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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

A EUCARISTIA - BOSSUET


1ª Meditação

No Cenáculo; os preparativos da Páscoa,
verdadeira figura da Eucaristia;
o que ela significa. Deixemos o exílio,
e voltemos à casa paterna.

No primeiro dia dos ázimos, no fim do qual havia que imolar o cordeiro pascal, os Discípulos vieram a Jesus; e como sabiam o quanto Ele era exato em todas as observâncias da lei, perguntaram-lhe onde queria que lhe preparassem a Páscoa.

E Jesus lhes disse: Ide à cidade, a um certo homem. Os Evangelistas não o nomeiam; e o próprio Jesus, sem nomeá-lo aos Discípulos, deu-lhes apenas sinais certos para o acharem. – “Ide, diz Ele, à cidade. Entrando nela, encontrareis um homem carregando um cântaro d’água: segui-lo-eis e, entrando na casa aonde ele vai, direis ao dono: Onde é o lugar onde devo comer com meus Discípulos? E ele vos mostrará uma grande sala atapetada; preparai-me aí tudo o que for preciso”.1

São Marcos diz-nos que, Ele deu essa ordem a dois dos Discípulos; e São Lucas nomeia São Pedro e São João.

Eis aqui alguma coisa grande que se prepara, e alguma coisa de maior do que a Páscoa comum, já que Ele envia os dois mais consideráveis dos Seus Apóstolos, São Pedro, que Ele pusera à testa deles, e São João, a quem honrava com Sua amizade particular. Os Evangelistas não assinalam que fosse costume Dele assim fazer nas outras Páscoas, nem tão pouco que costumasse escolher um lugar onde houvesse uma grande sala atapetada. Por isto os Santos Padres notaram que esse aparato se relacionava à Instituição da Eucaristia. Jesus Cristo queria mostrar-nos com que cuidado deviam ser decorados os lugares consagrados à celebração desse Mistério. Só nessa circunstância se afigura que Ele não quis parecer pobre.

Os cristãos aprenderam, por esse exemplo, todo o aparato que se vê aparecer, desde os primeiros tempos, para celebrar com honra a Eucaristia, segundo as faculdades das igrejas. Mas o que eles devem aprender principalmente, é a se prepararem eles próprios para bem recebê-lO, isto é, a preparar-Lhe, como uma grande sala, um coração dilatado pelo amor de Deus, e capaz das maiores coisas, com todos os ornatos da graça e das virtudes, que são representados por aquela tapeçaria de que a sala estava ornada. Preparemos tudo a Jesus que vem a nós; seja tudo digno de recebê-lO.

Eis, portanto, tudo disposto. O grande Cenáculo tapetado está pronto: esperam ali o Salvador. Vejamos agora os grandes espetáculos que Ele vai dar aos Seus fiéis. Contemplemos, creiamos, aproveitemos; abramos o coração antes que os olhos.

Antes do dia de Páscoa, Jesus, sabendo que era chegada a Sua hora de passar deste mundo a Seu Pai, como tinha amado os Seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”.2

Sabe-se que a palavra Páscoa significa passagem. Uma das razões desse nome, que é também a que S. João considera nesse lugar, é que a festa de Páscoa foi instituída quando o antigo povo devia sair do Egito, para passar à terra prometida a seus pais; o que era a figura da passagem que devia fazer o povo novo, da terra à celeste pátria. Toda a vida cristã consiste em fazer bem essa passagem; e é a isso que Nosso Senhor vai dirigir mais do que nunca a Sua conduta, tal como S. João parece aqui advertir-nos.

A primeira coisa que devemos notar, é que devemos fazer essa Páscoa, ou essa passagem, com Jesus Cristo. E é por isto que esse Evangelista começa o relato dessa Páscoa de Nosso Senhor por estas palavras: Antes do dia de Páscoa, Jesus, sabendo que devia passar deste mundo a Seu Pai…

Ó Jesus! Apresento-me a Vós, para fazer minha páscoa na Vossa companhia; quero passar Convosco do mundo a Vosso Pai, que quisestes fosse o meu. O mundo passa, diz o Vosso Apóstolo; a figura desse mundo passa; mas eu não quero passar com o mundo, quero passar a Vosso Pai. E a viagem que tenho de fazer, quero fazê-la Convosco. Na antiga Páscoa, os Judeus que deviam sair do Egito para passar à terra prometida, deviam aparecer em traje de viajantes, de bordão na mão, de cinturão nos rins para arregaçar-lhes as vestes, de sapatos nos pés, sempre prontos a ir e a partir; e deviam aviar-se em comer a Páscoa, a fim de que nada os retivesse, e eles se mantivessem prontos para marchar a cada momento. É a figura do estado em que se deve pôr o cristão para fazer sua Páscoa com Jesus Cristo, para passar ao Pai com Ele. Ó meu Salvador; recebei o Vosso viajante, eis-me pronto, não estou preso a nada; quero passar Convosco deste mundo a Vosso Pai.

Donde me vem este pesar de passar? Como! Ainda estou apegado a esta vida? Que erro me retem neste lugar de exílio? Ides passar, meu Salvador! E, resolvido que eu estava a passar Convosco, quando me dizem que é deveras que cumpre passar, perturbo-me, não posso suportar nem ouvir essa palavra. Covarde viajante! Que temes? A passagem que vais fazer é a que o Salvador também vai fazer no nosso evangelho: recearás porventura passar com Ele? Mas escuta: Jesus, sabendo que Sua hora era chegada de passar deste mundo. Que haverá de tão amável neste mundo, que não queiras deixá-lo com o Salvador Jesus? Deixa-lo-ia Ele se fosse bom ficar nele? Mas escuta, ainda uma vez, cristão: Jesus passa deste mundo para ir ao Pai. Se houvesse somente que sair do mundo, sem ir para alguma coisa de melhor, posto que este mundo seja pouca coisa e não se perdesse muito perdendo-o, poder-se-ia ter pesar disso, porque afinal não se teria nada de melhor. Porém, cristão, não é assim que deves pensar. Jesus passa deste mundo, mas para ir a Seu Pai. Cristão, que deves ir com Ele, tu passas a um Pai; o lugar donde sais é um desterro; voltarás à Casa Paterna.

Passemos, pois, deste mundo com alegria, mas não esperemos pelo último momento para começarmos a nossa passagem. Quando os Israelitas saíram do Egito, não deviam chegar logo à terra prometida; tinham quarenta anos a viajar no deserto; celebraram, não obstante, a sua Páscoa, porque saíam do Egito e iam começar a viagem. Aprendamos a celebrar a nossa Páscoa desde o primeiro passo; seja perpétua a nossa passagem; nunca paremos; não demoremos, mas acampemos em toda parte, a exemplo dos Israelitas; que tudo nos seja um deserto, assim como para eles; estejamos, pois, como eles, sempre debaixo das tendas; a nossa casa é em outro lugar; andemos, andemos; passemos com Jesus Cristo; morramos para o mundo, morramos-lhe todos os dias; digamos com o Apóstolo: Morro todos os dias; não sou do mundo; passo, não me apego a nada.



Fonte: Jacques-Bénigne Bossuet, Bispo de Meaux, “Meditações sobre o Evangelho” – Opúsculo Eucaristia”, Cap. I, pp. 9-14. Coleção Boa Imprensa, Livraria Boa Imprensa, Rio de Janeiro/RJ, 1942.

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1Evangelho, passim.
2João XIII, 1.

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