Blog Católico, para os Católicos

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

domingo, 31 de maio de 2020

Ao Deus Desconhecido e Misterioso


Como são felizes aquelas duas pessoas!” Comentavam, não sem inveja, os habitantes de uma pequena cidade, onde vivia um par de irmãos.

Ele era o chefe de uma grande filial, e quase não dispunha de tempo suficiente para as refeições. Chegasse, porém, à tarde, cansado e exausto de fadiga, encontrava a casinha feito um brinco. A irmã organizava tudo, com tanto asseio e carinho, que ele se sentia tão bem, a ponto de esquecer os aborrecimentos dos negócios. Nenhum sinal de poeira se encontrava sobre os móveis; ao contrário, ela guarnecia com um ramalhete, e no extremo inverno, ao menos com uma florzinha o aposento do irmão. Uma roupa agradável estava sempre reservada para o repouso dele. Enfim, tudo o que se possa imaginar em comodidade estava preparado.

Quando se aproximava a hora da chegada, corria ela pressurosa da cozinha para a janela, a fim de recebê-lo com o sorriso nos lábios e uma palavra de saudação. O irmão de tal forma já se tinha acostumado a tudo isso, que o recebia com uma indiferença sem par. Nem sequer refletia que toda aquela atividade e gentileza da irmã eram dirigidas, unicamente, a ele. Ignorava que a mana, que o fazia viver como nobre, era miseravelmente pobre. Disposta a fazer qualquer sacrifício pelo irmão, nada mais recebia dele do que a moeda fria para as despesas da casa, e um ou outro presente, por ocasião do aniversário dela ou do Natal. Seu coração só pulsava para os negócios; que restava lá para uma irmã?

Não notava que ela se tornava sempre mais pálida, não sentia como depois de certo tempo, ela devia empregar todas as forças, para comparecer sempre alegre como antes; não reparava como cambaleava pelo quarto, amparando-se aqui e acolá.

E, quando um dia, não pode mais abandonar o leito, ele não deixou de externar um mal humor. O médico, que atestou ser bem sério o estado da doente, ele o reputou, interiormente, por um idiota.

Entretanto, quando depois de alguns dias, viu o cadáver pálido da irmã baixar ao ataúde, ficou abatido e prosternado como um ébrio.

Os dias seguintes mostraram-lhe, bem ao claro, que espírito bom tinha deixado a casa. Só agora ele reconhecia o amor grande e infatigável de sua irmã, amor que antes deixara despercebido e considerara-o tão natural. Ah! Se ela lhe aparecesse uma única vez, para de joelhos, dar-lhe os agradecimentos!

O que acabo de narrar, meu amigo, não é uma novidade. Tu mesmo já viveste este episódio. Ele se repete em todos os lugares, em todas as cidades, em quase todas as famílias. Não é lamentável? Mas, muito mais triste é o fato de não sentirmos aquele amor inflamado que desde o nascimento nos embala, nos protege, e nos acompanha, passo por passo, nesta vida; aquele amor, tão grande como Deus mesmo: refiro-me ao Amor personificado em Deus, – o Espírito Santo. É verdade que ainda pensamos Nele uma vez, na Festa de Pentecostes; talvez um lampejo de sua veneração nos inflamou, momentaneamente, ao recebermos o santo Crisma. Depois disso, tudo caiu no esquecimento. Até mesmo as orações que Lhe dirigimos não nos aquecem mais, nem sequer evocam à consciência a lembrança daquele infinito Amor.

Como aquele irmão “solícito”, que habitualmente presenteava a irmã em determinadas ocasiões, assim também nós, com os corações frios, de quando em vez jogamos uma palavra ao Divino Espírito Santo. Entretanto, Ele nos ama muito mais do que uma mãe nos pode amar. Pois, já nos amava desde toda a eternidade. Foi Ele que formou o nosso ser e nos insuflou o sopro da vida; é Ele a quem todos nós agradecemos os dotes do corpo e as faculdades do espírito. Foi Ele que nos transformou em Templos de Deus, e guarneceu esses Templos com admiráveis prerrogativas. Será possível que só nos lembremos disto tudo, quando Ele se separar de nós, e separar-se para sempre?

Não, seria a perdição eterna!

Por isso, esforcemo-nos por conhecer esse Divino Espírito, esse Espírito misterioso, infinito, eterno, esse Paráclito, que nos foi enviado por Jesus, a ser-nos Guia na encruzilhada desta vida.

A esse fim nos devem conduzir as leituras seguintes.

Quando o grande Apóstolo das Gentes na sua terceira viagem chegou à Éfeso, procurou alguns habitantes, entre os quais supunha, com grande perspectiva, encontrar compreensão para o seu Evangelho.

Encontrou, então, doze homens, mais ou menos, que, mui possivelmente, em uma viagem a Jerusalém, tinham conhecido São João Batista, ouvido suas pregações sobre o Messias vindouro, e recebido o batismo de suas mãos. Achou portanto, entre eles, um terreno favorável. Interrogou-os, então: “Recebestes o Espírito Santo, quando abraçastes a fé?”1 Eles responderam admirados: “Nem sequer ouvimos dizer que há um Espírito Santo”.2 Não tinham, pois, percebido a advertência de São João Batista, de que o futuro Messias havia de batizar em fogo e no Espírito Santo.3

A mesma coisa sucede, hoje, entre os católicos; a doutrina do Espírito Santo e a sua voz nos corações de muitos são ouvidas sem atenção.

Mas a principal solicitude de São Paulo foi, como atesta a sua pergunta aos discípulos do Batista, ministrar-lhes o conhecimento da Terceira Pessoa em Deus, toda sua força e superabundância.

E nomeadamente foi Saõ Paulo o instrumento predileto do Espírito Santo, que não se cansava de indigitar, sempre de novo, o Divino Paráclito, correspondendo ao exemplo do Divino Mestre, que timbrava em inclinar a atenção dos discípulos para o Espírito divino: O Espírito Santo será sempre o Vosso Guia. Quando titubeardes na Missão Divina de pregar, Ele inspirar-vos-á a palavra inflamada e verdadeira.

Será o Paráclito Divino que lhes esclarecerá, plenamente, os ensinamentos de Nosso Senhor, e preserva-los-á do erro. Até mesmo perante reis e príncipes não precisarão temer os pecadores iletrados; pois a autoridade soberana, a Terceira Pessoa do Deus Trino falará por eles.

Não sois vós que falais, mas o Espírito de Vosso Pai é que fala em vós”.4 Quando, em face das dificuldades apostólicas, o temor se acercar deles, ser-lhes-á a força invencível. Em seu nome devem batizar os convertidos, do mesmo modo que em nome do Pai e do Filho.

Tão grande é o Espírito da verdade, que pecados contra Ele não podem ser perdoados. “Quem proferir palavra contra o Filho do Homem será perdoado; mas quem falar contra o Espírito Santo não será perdoado nem neste mundo, nem no futuro”.5 O Divino Salvador chega ao ponto de reputar por um bem a Sua separação dos Apóstolos, porque, por este meio se lhes possibilitará a chegada do Divino Consolador: “É-vos conveniente que Eu vá; porque, se Eu não for, não virá a vós o Consolador; mas, se Eu for, vo-lo enviarei”.6

Quão grande é a consideração em que o Divino Mestre tem o Espírito Santo, expressando estas e muitas palavras; e como soube com isto, acender nos corações dos Apóstolos uma grande ânsia pelo sublime Hóspede! Toda a confiança do Homem-Deus sobre a atividade dos Apóstolos e da Igreja repousa no Espírito Santo. E, realmente, foi em virtude do Espírito Santo que os discípulos renovaram a face da terra. Não é de admirar que São Paulo não se canse de mencioná-Lo em suas pregações e Epístolas.

Ao mesmo escopo devem servir as leituras que seguem. Enquanto os filhos do século são dominados pelo espírito do mundo, queiramos conhecer mais de perto a Terceira Pessoa misteriosa em Deus, e aprender a amá-La. Ela não nos deve mais parecer como uma coisa secundária. A palavra “Espírito Santo” deve encontrar um eco profundo em nossa alma. A oração dirigida a Ele deve tornar-se uma exigência do nosso coração. Sim, queiramos esforçar-nos por fazê-Lo no Amigo inseparável e Companheiro na travessia desta vida.

Quando São Paulo chegou à Atenas, a cidade dos filósofos antigos, encontrou altares, erigidos em honra das diversas divindades. Em um deles deparou com a curiosa inscrição: “Ao Deus desconhecido”. Os atenienses pagãos receavam ter esquecido alguma deidade, e com isso queria aplacar a sua cólera.

Para muitos católicos o Espírito Santo é também um “Deus desconhecido”. Ergamos-Lhe, pois, um Altar em nosso coração. Sim, temos obrigação de fazê-lo, pois somos “Templos do Espírito Santo”.7 É possível que queiramos deixar este Templo completamente vazio? Não, temos de edificar-Lhe um altar, conhecendo-O mais de perto, e tributando-Lhe assim, um culto de maior veneração e amor. Não queiramos unicamente ser portadores do nome de um templo, mas sê-lo na realidade. Rezemos, pois, diariamente ao Espírito Consolador, e pronunciemos o seu nome com muita devoção, para que possamos compreender as leituras seguintes, para que Ele nos ilumine e nos torne partícipes da Sua doutrina.



Ó Deus, que ilustrastes os corações dos Vossos fiéis com as luzes do Espírito Santo, concedei-nos que, no mesmo Espírito compreendamos o que é justo, e nos alegremos sempre com a Sua consolação”. Nós vo-Lo pedimos por Cristo, Nosso Senhor. Amém.



Fonte: Rev. Pe. Agostinho Kinscher, “Dem Unbekannten Gott – Ao Deus Desconhecido”, Cap. I, pp. 7-12. Editora Mensageiro da Fé Ltda. Salvador/BA, 1943.


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1At. 19, 2.
2At. 19, 2.
3Mat. 3, 11.
4Mat. 10, 20.
5Mat. 12, 32.
6Jo. 16, 7.
7I Cor. 6, 19-20.

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