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Da esquerda para direita: Dom Faure, Dom Tomás e Dom Williamson, após a sagração. |
23 março, 2016
No último sábado, 19, conforme anunciado por Fratres in Unum,
ocorreu a sagração episcopal de Dom Tomás de Aquino, 62, prior do
Mosteiro Beneditino – não reconhecido oficialmente pela Igreja Católica –
da Santa Cruz, em Nova Friburgo, RJ. Com efeito, realizada um ano após a
sagração de Dom Jean-Michel Faure, no mesmo local, o movimento
conhecido como “Resistência” ganhou seu terceiro bispo. Materializada na
União Sacerdotal Marcel Lefebvre (USML), fundada em 15 de julho de
2014, ela conta hoje também com cerca de 60 sacerdotes espalhados pelo
mundo e com um seminário, iniciado em 03 de outubro de 2015, na cidade de Angers, França, que tem como responsável Dom Faure.
Antes do acontecimento, o bispo diocesano de Nova Friburgo se pronunciou:
Nova Friburgo, 18 de março de 2016
NOTA OFICIAL
Ao Clero, religiosos e fiéis leigos da Diocese de Nova Friburgo
Tendo tomado conhecimento da iminente
celebração de mais uma ilegítima ordenação episcopal no Mosteiro da
Santa Cruz, em nossa amada Diocese de Nova Friburgo faz-se necessário
mais uma vez lembrar alguns aspectos importantes.
Afirma-se “ilegítima” porquanto será
realizada sem o necessário mandato apostólico de Sua Santidade Papa
Francisco. No entanto, como temos comprovado, nem todos atendem às
súplicas e propostas generosas de diálogo e empenho pela comunhão plena.
A ordenação episcopal ora em causa será
mais uma desobediência ao Papa em matéria gravíssima, num tema de
importância capital para a unidade da Igreja, a ordenação dos Bispos,
mediante a qual é mantida sacramentalmente a sucessão apostólica. Sem
dúvida, mais esta ordenação manifesta a contumácia da desobedência que
acarretou a excomunhão há um ano atrás, tanto do Bispo Ordenante Richard
Williamson quanto do Bispo que receberá a ordenação, Dom Tomás de
Aquino, atual “Prior” do referido Mosteiro.
Não se pode permanecer fiel rompendo o
vinculo eclesial com aquele a quem o próprio Cristo, na pessoa do
Apóstolo Pedro, confiou o ministério da unidade na sua Igreja.
Como Bispo de Nova Friburgo, cabe-me
exortar a todos os fiéis católicos para que cumpram o grave dever de
permanecerem unidos ao Papa na unidade da Igreja, e de não apoiarem –
sobretudo participando – de modo algum essa ordenação episcopal e suas consequências. Ninguém deve ignorar que a adesão formal ao cisma
constitui grave ofensa a Deus e comporta excomunhão prevista pelo Código
de Direito Canônico.
Penso poder garantir em nome de todo o
Clero, religiosos e fiéis leigos ao Sucessor de Pedro o Papa Francisco,
primeiro a quem compete a tutela da unidade da Igreja, a nossa filial
união e obediência. Também este fato será comunicado à Congregação para
Doutrina da Fé. De qualquer forma mais este ato ilegítimo e cismático
nos oferece a ocasião para refletir e renovar o empenho de fidelidade a
Cristo e a sua Igreja.
Finalmente, supliquemos incessantemente a
intercessão da Santíssima Virgem Maria, Mãe da Igreja, no sentido de
que o imperativo das palavras de Jesus na busca pela unidade seja uma
exigência que se renove a cada dia: Ut omnes unum sint!
+Edney Gouvêa Mattoso – Bispo Diocesano de Nova Friburgo
Abaixo segue testemunho do conhecido Prof. Carlos Nougué sobre Dom Tomás, que também foi reproduzido no Comentário Eleison no mesmo 19/03.
Esse testemunho relata a posição da “Resistência” de evitar qualquer
aproximação com Roma antes que ela se “converta” e condene os erros do
Concílio Vaticano II e da Missa de Paulo VI, posição diferente da de Dom
Bernard Fellay, que aceita aproximação e até a regularização, desde que
a Santa Sé permita a FSSPX não ceder em relação a esses pontos.
Miguel
Ferreira da Costa nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, em 1954. Até a
Faculdade de Advocacia, fez seus estudos no Colégio de São Bento do Rio
de Janeiro, onde tive a oportunidade de ser por um breve tempo seu
colega de classe. Fez parte do movimento tradicionalista e
antimodernista organizado em torno de Gustavo Corção e da revista Permanência;
teve início então sua vida de “fiel guerreiro da guerra pós-conciliar
pela Fé”, como escreve Dom Williamson. Começou, como dito, a cursar
Advocacia, mas abandonou-a para tornar-se monge beneditino, com o nome
de Tomás de Aquino, no mosteiro francês do Barroux, que tinha então por
superior a Dom Gérard; e foi ordenado sacerdote em 1980, em Êcone, por
Dom Marcel Lefebvre. Pôde então privar da amizade, do exemplo, dos
ensinamentos do fundador da FSSPX.
Veio ao
Brasil com um grupo de monges do Barroux para fundar o Mosteiro da Santa
Cruz, em Nova Friburgo, Rio de Janeiro/Brasil. Nesse ínterim, porém,
Dom Gérard, contra a instância de Dom Lefebvre, marchou para um acordo
com a Roma conciliar, contra o que se opôs também Dom Tomás de Aquino. A
separação foi então inevitável. O Mosteiro da Santa Cruz, com total
apoio e incentivo de Dom Lefebvre, tornou-se assim independente, ainda
que amigo da FSSPX. Com efeito, escreveu pouco mais ou menos Dom
Lefebvre a Dom Tomás em carta que tive o privilégio de ler: O senhor
deve reverência e consulta aos bispos da FSSPX, mas estes não têm
jurisdição sobre o senhor, que, como prior do Mosteiro, há de ter
autonomia.
Mas foi-se
tornando difícil a relação de Dom Tomás e seu Mosteiro com a FSSPX,
sobretudo com a aproximação desta à Roma neomodernista. Quando Bento XVI
publicou seu Motu proprio sobre o “rito extraordinário”, Dom Tomás de
Aquino negou-se a cantar na Missa de domingo o Te Deum pedido
por Dom Fellay para comemorar o documento papal, e, especialmente pela
“suspensão das excomunhões” pelo mesmo papa, escreveu Dom Tomás a Dom
Fellay uma carta em que dizia que não seguiria seus passos rumo a um
acordo com a Roma conciliar. Um tempo depois, aparecem no Mosteiro (sou
testemunha presencial disto) Dom de Galarreta e o Padre Bouchacourt para
dizer a Dom Tomás que ele teria quinze dias para deixá-lo; se não o
fizesse, o Mosteiro deixaria de receber ajuda e sacramentos (incluído o
da ordem) da FSSPX.
Escrevi a
Dom Fellay para queixar-me de tal injustiça, e recebi por resposta o
seguinte: “O problema de Dom Tomás é mental. Enquanto não deixar o
Mosteiro, este não receberá nossa ajuda”. Respondi-lhe: “Devo ter eu
também o mesmo problema mental, porque convivo há doze anos com Dom
Tomás e nunca o percebi nele”. Tratava-se em verdade de algo similar ao
stalinismo e seus hospitais psiquiátricos para opositores.
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19 de março de 2016 – Sagração de Dom Tomás de Aquino. |
Hesitou
então Dom Tomás: se deixasse o Mosteiro, seria a ruína deste com
respeito à Fé; se porém permanecesse, privá-lo-ia de toda a ajuda de que
necessitava. Foi então que veio em seu socorro Dom Williamson: o nosso
Bispo inglês escreveu uma carta a Dom Tomás em que assegurava ao
Mosteiro todos os sacramentos; poderia assim Dom Tomás permanecer nele.
Foi o suficiente para que todos aqui reagíssemos: foi o começo do que
hoje se conhece por Resistência, e que teve por órgão primeiro a página web chamada
SPES, hoje desativada por ter cumprido já o papel a que se destinava. O
Mosteiro passou a ser então centro de acolhimento para os sacerdotes
que, querendo deixar a FSSPX pela traição de seus superiores, hesitavam
porém em sair justo por não ter onde viver fora dela. Foi o lugar da
sagração de Dom Faure, e será agora o lugar da sagração do mesmo Dom
Tomás de Aquino Ferreira da Costa, meu pai espiritual e o amigo mais
entranhável que Deus me poderia haver dado. Sim, sou filho seu e do
Mosteiro da Santa Cruz, e foi aqui, neste cantinho do céu, que pude
sentir pela primeira vez o tão agradável odor da santidade.
Importante
notar como esse relato aponta a centralidade do Brasil (especialmente
do Mosteiro de Nova Friburgo) no contexto do movimento da Resistência,
haja vista que dois de seus três bispos foram aqui sagrados.
Críticas de tradicionalistas
Evidentemente, essa nova sagração realizada em Friburgo foi criticada pelos demais movimentos ligados à missa tradicional.
A
Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), da qual Dom Richard
Williamson é dissidente, alegou que tal ato não se justifica, tendo em
vista a existência dos bispos da própria FSSPX, que cumpririam a função
da manutenção da Tradição à margem da oficialidade da Igreja, segundo o
“estado de necessidade”.
Instituto
do Bom Pastor (IBP) e Montfort (isto é, atualmente Alberto Zucchi), por
sua vez, classificaram o ato como cismático, visto que sem autorização
papal e devido ao fato de que existem sim bispos hoje disponíveis para
ordenações tradicionais, como um Cardeal Raymond Burke e Dom Athanasius
Schneider, grandes amigos da TFP e de entes Ecclesia Dei. Dessa forma,
não haveria mais o já citado “estado de necessidade”.
Ignorando a
uns e outros, a Resistência responde não haver bispos que sigam sua
orientação, isto é, anti-Vaticano II e anti-Missa Nova, disponíveis no
momento, nem mesmo bispos dispostos a resistir ao que consideram erros
do Vaticano II até que Roma se converta às suas próprias posições. Além
disso, acrescentam, qualquer convivência com o modernismo é danosa, haja
vista as chamadas “traições” que atribuem a Dom Fernando Rifan e aos
demais institutos Ecclesia Dei, como a Fraternidade São Pedro e o IBP.
Com essa
atitude, na prática, eles realmente acabam por se isolar e sem ter quem
possa ordenar sacerdotes para a continuação de sua obra.
Diferentemente da FSSPX, a qual, apesar de também viver à margem da
oficialidade, tem seus próprios meios; e também dos demais institutos Ecclesia Dei
que recebem ordenações de bispos regulares. Portanto, afirmar
superficialmente que há bispos regularizados por aí ordenando segundo a
forma extraordinária é uma simplificação que não leva em conta as
divergências doutrinárias.
Donde a
pergunta: “estado de necessidade”? Há uma discussão interminável sobre
isso, haja vista a “elasticidade” com a qual esse tema é tratado no meio
tradicionalista. De fato, no momento, não há bispo que aceitaria
ordenar os padres da Resistência, do que decorre o entendimento deles de
que precisam, por “necessidade”, agir por conta própria para
sobreviver: Dom Faure já tem mais de 70 anos e precisa focar suas
atividades no seminário em Angers; Dom Williamson, por sua vez, está
querendo se recolher na Inglaterra, sua terra natal, dado o avanço de
seu Parkinson. O debate se estende sobretudo quanto ao entendimento do
que seria a “necessidade” aos olhos da Igreja, e não simplesmente quanto
a uma necessidade particular – discussão que deixamos aos
especialistas.
http://fratresinunum.com/2016/03/23/a-sagracao-de-dom-tomas-de-aquino/
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