Jesus,
nossa Vítima, dado na Cruz,
dado
na Eucaristia. Seu Sangue,
derramado
por nós, corre ainda no cálice,
seu
Corpo nos é distribuído
como
pão de nossas almas.
Quanta
doçura acho em meditar vossa palavra! Quanta doçura acho nessa
palavra pela qual estabeleceis e continuais esse banquete, que é ao
mesmo tempo um sacrifício! Não me canso de meditá-la; considero-a
por todos os lados; rumino-a, por assim falar, e passo-a na boca para
tirar-lhe todo o suco. “Isto é meu corpo dado por vós”;
em tempo presente, que se dá. “Isto é meu sangue
derramado por vós”; no mesmo
tempo, que se derrama. São Mateus assim fala. São Marcos, São
Lucas, São Paulo, quatro testemunhas perfeitamente uniformes da
vossa palavra. Todos os quatro falam em presente; isto é claro no
original, e o interprete latino que traduziu no futuro será
entregue, será derramado, em relação à Cruz, onde aquele Corpo ia
efetivamente ser entregue e onde o Sangue ia ser derramado, conservou
em São Lucas o tempo presente: Hoc
corpus quod pro vobis datur,
a fim de que entendêssemos, não só que Jesus Cristo, dizendo: Isto
é meu corpo, o entendia daquele mesmo Corpo que ia ser entregue por
nós, mas ainda entendia que esse mesmo Corpo que ia ser entregue e
dado por nós já era dado antecipadamente na Consagração mística,
e sê-lo-ia a cada vez que se celebrasse esse Sacrifício. Creiamos
pois, não só que o Corpo de Jesus Cristo devia ser dado por nós na
Cruz, e o foi com efeito; mas ainda que, a cada vez que se pronuncia
essa palavra, Ele é por essa palavra atualmente dado por nós: Hoc
corpus quod pro vobis datur.
Ele
quer portanto dizer que esse Corpo não só nos é dado na
Eucaristia: “Tomai e comei: isto é meu corpo”;
mas ainda que Ele é aí dado por nós, oferecido por nós, tanto
quanto o foi na Cruz; o que
assinala que ainda aqui Ele é a nossa Vítima, que ainda aqui é
oferecido, posto que doutra maneira. Assim esse termo: dado por vós,
diz-se de Jesus Cristo na Cruz, e se diz de Jesus Cristo na
Eucaristia, e convém a esse duplo estado do Corpo de Nosso Senhor
presente numa e noutra. É por isso que o Salvador não somente fala
em tempo presente, para nos mostrar que está aqui como na Cruz
dando-se atualmente por nós, mas ainda escolhe um tempo que convém
ao seu Sagrado Corpo nesses dois estados. Se Ele tivesse dito: Isto é
meu Corpo, que é crucificado, perfurado de chagas, posto à morte
por vós, não se poderia dizer que isso lhe convém na Eucaristia,
porquanto nesta Ele não morre mais, e haveria que explicar
necessária e unicamente: Isto é esse mesmo corpo que será posto na
Cruz por vós, e nela exalará o último suspiro pela vossa salvação.
Mas disse: “Isto é meu corpo dado”:
isto convém a esses dois estados; esse
Corpo é dado na Cruz; esse Corpo é ainda dado na Eucaristia; e, num
e noutro estado, dado por vós desde que está na Eucaristia para vos
ser dado nela, é dado por vós; antes de vo-lo dar a comer, a
palavra de Jesus Cristo torna-o presente, e essa presença ainda é
para vós. Jesus Cristo está presente por vós diante de seu Pai;
apresenta-se por vós, oferece-se por vós, e a sua simples presença
é para vós uma intercessão onipotente.
Eis
aí, pois, o que opera na Eucaristia esse precioso termo: “Isto
é meu corpo dado”.
Talvez,
porém, que os termos referidos pelos escritores sacros não tenham
sido pronunciados com a mesma escolha, e não convenham igualmente
aos dois estados da presença de Jesus Cristo. Vejamos, leiamos,
meditemos: Isto é meu sangue derramado: ele é derramado na Cruz,
mas não é ainda derramado no cálice? Não há, porventura, nesse
cálice com que fazer a Deus, pela nossa salvação, a mais salutar
efusão que jamais tenha havido? Esse Sangue está ali em estado de
ser derramado sob a forma de um licor, cuja propriedade é
derramar-se. Esse Sangue que foi derramado na Cruz e que correu de
todas as veias rompidas do Salvador, corre ainda nesse cálice de
todas as suas Chagas, e principalmente da do Sagrado Lado. É por
isso que nós misturamos esse cálice com um pouco de água, em
memória da água que correu do Lado aberto com o Sangue.
Senhor
Jesus, sois a Palavra, e vossas palavras são pronunciadas com uma
escolha digna de Vós. Dizendo: Isto é meu sangue derramado por vós,
em tempo presente, Vós me assinalais que não somente ele é
derramado por mim na Cruz, mas ainda que se derrama por mim, e pela
remissão dos meus pecados, nesse cálice, para assegurar-me-á, para
aplicar-me-á, para continuar eternamente a intercessão onipotente
que fazeis por mim por esse Sangue.
Continuemos
a ruminar essas santas palavras: Isto é meu corpo dado por vós,
conforme lemos em São Lucas; porém, a palavra que São Paulo pôs
no lugar foi esta: “Isto é meu corpo rompido por vós”;
mas que quer dizer esse termo, segundo o uso da língua santa? Isaías
no-lo explicou por estas palavras: “Rompe o teu pão àquele que
tem fome”:
dá-lhe esse pão, reparte-o com ele. São Paulo explica, portanto,
bem: Isto é meu corpo dado por vós, por: Isto é meu corpo rompido
por vós. Esse Corpo é posto em estado de nos ser dado, de nos ser
distribuído, de nos ser rompido na Eucaristia; e desde que é posto
nesse estado, já é rompido e dado por nós, na destinação e pela
palavra de Jesus Cristo. Porém, esse mesmo termo também tem sua
relação com o Corpo na Cruz, com o Corpo machucado de golpes e
furado de Chagas, suspenso a uma cruz em estado tão violento, em que
o seu Sangue escorre por todos os lados das suas veias cruelmente
rompidas. A palavra romper convém, pois, ainda aos dois estados,
quer ao de Jesus Cristo na Cruz, quer ao de Jesus Cristo na
Eucaristia: o Corpo é dado em ambos os estados; é rompido em ambos.
O mesmo sucede com o Sangue. O Corpo é em toda parte dado por nós,
é em toda parte nossa Vítima; o Sangue é em toda parte derramado
por nós na Cruz, corre ainda por nós na Taça Sagrada.
Meu
Salvador, que Sacrifício! Meu Salvador, repito, quanta doçura em
meditar vossa palavra! Acho sempre nela novos gostos; como no Maná,
vosso Corpo e vosso Sangue são a minha oblação, o meu sacrifício,
a minha Vítima, tanto na Cruz como na Mesa Sagrada: e, como a Cruz,
essa Mesa é um altar. Ah! Realmente o que diz São Paulo é bem
verdadeiro! “Temos um altar, do qual os que permanecem apegados
ao tabernáculo antigo, e ao altar da lei, não têm poder de comer”.
Para participar dele, há que entrar em espírito no “Tabernáculo
que não é feito por mão de homem”.
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Fonte:
Jacques-Bénigne
Bossuet, Bispo de Meaux, “Meditações
sobre o Evangelho”
– Opúsculo “A
Eucaristia”, Cap.
XIII, pp. 65-70. Coleção
Boa Imprensa, Livraria Boa Imprensa, Rio de Janeiro/RJ, 1942.