Blog Católico, para os Católicos

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

O Protestantismo Desmascarado



Os protestantes de todos os matizes estabelecem como princípio, que Deus concedeu a todos os homens o livre exame dos livros da Bíblia como meio de cada qual reconhecer com segurança a verdade religiosa, isto é, o que deve crer e praticar; que para este fim inspirou os autores destes diversos livros; e concede aos que os lerem a assistência do seu Espírito. Ora, este princípio é fecundo em toda a espécie de contradições.

§ 1º

Contradições Resultantes das Impossibilidades
Inerentes à Aplicação do Princípio.

I

É claro para todo o homem razoável que se Deus, infinitamente sábio, estabeleceu para toda a gente a prática do livre exame, havia de torná-la possível a todos. Mas, ao mesmo tempo, é certo que, durante muitos séculos, que precederam a invenção da imprensa, foi fisicamente impossível esse exame à grande maioria dos homens, seja porque existia apenas limitadíssimo número de manuscritos da Bíblia, seja porque a arte da leitura era mui pouco divulgada; ou porque a maior parte dos leitores, não conhecendo a língua original dos livros da Bíblia, achavam-se fora do estado de verificar a exatidão das traduções, ou de certificar-se da fidelidade daqueles que poderiam fazer-lhes a leitura. Primeira contradição.

II

É evidente, que devo usar do livre exame de modo racional, e por consequência, a minha primeira investigação será saber se os livros da Bíblia são ou não autênticos, e se a esse respeito merecem a minha confiança.

Mas, ao mesmo tempo, é certo que esta questão científica, supondo que não é superior às minhas forças, ultrapassou sempre as da grande maioria dos homens. É igualmente certo que, neste particular, não posso encostar-me à autoridade dos sábios, o que nunca se fez, porque não estão e nunca estiveram de acordo a tal respeito; e ainda sobretudo, porque o ato de nos regularmos pela autoridade dos sábios, equivale a abjurar o livre exame. Segunda contradição.

III

É evidente que, ainda supondo a autenticidade dos livros da Bíblia, demonstrada por mim e pela maior parte dos homens, tenho a examinar com eles se estes livros não foram interpolados, introduzindo-lhes fábulas e doutrinas errôneas no decorrer dos séculos. Mas, ao mesmo tempo, é certo que esta questão é insolúvel para eles e para mim próprio. Terceira contradição.

IV

É manifesto que supondo esta questão resolvida afirmativamente, por modo seguro, ainda me resta examinar se esses livros foram realmente inspirados por Deus, sem o que de nada me serviria ter a certeza da sua autenticidade e integridade.

Mas, também é certo, que não tenho meio algum infalível de segurar-me sobre esta inspiração, e que o mesmo sucede aos outros homens; porque se lhes dessem a ler, sem advertência prévia, um dos quatro livros da Imitação de Jesus Cristo e o Cântico dos cânticos, e que se lhes perguntassem qual dos dois é inspirado por Deus, não hesitariam em optar por algum dos primeiros. Quarta contradição.

V

É claro que era possível que esses livros fossem em parte inspirados no que é doutrinal, e deixassem de sê-lo na outra parte, que é histórica. Mas ao mesmo tempo é certo que não tenho critério algum infalível por onde possa discernir as partes inspiradas das que poderiam não o ser. Quinta contradição.

VI

Supondo mesmo a autenticidade, integridade e inspiração dos livros da Bíblia, e que disto haja certeza, não posso assentar as minhas crenças e as regras da moral senão comparando as diversas passagens dos diferentes Livros Sagrados uns com os outros, a fim de me apossar do verdadeiro sentido de cada um; explicar umas pelas outras e discernir o que é figurado do que é dito no sentido próprio, o que é Preceito do que só é recomendação ou conselho. Mas também, eu sou incapaz deste trabalho, e a maior parte dos homens não está para isso melhor habilitada do que eu. Sexta contradição.


§ 2º

Contradições Resultantes
da Origem e Consequências do Livre Exame.

I

É claro que teria sido indigno de Deus o escolher, para restituir a Igreja, fundada pelos Apóstolos, à sua pureza doutrinal e santidade primitivas, por meio deste princípio, homens cuja vida e caráter formassem com os mesmos Apóstolos um hediondo contraste, e que, além disso, privados de todas as cartas de crédito superior, não confirmassem a sua doutrina por algum fato sobrenatural.

É todavia certo que, Lutero e Calvino, que se supõe haverem recebido de Deus a missão de pregar o livre exame, como base fundamental da sua reforma, se apresentem no espelho da história, comprovada por escritos, dignos de toda a fé, um, como amigo de boa mesa, dado à embriaguez e à voluptuosidade, gracejador grosseiro, ou, para melhor dizer, chocarreiro imundo, orgulhoso, arrebatado, fogoso e insensato; o outro, menos vicioso, arrogante e desesperado, mas de caráter sombrio e altivo, maligno e cheio de agrura artificiosamente tranquila; áspero no seu trato, intolerante até à crueldade, déspota para com aqueles que o contradizem, não lhes poupando as injúrias mais afrontosas; ambos pregando com descaramento a inutilidade das boas obras, e confirmando a imoralidade desta máxima pelo seu repreensível comportamento. E por outra parte, não provaram a sua missão por qualquer ato miraculoso; e nem os seus aderentes lhes atribuem esse testemunho inegável de uma missão divina. Sétima contradição.

II

É evidente que um princípio, donde os seus autores têm deduzido imediata e logicamente uma consequência, que equivale à negação da liberdade humana, e à negação do princípio mesmo, é claramente falsa.

Mas também é certo, que Lutero afirma “ser o livre arbítrio apenas uma quimera, e que todos os nossos atos se fazem pela vontade de Deus, o qual torna as nossas ações necessárias e imutáveis”; que, segundo Calvino, cuja doutrina confirmou e desenvolveu Beza, o mais fiel e afamado dos seus discípulos, “a vontade de Deus faz a necessidade das coisas, e os maus não podem evitar a necessidade de pecar, que recebem de Deus mesmo1: o que destrói o princípio do livre exame, porque, como pode o homem examinar com liberdade, se esta lhe falta? Oitava contradição.

III

É manifesto que se o Espírito de Deus assiste os leitores da Bíblia, para lhes fazer conhecer exatamente o sentido dos textos, só pode inspirar a todos a mesma interpretação, porque não pode contradizer-se. Mas também é certo, que não acontece assim, porque grande número de passagens importantes da Bíblia são interpretadas em sentidos diametralmente opostos por uma multidão de homens, todos animados de boa fé. Nona contradição.

IV

É óbvio que Deus, infinitamente verdadeiro, devia escolher, para fazer conhecer aos homens com exatidão a verdade religiosa, um meio que devesse acautelá-los de caírem no erro, e por força de maior razão um meio que não fosse manancial inexaurível de antagonismos nas crenças.

Mas é incontestável que, desde a origem do Protestantismo, o livre exame só tem produzido divisões profundas, dúvidas insolúveis, cujo número cresce constantemente, de modo que os dogmas mais positivamente afirmados pelos autores deste sistema, a Trindade, a Divindade de Jesus Cristo, a Necessidade do Batismo, a Eternidade das Penas, são hoje negados ou postos em dúvida pelos adeptos desta doutrina. Décima contradição.

V

Deus, infinitamente Santo, devia escolher meios próprios para afastar os erros morais, assim como os erros dogmáticos.

Mas também é certo que, o meio, cuja escolha se supõe que Ele fizera, só foi bom para dar nascimento a uns e outros erros, porque os homens, usando do livre exame, podem racionalmente, tanto na moral como no dogma, interpretar a Bíblia em sentidos diametralmente opostos e deduzir dela as doutrinas mais abomináveis e infames, como é a Seita Protestante dos Mórmons, cujas doutrinas só podem revoltar as almas honestas. Décima Primeira contradição.

VI

Deus, essencialmente Uno e imutável nos seus pensamentos e vontades, não podia escolher, para fazê-los conhecer, um meio essencialmente fomentador de divisões e variações. – Mas também é certo que, o princípio do livre exame produz tantas divisões e variações, que M. Vinet, ministro protestante suíço, homem muito distinto, fez esta notável confissão: “Só se vê na Bíblia o que se quer ver, de modo que, na realidade, cada qual tem a sua Bíblia e tira dos seus textos os erros mais anti-bíblicos. Todas as aves do ar, desde a ave noturna até a águia, que ama o sol, fazem os seus ninhos nos ramos desta árvore imensa”.2 Décima Segunda contradição.

VII

É evidente que, é impossível que Deus me haja conferido o direito de todos os dias variar nas minhas crenças religiosas.

Mas é certo que, se Deus me concedeu a faculdade do livre exame, deu-me o direito de crer hoje com Lutero na Presença Real de Jesus Cristo na Eucaristia; e amanhã, com toda a evidência lógica, com os calvinistas, que só aí está figurado; que Ele me deixou entregue a todas as oscilações de uma razão incerta e de uma imaginação inconstante, sem me fornecer prova alguma da sua assistência pró ou contra esta ou aquela interpretação da Escritura. Décima Terceira contradição.3

VIII

É óbvio que, em virtude do livre exame, posso crer na divindade de Jesus Cristo, e consequentemente na infalibilidade das Suas promessas. Mas, simultaneamente posso crer que faltou a elas, porque, quanto a mim, a Sua Igreja, contra a qual prometeu solenemente “que nunca prevaleceriam as portas do Inferno e com a qual prometeu de estar até ao fim do mundo”4, tornou-se falível pouco depois da morte dos Apóstolos; e o Inferno prevaleceu contra Ela, deixando Jesus Cristo de estar com Ela durante muitos séculos, até a chegada dos reformadores protestantes, que vieram no século décimo sexto. Décima Quarta contradição.

IX

É claro que Deus não podia conceder aos homens o direito lógico de anular a religião que lhes revelou.

Mas também é certo, que se o princípio do livre arbítrio vem de Deus, deu-lhes esse direito; porque, por virtude do mesmo, tem os homens o direito de logicamente pôr em questão a autenticidade, integridade, a inspiração e o sentido dos livros da Bíblia, uns após outros; e por consequência de ficarem indecisos a respeito de todos estes pontos, se o exame não lhes confere bastante satisfação, e tornarem assim inútil a revelação. Décima Quinta contradição.5


Apêndice

Não tenho que examinar aqui as outras religiões opostas ao Cristianismo, porque umas são evidentemente contrárias à razão; outras, não tendo autoridade alguma indefectível de ensino, abandonam necessariamente o homem à sua razão individual em matéria de fé, fraternizando mais ou menos com o livre exame do Protestantismo. Com efeito:

As religiões pagãs são manifestamente absurdas, e consagram práticas abomináveis.

Os sistemas religiosos bramânico e budista, misto de panteísmo e metempsicose, não demandam evidentemente exame e discussão. O mesmo sucede ao sistema dos letrados da China, cuja doutrina tem por base um panteísmo filosófico, e não é na verdade mais do que uma espécie de positivismo, ao qual aqueles, que aspiram aos cargos administrativos, adicionam o culto oficial prestado aos gênios do céu e da terra, das estrelas, das montanhas, dos rios, assim como às almas dos parentes falecidos.

O Islamismo tem os caracteres palpáveis de uma religião feita por mão humana e de um impostor, na sua doutrina favorável às paixões e interesses grosseiros deste mundo; na promessa que faz de um paraíso de voluptuosidades depois desta vida; na força brutal e sanguinária com que impôs em outro tempo a crença àqueles que resistiam a todas estas seduções; no seu pretenso livro sagrado do Alcorão, onde as contradições absurdas e anacronismos abundam, e aquilo de bom que encerra acerca de Deus e da moral é um plagiato de Moisés e do Evangelho.

O judaísmo não existe como religião, porque não tem altar, nem sacrifício, nem sacerdócio levítico: é só a sombra de um passado figurativo que devia acabar e acabou, como se demonstrará, na terceira parte desta obra; e essa sombra resolve-se hoje para a maior parte dos israelitas em indiferença religiosa, e em alguns no desejo de uma transformação judaica com culto e dogma, acomodados à moderna; ou até em um deísmo mais ou menos vago, para não dizer em um racionalismo sem símbolo, prestando-se a toda a espécie de erros.

As diversas religiões heréticas ou cismáticas tem, como princípio fundamental, que não existe autoridade infalível de ensino doutrinal, e colocam deste modo a crença religiosa à mercê da razão individual, que é, por sua natureza, variável e falível; não oferecem pois ao espírito descanso algum logicamente sobrenatural, e abrem, pelo contrário, a porta a todos os ventos de doutrina6. O cisma russo, em particular, é apenas uma vassalagem absurda da razão individual à autocracia dogmática do Tzar, representado por um sínodo, ao qual preside em nome do Imperador um dos seus generais, e que é evidentemente falível; e o cisma grego não tem no Patriarca de Constantinopla senão um chefe sem dignidade, sem independência, sujeito a todos os caprichos do Sultão; autoridade falível, e que ninguém reconhece.

E deste modo ninguém é capaz de prever onde terminarão as divisões, subdivisões e fracionamentos de uma Igreja sujeita à terrível lógica do erro.



Fonte: Cônego E. Barthe, “Motivos da Minha Fé Religiosa”, 1ª Parte, Cap. XII, pp. 165-179. 2ª Edição, J.J. de Mesquita Pimentel – Editor, Porto, 1882.



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1Vejam-se os textos de Lutero, Calvino e Beza, na Religião do coração, obra escrita pelo abbade Baudry, 1ª Parte, Cap. II.
2Religion du coeur, do abbade Baudry, 3ª Parte.
3O Protestantismo é insustentável, e não pode haver protestante, que seja lógico. Ele aceita a divindade de Jesus Cristo e rejeita a sua obra, porque desconhece a autoridade da Igreja, que Ele fundou e à qual preceituou que se obedecesse, escutando-A reverentemente. O Protestantismo data do século XVI, e aceita o passado do Catolicismo, rejeitando o que há Nele desde a separação. O Catolicismo manteve-se sempre pela unidade, e em todos os tempos Ele condenou as heresias, porque rompiam essa Unidade e traziam inovações. E o Protestantismo, reconhecendo e louvando este procedimento, veio cair no erro que condena, dando lugar não a uma heresia, mas a tantas quantas a livre interpretação, sem atenção à autoridade da Igreja, pode dar origem. O Protestantismo, se fosse lógico, tinha acabado com toda a religião positiva e tornava-se em racionalismo puro, desprezando Bíblia e tudo quanto a Tradição Cristã nos ensina. É tão palpável a consequência dos princípios protestantes, que os seus maiores talentos soltam lamentos e gritos de angústia. Vejam-se as Meditações do sr. Guizot, que mais parecem obra de um católico fervoroso do que de um protestante. Ele conhecia o mal, e apreciava-lhe as consequências; mas não teve coragem de francamente ir procurar-lhe o remédio: esse remédio é só a Igreja Católica. [Nota do Tradutor]
4Math., XVI, Id., XXVIII, 20.
5Todas estas contradições justificam as palavras seguintes, que foram ditas ao autor desta obra: “Compreendo, dizia Pedro Leroux, que haja católicos, porque o Catolicismo, partindo da existência de Deus, é logicamente ligado nas suas partes; mas não entendo como se possa ser protestante; porque este sistema não tem por onde se lhe pegue”.

Elas justificam igualmente uma passagem de um livro há pouco publicado pelo sr. Isaac Pereira, no qual é para lamentar que a verdade se ache envolvida em tantos erros: “O Protestantismo, diz ele, não deu ao mundo nenhuma das forças religiosas que consolidam os espíritos e arrastam o gênero humano com um grande impulso de fé comum. A obra de Lutero produziu, pelo contrário, o individualismo no que há de mais perigoso. Esmigalhou as crenças e dissolveu-as, dando a cada qual o direito absoluto de crer e proceder a seu bel-prazer. Daqui resulta o aluvião de Seitas que ele produziu: a ausência da doutrina coletiva, de ação social, isto é, de religião. Bem longe de pacificar e civilizar o mundo, o Protestantismo desenvolveu a guerra entre todas as ideias, todas as crenças, as paixões e os interesses”.
6Ephes., IV, 14.



quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Proibi-me a Reta Razão de Aderir ao Indiferentismo em Matéria de Religião.

"A Fé e a Razão caminham juntas, mas a fé vai mais longe" (S. Agostinho).
"Para alguém que tenha fé, nenhuma explicação é necessária. Para aquele
sem fé, nenhuma explicação é possível" (S. Tomás de Aquino).


Os indiferentistas em matéria religiosa pretendem que todas as religiões são boas1 e que, por conseguinte, não é mister examinar se há alguma revelada por Deus, de cuja observância nos pedirá contas.

Há aqui também intoleráveis contradições.

I

Todas as religiões não podem ser verdadeiras, porque se contradizem, e o sim e o não sobre o mesmo objeto não podem ser verdadeiros ao mesmo tempo; por outra parte, uma religião falsa não pode ser boa, porque o erro é sempre um mal; tudo isto é de evidência.

Mas o indiferente admitiria que a falsidade das religiões não obsta a que sejam boas. Primeira contradição.

II

Eu creio, como todos os homens razoáveis, na existência de Deus, infinito em sabedoria e santidade.

Mas, neste sistema do indiferentismo, eu creria que Deus tem como agradáveis quaisquer homenagens, que se lhe prestem sob qualquer forma que seja – idolatria, absurda, até indecente ou criminosa; e que se deu uma religião aos homens, não se importa que a observem; o que equivale a dizer, que Deus tanto aprova o erro como a verdade; o teísmo ou o politeísmo; as superstições dos idólatras e o culto racional; os crimes pelos quais as nações obcecadas pretenderam honrá-Lo, e as virtudes em que os povos mais instruídos fazem consistir a essência da religião; em uma palavra, que Deus não é Deus. Segunda contradição ímpia e blasfema.

III

Um viajante, diz Balmes, encontra na sua frente um rio que deve transpor; serão praticáveis os vaus? Ignora-o. Outros viajantes, parados como ele à margem do rio, sondaram a altura das águas e são unânimes em declarar que uma morte certa espera o imprudente que tentar a travessia. Questão sem importância para mim, diz o insensato. E lança-se ao acaso ao rio. Não quero entrar no número destes insensatos.

Mas o indiferente em matéria de religião falo-ia assim com referência ao abismo insondável do outro mun. Terceira contradição.

IV

Não posso admitir, sem violentar a razão e a consciência, que baste cumprir certos deveres desprezando os outros; que seja suficiente observar as leis da probidade, não tendo em conta as da amizade, da gratidão, da temperança, ou da beneficência para com os infelizes.

Mas, como indiferente, eu admitiria que se Deus deu ao homem, além da lei natural, uma lei positiva, basta-me observar a primeira sem me importar da segunda. Quarta contradição.

V

Na norma da vida séria eu indesculpavelmente leve e presunçoso, se naquilo que não conheço julgasse sem me informar e se tratasse de fútil e sem importância uma questão que sempre preocupou os homens mais sábios e esclarecidos, os maiores espíritos e mais dignos da estima universal. Mas, sendo indiferentista, não censuraria em mim como deveria essa presunção; julgando sem exame a questão religiosa, considerando como tempo perdido aquele que dedicasse ao estudo do que sempre foi a principal preocupação dos homens mais sábios e virtuosos de todos os tempos, ao qual consagraram os trabalhos mais sérios e meditações mais assíduas os gênios mais vastos, elevados e profundos, e geralmente mais estimados. Quinta contradição.2



Fonte: Cônego E. Barthe, “Motivos da Minha Fé Religiosa”, 1ª Parte, Cap. XI, pp. 161-164. 2ª Edição, J.J. de Mesquita Pimentel – Editor, Porto, 1882.


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1Encontra-se um fundo comum em todas as religiões. Significará isto que todas as religiões são igualmente boas? Não. Prova só que há algum bem em todas. Tem aqui perfeita aplicação a profunda sentença de Bossuet: “Todo o erro é fundado sobre alguma verdade, da qual se abusa” (Du darwinisme, etc., p. 300).
2O estado de dúvida é degradante para a razão humana, e aquele que sustenta o indiferentismo em matéria de religião tem em pouca valia a sua própria inteligência e a dos outros homens. A dúvida é a ignorância, e o ignorante não tem méritos para que o estimem. Para se sair da ignorância, da incerteza e da dúvida, é mister fazer esforços, e quem os faz e vence as dificuldades, guinda-se, sobe e glorifica-se; quem se mantém nesse estado de insciência, degrada-se e avilta-se. Os espíritos lúcidos distinguem e classificam; os que o não são, confundem, e não compreendem as distinções. São estes os que baralham a virtude e o vício, a verdade e o erro; dão igual categoria à verdade religiosa e às seitas falsas; confundem o Criador com as criaturas no panteísmo, e não separam o homem, ser inteligente, dos animais, criaturas inconscientes, como fazem os darwinistas. O indiferentismo em matéria de religião rebaixa o homem; assim como exalta-se e nobilita-se aquele que exerceu a sua razão, e por esforços seguidos chegou a lograr a máxima das satisfações, o conhecimento da lei moral que há de dirigi-lo nas tormentas da existência e conduzi-lo à tranquilidade da vida ulterior. [Nota do Tradutor]



sábado, 22 de agosto de 2020

A Glória do Cristianismo


Coisa estranha! Todas as religiões têm inspirado a adoração da felicidade; só o Cristianismo tem suscitado a adoração do sofrimento. Os deuses do paganismo se apresentavam ao homem coroados de flores, circundados de amores e de risos; e eu pergunto a mim mesmo o que diziam ao pobre no seu casebre, ao escravo no seu cárcere, à viúva, ao órfão, à todos os que sofrem, à todos os que choram na terra. Assim, foi uma revolução profunda a que provocou essa Religião que dizia: “Eis o verdadeiro Deus! Está pregado numa Cruz. Os Seus pés e as Suas mãos estão transpassadas; a Sua fronte está torturada, o Seu Coração ferido, e o Seu Corpo todo não têm outra purpura além da purpura do Seu Sangue. Os deuses antigos eram os deuses do prazer. Eram os deuses falsos. O Deus verdadeiro é o Deus da dor!”

Ao ouvir essa linguagem estranha, a humanidade julgou sonhar. E disse: “Não é possível; se Ele é verdadeiramente Deus, como pode sofrer? Como morreu? Por que não fulminou os Seus inimigos? Por que suportou a dor? Não foi por fraqueza; Ele é Deus. Foi, pois, por amor. Como! Ele sofreu por amor?”

Isto causou um deslumbramento, que ainda não cessou.

Ergueram-se os sofistas e disseram: “É impossível; é inconveniente. Um deus não podia ter sofrido e morrido pelo homem!” Mas, a mãe, apertando o filho nos braços, fitou a Cruz e os sofistas, e lhes respondeu: Onde está o impossível? Para a nutrição de meu filho, eu lhe dou o meu leite; e para o salvar, eu lhe daria seguramente, o meu sangue”. E o homem jovem, nas castas alegrias do seu primeiro amor, e a mulher jovem nos seus sonhos de absoluta dedicação, fitaram a Cruz e os sofistas e disseram: “Causam-vos surpresas as humilhações e as dores de Jesus Cristo? Nunca amastes! Eu, para provar o meu amor, se me devesse abaixar, humilhar, sofrer, ser crucificado, não hesitaria”. Há dezoito séculos que a todos os sofistas a humanidade responde com esse grito do coração. Ao amor, ela responde pelo amor.

E isso foi apenas o começo. Depois de ter fixado o olhar na Cruz do Mestre, a humanidade contemplou a sua cruz e a achou mais leve. O escravo, duramente castigado, disse: “Ele foi flagelado!” O pobre na sua pobre casa, onde morria de fome, murmurou: “Ele teve sede e só lhe deram fel e vinagre”. O rei, não mais em seu trono, mas no cadafalso, recordou-se de que Jesus havia sido amarrado; e impondo silêncio ao sangue de 60 reis, que se revoltavam em suas veias, estendeu as mãos para ser atado. O gênio moribundo pediu que ante os seus olhos fosse colocado o crucifixo, e como lhe dissessem: “Não lhe podeis falar!”, ele respondeu: “Não, mas o contemplo!” E o próprio cético, vendo de repente o crucifixo, no momento em que, num acesso de ciúme e de cólera, ia apunhalar, surpreendendo-a em seu sono, aquela que ele julgava infiel, acalmou-se, atirou a faca, ajoelhou-se, beijou o Cristo e disse-lhe: “Ó Jesus, perdoai-me. Nasci num século ímpio e muito tenho a expiar. Pobre filho de Deus tão esquecido, não me ensinaram a amar-Te. Nunca Te procurei nos templos. Lembra-Te, porém, de que um desventurado não morreu de sua amargura, vendo-Te pregado à Cruz. Salvaste do mal esse ímpio; se ele fosse um crente, Tu o terias consolado!...”


Fonte: Mons. Bougaud, Bispo de Laval, “A Dor”, Cap. 2º, Art. VI, pp. 114-117. Extraído do Cristianismo e os Tempos Presentes, Tomo I e Tomo II. H. Garnier, Livreiro-Editor, Rio de Janeiro/RJ, 1931.



sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Oração Utilíssima e de Prodigiosa eficácia, composta por Santo Agostinho para o tempo de qualquer tribulação: traduzida da que vem nas Horas de Nossa Senhora Cisterciense, impressa em Veneza no ano de 1728.



Amabilíssimo Senhor Jesus Cristo, Verdadeiro Deus, que do Seio do Eterno Pai onipotente fostes mandado ao mundo para absolver pecados, remir aflitos, soltar encarcerados, congregar vagabundos, conduzir para a Sua pátria os peregrinos, compadecer-Vos dos verdadeiramente arrependidos, consolar os oprimidos e atribulados: Dignai-Vos de absolver e livrar a mim, (N), criatura Vossa, da aflição e tribulação em que me vejo, porque Vós recebestes de Deus Pai Todo-Poderoso, o Gênero Humano para o comprardes; e feito Homem prodigiosamente nos comprastes o Paraíso com o Vosso precioso Sangue, restabelecendo uma inteira paz entre os Anjos e os homens.

Assim, pois, dignai-Vos, Senhor, de introduzir e confirmar uma perfeita concórdia entre mim e os meus inimigos, e fazer que sobre mim resplandeça a Vossa paz, a Vossa graça e a Vossa misericórdia, mitigando e extinguindo todo o ódio e furor, que contra mim tiverem os meus adversários, como praticastes com Esaú, tirando-lhe toda a aversão que tinha contra seu irmão Jacó. Estendei, Senhor Jesus Cristo, sobre mim, (N), criatura Vossa, o Vosso braço e a Vossa graça; e dignai-Vos de livrar-me de todos os que me têm ódio, como livrastes a Abraão da mão dos Caldeus; e a seu filho Isaac da consumação do Sacrifício; a José da tirania de seus irmãos; a Noé do Dilúvio Universal; a Ló do incêndio de Sodoma; a Moisés e a Arão, Vossos servos, e ao Povo de Israel do poder de Faraó, e da escravidão do Egito; a Davi das mãos de Saul e do gigante Golias; a Suzana do crime e testemunho falso; a Judite do soberbo e ímpio Holofernes; a Daniel da cova dos Leões; aos três Mancebos Sidrac, Misac e Abdênago da fornalha de fogo ardente; a Jonas do ventre da Baleia; à filha da Cananeia da vexação do Demônio; a Adão da pena do Inferno; a Pedro das ondas do mar; e a Paulo das prisões do Cárcere. Ó, pois, amabilíssimo Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus Vivo, atendei também a mim, (N), criatura Vossa, e vinde com presteza em meu socorro, pela Vossa Encarnação, pelo Vosso Nascimento, pela fome, pela sede, pelo frio, pelo calor, pelos trabalhos e aflições; pelas salivas e bofetadas, pelos açoites e coroa de espinhos, pelos cravos fel e vinagre, e pela cruel morte, que por mim padecestes; pela lança que transpassou o Vosso peito; e pelas sete palavras que na Cruz dissestes, em primeiro lugar a Deus Pai onipotente: Perdoai-lhes, Senhor, que não sabem o que fazem. Depois ao bom ladrão, que estava Convosco crucificado: Digo-te, na verdade, que hoje estarás Comigo no Paraíso. Depois ao mesmo Pai: Heli, Heli, lama Sabactani, que vem a dizer: meu Deus, meu Deus, porque me desamparastes? Depois a Vossa Mãe: Mulher, eis aí teu Filho. Depois ao Discípulo: Eis aí a tua Mãe, mostrando que cuidáveis dos Vossos amigos. Depois dissestes: Tenho sede, porque desejavas a nossa salvação, e das Almas Santas, que estavam no Limbo. Dissestes depois a Vosso Pai: Nas Vossas mãos encomendo o meu Espírito. E por último exclamastes, dizendo: Está consumado, porque estavam concluídos todos os Vossos trabalhos e dores. Rogo-Vos pois, por todas estas coisas e pela Vossa descida ao Limbo, pela Vossa Ressurreição gloriosa, pelas frequentes consolações que destes aos Vossos Discípulos, pela Vossa admirável Ascensão, pela vinda do Espírito Santo, pelo tremendo dia do Juízo, como também por todos os benefícios que tenho recebido da Vossa bondade, pois que Vós me criastes do nada, Vós me remistes, Vós me concedestes a Vossa Santa fé, Vós me fortalecestes contra as tentações do Demônio, e me prometestes a vida eterna; por tudo isto, meu Redentor e meu Senhor Jesus Cristo, humildemente Vos peço que, agora e sempre me defendais do Maligno adversário e todo o perigo, para que depois da presente vida mereça gozar na Bem-aventurança da Vossa Divina Presença. Sim, meu Deus e meu Senhor, compadecei-Vos de mim, miserável criatura, em todos os dias da minha vida. Ó Deus de Abraão, Deus de Isaac, e Deus de Jacó, compadecei-Vos de mim, (N), criatura Vossa, e mandai para meu socorro o Vosso Santo Miguel Arcanjo, que me guarde, me proteja, me ampare, me visite, e me defenda de todos os meus inimigos carnais e espirituais, visíveis e invisíveis. E vós, Miguel Santo, Arcanjo de Deus, defendei-me na última batalha para que não pereça no tremendo Juízo. Arcanjo de Cristo, Miguel Santo, rogo-vos, pela graça que merecestes, e por Nosso Senhor Jesus Cristo, que me livreis de todo o mal e do último perigo na hora da morte. S. Miguel, S. Gabriel, S. Rafael e todos os outros Santos Anjos e Arcanjos de Deus, socorrei a esta miserável criatura. Rogo-vos humildemente que me presteis o vosso auxílio, para que nenhum inimigo me possa causar dano, tanto no caminho como no fogo, ou velando ou dormindo; ou falando ou calando; tanto na vida como na morte. Eis aqui a Cruz do Senhor; fugi, adversos inimigos. Venceu o Leão da Tribo de Judá, descendente de Davi, Aleluia. Salvador do mundo, salvai-me. Salvador do mundo, ajudai-me. Vós, que pelo Vosso Sangue, e pela Vossa Cruz, me remistes, salvai-me e defendei-me hoje e em todo o tempo. Agios Theos Agios Ischiros Agios Atanatos Eleison Imás. Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, tende misericórdia de nós. Cruz de Cristo protegei-me. Cruz de Cristo defendei-me. Em nome do Pai e do Filho † e do Espírito Santo †. Amém.


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Fonte: Rev. Pe. Antônio José de Mesquita Pimentel, “Cartilha ou Compêndio da Doutrina Cristã - Ordenada por Perguntas e Respostas, Contendo toda a Doutrina...”, pp. 197-201. Livraria Chardron, de Lello & Irmão Ltda, Porto, 1872.



quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Carta de Santa Clara de Assis a Ermentrudes de Bruges.



Clara de Assis, humilde serva de Jesus Cristo, deseja saúde e paz a sua querida irmã Ermentrudes.

Soube, irmã querida, que você teve a felicidade de fugir da lama do mundo, pela graça de Deus. Alegro-me por isso e me congratulo com você, como me alegro, porque você e suas filhas seguem com valor os caminhos da virtude.

Querida, seja fiel até a morte Àquele com quem você se comprometeu, pois é Ele que vai coroá-la com o louro da vida.

Nossa fadiga aqui é breve, eterno é o prêmio. Não a iludam os rumores do mundo que passa como sombra. Não perca a cabeça com as imagens vazias do mundo enganador; tapa os ouvidos aos assobios do Inferno e, forte, quebre seus assaltos. Suporte por bem as adversidades e não se deixe exaltar pela prosperidade, porque esta pede fé, mas aquelas a exigem. Entregue fielmente a Deus o que prometeu, e Ele retribuirá.

Querida, olhe para o Céu que nos convida, tome a cruz e siga o Cristo que vai à nossa frente. Na realidade, depois de muitas e variadas tribulações, vamos entrar por meio Dele na Sua glória.

Ame com todo coração a Deus e a Seu Filho Jesus, crucificado por nós pecadores, sem permitir que Ele saia de sua recordação. Trate de meditar sempre nos Mistérios da Cruz e nas dores de Sua Mãe que estava ao pé da Cruz.

Ore e vigie sempre. Complete apaixonadamente a obra que você começou bem e dê conta do serviço que você assumiu na santa pobreza e na humildade sincera.

Não se assuste, filha. Deus, fiel em todas as Suas palavras e Santo em todas as Suas obras, vai derramar Sua bênção sobre você e suas filhas. Vai ser o seu auxílio e o seu melhor consolador, porque Ele é o nosso Redentor e a nossa recompensa eterna.

Oremos mutuamente a Deus, pois assim uma carregará o peso da outra e vamos cumprir com facilidade a lei de Cristo. Amém.


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Fonte: “Fontes Clarianas”, 3ª Parte, Escritos de Santa Clara – Carta a Ermentrudes de Bruges, pp. 213-214. Traduções, Introduções, Notas e Índices por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, O.F.M.Cap., 3ª Edição, Centro Franciscano de Espiritualidade, Piracicaba/SP, 1994.



terça-feira, 11 de agosto de 2020

Carta de São Boaventura às Clarissas



Foi escrita no Monte Alverne, em 1259, na mesma ocasião em que São Boaventura redigiu o “Itinerarium mentis in Deum”. A alusão a Frei Leão, faz pensar que o então novo Geral da Ordem tenha recebido não só um testemunho sobre o valor de Clara e suas Irmãs na formação do espírito da fraternidade franciscana, mas também a sugestão de escrever a carta.

O Santo Doutor não chegou a conhecer pessoalmente Santa Clara, mas se interessou por sua obra, a que fez referência, depois, na Legenda Maior. Além disso, teve bom contato com as Clarissas e escreveu para elas o seu tratado “De perfectione vitae”. O texto a seguir foi traduzido da “Opera Omnia”, VIII, p. 473-474. Ed. Quaracchi.


1. Às queridas filhas em Cristo, à abadessa das Senhoras Pobres de Assis do mosteiro de Santa Clara e a todas as suas irmãs: Frei Boaventura, ministro geral e servidor da Ordem dos Frades Menores, saúda e deseja que sigam o Cordeiro onde Ele for, na companhia das felicíssimas virgens preparadas.

2. Informado há pouco, filhas queridas no Senhor, pelo nosso caríssimo Frei Leão, companheiro do Santo Pai em outros tempos, sobre o vosso esforço para seguir o pobre Cristo crucificado com toda a pureza, alegrei-me enormemente no Senhor. Por esta carta, quero exortar e animar vossa devoção para que sigais com solicitude os vestígios de virtude de vossa mãe santíssima, instruída pelo Espírito Santo através de São Francisco pobrezinho.1 E “nada mais queirais ter debaixo do Céu” a não ser o que vossa mãe vos ensinou, isto é, Cristo, e Ele mesmo crucificado, e a exemplo da mãe, filhas diletas, corrais atrás do perfume de Seu Sangue, abraçando virilmente o espelho de pobreza, o exemplo de humildade, o escudo de paciência. Abrasadas no fogo do amor divino, dai todo o vosso coração por Aquele que por nós deu na Cruz o Seu ao Pai, para que, vestidas com a luz do exemplo de vossa mãe e suavemente inflamadas pelos ardores eternos, trescalando o perfume de todas as virtudes, sejais o bom odor de Cristo, Filho da Virgem e Esposo das virgens prudentes, tanto para os que se salvam como para os que se perdem.

3. Vigiai de tal maneira, com afetos incessantes, fervorosas no espírito da devoção, que, quando se ouvir o clamor e chegar o Esposo, possais ir fielmente ao Seu encontro com as lâmpadas cheias do óleo do amor e da alegria, prontas para entrar com Ele nas bodas da felicidade eterna, com exclusão das virgens loucas. Lá, Cristo vai acomodar Suas esposas com os Anjos e os Eleitos e passará para servir-lhes o Pão da Vida, a Carne do Cordeiro imolado, o Peixe assado na Cruz, cozido no fogo do amor em que Vos amou fervorosamente.2 Dar-Vos-á a beber o vinho mesclado de Sua humanidade e divindade, de que bebem os amigos e se inebriam os mais queridos com admirável sobriedade. Desfrutarão de vez em quando da transbordante doçura reservada aos que O temem, enxergando sempre Aquele que é o mais formoso não só entre os filhos dos homens, mas também entre os milhares de Anjos, Aquele a quem os Anjos desejam contemplar, porque é o candor da luz eterna e o espelho sem mancha da Majestade de Deus, esplendor da glória do Paraíso.

4. Filhas caríssimas, uni-vos para sempre a Ele que é o nosso Bem perpétuo e, quando vos for oportuno, recomendai à Sua inefável clemência a mim, que sou pecador, rezando assiduamente para que possa dirigir misericordiosamente os meus passos para a glória e a honra de Seu nome admirável, para salvação do rebanho pobrezinho que a mim foi confiado.


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Fonte: “Fontes Clarianas”, 4ª Parte, Documentos Antigos – Carta de S. Boaventura às Senhoras Pobres (a.d. 1259), pp. 219-220. Traduções, Introduções, Notas e Índices por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, O.F.M.Cap., 3ª Edição, Centro Franciscano de Espiritualidade, Piracicaba/SP, 1994.


1.  É notável que São Boaventura, que não teve conhecimento direto de Francisco e Clara, e que ainda não estava trabalhando em sua Legenda Maior, em que haveria de representar as principais fontes histórias até então conhecidas, proponha essa mesma visão que encontramos em Celano e no próprio Testamento de Clara: Francisco foi o mediador da vocação e da espiritualidade de Clara.

2.  Essa imagem do peixe faz lembrar também a simbologia do peixe assado da lenda do Rei Pescador, tão importante no ciclo do Santo Graal. Pode ter um alto valor de penetração na interioridade da alma, além de recordar o papel salvador de Jesus Crucificado.


segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Súplica à Santa Filomena.



1. Prostrado aos vossos pés, ó grande e gloriosa Santa, venho apresentar-vos a minha fervorosa prece; acolhei-a benignamente e obtende-me as graças que me são necessárias.

Santa Filomena, rogai por mim. Glória ao Pai…

2. Tenho o coração atribulado. Sinto fortes os golpes da dor. A desventura oprime-me. Careço, pois, do vosso auxílio. Ajudai-me e ouvi a minha oração.

Santa Filomena, rogai por mim. Glória ao Pai…

3. Fatigado e sem conforto, privado de esperança, só e oprimido pelas tribulações, espero ser de vós atendido.

Santa Filomena, rogai por mim. Glória ao Pai…

4. Reconheço que foram os meus graves pecados a causa de tantas desventuras. Obtende-me de Jesus o perdão e abrasai-me no Seu santo amor.

Santa Filomena, rogai por mim. Glória ao Pai…

5. Volvei, ó Santa Filomena, um olhar sobre a minha casa e sobre a minha família, lançai um doce sorriso para os vossos fiéis devotos, enxugai as lágrimas de todos, infundi no meu coração um raio de esperança, dai a todos a paz, a salvação, e sede a nossa providência.

Santa Filomena, rogai por mim. Glória ao Pai…

6. Vede quantas graças me são necessárias e não me abandoneis. Vós que sois poderosa junto de Deus, afastai de mim a tristeza e a desolação. Dai a paz à minha alma, protegei-me nos perigos e livrai-me dos castigos do Senhor; abençoai a minha casa, a minha família, os vossos fiéis devotos e alcançai-me a graça de que necessito. (Mencionar a graça).

Gloriosa Santa Filomena, não me abandoneis e rogai por mim. Glória ao Pai…


Pelos vossos sofrimentos, alcançai-me de Deus misericórdia. (3X)

100 dias de indulgência

Fr. Miguel R. Camerlengo.
Bispo de Nola


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Fonte: Cônego João Carneiro, “Vida de Santa Filomena”, pp. 93-94. Gráfica Olímpica Editora, Rio de Janeiro/RJ, 1960.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Nossa Senhora das Três Ave-Marias


Talvez poucas pessoas conheçam o título – Nossa Senhora das Três Ave-Marias, pois é, segundo me parece, pouco usado este título.

Lê-se nas revelações de Santa Gertrudes, contemporânea e amiga de Santa Matilde, o seguinte fato, do qual provém o título a que me refiro: Estando Santa Matilde a cantar a Ave-Maria, nas matinas da Anunciação, viu de repente sair do Coração do Pai, do Filho e do Espírito Santo três fachos luminosos, que penetraram no Coração da Bem-aventurada Virgem Maria, ouvindo a Santa, logo depois, estas palavras: “Após o Poder do Pai, a Sabedoria do Filho e a Ternura misericordiosa do Espírito Santo, nada há que se aproxime do Poder, da Sabedoria e da Ternura misericordiosa de Maria”.

Deste fato, provém também a prática da recitação de três Ave-Marias em honra do Poder, da Sabedoria e da Misericórdia do Coração de Maria, prática esta revelada a Santa Matilde, com a promessa de uma boa morte, caso a dita Santa lhe fosse fiel, rezando-as todos os dias, de manhã e à noite.

Rezando as três Ave-Marias de manhã, em honra dos três grandes privilégios de Maria, acrescenta-se a invocação – “Maria, minha boa Mãe, preservai-me do pecado mortal durante este dia”; e, quando são rezadas à noite – “Maria, minha boa Mãe, preservai-me do pecado mortal durante esta noite”. (Oração Indulgenciada)



Fonte: Edésia Aducci, Maria e Seus Gloriosos Títulos, 2º Vol., Cap. 159, p. 336. Editora Lar Católico, Juiz de Fora/MG, 1967.



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