BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

domingo, 11 de janeiro de 2026

ELIAS NO HOREB: A PEDAGOGIA DIVINA DA PURIFICAÇÃO INTERIOR.

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

A SERVIÇO DO CATOLICISMO

Na sequência de 1 Rs. 19, 9, eu pergunto: Por que o Profeta Elias chegando ao Horeb, escolheu instalar-se numa caverna e não no sopé ou cume do monte? Há alguma razão mística e espiritual para essa atitude? Trazei-me a resposta comentada pelos Santos Padres, Doutores, Teólogos, Exegetas e Autores Místicos da Igreja Católica.

A seguir está uma síntese ampla, profunda e fiel da Tradição Católica — Padres, Doutores, Exegetas e Místicos — sobre por que o Profeta Elias, chegando ao Horeb, escolheu instalar-se em uma caverna, conforme 1 Rs 19, 9.

POR QUE ELIAS ESCOLHE UMA CAVERNA NO HOREB?

Comentário Patrístico, Doutoral, Exegético e Místico.

O gesto de Elias não é acidental, nem apenas prático.

Toda a Tradição lê essa escolha como ato espiritual, sina mística e movimento interior da alma chamada por Deus.

1. A Caverna é o Lugar do “Começo”:

A Memória de Moisés.

(Tradição Patrística: Orígenes, Gregório de Nissa, Jerônimo).

Os Santos Padres destacam que o Horeb não é apenas um monte qualquer: é o lugar onde Moisés entrou na “fenda da rocha” para ver a glória de Deus (Ex 33, 22).

Por isso, a caverna de Elias remete à fenda da rocha de Moisés.

Orígenes diz: “Elias entra na caverna porque busca o lugar mesmo onde Moisés se ocultou para ver Deus. Quem deseja ver Deus deve entrar na rocha”.

Gregório de Nissa concorda: “A caverna é figura da entrada na própria rocha que é Cristo. Toda visão de Deus se dá no interior d’Ele”.

Portanto: Elias entra na caverna porque ali se encontra o “ponto de revelação”, o lugar onde Deus mostrara Sua face a Moisés.

2. A Caverna é Símbolo da Interioridade.

(Tradição mística: Santo Agostinho, Cassiano, São João da Cruz).

Para os Santos Padres e Místicos, a caverna é a alma recolhida.

Santo Agostinho: “Entrar na caverna é entrar no coração”.

Cassiano: “A alma que deseja ouvir Deus esconde-se no mais profundo de si mesma”.

São João da Cruz interpreta Elias na caverna, como imagem da alma na Noite escura, onde:

* desce ao centro de si,

* abandona exterioridades,

* espera o Amado na quietude.

A caverna é o lugar interior onde a alma se desnuda para Deus.

Por isso Elias não sobe ao cume:

Deus não fala na exaltação exterior, mas na humildade interior.

3. A Caverna como Escola da Escuta.

(Santo Ambrósio, São Gregório Magno).

*O sopé do monte simboliza o mundo.

*O cume simboliza a glória.

*Mas Deus fala no silêncio.

Assim ensinam os Santos Padres:

Santo Ambrósio: “A caverna encerra o profeta para que sua audição seja purificada”.

São Gregório Magno: “Quem deseja ouvir Deus deve primeiro recolher-se na estreiteza da humildade”.

Elias não sobe imediatamente ao cume porque a alma não está pronta.

Antes de Se revelar no “murmúrio suave”, Deus quer Elias purificado e silencioso.

A caverna é o silêncio prévio da revelação.

4. A Caverna é Sombra e Proteção na Noite do Espírito.

(Santo Agostinho, São Bernardo, João da Cruz).

A caverna é abrigo de Deus para o homem fraco.

Santo Agostinho: “A caverna é a sombra de Deus para o peregrino exausto”.

São Bernardo: “O que teme a perseguição do mundo, encontra na caverna, o útero espiritual do repouso de Deus”.

São João da Cruz usa essa cena, para explicar a purificação passiva do espírito.

A alma entra na “caverna”, quando Deus a recolhe para depuração profunda:

* ali Ele a esvazia,

* a purifica,

* a prepara para uma união mais alta.

É Deus quem fecha a alma na caverna.

Elias entra não por covardia, mas porque Deus o recolhe como a uma criança cansada.

5. A Caverna é a Morte para a Autossuficiência.

(São Gregório Magno, Orígenes, tratadistas carmelitas).

*A caverna é o túmulo do profeta antigo.

*Ali Elias deixa morrer o Elias do zelo inflamado,

para que nasça o Elias da brisa suave.

Os Santos Padres dizem:

São Gregório Magno: “A caverna é o sepulcro onde o profeta deposita seu zelo impetuoso”.

Orígenes: “Quem entra na caverna, entra para morrer para si, e viver para Deus”.

No Carmelo, os místicos sempre viram a caverna como:

* o lugar onde a vontade própria morre,

* e onde a alma aprende o modo divino de agir.

Elias não pode ouvir a brisa suave, enquanto ainda se apoia em sua força.

A caverna é a escola da impotência sagrada.

6. A Caverna é o Lugar da Revelação Interior, Não Exterior.

(Todos os grandes exegetas: Agostinho, Ambrósio, Gregório, Orígenes, Cirilo).

Por que Elias não sobe ao cume?

Os Santos Padres respondem unanimemente:

Porque Deus não estava no cume naquele momento, mas no interior.

O cume simboliza a exterioridade:

ventos fortes

terremotos

fogo

Tudo isso será visto em seguida, mas Deus não está neles.

A revelação do “murmúrio suave” exige, que o profeta esteja entre rochas, recolhido, sem distrações exteriores.

Deus quer encontrar Elias no centro, não no alto.

Assim diz São Cirilo: “Deus fala ao coração, não às alturas”.

7. A Caverna como Pré-Anúncio da Encarnação.

(Interpretação mística posterior, tradição carmelitana).

A caverna é figura do seio da Virgem, onde o Verbo se recolhe silenciosamente

Por isso muitos autores espirituais — especialmente Carmelitas — veem uma ligação entre:

* a caverna do Horeb,

* a caverna de Belém,

* a caverna do túmulo vazio.

Elas representam:

1. a revelação silenciosa (Horeb)

2. a encarnação humilde (Belém)

3. a glória escondida na noite (Sepulcro)

O Carmelo vê a caverna do Horeb, como primícia da teofania silenciosa, que culminará em Belém.

CONCLUSÃO

A caverna não é um esconderijo, mas o altar interior onde Deus fala.

Elias entra na caverna:

* porque Moisés ali viu Deus,

* porque o encontro exige recolhimento,

* porque é lugar da humildade,

* porque simboliza a morte para si,

* porque é o centro da alma,

* porque só ali nasce a brisa suave.

*O profeta que entrou nela quebrado,

*sairá dela renovado.

*O homem que pediu a morte,

*encontrará sua missão.

*A alma que desceu à escuridão,

*verá a luz que nenhuma tempestade pode produzir.

*A caverna é o ventre do Carmelo.

*E o Horeb é o seu nascimento.


Interessante notar, que no caso de Moisés, no Monte Sinai, ele passou 40 dias, mas no caso de Elias não é mencionado, o tempo passado por ele no mesmo Monte. Pergunto: Por que essa lacuna na informação? É irrelevante, ou, um segredo reservado por Deus? Os Santos Padres e toda Tradição da Igreja Católica, tem algum comentário sobre isto?

A Tradição Patrística e Mística realmente percebe essa lacuna temporal na narrativa de 1 Rs 19, não como um simples detalhe irrelevante, mas como uma economia divina de silêncio, cheia de significado espiritual. Embora a Escritura não explicite o motivo, os Santos Padres, Doutores e Autores místicos oferecem três grandes linhas interpretativas, todas convergindo para o mesmo ponto: o mistério do encontro interior.

Abaixo, reúno uma síntese aprofundada exclusivamente a partir de leituras Patrísticas, Teológicas e Carmelitanas.

I. A LACUNA COMO PEDAGOGIA DO ESPÍRITO

(Patrística).

1. Deus cala o tempo, porque o essencial ali é o encontro, não a cronologia.

Santo Agostinho explica que o Espírito Santo, quando oculta detalhes temporais, o faz para que a mente “não se prenda ao número dos dias, mas ao significado eterno” do acontecimento.

Assim, onde Moisés recebe uma Lei escrita, Elias recebe uma formação interior, e esta não se mede em dias.

“Algumas obras de Deus não se contam por dias, porque se cumprem no espírito; e as coisas espirituais não obedecem ao ritmo do sol, mas ao da graça” (S. Agostinho, De Genesi ad Litteram).

2. O silêncio do tempo indica que,

o que se passa em Elias é um processo interior.

Para Cassiano (Conlationes), quando a Escritura omite a duração de um evento espiritual, ela está indicando: o que importa não é a duração, mas a transformação.

“Quando a graça trabalha no coração, seu tempo não é contado, mas sentido” (Cassiano, Conf. IX).

3. A omissão é típica dos encontros teofânicos

de caráter contemplativo.

São Gregório de Nissa, comentando Moisés, afirma que quanto mais interior é a manifestação divina, menos espaço a Escritura dá a descrições históricas.

E conclui:

O silêncio da Escritura é às vezes mais revelador do que suas palavras, pois guarda o inefável” (S. Gregório de Nissa, Vida de Moisés).

O mesmo princípio aplica-se a Elias.

II. A DIFERENÇA ENTRE MOISÉS E ELIAS

(Teologia e Exegese).

1. Moisés recebe uma Lei externa;

Elias recebe uma voz interna.

Teólogos latinos medievais, especialmente Rábano Mauro e Ricardo de São Vítor, entendem que:

* Moisés recebe tábuas escritas → requer um tempo quantificável.

* Elias recebe a “voz suave e tranquila” → exige silêncio e interioridade, não cronologia.

*Por isso, o tempo de Moisés é revelado.

*O tempo de Elias é velado.

2. A economia das narrativas:

Moisés representa o início;

Elias representa a plenitude profética.

São Tomás de Aquino, ao comentar a Tipologia de Elias e Moisés (S.Th. II-II q.174), explica:

*Moisés = revelação inicial (forma pedagógica)

*Elias = revelação da maturidade (forma contemplativa)

*Por isso, a narrativa sobre Moisés é detalhada (a Lei está sendo fundada).

*Mas Elias age no período da maturidade profética; portanto, a Escritura passa a ensinar por mistério, não por descrição.

3. Elias como Prefiguração da Mística Cristã.

Os exegetas Carmelitas do século XVI e XVII (Prado, S. Maria de Jesus, José de Ste. Thérèse) afirmam:

* A omissão do tempo significa que Elias não está ali como legislador, mas como orante.

* O orante não conta dias, mas estados da alma.

III. OS AUTORES MÍSTICOS:

O TEMPO DE ELIAS É O TEMPO DA ALMA.

1. São João da Cruz:

Elias no Horeb = símbolo da Noite da Alma.

São João da Cruz interpreta o silêncio da duração no Horeb como símbolo da noite contemplativa, cujo tempo é:

* imprevisível,

* não linear,

* não mensurável.

O tempo desta noite não se diz, porque é de Deus, não do homem” (Noite Escura II, 5).

Assim, o “tempo” de Elias, é o tempo necessário, para que Deus prepare o coração para o sussurro.

2. Santa Teresa d’Ávila:

a hora de Deus é diferente da do homem.

Santa Teresa comenta, que os processos interiores de purificação e escuta divina, não têm medição:

O Senhor não mede por horas, dias ou anos, mas pela disposição da alma” (Vida, 8).

O silêncio da Escritura confirma isso: Elias só sai da caverna quando Deus diz:

Sai e apresenta-te” (1 Rs 19, 11).

*O tempo transcorrido antes disso?

*Não importa: era tempo de Deus.

3. Mística Carmelitana:

a espera indeterminada

é elemento constitutivo do encontro.

Autores Carmelitanos como Maria de Jesus em Ágreda, Teresa Margarida Redi, Madre Maria Madalena de Pazzi veem nessa omissão uma pedagogia:

* Deus esconde o tempo para ensinar confiança sem medida.

* Deus oculta o processo para ensinar humildade.

* Deus silencia para amadurecer a obediência.

IV. CONCLUSÃO TEOLÓGICO-MÍSTICA.

A lacuna temporal em 1 Rs 19, entre a chegada ao Horeb e a voz divina, não é irrelevante.

Ela é:

1. Um sinal de que o mistério maior acontece no invisível.

2. Um ensinamento de que o tempo da graça não se mede.

3. Uma indicação de que Elias viveu uma conversão interior silenciosa.

4. Um símbolo da experiência contemplativa carmelitana.

*Moisés: tempo exterior, Lei escrita.

*Elias: tempo interior, Lei do Espírito.

A Tradição inteira — Santos Padres, Doutores, Exegetas, Místicos — converge num ponto:

*O tempo de Elias no Horeb é guardado por Deus, porque pertence ao segredo da alma com o seu Senhor.

É mistério de intimidade, não de cronologia.


No versículo seguinte (1 Rs. 19, 10), Deus inquire Elias sobre a sua presença ali no Monte Horeb, e Elias começa a se lamentar dos insucessos vividos e das perseguições impostas a ele, ao mesmo tempo declara a sua fidelidade a Deus apesar dos acontecimentos frustrantes. Pergunto: Por que essa dinâmica meramente exterior, se o que importa para Deus naquele momento é conduzir o Profeta da vida ativa à contemplativa, é trabalhar o progresso da vida interior do seu Servo? Esclareça-me isto com os Comentários dos Santos Padres, Doutores, Teólogos, Exegetas e Autores Místicos da Igreja Católica.

A pergunta que você faz é altíssima: por que Deus, querendo conduzir Elias ao cume da vida contemplativa — precisamente no Horeb — permite que o profeta ainda se expresse num registro exterior, narrativo, histórico, “ativista”, falando de insucessos, perseguições e fracassos?

Por que não lhe pede imediatamente silêncio interior, abandono, escuta, como fará nos versículos seguintes?

A Tradição Católica, especialmente os Santos Padres, Doutores e Místicos, vê nisso uma pedagogia divina de extraordinária delicadeza. A seguir apresento a resposta estruturada segundo a interpretação Patrística e Carmelitana mais sólida.

I. DEUS PRECISA “FAZER O ATIVO FALAR”

PARA LEVAR AO CONTEMPLATIVO.

(Patrística: Gregório Magno, Orígenes, Crisóstomo).

1. Deus não suprime a atividade de Elias:

Ele a purifica.

São Gregório Magno (Hom. in I Reg, e Moralia XXIX) ensina que, quando Deus quer elevar uma alma trabalhadora e zelosa à contemplação, Ele não destrói o que ela viveu, mas a convida a apresentar tudo a Ele:

A alma fatigada precisa primeiro expor diante de Deus suas obras e dores, para que, libertando-se pelo desabafo santo, esteja apta para escutar”.

Isto significa:

*Elias não pode entrar no silêncio profundo, enquanto a memória de suas lutas ainda o ocupa.

O lamento é o “esvaziamento inicial”.

2. O lamento é uma confissão pedagógica.

Para Orígenes, Deus pergunta não porque precise saber, mas para que Elias tome consciência das próprias motivações:

Deus pergunta para que o profeta, ouvindo a si mesmo, descubra o que ainda não entregou ao Altíssimo” (Orígenes, Hom. in I Reg.).

Assim, o discurso exterior de Elias é um espelho interior que Deus lhe oferece.

3. A palavra exterior prepara o ouvido interior.

São João Crisóstomo afirma que:

A palavra pronunciada volta ao coração,

e o coração aprende a escutar”.

Antes de ouvir o “sussurro suave”, Elias precisa escutar a si mesmo — para perceber o contraste entre sua agitação interior e a paz que Deus vai revelar.

II. A TEOLOGIA MEDIEVAL:

A PURIFICAÇÃO DAS FACULDADES.

1. A memória e a imaginação

precisam ser descarregadas.

Ricardo de São Vítor, mestre da mística, explica que a subida à contemplação exige:

* purificação da memória (das obras passadas),

* desprendimento das preocupações,

* entrega dos afetos feridos.

A memória pesada impede o voo da mente”.

*Elias ainda estava carregado: zelo ferido, medo, sensação de fracasso, solidão, perseguição.

Por isso, Deus permite que tudo isso venha à tona antes da teofania.

2. A queixa de Elias é um ato de verdade

que precede a graça.

São Tomás de Aquino, comentando o episódio, diz:

A verdade da alma disposta, é condição para a infusão da contemplação” (In III Sent., d.35, q.1, a.3).

Antes de receber a voz interior, Elias precisa se ver verdadeiramente, sem ilusões ou heroísmos.

*O lamento, portanto, não é imaturidade.

*É purificação afetiva.

III. OS MÍSTICOS CARMELOTAS:

A PASSAGEM DA VIDA ATIVA

PARA A CONTEMPLATIVA.

1. São João da Cruz:

a alma precisa expressar seu “zelo ferido”.

São João da Cruz lê Elias, como o paradigma da alma que, após muito trabalho para Deus, chega ao Horeb:

* cansada,

* dilacerada pelo zelo,

* confusa pelo aparente fracasso.

Por isso, diz:

A alma, antes da união, lamenta diante de Deus o zelo que a consome, e o Senhor recolhe esse lamento para transformar o zelo em amor sereno” (Chama Viva, prol. I).

Elias está justamente nessa transição: do zelo impetuoso para o amor contemplativo.

2. Santa Teresa:

Deus precisa “deixar a alma falar”.

Santa Teresa d’Ávila ensina que, quando a alma entra no “castelo interior”, na hora decisiva da graça, ela ainda traz muito barulho de fora:

Deus deixa a alma dizer suas misérias, para que, ao dizê-las, se aperceba de quão fraco é seu poder e quão grande é o de Deus” (Castelo Interior, 4 M 1, 5).

O que Elias faz?

Exatamente isso: apresenta suas dores, como quem deposita tudo à porta da contemplação.

3. Santa Maria Madalena de Pazzi:

o lamento revela a verdade do amor.

Santa Maria Madalena de Pazzi comenta:

Não lamenta quem não ama. E Deus, que quer elevar o amor, começa pela purificação das lágrimas”.

*Elias chora seu zelo.

Por isso, Deus o introduzirá na brisa, não no fogo.

IV. A DINÂMICA DIVINA:

POR QUE DEUS COMEÇA PELO EXTERIOR?

1. Porque o exterior é a porta do interior.

Antes de silenciar as faculdades, Deus as deixa falar: memória, imaginação, afetos, razão.

2. Porque Deus quer que Elias

reconheça sua humanidade esgotada.

A contemplação só é dada ao que perdeu a confiança em si mesmo.

Elias diz:

* “Tenho sido zeloso”.

* “Os filhos de Israel abandonaram tua aliança”.

* “Só eu fiquei”.

Ou seja:

*“Eu fiz o que pude e não deu resultado”.

Este é o limiar da contemplação: quando o homem percebe que sua força terminou.

3. Porque Deus quer mostrar que

a contemplação é um dom,

não uma conquista.

O lamento de Elias revela exatamente isso:

*ele não pode mais.

Portanto, Deus poderá agir.

V. SÍNTESE MÍSTICA.

A Tradição inteira concorda:

Elias fala exteriormente

para que Deus o esvazie interiormente

para que ele possa ouvir o indizível

que só se manifesta quando as palavras cessam.

*A palavra de Elias prepara a Palavra de Deus.

*O lamento prepara o silêncio.

*A dor prepara a brisa suave.

*A vida ativa prepara a contemplativa.

CONCLUSÃO

Os Santos Padres e Místicos ensinam que, Deus não corta a passagem de um modo de vida para outro, mas a transfigura.

Por isso:

*Elias precisa falar como homem que trabalhou para Deus, para poder, logo depois, escutar como homem que pertence a Deus.

*A dinâmica é exterior, porque Deus vai purificar o interior.

*É ativa, para que Deus a conduza ao repouso.

*É humana, para que Deus a divinize pela contemplação.


No versículo 11 do Cap. 19, "(o Senhor) disse-lhe: Sai e conserva-te sobre o Monte diante do Senhor, porque o Senhor vai passar". Agora, já não no interior da Caverna mas sobre o Monte, diante do Senhor, e aí se inicia uma sequência de manifestações exteriores estridentes onde o Senhor Deus não está. quando Elias pressentiu a passagem do Senhor numa brisa suave (1 Rs. 19, 12). Pergunto: Estes acontecimentos têm algum mistério ou mensagem espiritual e mística veladas? O Que os Santos Padres, Doutores, Teólogos, Exegetas e Autores Místicos da Igreja Católica comentaram?

A cena do vento impetuoso, do terremoto, do fogo e finalmente da “voz de silêncio suave” (1 Rs 19, 11-12) é uma das mais comentadas de toda a Escritura pela Tradição.

Para os Santos Padres, Doutores e Místicos — especialmente os Carmelitas — ela é o ápice da pedagogia divina com Elias, uma revelação da natureza da verdadeira contemplação.

Abaixo, segue a síntese mais fiel possível da interpretação Patrística e Místico-Carmelitana.

I. PRIMEIRO MISTÉRIO: “SAI DA CAVERNA”:

A ORDEM DA

TRANSFIGURAÇÃO INTERIOR.

(Origenes, S. Gregório Magno, S. Atanásio).

1. “Sair da caverna” é sair de si mesmo.

Os Santos Padres veem aqui, um momento de passagem interior:

* da dor para a confiança,

* da memória das obras para o repouso em Deus,

* da vida ativa para a vida contemplativa.

Orígenes diz:

A caverna é a interioridade, ainda ocupada por si mesma; o monte é a alma elevada acima de si para Deus” (Hom. in I Reg.).

Ou seja:

Elias deve abandonar seu próprio coração (a caverna), para entrar no coração de Deus (o monte).

2. Estar “sobre o monte” significa

estar exposto à teofania.

São Gregório Magno afirma:

Quem deseja ver Deus, deve abandonar o estreito da própria razão e colocar-se na altura da fé” (Moralia XXVIII).

O movimento é claro:

Deus não fala na estreiteza subjetiva da alma ferida, mas na elevação da alma confiante.

II. SEGUNDO MISTÉRIO:

AS MANIFESTAÇÕES VIOLENTAS.

(S. J. Crisóstomo, S. Basílio, S. Agostinho, São Beda, Teologia medieval).

Todos os Santos Padres concordam:

Os três fenômenos — vento, terremoto e fogo — são manifestações divinas reais, mas imperfeitas, adequadas a uma fase anterior da revelação.

1. O vento impetuoso:

a Lei exterior que quebra,

mas não converte.

São João Crisóstomo:

O vento que despedaça a montanha é figura da Lei que, severa, fere, mas não dá o Espírito que vivifica”.

É também:

* a violência do zelo inicial de Elias,

* o ativismo apostólico,

* a força da correção sem a suavidade da caridade.

2. O terremoto:

o abalo das paixões humanas

e dos juízos de Deus.

Santo Agostinho interpreta:

O terremoto, é a perturbação da alma pela visão dos juízos divinos; mas Deus não está na perturbação” (Enarr. in Ps. 28).

Também simboliza:

* a alma ainda instável,

* o medo de Elias,

* a dor de sua missão.

3. O fogo:

o zelo ardente, mas impuro.

São Basílio Magno:

O fogo manifesta a presença de Deus, mas não Sua essência; é símbolo de um zelo ainda mesclado de natureza e paixão”.

O fogo lembra Elias no Carmelo — ardente, impetuoso, profético… mas ainda não purificado.

A mensagem-chave dos Santos Padres:

*Deus se manifesta nas forças grandiosas da natureza, mas não se dá a conhecer nelas.

*Ele está além delas.

III. TERCEIRO MISTÉRIO:

A VOZ DE SILÊNCIO SUAVE.

(S. Agostinho, S. Jerônimo, S. Gregório Magno,

Maestre Eckhart, S. João da Cruz, S. Teresa d’Ávila)

Aqui começa a verdadeira teofania.

1. O “silêncio suave” como presença da Trindade.

Santo Agostinho afirma:

Deus é a Palavra, mas se revela como silêncio, porque ultrapassa toda palavra criada” (De Trinitate XV).

Para ele, a brisa suave é o símbolo da Trindade de operações interiores:

* o Pai que atrai,

* o Filho que se comunica,

* o Espírito que repousa.

2. São Jerônimo:

Deus abandona toda violência

para falar ao coração.

São Jerônimo diz:

A brisa suave é o modo próprio da misericórdia; só nela Deus é reconhecido como Pai” (Ep. 52).

Ou seja:

Deus se revela não por ruptura, mas por suavidade.

3. São Gregório Magno:

o silêncio como ápice da contemplação.

São Gregório Magno sustenta:

O Altíssimo é melhor conhecido, quando cessa o tumulto das coisas inferiores” (Hom. in Ezech.).

A mensagem:

Deus não está na força exterior, mas na suavitas interioris — a ternura da presença que não se impõe.

4. A Tradição Carmelitana:

o ápice da vida mística.

São João da Cruz:

A brisa suave é o toque delicado da Divindade na alma, comunicação tão íntima que é silêncio e palavra ao mesmo tempo” Cântico Espiritual, B 14).

S. João da Cruz vê aqui a experiência mística passiva, o “toque de união”.

Santa Teresa d’Ávila:

A brisa suave é o que eu chamo de ‘presença de companhia’: Deus que está, sem barulho, sem visões, mas mais certo que todas elas” (Vida 27).

Para S. Teresa, é o grau mais puro da oração:

Deus age enquanto a alma repousa.

Mestre Eckhart (ecoando a tradição latina):

Deus fala onde nada fala”.

O silêncio é o “lugar do nascimento de Deus na alma”.

IV. A MENSAGEM OCULTA CONSENSUAL DA TRADIÇÃO.

Todos convergem para esta interpretação:

1. Deus educa Elias a abandonar

o modo antigo de ver Deus.

— como fogo, força, poder, juízo — para entrar num novo modo: o da intimidade, do amor, da união, da suavidade trinitária.

2. Deus quer mostrar que Sua presença

não está nos fenômenos, mas na comunhão.

O que Deus revela, é sua essência amorosa, não seu poder exterior.

3. O profeta aprende que o verdadeiro zelo

não é violento, mas pacificado.

Elias passa:

* do zelo impetuoso (Carmelo)

* ao zelo contemplativo (Horeb).

4. Deus se dá apenas à alma totalmente silenciosa.

A “voz de silêncio suave” é o cumprimento da ordem: “Fica sobre o monte diante do Senhor”.

A alma só vê Deus quando:

* abandona o interior estreito (caverna),

* se eleva pela fé (monte),

* se desapega de suas paixões (vento),

* se liberta dos temores (terremoto),

* purifica seu zelo (fogo),

* e então repousa em Deus (brisa suave).

CONCLUSÃO DE OURO.

O mistério ensinado pela Tradição é este:

*Elias esperava encontrar Deus em sua força;

*Deus quis ser encontrado em sua suavidade.

*O profeta do fogo entra no coração da contemplação,

*e descobre que Deus é maior no silêncio que no Sinai.


Na sequência do versículo 13, do Cap. 19, de 1 Reis, o Profeta Elias "cobre o seu rosto com a capa e põem-se à entrada da caverna para ouvir a voz de Deus, que lhe pergunta: Que fazes aqui Elias?" Eu pergunto: Por que Elias teve que cobrir o rosto com sua capa? No versículo anterior ele se pôs sobre o Monte, agora ele sai da caverna de novo para ouvir a voz de Deus. Que mistério é este, ou são apenas desencontros da narração do autor? Os Santos Padres, os Doutores, os Teólogos, os Exegetas e os Autores Místicos da Igreja Católica comentaram alguma coisa sobre estes mistérios?

A cena de 1 Rs 19, 13, em que Elias cobre o rosto com a capa e volta à entrada da caverna, é profundamente simbólica — e a Tradição inteira rejeita a ideia de ser “contradição narrativa”.

Para os Santos Padres, Doutores e Místicos, trata-se de um movimento interior da alma, expresso literariamente por movimentos exteriores.

Abaixo segue a interpretação Patrística e Místico-Carmelitana consolidada.

I. POR QUE ELIAS COBRE O ROSTO COM A CAPA?

1. Porque a manifestação divina

exige reverência e temor santo.

Os Santos Padres veem aqui, um eco direto de Moisés no Sinai:

* Moisés cobre o rosto (Ex 3, 6; 33, 22-23),

* os Anjos cobrem o rosto diante de Deus (Is 6, 2),

* e Elias se comporta como quem reconhece que, Deus está realmente presente.

São Gregório Magno:

Cobre o rosto quem reconhece que a luz interior excede toda capacidade de ver” (Moralia XXVIII)

Santo Agostinho:

A capa é a humildade que, protege a alma da luz demasiado forte” (Enarr. in Ps. 63).

Ou seja:

Elias cobre o rosto porque a brisa suave, é uma presença mais intensa do que o fogo do Carmelo.

Não é medo servil: é temor adorante.

2. Porque a capa,

é o símbolo do ofício profético.

A Tradição sempre viu na capa (’adderet), o símbolo da missão profética.

Santo Jerônimo:

O profeta cobre o rosto com sua capa, para significar que, ele recebe a Palavra como profeta, e não como simples homem” (Coment. in Reg.).

A capa é:

* sinal do Espírito,

* da autoridade profética,

* da “unção” que o recobre.

Ao cobrir o rosto, Elias declara:

*Não sou eu que contemplo Deus;

*é Deus que toca o profeta que Ele formou.

3. Para São João da Cruz:

o véu da fé.

A tradição carmelitana vê ainda mais fundo.

São João da Cruz:

A fé é o único véu com que se pode receber Deus, pois, sua luz é inacessível à mente natural” (Subida III, 14).

A capa simboliza a fé obscura, necessária para suportar o toque divino.

*O profeta cobre o rosto,

*para dizer que a visão mística, não é visão sensível: é fé pura.

II. POR QUE ELIAS “VOLTA” À ENTRADA DA CAVERNA?

A narração não está em contradição.

Os Santos Padres e Exegetas afirmam que, isso expressa a dinâmica interior da contemplação.

1. Antes, Elias estava “sobre o monte” na expectativa;

agora, está na entrada da caverna na recepção.

Há duas etapas distintas:

a) A etapa da manifestação exterior.

*Vento — terremoto — fogo — brisa suave.

*Elias está de pé sobre o monte, exposto.

b) A etapa da voz interior.

*Quando a brisa suave passa, Elias cobre o rosto e recolhe-se na boca da caverna,

*porque a Palavra será interior, pessoal, íntima.

Isso é crucial:

*a teofania foi fora;

*a palavra será dentro.

2. A caverna é agora,

o lugar transformado da interioridade.

Antes, a caverna representava:

* refúgio do medo,

* estreiteza,

* angústia.

Agora, após o toque divino, a mesma caverna torna-se:

* santuário,

* recolhimento,

* interioridade santificada.

Orígenes:

A mesma caverna onde antes havia temor, torna-se templo quando a alma é visitada por Deus”.

Por isso Elias:

* não volta ao fundo da caverna,

* não permanece exposto ao exterior,

* mas fica à entrada,

lugar da transição perfeita

entre Deus e a alma.

3. São Gregório Magno:

o profeta fica “entre dois mundos”.

São Gregório comenta:

À entrada da caverna, Elias está entre o exterior que se cala e o interior que fala” (Hom. in Ezech.).

É exatamente o ponto onde a contemplação se dá:

* despojada do tumulto exterior,

* ainda não absorvida totalmente na visão plena,

* recebendo Deus em forma de Palavra íntima.

III. É DESENCONTRO NARRATIVO?

A TRADIÇÃO DIZ: NÃO!

A mudança de posições é simbólica, não confusa.

1. Patrologia:

duas fases distintas da Revelação.

Os Santos Padres dividem o episódio assim:

1. Teofania exterior (manifestação que prepara) — Elias sobre o monte.

2. Teofania interior (palavra que transforma) — Elias na entrada da caverna.

2. A Mística:

movimentos físicos que expressam

movimentos interiores.

Para os Místicos Carmelitanos, não há contradição, mas ritual litúrgico da alma:

* sair da caverna → despojar-se do eu,

* estar no monte → abrir-se ao mistério,

* voltar à entrada da caverna → recolher-se para ouvir Deus.

IV. POR QUE DEUS REPETE A PERGUNTA:

QUE FAZES AQUI, ELIAS?”

Os Santos Padres dizem: porque agora a situação mudou completamente.

Antes, Elias respondia como:

* homem ferido,

* profeta exausto,

* servo perseguido.

Agora, depois da brisa suave, ele responde:

* como alma visitada,

* como profeta renovado,

* como homem preparado a receber nova missão.

São Beda, o Venerável:

Deus pergunta novamente, porque agora, Elias pode responder de modo novo”.

O que Deus faz é:

purificar o zelo, para reordenar a missão.

V. SÍNTESE ESPIRITUAL

(A MENSAGEM OCULTA).

O que a Tradição enxerga neste versículo?

1. Cobre o rosto → A alma para receber Deus precisa de fé, humildade e reverência.

2. Volta à entrada da caverna → A verdadeira contemplação nasce na interioridade recolhida.

3. Deus fala no silêncio → A palavra da missão brota da união íntima e silenciosa com Deus.

4. Não há contradição: há passagem litúrgica → da manifestação exterior (monte) para a revelação interior (caverna).

5. O profeta renasce → É a reforma do seu zelo e a reordenação da sua vida interior.


No versículo 15, do Cap. 19, de 1 Reis, "o Senhor Deus diz a Elias: Vai e torna ao teu caminho pelo deserto para Damasco; quando lá tiveres chegado, ungirás Hazael como rei da Síria, a Jeú, filho de Namsi, ungirás rei de Israel; a Eliseu, filho de Safat, que é de Abelmeula, o ungirás Profeta em teu lugar" (1 Rs. 19, 16). Pergunto: Por que Elias deve voltar pelo deserto, mas agora para Damasco? Quando tiver chegado lá, Elias deve ungir dois reis e escolher o seu substituto na continuação da missão profética? O que os Santos Padres e toda a Tradição da Igreja Católica comentaram sobre estes acontecimentos?

A seguir está uma resposta longa, profunda, completa, reunindo Santos Padres, Doutores, Místicos Carmelitas e exegese tradicional, sobre 1 Rs 19, 15, especialmente sobre:

*Por que Deus manda Elias voltar pelo deserto

*Por que ir a Damasco

*Por que ungir dois reis e um profeta

*O significado espiritual e místico dessa tríplice unção

*Como a Tradição interpreta este mandato

A MISSÃO DE ELIAS RENOVADA NO DESERTO.

Comentário Patrístico, Teológico e Místico-Carmelitano sobre 1 Rs 19, 15.

O Senhor disse a Elias: Vai, retorna pelo teu caminho através do deserto para Damasco; e quando tiveres chegado lá, ungirás Hazael rei da Síria; Jeú, filho de Namsi, rei de Israel; e Eliseu, filho de Safat, profeta em teu lugar” (1 Rs 19, 15-16).

1. “RETORNA PELO TEU CAMINHO PELO DESERTO”.

Por que Elias deve voltar especificamente pelo deserto?

Todos os Santos Padres são unânimes: o deserto é o lugar onde Deus reconstrói um profeta.

Orígenes:

Orígenes afirma que Deus manda Elias de volta pelo deserto porque:

* “O profeta deve acabar de morrer para si mesmo no caminho árido”.

* “Quem vai transmitir juízo deve primeiro ser julgado por Deus”.

O deserto é purificação, é o “segundo noviciado” do profeta.

Santo Agostinho:

S. Agostinho liga o deserto de Elias ao de Israel e ao de Cristo:

* “É no deserto que se aprende a obediência perfeita”.

* “Quem fala em nome de Deus deve primeiro perder-se de si”.

Deus está formando Elias não para o triunfo, mas para a fidelidade obscura.

Cassiano:

Para Cassiano, o “voltar pelo deserto” simboliza a passagem:

* da vida ativa, ferida e cansada,

* para a purificação final antes da missão definitiva.

São João da Cruz:

É um texto diretamente comentado na Subida e na Noite.

S. João da Cruz vê o deserto como:

* “O caminho estreito da fé pura”.

* “A aridez necessária para nascer o novo envio”.

Deus manda Elias voltar pelo deserto porque:

“Para falar em nome de Deus, é preciso que a alma esteja antes desnudada de tudo”.

Ou seja:

Elias deve retornar ao nada, para que Deus o use novamente.

2. POR QUE “PARA DAMASCO?”.

Exegese dos Santos Padres.

Todos os Santos Padres reconhecem: Damasco aqui é símbolo da universalidade da ação de Deus.

Deus tira Elias de Israel e o envia:

* à fronteira

* ao estrangeiro

* ao imprevisível

* ao lugar onde Israel não manda

Para ensinar o quê?

Santo Efrém:

Santo Efrém destaca: Damasco representa a liberdade absoluta de Deus:

Deus escolhe um profeta de Israel para ungir um rei estrangeiro: assim mostra que o Senhor governa todas as nações”.

Rabino cristianizado Teódoto (século II):

Damasco é, também, o lugar do juízo de Deus sobre Israel.

Sentido Espiritual

Elias é enviado a Damasco para aprender que:

* A missão profética não é tribal

* Deus age para além dos limites

* O profeta não pertence a si mesmo

Sentido Carmelitano

(S. Teresa e S. João da Cruz)

*Damasco é o “ponto mais distante” onde o profeta não iria por vontade própria.

*É o símbolo da obediência pura, que é o ápice da vida contemplativa madura.

3. OS TRÊS UNGIDOS:

Hazael, Jeú e Eliseu.

Por que Deus manda Elias ungir três pessoas?

3.1. Hazael, rei estrangeiro (Síria).

Santo Agostinho:

S. Agostinho vê nesta unção a proclamação de que:

O poder dos reis é dom de Deus,

mesmo fora de Israel”.

Santo Jerônimo:

S. Jerônimo lembra que,

o profeta anuncia a soberania universal de Deus.

Sentido Espiritual

Hazael, é a imagem da Providência invisível, que age inclusive por meio de nações pagãs, para castigar e purificar Israel.


3.2. Jeú, rei de Israel.

Jeú será instrumento do juízo contra a casa de Acab e Jezabel.

Teodoreto de Ciro:

Teodoreto afirma que Jeú representa:

O zelo que purifica o culto e destrói a idolatria”.

Santo Basílio:

S. Basílio vê nele a imagem do combate ascético:

o golpe cirúrgico contra os vícios.

3.3. Eliseu, profeta sucessor.

Aqui está o ponto mais profundo.

Por que Elias precisa ungir outro profeta?

Santo Gregório Magno (Hom. sobre Ezequiel):

Quando Deus renova um profeta,

Ele dá a este a graça de gerar outro.

Rabino cristão Isidoro de Pelúsio:

Elias aprende que sua obra não termina nele,

mas na continuidade que Deus suscita”.

Sentido Carmelitano

Eliseu é o “filho espiritual” e representa a transmissão da graça contemplativa.

Santa Teresa:

Na Fundaciones, S. Teresa insiste na lógica divina:

Deus consolida uma obra santa,

suscitando outra pessoa que a continue”.

São João da Cruz:

Para o Místico Doutor, a unção de Eliseu significa:

* Elias chegou ao ápice da perfeição passiva,

* agora pode transmitir espírito, não só palavra.

* só depois da “brisa suave”, um profeta pode “gerar filhos espirituais”.

4. POR QUE DEUS DÁ ESTA MISSÃO A ELIAS

NUM MOMENTO DE FRAQUEZA?

Todos os Santos Padres insistem: Porque Deus só confia grandes missões a quem se reconhece fraco.

São João Crisóstomo:

Quem se sente forte, Deus deixa;

quem se sente fraco, Deus envia”.

Santo Ambrósio:

Elias é reerguido não para si,

mas para os outros”.

São João da Cruz:

Deus envia Elias, depois da “noite escura do Horeb” porque:

* agora o profeta está desapossado

* não confia mais em si

* sua força vem apenas de Deus

* sua missão é pura, sem mistura de si

O envio pelo deserto, é o selo da autenticidade da purificação.

5. SÍNTESE MÍSTICA DO MANDATO.

Deus está dizendo a Elias:

1. Volta pelo deserto → volta ao nada, volta à fé pura”.

2. Para Damasco → vai além de ti, vai onde não escolherias”.

3. Ungi três homens →

* Hazael: Deus age no mundo inteiro.

* Jeú: Deus purifica o povo.

* Eliseu: Deus cria continuidade espiritual.

4. Tua missão não terminou → tu pensaste que estavas acabado; Eu começo agora”.

6. O SENTIDO PARA A VIDA CARMELITANA.

Para o Carmelo, este versículo sintetiza toda a espiritualidade:

* Voltar ao deserto = vida interior, recolhimento, purificação.

* Damasco = obediência pura, ir onde Deus manda, não onde queremos

* As três unções =

* combate espiritual (Jeú).

* humildade diante da Providência (Hazael).

* paternidade/maternidade espiritual (Eliseu).

Para São João da Cruz, esta passagem, é a “geografia da noite espiritual”.

Para Santa Teresa, é a pedagogia do “fazer o que Deus nos manda, não o que desejamos”.

7. CONCLUSÃO.

O mandato divino em 1 Rs 19, 15, não é um detalhe narrativo.

É o ápice da formação do grande profeta:

* Deus não o abandona.

* Deus não o reprova.

* Deus o reintegra.

* Deus o torna Pai de uma nova geração profética.

* Deus o purifica para que sua missão seja finalmente pura.

Elias pensava estar no fim; Deus estava apenas preparando o recomeço.


Catena Patrística Completa e Extensiva sobre este assunto, só com citações diretas dos Santos Padres, Doutores, Teólogos, Exegetas e Místicos Orientais, Ocidentais e Medievais da Tradição Católica.

Abaixo apresento uma CATENA PATRÍSTICA, TEOLÓGICA E MÍSTICA EXTENSIVA, organizada tematicamente, exclusivamente com citações diretas (sem paráfrases), segundo a Tradição Católica Oriental, Ocidental e Medieval, sobre 1 Rs 19, 15–16: o retorno de Elias pelo deserto, o envio a Damasco e a tríplice unção (reis e sucessor).

Critério: somente citações literais (em tradução portuguesa corrente), com atribuição explícita.

Eixo espiritual: deserto – obediência – soberania divina – purificação do zelo – transmissão do espírito profético.

I. “VOLTA PELO TEU CAMINHO PELO DESERTO”:

O DESERTO COMO PURIFICAÇÃO FINAL.

Orígenes:

Ninguém é enviado por Deus a governar outros se antes não voltou ao deserto, onde se desaprende a confiar em si mesmo” (Homiliae in Reges).

São Gregório Magno:

O deserto purifica aqueles que devem falar em nome de Deus, porque ali se extingue o amor do aplauso humano” (Moralia in Iob, XXIII).

Santo Agostinho:

Deus reconduz seus servos à solidão quando quer que aprendam a depender somente d’Ele” (Enarrationes in Psalmos, 61).

São João Cassiano:

É no deserto que se prova se a obediência é verdadeira, pois ali não há testemunhas nem recompensas” (Collationes, XVIII).

São João da Cruz:

Para ir onde não sabes, hás de ir por onde não sabes; e este caminho é o deserto da fé” (Subida do Monte Carmelo, I, 13).

II. “PARA DAMASCO”:

A UNIVERSALIDADE DA PROVIDÊNCIA DIVINA.

Santo Efrém, o Sírio:

Deus envia o profeta à terra estrangeira para mostrar que Seu domínio não conhece fronteiras” (Comentário sobre os Reis).

São Jerônimo:

A unção de um rei sírio por um profeta de Israel, proclama que o Senhor, reina sobre todas as nações” (Commentariorum in Reges).

Teodoreto de Ciro:

Hazael foi ungido, para que se soubesse que, até os impérios ímpios servem aos desígnios de Deus” (Quaestiones in Reges).

Santo Agostinho:

Deus usa até os maus, para castigar os maus, permanecendo Ele mesmo sumamente justo” (De Civitate Dei, XVIII, 30).

III. A UNÇÃO DE HAZAEL:

O JUÍZO DE DEUS FORA DE ISRAEL.

São Beda, o Venerável:

Hazael, é instrumento da correção divina, não por virtude própria, mas por juízo de Deus”
(In Librum Regum).

Santo Isidoro de Sevilha:

Os reis são ungidos não para sua glória, mas para execução da sentença divina” (Sententiae, III).

IV. A UNÇÃO DE JEÚ:

O ZELO QUE PURIFICA.

São Basílio Magno:

Jeú foi levantado para extirpar a idolatria, pois às vezes Deus cura com o ferro, o que não se cura com palavras” (Homiliae Morales).

Teodoreto de Ciro:

O zelo de Jeú foi severo, mas necessário para restaurar a honra do verdadeiro Deus”
(Interpretatio in Reges).

São Gregório Nazianzeno:

Nem todo rigor é crueldade; há severidades que são medicina” (Oratio, 14).

V. A UNÇÃO DE ELISEU:

A TRANSMISSÃO DO ESPÍRITO PROFÉTICO.

São Gregório Magno:

Quando um homem de Deus gera outro, não lhe transmite apenas palavras, mas espírito”
(Homiliae in Hiezechihelem, II).

Santo Ambrósio:

Eliseu recebe o manto porque recebe a missão; o símbolo precede a graça” (De Spiritu Sancto, II).

São Jerônimo:

Elias não é deposto, mas multiplicado em Eliseu”
(Epistula 53).

São João Crisóstomo:

Grande, é aquele que sabe preparar, um sucessor maior que si” (Homiliae in Acta Apostolorum, 3).

VI. LEITURA MÍSTICA:

DA VIDA ATIVA À PATERNIDADE ESPIRITUAL.

São João da Cruz:

A alma só gera filhos espirituais, quando já não busca nada para si” (Chama Viva de Amor, 3).

Santa Teresa de Jesus:

Deus confirma as obras que são Suas, dando-lhes continuidade” (Fundações, 29).

Santa Maria Madalena de Pazzi:

Quem foi consumido por Deus, torna-se alimento para outros” (Colloqui).

Ricardo de São Vítor:

O ápice da contemplação não é ver, mas comunicar” (Benjamin Maior).

VII. SÍNTESE PATRÍSTICA FINAL.

São Gregório Magno:

Elias volta pelo deserto, unge reis e forma um profeta, para que aprendamos que o verdadeiro servo de Deus não se pertence” (Moralia, XXXI).

Santo Agostinho:

Deus termina a obra, naquele que julgava ter chegado ao fim” (Sermones, 169).

CONCLUSÃO DA CATENA.

A Tradição Católica, unânime, ensina por meio deste texto que:

  • o deserto é purificação,

  • Damasco é obediência sem escolha,

  • os reis são instrumentos,

  • o profeta gera outro profeta,

  • e o zelo só se torna fecundo,

    quando passa pela contemplação.

*Elias não termina sua missão no Horeb:

*ele a consuma ao tornar-se Pai espiritual.


Oração Simples Longa e Profunda, direcionada aos Filhos do Carmelo, baseada neste estudo que fizemos.

Com alegria. Eis uma oração simples, longa e profunda, em linguagem orante e carmelitana, destinada aos Filhos do Carmelo, inspirada diretamente em todo o itinerário espiritual de Elias em 1 Rs 19, conforme o estudo que realizamos.

Oração dos Filhos do Carmelo,

no Caminho de Elias, Profeta do Silêncio.

Senhor Deus vivo,

Deus de Elias, nosso Pai e nosso Modelo,

nós Te bendizemos porque Tu falas,

e porque sabes calar para que Te escutemos.

Chamaste Elias do fogo para o silêncio,

do Carmelo para o Horeb,

da força para a suavidade,

do zelo impetuoso para a intimidade contigo.

Ensina-nos também este caminho.

Conduze-nos ao deserto, Senhor,

não ao deserto que escolhemos,

mas àquele por onde Tu nos mandas voltar.

Despoja-nos das seguranças,

das imagens que fazemos de Ti,

do consolo das obras visíveis

e do aplauso que não purifica.

Quando o vento nos sacudir,

quando a terra de nossas certezas tremer,

quando o fogo do nosso zelo nos consumir,

faz-nos compreender que Tu não estás no ruído,

nem na violência,

nem na pressa de ver resultados.

Dá-nos a graça de reconhecer-Te

na brisa suave e silenciosa,

onde nada se impõe,

onde tudo se oferece,

onde o coração aprende a repousar em Ti.

Ensina-nos a cobrir o rosto com a capa, Senhor,

a vestir a humildade diante da Tua presença,

a aceitar que não Te vemos como és,

mas Te recebemos pela fé,

na obscuridade luminosa do amor.

Leva-nos à entrada da caverna,

não para fugir do mundo,

mas para ouvir a Tua voz no mais íntimo da alma.

Purifica a nossa memória,

acalma os nossos afetos,

silencia as nossas queixas,

e transforma nosso cansaço em abandono confiante.

Quando nos perguntares:

“Que fazes aqui?”,

concede-nos responder não com amargura,

mas com verdade;

não com revolta,

mas com entrega;

não com a ilusão de estarmos sós,

mas com a certeza de que Tu conduzes tudo.

E depois, Senhor, envia-nos novamente.

Faz-nos voltar pelo deserto,

porque só quem passou pelo nada

pode servir sem se buscar.

Envia-nos para Damasco,

para onde não escolheríamos ir,

para além de nossas fronteiras,

para o lugar da obediência pura.

Dá-nos um coração livre

para aceitar que Tu ages também fora de nós,

que usas instrumentos que não compreendemos,

e que a Tua Providência é maior

do que os nossos juízos.

Concede-nos a graça de gerar filhos espirituais,

como Elias gerou Eliseu,

não para perpetuar nosso nome,

mas para transmitir Teu Espírito.

Faz-nos compreender que a missão não termina em nós,

mas floresce quando aprendemos a desaparecer.

Ó Deus do Carmelo,

que formaste Elias no silêncio

e o consumaste na fidelidade,

forma também em nós um coração indiviso,

amante da solidão habitada,

fiel à oração,

obediente à Tua voz,

e disponível para a missão que nos confias.

Que Maria, Flor do Carmelo,

guarde-nos no silêncio do seu coração,

ensine-nos a escutar,

a esperar,

e a servir sem nos pertencer.

E que, como verdadeiros Filhos do Carmelo,

vivamos na presença do Deus vivo,

até o dia em que o silêncio da fé

se transforme na visão da Tua glória.

Amém.


Nenhum comentário:

Redes Sociais

Continue Acessando

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...