O Dedo de Deus está aqui1
Uma senhora, parisiense,2 que passava o verão em Midi, passou por Ars de regresso à Capital. Um Sacerdote que conhecia a vida de desordem daquela senhora, aconselhou-a a passar por Ars. “Verá ali algo de extraordinário, senhora: um Cura de aldeia que está enchendo o mundo com sua fama… Não se arrependerá dessa pequena volta na sua viagem”. Cumpriu-se a predição de um modo extraordinário. À tarde, passeava aquela senhora na praça com uma desconhecida, encontrada casualmente. O Cura d’Ars passou por ela ao regressar da visita a um enfermo, e disse-lhe: “Senhora, acompanhe-me”. E à outra: “Pode retirar-se; não tem necessidade de meu ministério”. E falando à parte com a pecadora, foi tirando àquela Samaritana o véu de todas as suas iniquidades. Aterrada com tais revelações, guardava silêncio. Por fim, disse: “Sr. Cura, quer me ouvir em Confissão?
– Sua Confissão, replicou o Santo, seria inútil. Eu leio na sua alma e vejo dois Demônios que a acorrentam: o Demônio do orgulho e o Demônio da impureza. Não a posso absolver; só no caso em que não volte a Paris, e, como conheço as suas disposições, sei que voltará”.
Depois, com intuição profética, o homem de Deus deu-lhe a conhecer como haveria de descer até aos últimos degraus do mal.
– “Mas, Sr. Cura, eu sou incapaz de cometer tais abominações!… Então, estou condenada!…
– Não digo isso, porém, mais adiante, quão difícil será poder salvar-se!
– Que hei de fazer?
– Venha amanhã cedinho e eu lho direi”.
Durante a noite, para suplicar a perda de uma alma que Deus tinha criado para as alturas, e que se ia afundando no lamaçal do pecado, o Cura d’Ars orou longamente e se infligiu uma sangrenta disciplina. Pela manhã concedeu uma audiência especial àquela penitente pouco vulgar, e lhe deu sua resposta:
– “Pois bem, deixarás Paris e virá morar naquela casa ali embaixo, donde vem. Se quiser salvar a sua pobre alma, fará tais e tais mortificações”.
A senhora partiu de Ars sem ter ainda recebido a absolvição. Paris recuperou-a em pouco tempo, pois ela voltou aterrorizada como se o pecado lhe cavasse um abismo aos pés. Apoderou-se-lhe da alma um grande fastio. Invocou a Deus e fugiu da Capital… Escondida numa vila de campo, apesar das resistências de uma vida corrompida pelas paixões, por muito tempo satisfeitas, resolveu reiniciar o caminho do bem. Lembrou-se dos conselhos do Santo de Ars. Uma graça interior muito poderosa a impeliu e ajudou-a a segui-los.
“No caminho da abnegação (renúncia), dizia o Cura d’Ars, só é custoso o primeiro passo. Quando se tem entrado nele, anda-se por si mesmo…”.3
A nossa penitente fez a feliz experiência. “Ao final de três meses, escreve o Cônego Ball, que recolheu as notas para esta história, sua conversão foi completa; suas disposições de espírito e de coração se achavam tão mudadas, que ela mesma não compreendia, como antes podia amar o que, então, lhe causava tanto horror”.4
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1 Êx. 8, 19; 31, 18; Salm. 8, 3; Luc. 11, 20.
2 Côn. Francis Trochu, “O Cura d’Ars – São João Batista Maria Vianney”, 1939.
3 Esprit du Curé d’Ars, p. 351.
4 Arquivos da Paróquia de Ars.


