Blog Católico, para os Católicos

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Novena da Natividade de Nossa Senhora.

(Começa no dia 30 de Agosto)


É no século VII que surge a festa da Natividade da Virgem. Dela temos menção no Sacramentário Gelasiano, livro que enumera as festividades da Igreja. O Papa Sérgio I (687-701) prescreveu para o dia de sua celebração uma procissão de rogações. No Oriente, a festa era também conhecida, como vemos de dois Sermões de Santo André de Creta (720).1



Oração

Ó graciosíssima Menina, que em vosso feliz Nascimento consolastes o mundo, alegrastes o Céu, aterrastes o Inferno, trouxestes aos caídos alívio, aos enfermos saúde, a todos alegria: nós Vos suplicamos, com o mais fervoroso afeto que, renasçais espiritualmente por vosso amor, em nossas almas. Renovai o nosso espírito para servir-Vos, acendei o nosso coração para amar-Vos e fazei florescer em nós aquelas virtudes, com que possamos cada vez mais agradar a vossos benigníssimos olhos. Ah, Maria! Sede para nós Maria, fazendo-nos experimentar os salutares efeitos do vosso suavíssimo nome. Seja-nos a invocação deste nome conforto nas amarguras, esperança nos perigos, escudo nas tentações, salvação na morte. Assim seja.


V. O vosso Nascimento, ó Virgem Mãe de Deus.

R. Anunciou alegria a todo o mundo.


Oremos: Concedei, Senhor, aos vossos servos o dom da graça celestial, para que, sendo para eles o Parto da Virgem o princípio da salvação, a solenidade votiva do Seu Nascimento lhes traga o aumento da verdadeira paz. Por Cristo, Senhor nosso. R. Amém.



Ladainha de Nossa Senhora2

(Atualizada)


Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.


Jesus Cristo, ouvi-nos.

Jesus Cristo, atendei-nos.


Pai celeste que sois Deus, tende piedade de nós.

Filho, Redentor do mundo, que sois Deus,

Espírito Santo, que sois Deus,

Santíssima Trindade, que sois um só Deus.


Santa Maria, rogai por nós.

Santa Mãe de Deus,

Santa Virgem das Virgens,

Mãe de Jesus Cristo,

Mãe da Igreja,*3

Mãe de misericórdia,*4

Mãe da divina graça,

Mãe da esperança,*

Mãe puríssima,

Mãe castíssima,

Mãe imaculada,

Mãe intacta,

Mãe amável,

Mãe admirável,

Mãe do bom conselho,

Mãe do Criador,

Mãe do Salvador,

Virgem prudentíssima,

Virgem venerável,

Virgem louvável,

Virgem poderosa,

Virgem clemente,

Virgem fiel,

Espelho de justiça,

Sede de sabedoria,

Causa da nossa alegria,

Vaso espiritual,

Vaso honorífico,

Vaso insigne de devoção,

Rosa mística,

Torre de Davi,

Torre de marfim,

Casa de ouro,

Arca da aliança,

Porta do céu,

Estrela da manhã,

Saúde dos enfermos,

Refúgio dos pecadores,

Conforto dos migrantes,*

Consoladora dos aflitos,

Auxílio dos cristãos,

Rainha dos anjos,

Rainha dos patriarcas,

Rainha dos profetas,

Rainha dos apóstolos,

Rainha dos mártires,

Rainha dos confessores,

Rainha das virgens,

Rainha de todos os santos,

Rainha concebida sem pecado original,

Rainha elevada ao céu,

Rainha do sacratíssimo rosário,

Rainha da família,*5

Rainha da paz,


Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.


V. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.

R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.


Oremos: Senhor Deus, nós Vos suplicamos que concedais aos vossos servos perpétua saúde de alma e de corpo; e que, pela gloriosa intercessão da Bem-aventurada sempre Virgem Maria, sejamos livres da presente tristeza e gozemos da eterna alegria. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.


Canto Final:Consagração à Nossa Senhora”.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.6


____________________

Fonte: Manual dos Congregados Marianos, Edição Oficial, Quarta Parte, XIII, pp. 230-231. Editora Vozes, Petrópolis/RJ, 1938.

1.  Glórias de Maria Santíssima, Santo Afonso Maria de Ligório, 6ª Edição, Ed. Vozes Ltda., 1964.

2.  Com indulgência parcial são enriquecidas as ladainhas aprovadas pela Autoridade competente. Sobressaem-se entre elas as seguintes: do Santíssimo Nome de Jesus, do Sagrado Coração de Jesus, do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, da Santíssima Virgem Maria, de São José e de Todos os Santos (Manual das Indulgências - Normas e Concessões, Cap. Outras Concessões, n. 29, p. 54. 2ª Edição, Ed. Paulus, São Paulo, 1990).

6.  Concede-se indulgência parcial ao fiel que faça devotamente o Sinal da Cruz, proferindo as palavras costumeiras: Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém. (Manual das Indulgências, ob. cit., n. 55).


quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Os Dois Apóstatas.


Numa região da Alemanha setentrional, um Sacerdote chegara a apostatar, aceitando um lugar de pastor protestante.

Um dia, estando hospedado em casa de outro pastor numa grande cidade, foi anunciado que um homem estava para morrer e parecia precisar muito de socorros espirituais.

Não podendo sair o dono da casa, o nosso apóstata foi visitar o enfermo.

Numa casa miserável e obscura estava um velho em estado desolador. O pastor leu alguns trechos da Bíblia; mas o moribundo respondeu: “Estou perdido! Para mim não pode haver perdão! Ai de mim!”

Em vão, o pastor procurava confortá-lo.

O moribundo repetia: “Ninguém pode me auxiliar! Minhas culpas foram enormes! Devo ser condenado!”

Mas, pelo amor de Deus – disse o pastor – por que dizeis isto?

Depois de muita resistência, o velho revelou que era um Sacerdote católico, apóstata, e que os seus pecados o faziam desesperar do perdão de Deus.

Aquela confissão fez uma impressão tremenda na alma do pastor que o ouvia, o qual reconhecendo naquele quadro o estado de sua alma, sentiu renascer a antiga fé e disse: “Amigo e irmão, eu posso ajudar-te, com o auxílio de Deus. Eu também sou um renegado, um excomungado, mas sou sempre um Sacerdote, e posso abrir o Céu a um moribundo”.

Aquelas palavras foram uma mensagem do Céu que consolou o enfermo, que recebeu a absolvição e morreu na paz de Deus. Mas, o pastor abandonou o Protestantismo e se converteu imediatamente. Voltando-se aos colegas de mentiras, disse: “Adeus, meus senhores! Eu volto à Igreja Católica, que tão perfidamente abandonei. A misericórdia de Deus me chama à penitência e ao Céu. Deus queira iluminar a vós também”.1


_____________________

Fonte: Rev. Pe. Geraldo Vasconcellos, “Lições Edificantes”, Coleções de Trechos escolhidos de Revistas, Livros e Jornais, Cap. II - Protestantismo, p. 77. Gráfica Cerbino, Niterói/RJ, 1951.

1.  O Lutador, de 19 de Janeiro de 1936.


O VOO DA ÁGUIA, DO DIVINO AMOR.


De São João Evangelista,

o Discípulo Amado de Cristo.


Residindo na cidade de Éfeso o glorioso São João Evangelista, como já, por sua extrema velhice, apenas pudesse ser levado à Igreja entre os braços de seus discípulos, quanto mais fazer aos fiéis longas práticas e exortações, dizia somente estas palavras:

Filhinhos, amemos uns aos outros”.

Pelo que, enfastiados com a repetição, lhe perguntaram: Mestre, porque nos dizeis sempre o mesmo? Respondeu o Apóstolo uma sentença digna de quem ele era:

Porque é Preceito do Senhor; e, se o cumprirmos, basta”.


ILUSTRAÇÃO E PROBLEMA



§ I

Duas razões da sua repetição, assinou o amado de Cristo: ambas eficazes e vivas, porque ambas verdadeiras e certas.

Primeira: Amemos uns aos outros, PORQUE É PRECEITO DO SENHOR. As últimas palavras com que nossos pais nos admoestam à hora da sua morte, entre saudosas despedidas e doces abraços, ficam altamente gravadas na memória dos filhos e são um como testamento, não escrito em papel, mas aberto nas tábuas do coração. Naquela última noite em que Cristo, nosso Bem, havendo de passar deste mundo para Seu Eterno pai, se despediu de Seus amados Discípulos, lhes disse assim: Mandatum novum do vobis: Ut diligatis invicem, sicut dilexi vos, ut et vos diligatis invicem. In hoc cognoscent omnes quia discipuli mei estis, si dilectionem habueritis ad invicem:1 “Dou-Vos um Preceito Novo, que vos ameis uns aos outros, como Eu Vos amei, para este mesmo fim, de vos amardes reciprocamente. Nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros”. Eis aqui a sabedoria do Eterno Pai em poucas palavras, e em uma só ocasião repetiu três vezes a mesma dileção mútua dos próximos. Que muito era, logo, que, ouvindo esta doutrina o Discípulo Amado, lhe ficasse impresso não só o Mandamento, mas também o modo e forma de o recomendar? As primeiras folhas que vão ao prelo depois de composta a página ficam melhor assinadas e com as letras mais vivas. São João achou-se no Cenáculo, ao estampar-se o Divino Preceito da Caridade, mui perto da forma dele, que era Cristo, tão perto que teve a cabeça sobre o peito onde o original deste Preceito estava, que era o Coração do mesmo Cristo. Que muito que a letra ficasse nele tão clara e viva que nunca lhe caísse da memória nem da língua: Filioli, diligite ad invicem?

Se o manjar é doce e bem sazonado, não o rejeita a língua, ainda que repetido. Não rejeite, logo, também as Palavras de deus, que são mais doces que o favo: Quam dulcia faucibus meis eloquia tua! super mel ori meo.2 Não há coisa mais suave e gostosa que o amor; com uma só gotinha deste mel se adoçam todas as amarguras do espírito e se temperam e levam bem todas as desconsolações e acerbidades do mundo. No Salmo CXVIII, que é uma árvore formosíssima de 22 braços, e consta de 176 ramos, ou versos, apenas deixa alguns de oferecer-nos diverso louvor e recomendação da Lei Divina, à qual umas vezes chama Testamento, Testemunho, Juízo, e Justiça; outras, Equidade, Justificação e Verdade; outras, Ordenação, Preceito, Mandato, Palavra de Deus, Sermão e Caminho. Certo é que não consiste a Lei Divina mais que em Caridade; Plenitudo legis est dilectio;3 porém, como a Caridade é coisa tão gostosa, não causa a repetição fastio, senão a variedade de deleite.4

Das suas palavras conversando com os próximos, disse o Santo Jó, que eram esperadas com tanto desejo e recebidas com tal estimação como a chuva serôdia em terras sequiosas; e que tanto folgavam todos que se lhes mostrasse alegre e benigno, que a luz do seu rosto não caia sobre a terra, isto é, porque se chegavam a gozar mais de perto este favor, como procedido enfim de um varão tão ilustre, tão sábio e tão santo. Oh quanto mais ilustre (ponderemos nós agora), quanto mais sábio e mais santo é Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus Filho de Deus, Sabedoria eterna, Santidade infinita! Dignou-se este Senhor de baixar ao mundo para conversar com os homens; quanta estimação devemos todos fazer de Suas Palavras! Qual é a luz de Seu rosto que nos comunicou, senão a Sua Lei que nos deu? Signatum est super nos lumen vultus tui, Domine.5 E que foi o Sermão da Ceia, onde nos deu o Preceito da Caridade fraternal, estando já de partida para Seu Eterno Pai, senão uma chuva da tarde, de que a secura dos corações humanos muito necessitava? Recebam, pois, esta Lei os homens com sumo afeto e rendimento; não caia a luz de tal rosto baldadamente onde se pise e se despreze. E, se houver dele a estimação que merece, logo não causará tédio por repetida ou inculcada muitas vezes.

Quando o Grão Mogol6 (monarca poderosíssimo nas regiões da Ásia) assiste em seu imperial trono, publicamente cortejado de vinte reis, seus vassalos, e de príncipes sem número, que estão em pé em sua presença, tudo o que fala se toma pontualmente em um memorial de pergaminho, e está um de seus secretários mais autorizado apontando ali fielmente todas as suas palavras. Seja-me lícito fazer desta notícia degrau para subirmos a outra de superior ordem, que vou inculcando. O Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores, Cristo Jesus, estando na sagrada Aula do Cenáculo, e no altíssimo trono de chamas de Sua abrasada caridade: Thronus ejus flammae ignis,7 assistido dos Principados e Dominações celestes, e dos Sagrados Apóstolos, que eram os Príncipes da Igreja, congregados com este Deus de Abraão: Principes populorum congregati sunt cum Deo Abraham,8 proferiu por Sua Sagrada Boca aquela sentença: MANDATUM NOVUM DO VOBIS, UT DILIGATIS INVICEM.9 Achava-se ao Seu lado São João, um de Seus secretários, que a tomou fielmente na memória e a gravou indelevelmente no coração. Se deste a procura copiar nos de seus discípulos, deixem-no, que faz o seu Ofício com amor; e o amor, assim como não se cansa de si mesmo, não se cansa também de repetições, pois as repetições são também amor. Porque a Madalena amava a Cristo, olhou muitas vezes para o sepulcro onde O deixaram: Amanti (disse São Gregório10) semel aspexisse non sufficit; quia vis amoris intentionem multiplicat. Digamos nós também: Porque João amava a Cristo e queria que seus discípulos O amassem mais, amando-se uns aos outros, por isso repete e recomenda este ponto: Amant semel dixisse non sufficit.

Aqui em Lisboa,11 no Convento das Brígidas (que chamamos as Inglesinhas), houve uma Religiosa tão gulosa espiritualmente dos dulcíssimos nomes de JESUS e MARIA, que lhe acharam depois de morta, escritas resmas e resmas de papel só com estes nomes. Não lhe tinha aprovado esta devoção a Prelada; mas o Céu lha aprovou maravilhosamente. Porque um destes livros, que lhe mandou lançar no fogo, não se queimou, e dizem que ainda hoje se conserva. Como se não enfastiava esta alma com tal repetição? Amava as pessoas quando escrevia os nomes; molhava o coração no amor, quando a pena no tinteiro; e, como os afetos dentro sempre marejavam, os dedos fora sempre vertiam: Quia vis amoris intentionem multiplicat. Façamos, pois, conta que os discípulos do Evangelista eram o seu papel (assim chamou também aos seus São Paulo: Epistola nostra vos estis12) e o que em todas estas páginas este sagrado escrivão repetia não era mais que estas duas palavras: DILIGITE ALTERUTRUM: Amai-vos uns aos outros. Porque, como era Preceito do Senhor a quem amava e de quem era amado, e a quem queria que todos amando-se amassem, a força de tanto amor lhe multiplicava a vontade: Vis amoris intentionem multiplicat.

Lá Protogenes costumava dar capas de tinta à sua obra, porque se temia que o tempo a gastasse, e pintava para a eternidade: Aeternitati pingo. Amar o homem a Deus, e por seu amor amar a todos os próximos, é o verdadeiro pintar para a eternidade, e tudo o mais leva o tempo: Omnia praetereunt praeter amare Deum.13

Bem fazia logo este outro melhor Protogenes em dar aos seus quadros (isto é, aos seus discípulos) muitas mãos desta finíssima tinta do amor, repetindo-lhes: Filioli, diligite alterutrum.

Cada dia repetia Galeno os preceitos de Hipocrates, príncipe da medicina. Cada dia (diz Hierocles) se havia de repetir a lei Pitagória, como ela mesma dispunha. Cada dia, por espaço dos primeiros dez anos, aprendiam as vestais os estilos do seu instituto, como lhes deixara ordenado el-rei Numa.14 Quarenta dias a fio, e por muitas vezes em cada um deles, ungiam os egípcios os corpos defuntos, porque deste modo se defecavam e se faziam múmia dura e incorrupta. Cento e quatro vezes no dia devem lembrar-se dos seus deuses os reis do Malabar na Índia; e, para despertador desta obrigação, trazem ao pescoço, enfiadas em cordão de seda, outras tantas pérolas mais grossas e netas.15 E, finalmente, cada manhã olham os pilotos para o polo ártico, porque ali gira a Ursa (que isso quer dizer Arctos), que é o norte, por onde se governam. Vergonha tenho destas comparações aplicadas ao presente intento, pela imensa desigualdade dela. Mas o argumento de menor para maior é eficaz. Oh, grande lástima! A Lei da Caridade, que é universal medicina de nossas enfermidades, e o preservativo de todas as nossas corrupções, e o norte por onde devemos dirigir nossos procedimentos; a Lei da Caridade, que é instituto não só real mas Divino, e por cuja observância nos fazemos divinos e imortais, e comunicamos com nosso criador, por que razão não nos há de lembrar cada dia? Ou porque me hei de enfadar, eu que outrem mo lembre; e mais quando este Preceito me dispõe para a vida eterna; e para as coisas eternas muito mal pode a alma ser instruída senão por meio de coisas contínuas, como gravemente ponderou um douto: Pessime ad aeterna instruimur nisi per continua?16

Porém, se é coisa indigna cair-nos este Preceito da memória, quanto mais indigna será contradizê-lo com a vontade? Quanto pior será quebrantar este instituto com pecados, desviar deste norte celestial com erros, corromper esta unção divina com imundícies, romper este cordão das pérolas de todas as mais virtudes com o furor de nossas paixões rebeladas? Oh, homens: coisa tão santa qual é a Caridade, tão expressamente mandada no Evangelho, tão fortemente persuadida na Cruz, tão copiosamente remunerada no Céu, assim a desprezamos! Não nos merece nosso próximo o perdão da injúria, nem ainda comprado pelo nosso Deus com o perdão das que nós primeiro Lhe fizemos? Não nos merece nosso irmão a correspondência do amor, nem empenhando-se nisso o infinito, que nós a nosso Deus devemos? Onde temos o juízo? Atendamos que o amar-nos mutuamente uns aos outros não é só conselho mas Preceito, e Preceito grave, e não de qualquer superior, mas do Senhor, que o é do Céu e da terra e de todas as criaturas, que só Ele é Senhor: Praeceptum Domini est. E, se teve um ímpio Absalão confiança de que seus criados cometessem um atroz parricídio, só porque ele era quem lhe mandava fazer:17 Percutite eum, et interficite; nolite timere; ego enim sum qui praecipio vobis, oh, que vergonha será não poder Cristo, Senhor nosso, confiar-Se de que nós, criaturas Suas, e Seus remidos, nos amemos uns aos outros, só porque Ele é quem o mandou: Mandatum novum do vobis ut diligatis invicem! Principalmente, que não só o mandou com a palavra expressa, senão que o ensinou com o exemplo vivo, amando-nos primeiro, sendo nós Seus inimigos, e morrendo por nosso amor em uma Cruz; e obedecendo nisso a Seu Eterno Pai, tão voluntariamente, que guardou esta Lei no meio do Seu Coração: Deus meus volui, et legem tuam in medio cordis mei!18 Quanto mais devemos, logo, obedecer a Cristo em um Preceito tão suave e delicioso, e cuja observância é proveitosa, não para Deus, senão para nós mesmos, pois do Senhor necessitam os servos, e não dos servos tal Senhor? Nihil Deus jubet (disse Santo Agostinho) quod sibi prosit, sed illi cui jubet: ideo verus est Deus, qui servo non indiget, et quo servus indiget.19



§ II

A outra razão do Sagrado Evangelista é: Amemos uns aos outros: PORQUE ESTE PRECEITO, SE O CUMPRIRMOS, BASTA. A causa disto ensinou São Paulo aos romanos, dizendo:20 Qui enim diligit proximum, legem implevit. Nam: Non adulterabis; Non occides; Non furaberis; Non falsum testimonium dices; Non concupisces; et siquod est aliud mandatum, in hoc verbo instauratur: Diliges proximum tuum sicut te ipsum: Quem ama o próximo encheu toda a Lei. Porque: Não serás adúltero, nem homicida, nem ladrão; Não levantarás falso testemunho; Não cobiçarás o alheio; e, se mais algum Mandamento há, nesta única palavra se encerra: Amarás a teu próximo como a ti mesmo. Por isso, Orígenes chamou à Caridade epílogo de todos os demais Preceitos, porque, assim como no epílogo se recapitulam todas as demais partes da história ou da ração, assim nesta virtude todas as demais virtudes.

Disse um rabino,21 que na Lei Antiga os Preceitos afirmativos eram 248, porque tantos era os ossos de que o Supremo Arquiteto edificou o corpo humano, e com todos estes devemos louvar a Deus: Omnia ossa mea dicent, Domine, quis similis tibi!22 E que os Preceitos negativos eram 365, porque tantos são os dias do ano, e o guardar-nos de pecado deve ser cuidado e desvelo nosso quotidiano: Quomodo dilexi legem tuam, Domine; tota die meditatio mea est!23 Porém, na Lei da Graça não é necessária esta multidão de Preceitos, pois um só ou dois, que são os da Caridade com Deus e com o próximo, bastam para que todos os nossos ossos sirvam e louvem ao mesmo Deus, e para que todos os dias evitemos o pecado. O ponto está em que esta Lei seja de nós observada; e, para que seja observada, convém que todos os dias nos lembre. Nem é coisa pesada que seja frequente a memória de uma regra da qual a necessidade é contínua.

Tudo o que se admira e louva em uma árvore, frondosa em ramos, alegre em flores, útil em frutos; tudo o que tem de préstimo, ou pela sombra que oferece, ou pelas madeiras que ministra, ou pelas gomas e bálsamos que sua, ou pelos ingredientes medicinais que acompanha, está na semente dela, por maravilhoso artifício de seu Criador: Admiramur (disse Santo Agostinho24) in uno seminis tam parculo grano, omnia quae laudantur in arbore, tamquam liciata latuisse. Tal é a Caridade a respeito da grande ávore das virtudes, cuja proceridade é tanta que toca no Céu, não em sonhos, como a árvore de Nabuco,25 mas realmente: Proceritas ejus contingens caelum. Naquele grãozinho de amor, invisível, mas generosíssimo e fecundíssimo, estão delineadas ou urdidas todas as demais virtudes que, a seu tempo (fomentadas pelo sol da divina graça), vemos brotar em flores e frutos copiosos e utilíssimos. Isto de amar é uma obra em que vão resumidas muitas obras, como todos dias e logo na primeira luz do dia nos ensina a dizer a Igreja, adestrando-nos para tratar, no decurso dele, com os próximos em espírito de amor e suavidade: Opera manuum nostrarum dirige super nos, et opera manuum nostrarum dirige. Há de sofrer o homem muitos encontros e dissabores, que ocorrem entre dia, há de falar verdade, há de observar cortesia, há de dar a esmola, há de acautelar-se de murmurações, etc. Eis aqui muitas obras, nas quais todas necessita de ser dirigidas por Deus: Opera manuum nostrarum dirige super nos. Mas, se ele tiver Caridade, tudo isso fará sem trabalho, porque esta é a única obra em que leva já quase feitas todas as demais obras: Opus manuum nostrarum dirige.

Em Alexandria houve antigamente um famoso ídolo de Serapis, que mandou fazer el-rei Sesostres, pelo célebre estatuário Briaxes;26 e se compunha de todos os metais, pedras e madeiras de maior estimação e preço. A caridade é um admirável simulacro do mesmo Deus verdadeiro: encerra eminentemente todos os metais e pedras preciosas das outras virtudes, que descreveu o Apóstolo,27 dizendo: A Caridade é paciente, é benigna, não contente, não malícia, não se incha, não é ambiciosa nem interesseira, nem se irrita nem imagina mal, tem oposição com todo o pecado e se deleita com a verdade, tudo crê, tudo espera e tudo sofre. Oh, que admirável estátua! Se aquela mandou fazer el-rei Sesostres, esta outra levantou Cristo JESUS, dizendo: Mandatum novum do vobis, ut diligatis invicem. Se naquela era adorado um deus falso, nesta se contempla um Deus verdadeiro, pois Deus é a mesma Caridade: Deus Charitas est.28 Se naquela foi destruída pelo imperador Teodósio, esta outra ninguém a pode destruir: Charitas nunquam excidit.29 Oh, estátua (torno a dizer), verdadeiramente admirável, coloca-te sobre a base do meu coração, para o fazeres firme. A letra, ou inscrição, já está dada pelo Discípulo amado: DILIGITE ALTERUTRUM.


________________________

Fonte: Ven. Pe. Manuel Bernardes, da Congregação do Oratório de Lisboa, “Nova Floresta”, Terceiro Tomo, Letra “C”, Título III – Caridade do Próximo, Cap. XL, pp. 145-155. Nova Edição; Livraria Lello & Irmão – Editores, Porto, 1949.

1.  Joan., XIII, 34.

2.  Salm. CXVIII, 103.

3.  Rom. XIII, 10.

4.  Job. XIX, 23: Expectabant me sicut pluviam, et os suum aperiebant quasi ad imbrem serotinum… Et lux vultus mei non cadebat in terram.

5.  Salm., XLVII.

6.  P. Athan. Kircher, na sua “China ilustrada”.

7.  Dan., VII, 9.

8.  Salm. XLVI, 10.

9.  Joan., XIII, 34.

10.  Homil. 25 in Evang.

11.  “Agiol. Lusitan.” a 4 de Março, letra 1. Chamava-se soror Ângela; e, no tempo da peste grande, viu que um Anjo lançava quantidade de brasas acessas por toda a cidade, reservando este Convento, no qual, com efeito, não tocou a pestilência.

12.  2º ad Cor., III, 2.

13.  S. Boavent., supra Salm. CXIV.

14.  Spondan., Ann. Christ. 34, n. 48.

15.  Paul. Venet., “Rerum Oriental.” 1. III, c. 23.

16.  Euseb., “de arte voluntatis”, 1. II, tom. 80.

17.  2º Livr. Dos Reis, XIII, 28.

18.  Salm. XXXIX, 9.

19.  Apud D. Prosper., in lib. “Sentent”.

20.  Ad Rom., XIII, 8.

21.  Sepher. Ikkarim, lib. III, cap. 28.

22.  Salm. XXXIV, 10.

23.  Salm. CXVIII, 97.

24.  Epist. 49, qu. 1.

25.  Dan. IV, 8.

26.  Spondan., ano 389, n. 15.

27.  1º ad Cor., XV, à V. 4.

28.  I Joan., IV, 8.

29.  1º ad Cor., XIII, 8.


quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Santa Filomena e os Prodígios em Favor dos Meninos.


Nossa querida Santa manifestou sempre uma predileção particular pelas crianças.

Eis aqui alguns fatos que podem servir de prova da proteção que Santa Filomena manifesta para com as crianças em geral:

1. Vivia em Monteforte Rosa Fortunata, de onze anos de idade, filha única e, por isso mesmo, mui querida de seus pais.

Um dia, em que sua mãe a segurava em uma janela, escapou-lhe das mãos e caiu de grande altura. A violência da queda fez despegar-se um pedaço do estuque (reboco), onde, sem dúvida, batera a criança. A mãe solta um grito de desespero, chamando por Santa Filomena, o que faz também o pai, que chegava nesse momento, e corre a recolher a menina, que estava estendida na rua.

Grande foi sua admiração por encontrá-la sem ferida, nem fratura, nem contusão alguma.

Presenciado por muitos o milagre, foi também grande a admiração de todos.

2. Rosa de Lúcia, irmã mais velha de D. Francisco, tinha um filho de oito anos, o qual, acometido de uma dolorosa enfermidade, e apesar dos mais ternos cuidados, ia caminhando para a morte. O menino veio a falecer, com efeito, e a mãe, louca de dor, toma uma imagem de Santa Filomena, põe-na sobre o cadáver, pedindo à Santa, em clamores, que lhe restitua o filho.

Bondade incomparável de Deus! No mesmo instante, como se despertasse de um sonho, a criança abre os olhos e se acha nos braços de sua mãe. Poucos dias depois estava completamente sã.

3. Santiago Elias, menino de doze anos, filho de um médico de Visciano, foi atropelado por um carro, que o deixou semi-morto. Levado para casa, viram que tinha um pé completamente fraturado. A gangrena declarou-se, apesar de todos os cuidados médicos. Tornou-se necessário praticar uma amputação, mas a debilidade do menino não o permitia e estavam forçados a resignar-se com a vontade dele. Chegou, por acaso, à casa o Pe. Sabino Nappo, muito devoto de Santa Filomena, e aconselhou à família a que recorresse a ela. Ajoelharam-se todos, rezaram as ladainhas de Nossa Senhora e algumas orações em honra da Santa, cuja imagem deram ao doente, que a conservou entre as mãos, acariciando-a e falando-lhe em um tom que revelava não sofrer mal algum. Descobrem a ferida para vê-la: a gangrena tinha desaparecido e o pé estava completamente curado.

4. Também foi admirável a graça obtida por uma menina de cinco anos, chamada Filomena. Seja dito de passagem, que a Santa ama particularmente as crianças que recebem seu nome no Batismo. Passando um dia junto de uma fornalha, prendeu-se-lhe a roupa a um ferro que lhe cortou um dedo do pé, na queda. O mal podia ser muito mais grave se sobreviesse a febre, mas à noite, enquanto todos dormiam, a menina viu diante de si uma formosíssima donzela, que lhe disse: Filomeninha, coragem, que eu te curarei!”

A criança grita então por sua mãe, que corre junto com os demais da casa. A criança conta-lhes a seu modo o que viu, deixando toda a família transportada de júbilo e de reconhecimento. Passaram-se, porém, os dias e, se bem que se notassem melhoras na enferma, todos esperavam que a Santa completasse sua obra, restituindo-lhe o dedo cortado, o que fez, realmente, na véspera de sua festa.

5. Em Castello Velho, Dominga Maceia foi a primeira que fez batizar uma filha com o nome de Filomena.

Nossa querida Santa não tardou em manifestar quanto lhe era grata tal homenagem.

Castello Velho é um lugar muito pantanoso e por isso mesmo muito infestado pelos mosquitos e, para evitar suas mordeduras, a mãe cobria todas as noites o berço de sua filhinha com um véu; porém, todas as manhãs o achava descoberto e o véu dobradinho aos pés do leito e nem no rosto, nem nas mãos da criança notava o menor sinal de picada de mosquito. Como isto se verificava todas as noites, os pais não duvidaram em atribuir a Santa Filomena a proteção dispensada a sua filha e propuseram-se leva-la a Mugnano logo que a sua idade o permitisse. Levaram-na, com efeito, três anos depois, ao Santuário; mas, logo que se aproximou do relicário que encerra o Corpo da Santa, principiou a chorar e a agarrar-se ao pescoço de sua mãe. D. Francisco de Lucia e outras pessoas presentes não puderam explicar a causa desse fenômeno, observado pela primeira vez. Os pais voltaram tristes e no dia seguinte a mesma cena se repetiu. Deviam voltar e era-lhes doloroso ao coração não saber a causa de cena tão estranha.

O Senhor lhes valeu, desatando a língua da criança, que até então não tinha podido explicar a causa de seu choro e medo diante da Santa.

Chorava – disse a menina – e não queria me separar de meus pais, porque Santa Filomena queria agarrar-me e dizia-me: – “Não te vás; fica comigo”.

De volta à casa, numa noite, aconteceu que, por descuido, ateou-se fogo num monte de roupas que estava sobre uma cadeira, perto da cama da menina, cujos vestidos estavam também em cima da roupa. Pois, no dia seguinte, achou-se em cinzas a roupa, a cadeira meio queimada e os vestidos da menina intactos.

6. Em Vieste, aldeia que se acha ao sopé do Monte Gargano, morava João Troya e sua mulher, Maria Teresa Bonna, lavradores e bons cristãos, porém, paupérrimos. Vendo-se acossado da miséria, o marido foi à cidade ver se achava trabalho. Durante sua ausência, sua mulher teve um filho. Uma caridosa vizinha assistiu-lhe, mas sua pobreza era tal que não tinha nem um pedaço de trapo velho para enfaixar a criança. A pobre mãe chama por Santa Filomena, a quem pede socorro, e logo acode-lhe à lembrança mandar ver numa água furtada que existia em casa e aonde se atiravam os objetos estragados. Coisa admirável! Lá se encontra um enxoval completo e perfumado para uma criança recém-nascida.

Espalhou-se logo a notícia da maravilha e todos porfiavam por ver e sentir o perfume daqueles panos. A criança foi levada em triunfo para o Batismo, recebendo o nome de Filomena.

Não para aí a ternura de nossa Santa. Na noite seguinte desperta a mãe com o choro da criança, procura-a em sua rede e, não a encontrando, olha para um canto da pobre e desmantelada cabana, e vê – prodígio! – uma moça lindíssima, vestida de branco, que retém nos braços e acaricia sua ditosa filha. Cheia de espanto, alegria e agradecimento, a boa mulher apenas consegue murmurar: Oh! Santa Filomena!...

E Santa Filomena, pois, era ela mesma, abraça e beija a criança, deposita-a no berço e desaparece.

7. Em 1830, celebrava-se em Castello Velho a festa de nossa Santa; a pompa era magnífica e o concurso de povo extraordinário. Os sinos, a todo dobrar, faziam o enlevo de alguns meninos, que, na torre, disputavam a honra de tirar o volante que os punha em evolução. Subitamente, um deles se viu precipitado violentamente lá de cima nas pedras da rua. Todos os seus companheiros julgaram-no morto, pois considerável era a altura. Corre o povo e vê, admirado, que o menino se levanta ufano e corre a toda pressa para subir de novo à torre. Quando contou que era devoto de Santa Filomena e que a invocara na queda, todos reconheceram nela a salvadora e a glorificaram.

Perto daí se tinha passado outro fato semelhante, precisamente na véspera desse dia. Uma menina de nove anos, que estava sobre uma pedra inclinada, caiu, diante de seus pais, em uma vala profunda, e quando eles se aproximaram, acharam-na sem sentidos e quase sem vida.

Cheios de dor, suplicam de joelhos sua Santa Protetora:

– Santa Filomena, boa Santa Filomena, vinde em nosso socorro, salvai nossa filha e livrai-nos dessa desgraça!

A estes clamores, a menina, como que despertando de um profundo sono, chama por seus pais, endireita-se, levanta-se e se atira em seus braços. Estava sã e sinal algum trazia de sua queda.

8. Em 1831, em Nápoles, uma mulher dá à luz uma criança morta.

Desesperada, a aflita mãe lamenta-se e, amorosamente, queixa-se a Santa Filomena.

Por especial favor do Céu, ressuscitou a criança, foi batizada, e viveu ainda trinta e cinco dias. Fez grande sensação na cidade este prodígio e muitos eclesiásticos o publicaram em muitos lugares, em honra da nova Taumaturga.

Nesse mesmo tempo uma pobre viúva, sendo sua pobre filhinha Rosa, muda, e ouvindo dizer que Santa Filomena obrava grandes prodígios, cheia de fé e confiança vai à casa do Cônego Nicolau Lanza, que trabalhava com grande empenho para difundir sua devoção, e lhe valha junto à Santa. O humilde Sacerdote recusa-se; mas, são tantas as instâncias da pobre mulher que por fim, tomando uma estampa, põe-na sobre a cabeça da menina, que estava de joelhos a seus pés, e sem mais preâmbulos, diz-lhe:

– Há quanto tempo não podes falar?

– Fazem tantos meses – disse logo a menina; e continuou falando, com surpresa geral, que foi ainda maior quando se soube terem os médicos declarado incurável o mal.

9. Em Monteforte, um menino de sete anos guardava um pedaço de papel em que fora envolvida uma estátua de nossa Santa, o que ele considerava como preciosa relíquia, e por isso o trazia sobre o peito, junto ao coração. Indo por um cercado, caiu num valado e sua morte seria instantânea, se não fosse Santa Filomena. Alguns camponeses viram-no cair e correram a socorrê-lo. Chamam-no e o menino, tendo respondido do fundo do precipício, atiram-lhe uma corda e dizem-lhe que a amarre do melhor modo que puder. Içam-no com cuidado, até que o retiram.

Grande foi a admiração de todos quando o viram sem lesão alguma, afirmando, ainda, que nada sentia; e mais que tudo causou-lhes surpresa o modo por que fora amarrada a corda que, passando pelo peito, dava-lhe volta ao corpo, e torcia-se por debaixo dos braços, apertada por dois nós atrás do pescoço, mas de modo que não lhe oprimia nem causava mal algum. Interrogado, contou que ao cair invocara Santa Filomena, e que esta lhe aparecera, tomando-o pelos braços e lhe atara a corda que lhe tinham lançado. Perguntando-se-lhe ainda como a tinha visto, o menino disse que ela estava vestida de branco e que seu rosto resplandecia.

10. Foi em Julho de 1832 que se deu este acontecimento, que despertou grande atenção.

Quase ao mesmo tempo uma menina chamada Filomena Magnotti, de cinco anos de idade, assegurava ter visto nossa Santa, que lhe apareceu pouco antes dela deitar-se, e que a repreendeu por uma falta. Seus pais, tendo-a ouvido soluçar, aproximaram-se dela e perguntaram-lhe por que chorava:

É porque Santa Filomena me repreendeu – disse a menina – porque hoje, quando atravessei o pátio, por estar o sol muito quente, cobri a cabeça com o vestido arregaçado (de forma imodesta/descomposta). Disse-me também que, se fizesse isso outra vez, me castigaria.

No mês de Outubro do mesmo ano, desfez-se medonho temporal no Golfo do Adriático, naufragando dois barcos nas costas de Trieste. O grito dos náufragos gelava os corações, e ninguém ousava prestar-lhes socorro. No meio de tal angústia, a multidão agrupada na praia lembra-se de Santa Filomena, e todos imploram juntos sua proteção. Passam-se alguns instantes e os náufragos se veem salvos na praia, confundindo suas ações de graças com as que a multidão dirigia à gloriosa Mártir. Havia ainda, porém, corações alanceados. Paulo Apóstolo, patrão de uma barca, procurava em vão seus dois filhos, o mais velho dos quais contava apenas oito anos de idade. Julgam enxergá-los ao longe, lutando com as ondas. Como salvá-los? Recorrem novamente à Santa:

Santa Filomena, salvai essas pobres crianças! – era o grito geral.

Um dos meninos, o menor, também a invocava, na sua agonia:

Santa nova, que viestes aos Capuchinhos, salvai-nos!

Onda gigantesca e marulhosa encrespa-se, rola e traz brandamente em seu espumoso dorso os dois meninos, que são depositados na praia, sem que sofram o menor mal.

A multidão leva-os em triunfo e nos transportes de júbilo atroam o ar com gritos de alegria, mostrando assim seu reconhecimento à sua gloriosa e sem igual Padroeira.



Reflexões

Se as considerações até aqui apresentadas bastam para nos persuadir que nos devemos tornar santos, pensamos que a própria Sabedoria de Deus se fez Carne e que o Filho único do Pai desceu dos Céus à terra para nos ensinar como Mestre e Senhor. E que veio ensinar-nos? Qual o tema de Suas adoráveis instruções? Uma só coisa – a ciência dos Santos, ciência tão ignorada do mundo, e, no entanto, tão necessária; ciência que Deus queria revelar aos humildes e aos pequenos, mas esconder aos sábios e poderosos deste século. Ciência tão sólida quanto sublime, que aperfeiçoa os homens e os conduz à verdadeira felicidade.

E, com efeito, para entrar no reino dos Céus e merecer lá um lugar, ainda que seja o último, é necessário ser-se santo, e para ser santo não é bastante desejá-lo, é preciso ainda aprender a sê-lo. Quantos não vemos todos os dias que, julgando ter achado a ciência dos Santos, só encontram seus erros! Empenhemo-nos, pois, a aprender solidamente esta ciência, pois, talvez o que até hoje nos tem enlevado à santidade é menos a oposição que para ela sentimos, que a falsa ideia que dela formamos. Talvez que conhecendo-a melhor a amemos mais e, amando-a, a pratiquemos!

Consideremos que, por impenetrável que seja o segredo da Predestinação dos Santos, Deus o revelou, e é fácil conhecer os caminhos que traçou aos Santos e que eles seguiram até chegar ao glorioso termo. E a mais importante regra que eles creram dever praticar é que cada um deve procurar santificar-se no estado em que se acha, pois, não há estado algum nem condição onde não haja Santos. É o Apóstolo quem o afirma: Unusquisque in qua vocatione vocatus est, in ea permaneat apud Deum.

É verdade que São Paulo fala aos novos cristãos; mas estes, antes de o serem, tinham tido sua condição, estado e empregos, e não lhes exigia o Apóstolo que os abandonassem, mas que os conformassem com a profissão de cristão, isto é, que, sem mudar de estado ou condição, fossem sempre o que tinham sido, mas que o fossem por Deus e para Deus, como antes o tinham sido pelo mundo e para o mundo.

Donde se conclui que a Lei Cristã, até mesmo nas suas exterioridades, é perfeitamente conforme ao bom senso e à razão.


________________________

Fonte: “Vida de Santa Filomena – Virgem e Mártir”, Cognominada a Taumaturga do Século XIX, por D. Francisco de Paula e Silva, Bispo do Maranhão, Cap. VIII, pp. 90-103. Editora Vozes, Petrópolis/RJ, 1925.


terça-feira, 9 de agosto de 2022

Rasgos de Justa Severidade de Santa Filomena.


Para acabar de esboçar o rápido quadro que temos traçado da ação prodigiosa de nossa Taumaturga, acrescentamos aqui alguns fatos que mostram quanto Deus é zeloso da glória de seus Santos, e de que modo castiga, muitas vezes, os que os negam e pretendem ridicularizar as obras maravilhosas de que se serve o Céu para patentear o crédito e valimento de Seus escolhidos.

Com data de 1º de Julho de 1833, assim descreve o sr. D. Luiz de Borri, Arcediago da igreja de Ascoli, o fato passado no dia 3 de Maio desse ano:

Uma senhora enviou-me uma relíquia de Santa Filomena, rogando-me encarecidamente que me empenhasse em propagar sua devoção. Isso não me era difícil; mas, em vez de aceder a tão piedoso desejo, guardei a relíquia no meu escritório, e até cheguei a recusá-la ao sr. Bispo Zelli, que mostrou desejo de tê-la para uma solene festa que ia celebrar em honra da Santa.

Muito se falou da minha recusa, e até se chegou a temer algum castigo por parte da Santa.

Pouco me importei com isso; mas não tardei a ver cumprida a previsão e de um modo de que não me esquecerei jamais. Um certo dia, estava lendo em meu aposento, quando, subitamente, minha vista escureceu-se, fazendo-me passar de pleno dia à mais espessa treva. A minha impressão foi a de que recebia o castigo que me haviam anunciado, e meu primeiro impulso foi ir buscar a relíquia. Tremendo, andando às apalpadelas, acho por fim o relicário, e com ele vou ao oratório, onde faço à Santa a mais fervorosa súplica que me podia inspirar minha aflição. No entanto, passava-se o tempo e a minha cegueira continuava. Temendo que fosse mal sem cura, saí fora, em busca de algum consolo. Mas onde encontrá-lo? Mergulhado na mais profunda amargura, volto ao oratório, e, banhado em lágrimas, peço perdão à Santa. No mesmo instante nasce a confiança em minha alma; tomo o relicário para benzer-me, e – oh, dita incomparável! - dissipam-se as trevas, distingo objetos, vejo a relíquia, que aperto aos lábios. Corro então ao palácio, conto ao sr. Bispo tudo quanto acabava de se passar. Ele, sem dizer palavra, olha fixamente para mim e, comovido, manda lavrar uma ata com todas as circunstâncias do prodigioso acontecimento. Tive, assim, a dita de ver que por minha causa se afervorou e propagou em Ascoli a devoção à Santa. O sr. Bispo ordenou-me que fizesse um Tríduo em ação de graças, no qual um eminente orador fez o Panegírico da Santa e referiu o que se tinha passado comigo.

Perto de Mugnano vivia uma família distinta. A senhora recolhera em casa uma pobre enferma, a quem por si mesma prestava todos os serviços. Quando, pouco tempo depois, morreu essa virtuosa senhora, a doente começou a queixar-se amargamente tanto da Providência como de Santa Filomena, chegando até, numa ocasião em que se achou diante da imagem da Santa, a exaltar-se tanto que se pôs a injuriar aquela que, a seu ver, devia ter impedido a morte de sua benfeitora. Este ato escandalizou grandemente aos que o assistiam. Veio a noite e ainda não se tinha acalmado seu rancor; mas, apenas se deita, ouve que a chamam e lhe perguntam: “Conheces-me? Sou a Virgem a quem ousaste ultrajar”.

Era Santa Filomena, cuja voz, atitude e olhar aterraram de tal modo a mulher, que esta caiu desmaiada.

O castigo produziu seu efeito, pois na manhã seguinte mandou a infeliz celebrar uma Missa em desagravo à Santa e daí por diante foi mais humilde e respeitosa para com Ela.

Em Monte Marano, um casal que não tinha filhos prometeu à Santa que, se lhes desse, pôr-lhes-iam seu nome no Batismo e os levariam a Mugnano para render-lhe graças. Foi ouvido o desejo e cumprida a primeira condição. O marido instava pelo cumprimento da segunda, mas a mulher fazia-se de desentendida. Assim decorreram dois anos e a menina crescia no gozo de perfeita saúde, cada vez mais formosa. Souberam que em Castello Velho se preparava uma festa em honra de Santa Filomena e a mulher disse que desejava ir lá para cumprir sua promessa. Em vão disse-lhe o marido que era a Mugnano e não a Castelvetere que deveriam levar a criança; a mulher insistiu e foram, pensando pagar sua dívida; o Céu julgou de outro modo porque, na volta, a menina adoeceu e logo depois morreu. Embora tarde, reconheceram afinal sua falta, pedindo perdão a Deus.

Um cavalheiro bem colocado sofria de um cancro no rosto, que lhe tinha roído até o nariz. Prometeu a Santa Filomena que, se o curasse, dar-lhe-ia uma de suas propriedades. Operou-se o milagre, pois, ao cabo de alguns dias em que esteve se tratando com o azeite de uma das lamparinas que ardem constantemente diante do altar da Santa, o cancro desapareceu completamente.

Era de esperar que o cavalheiro cumprisse sua promessa, mas não procedeu desta forma; e, apesar das muitas vezes que lhe lembraram a dívida, contentou-se em dizer que se trataria disso em seu testamento.

O castigo veio depressa; o cancro voltou, e desta vez todos os remédios e promessas foram inúteis, e o infeliz foi vitimado pela terrível enfermidade.

Igual coisa aconteceu a uma senhora que, acometida de hidropisia, estava à morte.

Algumas amigas, compadecidas, perguntaram-lhe se já tinha recorrido a Santa Filomena e se tratado com o azeite de sua lâmpada; mas, como dissesse que não, aconselharam-lhe que o fizesse, que sararia. Fez, com efeito, esse tratamento e prometeu à Santa um colar de pérolas para a sua festa. E por milagre sarou logo; mas, como acontece muitas vezes, com a saúde veio o esquecimento e por mais que várias pessoas lhe lembrassem a promessa e a obrigação em que estava de cumpri-la, ela respondia que não o faria, porque tinha sofrido perda nos seus bens, o que atribuía à Santa; não reconhecendo que isso era apenas um aviso da Santa. Persistindo, porém, na sua teimosia, reapareceu-lhe o mal com tal insolência, que em poucos dias passou à eternidade.

De não menor rigor usou a Santa contra dois cavalheiros, que demandavam com dois pobres lavradores, e, embora estivessem estes cobertos de razão e defendessem causa justíssima, souberam empregar os dois irmãos, nobres de sangue, mas não de coração, tais artifícios e tanto se valeram de sua posição, que ganharam a causa. Aflitos, os dois pobres lavradores, e quase sem recursos para os grandes gastos da demanda, recorreram à sua Padroeira, para que vingasse sua causa, do que tiveram ciência os dois cavalheiros, que responderam rindo-se e mofando da Santa.

O castigo não se fez esperar, pois, apenas tinham tomado o carro, à porta do tribunal, que um desastre lhes arrancou a vida.

Eu vi – disse D. Francisco de Lucia – esses dois pobres lavradores, que, profundamente impressionados com o fim trágicos dos dois nobres, e completamente esquecidos da injustiça que lhes fora feita, vieram ao santuário rogar por suas almas”.

A mesma sorte teve um indivíduo que se servia de sua fortuna e opulência, para vexar e oprimir seus vizinhos. Sua impiedade era tão manifesta, que até se ria e mofava dos milagres de Santa Filomena. Todos esperavam que o Céu, cansado, por fim, de tanta iniquidade, defendesse sua causa.

Foi o que aconteceu, pois, sem saber por que nem como, espalhou-se pelo povoado o boato de que o mau homem, e pior cristão, não viria à festa de Santa Filomena esse ano. Com efeito, dois meses antes da festa, morreu o sujeito com todos as características de um verdadeiro castigo, o que deu foros de predição ao boato meses antes espalhado.

Fechemos esta série de castigos com este último, que prova mais uma vez, que Deus não deixa impune a perversidade.

Dois irmãos de péssimos costumes tinham-se retirado para uma chácara que possuíam, para se entregarem com mais liberdade às suas desordens. Entre suas vítimas, achou-se uma pobre moça que, ultrajada por eles, suplicou a Santa Filomena que lhe defendesse a honra. Sua oração foi ouvida, pois na mesma noite o culpado ouviu a Santa dizer-lhe imperiosamente, em sonho, que fosse logo reparar o ultraje, sob pena de severo castigo. Três vezes repetiu-se o aviso, e se bem que o outro irmão, com remoques e gracejos, procurasse dissuadir o culpado e desvanecer-lhe o susto e medo, não pode, contudo, apagar-lhe da memória o rosto irado da Santa, que vira em sonhos.

Eu a vi, a vi! – repetia ele com voz surda – e me disse que esta era a última vez que me avisava do tremendo castigo que me espera.

Nessa mesma tarde os dois moços, esquecidos já das impressões da véspera, montam a cavalo e percorrem os prados, em busca de novos passatempos. Subitamente, veem vir a eles três cavaleiros majestosamente vestidos e montados em soberbos cavalos.

A eles – dizem – São Bandidos!

Os desconhecidos desembainham então suas espadas e um deles, com golpe certeiro, racha pelo meio o culpado, que caiu dando um grito de raiva e desespero. O outro, foge a rédea solta. Acode gente e por mais que procurem, só acham o cadáver do desgraçado moço.

Justiça de Deus!”, diziam todos, que sabiam do crime. “Foi aqui que se consumou o crime, e aqui o malvado sofreu o castigo. Pois aqui está ainda a cruz de madeira que a menina trazia ao pescoço!…”.



Reflexões

Para confirmar e robustecer as considerações expostas nas reflexões precedentes, basta acrescentar que muitos se têm santificado no meio dos palácios, das cortes e até no meio dos perigos e dificuldades da profissão das armas; em meio da licença dos acampamentos e dos horrores da guerra; muitos, no meio dos esplendores do trono, praticaram as mais heroicas virtudes, sem fazer exceção da humildade profunda e da mais rigorosa austeridade. E se é assim, por que não poderemos nós outros fazermos o mesmo?

Tal foi o invencível argumento que converteu Santo Agostinho, argumento cheio de consolo para as almas retas, que buscam sinceramente a Deus; mas aflitivo e desconsolador para as almas covardes, e muito mais ainda para as que procuram se desculpar de seus pecados por causa de seu estado ou condição, ou – quem sabe! – ao próprio Deus, que as fez nascer em tal meio.

Este é o erro e a ilusão de muitos, que julgam poder melhor servir a Deus se se achassem em outro estado ou condição, e que, mais livres dos negócios deste mundo, poderiam cuidar mais dos do Céu. Mas, a bem considerarmos essa condição ou estado, de que se fazem um quimérico ideal, não procurando alcançar o fim a que Deus as destinou, não podem, de modo algum, obter os méritos que se arrogam, e por santos que sejam, outros foram os desígnios de Deus; e o estado ou condição em que se acham, embora mais exposto, é o que aprouve à Divina Providência dar-lhes. Foi, pois, para este que Deus lhes preparou Suas graças; é também neste unicamente que devem esperar servir melhor a Deus e trabalhar com mais frutos na própria salvação, tornando-se melhores cristãos, mais desprendidos e mais perfeitos. Assim pensaram os Santos, e é por isso que os encontramos em todas as classes e estados: reis e magistrados, religiosos e seculares, Bispos e Padres, casados e livres, ricos e pobres, senhores e escravos.

Não vai nisto, porém, a condenação a certas mudanças que Deus, na Sua misericórdia, frequentemente opera em favor de Seus escolhidos, mas, sim, para desvanecer as dúvidas e inconstâncias de muitos que, guiando-se pela opinião própria, parecem não desejar melhor situação senão para desvencilhar-se do meio em que seguramente alcançariam sua salvação, e que, desfrutando uma aparente condição de bem-estar, aspiram ser o que não são e não se esforçam para permanecerem cristãmente no seu estado.

Estas reflexões destinam-se ainda àqueles cujas boas intenções não vão além de vagos projetos de uma vida regular, quando alcançarem um estado em que, ou não podem estar, ou não estarão nunca, e por isso, se descuidam de cumprirem os deveres inerentes ao estado em que os colocou Deus e no qual devem permanecer.


Guiai meus passos no caminho que traçastes,

pois, só nele encontrarei felicidade”.

(Salm. 118, 35)


______________________

Fonte: “Vida de Santa Filomena – Virgem e Mártir”, Cognominada a Taumaturga do Século XIX, por D. Francisco de Paula e Silva, Bispo do Maranhão, Cap. IX, pp. 104-115. Editora Vozes, Petrópolis/RJ, 1925.


Redes Sociais

Continue Acessando

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...