Blog Católico, para os Católicos

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

domingo, 31 de janeiro de 2021

A Presença Real de Jesus na Sagrada Eucaristia, e a História.

 


Como Tradição, é impossível achar um testemunho mais antigo e mais autorizado que o de São Paulo.


Eis como se exprime, categoricamente, o grande Apóstolo em sua Primeira Carta aos cristãos de Corinto: “O Senhor me revelou que Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão, dando graças, abençoou-o e disse: Tomai e comei, esse é o meu Corpo…”.1


Isso foi escrito menos de vinte anos após a morte de Cristo.


Ainda que se abstraia a infalibilidade da testemunha, e se considere somente o seu valor histórico: “reconhece-se facilmente, nota um eminente crítico, que seu alcance é magnífico, quer se considere a data do depoimento, a qualidade do testemunho ou a tradição a que se refere. Aqui temos a mais antiga e autêntica interpretação da Igreja sobre a Eucaristia, e se observarmos a importância da celebração frequente desse Mistério no culto cristão, é preciso confessar que uma tradição assim confirmada impõe-se não só à asseveração do teólogo como ao respeito de todo historiador”.2 Também, quem poderia ter “inventado” a Eucaristia, senão Jesus Cristo? Quem “inventaria” essa Presença Real? É preciso não esquecer que a primeira geração de cristãos mostra uma extrema timidez às inovações, tem grande dificuldade em despojar-se do Judaísmo e não admite os novos ritos cristãos senão após conhecimento de causa.


Finalmente, não podemos assinalar, nos primeiros tempos da Igreja, grandes pensadores, homens de tal influência que ousassem, por sua única autoridade, impor uma crença tão extraordinária como a da Presença Real, se supormos que essa não fora ensinada pelo próprio Salvador.


Admitindo, até, que esse inventor anônimo haja existido, estaremos em face de um milagre histórico ainda mais estranho, em seu gênero, que a própria Presença Real.


Em outras palavras, é muito mais inconcebível supor a aceitação, pelos cristãos, desse milagre, sem atribuí-lo a Jesus Cristo, que admitir a sua criação, partindo essa do Filho de Deus.


Nos séculos que se seguiram às eras apostólicas, as provas da crença geral da Igreja na Presença Eucarística se multiplicam.


A seus cristãos que suspiravam: “Quereríamos ter vivido no tempo do Salvador, contemplar seus traços, tocar suas vestes!”, que respondiam os pregadores: “Mas tendes mais que isso. Se não podeis ver a silhueta humana do Cristo, podeis tocá-lO, conhecê-lO, recebê-lO em vós mesmos. E o Cristo que nos alimenta, é o mesmo que, no Céu, os Anjos adoram”.


Além disso, vemos os escritores sacros e os doutores atribuírem tais efeitos à Eucaristia que a Comunhão, para eles, implicava na aceitação da Presença Real.


Em seu trabalho, “A Perpetuidade da Fé”,3 o grande Arnauld observa: “As expressões: entrar em nossos corpos, introduzir-se em nós; ser recebido em nossas entranhas; estar em nós; confundir-se conosco; estar, corporalmente, unido a nós; estar, em nós, como um medicamento ingerido; como o chumbo que purifica o metal com o qual o fundem; como o fogo que ferve a água; como um pedaço de cera amoldado a outro; como uma centelha que se comunica à palha; como o lêvedo misturado à massa, – essas expressões, digo, nunca foram empregadas para indicar uma união figurada ou uma comparticipação virtual, e são mais que suficientes para provar a Presença Real”.


Arnauld completa: Os Padres creram sempre, de um modo tão convincente, na Presença Real que apenas os espíritos extraordinariamente preocupados e cujas paixões tornaram-nos incapazes de ouvir o apelo da razão, podem resistir a essa crença”.


Nenhum testemunho menciona a Presença figurada, ou, como dizia Arnauld, a “ausência real”.




Os Santos Padres não encetaram discussões filosóficas acerca do conceito da conversão do pão no Corpo de Cristo, como mais tarde o fez a Escolástica, mas, incansavelmente, afirmaram o “fato”: o pão, ainda que o pareça, não é mais pão, é o Corpo Real do Cristo que devemos crer realmente presente, realmente dado pelo Padre e realmente recebido pelo comungante.


Alguns observam, mesmo, que é preciso não confiar nas aparências: o que importa não é a “aparência do fato”, mas o “fato em si”.


A exterioridade pode mudar e sugerir uma impressão diferente da que verdadeiramente devemos ter; porém, o “fato” é realmente o Corpo invisível de Jesus Cristo.


O segundo século legou-nos o testemunho claríssimo do apologista Mártir, São Justino: “Assim como, pela palavra de Deus, Jesus Cristo se fez carne, para a nossa salvação, esse alimento eucarístico torna-se, pela palavra do Cristo, sua Carne e seu Sangue, que nutrem nossa carne e nosso sangue”.4


O Bispo de Lião, Santo Irineu, que, por seu mestre São Policarpo, recebeu os ensinamentos de São João, não se exprime de outro modo. O mesmo se dá na África, no III século, com Tertuliano e São Cipriano e, em Alexandria, com São Clemente e Orígenes.


A partir do IV século os testemunhos não são mais constrangidos pela prudência necessária em tempos de perseguição.


Em catequeses célebres, São Cirilo de Jerusalém ( 386) explica aos neófitos:


Uma vez que foi o próprio Cristo quem disse do pão: ‘Isto é meu corpo’ e do vinho: ‘Isto é meu sangue’, quem ousará duvidar e dizer que não é seu Corpo, nem seu Sangue?”5


O grande orador de Antioquia, São João Crisóstomo ( 407), argumenta do mesmo modo: “Que importa o testemunho dos sentidos! Pois que o Senhor disse: ‘Isto é meu corpo’, submetamo-nos e creiamos”.6


São Basílio ( 379), São Gregório Nazianzeno ( 390), São Gregório de Nissa ( 394), no Oriente, pensam no mesmo modo. Santo Ambrósio de Milão ( 397) ensina a seus cristãos o mesmo que Santo Hilário em Poitiers ( 366): “De veritate carnis et sanguinis non relictus est ambigendi locus; a propósito do Corpo e Sangue de Jesus Cristo, nenhuma dúvida é possível”.7


E assim, sem contestação alguma, chegaremos ao século XVI; só, ou quase só, Berenger ( 1088) fará exceção.


Perante a unanimidade da Tradição, Leibniz,8 por protestante que fosse, viu-se obrigado a confessar: “Esse dogma foi sempre admitido pela antiguidade cristã; salvo entre os Reformados, a unanimidade nas Igrejas, sobre tal assunto, está tão perfeitamente incontestada que nos é preciso admiti-lo também, ou então jamais poderemos demonstrar seja o que for nesse gênero de verdade”.


Quais foram as pretensões dos Reformados?


Distingamos os protestantes do Continente e os da Inglaterra.


A doutrina dos primeiros procede de três concepções primordiais: a de Lutero, a de Calvino e a de Zwinglio.


Lutero jamais ousou negar a Presença Real; a Confissão de Augsburgo de 1530 expõe claramente as crenças das Igrejas: “Elas ensinam, que o Corpo e Sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes na Ceia do Salvador e são distribuídas aos comungantes”. Referindo-se a alguns exaltados, o texto acrescenta: “Elas (as igrejas) censuram os que afirmam o contrário”.


O próprio Lutero se gaba de interpretar as palavras do Salvador no seu óbvio sentido: isto é o meu Corpo. “Os próprios papistas veem-se na contingência de me louvar por haver, melhor que eles, defendido a doutrina do sentido literal. Com efeito, estou certo que, mesmo, que os cosessem ou derretessem juntos, jamais a apoiariam tão seguramente quanto eu”. Lutero reivindicava sempre, contra os adversários da Presença Real, a verdade de sua posição. Em uma conferência realizada em Marburgo, em 1529, tentaram estabelecer um entendimento entre todos os reformadores; foi trabalho perdido, e Calvino escreveu a Melanchton essas palavras melancólicas: “É de grande importância que os séculos vindouros não tenham a menor suspeita das divisões que existem entre nós, porque é mais do que ridículo que, após termos rompido com todo o mundo, não nos entendamos entre nós, desde os princípios da Reforma”.9 Mas Lutero, num ponto, enganou-se: ele admitia que a Eucaristia continha o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor, “juntamente” com a substância do pão e do vinho. O Concílio de Trento condenou essa crença chamada de “Coexistência”. Após a Consagração, nada mais resta do pão e do vinho, a não ser as aparências. Calvino, em seu Tratado sobre a Ceia (1540) seguido de sua Instituição da Religião Cristã, refuta a Presença substancial de Cristo, que qualifica de rebaixamento indigno do Cristo glorificado.


Entretanto, para ele a Eucaristia não é um puro símbolo vazio; admite-a como uma certa presença que as palavras não podem exprimir e que se poderia chamar de dinâmica. Aliás, ele nunca se explicou claramente, ao referir-se a esse assunto: “É um mistério sublime de mais para ser compreendido por meu espírito ou explicado por palavras”.


Zwinglio repele, não só a Presença Real ensinada pela Igreja Católica, como a dinâmica admitida por Calvino; para ele, nos elementos eucarísticos não se deve ver senão um símbolo do Corpo de Cristo e na Ceia, um memorial. É essa concepção simbólica a mais aceita e sufragada pelos teólogos protestantes do Continente.




Que seja perfeitamente impossível admitir em sentido puramente simbólico as palavras do Salvador: Isto é o meu Corpo, demonstra-o e explica-o admiravelmente o Cardeal Wiseman.


Alguns objetos, observa ele, por sua própria natureza são simbólicos: uma moeda, um retrato. Dir-se-ia: eis um cruzeiro, eis minha mãe. Outros não o são, a não ser pelo uso: a bandeira. Quando se diz: “Saudai, é o Brasil que passa”, todos compreendem que o verbo significa “representa”. Por fim, um autor pode empregar, em sentido figurado, palavras que não são simbólicas nem por definição, nem por convenção.


A ele compete advertir, então, àqueles que o leem ou escutam.


Na parábola do semeador, por exemplo, Jesus dirá: o campo é o mundo.


Se o afirmado nada tem de comum com esses três casos, não há dúvida que o sentido deve ser o literal.


Ora, o pão e o vinho não são, por essência, absolutamente, símbolos do Corpo e Sangue de um homem. Não o são, também, por convenção; jamais Cristo recorreu a esses dois elementos para representar sua Carne e seu Sangue. E, em terceiro lugar, não dá a entender em parte alguma que se trate de uma imagem ou de um símbolo.


Não temos, pois, o direito de interpretar, em sentido figurado as palavras: “Isto é o meu Corpo” e traduzi-las por: “Isto representa meu Corpo”.


Aliás, não são pessoas que, particularmente, se julgam autorizadas, as que se insurgem contra a interpretação simbólica das palavras da Consagração, mas sim o texto oficial da Igreja: O Concílio de Trento é peremptório: “Se alguém negar que no Sacramento da Eucaristia estejam contidos, verdadeira, real e substancialmente o Corpo e o Sangue, com a Alma e a Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo… e pretender que não estejam senão como sinal, símbolo ou virtude…”, acha-se fora da crença católica.


Apesar da condenação formal do Concílio de Trento e da futilidade das razões apresentadas para estabelecer seriamente a acepção puramente simbólica, a maior parte dos protestantes do Continente perseverou no erro.


Na igreja da Inglaterra o mais numeroso contingente inclina-se para o sentido figurado. Encontra-se, porém, em face de um núcleo próspero que admite a Presença Real, venera-se, procurando não omitir nem um dos ritos católicos, véu de sacrário, flores no altar, lâmpada no santuário, enquanto que os chefes eclesiásticos recusam-se a decidir e declaram deixar a questão ao critério de cada um.


Um debate recente veio demonstrar como, por terem outrora rompido com o dogma da Presença Real, os fundadores da Reforma deixaram seus adeptos, através dos séculos, em perpétuas e dolorosas indecisões. Referimo-nos à controvérsia do “Prayer Book” ou, para falar claramente, da Reforma do ritual anglicano.


Logo que, em 1539, se consumou a ruptura com Roma, o rei da Inglaterra, Henrique VIII, fez redigir um formulário tornado obrigatório e, salvo dois pontos: o Papa e a Missa, relativamente bastante católico ainda.


Pouco a pouco, supressões consecutivas se fizeram, principalmente em certos ritos essenciais à ordenação do Padres (daí a invalidade das ordenações anglicanas). Sendo necessário mudar sobre a Missa as ideias dos antigos fiéis que desejavam tornar adeptos da Reforma, puseram abaixo os altares, que foram substituídos por mesas móveis. Não se tratava mais, como desejavam incutir, do Calvário místico mas, efetivamente, renovado; a Ceia tornou-se, simplesmente, uma cerimônia comemorativa em que, apenas, se partia e distribuía o pão bento.


No reinado de Isabel, em 1563, o formulário foi definitivamente redigido: “os trinta e nove artigos” importavam, entre os mais, na supressão da Missa e da transubstanciação.


E assim foi até 1850. A partir dessa época reapareceram, cada vez mais frequentemente em apreciável parte da igreja anglicana, não somente altares, círios, sobrepelizes e ornamentos, mas também um certo culto da Presença Real; uma “santa reserva” é conservada em muitos tabernáculos, e as lâmpadas do santuário reaparecem e, novamente, suas chamas vivas palpitam nos frios templos da Igreja Reformada. Alguns anglicanos levam ainda mais longe seu culto pela Eucaristia. Aproximam-se tanto da crença católica que, evidentemente, seu procedimento já não está de acordo com a doutrina oficial do Anglicanismo.


Mais uma vez, os chefes da Igreja Reformada decidem fazer a revisão do Manual em uso (Prayer Book). Uma comissão, nomeada em 1906, procura os meios de, sem abandonar os antigos pontos de vista, dar uma certa acolhida às práticas sub-repticiamente introduzidas.


Após 20 anos de trabalho, o Manual sai do prelo, aprovado pela Assembleia de bispos, que tanta certeza tinha da aceitação incontestada do novo texto que até já dera a ordem, prontamente executada, de nova tiragem de 100.000 exemplares do novo Prayer-Book.


Mas a Igreja da Inglaterra é uma Igreja do Estado, e, por conseguinte, depende desse último – isto é, das duas Câmaras. Os “Lords” aceitaram o novo texto, mas os “Comuns” vetaram-no, rejeitando o formulário.


Sem se aperceber da servidão em que se achava uma Igreja na qual os chefes religiosos, por conseguinte qualificados, eram desautorizados por uma assembleia de leigos, que nada tinha de teologia, foi decidido estudar novamente a correção e adaptação do Prayer-Book. Essa nova modificação foi feita em um sentido mais conforme às primitivas ideias da Reforma. As alterações feitas referiam-se, em dois pontos, à Eucaristia – o grande motivo do debate: – frisa-se, insistentemente, que a permissão dada para ajoelhar durante a cerimônia da Ceia não significa um ato de adoração, como se o pão comportasse objetivamente a Presença Real.


Precisa-se, também, que se pode guardar a santa reserva para a comunhão dos doentes, mas, para diferenciar dos católicos, em tabernáculos diversos.




Como a Igreja Católica está prevenida contra tais golpes! Além das afirmações categóricas das Escrituras e da Tradição, Ela possui decisões formais. Cristo, na Eucaristia, está verdadeiramente presente e não figurada ou simbolicamente; está realmente, e não em virtude de uma fé subjetiva ou imaginação; substancialmente, isto é, não simplesmente pelos efeitos produzidos por uma presença virtual.


E essa Presença do Cristo compreende toda a sua Personalidade: a Eucaristia contém todo o Cristo, isto é – com sua Alma e Divindade, seu Corpo e seu Sangue, “esse mesmo Corpo que nasceu da Virgem Maria e está sentado à direita do Pai”.



Fonte: Raul Plus, S.J., “A Eucaristia”, Cap. IV, pp. 37-52. Editora Vozes Ltda, Petrópolis/RJ, 1944.


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1  1 Cor. XI, 23.

2  Lebreton, art. Eucaristia, no Dicionário Apologético (Beauchesne) col. 1559.

3  Paris, 1669-1674, t. II, I, V, cap. II, p. 498.

4  Primeira Apologética. 1, 66, P. G. t. VI – col. 429.

5  Cat. XXII, I, P. G. t. XXXIII, col. 1097.

6  In Math. LXXXII, 4, P. G. t. LVIII, col. 743.

7  De Trinitate, VIII, 14, P. L. t. X, col. 247.

8  Sistema teológico, p. 94-97.

9  Ver esses textos e outros, no Dicionário de Teologia Católica, artigo A Eucaristia depois do Concílio de Trento, col. 1341.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

A EUCARISTIA – BOSSUET. 8

 


A Fé dá a Inteligência desse Mistério.

A Voz do Pai que nos Atrai ao Filho.


Não é tudo sabermos que dom recebemos de Jesus Cristo; há ainda que saber dEle duas coisas muito necessárias; das quais, uma é o fruto que devemos tirar dEle, e outra é o meio de recebê-lo. Tudo isto nos é explicado no mesmo capítulo. Mas o que primeiro se deve aí entender é que só Deus pode nos dar a inteligência disso, conforme a esta palavra: “Não murmureis entre vós: ninguém pode vir a mim, se meu Pai, que me enviou, não o atrai”.1 Portanto, para vir a Jesus e Lhe penetrar as palavras, há que ser atraído pelo Pai, senão ser ensinado por Deus, como acrescenta o Salvador: Escrito está nos Profetas: Eles serão todos ensinados por Deus. Aqueles que ouviram a voz de meu Pai, e que aprenderam o que Ele lhes ensina, vêm a mim”.2 Assim, ser atraído por Ele é escutar a voz, e ser ensinado pela doce e Onipotente insinuação e inspiração da verdade. Quando somo instruídos desse modo, não murmuramos das suas palavras; ouvimo-las, saboreamo-las; e foi por isto que Ele disse no fim: “Há uns entre vós que não creem; e foi por isto que eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se isso não lhe é dado por meu Pai”. Atraído a Jesus Cristo é, pois, aquele a quem é dado crer. O Pai atrai-nos a Jesus Cristo quando nos inspira a fé.


Creio, Senhor, creio; não sou daqueles que querem retirar-se de Vós, por causa da altitude das vossas palavras: ao contrário, sou dos que Vos dizem com São Pedro: “Mestre, a quem iríamos nós? Tendes palavras de vida eterna. Havemos crido e conhecido que Sois o Cristo, o Filho de Deus”.3


Crede, pois, e conhecei: crede primeiro como verdadeiro filho da Igreja, dócil e submisso, e verdadeiramente ensinado por Deus. Depois de serdes ensinado por Deus e docemente atraído à fé, sê-lo-eis ainda à inteligência, tanto quanto é necessário para confirmar a vossa fé; e direis em todas as ocasiões, mas particularmente na Comunhão: “Havemos crido e conhecido que Sois o Cristo, o Filho de Deus”. Roguemos ao Pai de Jesus Cristo, que quis ser o nosso, que nos atraia, que nos faça ouvir a sua voz e penetrar a sua palavra.


Fonte: Jacques-Bénigne Bossuet, Bispo de Meaux, Meditações sobre o Evangelho” – Opúsculo Eucaristia”, Cap. VIII, pp. 45-46. Coleção Boa Imprensa, Livraria Boa Imprensa, Rio de Janeiro/RJ, 1942.


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1  Jo., VI, 43 e segs.

2  Jo., VI, 45; cfr. Is., LIV, 13; Jer., XXXI, 33s.

3  Jo., VI, 68-69.


A Santa Missa não Prejudica ao Trabalho, Antes o Favorece.

Mons. Fulton J. Sheen

 

Um dos principais pretextos que alegam os homens, para dispensar-se da Santa Missa, é o trabalho. Dia e noite a ele se entregam, lastimam a perda de tempo, se devem consagrar-se uma hora ao serviço de Deus, e qualificam de preguiçosos aqueles que encaram, de modo sobrenatural, o emprego de sua vida. Que erro grosseiro o destes insensatos!


Se, indo para o trabalho, encontram um amigo, param de bom grado para ouvir novidades, conversam disto ou daquilo; tratando-se, porém, de ouvir a Santa Missa, a lembrança do trabalho os atormenta. Não vês que é o Demônio que os torna tão apressados para as coisas da terra e que tem grande interesse de os afastar da Santa Missa? Crê-nos, longe de prejudicar o trabalho, o Santo Sacrifício o adianta e o torna mais lucrativo.


Nosso divino Mestre nos recomenda a procurar, antes de tudo, o reino de Deus e sua justiça e todo o mais nos será dado por acréscimo. Estas palavras se podem interpretar assim: Não te inquietes do alimento corporal, porém, antes de principiar o trabalho, procura ouvir a Santa Missa, ou pelo menos, que um membro da família a assista em nome da família toda. Assim prestas a Deus, o culto que Lhe é devido, e Deus em troca, te dará o pão de cada dia.


Se prestares um serviço importante e agradável a um príncipe deste mundo, não serás recompensado? Ora, assistindo à Santa Missa, rendes a Deus uma homenagem relevante, uma glória infinita, uma incomparável satisfação; Lhe ofereces um presente mais precioso que o próprio Céu. O Senhor, riquíssimo e bondosíssimo, deixaria este ato sem recompensa? Jamais! Se todo e qualquer bem é recompensado por Ele, quanto mais o maior de todos os bens!


No tempo de São João, o Esmoler, viviam na cidade de Alexandria dois artistas, um sobrecarregado de família e outro que vivia só com sua mulher. O primeiro sustentava sua numerosa família e, ao fim de cada ano, realizava algumas economias. O outro, apesar de estar só e trabalhar muito, morria quase de fome. Nunca, porém, assistia à Santa Missa. Um dia, dirigiu-se, confidencialmente, ao seu vizinho feliz, pedindo que o esclarecesse sobre a diversidade de sorte. “Dir-se-ia, disse, que, em tua casa, Deus faz cair todos os bens, ao passo que a mim, infortunado, todas as desgraças acabrunham” . – “Ensinar-te-ei, de bom grado, o meu recurso, respondeu o outro, amanhã de manhã passarei por tua casa e iremos juntos ao lugar, onde acho a fortuna”.


No dia seguinte, o piedoso operário foi buscar o colega e conduziu-o à igreja, onde ouviram a Santa Missa e, depois, voltou com ele para a oficina. O mesmo fez no segundo e no terceiro dia. “Se é somente isto, disse então o outro operário contrariado, posso dispensar-lhe o serviço, pois o caminho para a igreja já conheço”. – “É precisamente isto que faço, respondeu o piedoso operário, e não conheço outra coisa senão assistir, frequentemente, ao Santo Sacrifício da Missa. Se quiseres imitar meu exemplo, Deus te abençoará os trabalhos e nada te faltará. Para confirmar a minha palavra, apelo para Nosso Senhor, que disse: Buscai, primeiro, o reino de Deus e a sua justiça, e todo o mais vos será dado por acréscimo. Desde os primeiros dias de meu casamento, tenho procurado assistir, todo dia, à Santa Missa, e como sabes, nada me faltou. E tu, pelo contrário, sob pretexto de trabalho, negligenciaste a assistência à Santa Missa e experimentaste, à própria custa, que o Senhor é fiel em suas promessas”. Esta exortação tocou o coração do operário. Desde então e sem prejuízo do trabalho, procurou assistir, cada manhã, ao Santo Sacrifício e a bênção de Deus repousou visivelmente sobre sua família.


Ah, como este bom artista tinha razão de chamar a Santa Missa um tesouro! Sim, é o tesouro de que fala o livro da Sabedoria: É um tesouro inestimável para os homens; os que nele tem parte gozam da amizade de Deus. É uma mina donde se extrai o ouro terrestre e o ouro celeste. Aquele que assiste a este Sacrifício, sai enriquecido dos méritos de Jesus Cristo, cumulado das bênçãos do Pai celeste: bênçãos mais eficazes que as de Isaac a cumular Jacó, dizendo: Que Deus te dê a abundância do trigo e do vinho, do orvalho do Céu e da gordura da terra.1


Esta bênção era toda terrestre, ao passo que a da Santa Missa é, ao mesmo tempo, temporal e espiritual, assim como vemos pela oração que se segue à Consagração: … para que todos, participando deste altar, recebendo o Sacrossanto Corpo e Sangue de teu Filho, fiquemos cheios de toda a graça e bênção celestial.


Em virtude desta oração e do Santo Sacrifício és abençoado em teu corpo e em tua alma, em tuas empresas e em teus trabalhos.


Todos reconhecem a verdade do velho provérbio: “Tudo depende da bênção de Deus”. Por maiores que sejam o zelo e a habilidade do homem ao trabalho, sem a mão de Deus, ele não frutificará. Ora, não há meio mais eficaz, neste mundo, de atrair os favores celestes do que a piedosa audição da Santa Missa. Numa visão, Santa Brígida viu o divino Salvador que, depois da elevação da Sagrada Hóstia, traçava com a mão direita o Sinal da Cruz sobre o povo, dizendo: “Eu vos abençoo, a vós todos que credes em Mim”. – Avalia, pois, o prejuízo, mesmo no teu trabalho, se, podendo assistir à Santa Missa, por descuido lhe perderes as graças abundantes.


Não digas, caro leitor, que a Santa Missa de pouco serve, materialmente falando. Pois, só a ignorância pode afirmar isto e não duvidamos que a leitura deste livro te iluminará a inteligência e te fará apreciar o valor e eficácia do Santo Sacrifício dos nossos altares. “No dia em que ouvires a Santa Missa, diz Fornero, Bispo de Hebron, teu trabalho andará melhor, tuas penas serão mais aliviadas, tua cruz menos pesada”. “O Senhor te fortificará no corpo e na alma, acrescenta outro autor de vida espiritual, os Anjos te cercarão mais afetuosamente e, se vieres, neste dia, a morrer, Jesus te assistirá no último momento, como O assististe de manhã na Santa Missa”.


A audição da Santa Missa favorece o trabalho; nossa própria experiência no-lo testemunha.


Lemos na vida de São Isidoro, que cultivava as terras de um rico senhor. Entregava-se ao trabalho com todo o zelo possível, sem todavia faltar à Santa Missa um só dia. Sua devoção agradou de tal modo ao Bom Deus, que mandou os Anjos ajudarem-no nos trabalhos campestres. Quando sua esposa lhe levava a refeição, via, não raras vezes, dois Anjos trabalhando ao lado de Isidoro. Este não os via e a piedosa mulher nada dizia, com receio de incitá-lo ao orgulho.


Entretanto, alguns companheiros de trabalho, caluniaram-no, dizendo ao fazendeiro: “Senhor, ignorais, sem dúvida, que Isidoro passa o tempo nas igrejas a ouvir Missa e trabalha menos que os outros. Advertimo-vos, porque isto vai de encontro aos vossos interesses”.


O fazendeiro, encolerizado, dirigiu-se então ao campo para repreender o acusado de sua negligência em servi-lo. Este, porém, respondeu com doçura: “Reconheço que dependo de vossa senhoria, mas dependo também do Rei dos reis, e não devo descuidar-me dos meus deveres para com Ele. Se temeis que vos prejudique, começando o trabalho um pouco mais tarde que os outros, vos indenizarei no tempo da ceifa”. A humilde resposta do Santo acalmou o fazendeiro, que não foi mais de encontro aos seus exercícios de piedade, quis, porém, observar a que hora Isidoro principiava o trabalho. Num dia, foi ao campo muito cedo e lá se ocultou. Com efeito, viu que o Santo começou o trabalho mais tarde que os outros. Irritado de novo, aproximou-se dele, para repreendê-lo; indo, porém, observou ao lado de Santo Isidoro dois outros lavradores, conduzindo bois brancos. A surpresa lhe foi grande, e, novo prodígio: chegando perto do Santo desapareceram os bois alvos e seus condutores. Perguntou então amigavelmente: “Pelo amor de Deus, dize-me quem são os homens que te ajudam a trabalhar?” Isidoro sorriu, não sabendo que responder. O fazendeiro insistiu: “Asseguro-te que vi contigo outros lavradores que desapareceram com a minha chegada”. – “Tomo a Deus por testemunha, respondeu Isidoro, que não tive ajudante e que não chamo em meu socorro outro senão Ele mesmo”. Então o fazendeiro compreendeu que vira Anjos, e regozijou-se de possuir um tão piedoso operário.



Fonte: “Explicação da Santa Missa”, pelo Venerável Martinho de Cochem, O.F.M.Cap., Cap. XXIV, pp. 278-284. 2ª Edição, Typ. de S. Francisco, Bahia, 1914.


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1Gên., 27, 28.


terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Sobre o Culto e Respeito, que se Deve a Deus nas Suas Igrejas.

 


Desolatione desolata est omnis terra,

quia nullus est, qui recogitet corde”.

Está todo mundo cheio de pecados,

porque não há quem atenda aos seus deveres,

e observe, como deve, a Lei do Senhor.1


Não pode o amor estar encoberto dentro do coração humano; mas havendo verdadeiro amor, se deixa ver: com muita razão disse um Santo Padre, que o amor não pode estar ocioso, obra grandes coisas, se é verdadeiro amor, e se deixa de obrar, deixa de ser amor; assim como a mina de materiais combustíveis, que abafada no interior da terra, apenas a choca o fogo logo estala; ainda melhor o fogo do amor de Deus, escondido por algum tempo dentro do coração humano, quando aparece ocasião rebenta em chamas, e em toda a parte dá ao mesmo Deus e ao próximo provas de quanto ama o seu Criador, rendendo-Lhe respeitoso culto que Lhe é devido. Em nossas casas, nos campos, nos montes e vales podemos e devemos dar testemunho deste amor e respeito ao nosso Deus; mas, nas suas igrejas em primeiro lugar.

Muitos são os atos da nossa Religião, pelos quais podemos amar e adorar a Deus em diversos lugares, porém, mais que tudo na sua Santa Casa; por muitos modos se pode dar culto ao nosso Criador e Benfeitor, dos quais vos falarei ainda em diferentes práticas; mas, o seu templo é o lugar mais singular por Ele destinado para que aí com maior respeito lhe darmos sinais de quanto O amamos, tributando o respeito devido a tão Soberana Majestade no seu Divino Palácio; mas o mundo está cheio de maus cristãos, de falsos adoradores que não dão culto a Deus, nem ainda nas Suas igrejas, nem aí Lhe mostram estes sinais de amor, porque não pensam no que fazem, nem no que devem – Desolatione desolata est omnis terra, quia nullus est, qui recogitet corde. O respeito com que se deve estar nas igrejas, é o que vou tratar. – Eu principio.

Se eu abro a Sagrada Escritura, aí encontro lições as mais importantes sobre o culto, e reverência que devemos a Deus nas suas igrejas; no livro do Gênesis2 nos diz o Espírito Santo: Terribilis est locus iste, hic domus Dei est, et porta Coeli: quer dizer, a igreja é lugar terrível, ela é a Casa de Deus e a Porta do Céu. Sim, irmãos meus, a igreja é lugar terrível, é a Casa de Deus; porque nela está realmente, ainda que encoberto, o mesmo Deus, que criou os Céus e a terra, e que nos criou também a nós; nela está o mesmo Deus, que no excesso da sua ira lançou fora do Paraíso Adão e Eva, porque O ofenderam, que fez chover um Dilúvio de água e outro de fogo sobre os pecadores que O injuriaram; nela está O mesmo Deus, que falava com Moisés no Monte Sinai entre relâmpagos e trovões, que tem castigado com severidade a quem O tem ofendido, e que ainda conserva na sua mão a espada da sua justiça para nos castigar quando quiser, se O ofendermos; sobre o que diz também São Bernardo: “O lugar da terra é verdadeiramente terrível, ninguém deve entrar nela senão penetrado do mais profundo respeito; é um lugar que Deus honra com a sua Real Presença, e onde os mesmos Anjos Lhe assistem cheios de reverência”. Finalmente, a igreja é lugar digno de respeito e temor santo, porque ela é a Porta do Céu; quem nela está com respeito, quem nela ora com verdadeira devoção se avizinha a Deus, se encaminha para o Céu, e por este meio alcança com mais facilidade, imensas graças para a salvação.

Oh! Quão bem conhecia isto mesmo, o mais sábio de todos os monarcas, o grande Salomão! Depois de ter concluído o respeitável templo de Jerusalém, depondo sua grandeza e majestade, misturado com seus vassalos; lançado por terra, levantando suas mãos ao Céu, louvava o mesmo Deus, que se dignava presidir nessa sua Casa, e cheio de respeito exclamava: “É crível, Deus meu, que Vos digneis habitar com os homens de uma maneira tal! Se os Céus, dizia ele mais, são pequeno espaço para conter Vossa imensidade, como é possível que Vos digneis habitar nesta pobre casa que Vos edifiquei!” Mas se tal era o respeito e reverência com que o maior monarca do mundo com o seu povo guardava nesse antigo templo de Jerusalém, qual deverá ser o nosso nas igrejas de Jesus Cristo!




Oh! Neste antigo templo só se percebia a Glória e Majestade do Senhor por figuras, mas agora nas nossas igrejas preside realmente em Corpo e Alma o mesmo Senhor de Soberana Majestade; naquele templo sacrificavam-se bois e rezes ao mesmo Deus, mas nas nossas igrejas se sacrifica, verdadeiramente, todos os dias o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo; naquele templo se guardavam as tábuas da Lei, a misteriosa vara de Moisés, e uma porção do Maná que chovera do Céu, mas, nas nossas igrejas há muito mais, nelas se conserva sempre vivo o nosso Deus e Divino Salvador no Sacramento do Altar, para O adorarmos e recebermos, e para nos encher de bens e graças; quanta maior reverência, pois, quanto mais respeito Lhe devemos nesta sua Casa! Oh! Todos, sem exceção de pessoa, Lhe devemos tributar o mais respeitoso culto; todos O devemos adorar com reverência da alma e do corpo; com reverência da alma, estando com toda a atenção a meditar nas suas verdades eternas; com reverência do corpo, estando com toda a modéstia, como pede um lugar tão santo e a presença da Divina Majestade, que nas suas igrejas preside como no seu Palácio.

Peca, pois, mais ou menos quem nas igrejas falta na reverência a Deus. Peca, quem na igreja está sem a devida atenção e devoção para com o mesmo Deus e seus Santos, e que não obstante ter o corpo na igreja, tem o coração e pensamento em casa, ou em coisas do mundo, alheias de Deus. Peca, quem se está rindo, mostrando assim o pouco respeito na Casa do Senhor. Peca, quem come ou bebe na igreja, fazendo dela estalagem ou taberna. Peca, quem nela escarra, porque a suja, e a faz indecente a seu Dono. Peca, quem nela está sem causa, com um joelho no chão, outro no ar, ou sentado com um joelho sobre outro (de pernas trançadas), ou sobre os altares, ou encostado como se estivessem em suas casas; e as mulheres que se sentam ou ajoelham no altar, onde o Sacerdote põe os pés quando diz Missa, além do pecado tem contra elas fulminada uma antiga excomunhão, a qual ainda que dizem alguns não está em uso, devem temê-la e evitar este abuso. Peca, quem entra na igreja com vaidade, com modas, com vestidos indecentes. Peca, toda a mulher que leva a cabeça descoberta ou quase descoberta, e até às vezes com enfeites no cabeça. Peca, todo o homem ou mulher, que na igreja está olhando com afeto para o diferente sexo, e até fazendo algum sinal para quem ama. E ainda mais, peca mortalmente, contra a santidade do lugar, se o chega a profanar com alguma brincadeira ou obra desonesta. Enfim, peca-se, toda a vez e hora que se falta ao respeito a Nosso Senhor na sua Casa, de qualquer modo que seja, ora mais, ora menos, conforme for a falta de reverência.

Porém, que se observa à vista desta explicação? Observa-se a mais escandalosa profanação da Casa do Senhor; vê-se ainda muita gente nas igrejas, principalmente nos dias festivos, mas muito poucas pessoas que nelas estejam como devem; estão na igreja com o corpo, mas o pensamento em casa e em outras coisas que não são de Deus. Porém, ó homem ou mulher, digo eu com Santo Agostinho: tu, que estás na igreja imaginando noutra coisa que não é Deus, sabe que não adoras a Deus, mas só adoras o que imaginas; se estás considerando na tua casa, nos teus filhos, nos teus animais, nos teus negócios, nos teus bens, nos teus luxos e enfeites, nos teus namoros, não adoras a Deus no seu templo, adoras a tua casa, os teus filhos ou parentes, os teus animais, os teus negócios, as tuas modas, os teus amores, finalmente, adoras o que lembra, mas não a Deus, em quem não cuidas.

Quantas pessoas estão também na igreja rindo e falando, sem urgente necessidade, e até algumas vezes murmurando, notando os defeitos do próximo, e outras vezes cumprimentando-se, como se estivessem em sua casa! Quantas pessoas estão na igreja, sentadas indecentemente, encostadas, e até às vezes dormindo! Quantos já comem e bebem na igreja! Quantos (Céus, que horror!), quantos estão namorando com os olhos, com o pensamento e até com sinais, e ainda pior, com brincadeiras, se há ocasião para isso! E que direi dessas mulheres vaidosas em toda a parte, e até nas igrejas, as quais nelas entram e nelas estão todas ufanas, procurando até o lugar do altar como mais limpo, e talvez para melhor serem vistas, vestidas a moda, e moda muitas vezes indecente e desonesta, como são vestidos decotados, vestidos de balão, cabeça de todo descoberta ou meia descoberta, e até com enfeites no cabelo! Direi que vão para a igreja cheias de pecados, e ainda com muitos mais saem para fora; com razão diz São João Crisóstomo, destas e de outras pessoas que profanam com irreverências a Casa do Senhor: “Seria melhor, diz ele, seria melhor muitas pessoas nunca entrarem na igreja, pois cometem assim mais pecados do que se nunca lá entrassem”. Non tam crimen fuisset non venire ad templum, quam sic venire.

Ah! Irmãos meus, as Casas de Deus estão convertidas em feiras; porque nelas se fala como no meio de uma praça, e se fazem cumprimentos como no meio da rua; as Casas de Deus estão convertidas em casas de namoros, porque nelas se namora, como nessas casas escandalosas; as Casas de Deus estão convertidas em casas de divertimento, porque nelas se vê tanta vaidade no vestir, tanta moda, tanta loucura, tanta imodéstia como nessas assembleias e nesses teatros; que cegueira, que maldade a de semelhantes cristãos! Ide falar, e conversar lá fora, pecadores; ides cumprimentar-vos na rua, ou em vossas casas; a Casa de Deus não é para falar, é para rezar, cantar os louvores Divinos, ou meditar em coisas santas; a Casa de Deus não é para fazerdes cumprimentos uns aos outros, é para cumprimentardes o Senhor e seus Santos; a Casa de Deus não é para namorar, é para adorar e louvar o mesmo Deus com todo o respeito.

Oh! Dizem alguns autores, que os turcos, quando se acham na presença do sepulcro de Mafoma, não falam, nem cospem, nem tossem, nem voltam os olhos para alguém; e quando saem para fora, não viram as costas para cima; e muitos cristãos que fazem nas igrejas? Falam, riem, cumprimentam-se, murmuram, namoram, empregam os olhos e pensamento no que não devem, perdem finalmente o respeito e temor ao Juiz dos Vivos e dos Mortos, que está no Santíssimo Sacramento. Ó meu Deus, como não se arrasam tantas igrejas por tantas irreverências para sepultar em suas ruínas tantos maus cristãos! Como não nos desampara Jesus Cristo à vista de tantos pecados cometidos até na sua Casa e na sua Real Presença!




Mas ainda isto não é tudo; muitas Casas do Deus Vivo estão hoje sendo as mais pobres e desprezíveis, que se veem na terra; tão mal telhadas e forradas, tão mal caiadas, tão mal varridas e tão sujas, que ninguém que goza alguns meios assim tem a sua; com verdade tem muitas pessoas as suas casas mais caiadas, varridas, lavadas e até às vezes alcatifadas, do que tem a Casa do Senhor dos Céus e da terra; tratam com mais cuidado das suas moradas, do que das igrejas, onde habita a Divina Majestade; dormem em lençóis mais lavados, e travesseiros mais engomados, do que os corporais, onde o nosso Divino Salvador reclina a sua Face; limpam-se as tolhas mais finas e mais brancas, do que aquelas que servem nos altares para o culto de Deus, e do que os mesmos sanguíneos com que se limpam algumas relíquias do Sangue de Jesus Cristo; trazeis os vossos vestidos mais compostos e asseados do que as alvas e vestimentas da vossa igreja.

Ai de quem deve tratar da decência e ornato da Casa do Senhor para o seu culto, e não o faz! Ai de tantos Párocos e Sacerdotes, que devendo ser os primeiros zeladores da Casa de Deus, não cuidam no que devem! Ai de tanto povo, que devendo esmerar-se em ter as suas igrejas limpas e ornadas, as tem tão desprezíveis e tão pobres, que causa escrúpulo dizer nelas o Santo Sacrifício da Missa, e celebrar aí os Divinos Ofícios, e tem os paramentos sagrados tão sujos, que causam nojo e até às vezes rotos e caindo em pedaços; tem mais cuidado em que não chova num palheiro, do que na igreja; iluminam os teatros, assembleias, ou sociedades com luzes e mais luzes, e deixam estar a Jesus Sacramentado com uma luz insignificante, e muitas vezes as escuras; tem para tudo, e até para muita coisa que devia escusar-se, e pouco ou nada tem para o culto de Deus na sua Casa; tem até muitas pessoas a sua cozinha mais varrida, do que a sua igreja.

Ai, Deus meus! Que culto Vos dão muitos cristãos nos Vossos templos! Quão pouco Vos respeitam, quão pouco Vos temem! Respeitam-se tanto as casas dos grandes, que nem nelas se escarra para não sujar-lhes-as, mas já não é assim nas Casas de Deus; muitas pessoas aí escarram, como se fosse numa esterqueira, e até nem por isso nelas se pode estar ou ajoelhar sem aborrecimento; escarrai num lenço, irmãos meus, ou num farrapo que leveis convosco para a igreja, e guardai mais limpeza na Casa do Senhor; Santo Ambrósio recomendava muito a sua mãe, que não escarrasse na igreja; São Gregório louvava muito a sua mãe, porque nunca voltava as costas aos altares, nem escarrava na igreja; e Santa Gregoriana é também muito louvada pela mesma razão; porém, muitos cristãos dos nossos dias obram de tal modo, como se nas igrejas não estivesse Deus! E nem sequer tem medo ao Dono da Casa, que tem vingado e, vingará sempre sua honra desacatada.

Ide, cristãos, ide a esses palácios reais, e os vereis mil vezes mais limpos do que o Palácio do Rei dos reis; vereis esses monarcas servidos, respeitados e temidos dos seus vassalos, e que ninguém lhes falta ao respeito com a mais leve ação ou palavra, quando um Deus no seu Santuário é tão desprezado e ofendido; ide a esses templos dos ingleses protestantes, e vereis o silêncio e respeito com que estão nas suas festividades; ide a essas mesquitas dos pagãos, e vereis estes com mais respeito diante dos seus falsos deuses, do que muitos católicos no Santuário do Deus Vivo. Ah! Quem não treme vendo tantas irreverências na Casa do Senhor! Os hebreus deram a morte a Jesus Cristo, mas foi em uma Cruz; porém, muitos católicos procuram dar-Lhe-a no altar, com muitas e diferentes irreverências e desacatos. Isaías viu cobrir a face aos Serafins diante do Santuário; à Moisés, mandou Deus descalçar-se para pisar a terra santa, onde ele estava; os israelitas não podiam chegar-se à Arca do Senhor por espaço de dois mil côvados; e muitos cristãos entram e estão nas igrejas sem respeito, nem temor diante do Senhor dos Céus!

Ainda vos direi mais, os gregos não se atreviam a cuspir ou escarrar, e nem sequer assoar-se enquanto duravam os sacrifícios aos seus simulacros; houve um turco tão fanático, que até arrancou os olhos e a língua depois de ver o corpo do maldito Mafoma, dizendo que não devia falar, nem ver coisa alguma quem teve a dita de ver tal objeto; os católicos, porém, estão na igreja diante do verdadeiro Deus, sem temor, ofendendo-O com pensamentos, palavras e obras, com tantas irreverências! Que cegueira e que maldade! O mesmo Senhor criou o mundo, e o entregou todo à nossa disposição; reservou, porém, para Si pequenos espaços das igrejas para ser aí mais adorado, respeitado, e temido; Ele mesmo parece-me dizer-nos: “Miseráveis criaturas, já que Me ofendeis em vossas casas, nos montes e nos campos, conversando, rindo, divertindo-vos e pecando, ao menos não Me trateis assim na minha igreja: guardai aqui silêncio, modéstia e temor; respeitai-Me e temei-Me ao menos no meu Santuário” – Pavete ad Sanctuarium meum. Ego Dominus;3 porém, muitos cristãos com as suas irreverências e pecados dizem o contrário: eu hei de falar, rir, namorar e pecar até na vossa Casa; hei de ofender-Vos em toda a parte, até nas vossas igrejas, até na vossa Real Presença.

Mas, ó ingratidão! Ó maldade a mais execranda! Deus escolhe lugar para aí ser adorado e mais respeitado, e aqui mesmo há de ser mais injuriado! Deus escolhe as igrejas para nelas melhor nos ouvir e despachar graças; e nas mesmas igrejas hão de muitos provocar mais a sua vingança! Ó pecadores, que fazeis com vossas irreverências nas Casas de Deus, senão desafiar a sua ira? Bem o mostrou Ele já no tempo em que andava no mundo; vivendo e morrendo cheio de paciência, não foi assim quando viu alguns judeus no templo de Jerusalém sem respeito; mas fazendo o mesmo Senhor uns açoites de uma corda, os espancou e lançou fora da igreja, dizendo: “A minha Casa é casa de oração, e vós a fazeis casa de ladrões!” E ainda aqui não parou o seu castigo; mas depois, foi arrasada aquela cidade com o seu templo, não ficando pedra sobre pedra, e morrendo milhares de pessoas.

Ai, como Deus castiga os profanadores do seu templo! Por causa de iguais irreverências caiu Constantinopla em poder dos turcos, e outros castigos têm vindo ao mundo; e vós, irmãos meus, não temeis que Deus vos castigue também! Eu vejo também coisas por essas igrejas, que fazem tremer; e vós, pecadores, culpados em tantas faltas na Casa do Senhor, não temeis! Ah! Talvez em castigo já muitas nos nossos dias estejam arrasadas ou demolidas, e outras fechadas, e daqui a alguns anos aquelas outras serão o mesmo. Refere Santo Afonso nas suas Instruções, que em certa igreja, onde se praticavam graves irreverências, aconteceu o seguinte caso: Enquanto o Sacerdote levantava a sagrada Hóstia, esta lhe fugiu das mãos, e se ouviu uma voz, dizendo: “Povo, eu vou-me”; e subindo a mesma Hóstia ao ar, segunda vez se ouviu: “Povo, eu vou-me”; chegando ao teto da igreja, foi repetida a mesma voz: “Povo, eu vou-me”; e logo desapareceu a sagrada Hóstia, e a igreja caiu em cima daquela gente, ficando sepultada debaixo das suas ruínas, em castigo de tantas irreverências e pecados. Ah! E como não temeis vós os mesmos castigos? Muitos cristãos merecem também que Jesus Cristo lhes fuja, e que as igrejas se arrasem em cima deles, pelas irreverências com que nelas estão; e talvez isto aconteça em muitas partes, ou ao menos que estejam inutilizados, fechados, ou destruídos tantos templos.

Ah! Parece-me estar ouvindo agora a Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento a dizer do mesmo modo, e todo agoniado por tantas irreverências: Povo, eu vou-me, eu vou-me daqui embora; eu fujo da tua companhia, porque me desprezas, porque me tratas muito mal até na minha Casa, na minha Real Presença; eu vou deixar tomar posse das minhas igrejas aos ímpios, aos protestantes e hereges, aos meus maiores inimigos; eu vou permitir que eles as arrasem, ou fechem, ou entreguem a usos profanos; eles não me consentirão aqui, nem sequer as minhas imagens, nem as de minha Mãe e de meus Santos; eles me lançarão fora deste Sacrário, e talvez pelo chão: tudo isto eu consentirei em castigo dos teus pecados, que até aqui mesmo cometes: tu falas, e até namoras na minha Casa, como se fosse numa praça; tu tratas-me na minha igreja como um rei de teatro, entrando, ou estando nela como se fosse para uma comédia; tu estás na minha Presença sem modéstia alguma, sem algum respeito; tu deixas-me estar muitas vezes às escuras; tu tens o meu Palácio tão pobre, tão sujo, e tão indecente, que não sofres ter assim a tua casa; tu tratas mais dos teus vestidos, do que dos meus ornamentos sagrados, deixando estar estes tão imundos e tão rotos, que causam nojo; tu choras uma esmola ou reclama, que te seja pedida para o meu culto; enfim, tu tratas-me com o maior desprezo até na minha Casa; tu não és meu amigo, e por isso eu vou-me embora daqui; eu deixo-te, eu fujo da tua companhia, e ficarás sozinho, sem teres quem te valha nas tuas aflições, viverás, e morrerás no pecado, e no meu desamparo.

Ó irmãos meus, já em muitas partes isto tem acontecido em castigo de tantas irreverências; já muita gente chora por não ter o Santíssimo Sacramento na sua freguesia, nem Pároco, nem Missas; já muitas igrejas foram destruídas, outras reduzidas a adegas de vinho, a casa de negócio, a teatros e a coisas profanas; e vós não temeis semelhantes castigos? Ai! Quanto eu os temo, e que brevemente venham sobre nós!!! Não tapeis os ouvidos a estes avisos de Deus; tratai-O com mais respeito na sua Casa daqui por diante; vinde dizer-Lhe como Santo Agostinho: “Agora sim, meu Senhor, conheço o mal, que tenho feito; pela dissolução dos meus costumes violei o vosso Santuário; tenho-Vos ofendido tanto na vossa Casa; mas perdoai-me, porque me arrependo, e proponho emendar-me. Maria Santíssima, valei-me e ajudai-me”. Amém.


Fonte: Pe. Fr. Manoel da Madre de Deus, O.C.D., Práticas Mandamentais ou Reflexões Morais Sobre os Mandamentos da Lei de Deus e os Abusos que lhes são Opostos, Outras Práticas e Missões – Prática 4ª, pp. 28-38. 3ª Edição, Em Casa de Cruz Coutinho – Editor, Porto, 1871.

______________

1.  Jer., 12, 11.

2.  Gên., 28, 17.

3.  Lev., 26, 2.


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