Blog Católico, para os Católicos

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

terça-feira, 19 de abril de 2022

A HARMONIA DO CÉU, DESCANSANDO NOS BRAÇOS DO PARAÍSO DE DEUS.

 


Em Consideração do Menino Deus,

Dormindo nos Braços de Sua Mãe Santíssima.


Perguntáveis, Senhor, ao vosso servo Jó: Quem faria adormecer a harmonia do Céu: Concentum coeli quis dormire faciei?1 Muito obscuro era então este sagrado enigma: porém, já agora é muito claro; porque então este ocupavam a terra as sombras da Lei da Natureza: e agora, reina o formoso dia da vossa graça. A harmonia do Céu sois Vós meu Deus Menino: e a Donzela Mãe, no seu regaço fez dormir esta harmonia; dormir, porém, não para que emudeçais, senão para que respireis mais suavemente.

Nesta admirável partitura de Deus Menino, Vós mesmo, meu Deu Menino, sois o papel com notas, que são os membros de que se vestiu vossa Pessoa, para que Vos percebêssemos visivelmente: Cum ille (disse de Vós Crisóstomo) oculis cerni non posset, Deus ipsum literis, velut corpore vestivit, eique ceu carnem literas aspectabiles apposuit.2 E Vós mesmo também sois a clave: O clavis David, qui aperis, et nemo claudit.

Vós mesmo sois o compasso: porque a vossa mão, isto é, a vossa vontade e império, depois da anunciação maior de tantos séculos passados, assinalou o tempo perfeito, em que havíeis de baixar ao mundo no meio dos anos: In medio annorum notum facies,3 e no meio da noite, Dum nox in suo cursu medium iter haberet.4

Vós mesmo sois a voz que canta: Vox Dilecti mei, ecce iste venit. Ó, como esta voz é sonora? Tonabit in você sua mirabiliter, qui facit magna, et inscrutabilia.5 Ó, como é doce e suave, que faz derreter as almas! Anima mea liquefacta est, ut locutus est.6 Que destramente alterna e interpõem os pontos graves da Onipotência, com os agudos da Sabedoria, e os sobreagudos do Amor.

E não só sois a voz que canta; senão também o verso, ou canção que cantais; canção verdadeiramente nova, e admiravelmente composta para glória do Altíssimo. Porque, que consonâncias pode haver mais novas e esquisitas, que o Deus Homem, o Verbo feito carne, o Sol de noite, a Eternidade no tempo, o Imenso em faixas, o Infinito limitado? Christus (disse São Clemente de Alexandria) novum mihi vocantum est canticum; hoc est canticum novum,7 adventus qui nunc refulsit in carne.

E não somente sois o verso ou canção; senão também o instrumento musical em que cantais. Sois a suave cítara, por cuja vinda, como glória de toda vossa ascendência, suspirava vosso progenitor Davi: Exurge gloria mea, exurge psalterium, et cithara.8 Para a cítara dar sua melodia, três coisas concorrem: a arte, a mão e as cordas; as cordas tocadas da mão, e a mão governada pela arte. Vós sois a Arte, porque sois o Verbo, pelo qual o Supremo Artífice formou todas as coisas: Omnia per ipsum facta sunt.9 E sois também a mão, que desejava e pedia o mesmo Davi, que fosse feita para nos salvar: Fiat manus tua, ut salvet me10 verdadeiramente feita pela Encarnação quanto à Humanidade, abeterno éreis mão não feita, mas gerada: Manus quippe Dei (diz São Gregório) quae per Divinitatem non est facta, sed genita, per humanitatem facta est.11 E esta mão de Deus, que sois Vós, ó Unigênito do Pai, pegou das cordas, porque pegastes não dos Anjos, mas da nossa carne, fazendo-a instrumento de vossas maravilhas, que soasse nos Céus e na terra, e debaixo da terra: Sonum sola chorda excuitit, carnem solus Christus accepit:12 disse Santo Agostinho. Estas cordas de que pegastes como Mão e que tocastes como Arte, são as de Adão, com que tínheis prometido atrair-nos: In funiculis Adam traham eos.13 Ó, quanto melhor cítara é a vossa, meu Deus Menino, que a de Arião e a de Orfeu, celebradas pela fabulosa antiguidade! A cítara de Arião, dizem que edificou a Tebas atraindo pedras: a vossa edifica a Igreja militante e triunfante, atraindo os homens. A cítara de Orfeu, dizem que amansava as feras e transplantava as árvores: a vossa cítara, como tem tão finas cordas, tão destra mão, tão engenhosa arte, amantes os corações humanos, mais indomáveis que as mesmas feras; e transplanta as árvores estéreis do inculto deserto da Gentilidade, para o Paraíso da Igreja, onde levam frutos de vida eterna.

Pois se Vós, meu amantíssimo Menino, juntamente sois o papel, e as notas, e a clave, e o compasso, e a voz, e o verso, e o instrumento: quem negará que sois harmonia celestial: Concentum coeli? Esta harmonia pois do Céu, quem a faz adormecer, é MARIA, vossa Mãe Santíssima, reclinando-Vos amorosamente no recosto de seus braços. Os vales sombrios, a viração branda e o murmurar das fontes conciliam sono ao caminhante cansado. Caminhante sois, sendo juntamente compreensor, e estais cansadinho, porque vindes de muito longe, transpondo montes de dificuldades (Ecce iste venit saliens in montibus, transiliens valles)14, a fazer compreensores os caminhantes: que muito que adormecesses, se Vos recostastes no vale dos lírios e açucenas, nos braços, digo, de vossa Mãe puríssima: Maria vallis amoena, vernans virtutum lilijs:15 soando entretanto o brando sopro de suas aspirações amorosas, e o rugido manso de suas lágrimas puras? Vejo a MARIA como aurora, declinando para Vós seus olhos como estrelas: dormi meu belo infante; que a aurora traz consigo mais doce sono, e as estrelas ao caírem O persuadem: Suadent que codentia sydera somnos. Vendo-Vos assim reclinado no braço e ombro de MARIA Santíssima, Ela me parece Rainha, e Vós me pareceis Cetro: mas se o vosso Profeta Jeremias Vos visse agora, não diria que via um Cetro vigilante, Virgam vigilantem ego video:16 senão antes um Cetro dormente; pois, dormis Vós, que sois o Cetro ou Vara da virtude de Deus, mandado desde Sião a dominar o mundo: Sceptrum virtutis tuae emittet Dominus ex Sion dominare, etc. E se o Cetro vigiando é o símbolo da Justiça, e o Cetro dormindo é o símbolo da Misericórdia: a quem, meu Deus Menino, podia pertencer O tornar-Vos de vigilante para dormente, senão à vossa Mãe Santíssima, que trocou vossa justiça em misericórdia? A São Hadelino estando dormindo, o seu Anjo em figura de pomba, lhe fez sombra com as asas, porque o Sol dando-lhe nos olhos não o acordasse.17 Poderíamos temer, que os raios dos olhos de MARIA, dando-Vos no rosto, em que estão empregados, Vos acordassem: se assim como Ela é o Sol, Electa, ut Sol, não seria também pomba, Columba mea: e se como Sol com seus raios Vos descobre, como pomba com suas asas Vos ampara.

Dormi pois, meu precioso Menino, delícias de minha alma: dormi a bom levar; que se MARIA é poço, Puteus aquarum viventium,18 e Vós sois pedra, Petra autem erat Christus: ninguém estranhará que durmais como pedra em poço. Dormi; que bem é se sujeite às semelhanças da morte (Quid est somnus, gelidae nisi mortis imago?) quem se há de sujeitar às realidades, e se as realidades da morte as tereis nos braços de uma Cruz, as semelhanças hás tereis nos de uma Donzela. Dormi; que se Adão dormiu no Paraíso, Vós sois o Segundo Adão, MARIA o melhor Paraíso. Dormi, que ainda que Deus não dorme, é certo que descansou no Sábado: Requievit die septimo:19 e MARIA é o vosso Sábado delicado, onde achais o vosso descanso. Ó MARIA Santíssima, puríssima e formosíssima, pedi a essa harmonia do Céu, que em vossos braços tendes adormecida; que de tal sorte sossegue em nós o inquieto ruído de nossos remorsos e pecados, de nossas paixões e cuidados, de nossos sentidos e potências; que possamos pegar no sono da Oração de quietude, para acordar no dia de sua contemplação clara. Amém.


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Fonte: Ven. Pe. Manoel Bernardez, Oratoriano, “Luz e Calor – Obra Espiritual para os que Tratam do Exercício de Virtudes e Caminho de Perfeição”, 2ª Parte, Opúsculo IV, Solilóquio XIX, Pontos 395-396, pp. 444-447. Nova Edição, Lisboa, 1871.

1.  Job 38, 37.

2.  Ser. de Sigillis libror. t. 6. Graeco lat.

3.  Habac. 3, 2.

4.  Sap. 18, 14.

5.  Job 37, 5.

6.  Cânt. 5, 6.

7.  Initio Proterptici.

8.  Psalm. 56, 9.

9.  Joan. 1, 3.

10.  Psalm. 118, 173.

11.  Homil. 2. super Ezechi. Iem.

12.  Serm. 3. de Tempore.

13.  Osee. 11.

14.  Cânt. 2, 8.

15.  Lud. Blosius.

16.  Jeram. 1, 11.

17.  Acta Sanctorum 3. Februarij.

18.  Cânt. 4, 15.

19.  Gên. 2, 2.


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