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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

terça-feira, 12 de outubro de 2021

As Sete Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, no Alto da Cruz. 5ª Parte.


QUINTA PALAVRA1


Sitio”2

Tenho sede”


Entre os tormentos, que afligiam os supliciados de cruz, era a sede um dos mais terríveis. As chagas, expostas ao contágio do ar, inflamavam-se, rapidamente, provocando uma febre violenta que ocasionava sede intensíssima, intolerável.

E Jesus a experimentou em toda a sua crueldade.

Esta sede justificava-a de sobra o horrível trabalho do seu Corpo e do seu Espírito. Tudo devia acender-lha: o Sangue derramado em borbotões, as lágrimas correntes, os suores estranhos de Getsemani, a noite de vigília, a incrível flagelação e, principalmente, aquele desamparo interior de Deus, cuja justiça implacável O abrasava mais ainda do que a febre, que a crucifixão lhe inflamava nas veias”.3

A sede, que lhe queimava as entranhas, era tal que a língua havia aderido ao véu palatino, verificando-se o que profetizara o salmista: “Adhaesit língua mea faucibus meis”.4

Estas palavras, parece, traduzem o máximo do horror da sede, que possa suportar uma criatura humana.

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É verdadeiramente digno de reparo que Jesus, que suportara sem uma palavra de queixa e de lamento todos os martírios da Paixão, haja se queixado da sede…

Esse particular não escapou aos comentadores das Escrituras, que o explicam cabalmente.

No próprio Evangelho de São João encontramos a razão primária desse lamento do Salvador: “Para que se consumasse a Escritura, disse: – Tenho sede”. “Ut consummaretur Scriptura dixit: Sitio”.5

Foi para cumprir o que os Patriarcas e Profetas, videntes da Antiga Aliança, haviam pronunciado, que Jesus, no cimo do Calvário, se queixou da sede horrível, que Lhe abrasava e consumia as entranhas.

As palavras de São João, o discípulo amado do Mestre, no-lo fazem entender, de modo claro e insofismável.

Outra razão ainda descobrem os comentadores da narrativa da Paixão e Morte de Jesus. Dizem alguns exegetas, que o Divino Salvador assim procedeu para dar lugar a um novo tormento, cumprindo-se à risca as palavras do real Profeta:

Em minha sede deram-me a beber vinagre”. “Et in siti mea potaverunt me aceto”.6

A caridade infinita do Redentor não Lhe permitia escapar a um sequer dos tormentos, que Lhe estavam reservados. Por isso, proferiu aquelas palavras, que dariam lugar a um novo sofrimento.

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O eterno Dissentador, que tantas vezes matou a sede alheia e que deixa no mundo uma fonte de vida que não secará jamais – onde os cansados encontram a força; os corrompidos, a juventude; e os inquietos, a paz – sofreu sempre de uma insatisfeita sede de amor. Mesmo agora, no ardor dilacerante da febre, a sua sede não é de água, mas de uma palavra de misericórdia, na medonha opressão de seu desconsolado abandono”.7

Naquela hora tremenda, não era somente a sede material que torturava Jesus. Além dessa, que não era pequena, havia outra, a sede espiritual, o desejo intenso e infinito de salvar todas as almas de todos os homens.

O grande doutor da Igreja, Santo Agostinho, comentando essa passagem do Evangelho, escreveu estas palavras:

Oh, meu Deus, que bebida desejava o vosso Sangue derramado e dessecado?

Pediríeis água fresca e límpida das fontes para extinguir o ardor da febre, que abrasava todos os vossos membros? Ah, sem estardes livre desta sede ardente, quão mais elevados eram os vossos desejos! Tínheis sede da nossa salvação, da nossa felicidade, do nosso amor; tínheis sede de ver consumada esta laboriosa Redenção, empreendida havia trinta e três anos e que tocava o seu termo…”

Essa era a sede que mais atormentava o divino Agonizante do Calvário.

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Naqueles momentos, via Jesus, em espírito, a multidão inumerável dos condenados, dos réprobos, daqueles para os quais a Redenção seria inútil.

E podia perguntar-se a Si mesmo, qual seria o proveito de tanto Sangue derramado, de tantos tormentos suportados… E bem poderia renovar a interrogação do Profeta-Rei: “Quae utilitas in sanguine meo?”8

Aos olhos de Jesus moribundo desfilavam, em sinistra procissão, todos os pecadores do mundo, todos os inimigos de sua Igreja; sofistas, heresiarcas, perseguidores e sacrílegos.

Espíritos enfatuados, cheios de falsa ciência, que, nos tempos antigos e nos dias contemporâneos, procuram lançar a confusão no mundo das ideias, a fim de que, não resplandeça o sol da verdade. Jesus os viu, do cimo do Calvário.

Homens cheios de orgulho, aferrados às próprias opiniões, que preferem o erro por própria conta à submissão ao Magistério infalível da Igreja. São os hereges, que, dilacerando a túnica do Mestre, promoveram a cisão e o desmembramento no seio do rebanho de Jesus Cristo… Dessas almas também tinha sede o Supliciado do Gólgota.

Césares poderosos e imperadores absolutos, que juraram “apagar o nome cristão”; todos os potentados da terra, de Augusto, de Roma, aos déspotas do México, da Espanha e da Rússia, que fizeram e ainda fazem, em plena civilização do século XX, jorrar em tormentos o sangue generoso dos Confessores da Fé – todos esses estiveram presentes durante a agonia do Senhor…

Os sacrílegos, que conspurcam os Sacramentos, os profanadores, que violam lugares e pessoas sagradas, aumentavam a sede misteriosa de Jesus…

E Ele tinha ante os olhos todos os pecados e todos os desmandos dos indivíduos, em particular, das famílias e da sociedade, em geral.

O casamento civil, instituído em oposição ao Sacramento da Nova Aliança; o divórcio, que vem “separar o que Deus mesmo uniu; o amor livre, que é o supremo desregramento das paixões humanas; os atentados cometidos contra a lei da propagação da nossa espécie; os desmandos e a licenciosidade dos teatros, dos cinemas, das praias de banho, das modas indecorosas, das danças lascivas e toda a orgia das metrópoles antigas e modernas, que tanto e tanto ofendem a Deus – tudo isso atormenta o Coração amoroso de Jesus, que experimentava dor infinita por não poder evitar a perda eterna de tantas almas!… E podia perguntar-se a Si próprio: Qual o proveito de tantos sofrimentos, de tantas dores?

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Jesus veio à terra trazer a luz da verdade, para iluminar a vida das inteligências, e a justiça, para ordenar a vida da sociedade.

E, após os dezenove séculos de existência do Cristianismo, nós nos encontramos ainda tão distanciados dos ideais de perfeição evangélica.

Quando olhamos, superficialmente embora, para a vida da humanidade, quando percorremos a história dos séculos passados, somos forçados a reconhecer que, infelizmente, estamos muito afastados da verdade, na vida intelectual, e da justiça, na vida social.

O mundo moderno procura a verdade. Parece que a intelectualidade contemporânea repete a célebre interrogação de Pôncio Pilatos, no Pretório: “Que é a verdade?” - “Quid est veritas?”9

O mundo procura a verdade e não a encontra, porque não a procura com as disposições necessárias. Procura-a, displicentemente, como a procurava o proconsul romano. Por isso, não a encontra nem a merece encontrar.

A sociedade contemporânea acha-se empenhada em lutas tremendas e cheia de rivalidades profundas, que a ameaçam de destruição e de morte.

A questão social e as competições entre as classes tocam aos extremos e o anarquismo desfralda aos quatro ventos a sua bandeira negra, encharcada de sangue. Daí crimes que assombram o mundo, atentados que envergonham a civilização, como a tragédia, recentemente, desenrolada em Marselha.10

Falta ao mundo contemporâneo o senso da justiça social, que deve presidir as relações entre servos e senhores, patrões e operários, pobres e ricos – o capital e o trabalho.

De uma parte, vemos o proletariado, nem sempre justo em suas reivindicações, nem sempre resignado às condições de sua sorte… De outra, as classes abastadas não se compenetram da função social da propriedade privada, para auferir sempre maiores lucros e acumular maiores fortunas, mesmo à custa da vida e do sangue dos desprotegidos da sorte…

Extorsões e injustiças concentram ódios, que explodem em revoluções, que semeiam a dor, a morte e o luto.

Nunca a humanidade ostentou maiores conquistas nas ciências, maiores progressos nas artes e nas letras, do que nos tempos presentes. Mas debaixo dessas aparências deslumbrantes, há crises e misérias de toda sorte. Há crise na filosofia, cujas teorias se contradizem; há crise na política, onde se revezam ditaduras e revoluções, desacreditando os sistemas de governo; há crise na vida econômica, financeira, que se demonstra na existência da superprodução e da falta de trabalho.

Tudo isso, porque a sociedade pretende viver sem Cristo e até mesmo contra Cristo – sem Deus e contra Deus.

Toda a série infinda dos males sem conta de nossa sociedade torturava a Alma de Jesus crucificado, aumentando-Lhe a sede devoradora, que então experimentava.



É necessário que as almas cristãs compreendam, que foram os seus próprios pecados, que tornaram mais intensa a sede de Jesus e mais dolorosos e mais cruéis os tormentos do Redentor do mundo.

É necessário que os corações amantes do supremo regenerador dos filhos do pecado se voltem para a Vítima da justiça divina, procurando saciar a sede infinita que Jesus sente de almas…

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Senhor Jesus, pelo tormento indizível da sede que experimentastes na hora da vossa morte, dessedentai as nossas almas, dando-nos a beber a água da vida, a água da salvação, para que não tenhamos mais sede por toda a eternidade.

Qui biberit ex aqua, quam ego dabo ei, non sitiet in aeternum”.11O que beber da água que eu der, jamais terá sede…”.


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1.  “Espírito e Vida” – As Sete Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. J. Cabral, V Palavra, pp. 63-70, da Coleção Cristo Redentor. Empresa Editora A.B.C. Ltda, Rio de Janeiro, 1938.

2.  Joan. XIX, 28.

3.  Perroy – La Montée du Calvaire – pág. 325.

4.  Psalm. XXI, 15.

5.  Joan. XIX, 28.

6.  Psalm. XLVIII, 2.

7.  Giovanni Papini – “Historia de Christo.” – pág. 524.

8.  Psalm. XXIX, 10.

9.  Joan. XVIII, 38.

10.  Alusão ao atentado de que foi vítima o rei Alexandre, da Iugoslávia.

11.  Joan. IV, 13.


AVE, Ó MÃE DE DEUS!


Como a vide, lancei flores dum agradável cheiro;

e as minhas flores dão frutos de honra e de honestidade.

EU SOU A MÃE DO AMOR FORMOSO,

E DO TEMOR, E DA CIÊNCIA E DA SANTA ESPERANÇA.

Em mim há toda a graça do caminho e da verdade,

em mim toda a esperança da vida e da virtude.

Vinde a mim todos os que me desejais,

e enchei-vos dos meus frutos;

porque o meu espírito é mais doce do que o mel,

e a minha herança mais suave que o favo de mel.

A minha memória durará por toda a série dos séculos.

Aqueles que me comem terão mais fome;

e os que me bebem terão mais sede.

Aquele que me ouve não será confundido;

e os que se guiam por mim não pecarão.

Aqueles que me tornam conhecida

terão a vida eterna”.1


São Bernardino de Sena, em um de seus deliciosos sermões marianos, dizia:


Vem-me à memória um dito de Santo Agostinho. Dizia ele, que tinha três desejos: um, de ver a Jesus Cristo corporalmente; outro, de ouvir São Paulo pregar; o terceiro, de ver Roma triunfar. E eu acrescento um quarto: ver a Virgem Maria com seu doce Filho no colo, com toda inocência e pureza”.2


Ver Maria com seu doce Filho no colo!


O primeiro alicerce sobre que se levanta o edifício da grandeza mariana, é constituído pelo fato, ou melhor, pela missão da Maternidade Divina. Este é um fato que excede de tal modo a força cognoscitiva do homem, que deve ser enumerado entre os Mistérios maiores de nossa fé, Mistérios que, para serem conhecidos por nós, devem ser revelados por Deus. Que uma humilde mulher deste nosso pobre planeta, que uma de nossas irmãs, semelhante a nós, descendente de Adão como nós, se torne Mãe de Deus, é um Mistério tão sublime de elevação do homem e de condescendência divina, que deixa atônita qualquer inteligência, angélica ou humana, no século e na eternidade.


Da Boca de Santa Isabel,

sai a Condenação dos Negadores

da Maternidade Divina.


Respondendo à saudação que Maria lhe dirigira, Santa Isabel, inspirada pelo Espírito Santo, como acentua São Lucas, disse, cheia de admiração: “E como me é dado, que a Mãe de meu Senhor venha a mim?”.3


A expressão “meu Senhor” é, evidentemente, sinônimo de Deus, pois que, logo depois, Isabel acrescenta: “Cumprir-se-ão em ti todas as coisas que te foram ditas da parte do Senhor”, ou seja, da parte de “Deus”. Isabel, portanto, inspirada pelo Espírito Santo, proclamou explicitamente, que Maria é verdadeira Mãe de Deus. Era a condenação antecipada dos Eutiquianos e dos Nestorianos.4


Toda a Tradição,

Confirma este DOGMA.


Toda a Tradição cristã, a partir dos tempos apostólicos, é uma proclamação contínua desta verdade mariológica fundamental. Nos dois primeiros séculos, os Padres ensinaram que Maria concebeu e deu à luz a Deus. No terceiro século, começa o uso do termo que se tornou clássico: Theotokos, ou seja, Mãe de Deus. O primeiro a usar esse título parece ter sido Orígenes5, chefe da célebre escola de Alexandria. Também na célebre prece “Sub Tuum praesidium”, muito difundida entre os cristãos do século III, a Virgem Santíssima é invocada como Mãe de Deus6.


No século IV, mesmo antes do Concílio de Éfeso, a expressão “Mãe de Deus” se tornara tão comum entre os cristãos, que dava nos nervos do Imperador Juliano, o Apóstata, o qual se lamentava de os cristãos não se cansarem nunca de chamar a Maria de “Mãe de Deus”. João de Antioquia, aconselhava a seu amigo Nestório, para não insistir demasiado em negar este título, a fim de evitar tumulto do povo. O próprio Alexandre de Hierápolis, cognominado de “outro Nestório”, reconhecia que a expressão “Mãe de Deus” estava em uso entre os fiéis desde muito tempo. – A exultação mesma que os fiéis demonstraram, quando a Maternidade Divina foi definida solenemente como dogma de fé, comprova até à evidência quão profundamente estava radicada essa verdade fundamental na alma daqueles antigos cristãos. Com efeito, sabe-se que, logo que teve conhecimento da notícia, a população de Éfeso aclamou entusiasticamente os Padres do Concílio e os acompanhou as suas residências com archotes acesos.


Conclusão


A Virgem é, portanto, verdadeira e própria Mãe de Deus! Prostrados humildemente a seus pés, possamos nós saudá-lA e repetir-lhe com a maior certeza: Ave, ó Mãe de Deus! Pode-se, porventura, imaginar uma saudação mais solene do que esta?


Mas, afastando um momento o olhar do fulgor de tanta grandeza e pousando-o por alguns instantes em nossa baixeza, unamos à saudação ainda a invocação de seu valioso patrocínio, dizendo-lhe: “Ó Mãe de Deus, tão grande e tão santa, recordai-vos de mim, tão pequeno e tão pecador!”


Oremos: Ó Deus, que pela Anunciação do Anjo quisestes que o Vosso Filho encarnasse no seio da Virgem Maria, fazei que, confessando-A verdadeiramente por Mãe de Deus, mereçamos junto de Vós o auxílio da sua intercessão. Pelo mesmo Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.



Fonte: Pe. Gabriel Roschini, O.S.M., “Instruções Marianas”, Instrução IV, Cap. III, Art. I, pp. 41-48. Edições Paulinas, São Paulo/SP, 1960.


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1.  Eclesiástico 24, 23-31.

2.  Pred. Volgari, I, 21.

3.  Luc. 1, 43.

4.  N.C.: E dos Protestantes e seus similares.

5.  Socrates, Hist. Ecle. VII, 32, PG. 68, 812.

6.  Marianum, T. III (1941) 97-101.


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