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Parte I
O Sacerdócio de Abel e o de Noé, eram figurativos, cada um a seu modo, do Sacrifício cruento do Calvário; o de Melquisedeque, tendo por matéria pão e vinho, era destinado evidentemente a anunciar o Sacrifício da Eucaristia. Escuta o que te digo, os Mistérios dos Cristãos são mais antigos que os dos Judeus, e os Sacramentos dos Cristãos, são mais divinos que os dos Judeus. Como assim? Ouve: quando começaram os Judeus? Com Judá, bisneto de Abraão; ou, se te apraz e assim o intendes, começaram com a Lei, isto é, quando os Judeus mereceram receber a Lei. Foram pois chamados os Judeus desde o bisneto de Abraão, ou desde o tempo do santo Moisés. E, se então Deus fez chover do Céu o maná para os Judeus que murmuravam, para ti ao contrário, antecipou a figura destes sacramentos, a te dando no tempo de Abraão.
Quando este, com trezentos e dezoito servos que reunira, voltava triunfante dos inimigos, tendo libertado o seu sobrinho, saiu-lhe ao encontro o Sacerdote Melquisedeque e ofereceu-lhe pão e vinho. Quem é que tinha o pão e o vinho? Abraão não o tinha. Mas quem o tinha? Melquisedeque. Logo, é ele o autor dos Sacramentos. Quem é Melquisedeque? Esta palavra significa rei da justiça, rei da paz. Quem é esse rei da justiça? Pode, porventura, algum homem ser rei da justiça? Quem é, portanto, o rei da justiça senão a justiça de Deus, que é a paz de Deus e a sabedoria de Deus?
– Aquele que pôde dizer: Dou-vos a minha paz, deixo-vos a minha paz.
Sabe, portanto, que estes Sacramentos que recebes são anteriores aos de Moisés e a quantos os Judeus dizem possuir; nós os Cristãos começamos primeiro que os Judeus, mas nós na predestinação, eles no nome. Melquisedeque ofereceu, pois, pão e vinho. Quem é Melquisedeque, sem pai, sem mãe, sem ordem genealógica, não tendo começo de dias, nem fim de vida, como se encontra na Epístola aos Hebreus? É sem pai, diz ela, e sem mãe. Semelhante a quem? Ao Filho de Deus. Na geração celestial, nasceu o Filho de Deus sem mãe; porque só nasceu de Deus Pai; e depois, nasceu sem pai, quando nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria, – do seu seio virginal, semelhante em tudo ao Filho de Deus.1 Também Melquisedeque era Sacerdote, porque é de Cristo Sacerdote que se diz:2 Tu és Sacerdote Eterno segundo a ordem de Melquisedeque.3 Moisés havia escrito:4 Por ser Sacerdote do Altíssimo, Melquisedeque, rei de Salem, foi ao encontro de Abraão, ofereceu em ação de graças um sacrifício de pão e vinho e abençoou-o dizendo: que o Deus excelso, Criador do Céu e da terra, abençoe Abraão; e seja bendito esse Deus Altíssimo, que te deu a vitória sobre os inimigos. E Abraão deu-lhe o dízimo de todos os despojos.
Que assunto de meditação para mim, o que acabo de expor! O sacrifício de Noé era sangrento, convidava-me para o Calvário: o de Melquisedeque é incruento, convida-me para o Cenáculo. O Calvário e o Cenáculo, eis os dois lugares privilegiados a que a alma cristã, e sobretudo a alma Sacerdotal, deve transportar-se, sempre que se sinta carecida de altas inspirações.
Contemplar somente o Calvário não basta, visitar apenas o Cenáculo também não basta; é necessário associar o Calvário ao Cenáculo, o Mistério do sofrimento ao do amor, – que associados e unidos inseparavelmente o foram eles na Vítima divina. Louvado sejais, Deus das misericórdias, que Vos acomodastes à fraqueza do meu espírito, apresentando-me, já na Antiga Lei, e pouco a pouco, o Sacramento do vosso amor.
Parte II
Muito de longe quis Deus, apontar-me a excelência do Sacramento da Eucaristia, nas particularidades do sacrifício de Melquisedeque. Revela na verdade este sacrifício uma singular proeminência, pela pessoa do oferente e pela natureza da oferta. Quem era Melquisedeque? Responde-me em primeiro lugar o inspirado Moisés, dizendo: “Por ser Sacerdote do Altíssimo, Melquisedeque rei de Salem foi ao encontro de Abraão, ofereceu em ação de graças um sacrifício de pão e vinho e abençoou-o dizendo: que o Deus excelso, Criador do Céu e da terra, abençoe Abraão e seja bendito esse Deus Altíssimo, que te deu a vitória sobre os inimigos. Abraão deu-lhe o dízimo de todos os despojos”.5
Responde-me em segundo lugar o grande São Paulo, não menos inspirado: “Era Melquisedeque rei de Salem e Sacerdote do Altíssimo; tinha ido ao encontro de Abraão quando este voltava de destroçar os reis, e abençoou-o. Abraão deu-lhe o dízimo de todos os seus despojos”. Segundo a etimologia da palavra, Melquisedeque significa rei da justiça; além do mais, era ele também rei de Salem, isto é, rei da paz. Não se faz menção nem de seu pai, nem de sua mãe, nem da sua genealogia, nem de seu nascimento, nem da sua morte: assemelha-se ao Filho de Deus, que é Sacerdote Eterno. Admirai agora quão grande devia ser ele, para que o Patriarca Abraão lhe ofertasse o dízimo dos seus melhores despojos.6 Sim, é justo o apelo que o Apóstolo faz à nossa admiração: devia ser muito grande esse homem, diante de quem Abraão, o Pai dos Crentes, se tornava tão pequeno! É que esse homem devia ser o tipo de Jesus Cristo. – “Como, direis vós, como é possível um homem sem pai e sem mãe, sem genealogia, homem cuja vida não tenha começo nem fim? – Já sabeis que Melquisedeque era uma figura: não fiqueis pois surpreendidos, não exijais que tudo se encontre no tipo. Se ele possuísse tudo quanto se encerra na realidade figurada, deixaria de ser tipo. Em que sentido pois hão de se intender essas palavras? Escutai: diz-se Melquisedeque sem pai e sem mãe, porque se perdera a lembrança dos seus progenitores, e diz-se sem genealogia, porque não havia memória da sua estirpe; de um modo semelhante se diz também com verdade, que Cristo não tem genealogia, porque não tem mãe no Céu, nem pai na terra.7 Falando das grandezas do Messias, diz Davi no Salmo 109: “O Senhor jurou e não há de voltar atrás na sua palavra: ‘Tu (Homem-Deus) és Sacerdote Eterno segundo a ordem de Melquisedeque’8 (e não segundo a ordem de Abraão, que oferecia em sacrifício novilhos e cordeiros)”. Preso à família, ligado à carne e ao sangue, o Sacerdócio de Abraão era menos próprio que o do cananeu Melquisedeque, rei da justiça e da paz, para representar o Sacerdócio de Jesus Cristo, Pontífice Santo, Inocente, Impoluto, Segregado dos pecadores.9 É tal a grandeza e sublimidade do Sacerdócio Católico, que até para o anunciar, desde o começo do mundo, às futuras gerações, escolheu Deus tipos e figuras de proporções extraordinárias, inconfundíveis! No Antigo Testamento, no decurso de 40 séculos, só queria Ele mostrar-nos como em desenho, pintura e símbolo o Sacerdócio de Jesus Cristo; e, apesar disso no-lo representa deslumbrante de grandeza e majestade!
E ainda haverá jovens que, ousem alistar-se temerariamente na milícia sagrada? Eclesiásticos e leigos, todos precisamos meditar as grandezas do Sacerdócio, para não lhes recusarmos as homenagens que lhe são devidas.
Parte III
Fica exposto diante da Sagrada Escritura o sacrifício de Melquisedeque e explicado conforme a doutrina de dois grandes Doutores da Igreja, Santo Ambrósio e São João Crisóstomo; mas nem por isso devemos dar por concluídas as nossas considerações sobre este ponto, em que todos nós temos muito a aprender. Mais alto nos falam os exemplos que as palavras, e tão grande é por vezes a nossa insensibilidade que bem necessitamos de todos esses despertadores: que os nossos olhos contemplem absortos as virtudes heroicas e os nossos ouvidos escutem atentos as vozes do Verbo Eterno. E o que nos dizem elas, a todos e a cada um? – Consulta os séculos idos, considera o que se tem passado no decurso das gerações, interroga os teus maiores e eles te dirão.10
Farei, Senhor, de bom grado o que me mandais, porque os vossos Mandamentos são sempre justos e estão de perfeito acordo com os meus interesses. Como pobre peregrino deste vale de lágrimas, interessa-me olhar para o futuro, em que a minha viagem terrena encontrará o meu termo; mas aproveita-me também volver os olhos para o passado e alongar a minha vida até ao berço de nossos primeiros pais. Não podiam ir tão longe as luzes da minha razão, que pouco alcançam e facilmente se obscurecem. Que fazer pois? O que convinha fazer, Vós o fizestes para mim e sem mim: deste-me as luzes da fé com as quais posso caminhar ao longe e ao largo pelo meio de todas as gerações da família humana. Muito triste deve ser uma vida sem fé! Até na ordem física as trevas parecem inimigas naturais da vida: as plantinhas procuram a luz, inclinando-se para o sol; e quando não conseguem libertar-se das sombras, mostram-se tristes, nem se vestem de mimosas flores, nem se carregam de abundantes frutos.
Também o homem, quando a fé não lhe ilumina a vida, é como a planta estéril, sumida nas profundezas de um barranco, que os raios do sol nunca visitam; o seu horizonte visual é demasiado restrito e a sua vista tão curta, que não lhe deixa ver nem de onde vem, nem para onde vai. Para o homem de fé, pelo contrário, tudo se ilumina – o passado, o presente, o futuro, o natural e o sobrenatural, o tempo e a eternidade, a terra e o Céu. É deste modo, à luz da fé, meu Deus, que descubro as múltiplas feições do Salvador do mundo, como outras tantas lições que devo considerar. Assim Melquisedeque, Sacerdote e rei, apresentado a meus olhos, sem ascendência nem descendência, faz-me compreender que o Sacerdote não pertence à sua família, mas sim à Igreja, a cujo serviço se consagrou e para a qual deve viver. É verdade que ele, como qualquer outro homem, não pode aparecer no mundo sem pai, sem mãe, sem genealogia, sem família; mas, na dignidade eminente de Sacerdote, deve morrer à carne e ao sangue, para ser só homem de Deus, homem da Igreja, delegado de Jesus Cristo. É quase uma blasfêmia, dizer que os Padres são homens como os outros; não, o Sacerdócio elevou-os muito acima da condição humana. Quando rebaixam a sua dignidade, tornam-se menos que homens, convertem-se em Demônios, como o próprio Jesus Cristo afirmou de Judas; não é verdade que vos escolhi em número de doze, e que ainda assim um de vós é Demônio?11 Para um Anjo decaído, não há de ficar-se homem; é forçoso que se torne em Demônio.
Parte IV
Por ser imagem de Jesus Cristo-Sacerdote, Melquisedeque no seu tempo é apresentado como Sacerdote único, Sacerdote do Altíssimo, Sacerdote e rei de Salem, rei da justiça e da paz, sem começo nem fim.
Porquê, para quê, de que modo e onde ofereceu Melquisedeque o seu sacrifício de pão e vinho? É minuciosa a Escritura em nos por diante dos olhos todas estas circunstâncias. Não é Sacerdote quem o quer ser, mas somente quem o Senhor Supremo de todas as coisas escolhe para esse múnus. Melquisedeque pois ofereceu sacrifício, porque era Sacerdote do Altíssimo, ou antes, do Deus altíssimo.12 E, oferecendo um sacrifício, não imitou Abel nem Noé na escolha de animais; ofereceu pão e vinho, porque o mesmo Senhor, que o constituíra Sacerdote e rei, lhe inspirara a natureza da oferenda.
O fim que se propôs foi dar graças a Deus, pela recente vitória de Abraão, e felicitar este, recebendo ao mesmo tempo as suas homenagens: que o Deus excelso, Criador do Céu e da terra, abençoe Abraão, e seja bendito o Deus altíssimo, que te deu a vitória sobre os inimigos.13
Foi também dando graças que Jesus Cristo na noite da Ceia, consagrou pão e vinho: tomou Jesus pão e abençoou-o… e tomando o cálice deu graças.14 Assim, de um modo muito claro o sacrifício de Melquisedeque anunciava de longe a Sagrada Eucaristia, que devia reduzir à unidade os múltiplos sacrifícios da Lei Natural e Mosaica. Do sacrifício de Melquisedeque participou Abraão e os seus servos, que voltavam triunfantes dos seus inimigos; do Sacrifício Eucarístico participaram logo desde a Instituição os Apóstolos que todos, à exceção de Judas, estavam puros e, por isso, libertos da escravidão do pecado, – triunfantes dos inimigos da sua alma. Eis uma figura da Sagrada Comunhão.
Pela sua parte, Abraão recebeu agradecido a bênção, de Melquisedeque, com a participação no sacrifício, e deu-lhe o dízimo dos seus melhores despojos. Aprendam neste exemplo os comungantes a darem a Deus, depois da Sagrada Comunhão, as devidas ações de graças, oferecendo-lhe de preferência os melhores despojos alcançados na guerra contra os inimigos da sua alma: o perdão das injúrias recebidas, a prática discreta da mortificação, a dor dos pecados, a paciência nos sofrimentos, etc.
Como chefe do povo escolhido, Abraão na sua homenagem representa as dez tribos de Israel e particularmente a tribo sacerdotal de Levi. Ao dar testemunho solene da alta superioridade de Melquisedeque, apontava o Pai dos Crentes às gerações futuras, quanto o Sacerdócio de Aarão ficaria inferior ao de Jesus Cristo, de quem Davi15 tinha profetizado: “Jurou o Senhor, e não se há de arrepender: Tu és Sacerdote Eterno segundo a ordem de Melquisedeque”. “O que Melquisedeque foi em figura, diz São João Crisóstomo, o foi Jesus Cristo em realidade e o nome de Melquisedeque foi como os nomes de Jesus Cristo, que muito de longe anunciaram e figuraram a missão do Salvador… Deus não jura na realidade, prediz simplesmente o que há de acontecer”.16
Nem o sacrifício de Abel, nem o de Noé nos aparecem definidos quando ao lugar; no de Melquisedeque, porém, deixa-se ver essa circunstância, que representa um novo traço de semelhança com o Sacrifício Eucarístico. É de fato, em Salem (Jerusalém) que Melquisedeque realiza o seu sacrifício de pão e vinho, ali mesmo onde Jesus Cristo institui a Sagrada Eucaristia.
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Fonte: Biblioteca de Regeneração – Pe. Marinho, “Diante do Santíssimo Sacramento”, para os Adoradores Eclesiásticos e Leigos, Caps. XLV-XLIII, pp. 168-184. Typographia Fonseca, Porto, 1923.
1 Mat. 1, 20.
2 Ps. 109, 4.
3 Santo Ambrósio, Dos Sacramentos, nn. 10, 11 e 12.
4 Gên. 14, 18-20.
5 Gên. 14, 18-20.
6 Heb. 7, 1-4.
7 S. João Crisóstomo, Hom. 35 sobre o Gên.
8 Ps. 109, 4.
9 Heb. 7, 26.
10 Deut. 32, 7.
11 Joan. 6, 71.
12 Gên. 14, 18.
13 Gên. 14, 19-20.
14 Mat. 26, 26-27; Luc. 22, 17-20.
15 Ps. 109, 4.
16 São João Crisóstomo, Ps. 109.




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