Blog Católico, para os Católicos

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sexta-feira, 31 de julho de 2020

A Alma sem Deus


"Ó, se víssemos a estranha e repentina mudança que passa dentro de uma alma no momento em que perde a graça de Cristo, como ficaríamos assombrados! Mas já que não o podemos ver com os olhos, vejamo-lo de algum modo com o entendimento em uma comparação, e seja esta tirada do mesmo lugar de Ezequiel, como logo apontarei.

Suponhamos que o Sol, assim como uma vez parou ao mandado de Josué, e outra vez retrocedeu à vontade de El-Rei Ezequias, e outras muitas se eclipsou por várias causas, suponhamos, digo, que uma vez desaparecesse ou se apagasse por mandado de Deus, como ficaria todo este mundo envolto em um negro manto de trevas, como andariam os homens atônitos de uma parte para outra, todos a perguntar e nenhum a saber responder nada, salvo que é chegado o dia do Juízo. E que mudanças se seguiram em toda a natureza, desta primeira mudança? As estrelas e a lua não dariam luz, porque toda a luz que dão é emprestada do Sol. Por conseguinte, não influiriam na Terra, porque a luz é o veículo de suas influências. Secariam logo todas as plantas, porque estas influências do Sol e mais astros é que nascem e crescem. Não haveria, logo, animais terrestres e voláteis, porque das plantas se sustentam estes e uns dos outros. Pararia também o movimento do mar, porque este depende da Lua e, por conseguinte, cessariam de correr as fontes, porque estas dependem do movimento do mar pela mesma causa, e corromper-se-iam as suas águas e morreriam os peixes; não teriam os homens nem a luz do fogo por falta de matéria, porque o Sol é o que cria a lenha e os minerais; cessariam os ofícios todos como cessam em um homem cego, pois o Sol é os olhos do mundo, como lhe chamou São Ambrósio. Enfim, tanta diferença haveria deste mundo àquele mundo, como do ser ao perecer, porque o mundo pereceria. Este foi o juízo de São Dionísio, quando viu o eclipse do Sol na morte de Cristo: Aut Deus naturae patitur: aut mundi machina dissolvetur. Uma de duas, (disse aquele filósofo) ou quem fez o mundo é ofendido, ou o mesmo mundo se acaba, porque mundo sem Sol brevemente não será mundo.

Levanta-te agora espírito meu e estronda esta Igreja só com três palavras. Quereis ouvi-las? Cristo Jesus é Sol; o homem é mundo pequeno; logo, o homem sem Cristo é o mundo sem Sol. Cristo é Sol, assim o dizem as Escrituras: Orietur vobis Sol. O homem é mundo pequeno, assim lhe chama os Santos Padres; logo, o homem sem Cristo é mundo sem Sol, assim o convence a força da razão. Pois se Cristo se ausenta de uma alma, exivit, que mudanças haverá nesta pobre alma? Ó, como se diminuirão também as influências e favores de Maria Santíssima, Lua formosa e dos Santos, estrelas brilhantes! Ó, como murcharão as flores das virtudes e os frutos das boas obras! Como se apagará o fogo do amor de Deus! Como se corromperão os costumes! Como cessarão todos os ofícios da caridade e todo o merecimento das boas obras! Como ficará tudo às escuras! Que é isto? Aut Deus naturae patitur, aut mundi machina dissolvetur: ou o Deus deste mundo padece, ou este mundo se acaba. E para falar mais ao certo, ambas as coisas são. Acaba-se e perece esta alma se neste estado fica, porque o homem sem Deus não é nada; e padece o Deus desta alma, porque esta alma ofendeu a Deus. Enfim, que o homem sem a graça de Cristo é o mundo sem o Sol”.


Fonte: Rev. Pe. Manoel Bernardez, Oratoriano, Sermões e Práticas, 2ª Parte, Prática da Dominga da Paixão, Ponto 1343. Cfr. “As Mais Belas Páginas de Bernardes”, 2000 trechos selecionados por Mário Ritter Nunes, pp. 297-298. Edições Melhoramentos, São Paulo/SP, 1966.

terça-feira, 28 de julho de 2020

A VERDADE CONHECIDA, AMADA E SERVIDA.


1ª Parte

EXPLICAÇÃO DO NOME
E DO SINAL DO CRISTÃO.

I

P. Sois Cristão?

R. Sim, pela graça de Deus.

Explicação: O ser cristão é a dignidade maior do homem, é o título de que mais deve gloriar-se. Se não for cristão, pouco importa que seja rico, nobre, ou Rei. Todos estes títulos são humanos. Só o ser cristão dá ao homem um título divino, porque o torna filho de Deus e herdeiro da sua glória. Porém, esta dignidade incomparável não a adquirimos pelos nossos méritos, nem pelos de nossos pais ou ascendentes, senão pela graça de Deus; isto é, por um favor inestimável que Deus nos quis fazer. Nascemos em pecado, como os outros homens, e por conseguinte estávamos tão perdidos como eles; porém, o Senhor, deixando aos outros no seu estado de perdição, olhou para nós com misericórdia, teve compaixão da nossa desgraça, e chamou-nos para sermos cristãos. Que agradecimento poderá ser correspondente a tamanho benefício! Ah! Os dias da nossa vida nunca serão demasiados para darmos graças a Deus por nos haver feito cristãos.

II

P. Este nome de Cristão de quem o tivestes?

R. De Cristo, Nosso Senhor.

Explicação: Dez anos depois de ter Jesus Cristo subido aos Céus, vieram os Apóstolos São Paulo e São Barnabé para a cidade de Antioquia, onde pregaram a fé pelo espaço de um ano, e tendo-se aumentado nela prodigiosamente o número dos fiéis, estes, que até então eram geralmente conhecidos com o nome de discípulos do Senhor, começaram-se a chamar Cristãos, isto é, discípulos de Cristo.1 Tal é a origem deste nome, o mais augusto que os homens têm recebido, e do qual mais devem gloriar-se.

III

P. Que coisa é ser Cristão?

R. É ser Discípulo de Cristo, sendo batizado e professar a sua Santa Lei, até dar a vida por Ele. É ser Homem de Cristo: homem que crê em Jesus Cristo, que professa a sua fé pelo Batismo, e está oferecido ao seu santo serviço.

Explicação: O Cristão é um discípulo de Jesus Cristo, que professa a sua fé e a sua doutrina, e está oferecido para O servir toda a sua vida; é um homem que na pia batismal, na presença dos altares e à vista dos Anjos, tem feito as mais absolutas renúncias e as mais solenes promessas. Ali renunciou a Satanás, protestando que nunca lhe há de obedecer nem condescender com suas malignas sugestões. Renunciou a todas as suas obras, que são os pecados, e tudo quanto provoca para o cometer, e a todas as suas pompas, que são aquelas coisas que alimentam o orgulho e a soberba. Sobre aquela pia sagrada prometeu viver unido a Jesus Cristo, crendo, confessando e praticando sua celestial doutrina. Prometeu amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Prometeu guardar os Mandamentos de Deus e da Igreja, e praticar as virtudes cristãs. Tais são as renúncias e as promessas feitas no Batismo; renúncias e promessas que, para viver cristãmente, convém renovar com frequência, e para esse fim poremos a fórmula seguinte:

Renovação das Renúncias
e Promessas feitas no Batismo

Eu (N.), renovo de todo o meu coração as renúncias e promessas feitas no ditoso dia do meu Batismo. Renuncio outra vez e para sempre a Satanás; detesto todas as suas obras, e prometo resistir com o auxílio de Deus a todas as suas tentações e sugestões. Renuncio as pompas e vaidades do mundo e seus falsos prazeres. Renuncio a loucura de suas modas, as profusões do seu luxo, suas detestáveis máximas, e corrompidos costumes. Prometo viver mais e mais unido a meu Senhor Jesus Cristo, crendo de coração e confessando de boca a sua celestial doutrina. Prometo guardar os Mandamentos de Deus e da Igreja, e praticar as virtudes cristãs. Finalmente, prometo viver como homem de Jesus Cristo, pois estou oferecido desde o Batismo ao Seu santo serviço; assim o ofereço, e assim espero cumpri-lo auxiliado da divina graça. Amém.

IV

P. Qual é o sinal do Cristão?

R. É a Santa Cruz, porque nela morreu Cristo.

Explicação: As nações, os reinos e os povos têm seus sinais que os distinguem. Nós, os Cristãos, somos a nação santa, o reino de Jesus Cristo e o povo da Sua aquisição, e temos por distintivo o Sinal da Santa Cruz. Esta é a gloriosa divisa que desde o princípio do Cristianismo tomaram os Cristãos.

V

P. Por quê?

R. Porque é a figura de Cristo crucificado, que nela nos remiu.

Explicação: Se o povo cristão se tivesse dirigido pela prudência humana, não teria tomado por distintivo a Imagem de Jesus Cristo crucificado no Calvário, senão a de Jesus Cristo glorificado no Monte Tabor; porém, este povo, que nasceu ao pé da Cruz, e que se devia alimentar de seus frutos, escolheu, guiado de uma prudência divina, esta mesma Cruz, que, representando-lhe a Jesus Cristo cravado nela, lhe está sempre a pregar o amor imenso de um Deus, que morre para o salvar.

VI

P. De quantas maneiras usa o Cristão desse sinal?

R. De duas maneiras: Benzendo-se e persignando-se.

Explicação: Os Cristãos, levados de um amor entranhável da Santa Cruz, têm multiplicado quase infinitamente o seu número. Logo tomaram por modelo aquela Cruz adorável, que susteve no Calvário, pendente de seus braços, a Vítima do mundo, e fabricaram à sua semelhança multidão de cruzes, não somente de madeira, como era aquela, senão também de outras matérias mais duradouras ou mais preciosas, isto é, de pedra, ferro, bronze, prata, ouro, segundo a sua piedade ou faculdades; e colocavam-nas nos templos, altares, casas, habitações e dormitórios; sobre as torres, castelos, palácios e edifícios mais elevados; e nas praças, ruas, estradas e sítios mais públicos. Todas as classes do Cristianismo adornaram-se com a Cruz, fizeram um ponto de honra e de religião o trazê-la consigo. Os Pontífices puseram-na sobre suas tiaras, os Reis sobre suas coroas, os Bispos sobre o seu peito, os homens pendente das suas fardas e vestidos, e as mulheres dependuradas em seu pescoço. Prouvera a Deus que não houvesse hoje tantos cristãos, indignos deste sagrado nome, que se envergonham da Cruz de Jesus Cristo, nem tantas cristãs ingratas, que renunciam a honra e a glória de trazerem sobre seu peito a imagem do seu Redentor, colocando no seu lugar imagens pagãs e escandalosas! O uso da Cruz não se tem multiplicado menos que o número das cruzes. Os Sacerdotes, os Bispos, e os Pontífices a usam continuamente na administração dos Sacramentos, no Sacrifício da Missa, e na bênção de todas as coisas sagradas; porém, o uso mais frequente e comum a todos os cristãos é o que chamamos benzer e persignar.

VII

P. Que coisa é Persignar?

R. É fazer três cruzes com o dedo polegar da mão direita, e estendida (e não com a unha); a primeira na testa, para que Deus nos livre dos maus pensamentos; a segunda na boca, para que Deus nos livre das más palavras; e a terceira no peito, para que Deus nos livre das más obras, que nascem no coração, dizendo: Pelo sinal da Santa Cruz, † livrai-nos Deus nosso Senhor, † de nossos inimigos †.

Explicação: Persigna-se o cristão, fazendo três cruzes, bem formadas, na testa, boca e peito, e acompanhando com elas as palavras correspondentes. As cruzes devem ser feitas de alto para baixo, e da esquerda para a direita, com pausa e reverência, porque representam a Jesus Cristo crucificado: e as palavras hão de ser clara e devotamente ditas, porque com elas pedimos a Deus que nos livre de nossos inimigos pela Cruz de Jesus Cristo, seu Santíssimo Filho.

VIII

P. Por que dizemos na testa: Em nome do Pai, e na cintura, do Filho, e do ombro esquerdo ao direito, do Espírito Santo, e não principiamos por alguma das outras Divinas Pessoas?

R. Para que Deus nos livre dos maus pensamentos, e porque o Pai é princípio das outras Divinas Pessoas; e o Filho procede eternamente do Pai, e temporalmente do Ventre da Virgem Maria; e o Espírito Santo procede do amor de entre ambos.

Explicação: A testa vem a ser a fachada do edifício racional, em cujo centro reside nossa alma como no seu trono. Nele forma multidão quase infinita de pensamentos, que umas vezes se encontram e combatem como as ondas do mar agitado, e outras se sucedem com rapidez como as águas de caudaloso rio, ou se sustentam firmes como rochedo no meio da corrente. Mil línguas não seriam suficientes para explicar a multidão de pensamentos que ocupam o homem em cada dia da sua vida. Muitos deles são maus, e talvez a maior parte seja porque nossa corrompida natureza os suscita, ou porque nos encontramos frequentemente com os objetos que nos motivam, ou, enfim, porque Satanás não se descuida em os sugerir. Pois todos esses maus pensamentos são outras tantas tentações para incitar o pecado. E que faremos para nos defendermos de tantos e tão contínuos inimigos? Cobrir-nos e defender-nos, fazendo o Sinal da Cruz na testa.

IX

P. Por que fazeis a Cruz na boca?

R. Para que Deus nos livre das más palavras.

Explicação: A língua é um pequeno membro do nosso corpo, diz o Apóstolo Santiago,2 porém, avança a coisas grandes. Com ela bendizemos a Deus, e amaldiçoamos os homens, que são imagens de Deus. Produz a boa língua, grandes bens, porém, a má causa espantosos males. Terrível é a pintura que da má língua nos faz este Apóstolo. Diz ele: que “é um conjunto de iniquidade, um fogo infernal que inflama o curso da nossa vida, um depósito de veneno que tudo contamina, e um mal inquieto que a ninguém deixa em paz”. E logo acrescenta: “que um cavalo sujeita-se com um freio, e as naus ainda as maiores com um pequeno leme, porém, que nenhum homem é capaz de domar e sujeitar a língua”. Em vista desta pintura quanto não devemos temer o desenfreio da língua? Estampemos, pois, com frequência o Sinal da Cruz na boca, para que Deus nos livre do desenfreio da língua.

X

P. Por que fazeis a Cruz no peito?

R. Para que Deus nos livre das más obras, que nascem do coração.

Explicação: Do coração, diz Jesus Cristo,3 procedem os maus pensamentos, os homicídios, as prevaricações, os furtos, os falsos testemunhos, as blasfêmias… todas as coisas que contaminam ao homem, fazendo-o culpável; e para que Deus nos livre delas fazemos o Sinal da Cruz no peito, que é como a oficina onde o coração as forja.

XI

P. Que coisa é Benzer?

R. É fazer uma cruz com a mão direita estendida, desde a testa até a cintura e do ombro esquerdo ao direito, invocando a Santíssima Trindade dizendo: Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. † Amém, Jesus.

Explicação: Depois de nos termos persignado, fazendo três cruzes sobre aquelas três partes do nosso corpo, em que a alma exerce principalmente suas operações, e armado com elas para nos defendermos do mundo, do Demônio e da carne, nos benzemos, fazendo, desde a testa até a cintura e do ombro esquerdo até ao direito, uma cruz grande que abrange a todas elas, e assim acabamos de nos armarmos para combater pela nossa salvação debaixo da proteção da Santíssima Trindade, em cujo nome nos benzemos.

XII

P. Para que nos benzemos?

R. Para renunciar o Demônio, o mundo e a carne.

Explicação: O primeiro é o Demônio. Este é um Anjo da primeira Hierarquia, que, havendo-se rebelado contra Deus no Céu, dali se despenhou e sepultou no Inferno com uma multidão de Anjos que o acompanharam na sua rebelião. Todos estes Anjos rebeldes, que chamamos, também, de Demônios, presididos por aquele chefe, são inimigos nossos, e constituem o primeiro da nossa alma. O segundo é o mundo, porém, não este globo que nos sustenta, nem esses céus que nos cobrem, senão os homens mundanos que nos rodeiam. A sociedade compõe-se de homens bons e homens maus; de homens que sustentam com o seu bom proceder os bons costumes, e de homens que os corrompem com o seu proceder relaxado; de homens que edificam com suas virtudes, e de homens que destroem com seus vícios; finalmente, compõe-se de homens que guardam a Lei de Deus e formam o número dos bons, e de homens que a quebrantam e formam o número dos maus. Pois esta segunda classe, que com os seus maus exemplos ensina e provoca a pecar à primeira classe, é o segundo inimigo da alma. O terceiro é a carne, não precisamente esta que chamamos corpo humano, senão suas paixões e apetites desordenados. Criado o homem na ordem mais perfeita, perdeu pelo Pecado Original esta maravilhosa ordem. Antes deste imenso pecado, a alma estava gozosamente submissa e obediente a Deus, o corpo à alma, a carne ao espírito, as paixões à razão, e os apetites à vontade. Pois este corpo, esta carne rebelde, à qual chama São Paulo4 aguilhão de Satanás, esta vontade indócil, esta razão soberba, esta imaginação inquieta, estas paixões desordenadas, estes apetites cerebrinos e impetuosos, formam o terceiro inimigo da alma.

XIII

P. E para que mais?

R. Para confessar e nomear as Pessoas da Santíssima Trindade, e os Mistérios da Encarnação, Redenção, Salvação nossa; e juntamente, para confessar que na Santa Cruz † fomos remidos.

XIV

P. Quando nos havemos de benzer?

R. Muitas vezes, mas principalmente, ao entrar e sair da igreja; ao deitar e levantar da cama; quando dermos princípio a qualquer obra; quando nos virmos tentados para cometer qualquer pecado; quando nos virmos em algum perigo.

Explicação: O Cristão deve andar sempre armado com o sinal da Cruz, porque sempre caminha entre inimigos. O lavrador, o artista, o comerciante, o letrado… todos devem começar as suas ocupações com o sinal da Cruz: ao tempo de nos erguermos pela manhã, para dar princípio com ele às obras do novo dia; ao sair de casa, para andarmos defendidos com ele entre os perigos do mundo; ao entrar na igreja, para nos prepararmos com ele para os atos de religião; ao jantar, para que nos conceda o Senhor a temperança na comida e na bebida; e ao dormir, para descansarmos à sombra desta árvore prodigiosa e passar a noite debaixo da sua celestial e saudável influência.

XV

P. Por que tantas vezes?

R. Porque em todo o tempo e lugar nossos inimigos nos combatem e perseguem.

Explicação: Os nossos inimigos nunca dormem, nunca se cansam, nunca deixam de nos perseguir. Tentam-nos em todos os tempos, e por toda a parte; de dia e de noite, na companhia e na solidão, na casa e na rua, e talvez até no templo, porque nada respeitam. Para nos defendermos destes contínuos, empenhados e incansáveis inimigos, é que necessitamos de usar tantas vezes o Sinal da Cruz.

XVI

P. Pois a Cruz tem virtudes contra eles?

R. Sim, Padre!

P. Como é que a Cruz tem essa virtude?

R. Porque Cristo os venceu nela com a Sua morte.

Explicação: Jesus Cristo venceu na Cruz ao Demônio, apagando com o Seu preciosíssimo Sangue a funesta escritura de dívida que o Demônio adquiriu sobre nós pelo pecado, despojando-o do feroz domínio que exercia sobre todo o Gênero Humano e dele triunfando publicamente em Si mesmo, como diz São Paulo.5 Venceu o mundo com o desprezo em que teve suas riquezas, pompas e vaidades, acabando Sua vida santíssima numa Cruz, despido até da Sua mesma túnica. E, finalmente, venceu a carne, cingindo-Se com a Cruz, e crucificando com ela todos os Seus apetites.

XVII

P. Por que nos benzemos com a mão direita, e não com a esquerda?

R. Porque a mão direita em certo modo como mais nobre, representa a Divindade de Cristo.

XVIII

P. Por que razão fazemos nós uma só cruz, da testa até a cintura, e do ombro esquerdo ao direito, se nós já temos feito três cruzes, na testa, na boca e no peito?

R. Porque como no Sinal da Cruz confessamos a Santíssima Trindade, que sendo três Pessoas distintas, se encerram em um só Deus; assim também, tanto valem as três cruzes, como uma, e todas três se encerram em uma.

XIX

P. Quando adorais a Cruz, como dizeis?

R. Nós Vos adoramos, ó Cristo, e Vos bendizemos, porque pela Vossa Santa Cruz remiste o mundo.

Explicação: A morte de Cruz, foi nos tempos antigos um suplício da maior ignomínia. “Maldito é de Deus, o homem que morre dependurado de um lenho”, tinha-se dito mil e quinhentos anos antes que nela expirasse Jesus Cristo;6 porém, depois que este Divino Redentor a regou com Seu Sangue e morreu nela cravado, este objeto da maior ignomínia passou a ser o objeto da maior veneração. Tudo o que o Filho de Deus padeceu na Sua vida mortal veio consumar-se na Cruz, e a Cruz, então, nos representa tudo quanto padeceu por nós o Filho de Deus. Que amável deve ser para nós esta sagrada árvore, que sustentou pendente dos seus braços o preço do mundo! Gloriemo-nos, cristãos, na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Abracemos, beijemos todos os dias da nossa vida, e muitas vezes cada dia, esta Cruz adorável, que há de ser aplicada aos nossos lívidos lábios na hora da nossa morte. Façamo-nos merecedores pelo nosso entranhável amor à Cruz, de que o Soberano Juiz, que morreu nela, olhe para nós como filhos dela, nos julgue como remidos na Sua Cruz, e nos conceda pela Sua santíssima Cruz a entrada na Sua eterna glória. Amém.



Fontes:

Rev.° Pe. Antônio José de Mesquita Pimentel, “Cartilha ou Compêndio da Doutrina Cristã, Ordenada por Perguntas e Respostas”, Cap. I, § I, pp. 25-27. Livraria Chardron, de Lello & Irmão, Ltda. Porto, 1872.

D. Santiago José Garcia Mazo, “O Catecismo da Doutrina Cristã Explicado, – ou Explicação do Catecismo de Astete, as Quais Convém Igualmente ao de Ripalda”, 1ª Parte, Perguntas de I – XVII, pp. 1 – 8. 6ª Edição, Livraria Chardron de Lello & Irmão – Editores, Porto, 1905.


________________
1.  Act. 11, 26.
2.  Ep. Cat., c. III.
3.  Math., 15, 19.
4.  II Cor., 12, 7.
5.  Col. 2, 16.
6.  Deut., 21, 23.



quinta-feira, 23 de julho de 2020

Santa Maria Madalena



Contemplemos esta ilustre penitente, a regar com lágrimas os pés do Salvador e a enxugá-los com os cabelos! É Madalena, outrora escrava do amor profano, e agora esposa de Jesus. Acompanha-O ao Calvário, vai ao túmulo, para lhe embalsamar o Corpo; prostra-se aos pés do Salvador ressuscitado; e, depois da Sua gloriosa Ascensão, retira-se para a solidão, para aí chorar, até à morte, pecados, que sabia terem-lhe sido perdoados. Se a imitamos nos desvarios, imitemo-la na penitência. Amemos muito, para muito nos ser perdoado.

Meditação sobre as Lágrimas
de Santa Maria Madalena.


1. As primeiras lágrimas de Madalena foram lágrimas de contrição. Oprimida pela dor de ter ofendido a Deus, procura Nosso Senhor, encontra-O em casa do fariseu, e aí mesmo faz confissão pública das suas culpas. A partir desse momento, renuncia aos prazeres criminosos e muda de vida. Venturosas lágrimas, que apagastes os pecados de Madalena! Olhos meus, quando chorareis as desordens da juventude? Para que deferir a conversão? Mundo, prazeres, honras, deixo-vos para sempre; deixai-me no futuro chorar os meus pecados, deixai-me, pois, um instante para poder suspirar! – (Jó).

2. Madalena derramou lágrimas de compaixão, quando viu Jesus nas mãos dos algozes. Acompanhou-O até ao Calvário, permaneceu ao pé da Cruz e misturou o seu pranto com o Sangue adorável de Jesus. Todos os dias vemos o Salvador divino pregado na Cruz, todos os dias meditamos na Paixão; porque ficará o nosso coração insensível a tantos sofrimentos? Porque não derramam os nossos olhos, copioso pranto? Ah! É porque não temos por Jesus o mesmo amor que Madalena. A fé desta mulher foi grande, o seu amor ardente, o arrependimento sincero. – (São Lourenço Justiniano).

3. O desejo de ver a Jesus, depois da Ressurreição, fê-la derramar lágrimas sobre o túmulo do divino Mestre. O desejo de O contemplar no Céu fê-la suspirar e gemer na gruta para onde se retirou. Chora de dia e de noite, porque o seu exílio é dilatado, e porque não pode unir-se ao seu Bem-amado. Choramos por bagatelas; quem chora por ter perdido Jesus? Quem chora por estar longe Dele?

PenitênciaOrar pela conversão dos pecadores.


Oração: Ó Deus, que, a pedido da Bem-aventurada Maria Madalena, ressuscitastes Lázaro, seu irmão, há quatro dias morto; fazei-nos sentir os efeitos da sua piedosa intercessão, Vós que sendo Deus, viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. Assim seja.


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Fonte: Rev. Pe. João Estevam Grossez, S. J., “Vida dos Santos – com uma Meditação para cada dia do ano”, 2ª Parte, 22 de Julho, pp. 49-50. União Gráfica, Lisboa, 1928.


terça-feira, 14 de julho de 2020

Festividade de Nossa Senhora do Carmo.



A festa de Nossa Senhora do Monte Carmelo, vulgarmente chamada do Escapulário, é muito célebre e muito autorizada na Igreja.

Havia muitos séculos já que os Padres carmelitas floresciam na Igreja, sobretudo no Oriente, onde mau grado do furor dos bárbaros, sarracenos e muçulmanos, se tinham mantido em cavernas do Monte Carmelo, donde tomaram o nome de Carmelitas.

Havia pois muito tempo que a Santa Ordem dos Padres do Carmelo, tão respeitável, tão célebre por sua especial devoção para com a Santíssima Virgem, florescia no Oriente, quando os europeus, que tinham passado à Palestina para livrar os cristãos e os Lugares Santos da opressão dos infiéis, encantados com a piedade e vida austera destes santos eremitas do Monte Carmelo, lhes persuadiram que passassem à Europa. Vieram com efeito para França por meados do décimo terceiro século com o rei São Luís.

O seu primeiro eremitério estabeleceu-se a uma légua de Marselha. O Santo rei, seu protetor, estabeleceu-os em muitos outros lugares, enquanto que alguns deles passavam à Inglaterra, onde o Céu lhes preparara uma maravilhosa aquisição, cujo mérito e santidade extraordinária deviam ilustrar a Ordem.

Era o célebre Simão Stock, inglês de nação, de uma das mais nobres famílias do país, mais ilustre ainda por sua inocência e alta virtude do que por seu nascimento.

Este Santo foi prevenido desde o nascimento de uma graça tão extraordinária, que logo na idade de doze anos se sentiu chamado ao retiro, e foi conduzido pelo Espírito Santo para um deserto.

Praticou aí desde o começo grandes austeridades; vivia de ervas e raízes somente; uma pequena fonte fornecia-lhe água. Por leito, oratório e cela nunca teve senão um velho tronco de árvore, dentro do qual só podia estar de pé, e mal podia mover-se; é o que lhe fez dar o nome de Stock, que em inglês quer dizer “tronco de árvore”. A oração era todo o seu passatempo. Foi neste exercício que a sua alma adquiriu uma tão grande pureza que os Anjos, aos quais se tornara igual, não o abandonavam quase nunca. A sua ternura para com a Santíssima Virgem, que despontara com a vida, crescia todos os dias com a sua penitência. Os autores da vida deste grande servo de Deus, asseveram que esta Mãe de misericórdia o visitava quase todos os dias em seu retiro, e que ele tivera com o próprio Deus tão íntimas comunicações, que gozava em seu retiro as doçuras espirituais que são como uma prelibação das alegrias do Céu.

Havia já trinta e três anos que levava uma vida tão santa, quando os religiosos do Monte Carmelo, vindos do Oriente, arribaram a Inglaterra, e começaram a assinalar-se por aquele mesmo zelo, que tão célebres os tornara em toda a Palestina.

O nosso ditoso anacoreta foi advertido da sua chegada por uma revelação particular. A Santíssima Virgem fez-lhe conhecer quanto esta Ordem lhe era cara, e que desejava que entrasse nela; saiu, em virtude deste aviso, do seu deserto e foi lançar-se aos pés dos Padres, para abraçar o seu Instituto e submeter-se à sua direção.

Nada prova mais quanto a Rainha dos Céus estremecia esta Ordem do que a aquisição deste seu servo. Simão entrou pois para o Instituto Carmelitano e os companheiros que encontrou não lhe avivaram as saudades dos Anjos que o visitavam na solidão. Logo que fez profissão religiosa, desejou empreender a viagem da Terra Santa para lá haurir o duplo espírito que animou o grande Elias. Visitou, com os pés descalços, todos os lugares santificados pela presença do Salvador; e tendo afinal chegado ao Monte Carmelo, aí se demorou seis anos entregue a um êxtase contínuo. Durante todo esse tempo não teve conversações senão com espíritos celestes. Assegura-se até que a Santíssima Virgem o alimentava de um modo inteiramente sobrenatural. Enfim, de volta à sua querida Inglaterra, por ela derramou esse fogo divino, de que tinha sido abrasado no Monte Carmelo, e com tal sucesso o fez, que essa grande ilha foi inteiramente inflamada; e se era caso de surpresa as maravilhosas conversões que operava, não o eram menos os milagres que as acompanhavam.

Era por estes diferentes graus de perfeição que a graça dispunha este grande servo de Deus para favores do Céu ainda mais assinalados. Com efeito, tendo sido elevado este grande homem por consentimento de todos os seus irmãos ao Cargo de Superior Geral, nada esqueceu do que pudesse contribuir para o aumento da devoção de Maria em uma Ordem que teve a glória de se enflorar com tão grande nome, e que se glorifica de a ter honrado e de lhe ter erigido altares quase desde os inícios da Igreja.

Um zelo tão fervoroso surtiu logo o seu efeito. O Geral teve a consolação não só de ver toda a Ordem inflamada de novo fervor para com a Mãe de Deus, mas de derramar este sumo calor de devoção por entre o povo.

Crescendo a sua confiança à medida do seu fervor, sentiu-se interiormente impelido a pedir à Santíssima Virgem algum novo favor para a sua Ordem, e para os fiéis. Depois de muitos anos de lágrimas e penitências esta Mãe de misericórdia deixou-se dobrar pelas instâncias de seu servo.

A história assegura que lhe aparecera um dia rodeada de grande multidão de Espíritos Bem-aventurados, tendo na mão um escapulário e que lhe dissera estas consoladoras palavras:

Recebe, caro filho, o escapulário que te dou a ti e à tua Ordem, como penhor da minha particular benevolência e da minha proteção. É por esta libré que serão conhecidos os meus servos e filhos. Eis um sinal de predestinação, um penhor de paz e de aliança eterna, contanto que a inocência da vida corresponda à santidade desse hábito.

Todo aquele que tiver a dita de morrer com esse distintivo do meu amor não sofrerá o fogo eterno e por misericórdia de meu Filho gozará a eterna Bem-aventurança”.

Uma revelação tão consoladora e tão interessante, concedida a um varão tão santo, logo que se tornou pública, levou os reis e os povos a porfiarem em se adornarem com o santo hábito, que se olhou como um hábito de salvação, alistando-se ao serviço da Virgem Maria.

Os milagres evidentes que Deus operou para mostrar quanto lhe era grata esta devoção, aumentaram este pio entusiasmo. Assim se pode afirmar que de quantas práticas de piedade se tem inspirado aos fiéis para honrarem a Mãe de Deus, não há talvez nenhuma que, como a do Escapulário, tenha sido confirmada por tantos e tão surpreendentes milagres.

Quantos incêndios extintos por sua virtude? Quantas vezes não foi ele mesmo conservado no meio das chamas? Quantas não tem o fogo respeitado os cabelos, os hábitos daqueles que sem estes seriam devorados? Todos os dias se experimenta ainda de que socorro ele não é nos naufrágios. Haverá poucas pessoas que em lances aflitivos não tenham sido testemunhas do respeito das ondas por aqueles que vestem o santo hábito.

Tem-se visto homens caídos nos rios ou no mar suspensos ao de cima de água por este santo Escapulário; tem-se visto outros que, despenhados para o precipício, têm sido suspensos no ar pelo Escapulário preso a algum penedo; o próprio raio em sua fúria sente a influência deste talismã divino. Quantas febres mortais e contagiosas, quantas doenças incuráveis, violentas tentações, ou de prazer, ou de desespero, têm sido vencidas por este santo hábito? Seria um nunca acabar se quiséssemos referir todos os acidentes lamentáveis, todos os gêneros de morte, de que o Escapulário tem preservado os verdadeiros servos de Maria.

Todos sabem o que aconteceu no último cerco de Montpelier à vista de um exército inteiro. Num assalto foi um soldado apanhado por uma bala mas de nenhum modo ferido: a bala, depois de ter atravessado a roupa, deteve-se com respeito diante do Escapulário e não o penetrou. O rei Luís XIII foi testemunha deste prodígio, e quis desde logo cobrir-se com essa armadura miraculosa, como o tinha feito o próprio São Luís, quando teve conhecimento dela.

Poucos príncipes haverá que não tenham imitado estes exemplos, e vai em quinhentos anos que esta simpática devoção subsiste na Igreja, se difunde, se esperta e aumenta todos os dias com frutos infinitos para os povos.

Não admira pois que, mal tivesse aparecido, recebesse a aprovação dos Sumos Pontífices. A Santíssima Virgem, sabendo bem que as práticas de piedade para serem estimáveis precisam desta confirmação, declarou Ela mesma ao Papa João XXII os privilégios singulares desta devoção, como o afirma em sua Bula, da qual os Papas Alexandre V, Clemente VII, Paulo III, Paulo IV, S. Pio V e Gregório XIII fazem menção nas que expediram a favor do santo Escapulário.

De sorte que se encontram sete grandes Papas que procuraram espalhar esta devoção entre os fiéis por um grande número de indulgências que têm concedido em diversos tempos aos que entram nesta piedosa Confraria. Que penhor da proteção de Maria mais consolador? Que motivo de confiança com melhor fundamento?…

Foi um dos maiores servos de Maria que solicitou este sinal singular da Sua proteção, e nos assegura tê-lo obtido. O Céu tem-no autorizado pela boca dos Vigários de Jesus Cristo e pela voz irrecusável dos milagres. Não há católico que possa duvidar do poder desta prática. Sabe-se como os Santos Padres se explicam a tal respeito. São Boaventura não fixa limites ao poder da Mãe de Deus, senão os da Onipotência do próprio Deus, que não tem nenhum. Santo Antonino assevera que basta que Ela peça para obter. O Bem-aventurado Pedro Damião quer que Ela se chegue ao trono do Filho não como serva, mas como Soberana, como Mãe, não só para pedir mas para exercer um afetuoso império.

Um homem, por quem Maria tenha pedido uma só vez, não poderia ser eternamente infeliz. O Abade Guerric, discípulo de São Bernardo, não se julga menos seguro debaixo da proteção de Maria, do que se estivesse já no Paraíso – Nullatenus censendum est majoris esse felicitatis habitare in sinu Abrahae, quan in sinu Mariae.

Sabe-se quais são os sentimentos do devoto Santo Anselmo a este respeito. Julga impossível que alguém se perca ao serviço desta grande Rainha. É a Ela que dirige estas palavras memoráveis e tantas vezes repetidas: Omnis ad te conversus et a te respectus impossibile est ut pereat. E São Germano de Constantinopla não disse menos do que os outros, quando afirmou que a proteção da Mãe de Deus está acima de toda a nossa compreensão: Patrocinium Virginis majus est quam ut possit intelligentia apprehendi.

Não é somente durante esta vida, que o santo Escapulário empenha a Santíssima Virgem, a derramar os Seus favores liberalmente sobre aqueles que o trazem, é ainda na outra, onde os mesmos, quando tenham sido Seus verdadeiros servidores, experimentam a Sua poderosa proteção. Uma tão poderosa Mãe não poderia ver sem compaixão os Seus filhos gemerem por muito tempo nas prisões do Purgatório. Os tesouros da Igreja que os Sumos Pontífices têm aberto com tanta profusão em favor dos Confrades do Escapulário, a parte que cada um deles tem nas orações e boas obras desta santa sociedade e de toda a Ordem do Carmelo, tudo contribui para o alívio e libertação das Almas dos Irmãos. A Virgem não tirará nunca ninguém do Inferno, mas não lhe faltam meios para impedir que se incorra na impenitência final, contanto que uma falsa confiança não haja conservado no pecado esses fingidos devotos de Maria.1


Meditação Sobre o Escapulário2

1. O bom servo tem muita honra em trazer a libré do seu senhor: devemos ter muita honra em trazer a libré da Rainha dos Céus. Que glória, depois da de servir a Deus, poderá comparar-se com a de ser servo e filho de Maria! E que generosidade a desta boa Mãe para com os cristãos, que a honram! Pelas menores homenagens concede Ela os maiores favores – Santo André de Creta.

2. Mas para gozar das graças anexas ao Escapulário é preciso trazê-lo piamente. E a primeira condição para isso é estar em estado de graça. Como se poderão gozar os favores de Maria, sendo inimigo de Jesus? Não terá sucedido às vezes confiarmos no Escapulário para pecar mais livremente, com o pretexto de que os que o trazem não podem condenar-se? Que indignidade, servir-se da proteção da Mãe para ofender o Filho! Ah! Se estamos em pecado mortal, choremos esse estado, procuremos sair dele, imploremos o socorro Daquela que a Igreja chama Refúgio dos pecadores. Pedirá por nós, e restituir-nos-á a amizade de Deus; porque o Seu poder e a Sua clemência excedem incomparavelmente a multidão dos nossos pecados – São Gregório de Nicomédia.

3. É preciso ainda, se quisermos participar de todas as vantagens do Escapulário, rezar as orações e fazer as boas obras, que foram prescritas, quando fomos admitidos na Confraria. Tantos sacrifícios se fazem para achar garantia contra a miséria; e, para escapar às chamas do Purgatório, hesita-se perante algumas orações, que é preciso rezar, e algumas mortificações, que é preciso fazer! Que remorsos devem ter no Purgatório as almas, que não foram bastante fiéis a essas práticas! Devemos prevenir-nos contra esses remorsos tardios e inúteis, e julguemo-nos felizes por podermos abreviar com tão pouco trabalho, suplício tão horrível.

Devoção ao Escapulário: Orar pela Confraria de Nossa Senhora do Monte Carmelo.

Oremos: Ó Deus, que destes à Ordem do Carmelo a glória insigne de ter o nome da Virgem Santíssima, Vossa Mãe, fazei por Vossa misericórdia que, fortalecidos com a proteção Daquela cuja memória hoje celebramos, mereçamos alcançar a felicidade eterna. Vós que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. Amém.


Foi-lhe dada
a glória do Líbano,
a formosura do Carmelo
e do Saron, aleluia.



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1.  Rev. Pe. Croiset, "Ano Cristão", Vol. VII, 16 de Julho, pp. 214-218. Traduzido do Francês e Adaptado às últimas Reformas Litúrgicas pelo Padre Matos Soares, Tipografia Porto Médico Ltda., Porto, 1923.

2.  Rev. Pe. João Estevam Grossez, S.J., "Vida dos Santos com uma Meditação para cada dia do ano", Segunda Parte, 16 de Julho, pp. 35-36. Edição Portuguesa, União Gráfica, Lisboa, 1928.


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