Blog Católico, para os Católicos

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

terça-feira, 13 de outubro de 2020

COMO ESCOLHER O ESPOSO, SEGUNDO A VONTADE DE DEUS E A RETA RAZÃO. (Parte 2)

 

Em que se Mostra com que Disposição,

se há de Abraçar o Estado Matrimonial.


I


Da dignidade Sacramental do Matrimônio, resulta a necessidade de certas preparações e disposições, sem as quais só se achará no mesmo Matrimônio, amargos desgostos. São as seguintes:

1º. Atitude e propensão para este estado.

Nem todos são aptos para todas as profissões. Há vocações diversas, a que se deve atender. O mesmo São Paulo, que proclama o Matrimônio um grande Sacramento, e declara ser esta aliança em tudo digna de respeito, e afirma fazer bem o pai que casa sua filha donzela, acrescenta logo, que melhor ainda faz o pai que, bem estudada a propensão e vontade da filha, não a casa.1 Eu, a respeito das virgens, diz o grande Apóstolo, não tenho preceito do Senhor (que as obriguem a ficarem solteiras); mas é um conselho que lhes dou, fundado na doutrina de Cristo a que sou fiel. E mostra as vantagens da absoluta continência sobre o Matrimônio:

1. Porque é conselho de Cristo.2

2. Porque as virgens estão isentas das contínuas sujeições, cuidados e trabalhos com que andam atribulados os casados.3

3. Porque a continência nos desapega dos bens terrenos e caducos, e deixa mais liberdade para o serviço de Deus.4

4. Porque a virgindade mantém o nosso corpo em maior lustre de pureza.5 Do que tudo conclui o Apóstolo, ser o estado de continência muito mais perfeito.6 Jesus viveu virgem, quis ter Sua Mãe Virgem, amou com predileção a João, o Apóstolo virgem, e declarou que muitos renunciariam ao casamento pelo reino dos Céus.7

De fato, vemos pela história do Cristianismo que, milhares e milhares de criaturas humanas têm sido elevadas, pela ação poderosa da graça do Salvador, acima das fragilidades dos sentidos, vivendo em corpos terrenos uma vida toda celeste. Verdade é ser isto a exceção; mas a exceção existe. O Sacerdócio e a vida religiosa abrem vasto campo às aspirações de muitas almas generosas, que, pelo mais sublime dos sacrifícios, renunciam aos gozos legítimos da família, para viverem só para Deus e para a humanidade. É um fato que não se pode escurecer.

Cada dia, milhares de criaturas amadas saem dos castelos e das choupanas, dos palácios e das oficinas, para dedicar a Deus seu coração, sua alma, seu corpo virginal, sua ternura, sua vida… É a flor do gênero humano ainda ornada com a gota do orvalho que só refletiu o raio do sol nascente, e que nenhum pó terrestre ainda maculou.

Em todas essas nobres noivas de Deus aparece o que quer que seja de intrépido, que é acima de seu sexo. É o próprio da vida religiosa transfigurar assim a natureza humana, dando à alma o que lhe faltaria na vida ordinária; inspira ela a uma jovem virgem não sei que de viril, que a rouba a todas as fraquezas da natureza… mas uma heroína meiga, branda, surgindo dos abismos da humildade, da obediência e do amor, para atingir ao que há de mais potente na humana coragem… O sacrifício que as crucifica é a resposta do amor humano ao amor de um Deus que se crucificou por nós”.8

Portanto, no plano da Providência, nem todos têm de casar-se. É, pois, necessário refletir e ponderar bem primeiro, diante de Deus, ver qual é o estado a que Ele nos chama, dispostos a seguir o aceno divino para onde quer que nos aponte.

Examine cada qual”, diz um sábio autor, “os talentos, inclinações, compleição, forças e razões para um ou outro estado, e pondere bem todas as coisas segundo Deus. Tudo bem considerado, se lhe parece sentir uma certa aversão a algum estado, é de supor que não seja a ele chamado; sentindo-se inclinar para outro, com paz interior, com grande confiança em Deus, com alegria de consciência, pode escolher este, sempre tendo em mira a maior glória de Deus e a sua própria salvação. Nem importa que não seja este estado o mais perfeito, porque o estado mais perfeito não convém a todos. A muitos convém dizer com Ló, fugindo às chamas de Sodoma: ‘Eu não posso salvar-me no monte, aqui está uma cidadezinha, salvar-me-ei nela’.”

As chamas de Sodoma são as concupiscências do mundo, segundo São Gregório; o monte alto, claro, ameníssimo é a pureza da continência; a cidadezinha de abrigo é o casamento. Quem não pode subir àquelas alturas, fique-se com o comum dos homens, cá pela planície, dentro dos muros protetores daquela abençoada cidadezinha.

Este exame é de máxima consequência, pois nada mais desgraçado do que atirar-se alguém cega e temerariamente a um estado a que não se sente propenso. É então que, o casamento se torna, como diz São Basílio, uma oficina de dores.

Grande crime cometem os pais, que obrigam suas filhas e filhos a casar ou a não casar. Torcer e violentar uma vocação é matar uma alma. É atirá-la a um abismo de desgraças e comprometer sua eterna salvação.



II


2º. Boa escolha.

Escolher com diligente cuidado a pessoa a quem se têm de unir. Boa esposa boa fortuna, diz a Escritura: Pars bona mulier bona.9 O acerto em tal escolha é tanto mais importante, quanto se trata da salvação de toda a família. Porque, como diz um sábio intérprete citado por A Lápide, o entrar em casa mulher boa é sinal certo de predestinação para marido e filhos, pelo que Deus a dá aos predestinados. Convém, pois, em assunto de tal monta, obrar com circunspecção, e regular-se pelos Conselhos da eterna Sabedoria.

1. Diz o Gênesis, que Deus deu a Adão mulher semelhante a si: Adjutorium simile sibi,10 semelhante não só na natureza, senão também na condição, para que saibam os que querem casar-se, que só devem escolher pessoa que lhes seja igual; sendo a disparidade das idades, condições, e fortunas manancial fecundo de desordens e desavenças nas famílias.

Velhice e mocidade fazem de ordinário bem triste união, para não dizer, lamentável contraste. Marido fidalgo dificilmente se dará bem com mulher plebeia; e não há quase rica herdeira que não esmague, a cada passo, sob o peso de sua superioridade metálica, o infeliz que caiu em esposá-la, ou antes, em esposar a fortuna dela. Também muitos e gravíssimos danos costumam resultar de casamentos feitos com disparidade de cultos. Em suma, mui difícil é que com qualidades e condições disparatadas se logre formar um venturoso consórcio. Ferro só se liga com ferro, e não com prata e ouro. E quando se tenta esta amálgama contra a natureza aparecem logo divisões e fendas. Assim os casamentos desiguais são cheios de dissenções e discórdias, diz um sábio.

2. Depois, não olhes só para a formosura, e não desejes para esposa uma jovem só pela sua beleza.11 É outro oráculo da Escritura. O que é a beleza? Flor que desabrocha pela manhã e à tarde já está murcha.

Enganosa é a graça e vã a formosura, a mulher temente a Deus essa é que merece louvor, diz ainda a Escritura.12 Comprareis um relógio só porque o vedes de bonito lavor por fora? A primeira coisa é saber se regula. Da mesma forma, na pessoa com quem vos quereis unir para sempre, não haveis de considerar só o dote e garbo exterior, senão, e muito principalmente, os dotes do espírito e do coração.

Que religião tem? Que educação? Que juízo? Que gênio? Que modéstia? Que hábitos de retiro e de trabalho? Isto é o que se deve examinar principalmente e levar muito em conta, o mais é acessório. De que vos serve ter em casa uma Vênus de Milo, mas toda luxos, toda dissipações, toda vaidades, toda caprichos, toda nervos; espinhada, insolente, rixosa, janeleira, ciumenta, inepta, preguiçosa, incapaz de governar casa e de educar filhos? De que serve, por caridade, uma mulher deste jaez? Aquele frescor de mocidade e de beleza ir-se-á dentro em pouco: Doenças, partos, trabalhos (não falando do ultraje dos anos) conseguirá logo desbotar e demolir tudo aquilo. E o que é que vos ficará? Ficar-vos-á uma mulher má para atormentar-vos toda a vossa vida. Ora, diz o Livro Sagrado, que é melhor ir ao deserto habitar com as feras, do que ter em casa uma mulher rixosa e má.13

Tenhamos, pois, por muito bem assentada esta doutrina, que antes noiva menos gentil, mas cheia de virtude, do que uma que seja um sol de formosura, mas de coração mal formado.

Compreendeu isso muitíssimo bem o Imperador Teófilo. Vendo-o sua mãe Eufrosina chegado a idade de tomar estado, chamou-o em particular, e, com porte de mãe e de Imperatriz, isto é, amorosa e ao mesmo tempo cheia de majestade lhe disse: – “Filho meu, é chegado o tempo de dar um sucessor ao Império e um herdeiro aos teus Estados. Todas as mais belas donzelas do Oriente mandei-as chamar a Constantinopla, e se reunirão num salão deste paço. Recomenda-te a Deus para escolheres bem; e sabe que de maior peso é esta eleição, que ter sobre os ombros o Império todo”.

O jovem Teófilo respondeu: – “Minha sempre respeitosa mãe, as senhoras se conhecem melhor entre si, do que as posso conhecer eu; e pois tão extremado desejo do meu bem reconheço em vós, rogo-vos me deis uma instrução sobre assunto que me é de todo estranho”.

– “Muito de boa mente o farei. Eis um papel com os nomes, sobrenomes, vida e costumes de todas as jovens, que se reunirão; quando o tiveres muito ponderado, aqui tens um pomo de ouro todo cravejado de pedras preciosas, para dares àquela que for eleita por ti, em sinal do teu amor”.

Leu e releu o jovem, e quase aprendeu de cor, toda aquela instrução, e vindo o dia aprazado para a feminil reunião, ao entrar e ao passear na sala, ao interrogar ora uma, ora outra daquelas jovens, muitas lhe agradavam grandemente aos olhos, pela beleza, pela vivacidade, pelo trato, fazendo cada qual por pôr em mostra naquele mercado o formoso e bom que tinha.

Encontrou-se a final Teófilo com Teodora. Esta jovem vinha na informação com a nota da mais sisuda, modesta e bem-educada de todas. Combateram um pouco os olhos com o entendimento o entendimento a queria por esposa, mas os olhos iam-se para outra. Depois de longa luta entre o sentido e a razão, aproximando-se Teófilo de Teodora, disse-lhe: – “Se se houvesse de esposar o corpo só, perderíeis minhas núpcias em comparação com alguma outra; mas como o Matrimônio liga em santo nó também as almas, e a vossa sobre todas as outras merece o diadema, Teodora, vós sereis minha e eu serei vosso”. E isto dizendo apresentou-lhe o pomo de ouro.

O que diriam as outras, principalmente as que esgotado haviam caixinhas de arrebiques, deixo-vos a pensar.

Foi esta depois uma das melhores Imperatrizes que se assentaram no trono, e serviu ao esposo não só de mulher, senão também de conselheira e de mãe.

Se por estas regras se governou um sábio Imperador; se estas regras são dadas pelo Espírito Santo, por elas se regulem todos os mancebos no casar-se; e todos os pais e mães as repitam a seus filhos e filhas núbeis, para que deles se possa dizer: Mulieris bonae beatus vir.14

3. Não escolhas para esposa uma jovem que com demasiados mimos foi educada na família. Acostumada a ver fazerem-lhe todas as vontades e condescenderem com todos os seus caprichos, atordoar-te-á cada dia com suas queixas e lamentações, e, incapaz de qualquer sacrifício, te acabrunhará de exigências, contínuas e insuportáveis. Examina devagar, e estuda com cuidado o caráter e os costumes daquela com quem te queres unir; aprecia tudo com calma, sem paixão; consulta principalmente a Deus, Pai das luzes, de quem vem todo o dom perfeito, e assim conseguirás fazer uma excelente escolha.

4. Para abono e segurança de madura reflexão e prudente acerto nesta escolha, é que se requer nos nubentes, certa idade para contrair Matrimônio. Ao sair da adolescência, na primeira mocidade” (diz um sábio moralista) “tem a parte sensível demasiado império. Ligam-se em afeto sob a influência do sexo e do instinto natural, pelas simpatias orgânicas e de imaginação, mais do que por apreço exato das pessoas e das coisas. A vontade não é bastante iluminada, e as mais das vezes sua adesão é resultado de cego impulso e quase de surpresa. Por isto, os casamentos por este teor, formados, são em geral pouco ditosos. Começam a conhecer-se quando já não se podem separar, e o prestígio da paixão que descora com a posse e gasta-se pelo costume, deixa, caindo, a descoberto vícios, fraquezas, ridículos, velados até ali, ou mesmo transfigurados pela ilusão do coração”.

Em verdade, que madureza de pensar pode ter uma mocinha de treze anos, um jovem de quatorze ou quinze, para tratar de negócio de tamanha gravidade, que lhes empenha todo o futuro? Consentir em casamentos precipitados, sob a alucinação passageira da paixão que mais deslumbra e arrasta, e em tão verdes anos, é promover a desgraça dos nubentes e juntamente a da prole que deles tem de nascer. “Com efeito”, como observa um fisiologista nosso muito distinto, “os indivíduos que devem o ser a pais ainda não chegados ao completo desenvolvimento, são notáveis pela debilidade e languidez que forma o fundo de sua natureza íntima. Frutos arrancados prematuramente da árvore da vida, conservam na cor e no suco, o esverdeado e a acidez da imaturidade. Velhos de vinte anos, arrastam penosamente os curtos dias da existência, e sucumbem à primeira enfermidade, vítimas de uma predisposição mórbida hereditária. A prole ressente-se, assim, da precocidade no exercício de uma função que perturbou e inverteu toda a marcha do desenvolvimento natural”.15

5. Pela mesma razão do bem da prole, e por outras muitas tiradas da ordem moral e social, devem-se evitar os casamentos entre parentes. Uma constante experiência prova e que os frutos dessas uniões consanguíneas, principalmente as dos graus mais próximos, saem alguns de constituição caquética; outros afetados de surdez, cegueira ou idiotismo, o que se observa melhor naquelas famílias que de longa data conservam o costume de só se casarem entre parentes.

Vemos, muitas vezes”, diz um sábio Prelado Francês, “essas uniões serem castigadas por desoladora esterilidade, e se por acaso se multiplicam, se repetem a miúdo numa mesma família, têm por efeito ordinário, após várias gerações, o enfraquecimento da constituição física nos filhos, e algumas vezes uma alteração mais deplorável ainda da inteligência e das faculdades morais. É a lei natural que se apresenta aqui perfeitamente acorde com a proibição religiosa; e essa lei, notai-o bem, não é particular e privativa da espécie humana, porém, atinge a todos os seres vivos, em todos os graus, e em todos os círculos da criação, até mesmo aqueles que possuem uma vida grosseira e vegetativa.

Segundo as admiráveis disposições do Criador, o rio da vida não deve sempre banhar as mesmas terras; é necessário que o seu curso seja a cada passo interrompido, para recomeçar de contínuo em novos climas e sob latitudes diferentes. Só por este modo os seres poderão conservar o seu natural vigor e primitiva força: tal é o preceito universal estabelecido por Deus para perpetuação de sua obra.

Se o mal que combatemos persistir a estender-se mais e mais, se sua ação funesta se exercer durante um longo período de tempo sobre os mananciais em que a cada instante se renovam as existências, os séculos vindouros recolherão os frutos deste desvio da ordem, e só contarão em seu seio raças de homens física e moralmente degenerados”.

Tem, pois, a Igreja razão de proibir tais casamentos, e se Ela, pela introdução do casamento civil nestes nossos tempos, e pelo relaxamento dos costumes e das mesmas leis civis em matéria de moralidade, se vê obrigada a mitigar o rigor de sua disciplina, e a conceder frequentes dispensas, isto o faz gemendo, como mãe que se compadece da fraqueza dos filhos, mas sem deixar por isso de manter inviolável o salutar princípio sancionado em sua legislação.

Ela quer que não só a onda da vida se espraie, segundo a lei do Criador, mas que se espraiem as relações sociais, além dos limites estreitos e exclusivos das famílias, promovendo assim o verdadeiro bem dos homens e a prosperidade das nações. Sigam os pais os mesmos conselhos quando tiverem de dar maridos a suas filhas.



III


3º. Reta intenção.

Cumpre entrar no estado matrimonial animado de puras e cristãs intenções.

Primeiro que tudo, não se procure neste estado o que ele não pode dar. Alguns, com a imaginação seduzida por vago sentimentalismo, ou por sonhos dourados de romancistas e poetas, querem achar no Matrimônio só encantos e felicidades. Pensam que se casam para gozar de toda a liberdade, e para passar vida deliciosa, neste novo paraíso terrenal, em que não há nem trabalho, nem serpentes, nem tentações. Depois, quando se acham face a face com a realidade, tão diversa do que imaginaram, então são as decepções amargas, o queixar-se e o lamentar-se de contínuo; mas de quem é a culpa? Quem os mandou acreditar em arroubos poéticos e fantasias românticas? A Igreja certo não os embalou em tais sonhos, e São Paulo diz bem claro, que os que se casam sofrerão tribulações da carne, isto é, mil trabalhos e desgastes que acompanham a vida de família.

O jovem e a jovem cheios de siso e bem aprendidos no Cristianismo, longe de encararem o consórcio como um remanso de sossego, de delícias e satisfações, olham-no, pelo contrário, como um encargo tão honroso como pesado; como um remédio para moderar o excessivo ardor das paixões; como uma sociedade de mútuos socorros nas penalidades da vida; como um ginásio onde se exercitam deveres difíceis, virtudes não comuns; como um meio severo de aperfeiçoar caracteres, quebrar-lhes os ângulos, torná-los pacientes e amorosos; como escada íngreme, porém, bastante clara e segura, por onde se pode se subir ao Céu; enfim, como o manancial da vida, donde têm de sair novas criaturas, que depois de serem a honra da pátria, a glória da Igreja, irão lá em cima ocupar tronos na glória imortal do Criador.

Porém, negociar o Matrimônio, fazer dele uma torpe especulação comercial, um meio, como outro qualquer, de granjear fazenda e cabedais; casar-se, ou fazer casar só em vista do dinheiro, e dominado da infrene cobiça, é querer mesmo atrair sobre tão tristes alianças a maldição do Céu.

Procuremos todos uma só coisa, diz São João Crisóstomo, a virtude, um bom natural, a fim de gozar da paz, de provar as delícias de uma concórdia e afeição perpétuas. Esposar mulher rica, é tomar uma soberana em vez de uma mulher. Já de si têm as mulheres bastante vaidade, bastante pendor a brilhar; se lhes sobrevêm o contrapeso de que falo, como poderão aturá-las os maridos? Pelo contrário, quem recebe mulher de sua condição ou mais pobre que ele, toma um auxiliar, uma aliada; e é verdadeiramente a felicidade que mete dentro de casa. O vexame que causa à esposa sua pobreza, inspira-lhe toda sorte de cuidados e atenções para o marido, a obediência, uma submissão perfeita, e suprime todas as causas de disputas, de rixas, de extravagâncias, de rebelião, une os dois esposos na paz, na concórdia, na ternura, na harmonia. Não é portanto, o dinheiro que havemos de procurar, senão a paz, se queremos achar felicidade. O casamento não é feito para encher vossa casa de lutas e combates, mas para vos procurar um adjutório (auxiliar), para vos abrir um porto, um asilo, para vos consolar na aflição, para que acheis agrado nas conversações de vossa mulher; quantos ricos não se têm visto, opulentados ainda mais pelos dotes das mulheres, mas privados, de um só lance e para sempre, da paz e da ventura, por um casamento que lhes transtornava a mesa em arena, em teatros de contendas diárias! Quantos pobres, pelo contrário, não temos visto, unidos a mulheres ainda mais pobres, que gozam paz e são ditosos na vida; enquanto mais de um rico, no seio da fartura, almeja pela morte, para ver-se livre de sua mulher e só suspira por depor o fardo de tal vida! Tanto é verdade, que de nada serve o dinheiro, quando falta companhia virtuosa!…

Consideremos bem tudo isto, e em vez de procurar a fortuna, procuremos a virtude, a honra, a modéstia. Mulher modesta, virtuosa e cheia de siso (ajuizada), ainda sem fortuna, tirará melhor partido da pobreza, do que outras da riqueza: pelo contrário, mulher educada com mimos, intemperante, aborrecida, achasse embora em casa milhares de tesouros, logo os terá dissipado com a velocidade do vento, e arrojará o marido em inumeráveis males, além da ruína. Não é, portanto, opulência que devemos procurar, mas sim mulher que saiba bem empregar os recursos da família…

O único motivo que vos deve levar ao Matrimônio, é a resolução de fugir ao pecado, de escapar a toda desonestidade; todo o casamento deve tender a este fim, ajudar-vos a ser puros. Ora, assim será, se esposardes mulheres capazes de inspirar-vos muita piedade, muito recato, muita sabedoria. Com efeito, a beleza do corpo, quando não têm a virtude por companheira, pode bem reter um marido vinte ou trinta dias; mas depois, perde o seu império, deixa ver os vícios que a princípio ocultava; e desde então desvanece-se todo o encanto. Pelo contrário, aquelas em que reluz a beleza de alma, nada tem que temer da fugida do tempo, que lhes ministra cada dia, novas ocasiões de descobrir suas belas qualidades; o amor de seus esposos torna-se mais ardente, e os liames que os unem, mais fortes. Neste estado de coisas, e diante do obstáculo deste ardente e legítimo afeto, todo amor impudico é repudiado para bem longe; nem sequer ideia de incontinência entrará no marido ligado à sua esposa pelo amor; até o final persevera-lhe fiel, e assim pela castidade chama sobre sua casa a benevolência e a proteção divina. Eis as uniões que formavam nossos justos dos antigos tempos, mais atentos à virtude que à fortuna”.16

Citarei aqui o edificante exemplo de um pai de família, que, bem-avisado, não se prestou a fazer do casamento da filha um ignóbil negócio.

Era um velho sertanejo que a calamidade da seca fizera descer para o litoral; caráter franco, reto, cheio de fé católica e de nobre valentia, como o geral da nossa gente do centro. Estava ao desamparo, paupérrimo e carregado de numerosa família.

Desta, fazia parte uma filha, já moça, dotada de beleza não comum. Passava o velho pai pela rua mais comercial de uma de nossas Capitais, quando o chama certo negociante, proprietário de uma loja de joias.

– “Chamei-o”, disse, “para pedir-lhe que me dê sua filha em casamento”.

– “Quer o sr. Zombar de meus cabelos brancos, e de minha pobreza?” Perguntou o velho indignado.

– “Não é zombaria, é um projeto sério. A vi e a desejo por esposa. Sou estrangeiro, muito rico; não sou católico. Posso fazer a felicidade dela e de sua família”.

– “Não duvidarei de dar-lhe minha filha, mas, pois me diz que não é católico, então terá de aceitar as condições que lhe forem impostas, para que minha filha não sofra em sua fé”.

– “Isso não”, respondeu o negociante, “eu que lhe trago a fortuna, é que lhe imporei as minhas condições. A primeira é, que ela não porá os pés na Igreja”.

– “Pois, sr. Meu, estas grandezas que estou vendo, este mundo de ouro e de pedrarias que estão reluzindo a meus olhos, para mim são terra, um pouco brilhante, é verdade, mas não passam de terra. Calco tudo isto aos meus pés. Não negocio com meu sangue. Não vendo minha consciência de pai. Guarde sua fortuna; eu guardarei minha filha”.

Oxalá, que tão nobre procedimento seja imitado por todos os pais, e que, nos projetos de casamento, se bem se entenda as justas afeições e a interesses legítimos, tudo se faça com intuitos generosos e com as mais puras intenções!



IV


4º. Vida bem regulada.

Preparação excelente para um bom casamento, é uma vida pura e virtuosa. Uma boa mulher é tesouro tão precioso, que só a dá Deus aos que O temem, em recompensa de suas boas ações. É da Escritura: Boa mulher, boa fortuna, diz o Sábio. E logo ajunta: Deus a dá em quinhão aos que O temem, como prêmio e coroa da boa vida e regulares costumes do esposo. A oração e as boas obras abrem caminho à felicidade.

Vem narrado no Prado espiritual, o caso de um cavalheiro, que logrou venturoso consórcio pela esperança que colocara em Deus, boa vida e esmolas dadas aos pobres. Eis como ele mesmo o conta: “Eu fui filho de um homem ilustríssimo na glória do mundo. E este meu pai era muito inclinado a fazer esmolas, e com larga mão as distribuía aos pobres. Eis que um dia me chamou, e me disse:

Meu filho, que vos será mais grato, e estimareis mais? Que eu vos deixe todo este dinheiro, que como vedes é muito; ou vos deixe a Cristo por vosso Tutor?

Eu, como me contentavam muito as boas ações que meu pai fazia, respondi, que antes queria a Cristo do que todo o dinheiro que meu pai me queria deixar; porque estas riquezas passam, hoje são, e amanhã não são; mas Cristo eternamente é. O que meu pai ouvindo, foi dando então mais livremente, e com mais larga mão aos pobres, de tal maneira que, quando morreu, pouco tinha que me deixar.

Eu então, vendo-me pobre, procedia mais humilde, pondo minha esperança em Cristo, a quem ele me deixara por Tutor.

Havia na cidade, outro cidadão muito rico, e da primeira nobreza, cuja mulher era fiel em Cristo e temente a Deus, e tinham uma filha única. A mulher cuidando na filha, disse ao marido:

Senhor, nós temos só esta filha, e Deus nos deu tantos bens, que ela para casar não tem necessidade de mais nada. Se a casarmos com algum homem destes mais nobres e ricos, que não seja de bons costumes, podem-na tratar mal; busquemos-lhe antes um homem humilde e temente a Deus, que a ame e viva com ela como Deus quer.

Disse, então, o marido:

Parece-me muito bem, Senhora, o que dissestes; ide logo à igreja, e orai a Deus com todo o afeto de vosso coração, e aí vos assentai um pouco, e o primeiro homem que entrar entendei que é o esposo que Deus manda para nossa filha.

Fez a mulher pontualmente (continua o mancebo), o que o marido lhe disse; e orando ela e sentando-se, eu fui o primeiro que entrei. Foi a mulher para casa, e mandou logo um criado que me chamasse, e começou a perguntar de onde eu era:

Eu lhe disse:

Sou desta cidade, filho de fulano. Disse-me ela então:

Daquele esmoler? Eu lhe disse:

Assim é, desse esmoler sou filho. Então me disse:

Senhor, sois casado? – Respondi que não, e lhe contei o que meu pai me dissera. Ela então glorificando a Deus disse:

Adverti que o vosso bom Tutor vos mandou mulher e riquezas para que de tudo useis com temor de Deus.

E me deu sua filha e suas riquezas; e eu agora peço a Deus me conserve fiel até a morte, para que vá pelo caminho por onde meu pai foi”.

(Quem dera que) Assim se dispusessem todos ao casamento como este jovem! Ah! Vós vos admirais, diz um orador sagrado, que sejam poucos os Matrimônios felizes; e eu admiro e pasmo que não sejam ainda em menor número! Que vida fazem os jovens, por amor de Deus? Que vida, como aparelho e preparação ao casamento?

E que vida fazem muitas donzelas antes de tomar estado? E vai enumerando em largas páginas: desobediências contínuas aos pais; desprezo de seus conselhos; insolentes transgressões de suas ordens; agastamentos e queixas pelas mínimas repreensões; nenhum sentimento de piedade; galanteios indecorosos; profanação de igrejas; escândalos nas ruas; rixas; rivalidades; tantas perdas de tempo, de fazenda, de reputação; superstições e sortilégios; familiaridades indiscretas entre os noivos, durante largos anos, passados a esperar melhor emprego; finalmente, entre muitas outras dissoluções, algumas vezes a desonra daquela mesma que vai ser recebida diante dos altares!… em suma, pecados e mais pecados, ofensas e mais ofensas de Deus, eis o que se manda ao Céu, antes do casamento, em vez de orações e boas obras. E é assim que este jovem poderá merecer de Deus boa esposa, e esta donzela um excelente marido?

Entendam bem as mães e as jovens esta importantíssima verdade, conclui o orador que citamos: o meio de obter um esposo, de boas, de excelentes qualidades, não é a imodéstia, o estar todo o dia à janela, nem os olhares livres na igreja e fora da igreja, nem o rir em face de qualquer um, nem vestidos indecentemente decotados, nem galanteios indiscretos. Não se chega a tomar bem um Sacramento por meio de escândalos e pecados. “O bom marido, como a boa mulher, Deus o dará pelas boas obras”.

Estas são, pois, algumas disposições necessárias para se obter um feliz consórcio.



V


5º. Enfim, estado de graça.

A razão é, porque o Matrimônio é Sacramento de vivos, isto é, um Sacramento instituído para aumentar a graça santificante; mas não para produzi-la de novo, depois de extinta na alma; portanto, para recebê-lo com fruto, é necessário ter já a mesma graça; sem o que, se comete um horroroso sacrilégio.

É preciso, pois, preparar-se para este ato solene por meio de uma boa Confissão, e fervorosa Comunhão; que nada é mais eficaz para atrair sobre os nubentes as bênçãos e graças que são necessárias.

Em resumo: antes de casar-vos, examinai bem vossa vocação; fazei uma boa escolha; purificai bem vossa intenção; preparai-vos com muitas orações e boas obras; e entrai, com a graça de Deus, no estado conjugal, que sereis certamente venturosos.



Fonte: D. Antônio de Macedo Costa, “O Livro da Família” – ou Explicação dos Deveres Domésticos Segundo as Normas da Razão e do Cristianismo, Oferecido aos seus Diocesanos, Cap. II, pp. 23-42, 1879.


__________________________________

1.  I Cor. VII, 38.

2.  Ibid. 25, 40.

3.  Ibid.

4.  I Cor. VII, 29.31.

5.  Ibid. 34.

6.  Ibid. 38.

7.  Math. XIX, 12.

8.  Montalembert, Les Moines d’occident.

9.  Eccle. XXVI, 3.

10.  Gên. II, 18.

11.  Eccle. XXV, 28.

12.  Prov. XXXI, 30.

13.  Eccle. XXV, 23; Prov. XXI, 19.

14.  Veja-se Lezioni sacre, vol. I, pag. 57.

15.  Dr. Gama Rosa, Hygiene do Casamento, pag. 20 e 21.

16.  Hom. Sobre o Matrimônio, vol. IV, das Obras Completas.


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