Blog Católico, para os Católicos

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sexta-feira, 11 de março de 2022

O Real Caminho do Amor: "O SOFRIMENTO". 7ª Parte.

 


Sétima Meditação


Sábado


O Amor de Deus

Consola na Tribulação


I – O amor que Deus nos têm, é origem e causa dos nossos padecimentos.

Considera que o primeiro desígnio da divina bondade, a respeito do homem, foi tratá-lo sempre com toda a sorte de regalos; e para este fim, logo depois de o ter criado, o colocou num Paraíso de delícias, para mais tarde o trasladar dos prazeres breves da terra aos gozos imortais da vida eterna no Céu.

Mas, como Deus Nosso Senhor, à vista da culpa, se viu forçado a mudar estes planos amorosos, que para nosso bem tinha determinado, e a dar entrada no mundo aos trabalhos, às lágrimas e ao sofrimento; de tal maneira quis fazer isto, que esse mesmo justo rigor viesse a ser um efeito da Sua misericórdia, e fosse tão grande o bem encerrado nas penalidades desta vida que bastasse a fazer-nos felizes: Tende por objeto de sumo gozo, irmãos meus, quando cairdes em várias tribulações.1

Assenta pois, no coração, como fundamento da tua paciência, estas duas verdades incontestáveis: A primeira, é que toda a tribulação, seja qual for, ou venha da natureza ou dos homens ou do Demônio, não pode te tocar em nada, sem que antes passe pelas mãos de Deus, sumamente bom: Não há mal nenhum na cidade, que não seja por disposição do Senhor.2

A outra verdade é, que esta mesma Providência, assim quando te aflige para castigar as tuas culpas como quando te prova para te aperfeiçoar na virtude, sempre o faz com amor incompreensível, à maneira de mãe amorosíssima, a qual, ao mesmo tempo que põe a seu tenro filhinho nas mãos do médico para que o cure, chora ao ver as feridas que lhe fazem, e mistura as lágrimas dos seus olhos com o sangue que o filho derrama.

Para que pois te afliges com os trabalhos? Porque assim te desalentas e quase desmaias? Meu filho, não desfaleças quando o Senhor te castiga. Porque o Senhor castiga a quem ama e compraz-se nele, como um pai em seu filho.3

Oh, que formosas palavras são estas que o Senhor te faz ouvir, se penetrares bem a fundo o sentido delas!

Quando, pois, o teu corpo se vir cercado de dores, quando o teu coração se inundar de tristeza, quando o teu espírito se vir envolvido em espessas trevas, quando os homens e os Demônios, os superiores e os inferiores, os bons e os maus se coligarem todos para te encher de penas e aflições; traze ao pensamento que, se os açoites são tantos, a mão que te fere é a Mão de Deus: A Domino corriperis, ‘É o Senhor que te castiga’. Pensa também que ferindo-te assim, mostra o Seu grande amor e o bem que te quer: Quem enim diligit Dominus, corripit. ‘O Senhor castiga a quem ama’. Finalmente, quando te está dando esse castigo, também está se agradando em ver o bem que te faz, como se agrada um pai com o adiantamento de seu filho: Et quasi pater in filio complacet sibi. ‘E compraz-se nele como um pai em seu filho’.”

E na verdade, se o estar neste mundo sem males fosse para ti um bem, crês tu, porventura, que o amor de Cristo Senhor Nosso, para contigo, não te havia de fazer esse bem? Reflete um pouco no muito que fez para te livrar dos males da outra vida, que são os verdadeiros males: carregou com toda a sorte de trabalhos; foi “um varão de dores”, Vir dolorum; sofreu na honra e na fama, no Corpo e na Alma, quanto pode inventar a raiva dos seus inimigos, o furor dos Demônios e a Sua mesma infinita caridade. E um Deus que tanto padeceu, para que tu não padeças, não te evitaria os trabalhos, as tribulações e todos os sofrimentos, se em tudo isto houvesse verdadeiros males, e não pelo contrário, verdadeiros bens e muito grandes bens, disfarçados com a aparência de males.

Portanto, sendo o amor de Deus às nossas almas a causa e origem donde nascem as tribulações; o amor, o que as permite; o amor, o que as mede e pesa; o amor, o que sempre as acompanha; que ingratidão a nossa, se não as recebemos com amor? Deus oferece-nos por Sua própria mão o cálice amargo, mas salutar, do sofrimento; e nós fugimos constantemente a bebê-lo. Vemos um pobre cego fiar sua vida e deixar-se guiar de um animalzinho fiel, mas sem entendimento; e nós, não acabaremos de nos lançar nas mãos amorosíssimas de Deus, que tanto nos tem amado desde toda a eternidade, e que em nada mais parece ter pensado senão em fazer-nos bem.

II – Os nossos padecimentos são o meio para alcançarmos o Amor Divino.

Considera que o meio mais apto para alcançar o amor de Deus é padecer pelo mesmo Deus. O madeiro da Cruz é o que melhor pode acender em nós o fogo do amor divino, segundo dizia Santo Inácio; e assim todo aquele que deseja ser santo, deve pedir a Nosso Senhor que lhe dê muito que sofrer. Não há meio de levar a cabo a grande empresa de nos revestirmos de Jesus Cristo, senão começando por arrancar de nós os hábitos do homem velho; nem pode morrer em nós esta vida terrena, senão pela morte contínua com o sofrimento.

Sendo isto assim, quem está resolvido a deixar de viver para a natureza, para os sentidos, para o amor-próprio, deve também estar resolvido a não tratar mais de consolações, senão de tudo o que é cruz. Beberá da torrente (da tribulação) no caminho (da vida); por isso, levantará logo a cabeça.4 Enquanto não beberes e te saciares desta torrente das penalidades e trabalhos, não chegarás a levantar a cabeça, não te elevarás acima de uma virtude muito frágil e vulgar.

Boas são as consolações espirituais; mas da nossa parte há sempre perigo que a natureza se acostume a elas e, às vezes, tão disfarçadamente que nem nós mesmos caímos na conta. Roga também ao Senhor que, se é necessário ferir por mais tempo a dura pedra do teu coração, para acender em ti o fogo do divino amor, não perdoe aos golpes, nem dê ouvidos aos gritos da natureza rebelde; senão pelo contrário, que vá atravessando a tua alma com a espada da dor, até reduzir a estado de nada, aborrecer mais que a si mesma, nem amar nada mais que a Deus; de maneira que possas também dizer com verdade: Alegrar-nos-emos pelos dias em que nos humilhastes, pelos anos em que sofremos calamidades.5

III – Os nossos padecimentos são indício de termos alcançado o amor divino.

Considera, que o sinal menos enganoso do amor, é padecer de boa vontade pelo amado. Os benefícios são certamente boa prova de benevolência, mas não há neles prova tão segura como nos padecimentos. Porque quem dá e faz mercês a outro, mostra ter em pouco as próprias coisas, em atenção à pessoa amada; mas quem padece pelo amigo, a si mesmo é que mostra ter-se em pouco. E, se é grande coisa fazer a outro feliz, em favor e para o bem do seu amigo?

Assim que, sofrer por Deus com alegria é a prova mais concludente de que O amamos; nem de outra se serviu Cristo Senhor Nosso quando, para mostrar o amor que tinha a seu eterno Pai, saiu generosamente ao encontro da Cruz: Para que o mundo conheça que amo a meu Pai… levantai-vos e vamos daqui.6 Enquanto, pois, a alma se acha entre delícias, ainda que sejam delícias espirituais; enquanto é favorecida com sentimentos e luz interior ainda que esta luz e estes sentimentos venham do Céu; enquanto abunda (e neste caso com muito maior razão) em bens da terra; não pode saber, com bastante segurança e fundamento, se ama verdadeiramente a Deus.

Quando, porém, se vê a braços com o infortúnio, com a enfermidade e com os desprezos; quando sente o desamparo, assim exterior de pobreza e perseguições, como interior de securas e trevas de espírito, então, se apesar de tudo, como lua eclipsada, prossegue ordenadamente o seu caminho, do mesmo modo que antes, bem pode ter grande confiança de que vai pela senda do divino amor, a qual está toda semeada de cruzes e eriçada de espinhos.

Esta foi a glória do Santo Tobias, e será sempre a de todas as almas escolhidas: não largar nunca a senda da verdade, qualquer que seja a tribulação que se atravesse: Ainda que em cativeiro, não deixo o caminho da verdade.7 Que glória seria, então, a tua até agora, em seguires a Jesus no Tabor, se O não acompanhas também até ao Calvário?

Feliz de ti se podes mostrar o amor que tens a Deus Nosso Senhor, como Ele mostrou o Seu para contigo. Ele quis ser e mostrou-se por teu amor Esposo de sangue, a tal ponto, que não duvidou sacrificar por teu bem a Sua liberdade, a Sua honra, o Seu descanso e a Sua vida; tu deves dar-Lhe uma prova semelhante da tua fidelidade, sofrendo com alegria toda a sorte de trabalhos, que, de qualquer parte que venham, sempre serão para ti um grande bem, levando-te como pela mão até Deus, com segurança não pequena de O chegares a encontrar: No dia da tribulação acudi solícito ao Senhor, levantei de noite a Ele as mãos e não fiquei enganado.8

Porque a Deus Nosso Senhor nunca ninguém buscou em vão no tempo do infortúnio; tu que O invocaste nesse tempo, e como que O trouxeste a ti à força de braços, bem podes ter motivos de grande confiança que finalmente O achaste: Manibus meis Deum exquisivi, et non sum deceptus. Talvez te pareça estranho este modo de falar; mas certamente não o era aos Santos, a quem tu agora chamas bem-aventurados, e que na realidade o são, precisamente porque padeceram muito, levaram gozosos o peso da Cruz e permaneceram nobremente fiéis na prova a que Deus pôs o Seu amor: O certo é que temos por Bem-aventurados os que padeceram.9

Envergonha-te, pois, de teres vivido até agora como às cegas e a impulsos do amor-próprio, o qual tão inimigo é da verdade como de ti mesmo. Além disto, tem entendido que, enquanto não chegares a desafiar os trabalhos, como os Santos Mártires desafiavam as feras, a que eram lançados, não podes estar seguro de possuir a caridade, em grau de perfeição notável. Portanto, confessa as tuas misérias ao Senhor, e pede-Lhe força para poderes, como o Profeta, oferecer-te a esta experiência da Cruz, dolorosa sim, mas, salutar, dizendo: Provai-me, Senhor, e sondai-me; acrisolai no fogo (das tribulações) os meus afetos e o meu coração.10



Oração à Virgem Santíssima ao pé da Cruz,

para alcançar a paciência.


Ó Rainha dos Mártires e Mãe do Santo Amor! Se Vós amastes a Deus mais do que todas as criaturas, também haveis de ter padecido por Seu amor mais do que todas. Contemplo-Vos ao pé da Cruz submergida num mar de dores, imenso como a Vossa caridade; mas, longe de Vos cansar esse longo martírio, vejo-Vos arder em vivíssimo desejo de sofrer ainda mais, como fidelíssima Companheira do Vosso Jesus crucificado. Com estas provas mostrais o muito amor que tendes a Deus, e com este fogo avivais esse grande incêndio em que já ardeis.

Mas, estas mesmas provas são para mim, pobre e miserável, outras tantas repreensões; porque, em vez de Vos imitar, quereria amar sem padecer e, fugindo da Cruz a todas as horas, persuado-me que tenho grande amor ao Vosso divino Filho.

Cego como sou, não acabo de entender que isto é amar-me a mim mesmo e não a Deus, que é viver segundo o espírito do velho Adão, condescender com as minhas perversas inclinações, e não seguir as máximas do meu amorosíssimo Redentor.

Quem me poderá obter um bem tão precioso como é a graça de iluminar esta minha cegueira, senão Vós, Mãe piedosíssima, a cujos pés vejo levantado um trono de misericórdia? Vós me podeis impetrar esta graça. Ainda mais: (não Vos ofendais, Senhora, se assim Vos falo) Vós me a deveis impetrar. Como fostes constituída Mãe nossa, ao pé da Cruz, muito desejais fazer-nos semelhantes a Vós e ao Vosso divino Filho.

Prostrado, pois, a Vossos pés e humilhado até ao pó da terra, eu Vos suplico instantemente não que me livreis das tribulações, mas que me alargueis o coração de maneira que de hoje em diante as comece a amar tanto como antes as aborrecia. Só Vós, Senhora, podeis fazer com que eu, quando me vir desamparado do Céu e da terra, quando não vir em mim senão misérias, inclinações ao mal e aversão à virtude, não perca o ânimo em tão duros transes, mas permaneça Convosco no cimo do Calvário, padecendo e amando, com o Vosso Jesus. Feliz de mim, se alcanço esta graça! É certo que não a mereço; mas, a glória da Vossa misericórdia será tanto maior quanto mais indigno sou dela. A minha confiança não a hei de medir pelos meus merecimentos, senão pelos Vossos, ó Virgem Dolorosa, e pelos do meu divino Redentor, nos quais firmemente me apoio, seguro de que jamais ficarei confundido. Amém.


A. M. D. G.

Ad majorem Dei gloriam

Para maior glória de Deus”


____________________

1.  Omne gaudium existimate, fratres mei, quum in tentaciones varias incideritis (Jac., I, 2).

2.  Si est malum in civitate, quod Dominus non fecerit? (Amos, III, 6).

3.  Fili mi, ne delicias, cum a Domino, corriperis; quem enim diligit Dominus, corripit et quasi pater in filio complacet sibi (Prov., III, 11).

4.  De torrente in via bibet, propterea exaltabit caput (Ps., CIX, 8).

5.  Laetati sumus pro diebus quibus nos humiliasti; annis quibus vidimus mala (Ps., LXXXIX, 15).

6.  Ut cognoscat mundus quia diligo Patrem… surgite, eamus (Joan., XIV, 31).

7.  In captivitate tamen positus, viam veritatis non deseruit (Tob., I, 2).

8.  In die tribulationis meae Deum exquisivi manibus meis nocte contra eum, et non sum deceptus (Ps., LXXVI, 3).

9.  Ecce beatificamus eos qui sustinuerunt (Job., V, 11).

10.  Proba me, Domine, et tenta me; ure renes meos et cor meum (Ps., XXV, 2).


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