BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sexta-feira, 30 de julho de 2021

OFÍCIO DE NOSSA SENHORA DO CARMO.


MATINAS


Dizei, lábios meus,

Palavras benditas,

Em louvor da Virgem

Mãe dos Carmelitas.


Senhora do Carmo,

Vinde em meu favor,

O inimigo afastai

Com vosso valor.


Glória seja ao Pai,

Ao Filho também,

Que é um só Deus

Em pessoas três.


Como no princípio,

Agora e sempre,

Por todos os séculos

Dos séculos. Amém.


Hino


Fazei, pois, Senhora,

Que Vos imitemos,

De Vos dar louvores,

Nunca mais cessemos.


Oh! rogai por nós,

Mãe dos Carmelitas,

Para que vivamos

Onde habitais.


À minha oração

Atendei, Senhor,

Chegue a vosso trono

Este meu clamor.


Oração


Deus, que condecorastes a Ordem do Carmo com o título singular da sempre Bem-aventurada Virgem Maria, vossa Mãe, concedei propício a nós que veneramos sua comemoração munidos de seu amparo, mereçamos chegar aos gozos eternos. Vós, que viveis e reinais, por todos os séculos dos séculos. Amém.



PRIMA


Senhora do Carmo,

Vinde em meu favor,

O inimigo afastai

Com vosso valor.


Glória seja ao Pai,

Ao Filho também,

Que é um só Deus

Em pessoas três.


Como no princípio,

Agora e sempre,

Por todos os séculos

Dos séculos. Amém.


Hino


Deus, vos salve Rosa,

Que, logo ao nascer,

No jardim do Carmo

Fostes florescer.


Os filhos de Elias,

Com contentamento,

Esperavam ver

Vosso nascimento.


Rogavam ao Céu

Se compadecesse,

E a honra do Carmo

Na terra viesse.


Foi chegada a hora

Por Deus preferida,

Logo em Nazaré,

Vós fostes nascida.


Parabéns contentes

Vos deram mil vivas,

Celebrando a dita

Com hinos festivos.


De viver com eles

Temos confiança,

Para conseguirmos

O fim da esperança.


Hino


Oh! rogai por nós,

Mãe dos Carmelitas,

Para que vivamos

Onde habitais.


À minha oração

Atendei, Senhor,

Chegue a vosso trono

Este meu clamor.


Oração


Deus, que condecorastes a Ordem do Carmo com o título singular da sempre Bem-aventurada Virgem Maria, vossa Mãe, concedei propício a nós que veneramos sua comemoração munidos de seu amparo, mereçamos chegar aos gozos eternos. Vós, que viveis e reinais, por todos os séculos dos séculos. Amém.



TERÇA


Senhora do Carmo,

Vinde em meu favor,

O inimigo afastai

Com vosso valor.


Glória seja ao Pai,

Ao Filho também,

Que é um só Deus

Em pessoas três.


Como no princípio,

Agora e sempre,

Por todos os séculos

Dos séculos. Amém.


Hino


Deus vos salve Aurora,

Que tanto alegrastes

Ao Monte Carmelo

Quando o visitastes.


E na vossa infância,

Sem mais esperar,

Logo aos Carmelitas

Quisestes honrar.


Ao monte subindo,

Com eles faláveis

Palavras tão santas

Que os consoláveis.


Cheios de saudades,

Em Vos retirando,

Deixáveis a todos

Por Vós suspirado.


E, na despedida,

Por veneração

Aonde pisáveis

Beijavam o chão.


Estes exercícios

E santos respeitos

Pedimos, Senhora,

Gravai-nos nos peitos.


Hino


Oh! rogai por nós,

Mãe dos Carmelitas,

Para que vivamos

Onde habitais.


À minha oração

Atendei, Senhor,

Chegue a vosso trono

Este meu clamor.


Oração


Deus, que condecorastes a Ordem do Carmo com o título singular da sempre Bem-aventurada Virgem Maria, vossa Mãe, concedei propício a nós que veneramos sua comemoração munidos de seu amparo, mereçamos chegar aos gozos eternos. Vós, que viveis e reinais, por todos os séculos dos séculos. Amém.



SEXTA


Senhora do Carmo,

Vinde em meu favor,

O inimigo afastai

Com vosso valor.


Glória seja ao Pai,

Ao Filho também,

Que é um só Deus

Em pessoas três.


Como no princípio,

Agora e sempre,

Por todos os séculos

Dos séculos. Amém.


Hino


Deus vos salve, Mestra,

Em tudo divina,

Que no Carmo destes

A melhor doutrina.


Do Senhor que vinha

Redimir o mundo,

Vosso casto seio

Já estava fecundo.


É crível que esses

Divinos arcanos

Vós os explicáveis

Aos Elianos.


Quando estas lições

Aos filhos mostráveis,

O maior amor,

Então, demonstráveis.


Permiti também,

Pelo vosso ensino,

Que, por Deus, tenhamos

Um feliz destino.


Hino


Oh! rogai por nós,

Mãe dos Carmelitas,

Para que vivamos

Onde habitais.


À minha oração

Atendei, Senhor,

Chegue a vosso trono

Este meu clamor.


Oração


Deus, que condecorastes a Ordem do Carmo com o título singular da sempre Bem-aventurada Virgem Maria, vossa Mãe, concedei propício a nós que veneramos sua comemoração munidos de seu amparo, mereçamos chegar aos gozos eternos. Vós, que viveis e reinais, por todos os séculos dos séculos. Amém.



NOA


Senhora do Carmo,

Vinde em meu favor,

O inimigo afastai

Com vosso valor.


Glória seja ao Pai,

Ao Filho também,

Que é um só Deus

Em pessoas três.


Como no princípio,

Agora e sempre,

Por todos os séculos

Dos séculos. Amém.


Hino


Subistes ao Céu,

Alegre e formosa,

Sempre Vos mostrando

Mãe terna e bondosa.


Valha-nos, Senhora,

Sempre firme e forte,

Vosso patrocínio

Na hora da morte.


Hino


Oh! rogai por nós,

Mãe dos Carmelitas,

Para que vivamos

Onde habitais.


À minha oração

Atendei, Senhor,

Chegue a vosso trono

Este meu clamor.


Oração


Deus, que condecorastes a Ordem do Carmo com o título singular da sempre Bem-aventurada Virgem Maria, vossa Mãe, concedei propício a nós que veneramos sua comemoração munidos de seu amparo, mereçamos chegar aos gozos eternos. Vós, que viveis e reinais, por todos os séculos dos séculos. Amém.



VÉSPERAS


Senhora do Carmo,

Vinde em meu favor,

O inimigo afastai

Com vosso valor.


Glória seja ao Pai,

Ao Filho também,

Que é um só Deus

Em pessoas três.


Como no princípio,

Agora e sempre,

Por todos os séculos

Dos séculos. Amém.


Hino


Deus vos salve, Virgem,

Mãe e Protetora,

Da Ordem do Carmo

Sempre defensora.


Contra as invasões

Do forte adversário,

Vós lhes destes armas

No Escapulário.


Por mais grandeza,

Como está sabido,

Do Céu lhes trouxestes

O rico vestido.


Prometendo a todos,

Com amor materno,

Morrendo devotos,

Livrá-los do Inferno.


Da culpa, Senhora,

Sempre nos defenda,

Para que gozemos

Tão distinta prenda.


Hino


Oh! rogai por nós,

Mãe dos Carmelitas,

Para que vivamos

Onde habitais.


À minha oração

Atendei, Senhor,

Chegue a vosso trono

Este meu clamor.


Oração


Deus, que condecorastes a Ordem do Carmo com o título singular da sempre Bem-aventurada Virgem Maria, vossa Mãe, concedei propício a nós que veneramos sua comemoração munidos de seu amparo, mereçamos chegar aos gozos eternos. Vós, que viveis e reinais, por todos os séculos dos séculos. Amém.



COMPLETAS


Converta-nos Deus

Por Cristo, Maria,

Deus nos apartai

Do mal, dia a dia.


Senhora do Carmo,

Vinde em meu favor,

O inimigo afastai

Com vosso valor.


Glória seja ao Pai,

Ao Filho também,

Que é um só Deus

Em pessoas três.


Como no princípio,

Agora e sempre,

Por todos os séculos

Dos séculos. Amém.


Hino


Deus vos salve, Mãe,

Com amor tão forte,

Que nunca se extingue

Nem mesmo na morte.


Por Vós nos tormentos

Gozemos vitória,

Possamos, contentes,

Louvar-Vos na glória.


Permiti, Maria

Por vossa bondade,

Que um dia alcancemos

Tal felicidade.


Hino


Oh! rogai por nós,

Mãe dos Carmelitas,

Para que vivamos

Onde habitais.


À minha oração

Atendei, Senhor,

Chegue a vosso trono

Este meu clamor.


Oração


Deus, que condecorastes a Ordem do Carmo com o título singular da sempre Bem-aventurada Virgem Maria, vossa Mãe, concedei propício a nós que veneramos sua comemoração munidos de seu amparo, mereçamos chegar aos gozos eternos. Vós, que viveis e reinais, por todos os séculos dos séculos. Amém.



Oferecimento


Aceitai, Senhora,

Esta devoção

Em sinal de amor,

Filial gratidão.


Oh! Virgem do Carmo,

Vossa intercessão

A todos conceda

Feliz salvação.

Amém.



Ladainha da Santíssima Virgem

(Segundo o Breviário da Sacrossanta Ordem Carmelitana)


Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.


Jesus Cristo, ouvi-nos.

Jesus Cristo, atendei-nos.


Pai celeste que sois Deus, tende piedade de nós.

Filho, Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós.

Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de sois.

Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.


Santa Maria, rogai por nós.

Santa Mãe de Deus, rogai por nós.

Santa Virgem das virgens, rogai por nós.


Mãe de Jesus Cristo, rogai por nós.

Mãe da Igreja, rogai por nós.

Mãe da divina graça, rogai por nós.

Mãe puríssima, rogai por nós.

Mãe castíssima, rogai por nós.

Mãe imaculada, rogai por nós.

Mãe intacta, rogai por nós.

Mãe amável, rogai por nós.

Mãe admirável, rogai por nós.

Mãe do Bom Conselho, rogai por nós.

Mãe do Criador, rogai por nós.

Mãe do Salvador, rogai por nós.

Mãe e Decoro do Carmelo, rogai por nós.


Virgem prudentíssima, rogai por nós.

Virgem venerável, rogai por nós.

Virgem louvável, rogai por nós.

Virgem poderosa, rogai por nós.

Virgem clemente, rogai por nós.

Virgem fiel, rogai por nós.

Virgem Flor do Carmelo, rogai por nós.


Espelho de Justiça, rogai por nós.

Sede da Sabedoria, rogai por nós.

Causa da nossa alegria, rogai por nós.

Vaso espiritual, rogai por nós.

Vaso honorífico, rogai por nós.

Vaso insigne de devoção, rogai por nós.

Rosa mística, rogai por nós.

Torre de Davi, rogai por nós.

Torre de marfim, rogai por nós.

Casa de ouro, rogai por nós.

Arca da aliança, rogai por nós.

Porta do céu, rogai por nós.

Estrela da manhã, rogai por nós.

Saúde dos enfermos, rogai por nós.

Refúgio dos pecadores, rogai por nós.

Consoladora dos aflitos, rogai por nós.

Auxílio dos cristãos, rogai por nós.

Padroeira dos Carmelitas, rogai por nós.


Rainha dos Anjos, rogai por nós.

Rainha dos Patriarcas, rogai por nós.

Rainha dos Profetas, rogai por nós.

Rainha dos Apóstolos, rogai por nós.

Rainha dos Mártires, rogai por nós.

Rainha dos Confessores, rogai por nós.

Rainha das Virgens, rogai por nós.

Rainha de Todos os Santos, rogai por nós.

Rainha concebida sem Pecado Original, rogai por nós.

Rainha elevada ao céu, rogai por nós.

Rainha do sacratíssimo Rosário, rogai por nós.

Rainha da paz, rogai por nós.

Esperança de Todos os Carmelitas, rogai por nós.


Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.


V. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.

R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.


Oremos: Senhor Deus, nós Vos suplicamos, que concedais aos Vossos servos, perpétua saúde de alma e de corpo; e que, pela gloriosa intercessão da Bem-aventurada sempre Virgem Maria, sejamos livres da presente tristeza e gozemos da eterna alegria. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.





____________________

Fonte: Fr. Estêvão Roettger, O.F.M., O Santo Escapulário – Breves Instruções e Diversas Orações”, pp. 32-43. 12ª Edição Revista, Editora Mensageiro da Fé Ltda, Salvador/BA, 1969.


MÍSTICO DIÁLOGO DA ALMA COM DEUS, QUE MORRE SÓ COM O PECADO ORIGINAL.


Diálogo do homem que é concebido no ventre materno

e por infortúnio não nasce à luz do dia e,

sem receber o Sacramento do Batismo,

vai sua alma para o Limbo,

casa de sua eternidade”

(Fr. Antônio do Sacramento).

Místico Diálogo da Criatura com o Criador1

Que aos 40 dias, pouco mais ou menos, sendo varão, ou aos 80, sendo fêmea, é criada a alma imediatamente por Deus e infundida no corpo organizado no ventre materno, e ficam os dois, corpo e alma, uma criatura humana vivente. No mesmo instante, ao nosso modo de explicar, fala a alma com Deus, que a criou do nada, à Sua semelhança, e lhe rende as graças por tão grande benefício, submergida no profundo conhecimento do seu nada e no claro conhecimento do imenso mar do Ser Divino.

Alma: Senhor de infinita grandeza, (diz a alma falando com Deus), que a tudo o que tem ser criastes do nada, para glória Vossa: rendo-Vos as graças pelo incomparável benefício de me criardes do nada, e de me fazerdes à Vossa semelhança. Donde mereci, meu infinito bem, gozar de tão grande benefício? Neste instante próximo passado era nada, se é que o nada tem ser: e agora sou um espírito perfeito, mui semelhante aos espíritos angélicos na sua criação. Já sei, pelo conhecimento que me dais, que sou criada para Vos gozar por toda a eternidade, e para Vos honrar, por serdes digno de toda a honra e glória. Mas ai de mim, Senhor, que visto ser preciso unir-me com este corpo, organizado por virtude da natureza no ventre materno, com especial concurso da Vossa providência, receio muito, que me seja contrário nos progressos da vida, e que venha, por causa de seus apetites, a perder-Vos por toda a eternidade! É possível, meu Deus, que, sendo criada em vosso agrado, tão pouco tempo hei de lograr este bem! Que no instante, que me unir a este corpo, imundo pelas imperfeições da natureza corrupta e horroroso pelas máculas da culpa, hei de ficar asquerosa aos Vossos Divinos olhos! Que sem remédio hei de contrair o reato da culpa de Adão e Eva, só com me unir a este corpo, que deles traz sua origem! Que hei de ficar exposta a tantos trabalhos da vida humana, em perigo de vos perder por toda a eternidade! Com tudo, Senhor, rendo-me de boa vontade às Vossas divinas determinações; pois conheço que são inescrutáveis Vossos juízos.2

Levado da Sua infinita bondade, fala Deus à alma e a consola, para que entre a informar o corpo, por ser isto muito do Seu divino agrado.

Deus: Filha Minha, a quem do nada criei à Minha semelhança, e a quem tenho um amor infinito. Bem vejo que és mais escolhida que o sol, mais formosa que a lua e mais resplandecente que a estrela d’Alva;3 e que, com a união que estás para fazer com este corpo, imundo pelo pecado, hás de ficar asquerosa como lepra, e horrorosa como a noite escura; porém, atendendo à Lei que pus a Adão e Eva, como eles transgrediram o Meu Preceito, não há remédio senão que informes esse corpo amaldiçoado, e que fiques contraindo a culpa de Adão. Executa com submisso rendimento esta Minha determinação, que te darei meios, como dei aos primeiros pais, para que chegues a lograr a Minha Bem-aventurada vista, com mais realce da Minha graça. Dou-te a vontade livre, para que, chegando tu e o corpo, teu companheiro, à luz do dia e à luz da razão, escolhas o que melhor te estiver a gosto, ou salvação ou condenação eterna. Para te segurares no melhor partido: na Minha Igreja tens uma Lei e um Batismo, os quais, juntos com boas obras, são porta franca para a Minha glória.4 Entra já, e não temas.

Novamente falando a alma com Deus, lhe expressa seus temores, para entrar à união do corpo.

Alma: Muito me agradará, Senhor e Deus meu, o dar cumprimento à Vossa divina Vontade, que devo antepor a todo o meu desejo; porém, oh, quanto temo que a entrada neste corpo hediondo seja para minha perdição eterna! Este corpo sempre será contrário ao espírito; e só por milagre da Vossa Divina Onipotência se sujeitará às leis da razão. De certo teremos uma guerra contínua toda à vida,5 ainda que espere na Vossa infinita bondade o subjugarei, quanto for possível, para que siga as leis da razão, e não as do apetite, em termos que se siga a Vossa glória, e eu chegue a lograr a Vossa vista. Mas ai, que não sei se este corpo, que me mandais informar, para que tenha espírito de vida, é gerado de pais gentios, ou de maometanos, ou de hebreus, ou de hereges, ou de cismáticos, que não Vos conheçam ou não Vos amem! E, neste lance, dificultosa será a minha salvação; porque, pela criação, que nos hajam de dar, ficarei instruída em erros, sem o Vosso santo temor, sem conhecimento de Vosso Santo Nome e sem Batismo e quando não seja condenada a penas eternas, por não ter cometido pecados atuais em matéria grave, ficarei sem gozar para sempre da Vossa vista! Ó Senhor, a quem adoro submergida na profundeza do meu nada: que é isto, a que me expõe Vossa ciência infinita?

Responde Deus à alma e lhe diz: que não esquadrinhe os inescrutáveis segredos da Sua Providência!

Deus: Não te compete, Minha filha, saber os segredos da Minha Providência. Sou Senhor Onipotente; e na Minha poderosa mão está o fazer vasos de escolha ou de injúria: sem fazer injustiça aos vasos, não obstante serem todos fabricados do mesmo barro.6 Determino-te que informes este corpo, e com tua união fique em estado de vivente; e assim como receias que seja oriundo de pais que, pelos seus maus costumes, te desviem da Minha Lei e da Minha Graça, e que sejam causa motiva da tua condenação eterna: também podes informar um corpo oriundo de pais virtuosos, que te dirijam pelos caminhos da santidade, e gozes para sempre da Minha gloriosa vista. O certo é que, ou os pais deste corpo que informas sejam bons ou maus, se morreres sem Batismo, será a tua sorte a de ires ser habitante do lugar do Limbo, nas profundezas da terra, até o dia Juízo; e se chegares a sair à luz do dia e à luz da razão, na tua vontade fica escolher boa ou má sorte, ou de salvação ou de condenação: pois não hei de faltar em te assistir com todos os meios para te salvar. Ainda que em Minhas mãos poderosas estejam todas as boas sortes, na vontade, que te deixo livre, está o poderes escolher da Minha mão uma sorte boa. Entra já a informar este corpo, e não inquiras mais os segredos da Minha Providência; porque estes não estão subordinados à vontade das criaturas e só saem à luz, quando são executados pelas Minhas determinações soberanas.

Fala a alma ao corpo, antes de o informar; expressando o grande horror que lhe tem.

Alma: Irmão corpo, a quem vejo, como sepultado, no apertado túmulo do ventre materno, cheio de fealdades, tendo mais demonstrações de monstro, do que de homem: a quem tua mãe, pouco tempo há, concebeu em pecados, elevada em seus apetites: Dou-te parte, que és, e não outro, aquele a quem, por determinação da Divina Vontade, venho informar com espírito de vida. Comigo hás de viver unido, e inseparável, em todo o tempo que formos peregrinos no mundo. Por esta união ficarei (oh desgraça maior) contraindo o Pecado Original, que tu e teus ascendentes contraíram em Adão.7 Uniformemente seremos participantes dos trabalhos e dos gostos da vida: e depois da morte, a que ficamos sujeitos, seremos participantes, a seu tempo, ou da salvação ou da condenação, por séculos sem fim. Hás de entender, irmão corpo, que sou um espírito nobilíssimo, criado imediatamente por Deus, e que tu és vil, oriundo da terra, vaso de barro e frágil. Se, pelo benefício de te dar alentos de vida e te associar a mim com estreita união, me fores fiel companheiro, conseguiremos uma boa sorte, que é, na vida mortal, amar a Deus e depois na vida, que esperamos, o goza-Lo para sempre. No meu domínio e na tua obediência, estará a nossa dita.

Responde o corpo à alma, agradecendo-lhe o benefício de o fazer vivente e de admiti-lo à sua companhia.

Corpo: Nobilíssimo espírito, imediatamente criado por Deus, com evidentes demonstrações de Sua imagem: Seja em boa hora a tua vinda a informar-me com espíritos de vivente. Faço-te saber que sou tão miserável, que, tendo minha origem da terra, e neste cárcere materno, onde me vês, tenho aparências de monstro. Tão hediondo estou, que, se desta sorte, que me queres informar, fosse visto do mundo, a todos causaria espanto. Porém, rogo-te, alma, que me infundas os espíritos de vivente; que espero no Senhor, que te criou, de te ser fiel em tudo. Advirto-te, que não te fies nas minhas promessas; porque, como sou barro,8 sou quebradiço, e como sou pó, qualquer vento me leva, e tudo depois acaba em ruína. Bem conheço a diferença que há entre mim e ti: que eu sou corpo caduco, e tu és espírito perfeito; eu sou criado, e tu és senhora; eu sou vil, e tu és nobilíssima; imortal, à tua parte compete o mando, e à minha, a obediência. Se me tratares com rigor, serei fiel servo; e se me lisonjeares com amor, ser-te-ei ingrato. Usa alma, do teu direito, se queres ter em mim domínio: eu estou pronto para te obedecer; porém, não faltes em me subjugar. Havendo entre nós esta economia, haverá em nós vida, graça e glória.

Informa a alma ao corpo, e ficam um composto vivente, companheiros inseparáveis por toda a vida.

Alma: Sem demora, irmão corpo, te dou alentos de vida; porque assim o determina o Autor da Natureza e da Graça. Recebe em boa paz este íntimo abraço que te dou. É tão íntimo e apertado este abraço, que durará em perfeita união por toda a vida caduca, e depois do Juízo Final durará, com nova reunião, por toda a eternidade. Oh, praza à Majestade Divina, que esta nossa união seja para glória eterna, e não para eterna pena! Irmão corpo: Enquanto estivermos encerrados neste cárcere materno, me sujeito a todos os teus movimentos; porque me acho em estado de não poder usar de minhas potências. Estou adormecida, mais com aparências de morta, do que com realidades de viva: porém, se sairmos à luz do mundo, usarei a seu tempo do meu direito. Espero que me reconheças por senhora, e a ti por servo, para que, em tudo, trabalhemos com acerto, e Deus seja em nós glorificado.

Alma e corpo agradecem a Deus o estado de viventes, em que se acham no ventre materno: lamentando-se da sua prisão e do perigo, em que existem, de não saírem à luz do dia, pelo nascimento, e à luz da Graça, pelo Batismo.

Alma e Corpo: Altíssimo Deus, Criador de tudo e Salvador nosso: Infinitas graças Vos sejam dadas pelo incomparável benefício de nos tirardes do nada para o ser, e de nos dardes alentos de vida. Aqui estamos em perfeita união neste cárcere materno, rendidos às determinações de Vossa Santíssima Vontade; e intimamente desejamos que se cumpra em tudo que for de glória Vossa. Pedimo-Vos, porém, se não encontra Vossas Divinas determinações, que nos livreis de perigos de vida nesta escura prisão; pois são sem número os que nos acometem: e será grande desgraça nossa não chegar pelo nascimento à luz do dia, para conseguirmos pelo Batismo a luz da Graça e ficarmos em via de merecer a Vossa glória. Senhor valha-nos a Vossa poderosa mão, para que saiamos deste miserável mar às praias do mundo, e que não aconteça que, por descuido de nossa mãe, ou por algum infortúnio, passemos deste escuro cárcere para as regiões da eternidade, sem esperança de lograr o bem de Vossa Bem-aventurada vista.

Consola Deus aos dois companheiros, alma e corpo, animando-os, para que estejam conformes com Sua Santíssima Vontade em todo o infortúnio, que lhes possa acometer no ventre materno.

Deus: Criaturas Minhas, a quem fiz à Minha semelhança, e a quem dei o ser e a vida, por altos fins da Minha Providência: Chegam a Meus ouvidos vossas vozes, e ferem Meu Coração vossas misérias. Tende paciência nos trabalhos e confortai-vos nos infortúnios. Ide continuando os movimentos de viventes nesses apertos do útero e nessas escuridades do ventre, para que a seu tempo chegueis a sair à região dos peregrinos. A natureza, de quem Sou Autor, também concorrerá com o que lhe toca à sua parte; causados pela negligência dos pais e pela malícia das criaturas. Com minha mão poderosa poderia desviar tudo; porém, como deixo obrar as causas segundas, por não revogar as Minhas determinações primeiras, daí se segue ficarem algumas vezes frustradas muitas coisas, que determinava em bem de Minhas almas. Dou-Vos a Minha Santa Bênção, e continuai com o movimento de viventes neste lugar em que vos achais.

Por descuido da mãe, ou por indisposição da natureza, ou por industriosa malícia de alguma criatura, morre no útero o feto animado; e em tal infortúnio se aparta a alma do corpo, caminhando um e outro para o seu lugar determinado, e lamentando sua infelicidade.

Alma: Irmão corpo (lamenta a alma), com quem, poucas horas, ou poucos dias, ou poucos meses há, me uni tão estreitamente: É possível que, entre tantas almas e corpos que, ao depois de criados, tiveram a felicidade de sair à luz do dia, de receberem a luz da Graça, de terem a luz do da razão, de possuírem a luz da Fé e de gozarem a luz da glória, só nós não havíamos de ter esta alegria! Deste escuro cárcere do ventre materno, onde estamos com prisões tão apertadas, havemos de ir, tu para um monturo, a converter-te em terra, e eu para o Limbo, para estar na companhia de outras almas, pouco afortunadas, a esperar em obscuridade a vinda do Senhor a Juízo Final, para sermos outra vez reunidos, sem esperanças de ver a Divindade do Altíssimo por toda a eternidade! Vai, irmão corpo, seguindo o teu caminho para este monturo: converte-te em terra,9 e nela descansa até o Juízo Último; que então virei informar-te outra vez, para sermos inseparáveis companheiros no lugar, à que Deus nos mandar ter nossa habitação por toda a eternidade.

Despede-se também o corpo da alma, lamentando sua desgraça em não chegar à luz do dia e em perder o direito da glória.

Corpo: Alma minha e muito amada senhora: Oh, quanto glorioso estava, por me teres dado alentos de vida, e por possuir a esperança de merecer no mundo com boas obras a Bem-aventurança eterna! E agora quão triste me afasto da tua sociedade! Vou ser lançado na terra, como se fosse terra; e a mesma mãe, que me concebeu, é a primeira que aborrece minha presença. Serei lançado em um monturo com nojo, e quando falarem em mim será com espanto. Serei desprezado, como se não chegasse ao ser da vida, e minha lembrança ficará sepultada na mesma terra, onde me derem o jazigo. Vou esperar nesse monturo a Ressurreição dos Mortos; e então virás com virtude superior informar esta pouca terra, que de mim se conservará, e ressurgirei melhorado; porque por virtude Divina crescerei a estatura perfeita, sem estas imperfeições, que agora tenho. Esse será o dia, em que nos ajuntaremos com união tão inseparável, que jamais nos dividiremos por séculos sem fim. É verdade que seremos sempre acompanhados da pena de não podermos ver a Deus na glória, ainda que, com todos os mais filhos de Adão, teremos a alegria de ver no dia do Juízo ao Redentor do Mundo, Jesus Cristo Nosso Rei,10 não quanto ao Ser Divino, senão quanto ao ser Humano. Depois de assistirmos ao Juízo Universal e de vermos a Cristo, triunfante de Seus inimigos, subir com Glória e Majestade para a Bem-aventurança, com todos os Anjos e Justos na Sua Companhia; e depois de vermos submergidos nas entranhas da terra aos condenados e ficarem nos Infernos penando por toda a eternidade11: ficaremos no nosso competente lugar para sempre, com todos os mais corpos e almas, a quem coube esta nossa sorte. Vai com Deus, alma, para esse cárcere do Limbo, louvar aos altos juízos do Senhor; que eu cá te espero para a ressurreição geral, e serás para sempre minha inseparável companheira.

Parte a alma para o Limbo, lugar no centro da terra, e mutuamente se saúda com as almas, que estão naquele lugar, consolando-se com a sua sorte.

Alma: Almas, que estais encerradas neste estreito lugar do centro da terra: Aqui sou chegada à vossa companhia, para vos fazer perpétua sociedade na vossa pena. A vossa sorte em tudo foi como a minha: disposições foram do Altíssimo, cujos segredos são incompreensíveis ao entendimento criado. Consolemo-nos umas com as outras, e rendamos contínuos louvores ao Senhor, que assim foi servido. Esta consideração nos alentará neste lugar; porque suposto não seja bastante para nos aliviar a saudade, procedida da certeza de não podermos ver a Face de Deus, sempre nos consolará na nossa pena; e porque estamos livres da mágoa, que tem os que ofenderam ao nosso Criador com alguma culpa atual. Não nos seja pesada esta prisão, até a Segunda Vinda do Senhor, a julgar ao mundo; pois os Santos Padres antigos também experimentaram aqui semelhante prisão, até a Primeira Vinda do mesmo Senhor a remir com Sua Morte aos homens do cativeiro do pecado. Algum dia há de ter fim esta nossa prisão, e dizem que será para o dia do Juízo Final, quando cada um de nós for informar, por virtude Divina, o corpo, seu antigo companheiro, para viver com ele de sociedade para sempre. Iremos naquele tremendo dia com os mais filhos de Adão a juízo, unidas aos nossos corpos12: e então teremos a consolação de ver ao nosso Criador, a Maria Santíssima, Sua Mãe e nossa Irmã, aos Anjos, aos Bem-aventurados, e aos nossos pais, parentes e irmãos, dos quais pode ser que uns subam em triunfo com o Redentor para a Glória, e outros desçam em confusão com Lúcifer para o Inferno. Então, segundo se afirma, ficaremos povoando o mundo reformado e vivendo em contentamento e alegria, como haviam de viver os nossos primeiros Pais no Paraíso, se não decaíssem da Graça Original. Também, segundo a mais pia opinião, veremos daquele lugar onde habitarmos, a Humanidade de Cristo Senhor Nosso na Bem-aventurança, a presença de Maria Santíssima e a dos Bem-aventurados. Porém (ó saudade sem limite), não veremos a Divindade e Glória de Deus; porque não tivemos a fortuna de entrar na Igreja Militante pela porta do Batismo e pela luz da Fé, que são as portas, por onde o Senhor franqueia a entrada para a Bem-aventurança. Consolemo-nos, caríssimas irmãs, pois assim o dispôs o Altíssimo; e como esta é a nossa fortuna, determinada pela Sua Divina Vontade, devemos conformar-nos com ela e fazer ao mesmo Senhor contínuas canções de louvor e glória.

Correspondem as almas do Limbo à alma, sua nova companheira, com semelhantes consolações.

Almas do Limbo: Nossa irmã caríssima: Bem-vinda sejais para a nossa sociedade. Agradecemos muito a consolação, que nos dais nas vossas palavras, fundadas em tanta razão e em tão bons princípios. Muitas de nós aqui estão encarceradas há muitas centenas de anos, e sempre temos estado conformes com a Vontade Divina. Serve-nos de grande consolação considerarmos que isto foram disposições do Altíssimo para glória Sua. De certo entendemos que o Senhor nos fez uma incomparável mercê em nos criar do nada à Sua semelhança e que, suposto não esperemos gozar da Sua Divindade, sempre temos a confiança, que havemos de gozar para sempre da Sua Bênção e do Seu Amor. Depois que informarmos os nossos corpos na Ressurreição Geral, teremos os dotes naturais em grau perfeito, e gozaremos neste lugar, que Deus nos permitir, que dizem será o mundo reformado, todas as delícias castas e divertimentos honestos. Serão tais estes regozijos, que nunca haverá no mundo semelhantes, enquanto for habitado dos mortais; e segundo já nos insinuastes, teremos, conforme a opinião de alguns autores, grandes consolações com a vista da Santíssima Humanidade de Cristo, de Maria Santíssima, dos Anjos e dos Bem-aventurados. Os astros e planetas, que sempre seguiram seu curso, nos darão benignas influências, e os elementos nos serão em extremos saudáveis. Veremos desta nossa habitação estes horrendos calabouços, principalmente o lugar e os tormentos dos condenados, sem termos da sua desgraça alguma pena, porque eles assim o mereceram pelas suas culpas. Com muitas danças honestas e canções devotas, louvaremos ao Senhor em alegria e, desta sorte, aliviaremos a saudade de não ver a Sua Divina Face. Passarão as continuadas rodas dos séculos e voltarão a principiar, sem nunca terem fim; e em disposição perfeita, com notável agilidade, e com grande contentamento, viveremos enquanto Deus for Deus. Esta é a sorte, que nos espera depois de sairmos deste cárcere subterrâneo, e dela gozaremos, nós que somos milhões de almas que aqui estamos: sendo a causa desta nossa sorte, em umas, o não chegarem a ver a luz do dia; porque expiraram no ventre de suas mães; em outras, porque nasceram ao mundo e morreram sem Batismo; e, em outras, porque sendo filhas de gentios, maometanos, hebreus e de hereges, acabaram a vida sem Batismo e sem cometerem culpa mortal”.


___________________________

1.  Fr. Antônio do Sacramento, da Sagrada Religião dos Observantes, da Província de Portugal, “Ventura do Homem Predestinado e Desgraça do Homem Precito”, Diálogo I, pp. 15-29. 1ª Edição Brasileira, Editora Vozes Ltda, 1938.

2.  Apoc. 16, 7.

3.  Cânt. 6, 9.

4.  Jo. 3, 5.

5.  Jó 7, 1.

6.  Rom. 9, 21.

7.  Rom. 5, 12.

8.  Gên. 5, 19.

9.  Gên. 3, 19.

10.  Mat. 24, 30.

11.  Mat. 25, 41.

12.  Mat. 25, 32.


quinta-feira, 29 de julho de 2021

O MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO REVELADO A SÃO JOSÉ.


Pouco tempo depois do regresso a Nazaré, São José começou a reconhecer em Maria sinais evidentíssimos de gravidez e, desconhecendo ainda o aviso do Arcanjo, muito se perturbou e experimentou dor agudíssima. Todavia, persuadia-se de que tais sinais podiam proceder de enfermidade e lutava em silêncio contra as dúvidas.

Um motivo que muito o atormentava era o perigo em que se podia incorrer. Entre os hebreus, tanto o homem quanto a mulher, culpados de desonestidade, deviam então, por ordem de Deus, ser conduzidos para fora da cidade ou vila, apedrejados na estrada e abandonados sem sepultura, para salutar terror das gerações futuras.

Homem justo e santo que era, não quis manifestar nem a Maria, nem a outros, as próprias penas. O proceder sempre igual, sempre afável e humilde que Ela demonstrava, não lhe permitia absolutamente suspeitar mal. Por isso, em meio a tantas perplexidades, o santo esposo de Maria voltou-se para Deus em fervorosa oração.

Era justo, diz o Evangelista, e não podia suspeitar mal de alguém, muito menos de Maria, a quem sempre considerara a mais santa de todas as virgens.

As virtudes de Maria, a santidade insuperável de seus costumes, a aura de paraíso que n’Ela transparecia também exteriormente, não lhe permitiam a mínima dúvida quanto à sua intemerata fidelidade. Mas como explicar o estado interessante da Esposa?

Qual a causa daquele Mistério? Como devia ele proceder em tão graves dificuldades?… Comunicar à Esposa suas apreensões e pedir-lhe a explicação?… Não seria uma afronta? Mas como poderia ocultar o acontecimento quando chegasse o momento do parto? Como poderia dar por seu o filho que estava para nascer, sem faltar à verdade? Devia ele, como estava prescrito pela lei, dar-Lhe o libelo de divórcio, acusá-La como adúltera e expô-La a ser lapidada? O único meio que parecia restar-lhe era abandonar secretamente a esposa, retirar-se sozinho a algum país longínquo onde não fosse conhecido, deixando o mais nas mãos da divina Providência.

A aflição de São José chegou a tal ponto que não pode mais dissimular sua tristeza. Sentiu que lhe diminuíam as forças, e, embora não estivesse atingido por enfermidade alguma, aparecera-lhe no semblante os sinais de uma extrema aflição. E como a ninguém comunicou sua aflição nem procurou em outro lugar alívio para a dor, suas penas tornavam-se ainda mais graves e mais acerbas.

Que dor para o Coração de Maria! Quantas angústias, quantas lágrimas no segredo de seu quarto! Sabia tudo quanto se passava no coração de seu amantíssimo esposo e não encontrava meio de dar-lhe remédio. O pobre José continuava, com lágrimas, a pedir luz ao Céu e outro tanto fazia Maria; mas não chegara ainda o momento. O Senhor queria, na dor, prepará-Los para a suma consolação.

Tais são os caminhos de Deus para os seus eleitos. Grandes são as cruzes a que certas vezes estão sujeitos neste mundo, mas infinitamente maiores as consolações com que os conforta depois da prova.

* * *

Muitos autores, excessivamente precipitados, sustentam que São José suspeitou da misteriosa gravidez de Maria como efeito de adultério. Os Santos Padres, ao contrário, afirmam que, tendo Maria voltado a Nazaré e, descoberto por São José o prodígio que Deus n’Ela operara, humilde como era, julgando-se indigno de habitar com a Mãe do Messias, tomou a resolução de afastar-se.

Diz Orígenes, na primeira de suas homilias sobre o Evangelho de São Mateus: “José queria abandonar Maria porque, percebendo ter-Lhe sucedido algum grande Mistério julgava-se indigno de habitar com Ela”.

Comentando tal passagem, São Jerônimo diz quase o mesmo: “Querer abandoná-La é testemunho de José, não em suspeita, mas em favor de Maria, pois, conhecendo a ilibada castidade de sua Esposa e ficando pasmo por causa de quanto acontecera, não ousava falar do Mistério que lhe era desconhecido”.

Mais claramente ainda se exprime São Basílio: “São José conheceu que a gravidez de Maria era obra do Espírito Santo mas, não sabendo tudo primeiro com certeza, e pensando contudo em algum Mistério, julgou-se indigno de chamar-se seu esposo, e, para não ser constrangido a manifestar o fato, pensou em abandoná-La ocultamente. Mostrou pois claramente que não pensara mal d’Ela nem se tornara molesta a sua convivência, mas que já formara antes o conceito de que sua gravidez pudesse ser proveniente do Espírito Santo”.

São Bernardo explica de modo maravilhoso a supracitada passagem: “José, que era homem justo, não querendo desonrar Maria, deliberou abandoná-La ocultamente; pela razão de que, sendo justo, não quis denunciá-La; pois, assim como não seria justo se, reconhecendo-A culpada, tivesse calado, também não seria justo se, julgando-A inocente, A tivesse condenado. Sendo pois justo e não querendo denunciá-La, resolveu abandoná-La”.

E porque quis abandoná-La? Dizem os Santos Padres: José pensou em abandonar Maria porque, julgando-se indigno e pecador, pensava não mais lhe ser permitido habitar com a Esposa, cuja dignidade suma compreendia. Via os indícios da presença divina no seio de Maria, e, não podendo penetrar o Mistério, pensava em afastar-se. Será para admirar-se que José se tenha julgado indigno do consórcio com a Virgem bendita, a quem o Espírito Santo tornara fecunda, se também Isabel exclamara com grande reverência: E como mereci que venha a mim a Mãe do meu Deus?

É pois opinião dos Santos Padres que José devia raciocinar assim: E quem sou eu, para ousar deter, junto de mim, como esposa, a Mãe de meu Deus? Onde os meus méritos para habitar com tão santa criatura? Ai de mim! Se Oza foi punido com a morte por haver tocado a Arca do Antigo Testamento, que me aconteceria, se por uma só vez faltasse com o respeito a esta Arca Vivente da Nova Aliança, na qual se encerra o maná do Céu e que contém, não só a Lei, mas o próprio Legislador?

Por causa deste santo temor, desta santa reverência, e não por outro motivo, queria José afastar-se de sua Esposa.

Mas diz ainda São Bernardo: Por que queria abandoná-La secreta e não abertamente? Para que não se investigasse a causa do abandono, para que não se lhe exigisse a razão. Que responderia àquele povo de dura cerviz, incrédulo e sempre pronto a contradizer? Se tivesse manifestado o que pensava, os argumentos em favor de sua inocência, não teriam talvez os incrédulos e pérfidos judeus escarnecido dele e apedrejado a esposa? Como acreditariam no Filho de Deus oculto no seio de Maria se depois O desprezaram quando pregava no Templo? Que não teriam feito com Ele, ainda não visível, se mais tarde não recearam matá-Lo impiamente quando poderoso por seus milagres? Por estes motivos, portanto, como homem justo, para não ser constrangido a mentir ou a difamar sua Esposa ilibada, pensou em abandoná-La secretamente”.1

O Santo passara cerca de dois meses nessa grande aflição quando, não conseguindo mais suportar tanta dor, numa tarde, preparou tudo quanto lhe podia ser necessário e determinou partir naquela mesma noite.

Todavia, antes de chegar ao grande passo, como é próprio de todas as almas justas e tementes a Deus, prostrou-se com a mais profunda humildade e confiança diante do Senhor, suplicando que lhe desse luz e conforto em determinação tão importante e dolorosíssima para o seu coração.

Sua Esposa, a quem Deus manifestara tudo quanto São José se dispunha a fazer, considerava-o de seu quarto, e cheia de compaixão, orava por ele. Deus, tendo permitido que a pena interior de José chegasse ao extremo, a uma espécie de martírio, não só para a aquisição de grandes méritos, mas também para que surgisse mais admirável o benefício da divina revelação que estava para receber, não tardou em conceder-lhe benigno socorro.

José erguera-se da fervorosa oração opresso pela dor e melancolia, e estava, mais do que nunca, decidido a levantar-se pela meia-noite para fugir sem que sua Esposa o notasse. Maria, no entanto, pedia a Deus o remédio, que solicitava com fervorosas orações, e se consolava com o pensamento de que, tendo chegado ao mais alto grau as penas de seu Esposo, a divina Misericórdia não mais tardaria a consolar um coração tão aflito.

De fato, seus santos desejos foram em breve satisfeitos. O Altíssimo enviou um Anjo para revelar a São José, enquanto dormia ainda, o grande Mistério que se realizava em sua Virgem Esposa.

E diz então São Bernardo: “A verdadeira virtude não costuma aparecer na prosperidade, antes sobressai nas adversidades, às quais se seguem depois as consolações”. Assim aconteceu com São José, pois acrescenta São João Crisóstomo: “Deus mistura aos acontecimentos tristes os alegres, e assim faz com todos os Santos, pois não permite que tenham contínuas tribulações nem contínua alegria, mas lhes entretece a vida, ora com adversidades, ora com prosperidades”.

E eis o que aconteceu a São José durante o sono. Enquanto pensava consigo nessas coisas, apareceu-lhe o Anjo do Senhor e lhe disse: José, filho de Davi, não temas conservar Maria como tua esposa, porque o Filho que terá foi concebido por obra do Espírito Santo. Dará à luz um Filho e Lhe porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo.2

Tudo isso, diz o Santo Evangelho, aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor predissera pelo profeta Isaías: “Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho. Será chamado Emanuel, que significa: Deus conosco”. Após tal visão, São José despertou do sono e, fazendo como lhe dissera o Anjo do Senhor, conservou consigo a sua Esposa.

Diz a Venerável Ágreda: “São José, informado do Mistério, revelado pelo Anjo, isto é, de que sua Esposa se tornara Mãe de Deus, entre o júbilo de sua inesperada sorte e o novo pesar que o assaltou por tudo quanto pensara e fizera até então, prostrou-se imediatamente por terra e, com humilde temor e inconcebível alegria, fez atos heroicos de humildade e de ação de graças a Deus pelo grande Mistério e por havê-lo escolhido para Esposo de tão excelsa Virgem.

Em virtude de tal acontecimento e dos atos de virtude por ele praticados na dolorosa prova, seu espírito permaneceu sereno e disposto a receber novos dons do Espírito Santo. Suas dúvidas e perturbações passadas nele estabeleceram os fundamentos de uma profunda humildade. A lembrança de quanto lhe acontecera serviu-lhe de ótima instrução para toda a vida”.

Portanto, eis banido em um instante o temor e toda dúvida do humilde esposo de Maria. O Anjo do Senhor que, segundo Santo Tomás, foi o mesmo Arcanjo Gabriel, assegura-o da realidade de quanto havia imaginado, isto é, de que Maria era a Virgem predita pelos Profetas, que desde toda a eternidade fora escolhida, pelo Senhor, para Mãe do Verbo Encarnado. Ao mesmo tempo, tranquiliza-o também, dizendo-lhe: Não temas receber Maria como tua esposa, pois, embora o seu verdadeiro Esposo seja o Espírito Santo, por obra do qual Ela concebeu, todavia foste escolhido por Ele mesmo para fazer-Lhe as vezes, como esposo terrestre de Maria, custódio de sua virgindade. Pai putativo e nutrício do Filho que Ela dará à luz, ao qual porás o nome que Lhe foi destinado: Jesus, que significava Senhor dos homens, para salvá-los de seus pecados.

São Fulgêncio assim traduz as palavras do Anjo: “José, Maria é tua legítima esposa; o Espírito Santo que te A concede, n’Ela operou o Mistério que te enche de santo terror. Mas esse Espírito de Amor não quer romper a santa união por Ele mesmo decretada. Embora haja tornado infinitamente mais precioso o tesouro a ti concedido, não quer todavia privar-te da felicidade de possuí-La. Deus, escolhendo Maria para sua Mãe, não pretende em absoluto que Ela deixe de ser tua esposa, antes A confia à tua piedade, a fim de proteger-Lhe a honra e sustentar-Lhe o divino Filho”.

Escreveu o Pe. La Broise: “Ninguém despertou do sono, mais alegre que São José, e nenhum encontro foi mais doce que o de São José e Maria na manhã daquele dia. O segredo os isolara, por um instante; agora, comunicado a ambos, renovava e multiplicava toda a felicidade de sua união e intimidade. José repetia a Maria as palavras do Arcanjo, Maria narrava a José o acontecimento da Anunciação”.

Como terão agradecido a Deus de todo coração aqueles dois bem-aventurados esposos, por havê-Los unido para tão elevado fim, por havê-Los provado para depois consolá-Los tanto. Sem a prova superada, nem José teria conhecido a virtude heroica de Maria, nem poderia Esta ter apreciado suficientemente o coração nobre e delicado de José.

Jesus seria doravante o objeto único dos pensamentos, das conversações e da expectativa dos dois esposos. Com que reverência ter-se-ão prostrado para adorá-Lo, embora ainda oculto; com ardentes suspiros terão desejado vê-Lo, estreitá-Lo ao coração e beijá-Lo!

Os santos esposos terão certamente exclamado com o profeta Isaías: Abri-vos, ó Céus, e as nuvens façam chover o Justo por excelência; abra-se a terra e deixe aparecer o seu Salvador! Vem, ó Senhor, não tardes mais, vem destruir os pecados do teu povo. Alegra-te, ó Filha de Sião, e exulta, Filha de Jerusalém: eis que está para vir o teu Senhor e grande luz descerá sobre ti naquele dia. Eis que está para vir o grande Profeta que renovará a face de Jerusalém! Naquele dia os montes serão inundados de doçura e os vales destilarão leite e mel. Vem, ó Senhor dos Exércitos, vem e liberta-nos! Mostra-nos a tua divina face e seremos salvos.

Ó Jerusalém, ergue os teus olhos e vê o poder do teu Rei: eis que vem o Salvador para desatar as cadeias de tua escravidão. Não temas, ó Sião, eis que vem a ti o teu Deus. Sobre ti, Jerusalém, aparecerá o Senhor, e a sua glória manifestar-se-á em teu recinto. Sião, serás renovada quando vires o Justo penetrar em ti. Confortai-vos, ó pusilânimes; eis que o Senhor e Deus nosso está próximo. Jerusalém, goza, exulta com grande júbilo, porque a ti virá o teu Salvador!

Ó Senhor, inclina benigno teu ouvido às nossas súplicas e apressa-te a iluminar as nossas trevas com os esplendores de tua vinda! Ó Sabedoria, que procede da boca do Altíssimo, que abrange o universo de um a outro extremo, que tudo dispõe com força e suavidade, vem, vem depressa para ensinar-nos os caminhos da prudência! Ó Adonai, condutor da estirpe de Israel, que apareceste a Moisés na sarça ardente e no Sinai lhe deste a lei, vem agora remir-nos com teu braço poderoso! Ó raiz de Jessé, que és como sinal de salvação diante dos povos, vem libertar-nos e não tardes mais.

Ó chave de Davi e cetro da casa de Israel, que abre e ninguém pode fechar, que fecha e ninguém pode abrir, vem e liberta o teu povo escravo, sentado em um cárcere tenebroso e nas sombras da morte! Ó Oriente, esplendor da luz eterna e sol de justiça, vem iluminar os teus filhos envoltos nas trevas e na obscuridade do pecado! Ó Rei das nações, por elas tão desejado, pedra angular, vem e salva o homem que tiraste do barro! Ó Emanuel, Rei e Legislador nosso, esperança e Salvador das gentes, vem salvar-nos, Deus e Senhor Nosso! Vem, para que possamos conhecer a tua vida na terra e possamos ver depressa a salvação de todas as nações! Apressa-te, ó Senhor, e não tardes a fazer-te visível aos teus servos.

A ti, Senhor, erguemos os nossos olhos, ó vem libertar-nos, que a Ti recorremos. Teremos os olhos sempre fixos em Ti, Senhor Nosso, e suspiraremos por tua vinda, Deus e Salvador nosso. Eis que já estão para cumprir-se todas as coisas preditas pelo Anjo, vem pois, ó desejado de nossos corações! Toca as trombetas, ó Sião, e alegra-te, porque está próximo o dia do Senhor: eis que Ele vem salvar-nos a todos”.

Nesses e em semelhantes afetos terão prorrompido solicitamente aqueles dois Corações tão caros a Deus, os quais, cheios de amor de Deus e do próximo, suspiravam ardentemente pela vinda do Salvador, não só para si mesmos, mas para a salvação de todos os homens.

Os Evangelistas não mencionaram estes grandes Mistérios, nem muitos outros sucedidos à Virgem Santíssima e ao santo Esposo, porque, entre outras razões, não era conveniente por causa dos pagãos que chegavam ao Cristianismo nos primeiros tempos. A Divina Providência manteve ocultas essas coisas, para manifestá-las depois em tempos mais oportunos.

Diz a Venerável Ágreda: “São José antes de lhe ser revelado o Mistério da Encarnação, visitava raramente a sua Santíssima Esposa. Trabalhava na oficina e Maria em seu quartinho; só se reuniam para a refeição. Era tal a prudência daquelas duas santas almas que, embora confirmados em graça, por humildade julgavam de seu dever premunir-se contra os perigos que a castidade costuma encontrar em semelhantes circunstâncias.

Entretanto, a revelação do Mistério divino operou grande transformação a tal respeito. Como poderia José possuir tão próximo o Verbo Encarnado e sua divina Mãe, e não desejar sua amável presença? Tomou, portanto, o hábito de entrar frequentemente naquele céu terrestre, demorando-se ali com profunda humildade e veneração”.

Certa vez, disse a Bem-aventurada Virgem a Santa Brígida: “Asseguro-te que, antes de nossas núpcias, José, iluminado pelo Espírito Santo, soube que eu me havia consagrado a Deus pelo voto de virgindade e era pura nos pensamentos, palavras e ações. Ele me desposou somente para servir-me e considerar-me soberana. Por meu lado, vi depois, com luz divina, que, embora por disposição da Providência tivesse de aceitar um Esposo, a minha virgindade permaneceria no entanto sem mácula”.

São José, como diz Santo Agostinho, não perdeu jamais a inocência, nunca pecou, nem mortal nem venialmente. Deus extinguiu nele o estímulo da concupiscência, razão pela qual podia conversar familiar e tranquilamente com a Santíssima Virgem, sem perigo algum de incontinência.

Além disso, foi singelíssimo na obediência, grande na fé, firme na esperança, ardente na caridade. Foi de rara simplicidade e sinceridade, de singular prudência, de maravilhosa fortaleza e constância, de incrível paciência, de solícita vigilância e de exatíssimo silêncio.

Os dois santos Esposos viviam sós, sem pessoa alguma para servi-los, e agiam assim por sua profundíssima humildade e também para não manifestar as celestes maravilhas com que o Senhor os favorecia.


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Fonte: Rev. Pe. Tarcísio M. Ravina, “São José – Na Vida de Jesus Cristo, Na Vida da Igreja, No Antigo Testamento, No Ensino dos Papas, Na Devoção dos Fiéis, Nas Manifestações Milagrosas”, 1ª Parte, Cap. O Mistério da Encarnação Revelado a São José”, pp. 40-51; Edições Paulinas, Recife/PE, 1954.

1.  S. Bernardo, Hom. II sup. Missus est.

2.  Para melhor esclarecer o sentido das palavras do Anjo, é útil recordar aqui outro uso dos hebreus. Costumavam passar os primeiros tempos do Matrimônio sob a tutela e na própria casa dos parentes próximos da esposa, antes de estabelecerem sua casa. Esta espécie de emancipação, fazia-se com uma festa de família, na qual, em presença dos parentes, confirmavam-se os compromissos nupciais: o marido era reconhecido como chefe da nova família e constituído senhor dos bens pertencentes à sua esposa. No dia determinado, todos os parentes reuniam-se na casa da esposa: o marido apresentava-se envolvido em um amplo manto e a esposa toda coberta por seu véu, e sentavam-se um ao lado do outro sob uma espécie de pavilhão. Então o marido, colocando o anel no dedo da esposa, que lhe dera no dia das núpcias, dizia: Esta é a minha esposa segundo o rito de Moisés e de Israel”. Depois, erguendo seu manto, recobria a esposa em sinal de predomínio e proteção. Um dos parentes próximos servia o vinho e o oferecia aos esposos e aos presentes, bendizendo a Deus por haver criado o homem e a mulher e por havê-los unido pelo vínculo conjugal. Depois, lançava-se ao ar um punhado de trigo, símbolo de fecundidade, e um menino quebrava uma taça para indicar que cada alegria da vida humana é frágil e transitória. Parece muito verossímil pensar que São José tenha hesitado em cumprir este ato de predomínio sobre Aquela que considerara e respeitara como coisa mais de Deus que sua. Na dúvida, quanto ao grande Mistério da Encarnação que o Espírito Santo operara em Maria, o humilde São José estremeceu de santo terror, não ousando declarar-se publicamente pai de uma prole divina. Por isso, foi necessário que o Anjo, em nome de Deus, o tranquilizasse com as palavras: José, não temas receber contigo Maria, tua esposa. Assim, São José tornou-se Esposo e Pai pelo coração, diz Bossuet. Os homens adotam os filhos: Deus adotou um Pai. Ninguém foi pai como ele, exclama Tertuliano, e, ao assumir o título e os encargos de tão excelsa paternidade, Deus lhe deu a autoridade, o afeto e as graças convenientes ao chefe de família tão santa. Deu-lhe o afeto, para que, amando a Jesus e Maria sobre todas as coisas, Os servisse e auxiliasse com extremosa solicitude; deu-lhe a graça de guardar fielmente os tesouros que o Céu lhe confiara; representante do Pai Celeste junto à Maria e ao Filho Divino.


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