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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

terça-feira, 10 de agosto de 2021

A EUCARISTIA – BOSSUET. 13


Jesus, nossa Vítima, dado na Cruz,

dado na Eucaristia. Seu Sangue,

derramado por nós, corre ainda no cálice,

seu Corpo nos é distribuído

como pão de nossas almas.


Quanta doçura acho em meditar vossa palavra! Quanta doçura acho nessa palavra pela qual estabeleceis e continuais esse banquete, que é ao mesmo tempo um sacrifício! Não me canso de meditá-la; considero-a por todos os lados; rumino-a, por assim falar, e passo-a na boca para tirar-lhe todo o suco. “Isto é meu corpo dado por vós”; em tempo presente, que se dá. “Isto é meu sangue derramado por vós”; no mesmo tempo, que se derrama. São Mateus assim fala. São Marcos, São Lucas, São Paulo, quatro testemunhas perfeitamente uniformes da vossa palavra. Todos os quatro falam em presente; isto é claro no original, e o interprete latino que traduziu no futuro será entregue, será derramado, em relação à Cruz, onde aquele Corpo ia efetivamente ser entregue e onde o Sangue ia ser derramado, conservou em São Lucas o tempo presente: Hoc corpus quod pro vobis datur, a fim de que entendêssemos, não só que Jesus Cristo, dizendo: Isto é meu corpo, o entendia daquele mesmo Corpo que ia ser entregue por nós, mas ainda entendia que esse mesmo Corpo que ia ser entregue e dado por nós já era dado antecipadamente na Consagração mística, e sê-lo-ia a cada vez que se celebrasse esse Sacrifício. Creiamos pois, não só que o Corpo de Jesus Cristo devia ser dado por nós na Cruz, e o foi com efeito; mas ainda que, a cada vez que se pronuncia essa palavra, Ele é por essa palavra atualmente dado por nós: Hoc corpus quod pro vobis datur.


Ele quer portanto dizer que esse Corpo não só nos é dado na Eucaristia: “Tomai e comei: isto é meu corpo”; mas ainda que Ele é aí dado por nós, oferecido por nós, tanto quanto o foi na Cruz; o que assinala que ainda aqui Ele é a nossa Vítima, que ainda aqui é oferecido, posto que doutra maneira. Assim esse termo: dado por vós, diz-se de Jesus Cristo na Cruz, e se diz de Jesus Cristo na Eucaristia, e convém a esse duplo estado do Corpo de Nosso Senhor presente numa e noutra. É por isso que o Salvador não somente fala em tempo presente, para nos mostrar que está aqui como na Cruz dando-se atualmente por nós, mas ainda escolhe um tempo que convém ao seu Sagrado Corpo nesses dois estados. Se Ele tivesse dito: Isto é meu Corpo, que é crucificado, perfurado de chagas, posto à morte por vós, não se poderia dizer que isso lhe convém na Eucaristia, porquanto nesta Ele não morre mais, e haveria que explicar necessária e unicamente: Isto é esse mesmo corpo que será posto na Cruz por vós, e nela exalará o último suspiro pela vossa salvação. Mas disse: “Isto é meu corpo dado”: isto convém a esses dois estados; esse Corpo é dado na Cruz; esse Corpo é ainda dado na Eucaristia; e, num e noutro estado, dado por vós desde que está na Eucaristia para vos ser dado nela, é dado por vós; antes de vo-lo dar a comer, a palavra de Jesus Cristo torna-o presente, e essa presença ainda é para vós. Jesus Cristo está presente por vós diante de seu Pai; apresenta-se por vós, oferece-se por vós, e a sua simples presença é para vós uma intercessão onipotente.


Eis aí, pois, o que opera na Eucaristia esse precioso termo: “Isto é meu corpo dado”.


Talvez, porém, que os termos referidos pelos escritores sacros não tenham sido pronunciados com a mesma escolha, e não convenham igualmente aos dois estados da presença de Jesus Cristo. Vejamos, leiamos, meditemos: Isto é meu sangue derramado: ele é derramado na Cruz, mas não é ainda derramado no cálice? Não há, porventura, nesse cálice com que fazer a Deus, pela nossa salvação, a mais salutar efusão que jamais tenha havido? Esse Sangue está ali em estado de ser derramado sob a forma de um licor, cuja propriedade é derramar-se. Esse Sangue que foi derramado na Cruz e que correu de todas as veias rompidas do Salvador, corre ainda nesse cálice de todas as suas Chagas, e principalmente da do Sagrado Lado. É por isso que nós misturamos esse cálice com um pouco de água, em memória da água que correu do Lado aberto com o Sangue.


Senhor Jesus, sois a Palavra, e vossa palavra são pronunciadas com uma escolha digna de Vós. Dizendo: Isto é meu sangue derramado por vós, em tempo presente, Vós me assinalais que não somente ele é derramado por mim na Cruz, mas ainda que se derrama por mim, e pela remissão dos meus pecados, nesse cálice, para assegurar-me-á, para aplicar-me-á, para continuar eternamente a intercessão onipotente que fazeis por mim por esse Sangue.


Continuemos a ruminar essas santas palavras: Isto é meu corpo dado por vós, conforme lemos em São Lucas; porém, a palavra que São Paulo pôs no lugar foi esta: “Isto é meu corpo rompido por vós”; mas que quer dizer esse termo, segundo o uso da língua santa? Isaías no-lo explicou por estas palavras: “Rompe o teu pão àquele que tem fome”1: dá-lhe esse pão, reparte-o com ele. São Paulo explica, portanto, bem: Isto é meu corpo dado por vós, por: Isto é meu corpo rompido por vós. Esse Corpo é posto em estado de nos ser dado, de nos ser distribuído, de nos ser rompido na Eucaristia; e desde que é posto nesse estado, já é rompido e dado por nós, na destinação e pela palavra de Jesus Cristo. Porém, esse mesmo termo também tem sua relação com o Corpo na Cruz, com o Corpo machucado de golpes e furado de Chagas, suspenso a uma cruz em estado tão violento, em que o seu Sangue escorre por todos os lados das suas veias cruelmente rompidas. A palavra romper convém, pois, ainda aos dois estados, quer ao de Jesus Cristo na Cruz, quer ao de Jesus Cristo na Eucaristia: o Corpo é dado em ambos os estados; é rompido em ambos. O mesmo sucede com o Sangue. O Corpo é em toda parte dado por nós, é em toda parte nossa Vítima; o Sangue é em toda parte derramado por nós na Cruz, corre ainda por nós na Taça Sagrada.


Meu Salvador, que Sacrifício! Meu Salvador, repito, quanta doçura em meditar vossa palavra! Acho sempre nela novos gostos; como no Maná, vosso Corpo e vosso Sangue são a minha oblação, o meu sacrifício, a minha Vítima, tanto na Cruz como na Mesa Sagrada: e, como a Cruz, essa Mesa é um altar. Ah! Realmente o que diz São Paulo é bem verdadeiro! “Temos um altar, do qual os que permanecem apegados ao tabernáculo antigo, e ao altar da lei, não têm poder de comer”. Para participar dele, há que entrar em espírito no “Tabernáculo que não é feito por mão de homem”.2



Fonte: Jacques-Bénigne Bossuet, Bispo de Meaux, “Meditações sobre o Evangelho” – Opúsculo A Eucaristia”, Cap. XIII, pp. 65-70. Coleção Boa Imprensa, Livraria Boa Imprensa, Rio de Janeiro/RJ, 1942.


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1.  Is., LVIII, 7.

2.  Heb., IX, 11.


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