Blog Católico, para os Católicos

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

São Jerônimo, Confessor e Doutor da Igreja.


Assim como fomos aprovados por Deus,

para nos confiar o Evangelho,

assim falamos, não para agradar aos homens,

mas a Deus, que vê o íntimo dos corações”.1


A vida de São Jerônimo, homem rico da Panónia, que em Roma se fizera batizar, é uma série ininterrupta de trabalhos empreendidos para glória de Deus. Secretário do Papa São Dâmaso, ensinou a Sagrada Escritura e traduziu-a em latim, fazendo a sua famosa Vulgata, que o Concílio de Trento aprovou. Foi também o flagelo das heresias. A sua austeridade, os continuados jejuns e o zelo pela conversão das almas, ensinam a virtude e o Evangelho com mais eloquência ainda do que as suas palavras. Morreu em 420, com 89 anos.


Meditação sobre São Jerônimo


1. Este Santo Doutor abandonou a leitura dos autores profanos, pela qual tinha uma espécie de paixão, para se entregar inteiramente ao estudo dos Livros Santos. Até quando procuraremos no estudo a satisfação e o interesse? Examinemos a que tendem as nossas vigílias e trabalhos, e procuremos santificá-los pela retidão das intenções. Lembremo-nos sempre de que é preciso ligar mais importância à virtude do que à ciência. Ama a ciência, mas prefere-lhe a caridade – Santo Agostinho.


2. São Jerônimo deixou a cidade eterna, onde estava no apogeu das honras, e foi procurar, na solidão de Belém, um abrigo contra os perigos do mundo. Examinemos as ocasiões que temos para ofender a Deus, e deixemo-las. Foi no deserto que Jesus e um grande número de Santos depois d’Ele, triunfaram dos seus ataques. A glória do deserto é triunfar do Demônio, que venceu nossos pais no Paraíso terrestre – Santo Euquério.


3. Foi o pensamento do juízo final, que levou este Santo a retirar-se à solidão, e a fazer atos da maior e mais dura mortificação. É preciso que o som da trombeta terrível, que nos deve citar para o tribunal de Deus, nos retina constantemente aos ouvidos. Estamos prontos a dar contas da nossa vida? Pensemos nisso a toda a hora do dia: devemos tremer, a exemplo deste Santo: deixemos os prazeres e abracemos a Cruz. Quando o som da trombeta fizer tremer a terra e os que nela habitam, estareis alegres – São Jerônimo.


Pensamento do Juízo Final – Orar pela boa educação da juventude.


Oração


Ó Deus, que Vos dignastes conceder à vossa Igreja um admirável intérprete da Sagrada Escritura, na pessoa do vosso Confessor São Jerônimo; ajudai-nos, pela sua intercessão, a pôr em prática, o que ensinou por palavras e ações. Por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.



Fonte: Vida dos Santos – com uma Meditação para cada dia do ano, pelo Rev. Pe. João Estevam Grossez, S.J. Segunda Parte, pp. 195-196. Edição Portuguesa, Propriedade exclusiva da “União Gráfica”, Lisboa, 1928.


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1.  I Tes. II, 4.


NOVENA EM HONRA DE SÂO FRANCISCO DE ASSIS. (6º Dia)


ORAÇÕES1

para todos os dias da Novena


V. Vinde, ó Deus em meu auxílio.

R. Senhor, apressai-Vos em socorrer-me.

V. Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.

R. Assim como era no princípio, agora e sempre, por todos os séculos dos séculos. Amém.


Oração Preparatória


Ó Deus, que nos destes, no vosso grande servo São Francisco, um modelo sublime da imitação de Cristo, dai-me a graça de meditar, com o coração devoto e dócil, as suas excelsas virtudes, para que, movido pelo seu exemplo e ajudado pela vossa divina graça, comece seriamente a emendar a minha vida, fugir do pecado, praticar a virtude, e aspirar, decidida e constantemente, à perfeição cristã, a fim de que, sendo imitador de São Francisco aqui na terra, mereça ser, um dia, admitido à participação de sua glória no Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.


Oração a São Francisco2


Glorioso Patriarca São Francisco, a quem o Senhor, por um prodígio de graças, se dignou tornar, desde o berço até à morte, uma viva imagem Sua, vós, que a Ele consagrastes todo o vosso coração e todo o vosso ser, e protestáveis desejar fazer por Ele, mediante o seu divino auxílio, obras cada vez maiores, dignai-vos, ó grande Patriarca dos pobres, lá dos Céus onde estais, lançar sobre nós a vossa bênção. Por aquele divino amor, que tanto vos abrasava, pelo qual pedíeis a Deus a graça de morrer por seu amor, como Ele tinha morrido pelo vosso, e pelo qual vos imprimiu as Suas cinco Chagas, lembrai-vos de nós. Rogai, ó grande Santo, pela Santa Igreja, da qual o Senhor vos quis fazer forte e inabalável coluna. Rogai à Virgem Santíssima da Conceição, à doce e excelsa Maria, poderosa protetora das Vossas três Ordens, que proteja o Sumo Pontífice, Chefe visível da Igreja, e alcance que essa Igreja triunfe sobre seus inimigos e, reunindo em seu seio os seus filhos, chame também a si todos aqueles que dela se acham extraviados; e igualmente os que ainda jazem nas trevas do paganismo, para que todos juntos cantemos no Céu eternamente as misericórdias do Senhor. Amém.


SEXTO DIA


São Francisco,

Espelho de Pureza.


1ª Meditação. “Jesus, amador da castidade”, assim nos faz rezar a Santa Igreja, na Ladainha do Santíssimo Nome de Jesus, lembrando-nos, com estas palavras, que para sermos discípulos e amigos de Jesus, devemos amar a castidade, a santa pureza. Também São Francisco, imagem viva do Crucificado, foi ardente amante desta virtude, verdadeiro espelho da pureza. É ele um dos felizes que saíram vitoriosos do combate contra a carne, conservando sempre intacto o belo lírio da virgindade.


Também na sua mocidade, no meio de tantos perigos a que estava exposto, São Francisco sempre viveu casto e puro, passando por todas as seduções do mundo, sem manchar jamais a cândida veste da santa pureza. Jamais consentia que em sua presença se proferisse uma só palavra livre ou indecente, e seus amigos, que bem conheciam os seus nobres sentimentos, sabiam respeitar-lhe a vontade.


Tendo São Francisco, mais tarde, renunciado ao mundo e aos seus prazeres, crescia também e, aumentava dia a dia seu amor e afeto pelo lírio da castidade, de maneira que, pouco a pouco, todo o seu exterior e, em particular, o seu rosto parecia refletir a pureza do coração.


Sua alma, inocente e cândida, transluzia-lhe em todas as palavras e ações, exercendo um encanto misterioso até sobre a natureza e sobre os irracionais. Os passarinhos do céu e as próprias feras da floresta pareciam perder, na presença de São Francisco, o seu medo natural, aconchegando-se a ele e escutando-lhe a voz! “Todas as criaturas – diz São Boaventura – eram obediente a São Francisco, porque este submetera a carne ao espírito, e o espírito a seu Deus e Criador”. Era a sua inocência quase paradisíaca, como que encantando tudo ao seu redor.


Não pensemos, entretanto, que São Francisco tivesse podido conservar a bela flor da pureza sem esforço ou sem combate. Seria puro engano! Como todos os mortais, também ele teve que passar por estes combates e tentações da carne, que se tornaram, às vezes, gravíssimas. Mas sempre soube vencer; soube sair vitorioso de todos esses combates. Como? Com as duas armas que Jesus Cristo mesmo nos indicou, quando disse aos Apóstolos: “Esta espécie (dos espíritos imundos) não pode ser expulsa senão pelo jejum e pela oração”.3 Assim, conseguiu São Francisco subjugar a carne e vencer as suas tentações, pela oração e pela mortificação, chegando a tal pureza de coração que, com razão, é chamado “espelho de pureza”.


2ª Meditação. Bem-aventurados os limpos de coração – disse Nosso Senhor Jesus Cristo – porque eles verão a Deus”4, significando-nos que, quem quer chegar à visão beatífica de Deus, Santíssimo e Puríssimo, deve ser, nesta vida, puro, limpo de coração. Felizes aquelas almas privilegiadas que, por toda a vida, desde o berço até à sepultura, conservam intacto e sem mancha o belo lírio da virgindade, como fez São Francisco Seráfico! Mas, felizes também aqueles que, qualquer que seja a sua vocação e posição neste mundo, guardam fielmente a castidade do seu estado, servindo a Deus de coração puro. Já desde esta vida são eles verdadeiramente felizes, gozando sempre a paz da alma, fruto precioso de uma consciência pura. Já neste mundo a sua geração é – como diz o Espírito Santo – “reconhecida (honrada) por Deus e pelos homens”5, e na eternidade verão a Deus numa glória especial, cantando um cântico que só será dado cantar às almas puras e inocentes.6


Ai, porém, dos infelizes que, perdendo o tesouro precioso da santa pureza, se entregarem ao vício abominável da desonestidade, desprezando a castidade do seu estado! Ai, deles já nesta vida, e mil vezes ai, se assim entrarem na eternidade, pois desde aqui na terra o fruto da impureza é a infelicidade, a desgraça, a miséria espiritual; e no outro mundo? – “a sua parte – diz o Espírito Santo – será no tanque ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte”.7


Cautela, pois, cuidado com a serpente perigosíssima, que é a impureza! Guardemos cuidadosamente a bela flor da santa pureza, conservemos sempre este preciosíssimo tesouro. Mas se, por desgraça, já caímos, não desanimemos, não! Levantemo-nos, ao contrário, com santa coragem, e lancemo-nos, com confiança ilimitada, nos braços da divina misericórdia, que nunca despreza um coração humilde e arrependido8, nunca rejeita uma alma que volta a Ele com boa vontade e humilde confiança! Não desanimemos! Se são muitas as tentações da carne, se são graves os perigos, duros os combates, temos a promessa consoladora da Sagrada Escritura, de que “Deus é fiel, e não permitirá que sejamos tentados mais do que podem as nossas forças, e dará com a tentação também o êxito, para podermos perseverar”.9


Sim, Ele dará o êxito. Ele nos ajudará em todas as tentações, para podermos vencer, contanto que nós façamos o uso das armas espirituais, que nos indicou, armas essas que São Francisco empregava com tão bom resultado: a mortificação e oração fervorosa, sobretudo, na hora da tentação. Com estas armas nós também guardaremos intacto o tesouro da santa pureza e, assim, servindo com o coração puro a Jesus, amador da castidade, mereceremos, um dia, vê-lO na celeste pátria.


Oração


Jesus, amador da castidade e pureza das virgens, dai-me a graça de conhecer, cada vez melhor, o alto valor da santa pureza e de andar com cautela sempre crescente, a fim de a conservar intacta por toda a vida. Purificai meu corpo e minha alma, e fortalecei-me, para, em todas as tentações e perigos, guardar fiel e inviolavelmente a castidade de meu estado, a fim de que, depois de uma vida ilibada, mereça a recompensa prometida aos limpos de coração.


São Francisco, espelho de pureza, olhai benigno para vosso humilde servo. Vós conheceis os perigos que me ameaçam nesta vida, vós sabeis quão graves e numerosos são os combates, que tenho de sustentar contra a carne.


Rogai por mim, grande amigo de Deus, para que, a vosso exemplo, saia vitorioso de todos os combates, e seja, um dia, digno de ver e gozar, convosco e com todas as almas puras, Aquele que é “o Amador da castidade e Pureza das virgens”. Assim seja.


*Rezar 5 Pai Nossos, Ave Marias e Glória ao Pai, em honra das Cinco Chagas de São Francisco de Assis.




Ladainha de São Francisco de Assis

(Para uso Privado)


Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.


Jesus Cristo, ouvi-nos.

Jesus Cristo, atendei-nos.


Deus Pai do Céu, tende piedade de nós.

Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós.

Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.

Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.


Santa Virgem imaculada, rogai por nós.

São Francisco Seráfico, rogai por nós.

São Francisco, pai sapientíssimo, rogai por nós.

São Francisco, pai dos pobres, rogai por nós.

São Francisco, que desprezastes o mundo, rogai por nós.

São Francisco, espelho da penitência, rogai por nós.

São Francisco, vencedor dos vícios, rogai por nós.

São Francisco, zeloso imitador de Cristo, rogai por nós.

São Francisco, com as Chagas de Jesus adornado, rogai por nós.

São Francisco, amante da pobreza, rogai por nós.

São Francisco, mestre da obediência, rogai por nós.

São Francisco, espelho puríssimo da castidade, rogai por nós.

São Francisco, norma da humildade, rogai por nós.

São Francisco, pai rico de graças, rogai por nós.

São Francisco, caminho dos que erram, rogai por nós.

São Francisco, auxílio dos enfermos, rogai por nós.

São Francisco, coluna da Igreja, rogai por nós.

São Francisco, protetor da fé, rogai por nós.

São Francisco, herói valente de Cristo, rogai por nós.

São Francisco, baluarte dos que pelejam, rogai por nós.

São Francisco, escudo inexpugnável, rogai por nós.

São Francisco, martelo dos hereges, rogai por nós.

São Francisco, apóstolo dos infiéis, rogai por nós.

São Francisco, sustentáculo dos fracos, rogai por nós.

São Francisco, ressuscitador dos mortos, rogai por nós.

São Francisco, saúde dos leprosos, rogai por nós.

São Francisco, seráfico do mais ardente amor, rogai por nós.


Cordeiro de Deus, que tirais o pecado mundo, perdoai-nos, Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.


Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai.


V. Rogai por nós, São Francisco de Assis.

R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.


Oremos: Deus onipotente, cuja providência governa tudo, ouvi a oração de vossos servos e fazei com que, celebrando devotamente a memória do glorioso confessor vosso, sejamos dignos de contemplar a glória do vosso Filho Unigênito, que convosco vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.


Oração de São Francisco,

para obter o perfeito amor.


Santíssimo Senhor Jesus Cristo, instantemente Vos peço, que a ardente e suave força de vosso Amor, demova o meu coração de todo o afeto das coisas que estão abaixo do Céu; a fim de que, eu deseje morrer por amor de Vós, como Vós, Vos dignastes morrer por meu amor. Amém.


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1.  “Novena em Honra de São Francisco de Assis”, por Fr. Júlio Janssen, O.F.M., pp. 54-61 e 87-89. 5ª Edição, Editora Vozes, Petrópolis/RJ, 1935.

2.  Indulgenciada.

3.  Marc. 9, 28.

4.  Math. 5, 8.

5.  Sab. 4, 1.

6.  Apoc. 14, 3.

7.  Apoc. 21, 8.

8.  Psal. 50, 19.

9.  I Cor. 10, 13.


As Sete Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, no Alto da Cruz. 4ª Parte.


QUARTA PALAVRA1


Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me?”2

Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?”


A narrativa da Paixão e Morte do Salvador conta que, no dia da tragédia do Gólgota, houve trevas da hora sexta (cerca do meio-dia) até a hora nona (três da tarde), quando Jesus expirou.

Parece que a própria natureza quis esconder o horror daquela vista. O céu, que estivera límpido durante toda a manhã, escureceu inopinadamente. Uma caligem densa, como se viesse dos pântanos do Inferno, ergueu-se por detrás das colinas, e, pouco a pouca, se espalhou pelos ângulos do horizonte. Um bando de nuvens negras achegou-se ao sol, àquele claro e doce sol de abril, que aquecera as mãos dos homicidas, cercou-o, assediou-o, e, finalmente, o cobriu com uma fita espessa de treva.

E, desde a hora nona, houve trevas em todo o país”.3

Essas trevas, de que falam os Evangelhos e até mesmo os escritores profanos, são verdadeiramente maravilhosas e inexplicáveis.4

Não encontramos uma causa que explique, naturalmente, o aparecimento dessas trevas. Era o tempo da Páscoa dos Hebreus, 15 do Nizan (7 de abril); a Páscoa dos Hebreus coincidia com a lua cheia, período em que é, cientificamente, inexplicável um eclipse total, uma vez que a lua está em oposição ao sol.

Não menos extraordinária foi a universalidade dessas trevas, que cobriram toda a terra, de um a outro hemisfério, pois era o próprio sol que perdia sua luminosidade, parecendo uma lâmpada que, lentamente, se extingue e se apaga. Havia apenas uma claridade mortiça, que permitia somente distinguir os objetos e as pessoas.

Não menos extraordinárias e maravilhosas são essas trevas em sua duração. Com efeito, essa estranha obscuridade persistiu, exatamente, do meio-dia às três horas da tarde, durante o tempo em que Jesus agonizou na Cruz, justamente a parte do dia em que o sol ostenta maior luminosidade.

Os judeus, cujo espírito se achava obscurecido pelo pecado e pelos pensamentos terrenos, não penetraram o sentido desse acontecimento maravilhoso e permaneceram endurecidos e obstinados.5

Trevas é símbolo do luto, da dor e da tristeza, na ordem temporal: na ordem moral, representa o erro e o pecado, que ensombram o espírito e perturbam a consciência…

Em trevas morais andava o mundo, antes que Jesus consumasse a Obra da Redenção.

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Havia menos de uma semana que Jesus fora recebido em triunfo na cidade santa de Jerusalém; havia menos de 48 horas, que, em roda do Mestre, tudo eram glórias, homenagens e aclamações…

Agora o cenário mudou, embora os atores sejam quase todos os mesmos… Oh! Exemplo terrível da inconstância e das mutações humanas!

Todos os amigos e beneficiados de Jesus, O abandonaram; nem mesmo o Anjo, que O confortou no jardim das Oliveiras, aparece nessa hora tétrica, em que dominam os poderes das trevas…

De todas as horas dolorosas, a mais cruel é aquela em que o homem vê a solidão fazer-se em torno de si. Venha-nos ela repentinamente após uma desgraça, ou, antes nos cerque em seguimento à velhice: poucos escapam a esse isolamento dos últimos dias, e as vidas mais felizes naufragam, finalmente, na indiferença dos homens e das coisas. Que contraste entre a agitação, a solicitude, as lisonjas do começo e os abandonos do fim”.6



E Jesus experimentou essa espécie de tormento: o abandono.

Abandono exterior e interior.

Exteriormente, tudo lhe falta. Da terra, não tem senão dores. Até de seu Corpo a proteção divina se retirou. Está estendido em um madeiro, no leito cruel da Cruz. Do alto da cabeça às plantas dos pés, é uma Chaga viva; as espáduas e os ombros estão cheios de feridas. Está suspenso da Cruz por Chagas vivas, os pregos atravessam seus pés e suas mãos e queimam como ferro em brasa; inumeráveis espinhos, como outras tantas pontas de fogo, atravessam sua testa e sua cabeça. Seu Corpo não está em posição natural; seus braços e pernas foram violentamente distendidos; os membros paralisam-se pouco a pouco; a vida pára no peito oprimido; os pulmões, engorgitados de Sangue, respiram com dificuldade; o Coração pulsa fracamente e vai extinguindo-se; é uma angústia mortal, sofrimentos supremos. O Sangue, que não pode mais descer da cabeça pelas veias intumescidas, produz na testa e no pescoço dores lancinantes; a testa arde em febre, as numerosas Chagas, expostas ao ar, inflam-se e causam excessivo sofrimento. O Salvador não é senão dores e sofrimentos: falta-lhe tudo: a terra e o Céu”.7

Nessa hora de suprema angústia, Jesus volta-se para o Pai Eterno, oferece-lhe, em prol da humanidade, os tormentos sem fim, as dores sem conta, as angústias sem nome, o Sangue que extravasa de suas Chagas…

Jesus recorre ao Pai e sente que também este O abandona.

A visão beatífica, que inundava de Santo júbilo a Alma de Jesus, já não se faz sentir; persevera, é verdade, mas os seus consoladores efeitos desaparecem… E então profere as palavras: “Meus Deus, meu Deus, porque me abandonastes?”

Estas palavras são as primeiras do Salmo XXXI. Segundo São Jerônimo, Jesus proferiu o primeiro versículo em voz alta, para chamar a atenção dos circunstantes e recitou baixinho o restante do Salmo até o fim.

Nesse canto dolente, Davi descreve com espantosa exatidão e estranha fidelidade os tormentos do Crucificado.

Assim fala o Profeta-Rei, na sua prece sentida e dolente:

Meu Deus, meu Deus, porque me desamparastes? Não sou mais um homem, mas um verme, que se calca sob os pés; tornei-me o opróbrio dos homens e o objeto de escárnio do povo. Todos os que me viram escarnecem de mim; menearam a cabeça e vociferaram blasfêmias!

Esperou no Senhor, livre-o; salve-o, se é que o ama. Meu sangue correu como água; minhas forças extinguiram-se e minha língua aderiu ao véu palatino. Atravessaram meus pés e minhas mãos contaram todos os meus ossos; dividiram minhas vestes e lançaram sorte sobre minha túnica”.

Parece que só uma testemunha ocular poderia descrever com tanta fidelidade a figura do Crucificado.

A luz sobrenatural, que iluminava sempre o espírito de Jesus, já não projetava seus raios benéficos. O conforto espiritual, que alimentava a Alma de Cristo, havia desaparecido, deixando lugar às penas interiores, às torturas íntimas.

E a força divina, que sustentava o Filho de Deus contra todos os inimigos da terra e do Inferno, cessara de O amparar e fora substituída pela fraqueza natural...

Naquele momento, quem falava não parecia ser mais aquele que dissera: – “Meu Pai, eu sei que Vós me escutais sempre”. E proferiu estas palavras: – “Meu sustento é fazer a vontade daquele que me enviou a este mundo”.

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Para fazer-nos compreender a extensão e a profundez de seus tormentos, Jesus pronunciara aquelas palavras de queixa, que encerram admiráveis e salutares ensinamentos.

Em primeiro lugar, essa queixa do Salvador, deve fazer-nos compreender quão grandes sofrimentos e quão espantosas dores o Divino Mestre aceitou e suportou por nosso amor. Não fora essa palavra, não nos seria dado avaliar até que ponto chegaram as agonias e as angústias do Redentor. Deve também ser motivo para o nosso mais terno e profundo reconhecimento a quem tanto sofreu por nossa causa.

Em segundo lugar, o Divino Mestre quis ensinar-nos que sob o peso dos males e das tribulações dessa miserável vida, não é condenável uma queixa terna e respeitosa, quando acompanhada de submissão perfeita e inteira fidelidade a todas as provações, que Deus haja por bem enviar-nos. “Faça-se vossa vontade e não a minha”…

Em terceiro lugar, quis o Redentor alcançar-nos de Deus a graça de jamais nos queixarmos, a não ser à imitação dele.8

Jesus, tendo assumido o encargo de satisfazer pelos nossos pecados, devia submeter-se a todas as penalidades a que estamos sujeitos. A Vítima augustíssima, depois de ter suportado todas as penas e todos os tormentos deste mundo, devidos às nossas culpas, deveria sofrer ainda, por amor de nós, as penas do Inferno. Mas Jesus era Deus… e, como Deus, não podia ser condenado ao Inferno… A caridade infinita encontrou o meio de resolver esta dificuldade. Jesus experimentou a maior e a mais terrível das penas do Inferno, o mais doloroso dos tormentos dos condenados: o abandono e o desamparo de Deus.

É essa a explicação última do brado angustioso de Jesus: “Meus Deus, Meu Deus, porque me abandonastes?”

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Ao divino abandonado do Gólgota, é que devemos invocar nos supremos desfalecimentos e nas supremas amarguras deste vale de lágrimas.

O que Jesus experimentou naqueles momentos terríveis, em que se viu abandonado do Céu e da terra, de Deus, seu Pai, e dos homens, pelos quais morria, inspira-nos uma confiança ilimitada de que seremos sempre atendidos todas as vezes que implorarmos socorro.

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Oh! Meu Jesus! Lanço-me, com amor e reconhecimento, nos horrores salutares do vosso abandono. Desde hoje compreendo o que é abandonar a Deus e ser de Deus abandonado. Ah! O meu coração está preso às criaturas, fez-se escravo delas e, para agradar-lhes, abandonou a Deus: – ultraje infinito, que revolta a sua Majestade e a sua Paternidade! Mas Vós quisestes reparar divinamente este ultraje, ó meu Jesus, e por nós sofrestes o desprezo e o abandono do vosso próprio Pai. Ah! Eu me abraço à vossa Cruz, para nela tornar a encontrar o meu Deus, e pelos abandonos cruéis a que Vos votaram, peço-Vos, Senhor, não permitais que eu torne a abandoná-lO, nem que Ele me desampare jamais a mim”.9


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1.  “Espírito e Vida” – As Sete Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. J. Cabral, IV Palavra, pp. 54-62, da Coleção Cristo Redentor. Empresa Editora A.B.C. Ltda, Rio de Janeiro, 1938.

2.  Math. XXVII, 46.

3.  Giovanni Papini – “Historia de Christo” – Págs. 519 e 520.

4.  Phlegon e Talles, em seus escritos, fazem referências a esse acontecimento extraordinário.

5.  Monteiro – “Reflexões Evangélicas” – Pág. 555.

6.   Perroy – “La Montée du Calvaire” – Pág. 309.

7.  Pedreira – “A Paixão de Jesus Christo” – Pág. 215.

8.  Pinart – “O Alimento da Alma Christã” – Pág. 342.

9.  Weber – “De Gethsemane ao Golgotha” – Pág. 178.


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