Blog Católico, para os Católicos

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quarta-feira, 12 de junho de 2024

SANTO ANTÔNIO E A SOBERBA DA HERESIA.


Santo Antônio de Pádua (ou de Lisboa), no Sermão do Domingo da Sexagésima ensina: “A soberba do teu coração, ó religioso, elevou-te, isto é, levou-te para fora de ti, para que vãmente caminhasses sobre ti, tu que habitas nas fendas do rochedo. A pedra é qualquer religião (Ordem Religiosa) da Igreja. Dela escreve Jeremias: ‘Nunca faltará neve nos penhascos do campo’.1 O campo é a Igreja; o penhasco do campo é a Religião fundada sobre o rochedo da Fé. A neve é a alvura do entendimento e do corpo, que não deve nunca abandonar a Religião. Mas, ai! Ai! Quantas fendas, quantos cismas, quantas divisões e dissensões existem no rochedo, isto é, na Religião! Se a semente da Palavra divina cair sobre ela, não frutifica, porque não possui a umidade da graça do Espírito Santo, que habita, não nas fendas da discórdia, mas na mansão da unidade’. ‘Entre eles’, escreve São Lucas, ‘havia uma só alma e um só coração’.2 Na religião há fendas, de verdade, porque há contenda no capítulo, dissonância no coro, murmuração no claustro, gastrimagia3 no refeitório, petulância da carne no dormitório. Com muita razão, pois, diz o Senhor: ‘E outra caiu sobre terreno pedregoso, e uma vez nascida secou, porque’, como escreve São Mateus, ‘não tinha raiz’, ou seja, humildade, raiz de todas as virtudes.4 Disto abertamente se conclui que a fenda da religião se abre com um coração soberbo. A religião não pode produzir fruto, porque não têm em si a raiz da humildade.

Tal religião é o armazém; de fato, depois das dissidências internas, procuram os louvores externos. Com efeito, na praça pública, os falsos religiosos vendem, como se fossem comerciantes, gêneros sofísticos; sob o hábito religioso e à sombra de falso nome apetecem ser louvados, revestem certo fingimento pessoal de perfeição junto dos homens; querem parecer santos, mas não o querem ser, infelizmente, a religião, que devia conservar as mercadorias das virtudes, os aromas dos costumes, é destruída e transforma-se em armazém público. Daí, a deploração de Joel: ‘Foram demolidos os celeiros’, isto é, os claustros dos Cônegos, ‘arruinados os armazéns’, isto é, as Abadias dos monges, ‘porque se perdeu o trigo’.5 No trigo, alvo no interior e avermelhado na casca, significa-se a Caridade, que mantém a Pureza para consigo e o amor para com o próximo. Por isso, este trigo perdeu-se, por ter caído sobre terreno pedregoso; e uma vez nascido secou, por não ter a raiz da humildade nem a umidade da graça septiforme. Daqui se deduz que, da perda do trigo, isto é, da falta de Caridade, se destrói o armazém de toda a religião”.6


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1.  Jer. 18, 14.

2.  At. 4, 32.

3.  Concupiscência da gula.

4.  Mat. 13, 6; S. Bern., in die Paschae, sermo, 3, PL 183, 275.

5.  1, 17.

6.  Item sermo contra falsos religiosos, ibi: Et aliud cecidit supra petram.


domingo, 26 de maio de 2024

A SÉTIMA MORADA E A SANTÍSSIMA TRINDADE.


Nesta última morada, as coisas são diferentes. O nosso bom Deus quer já tirar-lhe as escamas dos olhos, bem como que veja e entenda algo da graça que lhe é concedida – embora isso se efetue de modo um tanto estranho.

Introduzida a alma nesta morada, mediante visão intelectual1 se lhe mostra, por certa espécie de representação da verdade, a Santíssima Trindade – Deus em três Pessoas: Primeiro lhe vem ao espírito uma inflamação que se assemelha a uma nuvem de enorme claridade. Ela vê então nitidamente a distinção das divinas Pessoas; por uma notícia admirável que lhe é infundida, entende com certeza absoluta serem as três uma substância, um poder, um saber, um só Deus.

Dessa maneira, o que acreditamos por fé é entendido ali pela alma por vista, se assim o podemos dizer, embora não seja vista dos olhos do corpo nem da alma, porque não se trata de visão imaginária. Na sétima morada, comunicam-se com ela e lhe falam as três Pessoas. Elas lhe dão a entender as palavras do Senhor que estão no Evangelho: que viria Ele, com o Pai e o Espírito Santo, para morar na alma que O ama e segue Seus Mandamentos.2

Oh! Valha-me Deus! Ouvir essas palavras e crer nelas é uma coisa; entender a sua verdade pelo modo de que falo é algo inteiramente diverso! E cada dia se espanta mais essa alma, porque lhe parece que as três Pessoas nunca mais se afastaram dela. Pelo contrário, vê nitidamente – do modo que dissemos3 – que estão em seu interior. E, no mais íntimo de si, num lugar muito profundo – que ela não sabe especificar, porque é ignorante – percebe em si essa Divina Companhia.

Lendo o que digo, pode parecer-vos que ela não fica em si, mas tão embevecida que não dá atenção a coisa alguma. Mas a alma o faz, sim, e muito mais do que antes. Dedica-se a tudo o que é serviço de Deus e, faltando-lhe as ocupações, permanece naquela agradável Companhia…


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Fonte: Castelo Interior ou Moradas, Sétima Morada, Cap. 1, nn. 6-11. Cfr. Obras Completas de Teresa de Jesus, pp. 568-570. Edições Loyola, São Paulo/SP. 1995.

1.  Padre Gracián retocou essa passagem no autógrafo: “Mediante visão ou conhecimento intelectual que nasce da fé [?] Ribera riscou a correção. Frei Luís, em contrapartida, julgou-se no dever de proteger o texto teresiano com uma longa nota marginal, em sua edição príncipe: “Embora o homem nesta vida, perdendo o uso dos sentidos e elevado por Deus, possa ver de passagem a Sua essência, como provavelmente aconteceu a São Paulo, Moisés e alguns outros, a Madre não fala aqui desse tipo de visão, que, mesmo breve, é clara e intuitiva. Ela fala de um conhecimento desse Mistério que Deus concede a algumas almas por meio de uma grandíssima luz que lhes infunde, e não sem alguma espécie criada. Mas, como essa espécie não é corporal nem representada na imaginação, a Madre diz que essa visão é intelectual, e não imaginária” (p. 234).

2.  Jo. 14, 23.

3.  Ou seja, por visão intelectual; cfr. n. 6.


sábado, 18 de maio de 2024

A ONIPOTÊNCIA SUPLICANTE EM MARIA.

    

AS BODAS DE CANÁ,

NA GALILEIA.1


1Três dias depois, celebravam-se umas bodas em Caná da Galileia, e encontrava-se lá a Mãe de Jesus. 2Foi também convidado Jesus com Seus discípulos para as bodas. 3E, faltando o vinho, a Mãe de Jesus disse-Lhe: Não têm vinho. 4E Jesus disse-lhe: Mulher, que nos importa a mim e a ti isso? Ainda não chegou a minha hora. 5Disse sua Mãe aos que serviam: Fazei tudo o que Ele vos disser. 6Ora, estavam ali seis talhas de pedra, preparadas para a purificação judaica, que levavam cada uma, duas ou três medidas. 7Disse-lhes Jesus: Enchei as talhas de água. E encheram-nas até em cima. 8Então disse-lhes Jesus: Tirai agora, e levai ao arquitriclino. E eles levaram. 9E o arquitriclino, logo que provou a água, convertida em vinho, como não sabia donde lhe viera (este vinho), ainda que o soubessem os serventes, porque tinham tirado a água, o arquitriclino chamou o esposo, 10e disse-lhe: Todo o homem põe primeiro o bom vinho, e quando já (os convidados) têm bebido bem, então lhes apresenta o inferior; tu, ao contrário, tiveste o bom vinho guardado até agora. 11Por este modo deu Jesus princípio aos (Seus) milagres em Caná da Galileia, e os Seus discípulos creram n’Ele.2


Omnipotentia supplicans

"Não receia S. Bernadino de Sena concordar de que, 

'ao império de Maria todos estão sujeitos, até o próprio Deus'. 

Isto é, Deus lhe atende aos rogos como se fossem ordens".

(S. Afonso M. de Ligório, "Glórias de Maria Santíssima", Part. I, Cap. VI, § I)




1ª Parte


RUMINANDO O TEXTO EVANGÉLICO


1. “Três dias depois…”. Ao terceiro dia”, depois da partida da Judeia, chegaram a Caná, que era uma aldeia, situada à distância de uma hora e meia a nordeste de Nazaré. As núpcias celebravam-se, evidentemente, em casa de um amigo ou parente da família de Jesus.3 Três dias depois do encontro com Filipe e Natanael, o Evangelho abre-se, desse modo, com uma semana completa, contada quase dia por dia, e conclui-se com a manifestação da glória de Jesus.4 No es claro desde cuándo se ha de contar este tercer día, si desde la partida para Galilea (1, 43) o desde el último discurso.5 Caná ficava perto de Nazaré. Diz-se Caná da Galileia, para distingui-la de Caná de Sidônia. – Acredita-se que os esposos eram parentes da Santíssima Virgem.6

“… encontrava-se lá a Mãe de Jesus…”. Maria está presente ao primeiro milagre, que revela a glória de Jesus e, novamente na Cruz (19, 25-27). Por uma intenção manifesta, vários dados se correspondem nas duas cenas.7 A Santíssima Virgem já estava ali; chegando o Senhor da Judeia, foi também convidado com os seus discípulos. Talvez este mesmo acréscimo de convivas causasse a falta de vinho antes de terminarem os festins nupciais, que duravam, regularmente, 7 dias.8 As bodas das pessoas ricas celebravam-se durante sete dias. A Mãe de Jesus devia ser parenta de um dos esposos, pois vemos no versículo 12, que os filhos de sua irmã (a mulher de Cléofas), Tiago, José, Simão e Judas a quem o Evangelista chama os irmãos de Jesus, foram também convidados. Não fala o Evangelista da presença de São José, o que leva Santo Epifânio a pensar que já tinha morrido.9 Tal como aqui, em Caná, a intercessão de Maria se faz presente também no Cenáculo: Eles rezavam com Maria, a Mãe de Jesus” (At. 1, 14).10

2. “… Foi também convidado Jesus com Seus discípulos…”. Assistindo a estas núpcias, quis Jesus não só confirmar os Seus discípulos na fé, operando um grande milagre, como também santificar o Matrimônio que, mais tarde, seria elevado à dignidade de Sacramento.

Quantos cristãos, ou que se dizem tais, repelem a presença de Jesus, recusam a intervenção de Maria Santíssima, no ato aliás tão solene do Casamento, que tantas graças requer para completa felicidade da família! Todo Casamento contraído fora da presença de Jesus, sem a intervenção da sua Igreja, é não somente escandaloso e infeliz, mas ainda fonte perene de inúmeros pecados.11 Quando vem Jesus à mesa, não é para comer, senão para dar sustento (Sedúlio).12 Jesus aceitou o convite dos noivos, para com Sua presença santificar o Casamento. A mudança do vinho no Sangue de Cristo no Santo Sacrifício da Missa é ainda mais de admirar, que a mudança da água em vinho nas Bodas de Caná.13

3. “E, faltando o vinho, a Mãe de Jesus…”. A palavra da Mãe patenteia tanto a delicadeza de sentimentos para com os esposos embaraçados, como a fé na bondade e poder de seu Filho. O que Ela pede é um milagre.14

“… Não têm vinho…”. Es de advertir la discreta manera de pedir el remedio de aquella necesidad en tan solemne momento.15 Maria Santíssima pediu um milagre, em favor daqueles esposos. Observando que não era ainda chegada a ocasião de manifestar-se ao mundo, com todo o Seu poder, Jesus cede todavia à intercessão de sua Mãe. Assim praticou Jesus o Seu primeiro milagre, por intervenção de Maria, a quem devemos sempre recorrer em nossas tribulações. Se Ela não podia, por Si, operar o milagre desejado, conseguiu, no entanto, com as Suas súplicas.16 A Virgem Maria dirige-se a Jesus como Deus, pedindo um milagre para livrar os esposos de embaraços, e Jesus responde a sua Mãe como Deus, querendo mostrar aos convivas que vai operar, não como Filho de Maria, mas como Filho de Deus, na hora marcada pela vontade de Deus para começar a fazer milagres.17

4. “Mulher…”. Entre os gregos e os orientais a palavra mulher era usada na intimidade para designar também as pessoas mais queridas e mais dignas de respeito.18 Esse tratamento insólito de um filho para com sua mãe repetir-se-á em 19, 26, onde o seu significado se esclarece como reminiscência de Gênesis 3, 15.20: Maria é a nova Eva, “a Mãe dos viventes”.19 A primeira parte da resposta de Jesus é uma frase muito comum na Sagrada Escritura, e era conhecida também entre os gregos e os romanos: v. II Reg. 16, 10; III Reg. 17, 18; IV Reg. 3, 13; 9, 18; etc. Não se pode negar que ela implicasse uma recusa ao pedido da Mãe, recomendando-Lhe que não se metesse nessas coisas. É de notar, porém, que a locução não tem nada de ofensivo ou desdenhoso; tão pouco, a denominação de “Mulher” em vez de Mãe. É conhecido que, nos escritores antigos, com essa palavra são intituladas também senhoras de alta posição social, como rainhas e imperatrizes: v. Dio Cass. II. 12, 5. Outrossim, é bem de observar que, Jesus não se negou propriamente a fazer o milagre, como se vê, evidentemente, da palavra “ainda não”, bem como do aviso de Maria aos criados e do fato de socorrer Jesus, pouco depois, os necessitados. Mas não admite o Salvador o modo pelo qual a Mãe pediu, apoiando a súplica nas relações naturais que tem com o Filho. Este não pode agir antes que tenha chegado a hora que o Pai marcou. Assim como no templo, v. Luc. 2, 49, também agora declara Jesus que, no Seu ministério messiânico, não pode atender à voz do sangue, e, sim, unicamente à vontade do Pai, à qual também a Mãe tem que se sujeitar.20 La trata como en la cruz, lo que no expresa falta alguma de respeto. La negativa, sin duda, iría suavizada por el tono de la voz con que Jesús la pronunció y por la razón alegada de no ser llegada la hora de obrar milagros.21 O título “Mulher” aparece 1º) aqui; 2º) debaixo da Cruz (19, 26); 3º) no Apocalipse, em luta com o Dragão (12, 1 s.), e lembra a Mulher predita no Protoevangelho (Gên. 3, 15). A resposta segundo outros paralelos bíblicos significa, divergência de interesses e mesmo recusa. Agora na vida pública, Jesus não pode mais obedecer à sua Mãe como em Nazaré (Luc. 2, 51). Também os Evangelhos anteriores relatam respostas semelhantes que significam o tempo de separação entre a Mãe e o Filho. A hora no Evangelho de João é sempre a hora da Paixão ou da glorificação. Quando chegar esta hora, Maria poderá novamente mandar. Apesar da primeira recusa, Jesus ouve a sua Mãe como ouviu a mulher cananeia por causa da sua fé (cfr. Mat. 15, 21-25 e Mac. 7, 24-30). Quanto mais o Filho ouvirá a sua Mãe depois de chegada a hora da glorificação (cfr. 12, 23.31-32), em que com o Filho vencerá o Demônio?22 Notemos, finalmente, que a expressão – Mulher – na língua grega e hebraica, é uma expressão respeitosa e cheia de afeto; equivale em nossa língua à palavra – Senhora – que, muito respeitosamente e em tom solene, dão os súditos às suas soberanas, e ainda mesmo os filhos às suas mães. Nada tem, portanto, de duro e menos afetuoso, como pretendem alguns hereges, pois dessa expressão usou o Salvador no angustioso momento de confiar ao discípulo amado a proteção da que lhe fora Mãe segundo a carne.23 No Oriente era mais solene e honroso chamar a mãe de “mulher”.24 Autoriza-se esta nossa versão: que temos nós com isso? Com os nomes do poeta Nonnus, de Eutymio, de Cajetano, etc.

Mulher, em que valia, e hoje ainda vale, entre os Árabes, por Senhora, de filho respeitoso para a mãe.

O Quid mihi et tibi, é ainda a fórmula de cortesia, entre os Árabes, significando: “que desejas de mim?” Ouach andy fik? (N. Do Trad.)25

“… que nos importa a mim e a ti isso?…”. Semitismo bem frequente no Antigo Testamento (Jz. 11, 12; 2 Sm. 16, 10; 19, 23; 1 Rs. 17, 18; etc.) e no Novo Testamento (Mt. 8, 29; Mc. 1, 24; 5, 7; Lc. 4, 34; 8, 28). É empregado para rejeitar uma intervenção que se julga inoportuna ou, então, para demonstrar a alguém que não se deseja relacionamento algum com ele. Somente o contexto poderá indicar a nuança exata. Aqui, Jesus objeta a sua Mãe que “sua hora ainda não chegou”.26 Isto é, que me pedis? Que desejais? Quereis que Eu faça um milagre? Mas não é ainda chegado o momento de manifestar aos homens todo o meu poder. Todavia, Eu adiantarei esse momento, porque é da vontade de meu Pai, que Eu ceda à vossa intercessão.

Esta explicação se harmoniza, não somente com outras passagens semelhantes da Escritura, mas ainda com o espírito do Evangelho de São João, cujo fim era provar a Divindade de Jesus. Além disso, o procedimento da Santíssima Virgem mandando aos servos que obedecessem a Jesus, não obstante a dureza aparente das Suas palavras, confirma esta explicação que, aliás, só encontra oposição na má-fé e ignorância de certos hereges.27 Esta frase traduz imperfeitamente a locução hebraica, que significa: “Deixa-me fazer”.28

“… a minha hora…”. A “hora” de Jesus, é a hora de Sua glorificação, de Sua volta à direita do Pai. O Evangelho anuncia a Sua proximidade 7, 30; 8, 20; 12, 23.27; 13, 1; 17, 1). Fixada pelo Pai, ela não deveria ser antecipada. O milagre conseguido com a intervenção de Maria será, no entanto, seu anúncio simbólico.29 No original grego faltava toda a sorte de pontuação, de modo que alguns modernos intérpretes julgam que a frase devia ser interrogativa: “Não chegou ainda, porventura, a minha hora?”30 Maria entendeu destas palavras, que seu Filho estava disposto a fazer em tempo oportuno o que Ela lhe pedia, por isso, disse aos servidores da mesa: “Fazei o que Ele vos disser”.31

5. “… Disse sua Mãe aos que serviam…”. O aviso aos criados faz ver que Maria Santíssima compreendeu bem a palavra do Filho. Conquanto, não sabia como Jesus iria providenciar, a Sua fé, porém, não duvida de que o há de fazer.32 A pesar de la negativa, la Madre confia que Jesús hallará modo de remediar la necesidad. Más tarde accederá a los ruegos de la cananea, no obstante decir que no había venido sino a las ovejas de Israel (Mat. 15, 24).33 A Virgem Maria compreendeu muito bem, pela resposta de Jesus, que o seu pedido ia ser satisfeito.34 Tendo Maria, na sua fé maternal, chamado os criados, Jesus não pode resistir (São João Crisóstomo), e assim a Virgem obteve a execução de um milagre, feito antes da hora marcada pelo Pai Eterno.35

6. “… cada uma, duas ou três medidas…”.36 No original grego, trata-se de metretés, medida ática de líquidos, equivalente à medida judaica bath, que corresponde a cerca de 40 litros. En estas finajas tenían depositada el agua necesaria para las frecuentes abluciones prescritas por la costumbre judía (Mac. 7, 3-8)...37 Ainda hoje se mostram na Palestina duas daquelas grandes talhas ou urnas, grosseiramente trabalhadas, sem nenhuma escultura, feitas de calcário compacto do país.38 As purificações dos judeus consistiam na lavagem das mãos antes das refeições, como era de costume entre eles.39

9. “… E o arquitriclino, logo que provou a água…”. Por razón de su oficio, el maestresala (llamémosle así) debía estar enterado de los elementos de que disponía, y al encontrarse con la sorpresa de aquel vino no puede menos de manifestarla.40 O presidente da mesa ou do festim – arquitriclínio – era quem dirigia todo o serviço. Nosso Senhor censurou a vaidade dos judeus que procuravam este lugar.41

10. “… e quando já (os convidados) têm bebido bem…”. A frase parece jocosa na boca do mestre-sala.42 Será isto alusão a algum prolóquio local. De modo contrário faz o Senhor, que dá primeiro o cálice amargoso da sua Paixão e depois,

o cálice delicioso da glória (S. Tomás).43

11. “Por este modo deu Jesus princípio aos (Seus) milagres…”. Todo Profeta devia provar a autenticidade de sua missão por meio de “sinais”, isto é, prodígios realizados em nome de Deus (Is. 7, 11; cfr. Jo. 3, 2; 6, 29-30; 7, 3.31; 9, 16.33); esperava-se especialmente do Messias, que ele renovasse os prodígios de Moisés (1, 21 +). Jesus realizou, pois, “sinais” para incitar os homens a crerem em Sua missão divina (2, 11.23; 4, 48-54; 11, 15.42; 12, 37; cfr. 3, 11 +), porque essas “obras” testemunham que Deus O enviou (5, 36; 10, 25.37), que o Pai está n’Ele (10, 30 +), com o poder de Sua glória (1, 14 +); o Pai é quem realiza essas obras (10, 38; 14, 10). Muitos, no entanto, recusam crer (3, 12; 5, 38-47; 6, 36.64; 7, 5; 8, 45; 10, 25; 12, 37). O pecado deles permanece (9, 41; 15, 24; cfr. Mt. 8, 3 +).44 Con este primer milagro comenzó Jesús a manifestar la gloria de su divinidad, que sus discípulos comenzaron a ver (1, 14).45 Foi este o primeiro milagre que Jesus fez, e assim manifestou o Seu poder divino, e os Seus discípulos creram mais firmemente.46 Isto prova que Jesus não fez milagres na Sua mocidade (S. João Crisóstomo).47




2ª Parte


NA COLMEIA DA MEDITAÇÃO


1ª MEDITAÇÃO48

Natanael era de Caná, pequena cidade situada sobre a margem de um valinho, a duas léguas de Nazaré. Jesus também lá tinha parentes e amigos, entre outros, Simão, filho de Cléofas, que veio a ser mais tarde um dos Apóstolos. Guiados pela Providência, pararam os seis viajantes naquela cidadela.

Ora, nesse dia, celebravam-se bodas numa família amiga, e Maria, Mãe de Jesus, era do número dos convidados. Posto que habitualmente vivia oculta no seu retiro de Nazaré, tinha querido honrar os esposos com a Sua presença. De resto, o Espírito, que A guiava, revelou-lhe que Deus A desejava em Caná para uma obra da Sua glória.

Pela tarde, como soubessem que Jesus voltara da Sua longa excursão pela Judeia, apressaram-se os esposos a convidá-Lo para a festa com os Seus companheiros. E ainda que pelo comum não apareciam os doutores pelos banquetes, abria-se uma exceção para as festas dos esponsais e bodas, por motivo do caráter particularmente religioso que revestiam estas cerimônias. Aceitou pois Jesus o convite dos recém-desposados. Deste modo consagrava com a Sua presença a existência e a santidade do Matrimônio, que se propunha elevar bem depressa à dignidade de Sacramento. Por outra parte, uma disposição providencial reunia, na humilde casa dos esposos de Caná, a Virgem Maria, o seu Filho muito amado e os primeiros discípulos de que havia feito escolha.

A família pouco abastada em que se encontrava o Divino Mestre não tinha preparado para o banquete mais que as provisões necessárias. Ora, como em consequência da chegada imprevista de Jesus com os Seus discípulos, era o número dos convivas mais considerável do que se esperava, notou-se pelo meio da refeição que ia a faltar vinho. Viria isso a ser de grande vergonha para os jovens esposos, muito mais nesta festa solene de bodas, em que nada se poupava para hospedar dignamente os parentes e amigos da família.

Vendo aos serventes atrapalhados e aflitos, compreendeu logo a Mãe de Jesus a causa do seu embaraço. Cheia de compaixão para com os seus hóspedes, sentiu-se movida a auxiliá-los; mas que meio empregar? Inclinou-se Maria para o seu Filho e segredou-lhe ao ouvido: “Não têm vinho”. “Senhora, respondeu Jesus, e que desejais que faça? A minha hora ainda não chegou”.

Maria desejava, (e bem o dizia o seu olhar suplicante) que Jesus usasse do Seu poder soberano para tirar os esposos da cruel posição em que se encontravam; mas não convinha, parecia dizer Jesus, adiar o exercício do poder divino para o tempo em que o milagre seria necessário para provar a Sua missão e creditar a Sua doutrinar?

Embora esta resposta pudesse ser tida por uma recusa, Maria contou com a intervenção do seu Filho. O ato, que o Seu ministério por enquanto não reclamava, executá-lo-ia Jesus por amor d’Ela, e movido pelo Seu pedido. Havia porventura Jesus recusado algum dia o que quer que fosse a sua Mãe? Aproximando-se dos serventes, disse-lhes Maria: “Fazei tudo o que Ele vos disser”.

Havia ali seis grandes ânforas ou vasos de pedra, que serviam para as abluções, tão frequentes entre os Judeus. Estes vasos podiam levar de duas a três medidas.49 Mandou Jesus aos servos que os enchessem de água até em cima. Em seguida, uma vez executada a ordem, Jesus, sem dizer uma palavra, sem fazer um gesto, só com um ato da Sua vontade converteu a água em vinho. “Tirai agora para essas urnas, disse Ele aos serventes, e levai ao presidente do festim para que beba”.

Pertencia ao presidente presidir ao banquete, provar os vinhos e distribuí-los aos convivas. Mal que provou este vinho cuja proveniência desconhecia, encontrou-o excelente, e imaginou que o esposo quisesse fazer uma surpresa aos convidados. Tomou-o à parte e não pôde deixar de lhe dar os parabéns. “É costume geral, disse, esperar o fim da refeição, quando já o paladar dos convivas se vai embotando, para então servir os vinhos de qualidade inferior. Vós fizestes exatamente o contrário: servis em último lugar o vinho mais fino e delicioso”.

Protestou o esposo que nada compreendia deste mistério. Interrogaram-se os serventes, que haviam enchido de água as seis ânforas, e eles contaram o grande milagre, que a rogo de Maria, Jesus acabava de operar.50 Foi o bastante para manifestar a todos os compatriotas do Salvador o poder extraordinário em que Deus O tinha investido, e desde aquele momento os discípulos, que O tinham seguido, fiados na palavra de João, consagraram-se-lhe com fé plena e inteira.

Viu-se também nesta ocasião memorável a íntima união que existia entre a Mãe e o Filho, e como a prece de Maria, prevista nos eternos decretos de Deus, obtinha de Jesus atos que Ele sem essa poderosa intercessão não faria. Assim como lhe esperou pelo consentimento para encarnar no Seu claustro virginal, esperou também o Seu pedido para mudar a água em vinho; e é ainda em atenção à Sua prece que no decorrer dos séculos, por um milagre constantemente renovado, transformará em filhos de Deus aos filhos decaídos do velho Adão.

Nesse dia, compreendeu Satanás perfeitamente que o Solitário da montanha51 se tinha negado a converter as pedras em pão, não por falta de poder, mas para não lhe revelar os Seus títulos divinos. E além disso, vendo Maria exercer sobre o seu Filho um ascendente que A tornava Onipotente, reconheceu n’Ela a criatura misteriosa com que Deus desde o princípio o ameaçara por esta palavra: “Essa mulher um dia há de te esmagar a cabeça”.52 E votou-lhe a Ela e mais ao seu Filho um ódio eterno.

Com este milagre, tocaram o seu termo os dias aprazíveis da solidão. Após trinta anos de vida oculta aos homens, ia Jesus manifestar-se ao mundo. Como a residência em Nazaré não convinha de ora em diante aos Seus trabalhos, disse o último adeus a esse doce remanso, e seguido da sua Mãe, parentes e discípulos, desceu para Cafarnaum, que se tornou desde então a Sua residência habitual e o centro do Seu ministério apostólico.

2ª MEDITAÇÃO53

Por que assistiu Cristo Senhor Nosso aquelas bodas com sua Mãe e Seus discípulos? Para manifestar Sua glória e indicar-nos que a Deus agradam as núpcias dos que O temem, como os esposos a cujo favor fez Jesus o milagre.

Por que disse Maria: “Falta-lhes o vinho”? Porque deles tinha pena. Na aflição, no desamparo, n’Ela acham sempre os servos de Deus, Mãe de misericórdia, protetora terna e diligente. Compartilhemos os apertos dos pobres vergonhosos, acudamos aos necessitados com nossa intercessão, se mais não podemos e a Maria recorramos em todas as nossas precisões, porque é Mãe tão poderosa como benigna.

Como se entende este dizer de Cristo a sua Mãe: “Mulher, que tenho eu e tu com isto? Ainda não chegou a minha hora?” No modo de falar dos Hebreus, essas palavras significam: Sossegue minha Mãe, o vinho darei eu, quando chegar a hora marcada por meu Pai, que ainda não chegou. Declarou assim o Salvador, sem desrespeito algum à sua Mãe, que acima d’Ela recebia as ordens de seu Pai, e ensinou-nos, que devemos em todas as coisas esperar o tempo determinado pela Divina Providência, e, naquilo mesmo que diz à glória de Deus, devemos sujeitar nossas humanas vistas e desejos à Sua divina vontade.

Por que mandou Jesus levar o vinho ao mestre-sala? Para manter a ordem, para que não abusassem do vinho os convivas, para que o provasse o mestre-sala e atestasse o milagre, e assim, todos os presentes acreditassem em Jesus Cristo.

3ª MEDITAÇÃO54

O Começo da “HORA”. Através dos Evangelhos, todas as referências que, à maneira de trovões, se fazem à Cruz, são acompanhadas pelo raio da glória da Ressurreição; todas as sombras movediças do sofrimento redentor que se aproxima, são rasgadas pela luz da liberdade espiritual que virá a seguir. Este contraponto de alegria e dor na vida de Cristo encontra-se de novo no primeiro milagre realizado na cidade de Caná. É muito significativo que Aquele que veio pregar a crucifixão da carne desordenada tivesse começado a sua Vida Pública assistindo a uma festa de Casamento.

No Antigo Testamento, as relações entre Deus e Israel eram comparadas às relações entre o noivo e a noiva. Nosso Senhor quis, pois, sugerir que a mesma relação continuaria a existir entre Ele e o novo Israel espiritual que ia fundar: Ele seria o Esposo e a sua Igreja a esposa. E uma vez que vinha estabelecer esta espécie de união entre Ele e a humanidade remida, convinha que principiasse o Seu ministério público assistindo a um Casamento. São Paulo não tentava introduzir uma ideia nova quando, mais tarde, escrevesse aos Efésios que a união entre o homem e a mulher era um símbolo da união entre Cristo e a Igreja.

Vós, maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e por Ela se entregou a Si mesmo”.55

Uma boda é ocasião de grande alegria, e o vinho é servido como um símbolo dessa alegria. Nas bodas de Caná, que tiveram tanta importância simbólica, a sombra da Cruz não empanou a alegria, porque esta veio primeiro que a Cruz. Mas quando a alegria atingiu o seu termo, então pairou sobre a festa a sombra da Cruz.

Nosso Senhor já tinha sido declarado, no rio Jordão, como o Cordeiro de Deus, e tinha também escolhido cinco discípulos entre os seguidores de João Batista: João Evangelista, André, Pedro, Filipe e Natanael. Todos eles O acompanharam à festa nupcial, a qual já tinha começado e que costumava durar vários dias. Naquele tempo, os pais da noiva viam-se a braços com maiores encargos do que hoje em dia, porque os regozijos podiam prolongar-se por uma semana. Uma das razões prováveis de se acabar o vinho, foi por Nosso Senhor ter trazido vários hóspedes sem serem convidados. Depois da grande comoção, nas margens do Jordão, quando os Céus se abriram para afirmar que Ele era o Filho de Deus, a Sua presença tinha atraído centenas de admiradores, os quais também vieram à festa. Ele apresentou-se no Casamento não como carpinteiro de aldeia, mas como Cristo, ou Messias. Antes de terminar o festim havia de mostrar que tinha marcado ali um aprazamento com a Cruz.

Maria, sua Mãe, estava presente às bodas. Na vida do Senhor é esta a única vez em que Maria é mencionada junto do Filho. Ela devia ser o instrumento do primeiro milagre, ou sinal, de que Ele era o que reclamava ser, o Filho de Deus. Já tinha sido o instrumento da santificação de João Batista no ventre materno; agora, a Sua intercessão foi como o toque de trombeta para uma longa procissão de milagres – intercessão tão poderosa que inspirou as almas de todos os tempos a invocarem o seu Nome, para outros milagres da natureza e da graça.

Estava também presente João Evangelista que já tinha sido escolhido por discípulo; foi ele a testemunha de vista e ouvido do que Maria fez em Caná. Também se encontraria com Ela aos pés da Cruz, e recordou os dois acontecimentos no seu Evangelho. No templo e no Jordão, Nosso Senhor recebeu a bênção e a sanção do Pai para dar começo à Obra de Redenção. Em Caná, recebeu o consentimento de sua Mãe. Um dia, no terrível isolamento do Calvário, viria o negro momento em que se sentiria aparentemente abandonado de seu Pai e citaria o salmo que começa:

Meu Pai, Meu Pai, por que me abandonaste?”56

Viria também outro momento em que aparentemente abandonaria sua Mãe:

Mulher, eis aí o teu filho”.57

É interessante notar que, ao faltar o vinho em Caná, Maria ficou mais preocupada com os hóspedes do que o próprio despenseiro; porque foi Ela e não ele quem notou a falta de vinho. Voltou-se pois para seu Divino Filho, em perfeito espírito de oração. Confiando plenamente n’Ele e segura da Sua compaixão, disse-lhe:

Não têm vinho”.58

Era mais que um pedido pessoal; era o pedido da Medianeira de todos os que buscam a plenitude da alegria. Ela nunca se limita a ser mera espectadora, mas participa plenamente e intervém voluntariamente nas necessidades dos outros. A Mãe usou do poder especial que tinha como Mãe sobre o Filho, poder resultante do amor mútuo. Jesus respondeu-lhe com aparente hesitação:

Mulher, que tenho eu e tu com isso? Ainda não chegou a minha Hora”.59

Literalmente, as palavras da resposta de Jesus são difíceis de traduzir. Trata-se de uma frase idiomática Hebraica, que São João exprimiu literalmente em Greco e que a Vulgata manteve em Quid mihi et tibi, que significa: “Que a mim e a ti?” As palavras “com isso” não se encontram na frase original; foram adicionadas na tradução, para tornarem a ideia mais compreensível. Tradutores como Knox dão uma versão mais livre: “Porque me incomodas com isso?

Para melhor aprendermos o seu significado, consideremos as palavras: “A minha Hora ainda não chegou”. A “Hora” refere-se evidentemente à Cruz. Sempre que no Novo Testamento é empregada, a palavra “Hora”, estabelece-se uma relação com sua Paixão, Morte e Glória. Só em João, existem várias referências a esta palavra. Notemos aqui algumas.

Procuraram, pois, os Judeus prendê-lo, mas ninguém lhe lançou as mãos porque não era ainda chegada a sua Hora”.60

Estas palavras disse Jesus ensinando no templo, no lugar do gazofilácio, e ninguém o prendeu porque não era ainda chegada a sua Hora”.61

E Jesus lhes respondeu, dizendo: É chegada a Hora em que o Filho do Homem será glorificado”.62

Agora está turbada a minha alma. E que direi eu? Pai, livra-me desta Hora. Mas não, porque eu vim para esta Hora”.63

Eis que aí vem a hora e já é chegada, de vos dispersardes cada um para sua casa, e de me deixardes só. Mas eu não estou só, porque o Pai está comigo”.64

Assim falou Jesus, e levantando os olhos ao Céu, disse: Pai, é chegada a Hora. Glorifica a teu Filho, para que teu Filho te glorifique a Ti”.65

A “Hora”, portanto, refere-se à Sua glorificação depois da Crucifixão, Ressurreição e Ascensão. Jesus Cristo em Caná referia-se ao Calvário e afirmava que o tempo determinado para começar a Obra da Redenção ainda não tinha chegado. Sua Mãe pedia um milagre; Ele queria fazer-lhe compreender que o milagre feito como sinal da sua Divindade seria o princípio da Sua morte. No momento em que se apresentasse ante os homens como Filho de Deus, desencadearia sobre Si o ódio do mundo, porque o mal pode tolerar a mediocridade, mas não a suprema bondade. O milagre pedido por Ela estaria inconfundivelmente relacionado com a Redenção. Houve duas ocasiões na vida em que a Sua natureza humana pareceu mostrar repugnância em aceitar o peso do sofrimento. No Horto, pediu ao Pai que, se fosse possível, afastasse d’Ele o cálice de amargura. Mas imediatamente depois aquiesceu à vontade do Pai: “Não se faça a minha vontade, mas a tua”. A mesma aparente relutância se manifestou diante do pedido de sua Mãe. Caná era um ensaio para o Gólgota. Ele não pôs a questão se era ou não prudente começar a Vida Pública e entregar-se à morte neste particular momento; tratava-se antes de forçar a natureza humana relutante a submeter-se à Cruz. Há um paralelo surpreendente entre o convite de seu Pai para a morte pública e o convite de sua Mãe para a vida pública. Num e noutro caso triunfou a obediência; em Caná, a água foi convertida em vinho; no Calvário, o vinho foi convertido em Sangue.

As palavras do Senhor lembravam à sua Mãe, que Ela estava virtualmente pronunciando a sentença de morte contra Ele. Poucas são as mães que mandam seus filhos para os campos de batalha; mas aqui estava uma que, realmente, apressava a hora de morte entre seu Filho e as forças do mal. Se concordasse com o pedido, Jesus começaria ali a Sua hora de morte e glorificação. Iria para a Cruz com uma dupla comissão: uma de seu Pai no Céu, outra de sua Mãe na terra.

Mal consentiu em começar a sua “Hora”, imediatamente lhe fez saber que as relações entre eles estariam dali por diante modificadas. Até então, durante a vida oculta, Ela era conhecida como a Mãe de Jesus. Mas desde que se lançasse na Obra da Redenção, Ela já não seria apenas a Mãe d’Ele, mas também a Mãe de todos os Seus irmãos humanos, por Ele remidos. Para indicar esta nova espécie de relações, dirige-se agora a Ela não como “Mãe”, mas como “Mãe Universal” ou “Mulher”. Como soaria esta palavra aos ouvidos do povo que vivia familiarizado com o Antigo Testamento. Quando Adão pecou, Deus falou a Satã, anunciando-lhe que havia de pôr inimizades entre a sua geração e “a Mulher”, porque o bem teria uma progênie tal como o mal. Existiria no mundo não só a Cidade do Homem, que o Demônio reclamava por sua, mas também a Cidade de Deus. A “Mulher” teve, de fato, geração, e era essa Geração que se encontrava agora na festa de Casamento, a Semente que havia de cair no chão e morrer para depois germinar em nova vida.

No momento em que a “Hora” começava, Ela tornava-se “a Mulher”; havia de ter também outros filhos, não segundo a carne, mas segundo o espírito. Se Cristo havia de ser o Novo Adão, Fundador de uma Humanidade redimida, Ela seria a Nova Eva, a Mãe da Nova Humanidade. Seria Mãe de Nosso Senhor enquanto homem; enquanto Salvador, seria também Mãe de todos os que Ele salvasse. João, que esteve presente às bodas, esteve também presente ao clímax da “Hora” sobre o Calvário. Ouviu Nosso Senhor chamá-la “Mulher” desde a Cruz e depois dizer-lhe: “Eis aí o teu filho”. João foi constituído, por assim dizer, o símbolo da sua nova família. Quando Nosso Senhor ressuscitou o filho da viúva de Naim, disse: “Entregai-o a sua mãe”. Na Cruz, a consolação que deu a sua Mãe foi entregar-lhe outro filho, João, e com ele toda a Humanidade redimida.

Na Ressurreição, tornou a estar na companhia d’Ela para mostrar que, apesar de ganhar novos filhos não O perdia a Ele. Em Caná, confirmou-se a profecia de Simeão a respeito d’Ela; de futuro, tudo o que envolvesse seu Filho, envolvê-la-ia também a Ela; tudo o que lhe acontecesse, aconteceria também a Ela. Se Ele estava destinado a sofrer a Cruz, também o estava Ela; se Ele começava a Vida Pública, também Ela começaria uma nova vida, não já como Mãe de Jesus, mas como Mãe de todos os que Jesus Salvador havia de remir. Chamou-se a Si mesmo “Filho do Homem”, título que abraçava toda a Humanidade; Ela, por sua vez, seria a “Mãe dos Homens”. Assim como esteve a seu lado no começo da “Hora”, estaria também a Seu lado quando a “Hora” atingisse o seu auge. Quando, Menino de doze anos, O tirou do templo, foi porque sabia que a sua “Hora” ainda não tinha chegado; Cristo obedeceu-lhe então e voltou com Ela para Nazaré. Agora respondeu-lhe que a sua “Hora” ainda não tinha chegado; Maria, porém, pediu-lhe que a começasse e Ele obedeceu. Em Caná, Ela ofereceu-O como Salvador dos pecadores; na Cruz Ele ofereceu-A como Refúgio dos pecadores.

Logo que deu a entender que o seu primeiro milagre O conduziria infalivelmente à Cruz e que, consequentemente, Ela começaria a ser a Mãe das Dores, Maria voltou-se imediatamente para o despenseiro e disse:

Fazei tudo o que Ele mandar”.66

Que magníficas palavras de despedida! Não tornará a falar na Escritura. Sete vezes nos tinham já os Evangelistas relatado palavras Suas, mas agora que Cristo se manifestou como o sol no pleno esplendor da sua Divindade. Nossa Senhora obscureceu-se voluntariamente como a lua, tal como João, mais tarde, a descreveu.

Encheram-se as seis talhas de pedra que levavam perto de vinte e dois cântaros e, na bela linguagem de Richard Chashaw, “as águas inconscientes viram o seu Deus e coram”. O primeiro milagre assemelhou-se muito à criação; foi feito pelo poder do “Verbo”. O vinho por Ele criado era tão bom que o despenseiro censurou o noivo com as palavras:

Todo homem põe primeiro o bom vinho, e quando todos tiverem bebido bem, então lhes apresenta o mais inferior. Mas tu guardaste o bom vinho até agora”.67

Realmente o melhor vinho tinha sido guardado. Até àquele momento, no desenrolar da Revelação, o vinho inferior tinham sido os Profetas, os Juízes e Reis, Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Josué – todos eram como água esperando o milagre do Desejado das Nações. O mundo, geralmente, oferece primeiro os seus melhores prazeres; depois vêm as fezes e a amargura. Mas cristo inverteu a ordem e deu-nos a festa depois do jejum, a Ressurreição depois da Crucifixão, a alegria do Domingo de Páscoa depois do luto de Sexta-Feira Santa.

Este primeiro dos Seus sinais fez Jesus em Caná da Galileia, e manifestou a Sua glória, e acreditaram n’Ele os Seus discípulos”.68

A Cruz está em toda a parte. Quando o homem estende os braços para relaxar os músculos, inconscientemente forma a imagem do que foi a causa da vinda do Filho do Homem. Assim também em Caná: a sombra da Cruz atravessou a “Mulher”, e a primeira pancada da “Hora” soou como uma sineta de execução. Em todos os outros incidentes da Vida de Jesus, veio primeiro a Cruz e depois a alegria. Mas em Caná, veio primeiro a alegria das núpcias – núpcias entre o Noivo e a Noiva da Humanidade remida; só depois disso nos vem lembrar que a Cruz é a condição daquele êxtase.

Assim fez numas bodas O que se recusou a fazer no deserto; fez à vista dos homens O que se recusou a fazer diante de Satanás. O Demônio pediu-lhe que fizesse das pedras pão para tornar-se um Messias econômico; sua Mãe pediu-lhe que mudasse a água em vinho para tornar-se Salvador. Satanás tentou-O para O afastar da morte; Maria “tentou-O” para O levar à morte e Ressurreição. Satanás tentou guiá-Lo para longe da Cruz; Maria encaminhou-O na direção dela. Mais tarde tomaria nas mãos o pão de que Satanás disse os homens terem necessidade, e transformaria um e outro no memorial da sua Paixão e Morte. Pediria, então, aos homens para renovarem esse memorial “até a consumação do mundo”. A antífona da Sua vida continua a ser: Todos os outros vêm ao mundo para viver; Ele veio ao mundo para morrer.

4ª MEDITAÇÃO69

O Evangelho não é menos instrutivo. Contém a história do primeiro milagre de Jesus Cristo, realizado nas Bodas de Caná a rogos da Santíssima virgem. Eis aqui como São João o refere:

Havia já começado o Salvador a pregar, depois de ter concluído o seu jejum de quarenta dias no deserto, aonde se retirara depois de João Batista deu d’Ele testemunho brilhante.

Acabava de escolher alguns discípulos: São Pedro, Santo André, São Filipe e Natanael haviam sido já chamados, e se lhe haviam juntado; foi então convidado a umas bodas celebradas em Caná da Galileia. A Santíssima Virgem estava ali também; e, ao que parece, um dos noivos era seu parente. Segundo a opinião de Santo Epifânio estava já viúva, porque no resto de sua história não se diz nada de São José.

Alguns pensam que estas bodas se celebravam em casa de Alfeu ou de Cléofas, que matrimoniava seu filho Simão, o Cananeu. Outros, pretendem que era São Bartolomeu, chamado Natanael; mas o Venerável São Beda, São Tomás e muitos outros creem que era São João Evangelista, a quem o Salvador chamou do estado de Matrimônio ao apostolado, permanecendo sempre virgem, por ter deixado sua esposa no próprio dia das bodas. Seja o que for, o que é certo é que o Salvador quis fazer ver nesta ocasião, que pode ser encontrado não só no retiro, mas também nas reuniões, quando os deveres ou a beneficência o exigem, e tudo o que há nelas é cristão. Pergunta-se por que é que o Salvador concorreu a estas bodas com sua Mãe e Seus discípulos? Parece que a vida austera e retirada que sempre tinha tido, mal se casavam com a alegria e divertimento, que acompanham ordinariamente esta espécie de festas. A maior parte dos Padres asseveram que foi para autorizar com Sua presença os Casamentos. Como por Seu exemplo e por Seus discursos devia aconselhar a todos os Seus discípulos o celibato e exortar a todos a guardar castidade, da qual fazia em todas as ocasiões tão magníficos elogios, queria também mostrar que não desaprova o Matrimônio, que devia elevar à altura de Sacramento. É bastante crível que, achando-se ali bastante parentes Seus, e os discípulos que até então havia escolhido, quis fazer em Sua presença Seu primeiro milagre, a fim de afirmar a crença dos que já o reconheciam por Messias, e dar-se a conhecer aos que ainda não criam n’Ele.

Pelos fins do banquete notou a Santíssima Virgem que faltava o vinho, e compreendeu logo o apuro em que deviam estar os donos da casa, e a sensação que esta falta iria causar em todos os convidados. Como fora o impulso da caridade o que A moveu a vir ali, pensou em poupar-lhes esta confusão e prover a necessidade sem ruído e de um modo eficaz. O meio que se lhe afigurou logo, foi o de se dirigir a Jesus que está perto d’Ela. Sabia muito bem que não tinha menos bondade que poder, e que bastava para O mover a fazer um milagre, mostrar-lhe somente a necessidade e a turbação, em que se encontravam. Voltando-se pois para Ele, contentou-se com dizer-lhe: “falta-lhes o vinho”. O Salvador que, respondendo a sua Mãe, queria instruir-nos, dar-nos a entender que só obrava por motivos sobrenaturais, e de modo algum com vistas ou respeitos humanos, disse-lhe gravemente que bem conhecia a necessidade que tinham, e que não devia apoquentar-se por ela, porque faria a seu tempo o que preciso fosse; mas o tempo de manifestar meu poder e minha glória não chegou ainda. Santo Agostinho, São João Crisóstomo e muitos outros Padres dizem, que o Salvador esperava que o vinho faltasse de todo, a fim de que não julgassem que tinha simplesmente aumentado aquele licor, ou que tinha misturado a água com o vinho; queria que o Seu primeiro milagre fosse irrecusável, e que todos os circunstantes fossem dele testemunhas. Jesus Cristo quis também dar a conhecer por esta resposta, que se até então não havia feito brilhar Seu poder por meio de prodígios, não era porque lhe faltasse o poder, mas por não haver ainda chegado o tempo marcado por Sua sabedoria. Também parece querer inculcar quão eficaz era a intercessão de sua Mãe, e o poder que tinha sobre Ele, pois tendo dito que Sua hora de fazer milagres ainda não chegara, nem por isso deixou de fazer um dos mais brilhantes, tão prontamente quanto Ela lhe manifestou que o desejava.

Isto compreendeu perfeitamente a Santíssima Virgem, porque, sem insistir, nem explicar-se mais com Ele, chamou os que serviam, e disse-lhes que fizessem tudo quanto Jesus lhes ordenasse. Muitos haviam já advertido que o vinho faltava, o mesmo esposo o notara também, quando Jesus mandou aos que serviam que enchessem de água seis jarras de pedra, isto é, seis vasilhas de certa espécie de alabastro ou de serpentina, destinadas às purificações dos judeus, os quais antes da refeição costumavam lavar os pés, e as mãos desde o cotovelo até a extremidade dos dedos. Cada uma destas jarras continha duas ou três medidas de água, isto é, cinquenta ou sessenta quartilhos. Logo que as vasilhas estiveram cheias, mudou de repente de cor e de natureza, e converteu-se em um vinho excelente por virtude d’Aquele que, por um só ato de Sua vontade, fez e criou todas as coisas do nada. Então disse Jesus aos que serviam: Tomai-o agora e ide levá-lo ao diretor do festim, para que o prove. O que presidia ao banquete era ordinariamente, se dermos crédito às tradições judaicas, um dos seus sacerdotes, a quem incumbia regular tudo, e impedir que se fizesse coisa alguma contrária à honestidade e à decência. A este sacerdote foi, portanto, segundo a ordem do Salvador, apresentado o vinho novo. Provou-o; e como andava distraído em muitas outras coisas, não sabia mais nada do que se passava, ficou surpreendido da qualidade do vinho. Chamou logo ao esposo, que segundo o costume, ao ir para a mesa, dava ordem de que tudo fosse servido a tempo, e que nada faltasse. “Com que então nos enganais? Lhe disse sorrindo-se; é uso nos jantares servir-se o melhor vinho logo ao princípio, e o pior quando se vê que já tem bebido bastante; mas vós fizestes o contrário, guardaste o bom para o fim”. Não passou esta observação desapercebida, e cada qual reconheceu no gosto que um vinho imediatamente preparado pelo Criador é melhor incomparavelmente, do que aquele que a natureza produz. Neste prodígio, que foi o primeiro de Seus milagres públicos, começou o Salvador a fazer brilhar o Seu poder; pois, no sentir de Maldonado, não pode supor-se que o Salvador não houvesse já feito outros inumeráveis, só conhecidos da Santíssima Virgem e de São José; mas como não havia chegado o tempo determinado para se dar a conhecer, permanecia oculta a Sua Onipotência; foi portanto, este o primeiro, pelo qual o Salvador manifestou a Sua glória, e não contribui pouco para firmar os discípulos na fé.

Os discípulos de Jesus Cristo haviam acreditado n’Ele desde que tinham tido a dita de O ver e de O ouvir; uma prova da sua crença é que O tinham seguido, e se haviam agregado a Ele, fazendo-se discípulos Seus; mas este milagre, de que foram testemunhas, corroborou-os em sua fé.

Se esta maravilha manifestou a glória e o poder do Salvador sobre todas as criaturas; se deu a conhecer àquela numerosa companhia o que Ele era, não deve servir menos para dar a conhecer a todo os fiéis o poder que tem a Santíssima Virgem junto de Seu querido Filho, e a deferência que este divino Filho tem por sua prezada Mãe. Alguns dizem que o Salvador não quis fazer o Seu primeiro milagres senão a rogos de sua Mãe e até mesmo que adiantou o tempo de manifestar o Seu poder logo que a Virgem lhe mostrou desejos de que realizasse esta maravilha. Motivo grande de confiança na Mãe de Deus, dizem os Santos Padres, é o saber quão ditosos são aqueles, por quem Maria se interessa. Sabemos, diz Santo Anselmo, que a Bem-aventurada Virgem tem tanto valimento junto de Deus, que não pode deixar de surtir todo o efeito, de tudo o que Ela quer.

5ª MEDITAÇÃO70

1.Celebraram-se umas bodas em Caná da Galileia”.71 Antes do advento de Jesus, a mais insigne mercê com que Deus favorecia aos homens era a de recebê-los entre Seus servidores. Mas, depois, de Seu Nascimento, conferiu-lhes o título de filhos de deus; e, para esse fim, fê-los de tal modo participantes de Suas prerrogativas que não somente assim o designa, mas os considera realmente e lhes concede todos os direitos de herdeiros do Céu. E não se limitou a isso o adorável Salvador: no excesso do Seu amor, quis escolher almas consagradas para elevar à categoria de esposas e com elas contrair uma aliança verdadeiramente nupcial. Este mistério é o mistério augusto que antecipadamente celebram o Salmista e os Profetas; são estas as núpcias celestes que nos representa a Igreja sob as formas sensíveis das Bodas de Caná e que nos explica pela boca de seus Doutores e pelas cerimônias solenes da Profissão Religiosa. Espetáculo verdadeiramente maravilhoso perante os Anjos e os homens, ao contemplarem o mistério em que a alma consagrada a Deus ouve inebriada o convite: “Vem, esposa de Cristo, e recebe a coroa que te preparei desde toda a eternidade!”

Este mistério inefável, permite-nos avaliar, o quanto nos ama o Coração de Jesus.

2. Nas alianças da terra, a morte de um dos cônjuges dissolve o Matrimônio; acaba-se o compromisso e a aliança. O mesmo não se dá com as núpcias celestes; seus laços são imortais, nem a morte os pode romper; pelo contrário, aperta-os ainda mais e consolida-os eternamente. São Bernardo, em duas palavras, resume as condições deste contrato: amar e ser amado. Amar – não somente enquanto fruírem as consolações, as prosperidades e as delícias, mas em meio às provações, às tentações, às trevas e à aridez. A coroa real só será solenemente conferida às esposas do Rei dos reis, que perseverarem até ao fim com amor generoso e fiel.

3.Presença da Mãe de Jesus às bodas de Caná”. É com uma intenção cheia de profundeza e de sabedoria que o Evangelista menciona a presença de Maria nas Bodas de Caná, porque Maria é o modelo das esposas de Deus. Ela é sua Mãe, protetora e soberana. Pelo exemplo de Suas virtudes, excita a alma religiosa a amar, servir e glorificar o Senhor. É ela o instrumento de que se serve Deus para a santificação das virgens candidatas às sagradas núpcias; de tal modo que estas podem aplicar a Maria as palavras de Salomão, a respeito da Sabedoria: “Todos os bens me vieram por seu intermédio e de suas mãos recebi riquezas infinitas”. Estas riquezas que, das mãos de Maria, se transmitem a suas dignas herdeiras, são aquelas de que fala Jesus, quando diz em seu Evangelho: “Todo aquele que por mim abandonar seus irmãos ou suas irmãs, seu pai ou sua mãe, sua mulher ou seus filhos ou seus bens terrestres, receberá o cêntuplo neste mundo e a vida eterna no século futuro”.

4. Ensina um Padre da Igreja, que o matrimônio celeste opera uma transformação que muda a vida natural em outra inteiramente sobrenatural e sobre-humana; de maneira tal, prossegue o Santo Doutor, que já antegoza as alegrias dos Bem-aventurados e preludia na terra a vida do Céu, aquele que, tendo feito sua profissão religiosa, vive de acordo com sua Regra. Realmente, as esposas de Jesus Cristo, vivendo, como os Anjos, de amor e de obediência, já desde esta vida tomam posse do reino de Deus, na paz e na alegria do Espírito Santo.

Demos graças à divina Bondade, pela mercê que nos concedeu de habitarmos na morada santa, onde está sempre presente a Virgem de Sião e mostremo-nos agradecidos por termos por Mãe, Àquela que é Mãe de nossa vida, de nossa esperança e de nosso amor.

5.E faltando o vinho, a Mãe de Jesus disse-lhe: Eles não têm vinho”.72 O vinho generoso, que é servido comumente no princípio dos festins, é figura do fervor mais ardente e sensível, que anima as almas no início do serviço de Deus. São então fervorosas e cheias de zelo; atiram-se com ânimo aos mais árduos deveres e sentem gosto em todas as práticas religiosas indistintamente. Mas, no percurso da vida espiritual, há horas de ansiedade e de provações; o vinho novo do amor se concentra e acontece que, à mesma mesa onde a alma amorosa se inebriava de delícias, experimenta, agora, apenas, uma bebida insípida. É Deus que, por Sua misteriosa operação, extingue, pouco a pouco, todo o prazer sensível, a fim de atrair a alma no mais profundo de si mesma. E enquanto a desprende das consolações exteriores, dispõe-na, purificando-a, a provar um vinho mais fino e saboroso. Em vista disso, não nos perturbemos ao passar por essas mortificadoras privações; mas permaneçamos tranquilamente sentados no festim das núpcias: Maria aí está; d’Ela nos há de vir o auxílio.

6. Consideremos as atenções e amabilidades da Virgem Santíssima. Notara a falta de vinho antes que lhe houvessem avisado. Não espera que recorram à Sua intercessão; Ela possui todas as delicadezas e solicitudes de uma mãe verdadeiramente vigilante e carinhosa. Mal percebeu a necessidade, imediatamente a expôs a seu Filho. Mas em Seu pedido não mostra nem afoiteza, nem inquietação. Poucas palavras pronuncia, confiante na bondade d’Aquele que consola e atende. É assim que, do alto do Céu, Maria continua a se interessar pelas necessidades da nossa alma. Conhece nossas fraquezas; previne nossos desejos, ouve nossos lamentos; identifica com o Seu o nosso coração. Seria possível perder-se o ânimo e a esperança, sabendo que Maria tem Seus olhares constantemente volvidos para as misérias humanas, a fim de aliviá-las?

7. “Mulher, que nos importa a mim e a ti isso? Ainda não chegou a minha hora”.73 A resposta ininterpretável dada por Nosso Senhor à sua Mãe, nas bodas de Caná, relembra uma frase análoga pronunciada no templo, quando adolescente, aos doze anos. Esta palavra promulga de um modo absoluto a necessidade do desapego dos laços terrestres, quando se trata das obras de Deus. Ela exclui as teimosias da natureza sobre o domínio da graça e demarca a barreira onde devem estancar as solicitudes humanas. Este total desapego exigido pelas palavras de Jesus Cristo, cortantes como o gládio do sacrifício, é imposto a todos que são chamados à vida apostólica. Jesus, entretanto, após nos ministrar essa importantíssima lição, providenciou para que ninguém pudesse aplicá-la a Maria e, para isso, satisfez imediatamente seu desejo, respondendo à sua intercessão por um assombroso milagre. Como Maria, oremos, confiando tranquilamente, e saibamos aguardar os momentos de Deus, sem impaciência e sem desânimo.

8. Este primeiro milagre operado por Jesus, ao dar entrada em Sua vida pública, relaciona-se misteriosamente com aquele que iria realizar na véspera de Sua partida deste mundo. Então, por outra mudança milagrosa, transformará o pão em Sua própria Carne e o vinho em Seu próprio Sangue; e até ao final dos séculos continuará a operar este prodígio de amor sobre os sagrados altares. É provável que Maria conhecesse esse Seu intento; quis então apressar sua realização, para nos dar um antegozo do pão dos eleitos e do vinho que gera as virgens. Mas não soara ainda a hora das derradeiras efusões; esta chegaria somente depois de uma longa serie de outros milagres de ternura e de divinas misericórdias.

Mais felizes do que os convivas de Caná, possuímos uma bebida e um alimento que não acabará nunca. Por nosso lado, não consintamos que cessem algum dia as expansões da nossa gratidão.

9. “A Mãe de Jesus disse aos que serviam: Fazei tudo o que ele vos disser”.74 Fixemos em nossa memória e em nossa consciência o conselho que dá a Virgem Maria a todos os que servem ao Senhor. Ouvir atentamente a voz do Bem-Amado, a fim de observar o que Ele ordenar: esta é, de todas as práticas religiosas, a mais sólida, a mais essencial, a mais eficaz. Resume todas as regras da vida espiritual e indica o meio seguro de chegar à perfeição. Em todas as circunstâncias, pois, sigamos o conselho de Maria. Ouçamos Jesus, quer seja Ele mesmo a nos falar no íntimo de nossa alma, quer seja Sua divina vontade manifestada pela boca de nossos Superiores. Ouçamo-Lo, sem discutir, nem murmurar, nem diferir atos de obediência. Façamos o que nos manda, ainda mesmo que se trata de coisas humilhantes, ou que ele surpreendesse a nossa fé, como fez nas bodas de Caná, prescrevendo-nos o que nos parecesse incompreensível. O importante é obedecer! A explicação deve seguir a obediência e não precedê-la. É pelos seus efeitos e frutos que se justifica a palavra divina. “Se guardardes a minha palavra, diz o Senhor, ser-vos-á concedido tudo quanto pedirdes”.75

10. A melhor prática da perfeição cristã consiste em conformar nossos atos e nossos sentimentos com a Palavra de Deus. É, por conseguinte, esta regra que nos dá a medida do nosso progresso na trilha dos Santos. Quanto mais nos despojarmos de nossa vontade própria para obedecermos à Divina, mais nos adiantaremos na virtude e nos fixaremos na paz. Um coração dócil à palavra de Jesus Cristo julga-se sempre feliz, está sempre tranquilo, porque sua vida se desenvolve em harmonia com o Espírito de Deus. É esta harmonia que distingue a Santíssima Virgem e todos os Santos. Deve igualmente reinar em nós. Declaremos com Davi: “Meu coração está está preparado, ó meu Deus, para vos seguir e fazer tudo quanto me disserdes”.76

11. “Eis que vem o Esposo, saí ao seu encontro”.77 O milagre das Bodas de Caná merece uma menção relevante no Evangelho, por nos revelar, sob a figura do Esposo e da Esposa, os Mistérios da aliança que o Filho de Deus contraiu com a natureza humana. A água transmudada em vinho significa, a transformação que se opera na alma quando se une a Jesus Cristo. Então, inteiramente absorvida pelo Deus de amor, não é senão amor, assim como o carvão, transformado em brasa pelo fogo. É claro que nada altera de sua substância, nem de sua natureza; mas tão profundamente se impregna das qualidades divinas que se torna, por assim dizer, uma só coisa com Deus. E pode afirmar com São Paulo: “Vivo, mas não sou eu quem vive; é Cristo que vive em mim”.78

12. Tal qual o fogo, o amor produz chamas que para o Céu se elevam como asas candentes. Assim, quando Jesus penetra numa alma e a enche de Sua vida divina, fá-la desdobrar-se em atos e em obras de santidade; permiti-lhe sentir as primícias de uma Bem-aventurança que multiplica constantemente os desejos do Céu. A Bem-aventurança é inseparável do amor, porque o amor infinito de Deus, possuindo a alma cristã, traz necessariamente consigo o gozo de Deus. Foi isto que o Salvador declarou a Seus discípulos: “Disse-Vos estas coisas, para que minha alegria permaneça em vós e para que vossa alegria seja perfeita”. Mas esta alegria divina que o vinho milagroso representa, nem sempre pode ser saboreada, senão após uma longa vida de fé e de paciência. É somente ao fim do banquete das núpcias que a alma, inebriada de verdadeiras delícias, sente em seu íntimo, que é realmente amada, que Deus está todo nela e que ela está toda em Deus.

13. Maria nas Bodas de Caná. Contemplemos a modesta simplicidade, a calma, a suave igualdade da Mãe de Jesus no festim de Caná, onde inteiramente se esquece de Si para se ocupar com os outros unicamente. Não se impressiona, seja que o vinho falte ou reapareça em abundância; mas é a primeira a se compadecer dos apuros dos convivas. Recebe com a mesma serenidade as palavras severas do Senhor e a graça milagrosa obtida por Sua intercessão. Fala pouco e bem, quer ao se dirigir ao Filho, quer ao dar aos servos Seus prudentes conselhos. Semelhante às regiões superiores do firmamento, permanece sempre calma e tranquila; nem precisa isolar-se para conservar as mesmas disposições de espírito e de coração, em qualquer tempo e lugar.

Para nos amoldarmos a este perfeito modelo, precisaríamos conservar em nossa vida ativa as intenções, o espírito de bondade, as disposições felizes que habitualmente nos animam por ocasião da meditação e da oração.

14. O papel de Maria nas Bodas de Caná nos mostra que não quis se furtar a nenhuma das obrigações impostas pela caridade, para conservar a calma de Sua vida interior. Permanece unida ao Senhor em meio aos convivas que A rodeiam; e sem se deixar dominar por influência alguma, faz sempre prevalecer a influência do Espírito de Deus, que anima todos os Seus atos e palavras, consagrando assim, por Seu exemplo, a regra da conduta cristã.

Se nos conservássemos unidos ao Espírito de Jesus, mais abençoadamente e com maior êxito haveríamos de cumprir os nossos deveres diários, por vezes tão penosos! O Senhor nos afiança no Evangelho: “Aquele que em mim permanecer, produzirá frutos abundantes”.79



_____________________________

1.  Bíblia Sagrada, traduzida da Vulgata e anotada pelo Pe. Matos Soares; Evangelho de São João, Cap. 2, 1-11, pp. 1285. 13ª Edição; Edições Paulinas, São Paulo/SP. 1961.

2.  Jo. 2, 1-11.

3.  “Novo Testamento”, por Mons. Dr. José Basílio Pereira, Evangelho de São João, Cap. 2, 1; p. 284. Editores – Os Religiosos Franciscanos; Tipografia de São Francisco, Bahia. 1912.

4.  Bíblia de Jerusalém, Nova edição, revista; Ev. João, Cap. 2, 1, p. 1988; Nota de Rodapé. Edição Paulinas, São Paulo/SP. 1980.

5.  Nuevo Testamento, versión directa del texto griego, por Eloíno Nácar Fuster y Alberto Colunga Cueto, O.P., Evangelio de San Juan 2, 1, p. 296. BAC – Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid. 1960.

6.  Cônego Duarte Leopoldo, Concordância dos Santos Evangelhos ou Os Quatro Evangelhos Reunidos em um Só, 2ª Parte, Cap. VIII, p. 41. 4ª Edição; Secretariado Geral da Obra das Vocações – Cúria Metropolitana; Linográfica, São Paulo/SP. 1951.

7.  Bíblia de Jerusalém, ob.cit., p. 1988; Nota de Rodapé.

8.  Mons. Dr. José Basílio Pereira, ob. cit., Cap. 2, 2.

9.  Pe. J. Lourenço, O.P., O Santo Evangelho de Jesus Cristo, 1ª Parte, Cap. 19 – S. João II, 2, p. 45-46. 3ª Edição; Edição da “União Gráfica”, Lisboa. 1939.

10.  Tiago Ecker, Bíblia das Escolas Católicas, 2ª Parte, Novo Testamento, A Vida Pública de Jesus, Cap. 15, p. 156. Editora Vozes Ltda. Petrópolis/RJ. 1958.

11.  Cônego Duarte Leopoldo, ob. cit., 2ª Parte, Cap. VIII, p. 41.

12.  Os Santos Evangelhos de Nosso Senhor Jesus Cristo, tradução portuguesa segundo a Vulgata latina, por um Padre da Missão, com Notas da edição francesa dos RR. PP. Agostinhos da Assunção, Evangelho de São João, Cap. II, 2, p. 6. Colégio da Imaculada Conceição - Botafogo, Rio de Janeiro, 1904.

13.  D. Antônio de Macedo Costa, Bispo do Pará, Resumo da História Bíblica ou Narrativas do Velho e Novo Testamento, História do Novo Testamento, 1ª Parte, Cap. 15, p. 155. Livraria Chardron de Lélo & Irmão Ltda, Autores. Porto. 1875.

14.  Mons. Dr. José Basílio Pereira, ob. cit., Cap. 2, 3.

15.  Eloíno Nácar Fuster y Alberto Colunga Cueto, O.P., ob. cit., Cap. 2, 3.

16.  Cônego Duarte Leopoldo, ob. cit., 2ª Parte, Cap. VIII, pp. 41-42.

17.  Pe. J. Lourenço, O.P., ob. cit., S. João II, 3, p. 46.

18.  Pe. Matos Soares, ob. cit. Nota de Rodapé.

19.  Bíblia de Jerusalém, ob.cit., p. 1989; Nota de Rodapé.

20.  Mons. Dr. José Basílio Pereira, ob. cit., Cap. 2, 4.

21.  Eloíno Nácar Fuster y Alberto Colunga Cueto, O.P., ob. cit., Cap. 2, 4.

22.  Pe. Dr. Frei Mateus Hoepers, O.F.M., Novo Testamento, tradução do texto grego, Evangelho de São João 2, 4, pp. 249-250. Editora Vozes Ltda, Petrópolis/RJ. 1956.

23.  Cônego Duarte Leopoldo, ob. cit., 2ª Parte, Cap. VIII, p. 43.

24.  Synopse Evangélica ou Texto Harmonizado dos Quatro Evangelhos, por um Padre da Congregação da Missão, 26º Capítulo, p. 50. Estabelecimentos Brepols, A.G. Editores Pontifícios, Turnhout/Bélgica. 1913.

25.  Os Santos Evangelhos de Nosso Senhor Jesus Cristo, ob. cit., S. Jo. II, 4, p. 6.

26.  Bíblia de Jerusalém, ob.cit., p. 1988; Nota de Rodapé.

27.  Cônego Duarte Leopoldo, ob. cit., 2ª Parte, Cap. VIII, p. 43.

28.  Synopse Evangélica…, ob. cit., p. 50.

29.  Bíblia de Jerusalém, ob.cit., p. 1989; Nota de Rodapé.

30.  Synopse Evangélica…, ob. cit., p. 50.

31.  D. Antônio de Macedo Costa, ob. cit., 1ª Parte, Cap. 15, p. 154.

32.  Mons. Dr. José Basílio Pereira, ob. cit., Cap. 2, 5.

33.  Eloíno Nácar Fuster y Alberto Colunga Cueto, O.P., ob. cit., Cap. 2, 5.

34.  Pe. J. Lourenço, O.P., ob. cit., S. João II, 5, p. 46.

35.  Mons. Vicente Zioni, Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, com comentários do Pe. Eusébio Tintori, O.F.M., Evangelho de São João II, 5, p. 258. Edições Paulinas, São Paulo/SP. 1949.

36.  Mons. Dr. José Basílio Pereira, ob. cit., Cap. 2, 6.

37.  Eloíno Nácar Fuster y Alberto Colunga Cueto, O.P., ob. cit., Cap. 2, 6.

38.  Cônego Duarte Leopoldo, ob. cit., 2ª Parte, Cap. VIII, p. 43.

39.  Pe. J. Lourenço, O.P., ob. cit., S. João II, 6, p. 46.

40.  Eloíno Nácar Fuster y Alberto Colunga Cueto, O.P., ob. cit., Cap. 2, 9.

41.  Cônego Duarte Leopoldo, ob. cit., 2ª Parte, Cap. VIII, p. 43.

42.  Mons. Dr. José Basílio Pereira, ob. cit., Cap. 2, 10.

43.  Os Santos Evangelhos de Nosso Senhor Jesus Cristo, ob. cit., S. Jo. II, 10, p. 8.

44.  Bíblia de Jerusalém, ob.cit., p. 1989; Nota de Rodapé.

45.  Eloíno Nácar Fuster y Alberto Colunga Cueto, O.P., ob. cit., Cap. 2, 11.

46.  Pe. J. Lourenço, O.P., ob. cit., S. João II, 11, p. 47.

47.  Mons. Vicente Zioni, ob. cit., S. Jo. II, 11, p. 258.

48.  Rev. Pe. Berthe, C.Ss.R., Jesus Cristo – Sua Vida, Sua Paixão, Seu Triunfo”, Livro 2º, Cap. VI, pp. 84-87. Tradução do Francês. Estabelecimentos Benzinger & Co. S.A., Einsiedeln/Suíça. 1925.

49.  A medida, metreta, tinha cerca de 25 (à 40) litros.

50.  Os peregrinos que vão a Nazaré não deixam de visitar Caná. É hoje uma aldeia de 800 habitantes, muçulmanos e gregos cismáticos. Ainda lá se veem as ruínas da magnífica igreja que Santa Helena mandou construir sobre o lugar mesmo da casa onde se dera o milagre. A fonte donde foi tirada a água, a única da terra, brota no fundo da aldeia, no meio de palmeiras e romãzeiras.

51.  Mat. 4, 1-11.

52.  Gên. 3, 15.

53.  GOFFINÉ – Manual do Cristão, pelo Pe. Leonardo Goffíné, da Ordem Premonstratense, e traduzida para o português pelos Padres da Ordem das Missões. Cap. Domingos e Festas – 2ª Dominga depois da Epifania, pp. 296-298. Tradução da 14ª Edição Francesa. Colégio da Imaculada Conceição (Botafogo/RJ). 1940.

54.  Vida de Cristo, por Fulton J. Sheen, Cap. 5, pp. 97-105. Editora Educação Nacional de Adolfo Machado. Porto. 1959.

55.  Ef. 5, 25.

56.  Salm. 21, 1.

57.  Jo. 19, 26.

58.  Jo. 2, 3.

59.  Jo. 2, 4.

60.  Jo. 7, 30.

61.  Jo. 8, 20.

62.  Jo. 12, 23.

63.  Jo. 12, 27.

64.  Jo. 16, 32.

65.  Jo. 17, 1.

66.  Jo. 2, 5.

67.  Jo. 2, 16.

68.  Jo. 2, 11.

69.  Rev. Pe. Croiset, “Ano Cristão”, Vol. XIII, pp. 56-60, Segundo Domingo depois da Epifania. Tradução do Francês pelo Pe. Matos Soares. Porto. 1923.

70.  Pe. Teodoro Ratisbonne, “Migalhas Evangélicas”, 2ª Dominga depois da Epifania até Sábado da 2ª Semana depois da Epifania, pp. 74-82. Editora Vozes Ltda, Petrópolis/RJ.

71.  Jo. 2, 1.

72.  Jo. 2, 3.

73.  Jo. 2, 4.

74.  Jo. 2, 5.

75.  Jo. 15, 7.

76.  Salm. 107. 2.

77.  Mat. 25, 6.

78.  Gál. 2, 20.

79.  Jo. 15, 4-7.


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