Blog Católico, para os Católicos

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 25 de março de 2021

Os Judeus Conjuram contra Nosso Senhor Jesus Cristo.

 


1ª Meditação

Havendo Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitado a Lázaro, e divulgando-se rapidamente a fama do milagre último dos que Ele operara e o mais extraordinariamente rumoroso, muitos judeus abalados, e convencidos, converteram-se, proclamando e reconhecendo à Jesus verdadeiro Filho de Deus.1 Tal movimento não escapou a alguns que de sobreaviso, espiavam todos os passos do Salvador; os quais mordidos pela inveja foram referir aos fariseus o crédito e o prestígio sempre crescente de Jesus.2

Estes, ouvindo tal, juntamente, com os maiorais e primares da Sinagoga, reuniram-se às pressas em casa de Caifáz a fim de urdir contra Ele a trama de uma vasta conspiração.3 Outras vezes têm procurado suprimi-lO, agora, porém, acabam de assentar o plano definitivo de extermínio.4 Não lhes sendo possível negar, nem ocultar o milagre, fazem de um motivo de amor, de um documento de veneração para com Nosso Senhor Jesus Cristo, um argumento que os irrita,5 uma ocasião que os enfurece6 pelo ódio implacável que Lhe votam.

Oh! A que ponto chega uma paixão desenfreada! Este é um ponto da Paixão de Jesus Cristo, no qual devo meditar constantemente.

No juízo dos homens a causa da Paixão de Jesus foi uma cega paixão que se apoderou dos seus inimigos. No juízo de Deus, porém, qual teria sido a causa desta Paixão? Os meus pecados: pois todos estes pecados nascem sem dúvida alguma, das minhas mais secretas paixões, e sobretudo, daquela que domina todos os afetos do meu coração.

Na vida dos Santos lemos, que para se tornarem Santos tiveram que mortificar heroicamente estas paixões: destas mesmas paixões de que se serviram os Santos para se elevarem tanto, quantas vezes não me tenho servido também, com mais malícia do que os Judeus para Vos ofender, ó meu Deus? Vós me destes estas paixões, que são naturais ao homem, como um meio de me exercitar nas virtudes, eu pelo contrário, faço destas mesmas paixões, incentivos e instrumentos de vício. No meu coração coma na casa de Caifáz, reúno de vez em quando estas paixões para consultas, e finalmente, acabo por combinar contra Vós ofensas mortais. Meu Deus, que remédio ou que tábua de salvação haverá para mim?

Não vejo senão em Vós, Aquele que me pode ajudar: por isto, humildemente Vos peço, concedei-me esta graça, de que a Paixão de Jesus Cristo seja o molde ao qual devo submeter e moderar as minhas paixões, sujeitando-as à razão e à fé, obedecendo aos vossos Mandamentos. Devido às minhas inclinações viciosas, as minhas fraquezas são muitas e graves: mas a vossa sabedoria, a vossa misericórdia, a vossa graça onipotentes são para me ajudar e confortar no bem, mais do que as inclinações e tendências más em arrastar-me ao pecado.

Meu Deus, temo sobretudo a minha soberba, por não conhecê-la; porém, contra esta paixão, concedei-me luz e força, Vós que sois o Mestre da humildade.

Propósito

Pelo fato de não conhecer a minha soberba, devo examinar atentamente quais sejam os meus pensamentos, desejos, intenções, palavras e as mesmas obras que a mim, parecem virtuosas.



2ª Meditação

A paixão dominante que move os sacerdotes e fariseus a se enfurecerem contra Jesus Cristo é a inveja.7 Veem que a turba, admirando os milagres de Jesus, O segue: invejosos disto e mais ainda pelo fato de perderem a estima e o afeto do povo, como também as diminutas entradas que recolhiam, por mera inveja sustentada pela concupiscência8 e ambição, resolvem de pleno acordo reparar os prejuízos, tirando do mundo o Santo por excelência.9

Grande mal produz a inveja: arruinar as almas e com elas, todo o mundo!10 Não poupa nem sequer as pessoas de espírito; e por mais que disto se fale, nem por isso se remedeia. É tida geralmente como mal pequeno, e por isto, pouco temida e muitas vezes nem percebida; não obstante tudo isto, também nos arrasta insensivelmente para a nossa eterna perdição.

Examinemo-nos nos íntimos esconderijos da consciência e talvez aí encontremos esta paixão repelente, que semelhante à febre lenta nos estiola e nos consome. Na ocasião, em que ardorosamente desejo se ofereçam-me provas de estima e consideração; dá-se o caso de algum, igual ou a mim inferior merecer mais apreço; mais honras ou mais amor, sinto dentro de mim prazer ou tristeza? Em resumo, de todos os bens, quaisquer que sejam, de que é possuidor o meu irmão, sinto eu alegria e satisfação como se me pertencessem?11 A caridade assim me exige e a tanto me obriga; todo movimento do coração que se opõe à esta virtude é verdadeiro ato de inveja.

Ora, correndo assim as coisas, como te achas tu; ó alma minha, perante os olhos de Deus?

Tenho muito que recear, ó meu Deus, da perversão de meu coração; muitas vezes à vista do bem alheio me entristece e embora procure iludir-me julgando minha tristeza um efeito de zelo, quem me garante não seja antes um ato de inveja, tanto mais fina, quanto se me apresenta envolta no manto da virtude?

Vós vedes, Senhor, minhas viciosas paixões com a luz dos vossos olhos que penetram as dobras mais recônditas do coração, e apesar disso nenhum caso faço; não me lembro de acusá-las nem sequer esforço-me para enfraquecê-las.

Minha inveja cega-me, e, ó quanto sou infeliz!

Poderia ser santo pela caridade, alegrando-me com os bens alheios; mas quero antes pela inveja entristecer-me precipitando-me assim no abismo à imitação dos rancorosos judeus.12

Meu Deus, que nas Sagradas Escrituras ensinais ser a inveja um vício próprio do Demônio,13 que odeia e persegue o homem somente por causa do bem que Vós lhe fazeis,14 concedei-me o vosso auxílio para conhecer e combater sempre e em toda ocasião, vício tão mesquinho e tão asqueroso.15

Propósito

Nos meus exames quotidianos lançarei as vistas sobre a inveja e achando-me culpado, arrependido acusar-me-ei propondo estar sempre de atalaia nas ocasiões que me ocorrem resistindo aos seus primeiros botes.



3ª Meditação

Nesta reunião, os Pontífices e fariseus procuram motivos para condenar ao Divino Salvador, mas não encontrando outra base alegam os milagres por Ele operados, dizendo: Que fazemos deste homem que enche o mundo de fatos maravilhosos superiores à natureza humana?16

Lembram os cegos iluminados, os enfermos restabelecidos, os mortos restituídos à vida e muitos outros portentos conhecidos, operados em benefício do povo17 e todas estas provas em vez de convencê-los e induzi-los a reconhecer em Jesus o Messias preanunciado pelos Profetas18 os impelem a proclamar que Jesus deve morrer.19 Já se ouviu, porventura, ser-se condenado pelas boas obras?

Pois assim se procede com o Adorável Redentor, julgando-O réu pelos Seus milagres evidentes e incontestes.20

Observe-se a cegueira destes juízes.21 Desejavam e rogavam aos Céus que lhes enviassem o Messias;22 e após Sua vinda, cercado por todos os sinais que O tornam conhecido como tal, recusam-nO, jogando furiosamente com todos os expedientes para eliminá-lO.23 Eis uma imagem de mim mesmo; desejo e suplico alcançar a humildade, a caridade, paciência e as demais virtudes que me são necessárias para minha eterna salvação, e quando Deus defere meus pedidos, oferecendo-me ocasiões, impulsos, auxílios para ser humilde, caridoso e paciente, resisto às inspirações e desprezo às moções internas, imitando nisto aqueles réprobos que aos divinos benefícios opõem ingratidão e rebeldia.24

Queriam os judeus um Messias Salvador, mas que os não prejudicasse em seus mundanos interesses nem contrariasse em seus apetites profanos; assim eu também desejara salvar-me, mas que isto não importasse no combate à minha concupiscência e às minhas propensões viciosas.

Que pensais de mim, ó meu Deus? Não sou por acaso semelhante aos judeus em querer um Salvador, que me salve a meu gosto? Que me conceda as virtudes sem obrigar-me a combater os vícios? Que me abra as portas do Céu, sem exigir de mim a violência indispensável para desapegar-me do amor-próprio e desprender-me do mundo? Meu Deus fazei que eu conheça a minha malícia, como é por Vós conhecida,25 a fim de que a despoje como se despe uma túnica de iniquidade e me revista da vestidura luminosa da vossa graça.

Sois Vós, Senhor, que me prevenis e me estimulais a dirigir-Vos esta oração.

Desprezareis Vós, quem se Vos apresenta com o vosso beneplácito e em vosso Nome?26

Pois bem, o que humildemente Vos rogo, é que das vossas graças e dos meios de salvação eu não venha abusar para minha condenação.

É impossível salvar-me a não ser trilhando os caminhos que me foram traçados pelo meu Salvador; estes eu seguirei, na certeza de que assim fazendo, estarei abraçado com meu Senhor Jesus Cristo. Ó Jesus, dos judeus reprovados, sede por mim amado, adorado, imitado.

Propósito

No tribunal divino não será aceita a desculpa de não ter praticado a virtude por ter-me faltado a graça.

A indolência e a desídia acusar-me-ão, e Deus não permita que, como servo infiel e preguiçoso, seja condenado aos castigos eternos.27



4ª Meditação

O motivo que os sacerdotes alegam contra Nosso Senhor Jesus Cristo, é que se O deixassem viver, todos abraçariam Sua doutrina, todos O seguiriam e com isto os Romanos viriam conquistar a nação, destruindo desta maneira a independência do povo judaico.28 Enquanto, porém, uns e outros vão exagerando as coisas, levanta-se o primaz dos políticos, Caifáz, o qual depois de tê-los acusados de bisbilhoteiros ignorantes, conclui dizendo, que o motivo pelo qual Jesus deve morrer, é que assim exige o interesse do povo e o bem público.29 Não é caso de olhar, diz Caifáz, nem para inocência, nem para justiça, nem para lei,30 mas cumpre fazer aquilo que mais vantagens nos oferece.

Com efeito, mal acaba de pronunciar tais palavras, todos rendem-se-lhe, aceitando o parecer dele; e assim sob a capa de especiosos pretextos estabelece-se a conjura fatal.31

Considere-se como nas deliberações tomadas contra Nosso Senhor Jesus Cristo põe-se à margem a consciência, põe-se de um lado o temor de Deus, olhando-se tão somente para os interesses e considerações humanas.32 Se eles tivessem estudado as profecias teriam chegado ao conhecimento da verdade, e reconheceriam em Jesus o vaticinado Messias; mas o apego que tem a vaidade faz com que O repudiem, conspirando contra Sua vida santíssima, vindo-Lhe daí a perda dos bens temporais e eternos.33

E não é o mesmo que a mim sucede? Quando uma malfadada paixão chega a dominar-me? Parece que só a razão me leva; e qualquer probabilidade, ainda que aparente, é para mim argumento decisivo pelo fato de favorecer-me gênio ou inclinação. Todas às vezes que peco, procuro tudo quanto pode acariciar minhas inclinações sensíveis, e estimando mais vantajoso quando uma teimosia, quando um capricho, ora um deleite, ora um interesse mesquinho, chego com isto a tramar propriamente contra a vida do Filho de Deus!

Eu amo-me demasiadamente, amando em excesso as comodidades e as satisfações da vida temporal e terrena, e sendo o amor-próprio o que me prende e cega, me é causa de todos os males.34 Que miséria é a minha levar para toda parte o meu maior inimigo, o amor de mim mesmo?35

Mas onde está a razão, onde a fé, ó meu Deus, em apreciar mais um prazer vão e fugaz do que a vossa santíssima graça e minha eterna salvação?

Que me aproveitará todo o gozo terreno, se para usufruí-lo, foi necessário a vossa ofensa e o prejuízo de minha alma?36 Julgaria, porventura, preferível gozar aqui durante os fugitivos momentos do tempo e sofrer além os imutáveis tormentos da eternidade?

Dai-me, ó Senhor, um espírito reto,37 prudente e forte para que saiba pautar todos os atos de minha vida à luz desta grande verdade: que não há neste mundo nem coisa melhor, nem mais conveniente para minha felicidade senão Vós, meu Sumo Bem e meu tudo no tempo e na eternidade.38

Propósito

Examinarei quais sejam as coisas a que tenho apego ou aversão, sendo-me fácil neste assunto deixar-me enganar. Deus julgará a teologia, que eu concebo para meu uso e consumo.



5ª Meditação

Aquele ajuntamento dos chefes da Sinagoga, é na verdade, um conciliábulo de maldades,39 forjadas contra a vida do Supremo Senhor e Salvador do mundo.40

Não obstante isto, é preciso ponderar que nenhuma determinação foi aí tomada que não fosse antes decretada no Céu.41

Caifáz afirmou ser necessário a morte de um homem para salvação de todos, e já o mesmo fora estabelecido nos eternos desígnios de Deus, pois que, havendo todos os filhos de Adão sido condenados a morte, outro meio de salvação não havia senão o sacrifício de um Homem-Deus oferecido em resgate à Divina Justiça.42

Caifáz, pois, asseverando o mesmo, ainda que com intenções perversas, outra coisa não fez senão confirmar os altos decretos do Divino Salvador, concorrendo, ainda que, com malícia, para a execução daquele plano que fora traçado desde a eternidade.43

E agora, alma minha, reflete, como Jesus esteja a par de tudo, quer do que se trama contra Ele no mundo, quer do que se estabeleceu no Céu; e, ó, com que docilidade, humildemente se submete, adorando a Justiça de Deus na injustiça dos homens, exercitando-se assim nas mais sublimes virtudes.44 É este um exemplo assinalado digno de toda minha atenção. Frequentes vezes me queixo e me entristeço por falarem de mim ou não me terem na devida conta: e quando sou visitado por alguma contrariedade, perturbo-me e desanimo.

Donde procede isto? Certamente da vida minha distraída e dissipada, esquecendo-me de que tudo que acontece, sucede por uma justa e investigável disposição de Deus.45

Meu Deus, dominador da virtude, esculpi profundamente em minha alma esta virtude da fé, serem sempre adoráveis e amáveis a vossa justiça e a vossa misericórdia em tudo aquilo que dispõem.46

Proponho humilhar-me sob a vossa mão onipotente e em tudo docilmente submeter-me. Assim intenciono e assim quero fazer, receando apenas que a minha conhecida inconstância me seja de estorvo a perseverar.

Uma triste experiência, com efeito, me convence da minha instabilidade, mas em Vós confio e na força dos vossos auxílios.

Nas coisas que me acontecerem ou desagradáveis ao gênio ou pesadas à natureza, fazei que as reconheça como vindas de Vós, para que as receba com humildade e reverência.47 Fazei que firmemente creia serem os contra-tempos mensageiros da vossa misericórdia para minha purificação48 e concedei-me que eu confie sempre em Vós tão inabalavelmente, ainda que isto me custe as agonias e a própria vida.49

Propósito

À imitação de Nosso Senhor Jesus Cristo saberei tirar o bem do mal, amando a quem me odeia, orando por quem me ofende e bendizendo ao Senhor nas contrariedades.50


Fonte: Pe. Caetano Maria de Bergamo, O.F.M.Cap., “Pensamentos e Afetos sobre a Paixão de Jesus Cristo para cada dia do ano – Extraídos da Sagrada Escritura e dos Santos Padres”, Vol. 1, Caps. III-VII, pp. 6-18; Tradução de Frei Marcellino de Milão, O.F.M.Cap.; Escola Typographica Salesiana, Bahia, 1933.


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1.  Theoph. In Jo. 12.

2.  Jo. 11, 45.

3.  Jo. 11, 46; Matth. 26, 4.

4.  Jo. 5, 18 et 7, 2; D. Chrysost., hom. 64. in Jo.

5.  Theoph. In Jo. 11.

6.  D. Chrysost., hom. 64. in Jo.

7.  D. Bonav., medit. Chr., cap. 69.

8.  Jac., 4, 1; Jac., 1, 14.

9.  D. Cypr., tract. De invidia.

10.  D. Chrysost., hom. 64. in Jo.

11.  Rom. 12, 15; I Cor. 12, 26.

12.  D. Cypr., loc. cit.

13.  Sap., 2, 42.

14.  D. Chrysost., hom. 17. in Jo.

15.  D. Aug., lib. Medit., cap. I.

16.  Jo. 11, 47.

17.  Luc., 6, 19; Act., 10, 38.

18.  Is., 55, 5; Dan., 6, 27.

19.  Jer., 11, 19.

20.  Orig., in Jo. 11; Theoph., in Jo., 11.

21.  Orig., in Jo. 11.

22.  Agg., 2, 8; Is., 45, 8.

23.  D. Aug., in psalm., 63.

24.  Deut., 9, 23; Jo., 24, 13; Act., 7, 51.

25.  D. Aug., lib. 10. Conf., Cap. I.

26.  D. Aug., lib. 13. Conf., cap. I.

27.  Matth., 25, 26.

28.  Jo., 11, 48.

29.  Jo., 11, 49.

30.  Dan., 13, 52; Êxod., 23, 7.

31.  Orig., in Jo. 11; Eutym., in Jo., 11.

32.  D. Chrysost., hom. 80. in Matth., seu Op. Imperf.

33.  D. Aug., tract. 49 in Jo.

34.  Idiot., contempl. D. Ambr., cap. 31.

35.  D. Cypr., tract., de zelo et liv.

36.  Matth., 16, 26.

37.  Psalm., 50, 12; Psalm., 72, 25.

38.  Psalm., 74, 3.

39.  Psalm., 21, 17; Psalm., 30.

40.  Psalm., 2, 2.

41.  Act., 4, 27.

42.  D. Basil., in psalm., 28.

43.  Act., 2, 23.

44.  Psalm., 39, 9; Psalm., 79, 5 etc.

45.  Sap., 8, 1; Am., 3, 6.

46.  Sap., 12, 13; Sap., 15, 1.

47.  I Petr., 5, 6; 2 Reg., 16, 10.

48.  2 Reg., 16, 12.

49.  Job., 13, 15.

50.  Job., 1, 2.


quarta-feira, 24 de março de 2021

Jesus no Banquete de Betânia.

 


1ª Meditação

Quer Jesus que no histórico de sua Paixão se inclua a narração do que a Madalena fez para honrá-lO, no banquete de Betânia, seis dias antes de Sua morte.1

Madalena que de pecadora tornara-se penitente, atinge agora o cume mais elevado da perfeição,2 ao derramar sobre a Cabeça e os pés do Salvador um vaso preciosíssimo.3 Na Cabeça divina reconhece a Divindade; nos pés contempla a humanidade;4 na unção da Cabeça vê o amor de Deus, na dos pés enxerga o amor do próximo,5 e com esta sublime manifestação de fé, Madalena nos ensina em que consiste toda a perfeição cristã.6

Madalena foi a primeira que se antecipou nas honras fúnebres que deviam-se prestar a Jesus por ocasião de Sua morte ignominiosa e fê-lO ungindo antes de todos o Corpo virginal do Divino Mestre como se embalsamam os grandes personagens, antes de serem entregues à sepultura.7

Mas vejamos o que se segue ao ato corajoso de Madalena. Alguns, ao contemplarem esta cena levantam a voz censurando-a como de pouco juízo em desperdiçar essência tão preciosa!8

Madalena, porém, diante destas repreensões não esmorece; com generosa intrepidez deixa passar a onda de recriminações que acaba de atingi-la e segue seu caminho.

Pouco se lhe dá das línguas afiadas e dos juízos apaixonados, bastando-lhe a satisfação de saber que o que faz é agradável a Jesus.

Daí Jesus a querer e dispor que em todo o universo lhe fossem tributadas merecidas honras.9

Eu muito preciso tomar a Madalena como mestra e advogada. A nossa Santa julga-se feliz pela boa sorte que teve de ungir à Jesus, mas quem me impede a mim de prestar a mesma homenagem ao Senhor, a meu bel prazer?

Unge-se a Cabeça do Divino Mestre fazendo atos de caridade, para com o nosso próximo.10 Ora, porque não me exercito em tais atos?

Meu Deus, sei o que devo fazer; poderia e quereria fazê-lo, mas permaneço na indolência.

Na oração proponho muitas vezes entregar-me todo ao vosso santo amor, envidando todos os meus esforços para acudir ao meu próximo em suas necessidades; mas nas ocasiões, oh! como sou fraco e covarde! O respeito humano de mãos dadas com o amor-próprio escraviza-me e por qualquer nonada, recuo no caminho da virtude, muitas vezes deixando de agradar a Vós para não desagradar ao mundo.

Meu Jesus, que ungistes o coração da corajosa Madalena antes que ela ungisse o vosso Corpo, ungi também, enrijai com a mesma forte e suave graça o meu fraco coração.

Santa Madalena, infundi-me um pouco de vossa destemida coragem em calcar aos pés o vil respeito humano.

Viva Jesus e viva a virtude! Digam embora o que queiram os mundanos. Deus será minha fortaleza.11

Propósito

Não respondeu Madalena a quem dela zombara; por isso, Jesus tomou-a sob Sua defesa.12 Assim, Nosso Senhor terá cuidado de mim, se souber ter paciência e humildade com os maldizentes.



2ª Meditação

Um dos murmuradores que criticam o ato de Madalena, é Judas, o qual tendo à seu cargo guarda as esmolas que ofertavam para o sustento da família apostólica, tinha por costume subtrair migalhas e pequenas quantias das quais apoderava-se indevidamente.13 Por isso, morde-se de raiva por não lhe terem caridosamente confiado o bálsamo de cuja venda esperava usufruir;14 e para compensar-se do prejuízo sofrido concebe a ideia atroz de vender a Nosso Senhor Jesus Cristo.15

Pondere-se como aquele bálsamo que é para Madalena aroma de santidade, torna-se para Judas uma fonte de iniquidade, servindo-lhe de condenação o que para outra é ocasião de salvação.16 E nem se julgue ser este o primeiro passo que o infeliz Apóstolo dá na procura do abismo, e porquanto sendo ele useiro e vezeiro nos furtos, adquiriu o mau hábito de ganância e sede de dinheiro, ao ponto de não sentir horror diante da ideia infame de entregar o seu Divino Mestre.17

Pondere-se ainda, como Jesus que sabe tudo e conhece toda a íntima malícia de Judas, nem por isso o enxota do Colégio Apostólico, nem aborrece sua companhia, mas, o aguenta e sofre com muita paciência.18 Que aprenderemos do exemplo de Judas? Que aprenderemos do exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo?

De quantas coisas eu me sirvo para ofender a Deus e que me foram dadas como meios para servi-lO e honrá-lO?

Que uso tenho do corpo, e da alma?

Quantos abusos, meu Deus! Todo meu ser devia rescender dos perfumes suaves de todas as virtudes; devia exalar o aroma do bom exemplo, e edificar meu próximo: no entanto, de todas as dobras de minha alma só saem exalações viciadas e repugnantes.

Meus Jesus, se não mereço a graça de amar-Vos como a Madalena, concedei-me a graça de conhecer a paixão que predomina em mim para que a mortifique e não se torne instrumento de minha perdição. Espero em Vós, certo de que não serei iludido em minhas esperanças.19

Considerando, em seguida, ó meu Salvador, que entre os vossos Apóstolos, quisestes ter um, o qual causando-Vos inúmeros desgostos, Vos oferecia ocasião de exercitardes a paciência,20 sinto-me acabrunhado em ver que, diante de tão luminoso exemplo eu não sou capaz de suportar alguns com quem convivo, os quais por serem defeituosos tornam-se-me antipáticos e pesados.21

Meu Jesus, entre Vós e eu, que distância incomensurável! Vós, que sois puríssima santidade, suportais Judas que é um homem diabólico:22 e eu, pelos meus inúmeros defeitos, preciso tanto da compaixão e caridade de todos, não sei por minha vez, suportar alguém que não combine com o meu gênio.

Alimento antipatias, ciúmes, zelos indiscretos e por qualquer inépcia me escandalizo e perturbo. Eu gostaria que os outros se adaptassem ao meu humor sem, de minha parte, querer amoldar-me ao alheio. Que espírito é o meu, tão orgulhoso e esperto? Jesus dulcíssimo, ensinai-me a compaixão para com o meu próximo,23 não permitindo que eu simule ou dissimule por motivos humanos, mas com paciência cristã e por vosso amor.24

Propósito

Considerarei mais valioso e mais aceito a Deus, tratar amavelmente a quem me é antipático, do que usar do cilício e tomar a disciplina.

Grandes méritos ajunta para a eternidade, quem sabe ter paciência para conservar a caridade entre irmãos.



Fonte: Pe. Caetano Maria de Bergamo, O.F.M.Cap., “Pensamentos e Afetos sobre a Paixão de Jesus Cristo para cada dia do ano – Extraídos da Sagrada Escritura e dos Santos Padres”, Vol. 1, Caps. VIII-IX, pp. 19-24; Tradução de Frei Marcellino de Milão, O.F.M.Cap.; Escola Typographica Salesiana, Bahia, 1933.


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1.  Matth. 26, 13.

2.  Beda in Jo. 12.

3.  Jo. 12, 3.

4.  Beda in Jo. 12.

5.  Beda, loc. cit.

6.  Coloss. 2, 14.

7.  Euseb. Emiss., hom, in Jo. 12.

8.  Teoph., in Marc. Ibd.

9.  D. Chrysost., hom. 81 in Matth.

10.  Matth. 25, 40.

11.  Heb. 12, 5.

12.  Matth. 26, 10.

13.  Jo. 12, 4.

14.  Teoph. In Marc. 14.

15.  D. Hieron. In Matth. 26.

16.  Jo. 12, 23; D. Aug., tr. 50 in Jo.; D. Hieron. In Marc. 14.

17.  D. Aug., tract. 50 in Jo.

18.  D. Aug., loc. cit.

19.  Is. 50, 7.

20.  D. Aug. In psalm. 54.

21.  D. Aug. Tract. 50 in Jo.

22.  Jo. 6, 71.

23.  D. Aug. Tract., 50 in Jo.

24.  Psalm. 61, 6; Psalm. 70, 5.


terça-feira, 23 de março de 2021

A Eucaristia – Bossuet. 10

 


Ainda a Fé.

Duas Verdades que Cumpre Crer:

A Segunda, que é Preciso

Comer Carne para Viver.


A obra de Deus é que creiais naquele que Ele enviou. Eu sou o pão de vida: Aquele que vem a mim nunca terá sede; quem crê em mim tem a vida eterna”. É, portanto, constante que é pela fé que devemos aproveitar desse celeste alimento, para recebermos dele a vida eterna; e não se trata mais senão de saber o que ele nos ensina hoje: que devemos crer para isso. Ora, ele nos ensina claramente que é preciso crer duas coisas: a primeira, que o Filho de Deus desceu do Céu e tomou uma carne humana, na qual veio a nós; a segunda, que, para ter parte na vida que ela contém, há que comê-la.


A primeira dessas verdades é claramente ensinada nestas palavras tantas vezes repetidas: “Eu desci do Céu: não é Moisés quem vos dá o verdadeiro pão descido do Céu, mas é meu Pai quem vos dá o verdadeiro pão descido do Céu; porque o pão de Deus é aquele que desce do Céu, e que dá vida ao mundo”; e ainda: “Desci do Céu para fazer a vontade de meu Pai, e ressuscitar tudo o que Ele me deu”; e ainda: “Está aqui o pão descido do Céu”; e ainda: “Eu sou o pão descido do Céu”; e ainda: “Está aqui o pão descido do Céu”.1


Eis aí, pois, o fundamento de toda a doutrina do Salvador clarissimamente explicado, que é haver Ele descido do Céu, isto é, haver-se incarnado, tomado carne.


Mas a segunda verdade, que é ser preciso comer essa carne para ter parte na vida que ela contém, não é menos explicada nem menos inculcada em todo o discurso do Filho de Deus, a começar por estas palavras: “E o pão que eu der, é minha carne para a vida do mundo”; ou, como traz o original: “O pão que eu der, é minha carne, que darei para a vida do mundo”; o que, tendo dado lugar a que os Judeus dissessem entre si: “Como é que ele nos pode dar a carne dele para comer?”. O Filho de Deus explica-se ainda mais, e insiste cada vez mais em dizer: “Se não comerdes a minha carne e não beberdes o meu sangue, não tereis a vida em vós” (porque a vida está para vós nesta carne que eu tomei); e sem descontinuar: “Quem come minha carne e bebe meu sangue terá a vida eterna”. Não deixa de repeti-lo, visto que acrescenta logo depois: “Porque minha carne é verdadeiramente comida, e meu sangue é verdadeiramente bebida: quem come minha carne e bebe meu sangue fica em mim e eu nele; quem me come viverá por mim; quem come deste pão terá a vida eterna”.


Vê-se como Jesus Cristo se afunda, por assim dizer, sempre e cada vez mais na matéria; Ele introduz o discurso da comida celeste por ocasião do pão material que acabava de dar-lhes, e chega até a dizer que será preciso comer a sua Carne e beber o seu Sangue: o que Ele inculca tão insistentemente quanto fez a sua Encarnação, ensinando-nos claramente por esse modo que devemos tão realmente comer a sua Carne e beber o seu Sangue, quanto os tomou Ele uma e outro; e é essa a nossa salvação, é a nossa vida, porque por esse meio Ele não toma só, em geral, uma carne humana, toma a carne de cada um de nós, quando cada um de nós recebe a dEle. Então Ele se faz homem para nós, aplica-nos a sua Encarnação; e, como dizia Santo Hilário, Ele só traz, só toma a carne daquele que toma a dEle; Ele não é nosso Salvador, e não foi para nós que se incarnou, se nós próprios não tomamos a Carne que Ele tomou. Assim a obra da nossa salvação consuma-se na Eucaristia, comendo a Carne do Salvador.


Cumpre trazer a fé, pois é por aí que Ele começa; cumpre crer em Jesus Cristo que dá sua Carne a comer, como cumpre crer em Jesus Cristo descido do Céu e revestido dessa Carne. Não é, entretanto, a fé que faz que essa Carne seja dada a comer. Quer creiamos quer não, isso é fato; quer creiamos quer não, Jesus Cristo desceu do Céu em carne humana; quer creiamos quer não Jesus Cristo dá a comer a mesma Carne que tomou; pois é dito absolutamente: “O Verbo se fez carne”, o Verbo desceu do Céu à terra; e não: Ele se faz carne pela vossa fé, e desce do Céu se crerdes nisso.


Ó verdade da Carne comida, creio-Vos, como creio a verdade da Carne tomada pelo Filho de Deus, descido do Céu. Meu Salvador, com que força me confirmais a vossa Encarnação! Ah! Aquele que não crê que se recebe realmente a vossa própria Carne, na sua própria e verdadeira substância, não crê, como é preciso, que Vós a tomastes, e não tem parte no pão de vida.



Fonte: Jacques-Bénigne Bossuet, Bispo de Meaux, Meditações sobre o Evangelho” – Opúsculo A Eucaristia”, Cap. X, pp. 51-54. Coleção Boa Imprensa, Livraria Boa Imprensa, Rio de Janeiro/RJ, 1942.


___________________

1 Jo. VI, 38 e segs.


domingo, 21 de março de 2021

A Eucaristia – Bossuet. 9


Fruto Espiritual da Eucaristia:

o desapego da vida deste mundo,

para só apreciar a vida onde nunca se morre.

Vida completa e inestimável da alma e do corpo.


No capítulo de São João, devemos achar duas coisas: a primeira, é o fruto espiritual que devemos tirar da Eucaristia; a segunda, é o meio de tirar dela esse fruto. Quanto ao fruto, é fácil entendê-lo: esse fruto é desapegarmo-nos da vida, e apegarmo-nos a Deus. É sobre o que Jesus Cristo se explica claramente por estas palavras: “Em verdade, em verdade, vos digo: vós me buscais, não porque vistes milagres; mas porque comestes pães que multipliquei no deserto, e vos alimentastes deles. Trabalhai, não pela comida que perece mas pela que não perece, que o Filho do homem vos dará: pois ele é aquele que o Pai celeste vos designou, imprimindo nele seu cunho e seu caráter”, e confirmando-lhe a doutrina e a missão por tantos milagres.


Vós vos explicais, meu Salvador! O vosso desígnio é desapegar-nos da comida e da vida perecedora, que tem todos os nossos cuidados, pela qual trabalhamos o ano todo; e transportar-nos a inteligência e o trabalho para a comida e para a vida que não perece. Ensinai-me, meu Salvador, meu Salvador: atraí-me dessa maneira admirável que faz com que vamos a Vós; desgostai-me de todos os cuidados que só resultam em viver para morrer: fazei-me apreciar essa vida em que nunca se morre.


Que milagre fazeis vós, para que creiamos em vós?” Que fazeis de tão maravilhoso? É verdade, fartaste-nos de pão no deserto. Mas esse pão é comparável ao maná que Moisés deu a nossos pais, do qual ele escreveu: Deu-lhes a comer o pão do Céu. O pão que nos destes era o pão da terra, e há tanta diferença entre vós e Moisés quanta há entre a terra e o Céu.


Vê-se claramente por esse discurso que eles só pensavam nos meios de sustentar esta vida mortal, e que não era sem razão que Jesus Cristo lhes exprobara os seus desejos carnais. Porque eles não levam o pensamento mais longe do que ao maná, com que seus corpos foram alimentados no deserto; nem conhecem outro Céu a não ser as nuvens donde ele lhes fora enviado; sem cogitar de que ele não fora chamado o pão do Céu, e o pão dos Anjos, senão em figura de Jesus Cristo, que lhes devia trazer a vida eterna. Serve-se ele, pois, da expressão de que se serve a Escritura, para salientar a maravilha do maná, para elevar os espíritos ao verdadeiro pão dos Anjos, à verdade que os faz felizes e que, havendo-se incarnado, se tornou familiar e sensível aos homens para fazê-los viver.


Diz-lhes, pois, que desceu do Céu; que quem vem a Ele nunca tem fome, e que quem crê nEle nunca tem sede; que Ele é por conseguinte o verdadeiro pão, a verdadeira comida das almas que a Ele vêm pela fé; que os homens, pois, não devem esperar atingi-lo pela sua Divindade, nem unir-se a Ele nela mesma; que é um objetivo demasiado alto para uma natureza pecadora e entregue aos sentidos corporais; que Ele se fez homem para se aproximar deles; que a Carne que Ele tomou é o único meio que Ele lhes deu para se unirem a Ele, e que para isso a encheu Ele da própria Divindade, por conseguinte, de espírito e de espírito e de graça, ou, como fala São João, de graça e de verdade, e em outra parte: “O espírito não lhe foi dado com medida: e nós todos havemos recebido do seu espírito”; que daí, portanto, se segue que nós temos nEle a verdadeira vida, a vida eterna, a vida da alma e do corpo, e não precisamente nEle como Filho de Deus, mas nEle como Filho do homem: pois é por aí que Ele começa. Trabalhai por vos preparardes a comida que vos será dada pelo Filho do homem; contanto que creiais que a sua Carne, pela qual Ele quer vivificar-nos, é cheia de espírito e de vida.


Assim o fim a que Ele quer chegar é fazer-nos viver, porém, da vida eterna, tanto segundo a alma como segundo o corpo: “É”, diz Ele, “a vontade de meu Pai que eu não perca nada daquilo que meu Pai me deu, e que, para dar a vida ao corpo como à alma, eu o ressuscite no último dia”; e ainda: “Vossos pais comeram o maná, e morreram; aquele que comer deste pão viverá eternamente”.


É, pois, esse o fruto da Eucaristia; ela é feita para contentar o desejo que temos de viver, e por isso, dar-nos a vida eterna, na alma pela manifestação da verdade, e no corpo pela sua gloriosa Ressurreição. Senhor, que tenho a desejar? Viver; viver em Vós, viver para Vós, viver de Vós e da vossa eterna verdade, viver todo, viver na alma, viver mesmo no corpo: nunca perder a vida, viver sempre! Tenho tudo isto na Eucaristia, nela tenho pois tudo, e só me resta fruir.



Fonte: Jacques-Bénigne Bossuet, Bispo de Meaux, Meditações sobre o Evangelho” – Opúsculo A Eucaristia”, Cap. IX, pp. 47-50. Coleção Boa Imprensa, Livraria Boa Imprensa, Rio de Janeiro/RJ, 1942.


sábado, 20 de março de 2021

São José na Sagrada Família: Viagem à Judeia.


Após as núpcias, os dois Santos Esposos viveram juntos em Nazaré, provendo ao sustento com o trabalho das próprias mãos. Maria desempenhava as ocupações caseiras e José continuou a exercer o mister de carpinteiro, mas sempre antepondo, cada dia, longas preces ao Senhor, orando e louvando-O também no decurso do trabalho.


Levantava-se bem cedo pela manhã e, terminadas as orações ia despedir-se da Senhora, a quem encontrava em seu quartinho, atenta à oração. Depois, dirigia-se para a sua oficina. Trabalhando, considerava-se sempre na presença de Deus, e, à glória de Deus, oferecia sempre as próprias fadigas e suores. Executava os trabalhos com tanta paciência e perícia que não poderiam ser melhor executados. Assim, não só evitava o ócio, mas com os frutos das fadigas provia ao sustento para si, para a Virgem, e muitas vezes também para os pobrezinhos.


Seus concidadãos, vendo tanta diligência, modéstia e assiduidade, gostavam de ir a ele, e, admirando seus trabalhos tão bem terminados, demonstravam grande desejo de possuí-los; de fato, cada um lhe pedia, ora uma coisa, ora outra. O Santo se prestava a todos e sempre se contentava com o preço que, em justa compensação dos trabalhos executados, lhe ofereciam, o que lhe aumentava cada vez mais a estima e afeto.


Nunca recusava qualquer trabalho exigido, pois sabia executar trabalhos de toda espécie. Construía casinhas de madeira, tabiques, estacadas, arados, jugos para bois, carros, armários, ombreiras e muitos outros objetos. Trabalhando, sabia falar de Deus, do Messias esperado, dos deveres do homem, de maneira que todos quantos iam ouvi-lo, regressavam admirados, mais do que se tivessem ouvido as explicações da Sagrada Escritura na Sinagoga, como era costume no sábado.




Maria mesma revelou a Santa Brígida as grandes virtudes de que José lhe dava exemplo, dizendo:


Entre os serviços e cuidados do governo doméstico, jamais ouvi sair de seus lábios uma palavra vã ou um lamento de impaciência. Sofria a pobreza com perfeita resignação; nas dificuldades, aceitava sem discussão os mais rudes trabalhos. Era cheio de doçura e afabilidade para todos; o respeito e afeto para comigo era imenso.


Era fiel custódio de minha virgindade e um testemunho digníssimo de fé a respeito das maravilhas que Deus operara em Mim. Estava morto para a carne e para o mundo e, não vivia senão para o Céu. Tinha uma confiança tão firme nas divinas promessas, que muitas vezes eu o ouvi dizer: ‘Se desejo viver, é somente para ver sempre, e em tudo, cumprida a vontade de Deus’. Era o único objetivo, e por isso, é agora tão grande a sua glória no Céu”.1


Também a Senhora dava exemplos de sublime santidade. Não tinha em casa nem servas, nem outras pessoas para auxiliá-lA; tudo fazia Ela mesma, desde tirar água do poço até buscar lenha e prover tudo quanto era necessário. Mantinha a casa em ordem e muito asseada, preparava os alimentos e roupas para São José e para Si mesma. Fazia sempre tudo com tanta alegria e precisão, que todos quantos A viam, ficavam imensamente maravilhados. Oh! Que delícia naquela casa! E que consolação para São José ter uma companheira tão experiente, benigna e santa!


Não transcorreu, porém, muito tempo e sucedeu um extraordinário e maravilhoso acontecimento. O Filho de Deus encarnou-Se no seio puríssimo de Maria. Eis o fato como aparece narrado pelo Evangelho: Estando Maria desposada com José, pouco tempo depois de se acharem vivendo juntos em Nazaré, achando-se Ela só e absorta na oração, apareceu-Lhe inesperadamente o Arcanjo Gabriel e Lhe disse: “Eu Te saúdo, ó cheia de graça; o Senhor é contigo, bendita és Tu entre as mulheres”.


À vista do Anjo e ao ouvir essas palavras de louvor, Maria perturbou-se e pensava no que significaria aquela saudação. O Arcanjo A tranquilizou, dizendo: “Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus. Serás Mãe e terás um filho ao qual darás o nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; e o Senhor Deus Lhe dará o trono de Davi seu pai; e reinará sobre a casa de Jacó eternamente; e o seu reino não terá fim”.


A estas palavras do Arcanjo, Maria perturbou-se mais ainda e responde: Vós me dizeis em nome de Deus que me tornarei Mãe; mas como será possível, estando eu consagrada a Ele com voto perpétuo de virgindade? “Como se fará isto, pois não conheço varão?” E o Anjo Lhe respondeu: “O Espírito Santo descerá sobre Ti, e a virtude do Altíssimo Te cobrirá com a sua sombra; por isso, o Santo que há de nascer, será chamado Filho de Deus”.


Por estas palavras, compreendeu Maria o grande Mistério que Lhe era anunciado, isto é, que tornaria Mãe de Deus por obra do Espírito Santo, sem perder a própria virgindade. E, dócil como era à vontade de Deus, inclinou reverente a fronte e disse ao Arcanjo: “Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”.


Terminadas essas palavras, o Arcanjo desapareceu e Maria permaneceu sozinha em seu quarto.




Que acontecimento solene e memorável para Maria, para nós, para o mundo inteiro e para todos os séculos! No instante em que Maria inclinou a fronte e disse: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”, o Espírito Santo descia ao seu puríssimo seio, com seu sangue virginal formava um corpo ao qual unia uma alma como a nossa. A esse corpo e alma, milagrosamente formados, o Filho de Deus unia a própria Divindade, isto é, Encarnava-Se, fazia-Se verdadeiro homem sem cessar de ser verdadeiro Deus. Naquele instante, realizava-se o grande Mistério da Encarnação no seio puríssimo de Maria, e Ela, verdadeira esposa de José, sem deixar de ser Virgem, tornou-se verdadeira Mãe de Deus.


Nesse acontecimento, não se fala diretamente de São José, mas indiretamente, tendo Maria perguntado ao Arcanjo: “Como posso tornar-me Mãe, eu que sou e quero permanecer Virgem?” Destas palavras se conclui que Ela, após o Matrimônio com São José conservavam o candor virginal. Não é uma opinião, mas uma certeza, pois é de fé, que Maria Santíssima foi Virgem tanto antes como depois das núpcias com São José.


Observa Santo Ambrósio: “Deus imprimiu no semblante de Maria tais aparências e atrativos, tanta graça, e comunicou às suas palavras, tanta virtude que, bastava vê-lA para ficar enamorado da virtude da virgindade”.


Ora, se um olhar, uma palavra de Maria bastava para inspirar em quem quer que fosse um grande amor à virgindade, que estímulo para aperfeiçoar-se nesta virtude não terá achado em Maria, São José que tinha com Ela confiança e afabilidade?*


*Escreve o Pe. Joaquim Ventura: “Este dom de Deus, a beleza, por si mesma inocente, que faz tantos culpados, que serve de incentivo ao pecado, que corrompe os olhares; que produz o orgulho em quem a possui e desejos profanos em quem a contempla; a beleza, flor agradável à vista, mas sob cujas pétalas oculta-se muitas vezes a Serpente que envenena e causa a morte; a beleza, nestes dois Esposos, elevados pela graça ao estado da natureza angélica e perfeita, não fazia senão aumentar os valores recíprocos de seu candor, cujo ornamento formava. A beleza era-lhes encanto suave e celeste, que purificava, que lhes elevava o coração da região dos sentidos para a do espírito; favorecia-lhes apenas um respeito mútuo, santos pensamentos, afetos pudicos, e era fomento de virgindade”.


Por conseguinte, cada vez que imaginamos São José com Maria em Nazaré, coloquemos sempre em sua mão um belo lírio, símbolo de sua virgindade, pois deve lembrar-nos o Coração mais casto e mais delicado após o de Maria.




O Arcanjo Gabriel, ao anunciar a Maria o Mistério da Encarnação, dissera-Lhe que Santa Isabel, sua prima, embora já avançada em anos, estava para tornar-se mãe. “Maria, em uma visão espiritual, diz Ágreda, conheceu que o filho de Santa Isabel seria grande diante de Deus, Profeta e Precursor do Verbo Encarnado, sendo portanto, vontade do Senhor visitasse a parenta, para que fosse santificada e São João, seu filho, libertado da Culpa Original. Movida, pois, por um sentimento de vivíssima caridade, pôs-se logo a caminho, para levar à prima o conforto e auxílio em suas necessidades.


Entretanto, não foi só, mas acompanhada por seu castíssimo Esposo São José. O Evangelho cala esta circunstância, por não ter relação direta com o Mistério da Encarnação, mas muitos autores, entre os quais São Boaventura, São Bernardino de Sena, Gérson, Suárez, admitem-na. O Evangelho não a menciona, mas não diz que tenha ele permanecido em casa e Maria ido sozinha.


Seria possível que o “Homem justo”, concedido a Maria para companheiro fiel, custódio nos perigos, consolador nas adversidades, tivesse abandonado a jovem e delicada esposa num momento em que mais necessitava de sua presença e auxílio, deixando-A partir sozinha em uma viagem de cerca de três dias, por estradas difíceis e perigosas? O mesmo espírito de caridade que levou Maria a dirigir-se para a Judeia a fim de levar conforto à prima Isabel, induziu também São José a acompanhá-lA repartindo com Ela as dificuldades de tão longa viagem. Dispondo pois tudo quanto poderia ser necessário, puseram-se a caminho, invocando em seus Corações o auxílio do Senhor e dos Anjos da Guarda.


Escreve São Francisco de Sales: “Maria empreende a viagem com certo alvoroço; com efeito, diz o Evangelho, que se fez com grande pressa. Ò santa solicitude que não perturba e nos apressa sem precipitação: Os Anjos se dispunham a acompanhá-lA e São José a conduzi-lA. Desejaria saber o objeto da conversação dessas duas grandes almas, e vós leríeis com prazer a minha narrativa. Mas creio que a Virgem se entretinha apenas a respeito do que A cumulava, e respirava somente o Salvador.


São José, igualmente, aspirava apenas ao Salvador que, por raios secretos, feria-lhe o coração com mil extraordinários sentimentos. E assim como o vinho encerrado no tonel rescende, sem que se perceba, o perfume das vinhas em flor, assim o coração do Santo Patriarca sentia, sem saber como, o perfume, o sabor, a força do divino Infante que florescera em sua mimosa vinha… Ó Deus! Que bela peregrinação! O Salvador lhes é bordão, alimento e bebida”.2


A viagem era difícil, árdua e por bosques algumas vezes quase inacessíveis, tanto mais que procuravam passar em lugares solitários e possuíam apenas um mísero jumento.




Mas o amor não sente a fadiga, e a companhia das pessoas amadas faz suportar com alegria os maiores incômodos, especialmente quando o Espírito de Deus paira com elas. Será pois para admirar-se que Maria e José, ora edificando-se alternativamente com santas palavras, ora recolhendo-se cada um em oração ao Senhor, não sentissem o peso da longa viagem e chegassem à casa de Zacarias mais dispostos e animados às obras de caridade do que ao partirem?


Apenas entraram em casa de Isabel, a Santíssima Virgem saudou sua parenta com o título de Mãe do grande Profeta e Precursor. Isabel retribuiu a saudação a Maria, chamando-A Mãe do Verbo, e exclamou: “E donde me é concebido que a Mãe do meu Senhor venha ter comigo?”


A essas palavras, respondeu a Virgem Santíssima com o belíssimo cântico: o Magnificat, que jamais cessará, no decurso dos séculos, de despertar a admiração de todos.




A minha alma glorifica o Senhor, e o meu espírito exulta em Deus meu Salvador! Porque lançou os olhos para a humildade da sua serva; e eis que, de hoje em diante, todas as gerações me chamarão Bem-aventurada; porque fez em mim grandes coisas o Onipotente, cujo nome é Santo; e cuja misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem. Manifestou o poder do seu braço; dissipou aqueles que se orgulhavam nos pensamentos do seu coração. Depôs do trono os poderosos, e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos. Tomou cuidado de Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia; conforme tinha dito a nossos pais, a Abraão e à sua posteridade para sempre”.


São José, desconhecendo o Mistério realizado no seio de Maria por obra do Espírito Santo, não pode compreender plenamente o altíssimo significado das palavras de Isabel e de Maria. Teve, porém, motivo para admirar cada vez mais a obra da graça em sua Santa Esposa, e esperar o momento em que aprazeria ao Senhor revelar-lhe os divinos segredos.


Os Santos esposos ali se entretiveram cerca de três meses. Depois, trocados os abraços e agradecimentos daquelas santas criaturas, com grande alegria regressaram a Nazaré.




Fonte: Rev. Pe. Tarcísio M. Ravina, da Pia Sociedade de São Paulo, São José – na Vida de Jesus Cristo, na Vida da Igreja, no Antigo Testamento, no Ensino dos Papas, na Devoção dos Fiéis e nas Manifestações Milagrosas; 1ª Parte, pp. 33-40. Edições Paulinas, Recife, 1954.


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1Bolandistas.

2Cartas Espirit., Livro VI, carta 46.


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