Blog Católico, para os Católicos

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Ato de Desagravo e Oração Jaculatória.


Com o profundo respeito que a Fé me inspira, ó meu Deus e meu divino Salvador, Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, eu Vos adoro no Augustíssimo Sacramento do Altar. Amo-Vos de todo o meu coração, e Vos ofereço este amor em reparação de todas as irreverências, profanações e sacrilégios, que, para minha desgraça, tenho cometido, e também pelos que têm sido praticados por outros, e que desgraçadamente poderão sê-lo no futuro.

Eu Vos adoro, pois, ó meu Deus, não como Vós o mereceis, não como deveria fazê-lo, mas, ao menos, quanto posso. Quereria poder fazê-lo com a perfeição de que seriam capazes todas as criaturas racionais. Além disso, quero adorar-Vos presentemente e sempre, não só pelos católicos indiferentes, que não Vos amam nem Vos adoram, mas ainda por todos os hereges, cismáticos, ímpios, ateus, blasfemos, maometanos, judeus e idólatras, e com o fim de obter a sua conversão. Ah, sim, ó meu Jesus, sede conhecido de todos os homens, adorado, amado, e bendito a cada instante no Santíssimo e Diviníssimo Sacramento. Assim seja.


1 Pai Nosso, 1 Ave Maria e 1 Glória ao Pai.


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Fonte: Santo Afonso Maria de Ligório, Fundador da Congregação do Santíssimo Redentor e Doutor da Igreja Universal, “Meditações para a Oitava do Santíssimo Sacramento”, pp. 30-31. Traduzidas do Francês pelo Pe. J. M., Livraria Católica Portuense – Centro de Propaganda Religiosa em Portugal e Brasil, de Aloysio Gomes da Silva/Editor, Porto, 1893.


segunda-feira, 25 de julho de 2022

São José e os Magos. A Matança dos Inocentes. A Fuga para o Egito.


O Filho de Deus aparecera na terra, revestido de nossa mísera humanidade, ocultando sob as feições de um menino comum os esplendores da Divindade, de modo a ninguém poder suspeitar que naquele menino chamado Jesus, se ocultasse um Deus. Mas havia quem pensasse em manifestar-Lhe a glória, a dignidade e a Divindade.

De fato, houvera já uma primeira manifestação de Sua Divindade na ocasião do Nascimento, quando os Anjos festejaram a Deus feito menino. Os pastores, avisados pelos Anjos, naquela mesma noite reconheceram e adoraram o recém-nascido Salvador do mundo.

Uma segunda manifestação da Divindade de Jesus teve lugar 40 dias após o Nascimento, em Sua Apresentação no Templo. Uma terceira, ainda mais clamorosa e solene, não devia tardar a realizar-se, por meio de ilustres personagens, provenientes de longínquas terras: é a terceira Epifania de Jesus.

Enquanto os Anjos, com seus cânticos, anunciavam nas cercanias de Belém o Nascimento de Jesus Menino, anunciava-O no Oriente o surgir de uma nova estrela.

Os pastores de Belém, primeiros adoradores do Messias, representavam o povo hebreu, o povo do Senhor. Os representantes dos pagãos foram os Magos; homens que se ocupavam das ciências, especialmente da astronomia, da medicina e da matemática.

Naquele tempo, o mundo inteiro, mas em particular o mundo oriental, esperava uma nova era para toda as nações e julgava-se que essa era tivesse origem na Palestina. Os Magos meditavam talvez nessa crença, quando viram resplandecer no Céu uma estrela maravilhosa, que nunca se vira antes, a mover-se em direção à Palestina. Pensando existir relação entre o astro e o esperado Redentor, puseram-se a caminho da Judeia, para irem a Jerusalém em busca de notícias mais seguras. A estrela milagrosa, servindo-lhes de guia, conduziu-os até a Cidade Santa e desapareceu.

A tal desaparecimento, pensaram os Magos que o Menino tivesse nascido nessa cidade, razão pela qual perguntaram: “Onde nasceu o Rei dos Judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente (vinham talvez da Arábia) e viemos para adorá-lO”.

Herodes, sabendo do acontecido, pensando que o Menino recém-nascido pudesse tornar-se usurpador de seu trono, convocou o conselho dos Doutores da lei e interrogou-os a respeito do lugar onde deveria nascer o Messias. Responderam estes que, segundo a profecia, devia nascer em Belém. Herodes, soberbo e cruel tirano, rei sanguinário que fizera incluir no testamento a ordem de serem mortos, por ocasião de sua morte, todos os chefes de famílias, para constranger a nação a chorá-la, querendo desembaraçar-se de Jesus, disse aos Magos, com intenções secretamente malignas: “O Menino que procurais, deve nascer em Belém: ide, procurai-O e, quando O tiverdes encontrado, avisai-me, para que eu também O vá adorar”.

Os Magos concordaram com a proposta, e, siando da cidade, foram novamente guiados pela estrela até o lugar onde se encontravam José, Maria e o Menino. Segundo o uso oriental, detiveram-se na hospedaria pública, com os seus camelos, e foram perguntar ao chefe da Sagrada Família, São José, se lhes permitia obsequiar o Menino, pois que um aviso celeste até ali os conduzira para tal fim. E, recebendo naturalmente de São José uma resposta afirmativa, compareceram aqueles príncipes com um séquito de servos, que, extraindo muitos vasos cheios de dons, trouxeram-nos para diante deles, segundo o uso oriental de jamais comparecer sem dons diante dos monarcas.

Encontraram e viram o Criador feito Menino, no regaço de Maria, que em sua simplicidade se preparara para receber a singular visita, e, humildemente prostrados a Seus pés, cheios de fé e veneração, adoraram-nO e se ofereceram a si mesmos, juntamente, com as suas nações.

Sua régia fé não se abalou nem com a pobreza do ambiente, nem com a aparente humildade da condição de José e de Maria, mas deixaram que Deus lhes governasse os corações. Tomaram, portanto, os vasos preciosos, expostos pelos servos em cima dos tapetes, e, abrindo-os, ofereceram ao Menino ouro, incenso e mirra: misteriosa oblação em sinal dos profundos sentimentos de fé, amor e veneração que lhes enchiam a alma, e símbolo da Divindade do Menino, de Sua Majestade e de Sua missão redentora*.

* Diz Santo Anselmo, que as moedas oferecidas pelos Magos a Jesus Menino seriam as mesmas com que tantos séculos antes o casto José egípcio fora comprado pelos ismaelitas, ao ser-lhes vendido por seus irmãos; as mesmas que, tendo chegado depois às mãos dos Sacerdotes do Templo, serviram para dar a Judas o preço da traição.

E a Criancinha tudo guardou e conheceu o significado dos presentes, abençoando aquelas primícias dos gentios, chamados a participarem de Seu Reino, com um cúmulo de graças para as nações que lhes estavam submetidas.

É provável que, depois disso, os Magos** se entretivessem por algum tempo em santa conversação com a Mãe de Deus e com São José, sabendo assim os detalhes mais importantes do Nascimento do Senhor. Após os mais vivos agradecimentos, regressaram, e, avisados em sonho pelo Anjo do Senhor para não tornarem a Herodes, por outro caminho voltaram à sua pátria. Estava cumprida a sua missão.

** Os Magos puseram verdadeiramente em prática tudo quanto haviam aprendido na gruta sagrada; de fato, regressando aos seus países, com palavra e o exemplo exortaram uma infinidade de pessoas. Narra depois uma piedosa tradição que, mais tarde, tendo-se já difundido os Apóstolos para a pregação do Santo Evangelho, chegou àquelas regiões São Tomé, batizou-os, confirmou-os, consagrou-os Sacerdotes e Bispos e, por fim, padeceram na Arábia o martírio pela fé. Suas relíquias foram transportadas a Constantinopla, no século IV, por Santa Helena; dali, foram transferidas para Milão, na Igreja de S. Eustórgio. E, em 1162, tendo Frederico Barbarroxa devastado Milão, foram transportadas para Colônia (Alemanha), onde são atualmente muito veneradas.

A visita dos Magos devia ser muito agradável e causar grande satisfação a São José, não só por ter a felicidade de entreter-se com pessoas tão semelhantes nas ideias e afetos, mas também por ver honradas as duas pessoas que constituíam a vida de Seu Coração. A ciência do Oriente viera render homenagem à Divina Sabedoria da Criancinha, cuja dignidade régia transparecia em todo o Seu esplendor, embora fosse tão débil na aparência.

Apenas nascido, começa imediatamente a governar o Seu poderoso império: pobre, cria ouro e as riquezas, chama de mui longínquas regiões os monarcas, como Seus servos, para adorá-lO; o Céu e a terra se curvam diante d’Ele e Seus inimigos tremem à Sua chegada.

São José tinha pois razão para exclamar com São Pedro: “Ó, como se está bem aqui!” Não se enganaria quem reconhecesse no mistério da vocação dos gentios, predita e simbolizada, a de São José como Padroeiro das Missões entre os infiéis.

Não está assinalado, nas Sagradas Escrituras, o número e o nome desses sábios que vieram do Oriente para adorar o Menino, mas diz a Tradição que foram três e se chamavam, Gaspar, Melquior e Baltazar. Significa o primeiro: “Vai com amor”, o segundo: “Permanece conforme à vontade de Deus”, e o terceiro: “Vai acariciando-o”.

A Igreja celebra uma festa particular e solene a 6 de Janeiro, para recordar a adoração dos Magos, e chama-a de Epifania, que quer dizer “Manifestação”, porque naquele dia, Jesus, depois de reconhecido pelos homens do povo eleito, manifestou-Se também aos gentios.***

*** Tertuliano, São João Crisóstomo, São Jerônimo, São Beda e outros, dizem que os Magos eram reis. E Santo Agostinho, São Leão Magno, São João Crisóstomo, a Tradição e a Igreja no Ofício da Epifania, nos dizem que eram três. O autor da “Obra Imperfeita” (na Hom. II in Matth., atribuída a Santo Agostinho), acrescenta que os sucessores de Balaão, em todas as gerações seguintes, escolhiam alguns para contemplar continuamente o Céu; e que a estrela apareceu aos Magos como encerrando em si a figura de um menino encimado por uma cruz.



Se com o manto dos esponsais com Maria Santíssima, São José Lhe salvara a honra e a vida, e portanto, também a vida de Jesus antes de nascer; pela segunda vez, salvou Jesus da morte com a sua obediência pronta e cega à vontade de Deus.

Quando Herodes dissera aos Magos: “Ide a Belém, onde deve ter nascido Aquele que procurais”, acrescenta que, ao encontrarem-nO, dessem-lhe informações a tal respeito, porque queria também ir adorá-lO. Sabemos, porém, que era bem diverso o motivo pelo qual queria conhecer onde se achava o Menino. Ouvira os Magos e os sacerdotes chamarem-nO “Rei dos Judeus” e temia que, com o tempo, o recém-nascido o despojasse do trono, por isso, procurava matá-lO.

O Senhor, porém, que tudo conhece e vê, conheceu também a pérfida, maligna e diabólica intenção do rei Herodes; e, para impedir-lhe as funestas consequências, enviou um Anjo para dizer aos Magos que não tornassem a passar por Jerusalém, mas voltassem às suas cidades por outro caminho.

Herodes esperou por alguns dias o seu regresso, mas, vendo que não apareciam, perdeu a esperança de encontrar o Menino. Não perdeu, porém, a esperança e o desejo de matá-lO, e, para conseguir o seu intento, tomou a bárbara resolução de mandar matar, em Belém e nas proximidades, todas as crianças de dois anos para baixo.

Sua ordem foi cumprida. Muitas crianças passaram pelo fio da espada, mas não Aquela que procuravam, Jesus.

Quando Herodes ordenou a matança dos meninos, a Sagrada Família morava em Belém, Jesus achava-se, portanto, em verdadeiro perigo de cair nas mãos dos desumanos satélites e de ser trucidade.

José e Maria, de nada sabendo, achavam-se tranquilos e faziam talvez os preparativos para o regresso à casinha de Nazaré.

Chegou, no entanto, a noite precedente à matança dos meninos, e eis que um Anjo aparece a José, no plácido sono do justo, e lhe diz: “Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe, foge para o Egito, e fica lá até que eu te avise; porque Herodes procura o Menino para O matar”.

Cada palavra dessa mensagem encerra uma dificuldade e um sacrifício. Quantos caminhos não percorrera o pobre José desde que o Salvador estava com ele! Parecia, contudo, que não teria mais repouso.

Fugir é sempre penoso; mas, ainda mais penoso é ter de fugir com uma jovem e uma criança… para o Egito, região tão longínqua e infiel. E até quando? Para defender de Faraó o seu povo, Deus operara grandes prodígios, mas para seu Filho, nada! Que custaria para deus exterminar um soberbo e poupar à Sagrada Família uma fuga tão dolorosa e humilhante? Mas Deus, ao contrário, para sua maior glória, preferiu desviar as cruéis insídias de Herodes e pôr em segurança a vida de Jesus, utilizando-se da prudência e paciência de São José.

Que fez, portanto, São José? Levantou-se, tomou o Menino e fugiu para o Egito. Não se fala de inquietude, de agitação, de lamentos; é sempre o mesmo José, o homem da obediência e da confiança no Senhor, o homem segundo o Coração de Deus, o homem justo.

Quantas e quais as peripécias da longa viagem, não nos é dado saber pela história, mas é fácil imaginar os numerosos perigos e transtornos que Maria e José tiveram de encontrar. Diz São Boaventura: “Ainda era frio o tempo e a Sagrada Família, para atravessar a Palestina, devia escolher as passagens mais remotas e desertas. Grandes extensões de estrada eram desabitadas, e onde terão encontrado abrigo para a noite? E o alimento para lhes restaurar as forças, como o terão providenciado?”

Enquanto José e Maria, com o seu Menino, encaminhavam-se para a terra de exílio, Herodes, o algoz da própria família, a fera coroada, que já mandara matar a própria esposa e depois ambos os filhos que dela tivera, por receio de que um dia vingassem a mãe, mandou matar todos os meninos de Belém e das cercanias. Mas justamente o que procurava, fugiu-lhe, oculto nos braços paternos de São José.

Antigas tradições narram muitos fatos sucedidos na viagem da Sagrada Família; referiremos alguns. Ao cair de uma tarde, passando São José com Maria e Jesus por aqueles solitários desertos, um bando de ladrões, saindo de seus esconderijos, detiveram-no para roubá-los. Seu chefe, porém, chamado Dimas, surpreendido com a sua suavidade e a graça da Virgem e com a beleza de Jesus, transformou sua agressão em ato de caridade. Ordenou a seus homens não prejudicassem aqueles viajantes e, em vez de pedir a São José a bolsa ou a vida, rogou-lhe que se refugiasse em sua própria cabana para passar a noite.

Na cabana encontrava-se a mulher de Dimas com seus dois filhinhos, um dos quais coberto de lepra. Ora, aconteceu que, após uma ligeira refeição em comum, Maria lavou as mãozinhas e o rosto de seu Menino; e tendo a mulher do ladrão feito o mesmo com o seu filhinho leproso, aproveitando-se da água em que se lavara Jesus, apenas a água tocou o rosto do doente, caíram-lhe as crostas da lepra e ficou perfeitamente curado, são.

Por tal prodígio, Dimas ficou muito contente e afeiçoado aos Peregrinos, aos quais demonstrou sua gratidão. E, para sua segurança, quis acompanhá-Los por longa extensão de caminho. Por esses obséquios, diz Santo Anselmo, quando Jesus, mais tarde, pendia da Cruz tendo à direita o ladrão Dimas, recordou-se dele, pois a sombra do Senhor, caindo sobre ele, o converteu; além do mais, disse-lhe as consoladoras palavras: “Hoje estarás coMigo no Paraíso”. Foi a bela recompensa da hospitalidade que prestara à Sagrada Família.

Finalmente, após uma fatigante viagem de quase trinta dias, a Sagrada família pisou a terra do Egito.



O Egito, cujas fronteiras ultrapassara a Sagrada Família, foi habitado, após o Dilúvio, por Mesraim, filho de Cam. Os camitas bem depressa profanaram a terra, oferecendo incenso e vítimas a toda espécie de bestas e Demônios, cultivando a magia e a astrologia. Àquela terra, São José conduzia agora o Filho de Deus, para libertá-la e santificá-la, encontrando, porém, com Maria e Jesus novos sofrimentos.

Segundo uma antiga tradição, a primeira cidade onde se deteve a Sagrada Família, foi Heliópolis; mas, para manter mais oculto o Menino, transferiu sua morada para uma vila algo distante, chamada Matarich. Ali, recorda-se ainda hoje a gruta que serviu de refúgio à Sagrada Família; a fonte à qual se dirigia Maria para buscar água e lavar os panos; o lugar onde, à sombra de um sicômoro, sentava-se toda absorta em celestes pensamentos, enquanto a Divina criança dormia em seus braços e São José O adorava em silêncio. Caras memórias de amor e de dor.

Exclama Bossuet: “Feliz quem pode contemplar-Vos, amável Menino, livre das faixas, desprender os tenros braços e estender as mãozinhas para acariciar a vossa Santa Mãe e o Homem Justo a quem Vos destes por Filho! Quão belo terá sido ver-Vos ao dar os primeiros passos, amparado por Maria e José, e ouvir-Vos balbuciar as primeiras palavras”.

Essas puríssimas alegrias suavizavam, em José e Maria, as amarguras do exílio.

No entanto, Jesus crescia e começava a mover-se por Si mesmo, com passo incerto. Maria teceu-Lhe, com as próprias mãos, e Lhe fez vestir, uma túnica inconsútil que Jesus não mudou jamais nem retirou até o dia da Crucifixão.

Essa milagrosa veste, feita de uma só peça, sem costura alguma, que, segundo a Tradição, crescia pouco a pouco e se adaptava à crescente estatura do Divino Menino, jamais necessitou de reparos ou de asseio; conservou-se sempre intacta, limpa e sem mancha;**** prodígio semelhante ao que Deus se contentou em operar em favor dos hebreus, durante os quarenta anos de sua permanência no deserto. “Deus vos conduziu pelo deserto durante quarenta anos, diz-lhes Moisés: vossas vestes não se romperam nem os calçados de vossos pés se gastaram”.1

**** Segundo o costume do povo judaico, diz Shouppe, o Salvador deve ter usado um tríplice vestido: uma túnica ou veste interior; por cima outra veste que descia até os pés e se apertava com um cinto a um manto ou veste superior, fácil de tirar e que se retirava no interior das casas. A túnica de Jesus, como se lê no Evangelho de São João, era sem costura e de um só tecido, de alto a baixo, provavelmente trabalhada em malha.

A túnica do Salvador, conserva-se em Treviri. Também em Argenteuil, na França, encontra-se uma túnica; é, provavelmente, a veste superior, usada pelo Salvador.

É Tradição constante, autenticada por muitos Padres e Doutores da Igreja, que ao chegar ao Egito a Sagrada Família, todos os ídolos se moveram de seus nichos e caíram por terra.

Narra Ágreda: “Era o Menino Jesus que, entrando nos lugares habitados e juntando suas mãozinhas, orava ao Divino Pai pela salvação daqueles idólatras, e tal oração, à qual se unia a de Maria e de José, os ídolos, os altares e algumas vezes até os templos, caíam, e os Demônios se precipitavam no Inferno”.

Eusébio de Cesaréia, que vivia perto do Egito, e Santo Atanásio e Orígenes que lá haviam nascidos, narram a queda daqueles ídolos. De resto, já estava predito por Isaías, ao dizer: “Eis que o Senhor subirá sobre uma nuvem leve (a humanidade de Cristo, ou a SS. Virgem que O levava) e entrará no Egito; e os ídolos do Egito se comoverão diante da Sua face e cairão”.2

Vejamos agora o proceder de São José na terra de exílio; o que operou e padeceu pela glória de Deus e pelo bem do próximo.

Muitos escritores, com Santo Anselmo, São Tomás, São Boaventura, o Cardeal Barônio e outros afirmam que, a Sagrada Família se dirigiu, não só a Heliópolis, mas também a Mênfis, a Hermópolis, a Babilônia e outros lugares, embora em alguns só de passagem.

Santo Hilário, Bispo de Poitiers, observa que São José, levando Jesus cristo a vários lugares do Egito, tornando-O conhecido e convertendo-se assim muitos daqueles idólatras, conquistou a dignidade de Apóstolo, pois os Apóstolos tiveram por objetivo levar o Evangelho aos gentios, convertê-los e conduzi-los a Jesus Cristo.

Pelas bênçãos ali deixadas pela Sagrada Família, grandes solidões desertas, Tebaidas, puderam produzir depois os Paulos, os Antãos, os Macários, os Sabás, os Hilários e muitos outros Santos anacoretas. Assim costuma fazer Deus: valer-se também da perversidade dos homens para alcançar a salvação das almas.

Durante todo esse tempo, São José, considerando-se em uma religiosa solidão, ocupava o dia inteiro na vida contemplativa e ativa, concedendo pouquíssimo tempo ao repouso. Sua oração era fervorosa e constante, a meditação dos divinos mistérios profunda e quase contínua; na Pessoa do Menino tinha sempre e realmente presente o verdadeiro Deus.

São José, vendo Jesus, via o Pai e o Espírito Santo, como Jesus mesmo ensinou depois, ao dizer: Quem me vê, vê também o Pai”.3 Também a Sua conversação com Maria Santíssima caía muitas vezes sobre a Onipotência e Sabedoria de Deus, sobre o amor ardente e infinito de Deus para com as Suas criaturas, até ao ponto de enviar do Céu o seu Filho Unigênito para restituir-lhes os bens perdidos por causa do pecado.

Grande consolação para São José e Maria era ver Jesus que, apenas chegado à idade de pouco mais de dois anos, punha-Se de joelhos por terra, com as mãozinhas juntas e os olhos voltados para o Céu, e orava longa e fervorosamente ao Eterno Pai por todas as criaturas.

Jesus, desde aquela idade, como nos anos subsequentes, mostrava tal graça no semblante, nas palavras e na atitude, que, ao vê-O e ouvi-lO, todos ficavam admirados.

Dentro em breve, explica Emmerich, viu-se ao redor da Sagrada Família, nos dias estabelecidos, uma pequena comunidade composta de hebreus e de alguns idólatras convertidos, todos ávidos de ouvir e gozar as palavras de vida eterna. E São José, que de tão boa vontade se prestava, tornara-se-lhes como pai e mestre; por isso, a conselho de Jesus Cristo e de Maria Santíssima, ensinava-lhes a conhecer, amar e orar ao Senhor, e também a cantar os Salmos, pois aqueles hebreus haviam esquecido, em grande parte, o culto sagrado, praticado por seus pais.

Quanto ao tempo de permanência da Sagrada Família no Egito, não concordam as opiniões dos Santos Padres, oscilam entre cinco e sete anos. Dizem São Boaventura e Santo Afonso, que o exílio durou cerca de sete anos. Mas o certo é que a Sagrada Família permaneceu no Egito até o Anjo do Senhor avisar a São José que regressasse à terra de Israel.


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Fonte: Rev. Pe. Tarcísio M. Ravina, da Pia Sociedade de São Paulo, São José – na Vida de Jesus Cristo, na Vida da Igreja, no Antigo Testamento, no Ensino dos Papas, na Devoção dos Fiéis e nas Manifestações Milagrosas; 1ª Parte, pp. 68-79. Edições Paulinas, Recife, 1954.

1.  Deut. XXIX, 5.

2.  Isaías XIX, 1.

3.  João XIV, 8-11.


domingo, 24 de julho de 2022

De Como se Deve Andar na Presença de Deus, em Verdade e Humildade.


1.1 Jesus Cristo. Filho, anda em verdade na minha presença e busca-Me sempre na simplicidade de teu coração.

Quem anda em verdade na minha presença será protegido contra as ciladas do Inimigo, e a verdade o livrará das seduções e calúnias dos maus.

Se a verdade te livrar, serás verdadeiramente livre2 e pouco se te dará das vãs palavras dos homens.

2. Alma Fiel. Senhor, bem verdade é o que dizeis; peço-Vos que assim aconteça comigo.

Ensine-me a vossa verdade, defenda-me e conserve-me até o fim no caminho da salvação; livre-me dos maus desejos e de toda afeição desregrada; e andarei na vossa presença com grande liberdade de coração.

3. Jesus cristo. Eu te ensinarei, diz a Verdade, o que é justo e agradável aos meus olhos.

Relembra teus pecados com tristeza e profundo pesar, e não te tenhas em alguma conta por causa do bem que fazes.

Na verdade és pecador, sujeito a muitas paixões que te rodeiam.

De ti sempre tendes para o nada; bem depressa resvalas e és vencido; uma insignificância te perturba e desanima.

Nada tens de que te possas gloriar, muito, porém, de que te devas humilhar, porque és muito mais fraco do que podes conceber.

4. Nada do que fazes te pareça grande.

Só o que é eterno é grande, preciso e admirável, elevado e digno de estima, louvor e desejo.

Preza, acima de todas as coisas, a verdade eterna, e por tua extrema baixeza não tenhas senão desprezo.

Nenhuma coisa temas, reproves e fujas tanto como os teus vícios e pecados que mais te devem desgostar que todas as perdas deste mundo.

Alguns não andam com sinceridade na minha presença, mas levados de certa curiosidade e arrogância pretendem descobrir os meus segredos e penetrar as profundezas de Deus, descuidando-se de si e da própria salvação.

Desses Eu me afasto, por causa de sua curiosidade e soberba caem muitas vezes em grandes tentações e pecados.

5. Teme os juízos de Deus e treme ante a cólera do Onipotente.

Não discutas as obras do Altíssimo, mas examina as tuas iniquidades, o mal que tantas vezes cometeste, o bem que tantas vezes negligenciaste.

Alguns fazem consistir toda a sua devoção nos livros, outros nas imagens, outros ainda em sinais e figuras exteriores.

Alguns Me trazem nos lábios, mas pouco no coração.

Outros, porém, há que, esclarecidos e purificados interiormente, aspiram sempre pelos bens eternos; custa-lhes ouvir falar das coisas da terra; só a contragosto se sujeitam às necessidades da natureza.

Estes ouvem quanto lhes diz o Espírito que lhes ensina a desprezar os bens da terra e a amar os eternos, a esquecer o mundo e a desejar dia e noite o Céu.


1ª Reflexão3

Como causa total e absoluta de todos os seres, Deus abrange na compreensão de Si o mesmo conhecimento perfeitíssimo de tudo quanto tem existido, existe ou pode existir. Como seria possível que o Autor dos nossos olhos não visse, que o Criador da nossa inteligência não compreendesse? Deus possui em grau infinito todas as perfeições finitas que dispensou ao homem. Os pensamentos mais íntimos, as conversações mais secretas, as ações mais ocultas, o passado e o futuro, o real e o possível, tudo está presente e patente aos olhos de Deus. Que quer então dizer: andar na presença de Deus? Haverá, porventura, algum ser que possa escapar-se da presença de Deus? Quando o criminoso busca a solidão e espera as trevas da noite para praticar uma infâmia, será menos visto de Deus, do que se escolhesse a luz do dia e o lugar mais público de uma grande cidade? Não, não. É uma grande verdade que nada há de oculto para Deus; e o que aqui sobretudo importa é fazer penetrar bem no nosso espírito essa verdade, para tirar dela o maior fruto possível. “Se queres pecar, diz Santo Agostinho, procura um lugar onde ninguém te veja e comete lá o pecado que quiseres”. Aprouvesse a Deus, que todos os homens trouxessem sempre esta reflexão profundamente gravada na memória! Crês que Deus te vê sempre e em toda a parte?

Crês que esse Senhor Supremo de todas as coisas pode castigar os reus crimes no mesmo instante e lugar em que os cometes?

Compara a tua fé com as tuas obras e verás a contradição em que vives; crês uma coisa e praticas outra; conheces a verdade e segues o apetite; respeitas a presença dos homens e desprezas a presença de Deus! Queres andar na presença de Deus? Habitua-te a trazê-lO no teu pensamento e a servi-lO com um coração puro. Ao dócil Abraão dizia o Senhor: “anda na minha presença e sê perfeito”.4 A presença de Deus é caminho para chegar à perfeição.


2ª Reflexão5

Eu sou o Deus Onipotente: anda em minha presença e sê perfeito”.6 Assim falava o Senhor ao Pai dos Crentes, e este Preceito se dirige ainda com mais força aos Cristãos, que contemplaram, no Filho do Homem, o Modelo de toda perfeição. Por isso, lhes disse Ele: “Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito”.7

Admirável Preceito que, elevando nossa incompreensível baixeza, nos ensina o que é o homem remido, o que é o Cristão ao olhos de Deus. Mas sendo nós criaturas fracas, curvadas debaixo do peso da carne, como nos aproximaremos dessa perfeição soberana para a qual devemos continuamente tender? Ouvi a Jesus cristo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”.8

Ele é o Caminho seguro que nos leva a Deus, fora do qual só há extravio e perdição; Ele é a Verdade Eterna e visível, que falou conosco, fora da qual só há engano e mentira; Ele é a Vida, que nos livrou da morte do pecado, nos anima com Sua graça e nos prepara a vida eterna, fora da qual só há trevas e sempiterno horror! Por consequência, tudo em Jesus e tudo por Jesus.

Unidos nossos pensamentos aos Seus, nossas afeições e obras às Suas, divinizam-se: e como a perfeição do Filho é a mesma perfeição do Pai, por nossa união com o Filho, que começa no mundo e se consumará no Céu, nos tornamos perfeitos como o Pai é perfeito. Assim se cumpre a oração de Jesus Cristo: “Pai Santo, conservai todos aqueles que me destes, para que eles sejam unidos como Nós fazemos Um! Santificai-os na verdade; eu mesmo me santifico por eles, para que eles sejam santificados na verdade”.9

Não esqueçamos, porém, que esta grande união que nos eleva até participar dos merecimentos infinitos do Redentor, não se efetua senão em proporção do sacrifício que fazemos de nós mesmos. Nossa humildade é dela a medida: quanto mais renunciarmos a nós mesmos, quanto mais nos desapegarmos dos bens terrenos, quanto mais nos abatermos diante de Deus, tanto mais nos uniremos a Jesus Cristo.

Não há completa união com Jesus Cristo, aonde vive ainda o amor-próprio corrompido. É preciso morrer a si mesmo, a seus desejos, a seus afetos, à sua vontade, à sua razão cega, para ser “um com o Filho, como Ele é um com seu Pai, para ser santificado na verdade”. Ditosa morte que nos põe de posse da verdadeira vida, do mesmo Deus e de Sua santidade, de Sua verdade eterna!10



3ª Reflexão11

Viver em verdade, e não em mentira, é fazer uma vida totalmente conforme a lei pura e simples, segundo as operações da graça e não segundo as operações da natureza; porque nossa imaginação, nossos sentidos, nosso sentimento, nosso gosto, nossas consolações, nossos discursos podem ser enganados e errar; e viver segundo tais coisas, é viver em mentira, ou ao menos em um perpétuo risco de mentira; mas viver segundo a fé pura e simples, é viver em verdade. Assim como está escrito acerca do maligno espírito, que ele não permaneceu na verdade,12 porque tendo tido a fé, no começo de sua criação, afastou-se dela, querendo discorrer sem a fé, sobre sua própria excelência; quis por si mesmo entender tudo, não segundo a fé pura e simples, mas segundo as condições naturais que o levaram ao amor desmedido e desordenado de si mesmo: esta é a mentira em que vivem todos quantos não aderem com simplicidade e sinceridade de fé à Palavra de Nosso Senhor, mas querem viver segundo a prudência humana, que não é outra coisa senão um formigueiro de mentiras e de vãos discursos. 13



Oração14

Meu Deus e Salvador, quando parece que estais mais longe, então Vos achais perto, e mais presente, cheio de graças e de verdades. Viestes ao mundo vestido de nossa humanidade, para estar com os homens, conversar com eles, ensinar-lhes as verdades da salvação, mostrar-lhes o caminho dos Céu, e abrasá-los de vosso divino amor. Bem vos entendo, meu Deus: amor Vos traz, e amo quereis; em fogo ardeis, e nele quereis que se abrasem nossos corações. Dou-Vos, Senhor da minha alma, todo meu coração, todo meu espírito, todo meu amor. Amo-Vos, e desejo todo abrasar-me em vosso amor. Se tivesse o amor de todas as criaturas, com todo Vos amaria, e se tivesse infinito amor, infinitamente Vos amaria. Mas, amo-Vos quanto posso, e pois Vós, infinito Bem, todo sois meu, convosco todo Vos amo. Ó se sempre Vos amasse! Ó se sempre me abrasásseis! Ó se sempre Vos possuísse! Ó se nada me afastasse de Vós! Iluminai-Me, Verdade incriada; sustentai-Me, Fortaleza soberana; avivai-Me, Vida Eterna; guiai-Me, Sabedoria infinita. A misericórdia e amor que Vos humanou, Vos faça haver piedade desta vossa humanidade em mim tão perdida, mísera e corrupta. Dai-lhe a vossa graça no tempo, e o prêmio de vosso amor na eternidade. Assim seja.


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1.  Imitação de Cristo, nova tradução portuguesa pelo Pe. Leonel Franca, S.J., Livro III, Cap. IV, pp. 94-96. 4ª Edição, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro/São Paulo, 1948.

2.   João. 8, 32.

3 Imitação de Cristo, novíssima edição, confrontada com o texto latino e anotada por Monsenhor Manuel Marinho, Livro III, Cap. IV, pp. 138-139. Editora Viúva de José Frutuoso da Fonseca, Porto, 1925.

4 Gên. 17, 1.

5.  Imitação de Cristo, Presbítero J. I. Roquette, Livro III, Cap. IV, pp. 160-161. Editora Aillaud & Cia., Paris/Lisboa.

6 Gên. 17, 1.

7 Mateus. 5, 48.

8 João. 14, 6.

9 João. 17, 11.17.19.

10 II Cor. 1, 3.

11.  Imitação de Cristo, Versão portuguesa por um Padre da Missão, Livro III, Cap. IV, p. 142-143. Imprenta Desclée, Lefebvre y Cia., Tornai/Bélgica, 1904.

12 João. 8, 44.

13 São Francisco de Sales, 189ª Carta Espir. IX.

14 Presbítero J. I. Roquette, ob. cit., pp. 161-162.


sexta-feira, 22 de julho de 2022

Santa María Magdalena


Faltaban aún la Cruz y el Sepulcro: allí es donde la eternidad esperaba a Dios y al hombre. La Cruz y el Sepulcro existen todavía: pero ya no ven a su lado más que al hombre. En la época a que me refiero, esta era al mismo tiempo la grande obra del hombre y la grande obra de Dios. Acerquémonos, pues, a ellos y ante todo a la Cruz, como centro de donde la eterna sabiduría ha querido que irradien hacia nosotros la luz, el amor y la vida. A la mañana siguinte de las aclamaciones de Jerusalén, dos días después de las aclamaciones de Bethania, no se veían más que los horribles instrumentos de un suplicio de dolor y oprobio. Este llenaba de pavor al mundo, y, sin embargo, él era el que debía infundirle tranquilidad y confianza: era maldecido, y, sin embargo, él era el que debía bendecirlo. Mas esta transfiguración no se había verificado aún y la Cruz del Calvario, la Cruz del Hijo del hombre ostentaba aún en aquel día todo su horror y toda su desnudez. Contemplémosla, pues, para ver quien permanece fiel a esta cita del cielo y de la tierra.

No está allí Dios, puesto que el Hijo se queja de que su Padre lo ha abandonado. Tampoco estaba el ángel del huerto de los Olivos, porque cuando crucificaron a Jesús y salieron de sus labios estas palabras: tengo sed, no es ya la mano invisible de un espíritu celestial la que le presenta la copa. La atmósfera está serena; brilla el sol con todos los esplendores del Oriente; la montaña de Sión no gime; el santuario está tranquilo, y el velo que cubre el Santo de los santos permanece intacto: aquella hora es la hora del mundo, y el mundo está allí presente. Mirad, sino, a los verdugos que descansan después de rematada su obra de iniquidad: junto a ellos a los fariseos, que aún no han terminado la suya, y miran con tono de befa al que supo descubrir la hipocresía de sus virtudes: más lejos a la guardia romana y al centurión que la manda, con la vista fija y el corazón agitado por un presentimiento que lo domina ya, pero que no se ha revelado por completo a su espíritu; y, finalmente, a los transeúntes, quienes haciendo un movimiento de cabeza y sin cuidarse mucho de aquel espectáculo, dicen con ciertas trazas de contento: Vamos, tú que destruyes el templo de Dios, y lo reedificas en tres días, sálvate a ti mismo.1 Por doquiera, el abandono, el silencio, el ultraje y la blasfemia: y, sin embargo, allí está el Hijo de Dios, el Salvador del mundo, el Rey de los siglos, el heredero de todo lo criado, Aquél ante cuya presencia doblan todos la rodilla en el cielo, en la tierra y en los infiernos. ¡Ah! ninguno de los suyos está allí. ¿No venrá, ni de entre los vivos ni de entre los muertos, quien lo reconozea y lo salude en la divindad de su miseria?

Pero no, no todos faltan allí. Si Dios no da señales de presencia, porque así lo ha decretado en su sabiduría y en su justicia: si por otro decreto ha llenado de espanto a los que ha amado su Hijo, aún permanece un grupo al pie de la Cruz, y el Salvador al bajar sus ojos puede distinguir a su Madre; a María Cleofás, parienta de su Madre; a Salomé, madre de los hijos del Cebedeo; a María Magdalena; al apóstol San Juan, y a algunas mujeres fieles, que acostumbraban ir en pos de él y servirle. Todo el amor que el mundo profesaba a la Cruz se encontraba allí: pero era lo bastante para que el Salvador reconociese a los que ante de su venida le habían amado, y a los que debían amarle más tarde. Veía en su Madre, que es la Virgen por excelencia, el conjunto de todas las virgenes; en María de Cleofás y en Salomé, el coro de todas las madres y esposas cristianas; en San Juan, la representación de los apóstoles, de los mártires, de los profetas, de los jóvenes consagrados a la castidad, y de los hombres que buscan en el seno de la fe la dignidad sobrenatural de todos los oficios humanos: veía, finalmente, en María Magdalena, a la innumerable y sagrada multitud de pecadores convertidos, que recuperan de manos de la penitencia el traje nupcial empapado en la sangre del Cordero…


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Fuente: P. Fray Enrique Domingo de Lacordaire, O.P., Santa María Magdalena, Cap. V, pp. 73-76. Traducción de J. T., Colección CRHISTUS nº 3, Editorial Difusión, S.A., Tucumán – Buenos Aires, 1943.

1.  San Mateo, XXVII, 40.


quarta-feira, 20 de julho de 2022

Santo Elias: O Profeta do Antigo e do Novo Testamento.

 

Panegírico de Santo Elias

Surgiu1 depois o Profeta Elias, como um fogo,, e as suas palavras ardiam como um facho. Fez vir sobre eles a fome, e os que o irritavam pela sua inveja foram reduzidos a um pequeno número, porque não podiam suportar os Preceitos do Senhor. Com a Palavra do Senhor fechou o Céu, e fez cair fogo do mesmo Céu por três vezes. Assim Elias tornou-se célebre por seus milagres. E quem pode pois (ó Elias) gloriar-se como tu? Tu que fizeste sair um morto do sepulcro, arrancando-o à morte, em virtude da Palavra do Senhor Deus; que precipitaste os reis na desgraça, e desfizeste sem trabalho o seu poder, e, no meio da sua glória, os fizeste cair do leito (na sepultura); que ouviste sobre o Sinai o juízo do Senhor, e sobre o Horeb os decretos da Sua vingança; que sagraste reis para vingar crimes, e fizeste profetas para teus sucessores; que foste arrebatado ao Céu num redemoinho de fogo, numa carroça tirada por cavalos ardentes; tu, de quem está escrito que no tempo dos julgamentos (virás) para abrandar a ira do Senhor, para reconciliar o coração dos pais com os filhos, e para restabelecer as tribos de Jacó. Bem-aventurados os que te viram, e que foram honrados com a tua amizade. Porque nós vivemos só durante esta vida, mas depois da morte não teremos um nome como o teu.2



Elias virá antes do Dia do Juízo


Eis que vos enviarei o Profeta Elias, antes que venha o dia grande e horrível do Senhor. E ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para não suceder que Eu venha e fira a terra com anátema.3

Os pais são os piedosos antepassados dos Israelitas; os filhos são a raça degenerada do tempo de Malaquias e dos séculos futuros. Elias procurará levar estes (os filhos) a imitar a piedade daqueles (dos pais).4

A vinda de Santo Elias antes do Juízo: “E, depois de havê-los advertido de que se lembrariam da Lei de Moisés, prevendo que ainda ficariam muito tempo sem entendê-la espiritualmente, como se deve, acrescentou: ‘Enviar-vos-ei Elias de Tesbis, antes de vir o grande e luminoso dia do Senhor, que ao filho converterá o coração do pai e ao próximo o coração do homem, por temor de que, vindo, destrua a terra toda’. É crença muito difundida e arraigada no coração dos fiéis, que no fim do mundo, antes do juízo, os judeus, crerão no verdadeiro Messias, quer dizer, em nosso Cristo, graças ao admirável e grande Profeta Elias, que lhes explicará a Lei. Não carece de fundamento a esperança de que virá antes da vinda do Juiz e Salvador, pois, é com razão que ainda hoje o julgam vivo. É certo, dado o testemunho evidente e claro das Santas Escrituras, haver sido arrebatado em carro de fogo. Ao vir, exporá espiritualmente a Lei, entendida carnalmente pelos judeus...”5.

A crença na vinda de Elias no fim dos tempos, juntamente, com Enoch, é universal na Igreja já nos primeiros séculos do Cristianismo. O testemunho da Liturgia é eloquente nesse sentido: os ritos orientais da Igreja Católica celebram o Santo profeta, existindo até a Missa da Ascensão de Elias6.


Aparente Contradição entre
o Profeta da verdade e a mesma Verdade.

Ocorrendo-nos à mente, porém, de outra leitura, uma sentença do Nosso Redentor, estas palavras de hoje7, veem suscitar uma questão complexa. Com efeito, em outro lugar, o Senhor, interrogado pelos Discípulos a respeito da vinda de Elias, respondeu: ‘Elias já veio, e não o conheceram, antes, fizeram dele o que quiseram. E, se vós quereis compreender, João mesmo é o Elias’8. Ora, João, interrogado, diz: ‘Eu não sou Elias’. Por que, irmãos caríssimos, aquilo que a Verdade afirma, o Profeta da verdade nega? Pois, são duas respostas contrárias: ‘ele é (Elias)’ e ‘não sou (Elias)’. Como é João Profeta da verdade, se não concorda com as palavras da própria Verdade? Mas, procurando-se com perspicácia a verdade, verifica-se não ser contrário o que apenas soa contrariamente. Realmente, o Anjo disse à Zacarias a respeito de João: ‘Ele irá adiante do Messias com o espírito e a virtude de Elias’9Eis, porque se diz, que João vem no espírito e na virtude de Elias: como Elias antecederá a segunda vinda do Senhor, João antecedeu a primeira. Assim como Elias virá como Precursor do Juiz, João se fez Precursor do Redentor. João, portanto, em espírito, era Elias; em pessoa, porém, não era Elias. O que o Senhor afirma a respeito do espírito, João nega a respeito da pessoa, sendo justo que o Senhor falasse espiritualmente de João aos Discípulos e o mesmo João, corporalmente, à multidão carnal. Portanto, só na aparência, mas não de fato, João se afastou do Caminho da Verdade”10.

 

 

Este assunto fazia parte do ensino catequético, em algum lugar do passado; é o que nos ensina o Rev. Pe. Francisco Xavier Schouppe, S.J., no artigo sobre a “Consumação dos Séculos”: “O Profeta Elias e o Patriarca Henoc voltarão à terra, para lutarem contra o Anticristo, esclarecer os judeus, e sustentar os cristãos na fé. Estes dois poderosos defensores da Fé, serão mortos pelo Anticristo, que ele próprio, por sua vez, será, enfim, confundido e esmagado pelo poder de Jesus Cristo1112.

__________________________

1.  Bíblia Sagrada, traduzida da Vulgata e anotada pelo Pe. Matos Soares, 13ª Edição, Edições Paulinas, 1961.

2.  Eclo. 48, 1-12; 1 Rs. 17, 1; 18, 2; 19, 10.14; 18, 36s; 2 Rs. 1, 10.12; 1 Rs. 17, 17-24; 21, 17-24; 2 Rs. 1, 16; 1 Rs. 19, 9-18; 2 Rs. 2, 1-11; Mal. 3, 24; 2 Rs. 2, 10-12; 1 Tes. 4, 5.

3.  Mal. 4, 5-6.

4.  Rev. Pe. Matos Soares (Nota de rodapé).

5.  S. Agostinho, “A Cidade de Deus Contra os Pagãos”, Parte II, Livro 20º, Cap. XXIX, pp. 475-476; 3ª Edição, Editora Vozes, Petrópolis/RJ, 1999.

6.  Cfr. Michel Hayek, Élie dans la Tradition Syriaque.

7.  Jo. 1, 19-28.

8.  Mat. 17, 12.

9.  Luc. 1, 17.

10.  S. Gregório Magno, “Homilia para o IV Domingo do Advento”, PL. 76, 1099-1103.

11.  Cfr. Apoc. 11.

12.  Rev. Pe. F. X. Schouppe, S.J., “Curso Abreviado de Religião ou Verdade e Beleza da Religião Cristã”, 2ª Parte – Dogmática, Cap. XVII, Art. III, pp. 220-221. 2ª Edição, Livraria Internacional de Ernesto Chardron, Porto, 1984.


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