Blog Católico, para os Católicos

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

segunda-feira, 8 de março de 2021

Elogio da Caridade.

 


*Descrevamos a caridade por palavras, já que não a vemos em lugar algum manifestar-se de forma concreta; pensemos em tudo o que se produziria de bom se ela estivesse por toda a parte em abundância. Não haveria necessidade nem de leis, nem de tribunais, nem de suplícios, nem de castigos, nem de nada de semelhante. Se todos amassem e todos fossem amados, ninguém faria mal a ninguém; assassinatos, guerras, questões, discórdias, rapina, atos de avareza, tudo o que é mau desapareceria; o próprio nome do mal seria desconhecido. Nem mesmo os prodígios não poderiam atingir semelhante resultado; mas, se não estivermos atentos, eles nos incitam À vaidade e ao orgulho. A caridade tem isto de admirável: ao passo que aos outros méritos costumam estar associados defeitos (à pobreza, o orgulho de ser pobre; à eloquência, a paixão doentia pela vanglória; à humildade, uma orgulhosa satisfação interior), a caridade está livre de todos os inconvenientes deste gênero, pois não poderíamos levantar-nos contra os que amamos. Para apreciar a virtude da caridade, suponde que não uma só pessoa, mas que todo o mundo ama. Ou então, se quiserdes, suponde inicialmente uma pessoa amada e uma pessoa que ama, mas que ama como se deve amar. Esta pessoa viverá na terra como se vivesse no Céu; gozará de uma calma constante, tecendo para si uma infinidade de coroas. Ela conservará a sua alma pura de ódio, cólera, inveja, orgulho, vanglória, desejos culposos, enfim, de todas as paixões e de todas as enfermidades. Assim como ninguém desejaria fazer mal a si próprio, ela não o fará ao seu próximo. O Anjo Gabriel ficará junto dela e a acompanhará sobre a terra. Assim é aquele que possui a caridade; aquele que realiza prodígios, cuja ciência é perfeita, mas não possui a caridade, em vão ressuscitará mil cadáveres, nunca chegará a realizar nada de grandioso, isolado de todos e não suportando sequer aproximar-se de nenhum de seus semelhantes. Foi por isto que o Cristo declarou que o sinal do perfeito amor é o amor ao próximo. “Se me amas mais que a estes, Pedro, disse Ele, apascenta minhas ovelhas”.1 Vedes como, ainda aqui, Ele deu a entender que a caridade está acima do martírio. Se alguém possuísse um filho bem-amado por quem estivesse pronto a sacrificar a vida, quem quer que amasse o pai, sem dar atenção ao filho, irritaria o primeiro; o pai não seria sensível ao amor que tivessem para com ele, pelo fato de seu filho estar sendo desprezado. O que é verdade com relação a um pai e seu filho o é muito mais com relação a Deus e aos homens, sendo Deus o mais amoroso dos pais. Por isso, depois de ter dito que o primeiro Mandamento era “amarás o Senhor teu Deus”,2 o Cristo acrescentou que o segundo era (e Ele declarou explicitamente “o qual é semelhante a esse”: “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Vede com que força Ele reclama esse amor, quase nos mesmos termos que antes. Ele dizia do amor que devemos a Deus: “de todo o coração”; Ele diz do amor que devemos ao próximo: “como a ti mesmo”; os dois são equivalentes. Se este Preceito fosse observado com exatidão, não haveria escravo nem homem livre; jamais se teria conhecido príncipe nem súdito, rico nem pobre, grande ou pequeno; não se teria conhecido o Demônio; eu não digo aquele que existe, mas mesmo que tivesse havido algo semelhante, ou mesmo cem, mil semelhantes, eles ficariam impotentes diante da caridade. A palha resistiria antes ao fogo que se lhe ateia que o Demônio à chama da caridade. Ela é mais sólida que uma muralha; mais firme que o diamante; imaginai uma matéria ainda mais sólida: ela a sobrepuja em solidez. Nem a pobreza nem a riqueza trunfam sobre ela; para melhor dizer, se existisse a caridade, não haveria pobreza, riqueza descomedida, mas apenas as vantagens de uma e de outra; da riqueza ficaríamos com a abundância; da pobreza, com a ausência de cuidados, sem termos que sofrer nem o temor produzido por esta, nem as inquietudes produzidas por aquela. Mas por que falo das vantagens da caridade? Pensai no bem que ela é si mesma, na alegria que proporciona, no deleitável estado em que ela mantém a alma; pois está aí o seu mérito singular. As outras formas de virtude não existem sem trabalho; o jejum, a temperança, as vigílias são acompanhadas pela inveja, pela concupiscência, pelo desdém; quanto à caridade, além das vantagens, ela proporciona a satisfação, sem nenhum trabalho; como uma abelha laboriosa, por toda a parte ela recolhe o que há de bom e o deposita na alma daquele que ama… Ela transforma a natureza das coisas; torna as tarefas penosas, leves e fáceis; faz-nos parecer fácil a virtude, e o vício a coisa mais amarga. Vede: gastar parece coisa desagradável; ela o torna um prazer. Na opinião de muitas pessoas falar mal do próximo é uma coisa agradável; a caridade faz com que elas o achem amargo, e agradável dizer bem dos outros. Nada nos é tão grato quanto louvar aquele que amamos. Há na cólera certa volúpia, mas não mais lá onde reina a caridade… Se vemos aquele que amamos cometer uma falta, gememos e nos lamentamos, mas esta aflição não está destituída de certa doçura. As lágrimas e a tristeza da caridade são mais doces que o riso e a alegria. Aqueles que riem não sentem tanto alívio quanto os que choram por seus amigos…


**A fé e esperança serão chamadas a deixar de existir quando possuirmos aquilo em que cremos, aquilo que esperamos. É isto que Paulo quer dizer, com as palavras: “Um objeto de esperança que se vê, não é mais um objeto de esperança; como esperar ainda o que se vê?” E noutro lugar: “A fé é a substância das coisas esperadas, a prova do que não se vê”.3 Estas virtudes, pois, devem desaparecer quando seus objetos aparecerem diante de nós. A caridade, pelo contrário, se exalta então ao máximo e se torna mais ardente. Isto é um novo elogio da caridade. Paulo não se contenta com o que disse precedentemente, e procura um outro louvor. Ele dissera que a caridade é um dom maravilhoso, um caminho eminente para o Céu; que, sem ela, os outros dons têm pouca utilidade; ela descrevera a sua imagem com riqueza de detalhes; agora quer fazê-la crescer de outra maneira, e mostrar-lhe a grandeza resultante de sua perenidade. Por isso ele disse: “Presentemente três virtudes permanecerão: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade”.4 Por que a caridade é a maior de todas? Porque as outras passarão.



Fonte: São João Crisóstomo, *Homilia XXXII sobre a I Epístola aos Coríntios, 5-6; e **Homilia XXXIV sobre a I Epístola aos Coríntios, 3.


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1Jo. 21, 15.

2Mat., 22, 37.

3Heb. 11, 1.

4I Cor. 13, 13.


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