Blog Católico, para os Católicos

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Alguns Exemplos Onde Não Há Pecado. 5ª Parte.

Santos Adriano e Natália, Mártires.


5ª Parte


Segundo a sentença de Deuteronômio 22, 5: “A mulher não se vestirá de homem nem o homem se vestirá de mulher; porque aquele que tal faz é abominável diante de Deus”.1


O Doutor Angélico o confirma: “... em si mesmo, é pecaminoso uma mulher trazer trajes viris, ou inversamente…”.2


Mas, “o Mestre do bem pensar”3 em seguida, também ensinou: “Pode-se, porém, proceder desse modo e sem pecado, se o exigir a necessidade: quer para ocultar-se dos inimigos, quer por falta de outras roupagens, quer por outro motivo semelhante”.4


Seguindo os ensinamentos do “Doctor communis Ecclesiae”, houveram variados exemplos na História da Igreja, dos quais, publico os seguintes:


5º Exemplo



Santo Adriano, Mártir.


... Sabido do imperador que tanto a mulher de Adriano, como outra piedosa mulher, vinham à prisão regalar os santos com alimentos e agasalhos, proibiu a entrada às mulheres; mas Natália (esposa de Adriano) e outras três souberam iludir a vigilância dos guardas, cortando os cabelos e vestindo roupas de homem, continuando as suas caridades com os ilustres Confessores de Jesus Cristo. De novo foram mandados comparecer. Era um espetáculo digno de dó o que ofereciam os santos ao saírem da prisão; só corações empedernidos poderiam ser insensíveis a tanta miséria. Caminhavam com muita dificuldade, alegres é verdade, mas despedaçados os corpos. Finalmente, tendo-lhes sido quebradas as pernas e a Adriano cortada também uma das mãos, deram neste suplício suas almas a Deus.


O corpo de Santo Adriano foi transportado para Constantinopla e depois para Roma à 8 de setembro, dia em que se celebra a sua festividade. Levaram-nas mais tarde para Flandres”.5


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1.  Bíblia Sagrada – Traduzida da Vulgata Sixto-Clementina e anotada pelo Pe. Matos Soares, p. 222. 9ª Edição, Ed. Paulinas, 1957.

2.  São Tomás de Aquino, “Suma Teológica”, II-IIae. q. 169 a.2, ad 3.

3.  São Paulo VI, Discurso pronunciado no Congresso Internacional Tomista, a 20 de abril de 1974.

4.  São Tomás de Aquino, “Suma Teológica”, II-IIae. q. 169 a.2, ad 3.

5.  Rev. Pe. Croiset, “Ano Cristão”, Vol. IX, dia 8 de Setembro, Festa de Santo Adriano, pp. 97-99. Traduzido do Francês pelo Rev. Pe. Matos Soares, Porto, 1923.


segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Alguns Exemplos Onde Não Há Pecado. 4ª Parte.


4ª Parte


Segundo a sentença de Deuteronômio 22, 5: “A mulher não se vestirá de homem nem o homem se vestirá de mulher; porque aquele que tal faz é abominável diante de Deus”.1


O Doutor Angélico o confirma: “... em si mesmo, é pecaminoso uma mulher trazer trajes viris, ou inversamente…”.2


Mas, “o Mestre do bem pensar”3 em seguida, também ensinou: “Pode-se, porém, proceder desse modo e sem pecado, se o exigir a necessidade: quer para ocultar-se dos inimigos, quer por falta de outras roupagens, quer por outro motivo semelhante”.4


Seguindo os ensinamentos do “Doctor communis Ecclesiae”, houveram variados exemplos na História da Igreja, dos quais, publico os seguintes:


4º Exemplo



Beata Catarina de Cardona


Não longe da pequenina cidade de Roda, na Espanha, havia, nos princípios do século XVI, um convento dos Padres Mercedários, aqueles religiosos heroicos cuja vida se consumia em aliviar e resgatar os cristãos prisioneiros dos infiéis. Aos Domingos, afluía à igreja do mosteiro grande número de habitantes das aldeias vizinhas, os quais aí notavam um eremita cujo recolhimento e fervor edificavam a todos.


Entretanto, ninguém o conhecia, ninguém sabia o lugar da sua morada. Este misterioso personagem despertou e excitou a curiosidade. Puseram-se, portanto, a espiar seus passos ao sair da igreja. Em breve, porém, percebeu ele de que se tratava, e fazia por se demorar muito tempo na igreja até cansar a paciência dos curiosos.


Por vezes, todavia, os mais intrépidos esperavam, os mais astutos escondiam-se; mas o eremita tomava, umas vezes, um caminho, outras vezes, outro. Além disso, caminhava tão depressa que ninguém podia segui-lo. Perdiam-no de vista nos atalhos que se cruzavam ou nas espessas matas onde não temia embrenhar-se, posto que, descalço e com os pés ensanguentados. Toda a espécie de conjecturas e comentários circulava na multidão.


A morada do pobre ermitão não era, todavia, senão a meia légua do convento. Constava ela de uma gruta cavada pela natureza numa rocha cercada de espessas sarças e matagais cuja entrada era fechada por giestas. Aí se escondia o solitário e se entregava aos exercícios da mais austera penitência. O seu alimento eram raízes, ervas e frutos silvestres.


Aí passava os seus dias a louvar ao Senhor, a rezar, a meditar suas grandezas e seu amor, a implorar misericórdia para o mundo, cheio de pecados e corrupção.


Um pastor, perseguindo um dia um rebanho de cabras vagabundas, chegou a descobrir a gruta do piedoso solitário, o qual suplicou ao seu fortuito visitante que não descobrisse o seu asilo a ninguém. ‘Não posso prometer-vos isto, meu irmão’, disse o pastor, ‘eu sirvo um senhor que é muito bom cristão e que há muito tempo deseja saber o vosso paradeiro. Ele será feliz em vos conhecer. Vós careceis de tudo; ele, porém, não permitirá que vos falte nada’. Em vão o ermitão se desculpava; viu-se obrigado a aceitar uma parte do pão que o bom do pastor levara para sua viagem e receber em seguida o que seu amo lhe enviava. Não tinha sido isto o mais desagradável da descoberta.


Não se guardou segredo sobre o caso, e, em breve, a gruta do solitário foi conhecida de toda a gente. A afluência era considerável. Todos desejavam ver este homem de Deus, este anjo da solidão, esta maravilha da penitência.


Um dia que o solitário estava ausente − para ir à igreja, sem dúvida, − um curioso penetrou na gruta para visitar e revistar o mobiliário.


Um crucifixo, entre os instrumentos de penitência, um livro de Horas; eis tudo o que se encontrou.


Este livro não deixou também de ser examinado; aí se encontrou a seguinte inscrição: ‘Dado a Catarina de Cardona pela Princesa d’Eboli’. Era, pois, uma mulher que habitava aquela gruta, que levava uma tão austera vida, e esta mulher era da família dos Duques de Cardona, uma das mais ilustres da Espanha.


Desde a idade de oito anos, Catarina sentia-se impelida à prática dos Conselhos Evangélicos. Longe de secundá-la, porém, seus pais sonharam em casá-la, logo que ela chegou à idade própria. A humilde rapariga submeteu-se como verdadeira vítima da obediência filial e tudo se preparou para as núpcias. Mas Deus que lia no fundo seu coração libertou-a das mãos daqueles que violentavam sua liberdade; o mancebo que lhe estava destinado para esposo morreu neste intervalo. Depois desta catástrofe ninguém se admirava de vê-la entrar na casa das Franciscanas. Sua família retirou-a, em breve, deste piedoso asilo para conduzi-la à corte de Espanha onde foi sucessivamente dama de honra da Princesa de Salerne e da Princesa d’Eboli. Sua alma, porém, experimentava neste meio mundano e buliçoso sofrimentos indizíveis. Uma manhã, foi encontrada no seu quarto uma carta dirigida à Princesa d’Eboli, em que Catarina agradecia a esta dama todas as suas bondades e lhe anunciava a resolução de ir viver na solidão.


Depois de 20 anos passados na caverna aonde a vimos no começo da narração, recebeu a nossa ermitã tantas visitas importunas que cedeu a gruta aos Carmelitas e entrou numa reclusão que estes religiosos lhe prepararam perto do seu convento.


Aí viveu ainda 5 anos. Catarina terminou sua carreira mortal em 1577, com 63 anos”.5


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1.  Bíblia Sagrada – Traduzida da Vulgata Sixto-Clementina e anotada pelo Pe. Matos Soares, p. 222. 9ª Edição, Ed. Paulinas, 1957.

2.  São Tomás de Aquino, “Suma Teológica”, II-IIae. q. 169 a.2, ad 3.

3.  São Paulo VI, Discurso pronunciado no Congresso Internacional Tomista, a 20 de abril de 1974.

4.  São Tomás de Aquino, “Suma Teológica”, II-IIae. q. 169 a.2, ad 3.

5.  Rev. Pe. Croiset, "Ano Cristão", Vol. V, 21 de Maio, pp. 335-337, Porto, 1923.


Alguns Exemplos Onde Não Há Pecado. 3ª Parte.


Segundo a sentença de Deuteronômio 22, 5: “A mulher não se vestirá de homem nem o homem se vestirá de mulher; porque aquele que tal faz é abominável diante de Deus”.1


O Doutor Angélico o confirma: “... em si mesmo, é pecaminoso uma mulher trazer trajes viris, ou inversamente…”.2


Mas, “o Mestre do bem pensar”3 em seguida, também ensinou: “Pode-se, porém, proceder desse modo e sem pecado, se o exigir a necessidade: quer para ocultar-se dos inimigos, quer por falta de outras roupagens, quer por outro motivo semelhante”.4


Seguindo os ensinamentos do “Doctor communis Ecclesiae”, houveram variados exemplos na História da Igreja, dos quais, publico os seguintes:


3º Exemplo



Santa Pelágia, a Penitente.


Por meado do V século, deu o Senhor à sua Igreja um dos mais insignes exemplos de sua infinita misericórdia com os pecadores, na pessoa de Pelágia, uma das mais notáveis pecadoras que se viram no mundo.


Tendo convocado em Antioquia o Patriarca Maximiano um Concílio Provincial de todos os Bispos seus sufragâneos, a ele concorreu Nono um dos Prelados mais santos do seu século. Foi monge do célebre mosteiro de Tabenas na Tebaida, donde o tiraram pela fama de sua iminente virtude para o fazerem Bispo de Edessa na Mesopotâmia, e daqui o transferiram para a Sé de Heliópolis, na Síria, próximo do monte Líbano, onde converteu à Fé inumeráveis nações idólatras. Em toda a parte frutificavam maravilhosamente os seus sermões, porque nele tudo pregava: a sua compostura, modéstia, semblante extenuado por suas contínuas penitências, a sua humildade e até os seus modos lhanos e sinceros, mas sempre respeitáveis.


Um dia, em que estavam sentados à porta da igreja do Mártir São Julião, o Patriarca, o Bispo Nono e outros oito Prelados dos que haviam concorrido ao Concílio, rogou o Patriarca a São Nono que fizesse ao povo uma prática espiritual. Fê-lo assim o Santo; falou com tanta eloquência e unção que a todos tinha suspenso. A este tempo passava perto deles uma célebre cortesã chamada Pelágia.


Era a primeira comediante de Alexandria, famosa por sua extraordinária formosura; mas muito mais pelas desordens de sua desgraçada vida. Chamavam-lhe a Margarida, o que na língua do país quer dizer Perola, ou fosse por sua rara beleza, ou porque sempre se apresentava coberta de pedrarias. Aquele dia havia-se adornado com todo o esmero e arte, que lhe pode inspirar o desejo de parecer bem. Vinha soberbamente vestida, mas com tanta imodéstia, como ostentação: o cabelo artificiosamente frisado, levantada a coifa com estudado desalinho, um véu pela cabeça, e tudo o mais com desprezo que lhe sugeria a falta de pudor. Seguia acompanhada de comitiva numerosa, composta de donzelas e de pajens. Escandalizaram-se com isto os Prelados, afastando os olhos de um espetáculo tão perigoso como profano. Só o Santo Bispo nono, contra o seu costume, a esteve olhando fixamente todo o tempo, em que a pôde a vista alcançar, e logo que se lhe ocultou, exclamou desfeito em lágrimas: ‘Ah! Irmãos meus, quanto temo que esta mulher, que tanto cuidado põe em agradar aos homens, haja de ser algum dia nossa condenação pelo pouco cuidado, que nós empregamos em agradar a Deus!’


Retirou-se depois à pousada com seu Diácono, que escreveu toda esta história, prostrou-se, e chorando, e gemendo, e ferindo o peito, dizia: ‘Senhor, tende misericórdia deste pobre pecador. Eis ali uma miserável criatura que gasta os dias inteiros a compor-se, que emprega o que a arte tem de mais sedutor, brilhante e especioso para se tornar agradável aos olhos dos homens, para se fazer amar deles; e eu Sacerdote, e Bispo, que cuidado ponho em adornar a minha alma com a gala das virtudes? Que tempo gasto em purificar o meu coração para vo-lo apresentar, e para que mereça o vosso agrado? Será possível que aquela infeliz mulher tenha mais indústria para se tornar amada dos homens, que eu para merecer ser amado de Deus?’ Passou o Santo Bispo o resto da noite na dor e na compunção, mostrando-se inconsolável por sua imaginária indolência, descuido e frieza.


Na noite seguinte teve o Santo uma misteriosa visão que referiu a seu Diácono, a qual teve o cuidado de a transmitir à posteridade: ‘Pareceu-me, lhe disse, que estando a celebrar ao altar se revoluteava ao redor de mim uma pomba coberta de asquerosa imundície, despedindo de si cheiro insuportável; e por mais que a afugentasse, ela sempre voltava a inquietar-me, até que o Diácono disse que saíssem os catecúmenos, e então saiu também a pomba e depois da Missa, dadas as graças, dispondo-me para voltar a casa, encontrei a mesma pomba sobre o umbral da porta; pareceu que a tomei na mão, e que, mergulhando-a em uma grande taça cheia de água, ficou tão branca como a neve, sem o mais leve resquício de mancha, e tomando rapidamente voo para o Céu, desapareceu de meus olhos. Queira o Senhor, acrescentou o Santo, declarar-nos o que isto significa’.


O dia seguinte era um Domingo; tendo-se reunido todos os Bispos na igreja para celebrar os Divinos Mistérios, acabado o Evangelho, apresentou-se o Patriarca a São Nono, e rogou-lhe que repartisse ao povo a palavra de Deus, explicando-lhe o Sagrado Texto que acabava de ler. Era prodigiosa a concorrência, porque à Solenidade do dia e à celebridade do Concílio, e com a notícia de que pregava São Nono, haviam concorrido todos os fiéis e todos os catecúmenos da cidade.


Subiu ao púlpito o Santo Bispo, e pregou com tanta força sobre as grandes verdades da Religião, sobre o mal sumo do pecado e o infinito tesouro da misericórdia de Deus, que todo aquele imenso auditório se desfazia em pranto. Achava-se felizmente entre os ouvintes a famosa cortesã Pelágia, que em tempos se alistara no número dos catecúmenos; mas, sufocados nela por uma vida licenciosa todos os sentimentos de Religião, só havia concorrido à igreja por mera curiosidade. Mas, quis a Graça fazer aquela ilustre conquista, e tocou eficazmente o seu coração. Tanto a moveu quanto acabava de ouvir, que não pôde reprimir as lágrimas; e logo que o pregador se recolheu a casa escreveu-lhe um bilhete nestes termos:


Ao santo discípulo de Jesus Cristo a pecadora e escrava do Demônio. Ouvi dizer que o vosso Deus baixou do Céu à terra para salvação dos homens, e Aquele, a quem os Querubins não se atrevem a fitar pelo respeito, se dignou conversar com os pecadores e com os publicanos sem se dedignar de falar com uma samaritana e com uma insigne pecadora. Se sois discípulo de tal Mestre, não desprezeis a uma infame cortesã, como eu sou, e não me negueis o bem e a consolação de ter convosco uma conferência, para poder achar graça por vosso intermédio junto de Jesus, Nosso Salvador’.


Ficou pasmado o Santo ao ler esta carta; temendo algum laço, pelo artifício de mulher tão perigosa, respondeu-lhe que Jesus Cristo, seu Divino Mestre, não ignorava o que ele era, e conhecia perfeitamente o interior de seu coração; que de resto não pretendesse tentá-lo, pois ainda que fosse servo de Deus, era pecador, e tinha por muito certa a sua miséria; se a sua intenção era santa, o poderia encontrar quando quisesse, não a sós, mas em presença de todos os Bispos.


Logo que Pelágia recebeu esta resposta, voou à igreja de São Julião, e encontrando-o no meio dos outros Prelados do Concílio, lançou-se a seus pés na presença de todos, rogou-lhes com lágrimas que derramava a torrentes, e com voz interrompida de soluços e suspiros, lhe pediu o Batismo. Representou-lhe o Santo Prelado que os Cânones Eclesiásticos proibiam que se administrasse este Sacramento aos pecadores públicos, e especialmente a uma famosa cortesã, como ela era, enquanto não renunciassem a sua vida licenciosa, e não dessem provas suficientes de não voltarem a mergulhar-se em suas antigas desordens. Pelágia, que se conservava sempre prostrada aos pés do Santo Bispo, respondeu-lhe: ‘Padre, minhas lágrimas são as melhores fiadoras da sinceridade da minha conversão; e, pois, que Deus me conduziu a vossos pés, querendo servir-se de vós para me purificar de meus pecados, olhai que não vos peça conta de dilatardes por mais tempo o admitir-me no número de suas servas’.


Conheceu o Santo por suas instâncias a sinceridade da sua mudança; sendo de parecer todos os Bispos que não devia negar-se-lhe o que pedia com tais mostras de contrição e com tão exemplar perseverança, não pode fazer mais resistência a conceder-lhe. No entrementes se deu parte ao Patriarca do que se tinha passado, e se lhe pediu a autorização para lhe administrar os Sacramentos, rogando-se-lhe ao mesmo tempo que escolhesse alguma virtuosa matrona para que cuidasse de tão ilustre neófita. Admirado o Patriarca de tão inesperada conversão, deu mil graças ao Senhor, e rogou a uma virtuosa dama, chamada Romana, muito conhecida de toda a cidade por um continuado de boas obras, que tomasse a seu cargo aquela nova ovelhinha que ia entrar no aprisco, querendo ser sua madrinha. A virtuosa senhora, fora de si pelo contentamento que lhe causava a ocasião de poder concorrer para uma obra tão meritória, correu à igreja de São Julião e abraçou ternamente a ditosa pecadora.


Depois de São Nono lhe haver explicado os principais Mistérios da nossa Religião, nos quais já se achava suficientemente instruída, perguntou-lhe como se chamava: ‘Meus pais, respondeu-lhe, puseram-me o nome de Pelágia; depois, ou por minha vaidade ou pelas riquezas de minhas galas, deram em me chamar Margarida; vós, Padre, podereis pôr-me o nome que melhor vos parecer’.


Fez-lhe São Nono os exorcismos costumados, e tendo-a Batizado com o nome de Pelágia, a confirmou e lhe deu a Sagrada Comunhão. Diz o historiador de sua vida que, quando o Santo Bispo voltou a casa depois de uma festa tão cheia de consolação, não lhe cabendo no peito a alegria, disse ao seu Diácono: Irmão caríssimo, este dia é muito solene para nós; não o tive em toda a vida de mais gosto, e assim é preciso que tudo diga festa; hoje contra o costumado hás de preparar os legumes com azeite, e havemos de beber um pouco de vinho’. Logo que se assentaram à mesa, fez o Demônio um espantoso ruído na pousada; ouviram-se uivos, gritos formidáveis, e entre eles uma triste e pavorosa voz que dizia: ‘Oh! Quanto me faz padecer este maldito velho! Não bastava haver convertido e batizado a trinta mil sarracenos, e depois a toda a cidade de Heliópolis? Não contente de todas estas conquistas que fizeste para teu Deus à minha custa, vens-me agora arrebatar uma cortesã, que ela só à sua parte me indenizava de todas as minhas perdas; não arrebentares, maldito velho!’ Conhecendo o Santo o artifício do Demônio, não fez mais que rir-se e fazer o Sinal da Cruz, com que o calou e o expulsou dali.


Neste entrementes, regressando Pelágia a sua casa, como uma nova criatura, repartiu pelos pobres todas as suas joias e bens, sem nada reservar para si, e deu a liberdade a todos os seus escravos. Nas primeiras noites teve muito que padecer do espírito das trevas; mas, instruída por seu Santo diretor, com o Sinal da Cruz e com os dulcíssimos Nomes de Jesus e Maria pôs em fuga todo aquele exército infernal.


Oito dias depois deixou a túnica branca, trocando-a por um cilício; coberta com um manto que lhe deu o Santo Prelado, saiu secretamente da cidade de Antioquia, tomou o caminho de Jerusalém, e foi-se sepultar em uma gruta do Monte das Oliveiras, onde todos a tiveram por um mancebo solitário, chamado Pelágio, e debaixo deste pseudônimo fez vida muito penitente, entregue às maiores austeridades, passando-a em contínua oração. Concluído o Concílio de Antioquia, retirou-se São Nono a Heliópolis, sem descobrir a ninguém o paradeiro da sua penitente, posto sabê-lo muito bem por meio de Revelação Divina. Seu Diácono Tiago, que o acompanhou ao Concílio, e nos deixou escrita toda esta história, desejou ir em peregrinação a Jerusalém, para o que pediu autorização ao Santo Bispo.


Deu-lhe São Nono; mas encarregou-o de, logo que chegasse à Santa Cidade, perguntar por um solitário, chamado Pelágio, que habitava no Monte das Oliveiras, e que não voltasse sem lhe trazer notícias dele. Não se esqueceu Tiago do recado, e por isso, logo que chegou a Jerusalém, perguntou pelo solitário Pelágio. Disseram-lhe que era um anjo em carne mortal, assombro de todo o país por sua eminente santidade, e reputação por um prodígio de penitência; que havia quatro anos que se havia encerrado em uma espécie de sepultura, só se alimentava de raízes insípidas que brotavam espontâneas.


Partiu Tiago a ver o santo solitário, encontrou-o em uma celazinha aberta no mesmo penhasco, sem outra abertura que uma janelinha, a qual estava quase sempre fechada.


Como ia com o pensamento de achar um homem, não lhe passou pela mente que pudesse ser Pelágia. Por outro lado estava a santa tão desfigurada, os olhos tão encovados e tão apagados pelas muitas lágrimas, o semblante tão descarnado pelo rigor das penitências, a tez e a figura tão mudada, que lhe seria impossível conhecê-la, ainda quando a não tivesse ido ver com a preocupação de que era um homem. Disse-lhe Tiago que vinha da parte do Bispo Nono, do qual ele era Diácono: ‘Nono é um Santo, respondeu ela, diz-lhe que me encomende a Deus’. Com o que fechou logo a janela, e Tiago ouviu que começou a rezar a Tércia.


Regressou a Jerusalém, cheio de regozijo e admiração por ter visto aquele prodígio. Depois de ter visitado os Santos Lugares, e muitos mosteiros, onde não havia outra coisa a louvar do que a santidade do solitário Pelágio, não quis voltar à Síria, sem o ter visitado uma segunda vez. Chegou à cela, fez ruído para que ouvisse, e vendo que ninguém aparecia, exclamou: ‘Servo de Deus, faze-me a caridade de te deixar ver’.


Como ninguém respondesse, voltou ao outro dia, no qual, repetindo-se o mesmo silêncio, teve a curiosidade de meter a cabeça pela janelinha que estava entreaberta, e então viu que estava sem vida o suposto solitário.


Correu prontamente a dar parte do sucedido aos ermitões dos contornos, vindo todos para prestar ao sagrado corpo os últimos deveres. Arrombaram a porta, e de lá tiraram o cadáver para o embalsamarem, mas todos ficaram estranhamente surpreendidos, quando notaram que era mulher a que criam ser homem, e logo se ouviu de todas as partes exclamar: ‘Sede eternamente louvado, meu Deus, que tendes tantos tesouros escondidos na terra não só entre os homens, mas também no sexo mais débil e mais delicado’.


Divulgada a notícia daquela maravilha por toda a comarca, correu de tropel gente de Jerusalém, bem como inumeráveis religiosas que estavam nos mosteiros das planícies de Jericó e às margens do Jordão, todas com velas acesas, cantando hinos, e assistindo às suas Exéquias, as quais correram com a maior solenidade; e desde aquele tempo ficou muito célebre em toda a Igreja o nome de Santa Pelágia.


Sucedeu esta morte tão preciosa aos olhos do Senhor no mês de Outubro do ano de 460”.5


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1.  Bíblia Sagrada – Traduzida da Vulgata Sixto-Clementina e anotada pelo Pe. Matos Soares, p. 222. 9ª Edição, Ed. Paulinas, 1957.

2.  São Tomás de Aquino, “Suma Teológica”, II-IIae. q. 169 a.2, ad 3.

3.  São Paulo VI, Discurso pronunciado no Congresso Internacional Tomista, a 20 de abril de 1974.

4.  São Tomás de Aquino, “Suma Teológica”, II-IIae. q. 169 a.2, ad 3.

5.  Rev. Pe. Croiset, “Ano Cristão”, Vol. X, dia 8 de Outubro – Festa de Santa Pelágia, a Penitente, pp. 103-107, Porto, 1923.


domingo, 29 de agosto de 2021

Todos os Dias, são Dias de Festa para o Cristão.



Deus ordenou aos judeus que celebrassem três festas apenas; a nós Ele mandou celebrá-las incessantemente. Pois, para nós, cada dia é um dia de festa. Para ensinar-se que assim é de fato, vou enunciar o que dá motivo as nossas festas, e vereis que todos os dias são dias de festa.


Comunhão da Virgem Maria
A primeira de nossas festas é a Epifania. Qual o motivo de sua celebração? O fato de Deus, o Filho Unigênito de Deus, ter estado entre nós. Ora, Ele está no meio de nós constantemente. Está escrito: “Eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo”.1 Pode-se, portanto, celebrar a Epifania todos os dias. E a festa da Páscoa, que significa? Qual o seu motivo? Proclamamos, então, a morte do Salvador, e é isto que constitui a Páscoa, que também não é celebrada por nós apenas em determinada época do ano; Paulo, querendo libertar-nos da sujeição das datas e mostrar que é possível festejar a Páscoa a todos os momentos, disse: “Todas as vezes em que comeis deste pão e bebeis deste cálice, anunciais a morte do Senhor”.2 Já que nos é possível proclamar a todos os momentos a morte do Senhor, podemos realizar a Páscoa a todos os momentos. Quereis saber que também a festa de hoje pode ser celebrada todos os dias, ou melhor, que ela é celebrada todos os dias? Vejamos qual o seu motivo. Por que ela é celebrada? Porque o Espírito veio a nós. Mas, do mesmo modo que o Filho Unigênito de Deus está com os homens fiéis, do mesmo modo o está o Divino Espírito Santo. E eis quem o prova, como está escrito: “Se me amares, guardareis meus Mandamentos. Eu pedirei ao Pai, e Ele vos dará um novo Consolador para estar convosco para sempre, o Espírito da Verdade”.3 Assim, como o Cristo disse de Si mesmo: “Eu estou convosco até o fim do mundo”, e como podemos, a todos os momentos, celebrar a Epifania; de modo semelhante, Ele disse do Espírito, que Ele estava conosco todos os dias, e podemos a todos os momentos celebrar o Pentecostes.


Para bem compreender que devemos estar sempre em festa, que não há, para isso, data determinada e que não estamos limitados a uma necessidade de tempo, escutai o que diz Paulo: “Sede alegres sempre.4 Ora, quando ele escreveu estas palavras não era um dia de festa; não era o dia de Páscoa, nem de Epifania, nem de Pentecostes, mas Paulo demonstrava que o que constitui a condição essencial do contentamento não é a data, mas a pureza da consciência. Uma festa, de fato, não é mais que alegria, mas a alegria espiritual, a alegria da alma, não possui outra fonte além da consciência das boas ações; aquele que tem uma boa consciência e que é o autor de boas ações tem o direito de estar alegre sempre.5



Contra uma Falsa Concepção das Festas


O Pentecostes passou, mas a festa não passou; pois toda santa reunião é uma festa. Que é que o prova? As próprias palavras do Cristo, ao dizer: “Onde estão dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”.6 Uma vez que o Cristo está no meio dos fiéis reunidos, que mais podeis exigir, que melhor caracterize uma festa. Onde quer que se encontrem ensinamentos e orações, a bênção dos pais e a audiência das Leis Divinas, a assembleia dos irmãos e os laços do verdadeiro amor, a conversão dos homens com Deus, palestra de Deus com os homens, como não teríamos aí uma festa, e uma festa solene? O que faz as festas, não é a numerosa assistência, mas a virtude dos que se reúnem; não são as vestes suntuosas, é o ornamento da piedade; não é uma mesa opulenta, é o cuidado que se tem com a alma; a maior de todas as festas consiste em possuir-se uma boa consciência… Aquele que vive praticando a justiça e as boas obras está sempre alegre sem que haja festa consagrada, porque ele recolhe o prazer sem mácula que lhe dá a consciência. Mas aquele que passa o tempo na prática do mal e da perversidade, aquele que tem muitas coisas pesando sobre a consciência, mesmo por ocasião de uma festa, mais que ninguém ignora a alegria da festa. Podemos, pois, se o quisermos, estar em festa todos os dias, contanto que nos apliquemos à virtude, e purifiquemos nossa consciência.7



Fonte: O Esplendor Cristão”, Vol. I, Terceira Parte, Cap. II, pp. 145-147. Ação Carismática Cristã, Fundação São João Crisóstomo, Rio de Janeiro, 1978.


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1.  Mat. 28, 20.

2.  I Cor. 11, 26.

3.  Jo. 14, 15-17.

4.  I Tes. 5, 16.

5.  São João Crisóstomo, “I Homilia sobre o Pentecostes”, 1 – 2.

6.  Mat. 18, 29.

7.  São João Crisóstomo, “V Sermão sobre Ana”, 1.


sábado, 28 de agosto de 2021

Alguns Exemplos Onde Não Há Pecado. 2ª Parte.


2ª Parte


Segundo a sentença de Deuteronômio 22, 5: “A mulher não se vestirá de homem nem o homem se vestirá de mulher; porque aquele que tal faz é abominável diante de Deus”.1


O Doutor Angélico o confirma: “... em si mesmo, é pecaminoso uma mulher trazer trajes viris, ou inversamente…”.2


Mas, “o Mestre do bem pensar”3 em seguida, também ensinou: “Pode-se, porém, proceder desse modo e sem pecado, se o exigir a necessidade: quer para ocultar-se dos inimigos, quer por falta de outras roupagens, quer por outro motivo semelhante”.4


Seguindo os ensinamentos do “Doctor communis Ecclesiae”, houveram variados exemplos na História da Igreja, dos quais, publico os seguintes:



2º Exemplo


Santa Joana D'Arc não usava traje masculino,

ordenado pelo próprio Deus?


Resposta: É verdade, porque, excepcionalmente, por vontade de Deus, ela teve que exercer uma função que era própria do homem. Deus pode suspender certas leis morais de ordem secundária. Além disso, para impedir que sua função e sua veste fossem causa de qualquer risco de sensualidade entre os homens, Deus a dotou de uma pureza e modéstia tais que superava qualquer inconveniente de ordem natural: Os comandantes do exército francês, companheiros de armas da Santa guerreira, depunham no Processo de revisão de sua condenação: diante de Santa Joana d’Arc jamais eles sentiam qualquer tentação carnal, mesmo nas condições precárias de um acampamento militar, tal era a irradiação milagrosa de pureza que dela se desprendia.5



O Exemplo de Santa Joana d’Arc,

a Mártir da Castidade.


O bruxo e visionário Merlin teria profetizado que a França seria salva por uma virgem com trajes de homem. E mais, acreditava-se que esta jovem viria da Lorena. Uma das testemunhas no Processo (contra Joana d’Arc) afirmou ter lido num livro velho que esta virgem sairia de um mato de carvalho na Lorena. − Não importa que Merlin falasse de um país diferente. O que aqui interessa é o fato de tais boatos existirem antes da aparição de Joana d’Arc.


Diante do ‘Dauphin’ apareceu uma piedosa mulher, Marie d’Avignon, contando suas visões relacionadas com os sofrimentos inauditos da França. Uma voz lhe comunicara que a calamidade havia de crescer ainda. Apareceu-lhe uma armadura. Assustada pensou ter de usá-la. Mas a voz esclareceu: ‘Viria uma virgem que devia vesti-la, vencer os inimigos e salvar o reino da França’.


A comissão que antes da libertação de Orleans examinou Joana d’Arc, conhecia também estes boatos e vaticínios, constatando que então estavam realizados.


Quando em 1412 nasceu Joana, a quarta filha de Jacques d’Arc e Isabelle Romée, ninguém pensou nas profecias, que se contavam em todas as casas. O futuro da menina parecia o comum de todas as crianças, nascidas em condições humildes: seria o que eram seus pais, como as demais meninas da mesma aldeia, uma camponesa laboriosa, uma boa mãe de família.


Em Domrémy, aldeia Lorena, onde se achava a casa paterna, não havia escola. A menina não aprendeu a ler nem escrever. A única coisa que Joana sabia eram as Verdades da Fé, ensinadas por uma inteligente e enérgica mãe. Foi dela que aprendeu a fazer o Sinal da Cruz e a rezar o Creio em Deus Pai, o Pai Nosso e a Ave Maria.


Quando Joana saía de casa, via na próxima vizinhança a igreja paroquial, que cada vez mais a atraía. Ao badalar dos sinos, soando o Angelus, ela fazia o Sinal da Cruz e ajoelhava-se. Fora da aldeia, numa elevação, havia uma capelinha, consagrada a Nossa Senhora de Bermont. Muitas vezes, de preferência nos sábados, Joana visitava aquela imagem e, quando possível, acendia uma vela em honra da Mãe de Deus”.



As Vozes do Céu


Joana tinha 13 anos quando, num dia que a história nunca fixou, ouviu uma voz ‘divina, boa e nobre’, que não saía de boca humana. Eram 12 horas. Dia de verão. A menina achava-se sozinha no jardim da casa paterna. A voz vinha da direita, do lado da igreja e estava acompanhada de viva luz. A voz lhe recomendou de atender bem a si mesma e de frequentar diligentemente a igreja.


Nos dias seguintes a voz voltou. Na terceira vez Joana soube que era o Arcanjo São Miguel que lhe falava, o Príncipe dos exércitos celestes, o Padroeiro da casa Valois, reinante, e da própria França.


Pouco depois o Arcanjo se fez acompanhar e finalmente substituir por Santa Catarina e Santa Margarida. Eram aparições majestosas, com ricas coroas na cabeça. Joana via-as, tocava e sentia a fragrância que espalhavam, mas em geral referia-se a elas só como a ‘vozes’ que ouvia, ‘suas vozes’. Sabia que eram Virgens e Mártires, mas o que não podia imaginar era a razão por que Deus as escolhera para esta missão: seriam guias e protetoras da virgem e mártir Joana, futura salvadora e santa ideal da França Católica”.



A Vocação


Certo dia as vozes, tão familiares, mudaram de tom. Atônita, ela ouviu as palavras: ‘Filha de Deus, deves sair da tua aldeia e ir para a França’.


Passaram momentos de estupor. Tendo finalmente compreendido o sentido das palavras ela respondeu: ‘Mas eu sou uma pobre menina que não sabe andar a cavalo, nem travar batalhas!’ Mas as vozes insistiam. A partir daquele dia elas repetiam sempre a ordem, variando os termos. As intimações tornavam-se mais peremptórias: ‘Toma tua bandeira que o Rei dos Céus te dá, toma-a corajosamente, e Deus te ajudará!’ Em outra ocasião ouviu dizer: ‘Filha de Deus, vai, vai, vai! Eu serei teu auxílio. Vai!’


Finalmente ela ouviu a explicação clara da sua missão! ‘Filha de Deus, deves conduzir o ‘Dauphin’ a Reims, para que seja coroado segundo o Rito Tradicional!’ − ‘Deves ir para a França e não podes ficar onde estás! Deves levantar o cerco de Orleans’.


Decisivas foram as palavras seguintes: ‘Filha de Deus, deves ir ao capitão Robert de Baudricourt na cidade de Vaucouleurs; ele te dará homens que te levarão ao Dauphin’. Joana d’Arc tinha (então) 17 anos.


A 13 de Fevereiro de 1429, quando contava 17 anos de idade, saiu Joana de Vancouleurs, a caminho da corte do Delfim, então em Chinon, como vimos. Escoltavam-na dois cavaleiros, João de Metz e Beltrão de Poulangy, quatro homens de armas e escudeiros. Pela primeira vez, agora, enverga o traje de campanha, que nunca mais há de abandonar; quotizou-se o povo de Vancouleurs para lhe oferecer as peças do seu vestuário novo, a saber: um gibão muito justo, de pano escuro, uma saia curta, que lhe descia até aos joelhos, polainas altas, botas e esporas. Leva o cabelo cortado pela altura das orelhas, como era de uso entre os cavaleiros da época; cobre-lhe a cabeça um gorro de lã preta. Laxart e um certo Tiago d’Alain deram-lhe um cavalo, cujo preço foi 16 francos; e recebeu de Roberto de Baudricourt uma espada que depois havia de trocar pela milagrosa lâmina encontrada em Fierbois”.6



Aos 13 de Fevereiro de 1429 a camponesa de Domrémy montou a cavalo trajada de homem, com armadura, espada e lança. Seis homens tinham ordem de acompanhá-la. Baudricourt os fez jurar de protegê-la do melhor modo possível. E Robert disse a Joana quando encetou caminho: ‘Anda! Vá agora tudo como quiseres!’.7


A confiança do comandante era pouca, mas em algumas semanas esta moça desconhecida espantará o mundo inteiro.


Veremos mais tarde que os juízes fizeram acusação dos trajes masculinos que Joana revestia desde a partida. Ela afirmava ter obedecido às ordens de Deus!


Das setenta acusações que pesaram sobre Joana, quer o leitor saber qual foi tida por mais importante? O uso de trajes masculinos! Custa a crer que assim fosse; mas o caso não admite dúvidas, nem interpretações divergentes; ressalta com evidência das Atas do Processo: ‘─ Podeis acaso afirmar que não pecais mortalmente por vestirdes fato de homem?’.”8



Se Deus me disse que pusesse trajes de homem e os trouxesse constantemente, sua ordem tem relação com a necessidade de manejar as mesmas armas como homens’. E ainda mais claro: ‘Quando estou trajada como homem entre homens, eles não terão desejos de mim, e creio que poderei em pensamentos e ações guardar melhor a minha virgindade’.


Vemos que a moça conhecia os perigos, mas mostrava uma resolução tão decidida de ser inviolável que os rudes homens de guerra eram como instintivamente afastados deste ser extraordinário... o nobre Dunois... o atribuía a uma intervenção Divina. Talvez o mesmo Dunois tivesse ouvido o que acontecera a Joana logo no princípio da carreira militar. Um soldado saudou-a com as seguintes palavras: ‘Não é esta a pretensa virgem? Se eu a tivesse uma só noite, com Deus, ela não seria mais virgem, é o que posso prometer’.


Joana ouviu esta saudação. Fixou o homem: ‘Blasfemas contra Deus, morrerás em breve’. Em menos de uma hora o homem caiu na água e se afogou”.



Por que os Trajes Masculinos?


O célebre Jean Gerson vivia no exílio em Lyon, onde dera um parecer favorável a Joana; em particular não vetara os trajes masculinos”.


Confiando nas promessas recebidas em Saint-Ouen, Joana aceitou trajes femininos e esperou ser levada a uma prisão eclesiástica, ser vigiada por uma mulher e poder assistir à Santa Missa. Mas foi outra vez confiada aos mesmos guardas ingleses. Estes, participando da decepção e ódio de todos seus conterrâneos, a maltrataram mais desumanamente do que nunca. Com todas as forças ela se defendeu contra agressões desonestas.


As circunstâncias fazem crer que era jogo premeditado induzir a prisioneira a reassumir os trajes masculinos e fornecer assim ensejo para nova ação judiciária. Um ou dois dias depois da volta à prisão, os guardas esconderam os trajes femininos deixando só os proibidos. Mas tarde restituíram o vestido de mulher, para acusar Joana de má vontade, caso ela o repudiasse. Mas Joana não o aceitou por motivos que logo ouviremos.


Em breve a vítima de uma trama diabólica convenceu-se de que fora enganada. A prisão era a mesma e, segundo a sentença, devia ser eterna. As Santas que lhe falavam repreendiam sua infidelidade. De repente espalhou-se a notícia de que Joana, na sua impiedade, vestia de novo trajes masculinos.


Imediatamente Mons. Pierre Cauchon, Bispo de Beauvais, foi à prisão, onde a encontrou desfigurada, ensanguentada pelos maus tratos, chorosa, cabelo raspado, trajada de homem. Era aos 28 de Maio, dois dias antes da morte (contava apenas 19 anos).


Ouçamos o último diálogo da prisioneira que, arrependida de sua fraqueza passageira, sobe ao cume do heroísmo.


Cauchon: ‘O que significa isso?’


Joana: ‘Sim, tornei a pôr os trajes masculinos, tirei os femininos’.


Cauchon: ‘Prometeste e juraste não mais vesti-los’.


Joana: ‘Era mais conveniente, porque estou em meio de homens. Tornei a vesti-los porque não guardastes a vossa palavra. Prometestes que eu poderia assistir à Santa Missa, receber o Corpo de Nosso Senhor, ficar fora destas cadeias de ferro’.


Cauchon: ‘Não abjuraste e prometeste não mais vestir esta roupa?’


Joana: ‘Prefiro morrer a estar em cadeias. Mas se me deixam ir à Missa, me tiram as cadeias, levam a uma prisão decente em presença de uma mulher, então sujeitar-me-ei e farei o que a Igreja me mandar’. ‘Prefiro fazer penitência de uma vez e morrer do que suportar mais tempo os sofrimentos da prisão. Nunca agi contra Deus nem contra a Fé, embora vós me obrigásseis a revogar. Do que estava escrito no documento da abjuração não compreendi nada. Não tinha na mente revogar qualquer coisa, fora se fosse do agrado Divino. Se quiserdes tornarei a revestir os trajes femininos, quanto ao resto, não mudarei nada’.



Cedo no dia 30 de Maio do ano 1431, Joana é avisada que neste dia será queimada viva. Começa a chorar: ‘Oh! Que me tratam tão terrível, tão cruelmente! Oh! Que hoje meu corpo, que nunca degradei, deve ser consumido e reduzido a cinzas... Diante de Deus acuso estes guardas e os homens que lhes deram entrada aqui, por causa dos assaltos e atos de violência a que me sujeitaram... Apelo para Deus, dos males e das injustiças que me fazem!’ ‘Hoje de noite espero estar no Paraíso’. Joana é condenada como herege impenitente, mas ilogicamente Cauchon lhe permite confessar-se e receber a Sagrada Comunhão... Reza sem interrupção: ‘Santíssima Trindade, tende piedade de mim! Santa Maria, rezai por mim! Santa Catarina, Santa Margarida, ajudai-me!’... Quando o fogo a atinge, ela não grita nem se lamenta. Várias vezes exclama: ‘Jesus! Jesus!’



Mártir da Virgindade


Acima ouvimos que depois da sua abjuração, Joana voltou aos trajes masculinos, o que lhe foi imputado como recaída e causou sua execução. Mas como em tantas outras circunstâncias, as Atas do Primeiro Processo velam a verdade que apreendemos de várias testemunhas do Segundo Processo. Vejamos os textos: ─ A Pucelle me confiou que depois da abjuração foi atormentada e espancada horrivelmente na prisão; um inglês, até de nobre linhagem, tentou violá-la. Foi por esta razão que vestiu de novo trajes masculinos. Também o declarou publicamente. Quando se aproximou o fim, disse ao Bispo de Beauvais: ‘Ai! Morro por vós, porque se me tivésseis internado numa prisão eclesiástica − não estaria aqui’.9 ─ Quando Joana tinha prestado a abjuração, ela perguntou ao presidente em que lugar devia permanecer. O presidente respondeu: No castelo de Rouen (a antiga prisão). Foi reconduzida para lá. Vestia de novo trajes femininos. Tornada relapsa teve que justificar-se perante os juízes. Nisto o próprio (juiz) Mestre André Marguerie correu grande perigo, por dizer que convinha perguntar a Joana por que motivo voltara aos trajes masculinos. Um inglês arrojou a lança e queria transpassar o Mestre. Muito assustados, Marguerie e os outros fugiram.10 Pelos depoimentos citados do Segundo Processo e outros que omitimos, apreendemos, portanto, a verdade. Joana não reassumiu os trajes proibidos como símbolo da sua retratação, nem propriamente por causa da prisão secular, como insinuam as Atas do Primeiro Processo, mas por causa do perigo que nesta prisão corria sua virtude e integridade. Aqui a heroína da Igreja e da França se elevou ao fastígio (cume) da heroicidade. Sabia que enfrentava a morte e na realidade ela foi decretada em consequência desta mudança de trajes. Se conservasse a roupa feminina, já não a teriam inquietado qualquer que fosse sua disposição interna. Mas, antes a morte, do que a violação! Joana d’Arc, já reconhecida durante a vida como a Pucelle, a Virgem, é a vitoriosa Mártir da Virgindade”.11


____________________________

1.  Bíblia Sagrada – Traduzida da Vulgata Sixto-Clementina e anotada pelo Pe. Matos Soares, p. 222. 9ª Edição, Ed. Paulinas, 1957.

2.  São Tomás de Aquino, “Suma Teológica”, II-IIae. q. 169 a.2, ad 3.

3.  São Paulo VI, Discurso pronunciado no Congresso Internacional Tomista, a 20 de abril de 1974.

4.  São Tomás de Aquino, “Suma Teológica”, II-IIae. q. 169 a.2, ad 3.

5.  “Jeanne d’Arc”, E. Bourassim, 1977, pp. 55 e 125.

6.  Cfr. Rev. Pe. Croiset, “Ano Cristão”, 30 de Maio – Festa de Santa Joana d’Arc, Vol. V. p. 417.

7.  Atas do Processo.

8.  Rev. Pe. Croiset, ob. cit. p. 427.

9.  Frei Martin Ladvenu.

10.  Jean Massieu.

11.  Rev. Pe. José Bernard, S.J., “Joana d’Arc – A Donzela de Orléans”, Vozes em Defesa da Fé, Caderno 37, Ed. Vozes, 1961.


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