Blog Católico, para os Católicos

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

domingo, 12 de abril de 2020

Jesus Cristo é o Nosso Eterno Aleluia.




ALELUIA

Psalm. 104, 1.
Et soepe in Titulis Psalmorum.


Este nome se atribui a Cristo nos títulos de alguns Salmos que a Ele são dedicados: e em quatro sentidos ou interpretações, todas misteriosas,1 e de grande consolação para as almas, pode competir-lhe. 


A 1ª, é de São Jerônimo, o qual diz que esta palavra Hebraica Alleluia2 significa, Louvai o Senhor. E quem não vê que Cristo em todos os passos de Sua vida sacratíssima nos está convidando aos louvores de Deus? Sua Encarnação, Nascimento, Circuncisão, Apresentação, Batismo, são vozes que nos estão bradando ao coração: Louvai ao Senhor. Seu Jejum, Pregação, Milagres, Instituição dos Sacramentos, Sua Paixão e Morte, Sua Ressurreição e Ascensão, e finalmente tudo o que há neste soberano Senhor, não é outra coisa que um perpétuo louvor de Deus, e manifestação gloriosa de seus Atributos, que a todos nos provoca ao mesmo louvor. Ó minha alma, aprende e faze-te bem capaz desta verdade; que procures em todas tuas obras que Deus seja louvado: não lhe ponhas outro fim, que a glória daquele Senhor, que só é digno de glória; e para que Deus em ti seja louvado, aspira sempre a conformar a tua vida com a de Cristo.


A 2ª, é de São Germão, o qual diz que a palavra Alleluia vale por estas três: Lux, vita, salus:3 Luz, vida, salvação. E quem, senão Cristo nosso bem, é a nossa luz, que nos ilumina com Sua lei, doutrina e inspirações; a nossa vida, que com o espírito de Sua graça nos restituiu da morte do pecado à vida da graça; e a nossa salvação, porque Seus merecimentos nos abriram as portas do Céu, e nos reconciliaram com Seu Eterno Pai? Ó amantíssimo JESUS, luz minha, vida minha, e minha salvação: derramai os tesouros de Vossa bondade, de sorte que todos logremos os raios de Vossa claridade, o espírito de Vossa graça e os bens de Vossa glória.


A 3ª, é de Pedro Altisiodorense, o qual diz que Alleluia, compreende esta sentença: Altissimus levatus est in Cruce: lugebant Apostoli: jam surrexit: O Altíssimo foi arvorado na Cruz: estavam tristes os Apóstolos: já ressuscitou. Pondera aqui, quanta foi a dignação de que o Senhor, que é o Altíssimo, se pusesse por nosso remédio em uma Cruz! Quanto o sentimento e perturbação daquela pequena grei do Apostolado, quando ferido o seu Pastor, se derramou dando balidos pela sua amada presença? E quanta a sua alegria, quando se certificaram de que o Senhor ressuscitara?


A 4ª, se atribui a Santo Agostinho, conforme o qual a palavra Alleluia vale o mesmo que esta Oração: Salvum me fac Domine: Senhor, salvai-me.4 Pondera, como é o Senhor JESUS tão amigo de nos salvar, que a mesma petição, que nós devemos fazer-lhe, de que nos salve, a quer Ele ter por Nome; para mostrar quanto deste ofício se lembra, e estima que lhe peçamos a salvação. Ó breve, mas suavíssimo Nome, que encerras uma breve, mas importante Oração! Alleluia: Salvum me fac Domine: salvai-me Senhor, conforme o desejo sincero que tendes de minha salvação: Alleluia: salvai-me, conforme o valor de Vosso Sangue, que uma gota basta para salvar mil mundos. Alleluia: salvai-me, para que no Céu Vos cante glórias e perpétuas aleluias, unindo meus louvores Convosco, que sois de Deus o louvor mais excelente.




Fonte: Ven. Pe. Manoel Bernardez, “Luz e Calor” - Obra Espiritual para os que Tratam do Exercício de Virtudes e Caminho de Perfeição, 2ª Parte, Opúsculo III, Meditação XXIX, Ponto I, p. 392-393. Nova Edição, Lisboa, 1871.

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1. Vide Rupert. Lib. 4. de Divin. Offic. c. 5.

2. Epist. 137. ad Marcellam.

3. Vide Durand lib. 4. Ration. c. 20. Bernard Bissum in Hierurgia verb. Alleluia. Theoph. Rainabd de attribut. Sect. 2. c. 11. a n. 293.

4. Turrecremata in Regula S. Benedicit n. 72. Al: id est salvum: le: idest me: lu: id est fac: ia: id est, Domine.

Pascha Nostrum



 Pascha Nostrum – Nossa Páscoa1

Quando Deus houve de libertar os filhos de Israel do cativeiro do Faraó, mandou-lhes sacrificar um cordeiro,2 e do seu sangue pôr sobre as suas portas um sinal, que visto pelo Anjo, que ia matando todos os primogênitos do Egito, deixava ilesas as suas casas; e por esta razão se chamava o tal cordeiro Pascal; porque Páscoa na língua Hebraica, quer dizer transição, ou também transmigração; e o tal Anjo devastador, transcendia, ou passava salvando só as casas dos Israelitas,3 que haviam de transmigrar do Egito para a terra da promissão. É pois Cristo, nossa Páscoa, porque é o Cordeiro figurado, que se ofereceu em sacrifício na Cruz, e em virtude de seu Sangue, somos os que dela participamos libertados da escravidão do Demônio, e chamados do Egito deste mundo, para a terra da promissão da Bem-aventurança.


Pondera, quanto amor devemos a este Cordeiro inocentíssimo, que com seu Sangue voluntariamente derramado nos sinalou, para nos perdoar a ira de Deus, e conseguirmos a salvação eterna! E que força poderia quebrantar as correntes do nosso cativeiro, em poder do Faraó infernal, senão a das correntes deste Sangue? Desta maravilhosa eficácia obrou Deus um sinal mais palpável aos nossos sentidos, por um servo seu chamado Evermoldo, Bispo de Racoburgo.4 Havia este intercedido com certo Príncipe secular, para que soltasse uns prisioneiros que (ele) tiranicamente vexava; porém, não valendo seus rogos, foi uma manhã de Páscoa visitar a masmorra onde estavam aprisionados, dizendo aquelas palavras do Salmo: Dominus slvit compeditos:5 O Senhor desata os presos. De repente, soltou a grossa cadeia feita em pedaços, e saíram os pobrezinhos a gozar alegres sua desejada liberdade. Vê, alma minha, quanta diferença vai desta cadeia à dos nossos pecados, e deste tirano ao Diabo; e por aí conhecerás quão grande benefício foi livrar-nos o Cordeiro Pascal com a aspersão de seu precioso Sangue.


Bendito sejais, ó Cordeiro de Deus; louvado e amado de todos os Vossos remidos por toda a eternidade; Vós sois a nossa Páscoa e alegria; Vós sois a nossa liberdade; Vós sois a nossa transmigração deste miserável século, para as moradas do Reino da Glória. Oh não permitais, Senhor, que eu por minha miséria, volte outra vez para o Egito, e torne a meter-me na mesma escravidão, frustrando tão valioso preço de meu resgate. Não permitais, que minha ingratidão destrua Vossa beneficência, esquecendo-me do que Vos devo.


Fonte: Ven. Pe. Manoel Bernardez, “Luz e Calor” - Obra Espiritual para os que Tratam do Exercício de Virtudes e Caminho de Perfeição, 2ª Parte, Opúsculo III, Meditação XXVIII, Ponto III, p. 391-392. Nova Edição, Lisboa, 1871.

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1.  I Cor. 5, 7.

2.  Êx. 12.

3.  Symmachus Josephus. D. Hieronym.

4.  Arbert. Kranz. Lib. 5. Vandaliae c. 43.

5.  Psalm. 145, 8.

O TRIUNFO DO AMOR DE DEUS



O Triunfo da Ressurreição

No próprio momento em que Jesus exalou o último suspiro, uma revolução súbita transtornou toda a natureza. O último brado do Deus moribundo ecoou até aos abismos. A terra pôs-se a tremer, como se a Mão do Criador cessasse de a manter em equilíbrio; e as rochas partiram-se em consequência daquelas espantosas comoções. Até a rocha do Calvário, sobre a qual se levantava a Cruz do Salvador, se fendeu violentamente até ao profundo.1 No vale de Josafá abriram-se os sepulcros e muitos mortos ressuscitaram e apareceram, envoltos em seus longos sudários, pelas ruas de Jerusalém, espalhando por toda a parte o espanto e a consternação. Era Deus que forçava a todos, vivos e mortos, a proclamarem a Divindade do seu Filho.

No templo, era o terror ainda maior. Os sacerdotes que estavam a acabar de imolar as vítimas, pararam perturbados até ao íntimo da alma, enquanto o povo, mudo de assombro estava esperando pelo final do estranho cataclismo. De repente, ouve-se um ruído sinistro do lado do Santo dos Santos; voltam-se todos os olhos para o véu de jacinto, de púrpura e de escarlate que fecha a entrada do santuário impenetrável, onde Javé se manifestava uma vez por ano ao sumo sacerdote; e eis que o véu misteriosamente se rasga de alto a baixo, rompendo assim a Antiga Aliança para ceder o lugar à Nova. Sacerdotes, cessai de imolar vítimas figurativas: a única Vítima agradável ao Senhor, vós a imolastes no Calvário! Povo de Israel, escuta a profecia de Daniel: “Depois de setenta semanas de anos, será morto o Messias; o povo que O há de renegar, já não será para o futuro o seu povo; a oblação e o sacrifício hão de cessar; e a abominação da desolação morará no templo e a desolação perdurará até ao fim”.2 Sacerdotes e doutores, as setenta semanas passaram; junto ao véu roto do santuário, confessai que crucificastes o Messias, o Filho de Deus!


Em meio destas cenas de desolação, um silêncio lúgubre reinava no Calvário; silêncio entrecortado de tempos pelos gritos lancinantes que davam os dois ladrões. Depois da morte de Jesus, tinham-se afastado um pouco as santas mulheres com Maria e o Apóstolo João. Só o centurião, imóvel no meio dos seus soldados, não podia despregar do divino Crucificado os olhos. Ainda lhe ecoava aos ouvidos o último brado que Jesus dera; e à vista dos prodígios operados na Sua morte acabou de lhe abalar o coração. Dirigindo-se a todos os que se encontravam no Calvário, exclamou: “Era um justo, era em verdade o Filho de Deus”. E todas as testemunhas daquele drama sublime, impressionadas até ao íntimo da alma, voltaram para suas casas, batendo no peito e dizendo como aquele Romano: “Sim, era verdadeiramente o Filho de Deus”.

O mesmo brado se ouviu lá nas profundezas do Inferno. Quando Jesus deu o último suspiro, compreendeu Satanás o seu erro. Tinha amotinado a Sinagoga contra o Justo, e aquele Justo era o Filho de Deus. Quisera o Demônio, com raiva insensata, aquela morte que dava a vida ao Gênero Humano e trabalhara sem o saber para remir aqueles filhos de Adão que considerava como seus perpétuos escravos. “Era o Filho de Deus, gritava ele desesperado, e eu servi-O nos seus desígnios!” E naquele próprio momento, pôde Satanás ver a Alma de Jesus separada do seu Corpo, quando descia ao misterioso Limbo, onde desde longos séculos a estavam esperando os filhos de Deus. Ali se encontravam os Patriarcas e Profetas: Adão, Noé, Abraão, Moisés, Davi e todos os justos que tinham desejado a vinda do Salvador e Nele tinham posto a sua esperança. Ao entrar naquele templo dos Santos, foi Jesus acolhido com um brado tal que ecoou naquele momento ao pé da Cruz e nos Infernos: “É Ele, é o Filho de Deus, é o Redentor que vem nos anunciar a nossa próxima libertação!”


Neste meio tempo, alguns soldados, enviados por Pilatos, subiam silenciosos pelo monte Calvário. Os Romanos desamparavam às aves de rapina os cadáveres dos supliciados, mas a lei dos Judeus proibia que se deixassem suspensos no patíbulo depois do sol posto. Como ia começar o Sábado, mais urgente ainda se tornava o guardar as prescrições legais. Os príncipes dos sacerdotes pediram pois a Pilatos, que mandasse acabar com os três supliciados e depôr-lhes, a seguir, os corpos. Para esta última execução é que os soldados armados de enormes maças, subiam ao Gólgota.

Aproximaram-se de um dos ladrões e partiram-lhe as pernas e o peito. A mesma sorte coube ao segundo ladrão. Chegado, porém, a Jesus, para logo notaram, na palidez do rosto, inclinação da cabeça e rigidez dos membros, que há algumas horas deixara de viver. Julgaram pois inútil quebrar-lhe as pernas. Contudo, para maior segurança, um soldado passou-lhe o lado com uma lançada. O ferro atingiu o Coração e da ferida saiu água e sangue. E deste modo se cumpriu aquela palavra da Escritura: “Fixarão os seus olhos naquele a quem crucificaram”;3 e aquela outra, concernente ao Cordeiro pascal: “Não lhe partireis nenhum osso”.4


O Apóstolo João, que estava com as santas mulheres, viu com os seus olhos todos os particulares desta cena misteriosa. Viu entrar o ferro da lança no Coração de Jesus, viu correr o sangue e a água – aquelas duas fontes de vida saídas do divino Coração: a Água batismal que regenera as almas, e o Sangue eucarístico que as vivifica. E João deu testemunho do que tinha visto, a fim de a todos inspirar fé e amor.

Para concluir o seu ofício, dispunham-se os soldados a desprender os supliciados e a enterrá-los, como de costume, com os instrumentos do seu suplício, quando se apresentaram dois homens, a reclamar o Corpo de Jesus. Um deles, José de Arimateia, pertencia à nobreza e tinha voz no supremo Conselho. Amigo como era da justiça e afável, e bom por natureza, recusara associar-se à negra conspiração tramada contra Jesus. No íntimo, era discípulo Salvador e esperava o Reino de Deus; mas o terror que inspiravam os Judeus tinha-o impedido de manifestar a sua fé. As grandes emoções do Calvário, tal ousadia lhe meteram na alma que, ao morrer o Salvador, concebeu o desígnio de lhe dar honrosa sepultura. Animado pois subitamente de uma coragem heroica, não receou ir ter com Pilatos e pedir-lhe o Corpo de Jesus. Muito tinha o governador romano por que penitenciar-se a respeito do Crucificado e dos seus amigos; viu de bom grado no que se lhe pedia, mas quis primeiro certificar-se da morte, pois lhe parecia demasiado prematura. Chamou pois o centurião encarregado de guardar os supliciados e, ouvindo dele que Jesus já não vivia, ordenou-lhe que entregasse o Corpo a José.


Com José ia Nicodemos, aquele doutor da lei que, desde a sua conversa noturna com Jesus, não tinha deixado nunca de O defender das injustas acusações dos chefes do povo. José levava um sudário para amortalhar o Corpo, e Nicodemos, uma confecção de mirra e aloés, para O embalsamar. Com o auxílio de João e de mais alguns discípulos despregaram da Cruz o Corpo do Salvador; e depois carregando com o precioso depósito foram colocá-lo sobre uma fraga a alguns passos da Cruz. E ali afinal, foi que as santas puderam contemplar o rosto inanimado do Mestre a quem tinham seguido com tanta dedicação; ali pôde a Mãe de Jesus banhar-lhe com Suas lágrimas as Sagradas Chagas e cobri-las de beijos. Mas foi preciso bem depressa concluir com aquelas demonstrações de dor e ternura, pois o sol estava no ocaso e ia começar o Sábado.

José estendeu sobre a pedra o sudário que devia servir de mortalha. Colocaram o Corpo sobre aquele lençol, cobriram-no de perfumes, conforme ao costume dos Judeus, e por fim, cobriram com as extremidades do lençol fúnebre os Membros e a Cabeça do seu muito amado Mestre.


Perto do lugar onde Jesus foi crucificado, num jardim pertencente a José de Arimateia, havia um sepulcro aberto na rocha, o qual ainda não servira. Deu-se José por feliz com poder consagrá-lo à sepultura do Salvador.5 Aquele jazigo funerário compunham-no duas celazinhas abertas na rocha e que comunicavam entre si. Num nicho, feito na segunda destas celazinhas, é que foi posto o Corpo do Salvador; coisa que muito bem notaram Maria Madalena e as santas mulheres, porque tinham formado o desígnio de voltar ao sepulcro, passado que fosse o Sábado, para proceder, com menos precipitação, ao embalsamento de Jesus.

Tendo assim prestado os últimos serviços ao seu bom Mestre, saíram os discípulos do monumento e rolaram-lhe para a entrada uma pedra enorme com o fim de lhe impedir o acesso; depois, com o coração triste, com os olhos arrasados de lágrimas e oprimidos com o peso da dor, entraram na cidade. Maria e as santas mulheres houveram também de resignar-se a deixar o Calvário. Foram encerrar-se no Cenáculo para lá passar o dia do Sábado.


Tudo parecia concluído. O profeta de Nazaré morrera na Cruz, como um vil escravo. Os Apóstolos, aterrorizados, tinham desaparecido; umas quantas mulheres, depois de O terem seguido até ao sepulcro, voltavam para suas pousadas, derramando lágrimas. Dir-se-ia que os príncipes dos sacerdotes e os fariseus triunfavam incontestavelmente; e contudo, coisa estranha! Pareciam temer ainda Aquele personagem prodigioso, que tantas vezes os tinha espantado com o seu poder. Aquelas trevas que envolveram a cidade durante a sua agonia, aquele tremor de terra no momento da Sua morte, aquele véu do Santo dos Santos rasgado miraculosamente, afiguravam-se a todos, como presságios sinistros. E o que mais que tudo os inquietava, é que o Crucificado tinha anunciado que ressuscitaria três dias depois da Sua morte.

Em tal assombro os lançaram estes temores, que sem se importar com o descanso sabático, foram para logo ter com Pilatos. “Senhor, disseram-lhe eles, lembramo-nos que aquele impostor, quando ainda vivia, anunciou que ressuscitaria ao terceiro dia depois da Sua morte. Fazei-nos pois o favor, de mandar guardar o seu sepulcro até ao fim do terceiro dia, para que não venham os seus discípulos tirar o cadáver e digam depois ao povo que ressuscitou dentre os mortos. Pois este segundo erro ainda seria mais perigoso que o primeiro”.


Pilatos execrava aqueles homens, sobretudo depois que eles lhe extorquiram uma sentença que a sua consciência lhe exprobrava como um crime. Por isso, respondeu-lhes com desprezo: “Tendes a vossa guarda: ide lá, e mandai guardar esse sepulcro, como bem vos parecer”. Os príncipes dos sacerdotes e os chefes do povo foram ao jazigo onde repousava o Corpo do Crucificado. Selaram a pedra que defendia a entrada, e colocaram soldados à volta do monumento a fim de impedir que alguém se aproximasse. E. feito isto, retiraram-se plenamente seguros: parecia-lhes impossível que um morto tão bem preso e tão bem guardado lhes pudesse escapar. Já se tinham esquecido de que, tendo-lhes Jesus prostrado com somente pronunciar o próprio Nome, os soldados no Horto de Getsêmani, bem podia, se quisesse, prostrá-los de novo junto do sepulcro. Dispunha, porém, Deus que eles tomassem aquelas ridículas precauções, a fim de que os próprios Judeus fossem obrigados a verificar oficialmente o triunfo do Crucificado!

Ao predizer a Sua morte, e a Sua morte na Cruz, Jesus ajuntava que ressuscitaria ao terceiro dia. “Destruí este templo, dizia Ele aos Judeus, falando do templo do Seu Corpo, e Eu o reconstruirei em três dias”. E até aos fariseus que lhe pediam um prodígio no Céu para provar a Sua Divindade, anunciou-lhes que o grande sinal da Sua missão divina seria a Sua Ressurreição. “Assim como Jonas ficou três dias e três noites no ventre da baleia, assim ficará o Filho do homem três dias no seio da terra”. E este é o milagre por excelência, o milagre que há de lançar o mundo aos pés do Filho de Deus. Jesus Anunciou; é preciso que a Sua palavra se cumpra.


Mas o posto romano, composto de dezesseis soldados vigiava cuidadosamente o Crucificado do Gólgota. E de três em três horas, novas sentinelas iam render as que tinham acabado o seu quarto de guarda. O Filho de Deus esperava, na paz e silêncio do sepulcro, o momento fixado pelos decretos eternos. Ao romper da aurora do terceiro dia, a Sua Alma, voltando do Limbo, reunia-se ao Corpo e, sem nenhum movimento na colina, o Cristo glorificado saiu do sepulcro. E os guardas nem sequer perceberam que estavam vigiando um sepulcro vazio. Mas eis que, momentos depois, começa a terra a tremer violentamente, e um Anjo desce do Céu, diante dos soldados aturdidos, rola a pedra que fechava a entrada da gruta e senta-se sobre aquela pedra como um triunfador no seu trono. O seu rosto brilha como o relâmpago, o seu vestido alveja como a neve, os olhos lampejam chamas e fixam os guardas que para ali caem com o rosto no pó, quase mortos de pasmo. Era o Anjo da Ressurreição que descia do Céu para anunciar a todos que Jesus, o grande Rei, o Vencedor da morte e do Inferno, acabava de sair do sepulcro.

Passado aquele primeiro momento de assombro, os guardas, fora de si, fugiram para a cidade e foram contar aos príncipes dos sacerdotes os fatos prodigiosos de que tinham sido testemunhas. Eles, os sacerdotes, espavoridos e desconcertados, conferenciaram para logo entre si, acerca do modo que poderiam ter de ocultar a verdade ao povo, e pô-lo, de antemão, de pé atrás contra as manifestações que, por sem dúvida, se iam dar. E mandando imediatamente convocar os anciãos não deram com melhor ardil, para sair decentes do caso, do que subornar os soldados a peso de dinheiro. Prometeram-lhes pois a cada qual uma soma avultada, se estivessem dispostos a explicar ao povo que, enquanto eles dormiam, tinham vindo os discípulos de Jesus e levado o Corpo do seu Mestre. E como objetassem os soldados que, se Pilatos ouvisse falar do furto do cadáver, teriam eles de lhe dar contas de como procederam, respondeu-lhes o Conselho, que ele se encarregava de os desculpar perante o governador. Deste modo, livres de perigo, deitaram-se os soldados ao dinheiro que lhes metiam nas mãos e propagaram entre os Judeus a fábula ridícula do suposto roubo. Mas com isto nada mais conseguiam que desonrar-se a si, mais aos cumplices, pois era bem fácil dar-lhes esta resposta: “Se estáveis a dormir, como dizeis, não vistes nem ouvistes nada durante o sono: como então vos atreveis de afirmar que os discípulos levaram o cadáver que estáveis guardando?”6 Melhor do que com estas mentiras ineptas não podiam os Judeus provar a verdade da Ressurreição, isto é, o brilhante triunfo do Rei a quem tinham negado e crucificado.


Mas pouco aproveita ao Sinédrio: o triunfo que Jesus alcança hoje sobre um inimigo que ninguém jamais venceu nem vencerá, deixa na sombra todos os triunfos. Por este sinal, há de reconhecer o universo ao seu Deus e Salvador. Este dia da Ressurreição há de ter um nome particular; chamar-se-á o Domingo, o Dia do Senhor, o dia do eterno Aleluia, porque “nesse dia a Vida e a Morte combateram num assombroso duelo, e o Senhor da Vida prostrou a Morte. O Senhor ressuscitou verdadeiramente! Aleluia!” Assim hão de cantar os filhos do Reino que Jesus, saído do sepulcro, vai agora estabelecer no mundo inteiro e perpetuar até ao fim dos séculos.



Fonte: Rev. Pe. Berthe, C.Ss.R., “Jesus Cristo – Sua Vida, Sua Paixão, Seu Triunfo”, Livro 8º, Cap. I, pp. 403-411. Tradução do Francês. Estabelecimentos Benzinger & Co. S.A., Einsiedeln/Suíça, 1925.


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1. Ao contrário dos efeitos naturais dos terremotos, a rocha está fendida transversalmente, e a ruptura cruza-lhe os veios de um modo estranho e sobrenatural. “Está demonstrado por mim, diz Addison (De la Religion chrétienne, t. II), que isto é efeito de um milagre, que nem a arte nem a natureza podem produzir. Dou graças a Deus, por me ter trazido aqui, para contemplar este monumento do seu admirável poder, este testemunho lapidar da Divindade de Jesus Cristo”.

2. Dan. 9, 24-27. (Vulgata)

3. Zac. 12, 10.

4. Êx. 12, 46; Núm. 9, 12; Sl. 33, 21.

5. As cinco últimas estações da Via Sacra: o despojamento dos vestidos, a crucifixão, o levantamento da Cruz, a pedra da unção ou preparação do Corpo para a sepultura e o sepulcro acham-se encerradas dentro da Basílica do Santo Sepulcro.

6. Todos conhecem o dilema que Santo Agostinho põe àqueles infelizes guardas: “Se dormieis, como sabeis que furtaram o Corpo? Se não dormieis, porque O deixastes furtar?”


Desejo a todos,
Uma Santa e Feliz Páscoa

Jesus ressuscitou,
verdadeiramente,
ALELUIA!

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