BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

SÃO JOSÉ, O PAI PUTATIVO DE JESUS CRISTO E SUAS GRANDEZAS.

 


De Maria a José a transição é natural e fácil. Os mistérios de São José procedem da Santa Infância e elevam-se como uma nuvem de incenso. Ele pertence inteiramente a esta época. Fora daí não sabemos nada dele. Parece que foi só para este fim que Deus o criou e ornou de santidade maravilhosa, a única obra que lhe foi ordenada. Ele nenhuma relação tem com a Paixão, que, aliás, não projeta sobre ele as sombras que antecipadamente se estendem sobre a Mãe das Dores. Mais: antes que Jesus tivesse deixado a casa de Nazaré para ir desempenhar o seu Santo Ministério, José foi juntar-se a seu pai no túmulo. Consumido de divino amor, ele morreu em suave êxtase, a cabeça apoiada no seio de Jesus, tendo Maria ao seu lado, numa palavra, na presença do que havia de mais belo, de mais santo, de mais celeste sobre a terra. Nenhum pensamento de violência passou entre as lembranças dos seus pacíficos deveres, posto que não fossem isentas de inquietações. O sangue da sua circuncisão foi o seu Getsêmani e o seu Gólgota. Sua infância perdeu-se na obscuridade e dela não podemos formar nenhuma ideia, além do que se revelou numa visão da Irmã Emmerich. Mas quem pode duvidar que tudo não tivesse sido preparado para o grande ofício de que Deus haveria de entregá-lo? Quem pode duvidar que tudo estava disposto para formá-lo e lhe dar a consagração que lhe convinha como pai de criação do Verbo feito carne?

Pertencendo ele, como pertence, à Santa Infância, não nos surpreende saber que o espírito de devoção a ele é o espírito de devoção à Santa Infância, mas com circunstâncias que o fazem ainda mais tocante. Primeiro que tudo, ele parece representar-nos no estábulo de Belém, na estada no Egito e na casa de Nazaré. Toda esta intimidade e familiaridade, à qual o Infante Salvador se digna de nos dar direito e título por sua Encarnação; todos os minuciosos serviços que ele condescende em receber do nosso amor e devoção; toda esta alegria e esta serenidade que a vista da fraqueza infantil misturada com o temor que a presença da sua Divindade nos expõem; todas estas coisas José aí está para as receber ou restituir, sentir ou mostrar, como em nosso nome. Ele aí está como o representante de todos os fiéis, e sobretudo daqueles, cujos corações, em razão de um atrativo especial, são impelidos para estes primeiros Mistérios de Jesus.

Mas, em segundo lugar, São José está em Belém, no Egito, no deserto e em Nazaré, como sombra do Pai Eterno. Aí está o imenso da sua dignidade. A incomensurável e para sempre bendita paternidade de Deus lhe é comunicada de um modo figurado; ele é o pai de criação de Jesus; aos olhos do mundo exterior passa por ser o verdadeiro pai. Ele exerce a autoridade de pai e dispensa ao Filho de Deus os deveres e solicitude paternais. Além disso, em sua natureza humana, Nosso Senhor está subordinado a José, ele que, em sua natureza divina, não poderia jamais ser subordinado ao Pai Eterno. Os inefáveis tesouros de Deus, Jesus e Maria, são confiados à guarda de José; ele mesmo é um tesouro e, ao mesmo tempo, guarda dos tesouros; tem parte nos planos da Redenção. Como Jesus ou Maria, tem ele os seus tipos, seus precursores e sua profecia no Antigo Testamento. Assiste a Deus em manter oculto o Mistério da Encarnação e, como representante do Pai Eterno, ele, em seu ministério junto ao Santo Infante, está sempre a nos lembrar a sua Divindade. Pelas funções de que dispunha, obsta a que nos esqueçamos que Jesus é verdadeiro Deus e Filho de Deus; e assim, ensinando-nos a maior familiaridade com Jesus, ensina-nos também a ter-lhe maior respeito. Se ele nos anima a aproximar-nos e ir beijar os pés de Jesus, ao mesmo tempo nos ordena que nos ajoelhemos e adoremos profundamente o Eterno recém-nascido. Assim, no Céu e na terra, se veem reunidas nele as duplas funções de representante do Pai Eterno e de representante dos fiéis cristãos. Que há de admirar de que os Teólogos nos falam das graças sem número e dos dons preciosos dos quais é ele ornado? Há de que surpreender que os fiéis creiam que por ele foi antecipada a ressurreição dos justos, que ele foi um dos que percorreram as ruas de Jerusalém no dia de páscoa com seu corpo ressuscitado e que ele também subiu aos Céus, no dia da Ascensão, no séquito de Nosso Senhor?

Que tesouro deu Jesus à Igreja nesta sublime e terna devoção! Já toda a doutrina tocante a Nosso Senhor estava estabelecida e fixada. Haurindo nos tesouros da Tradição Apostólica, a Igreja tinha achado os meios de vencer a heresia e, em virtude da Infalibilidade da Cátedra de Pedro, sancionara Ela os atos dos Concílios e definira a verdadeira doutrina sobre a Pessoa e a realidade da sua Sagrada Humanidade, a Unidade da sua Pessoa, a separação distinta das suas Naturezas e dupla vontade, mas tinham-se também exposto sublimes verdades a respeito de sua Alma, suas Faculdades, o modo de União Hipostática, sendo dado aos fiéis saciarem-se livremente nas fontes fecundas da pura teologia. Mas uma verdade sobressaia a todas as outras. As alturas inacessíveis da sua Divindade elevavam-se acima de toda a dúvida aos olhos dos homens. O professor em sua cadeira ou o menino na escola de catecismo não podiam duvidar do dogma sem saber que havia deixado de ser católico. Mas, ao passo que estas verdades eram patenteadas, as tradições da Tradição Apostólica eram resolvidas frequentemente, a respeito da dignidade da Mãe de Deus. Para assegurar a honra do Filho, consultaram-se as antigas Igrejas; e as vozes de Pedro, Paulo, Tiago e João emitiram oráculos que envolviam o Filho na honra de sua Mãe. E, uma vez extinto este tumulto de conflitos com a heresia, e desaparecida a oposição que tinham levantado, então, visível a todos os olhos e tal qual João a tinha enxergado na ilha de Patmos, apareceu a visão magnífica da Mulher, da Mãe do Menino-Rei, com a cabeça coroada de Doze Estrelas e o crescente da lua sob os pés. Assim, a adoração de Jesus e a devoção a Maria tinham tomado os seus lugares irrevogavelmente no coração dos fiéis e no sistema prático da Igreja, ambos instruindo, iluminando, nutrindo e santificando o povo cristão.

Mas havia ainda uma pessoa da “terrestre trindade” que estava fora destas honras. A devoção a São José existia de algum modo latente na Igreja. Não era que se esperassem novas revelações em acréscimo ao que dele já era conhecido: ele pertencia exclusivamente à Santa Infância e lia-se o seu nome no começo do Evangelho segundo São Mateus. Dois evangelistas tinham guardado silêncio absoluto sobre ele e um terceiro apenas mencionou seu nome na genealogia. A Tradição conservava algumas fracas lembranças dele, e não havia outra luz senão a que era tomada do Evangelho de São Mateus. Tudo quanto sabemos agora de São José existia então; só o sentimento dos fiéis não ia de par com a plenitude do saber que os Apóstolos possuíam: longe disso; tal sentimento tinha de crescer pouco a pouco para ficar ao nível do saber que os Apóstolos possuíam; era mister que o sobrepujasse, que o enchesse de devoção, o animasse com instituições e o submetesse a uma hierarquia perfeitamente administrada. Mas a final foi chegado o tempo prefixado por Deus para ser instituída tão amável devoção; e, como todos os dons, veio quando os tempos estavam sombrios e calamitosos.

Ó bela Provença! Esta terna devoção elevou-se da Igreja do Ocidente, do teu solo perfumoso, semelhante a uma ligeira nuvem de flores de amendoeira, que parecem flutuar entre o Céu e a terra e suspender suas brancas cores por sobre os teus cantos perfumados, nas primeiras horas da primavera. A nova devoção nasceu no seio de uma Confraria, na branca cidade de Avinhão,1 e foi embalada pela corrente do Ródano, esse rio sobre o qual flutua a memória de tantos martírios; que banha Lion, Orange, Viena e Arles e se lança no mar que banha as praias da Palestina. A terra que a contemplativa Madalena consagrou por sua vida solitária, e onde Marta e sua escola de virgens tinham entoado louvores a Deus; onde Lázaro usou a mitra em vez da mortalha, foi também aí que surgiu o início da tão gloriosa devoção, espalhando-se depois por toda a Igreja universal.

Gérson foi o designado para ser o teólogo e doutor desta devoção e Santa Teresa para ser a santa; e São Francisco de Sales para ser o mestre que haveria de a divulgar. As casas do Carmelo foram-lhe como a santa casa de Nazaré; e os colégios dos Jesuítas o local pacífico de sua residência no sombrio Egito.

As almas contemplativas receberam-na e dela se nutriram; as que preferiam a vida ativa dela se apossaram e foram em seu nome cuidar dos doentes e dar sustento aos que tinham fome. O povo dos trabalhadores acorreu a ele, pois o Santo e seu culto pertenciam-lhes a títulos iguais. Os jovens deixaram-se arrastar pelo seu atrativo e, por efeito dela, se tornaram puros; os velhos descansaram nela e nela encontraram paz. São Sulpício adotou-a. Formou-se ainda o espírito do Clero Secular. E quando a grande Comunidade dos Jesuítas procurou refúgio no Sagrado Coração, e seus membros, dispersos, conservaram suas lâmpadas acesas, prontas para o dia da restauração da Companhia, a devoção a São José foi seu arrimo e consolo.

É assim que a bela devoção a São José atraiu a si as Ordens Religiosas e as Congregações, os grandes e os pequenos, os eclesiásticos e os leigos, as escolas e as confrarias, os hospitais, as salas de asilo e as penitenciárias; é assim que o vemos muitas vezes voltando-se para Jesus, caminhando junto de Maria e projetando por toda parte a doce imagem do Pai Eterno. E, depois de encher de seus suaves perfumes toda a Europa, atravessou o Atlântico, embrenhou-se nas florestas virgens, abraçou todo o Canadá, tornou-se para os Missionários auxiliar poderoso e milhares de selvagens entoaram, ao por do sol, nos bosques e prados do Novo Mundo, hinos em honra de São José ou louvores ao pai de criação de Nosso Senhor.

Mas que relação tem tudo isto com o Santíssimo Sacramento? Muito e muito mais do que se pensa; porquanto este sentimento dos fiéis, de acordo com a voz da autoridade, designou esta devoção como especial aos Padres, e isto simplesmente por causa das suas funções para com o Santíssimo Sacramento. No pequeno número das orações a São José, indulgenciadas pela Santa Sé, há duas que são reservadas exclusivamente aos Padres. Uma deve ser dita antes da Missa e fala do Ministério e dos privilégios de São José, que consistiam não só em ver e ouvir a Jesus, mas em levá-Lo, beijá-Lo, vesti-Lo e cuidar d'Ele; e prossegue nestes termos: “Ó Deus, Vós que nos tendes revestido de um Sacerdócio real, concedei-nos que, como o Bem-aventurado José mereceu tocar respeitosamente e levar em seus braços vosso Filho único, nascido da Virgem Maria, possamos também servir aos vossos altares”. E também numa Coleta chamada a Oração eficaz, também indulgenciada por Pio VII, exclusivamente para os Padres, São José é chamado o Guarda dos Virgens Jesus e Maria e modelo de nosso Ministério para com ambos. Mas notai o paralelo existente entre São José e o Sacerdócio Católico. Ele era o intendente da casa de Deus; as mesmas funções são atribuídas aos Padres. Ele era o dispensador dos dons de Deus; os Padres o são também. Ele tocava, levava, elevava e baixava o Corpo de Jesus Cristo; não fazem o mesmo os Padres? Se Jesus foi submetido a São José, Jesus o é ainda, e de um modo mais amável ainda, aos seus Padres. Se foi dado a São José beijar a Jesus, a mesma honra não será dada, sem dúvida, aos Padres, mas beijarão a patena, sobre a qual não tardará muito Ele irá repousar. Se São José lavou e vestiu a Jesus, os Padres hão de, sob esta relação, se contentar com lavar os vasos e corporais sacros, envolver o cibório, velar o tabernáculo e ornar o seu trono coroado de flores. Que é a exposição, a procissão, a bênção, a comunhão, a ação de abrir e fechar o tabernáculo e levar o Santíssimo aos enfermos, senão outras tantas repetições do que São José prestava ao Menino Jesus? Ocorre só esta diferença: o que era prerrogativa dele só, cabe agora a uma multidão de Padres. E o Mistério da Consagração é um imenso e maravilhoso império que se estende infinitamente além do alcance da nossa inteligência, onde a sombra de São José poderia chegar e onde Maria, o Espírito Santo e a grande obra primitiva da criação se apresentam com traços de semelhança. Mas o gênio inventivo da arte cristã, em uma das mais engenhosas e felizes das suas inspirações, não encontrou, para representar o nosso Ministério junto ao Santíssimo Sacramento de modo mais exato, imagem mais expressiva do que os Mistérios de São José. Assim, a devoção ao Santíssimo Sacramento compreende e abrange as grandes devoções, cujo objeto são Maria e José, em suas relações com a Santa Infância, à qual ambos pertenciam. Era de esperar que, pela natureza das coisas, o Santíssimo Sacramento se tornasse a devoção universal da Igreja; e, pois, não há por onde admirar que nela sejam encontrados traços das relações entre a mesma e as diversas devoções. Estas relações evidenciam quanto as devoções especiais estão longe de ser simples ornamentos ao sistema católico e quanto é, ao mesmo tempo, pouco reverente e contrário à teologia tentar estabelecer contraste entre elas e outras formas de piedade, como se aquelas fossem os únicos sólidos e fecundos de seus frutos. No Catolicismo tudo é ligado, coeso. A doutrina ortodoxa está em estreita correspondência com estas devoções: a honra de Jesus está envolta nelas; e quanto à mortificação, para que esteja superior à austeridade de um estoico ou de um faquir, cumpre proceda de uma instituição cheia de amor de Jesus e só deste amor.


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Fonte: Rev. Pe. Frederick William Faber, Oratoriano, “O Santíssimo Sacramento ou As Obras e Vias de Deus”, Livro Segundo, Secção V, pp. 149-156. 2ª Edição, Editora Vozes Ltda., Petrópolis/RJ, 1939.

1. Há outra versão, segundo a qual esta devoção foi trazida ao Ocidente pelos CARMELITAS, que a tomaram da Igreja grega.


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Papa São Telésforo (126-136), Mártir.

 

Telésforo era grego. Governou num período de paz oficial, ou seja, quando não estavam em vigor editos de perseguição governativa. Os imperadores Adriano e Antonino foram condescendentes com os cristãos. O primeiro enviou até, um decreto ao procônsul Minúcio, da Ásia, proibindo aos juízes procederem contra os cristãos, levados apenas pelo sentimento hostil do povo. A Adriano, homem culto, foi enviada por Quadrato a primeira apologia do Cristianismo.


Os pagãos, porém, tumultuavam com frequência, quer pela aversão às leis puras de Cristo, quer pelos boatos de “crimes monstruosos”, a que a vida recolhida e misteriosa dos cristãos dava alguma consistência, quer também pela ganância de se apossarem dos bens dos acusados.


Com seus templos vazios, suas festas deslustradas, explodiam em furor os pagãos a qualquer pretexto, máxime nas calamidades públicas, responsabilizando os discípulos de Cristo pelas iras dos deuses. E o sanguinário grito: “Christiani ad leonem” (os cristãos às feras), iniciava a matança cruel nos anfiteatros, nas ruas, nas casas…


A São Telésforo atribuem-se, erroneamente por serem anteriores ou posteriores, vários decretos:


a) Sobre o jejum sete semanas antes da Páscoa, pois o jejum da Quaresma é de origem apostólica;

b) proibindo a celebração de Missas depois das 15:00 hs da tarde, hora da morte do Senhor;

c) ordenando o canto do Glória na Missa, em parte ou todo;

d) sobre as três Missas celebradas no Natal, porque só depois do ano 350 é que se encontram referências ao dia 25 de Dezembro como Natal de Nosso Senhor. É considerado, entretanto, como o instituidor da Missa de meia-noite, a popular “Missa do Galo”.


São Telésforo morreu Mártir e foi sepultado junto ao túmulo de São Pedro. Sua festa celebra-se em 5 de Janeiro.



Fonte: Pe. Iran Correa, S.D.B., “Biografias dos Papas – Guardiães Vigilantes dos Textos Sagrados através dos Séculos”, p. 29. Editora das Américas, São Paulo/SP, 1952.


domingo, 3 de janeiro de 2021

A EUCARISTIA – BOSSUET. 7ª PARTE.

 

Promessa da Eucaristia. O que Nosso

Senhor nos dá, o fruto que devemos tirar,

e o meio de tirar esse fruto. Sua Carne

e seu Sangue, fontes de vida.


Para compreender todo o desígnio do Filho de Deus na Eucaristia, cumpre escutar o que Ele diz dela em São João. Acharemos que Ele faz aí três coisas. Primeiramente explicamos o que nos dá; segundo, o fruto que devemos tirar dela; terceiro, o meio de tirar dela esse fruto.

O que Ele nos dá é a Si próprio, e é sua Carne e seu Sangue; e mal Ele fala disso, os homens exclamam: – “Como é que este homem pode dar-nos sua carne a comer?” O homem argumenta sempre contra si próprio e contra as bondades de Deus. Quando Jesus, para preparar-nos para o Mistério que Ele devia deixar à sua Igreja no dia da ceia, disse que nos daria sua Carne a comer e seu Sangue a beber, os Judeus caíram em três erros. Acreditaram que Ele lhes falava da carne de um puro homem, do filho de José, eis o seu primeiro erro; de uma carne semelhante àquela com que os homens alimentam o corpo, eis o segundo; de uma carne, enfim, que eles consumiriam comendo-a, eis o terceiro.

Contra o primeiro: – “Eu sou, diz Ele, o pão vivo descido do céu”. A carne que comemos não é, pois, a carne do filho de José; é a Carne do Filho de Deus, uma carne concebida do Espírito Santo, e formada do Sangue de uma Virgem. “O Espírito Santo virá sobre vós, e a virtude do Altíssimo vos cobrirá com sua sombra; e a criança santa que nascerá de vós terá o nome do Filho de Deus”.1

QUOD NASCETUR EX TE SANCTUM. SANCTUM, no substantivo, para os que sabem um pouco de gramática, e que entendem a força desse neutro, quer dizer uma coisa substancialmente santa: modo de falar que faz ver que a santidade é substancial em Jesus Cristo. Por quê? Porque sua Pessoa é Santa por Si mesma, pela santidade essencial e substancial do Filho de Deus.

E eis porque, continua o Anjo, ele será chamado Filho de Deus”. Que quer dizer Ele será chamado? É que Ele não o será essencialmente, e que lhe darão esse nome por alguma figura? Livre-nos Deus! Pelo contrário, Ele o será chamado por excelência. O Pai, que O gera na eternidade, gera-lo-á no seio de Maria, a virtude do Altíssimo cobri-la-á da sua sombra, insinuar-se-lhe-á no seio, e a Carne que o Filho de Deus tomará no seio dessa Virgem será formada pelo Espírito Santo. Será, pois, uma Carne santa, da santidade do Filho de Deus, que a une a Si; será cheia de vida, fonte de vida, viva e vivificante por Si mesma. Assim, o primeiro erro é destruído.

Para refutar o segundo, que consistia em imaginar que a vida, que Jesus Cristo prometia por sua Carne seria essa vida comum e mortal, Ele repete, inculca, em todo o seu discurso, que é a vida eterna, tanto da alma quanto do corpo, que Ele nos quer dar: “A vontade de meu Pai, é que não perca nenhum daqueles que Ele me deu, e que os ressuscite no último dia… Quem comer deste pão, desta vianda celeste, da minha carne, que eu darei pela vida do mundo, viverá eternamente”.2

Para destruir o terceiro erro dos Judeus, que imaginavam uma carne que consumiríamos comendo-a, diz-lhes Ele: “Isto vos escandaliza? Muito mais admirados ficareis então quando virdes o Filho do homem subir ao lugar donde veio”. Como se dissesse: Comerão a minha carne, disse-o Eu; mas nem por isto ficarei menos vivo e menos inteiro. Donde Ele conclui: Não imagineis, pois, que Eu vos fale de uma carne humana comum, ou da carne do filho de José; nem que vos fale de uma carne que vos deva ser dada para manter essa vida mortal, nem por conseguinte, de uma carne que deva ser posta em pedaços e consumida comendo-a: “A carne, nesses sentidos, de nada serve; é o espírito que vivifica; as palavras que eu vos digo são espírito e vida”. Posto que só tenha falado, por assim dizer, da sua carne, do seu sangue, de comer aquela, de beber este, tudo o que Ele disse é espírito; quer dizer manifestamente que na sua Carne, no seu Sangue, tudo é espírito, tudo é vida, tudo está unido à vida e ao espírito; porque sua Carne e seu Sangue são a Carne e o Sangue do Filho de Deus.

Tanto, pois, quanto desejamos a vida, devemos desejar essa Carne que nô-la dá, que a contém, que é a própria vida. “Saiu de mim uma virtude; senti-a sair”. Era uma virtude para curar os corpos: quantas mais sairão para vivificar as almas? Aproximemo-nos, pois, dessa carne, toquemo-la, comamo-la: sairá dela uma virtude que trará a vida às nossas almas, e que a seu tempo a dará aos nossos corpos.

O mesmo sucede com o Sangue de Jesus; esse Sangue é cheio de virtude para nos vivificar; pois, é o Sangue do Filho de Deus, o Sangue do Novo Testamento, como o chama Ele próprio; e quer dizer, como o interpreta São Paulo, “o sangue do Testamento eterno, pelo qual o grande Pastor das ovelhas foi torado da morte”. Ele próprio ressuscitou, pois, dos mortos pela virtude de seu Sangue, porque devia entrar na glória pelos seus sofrimentos. É por esse mesmo Sangue, por esse Sangue do Testamento e da Aliança eterna, que devemos também herdar o seu reino e ter a vida eterna. Comamos, bebamos, vivamos, alimentemo-nos, unamo-nos à vida por essa Carne, por esse Sangue vivificador. Ele os tomou para se aproximar de nós. “Não foi aos anjos que ele quis unir-se; foi a natureza humana que ele quis tomar. E por isto, que os homens são compostos de carne e de sangue, ele quis também ser composto de uma e de outro”,3 é desse modo que Ele se une a nós, e é por essa forma que nos salva.

Temo-lo dito muitas vezes, e não nos devemos cansar de dizer: essa Carne e esse Sangue tornaram-se o vínculo da nossa união com Ele, o instrumento da nossa salvação, a fonte da nossa vida, porque Ele os tomou para nós, porque os ofereceu pela nossa salvação, porque nô-los dá ainda para nos vivificar. Vamos com santa avidez a essa vianda celeste; tudo nela é espírito e vida.


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Fonte: Jacques-Bénigne Bossuet, Bispo de Meaux, Meditações sobre o Evangelho” – Opúsculo Eucaristia”, Cap. VII, pp. 40-44. Coleção Boa Imprensa, Livraria Boa Imprensa, Rio de Janeiro/RJ, 1942.

1.  Luc., 1, 25.

2.  Jo., 6, 30 segs.

3.  Heb., 2, 14.16.


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