que das enchentes de misericórdia, esta
é somente o cano e Deus a Fonte, todavia, em deus consideramos mão
direita e mão esquerda, mansidão de cordeiro e sanha de leão. A
Maria está cometido só o reino da clemência. In
manibus eius
– diz São Pedro Damião – sunt
thesauri miserationum Domini.
Todos cabem debaixo do Seu manto, desde que coube o imenso Deus. E
quem não terá confiança com a Pomba, se a pomba não tem fel, e
até no bico, porque não se presuma ser arma, traz um ramo de
oliveira – anúncio da paz, símbolo da misericórdia? Ó Senhor,
se a devoção com vossa Mãe Santíssima é sinal de salvação,
dai-me este sinal, fazendo-me filho da que se nomeou por vossa
Escrava, e escravo da que nomeastes por vossa Mãe! Dai-me este sinal
para o bem da minha alma e confusão dos inimigos que me aborrecem!
Saluum fac filium
ancillae tuae. Fac mecum signum in bonum ut uideant qui oderunt me et
confundantur.
XIII
–
Para encobrir esta mulher seus pecados ao mundo, os descobriu ao
Sacerdote. Mal os poderia desmentir em público, se não os
confessasse em segredo, porque as Chaves da Igreja, abrindo a boca do
réu, fecham as do acusador; e o mesmo Cristo que recebe a Confissão
de Madalena, reprime a murmuração dos Fariseus.
XIV
–
Tanto que mudou de consciência, mudou também de rosto. Desconhece o
mesmo lince, porque já não era filha sua. Caiu-lhe a lepra, porque
se mostrou ao Sacerdote: era monstro, já é formosíssima. E qual
foi a causa da mudança? Confessionem
et decorem induisti.
Despindo as culpas pela Confissão delas, vestiu-a Cristo, e logrou
efetuada aquela promessa divina: Si
fuerint peccata uestra ut coccinum quasi nix dealbabuntur.
Para haver formosura diante de Deus, diante do mesmo Deus há de
haver primeiro Confissão: Confessio
et pulchritudo in conspectu eius. Ama confessionem
– diz São Bernardo sobre estas palavras – si
affectas decorem. Re uera
ubi confessio, ibi pulchritudo, ibi decor.
Se desejas, alma – diz o Santo –, parecer formosa aos olhos de
Deus, não receies parecer feia aos olhos do Confessor: não há
formosura, não há graça onde não há Confissão.
XV
–
É verdade que cada mudança da mulher foi espiritual, e mais da
consciência que do rosto. Mas, ainda falando da mudança exterior,
alguma sai ao rosto participada do espírito.
Recusava
um penitente fazer Confissão Geral com meu pai São Filipe Néri, e,
por orações suas, e ilustrado, se moveu a fazê-la com outro
Sacerdote. Vindo logo à presença do Santo, que não o sabia, este
lhe disse: “Filho,
tu estás mudado de cara”.
É
o rosto espelho da alma, e a alma o é de Deus. E assim, da luz de
Deus reverberam alguns reflexos na alma, e da alma no rosto. E os
varões ilustrados têm aguçada a vista para perceber mudanças a
nós outros insensíveis.
XVI
–
Os avisos principais que este caso nos ensina, são os seguintes:
Primeiro,
que peçamos a Deus com resignação, se for para honra Sua e
salvação nossa.
Segundo,
que nas matérias de castidade tenhamos suma cautela.
Terceiro,
que nos envergonhemos dos pecados da Confissão e não da Confissão
dos pecados.
Quarto,
que, no patrocínio da Virgem, cresça em nós a confiança, quanto
crescer a tribulação.
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