BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

SANTA GERTRUDES- ENSINAMENTOS.

 

Santa Gertrudes,  

Apóstola do Sagrado Coração de Jesus.


Lemos na vida de Santa Gertrudes1, que um dia foi arrebatada em altíssima contemplação, na qual lhe apareceu São João Evangelista. E perguntou-lhe a Santa, porque razão sendo ele o Discípulo da Caridade, a quem coube a fortuna de reclinar a cabeça sobre o peito de Jesus na última Ceia, e de sentir os movimentos daquele Coração, não escrevera no seu Evangelho uma palavra, ao menos, desse bendito Coração, para edificação dos fiéis; o Santo Evangelista respondeu-lhe com estas memoráveis palavras:

– Eu devia escrever para a Igreja nascente a Palavra do Verbo Divino Incriado, mas Deus se tinha reservado revelar nos últimos tempos do mundo a suavidade e o amor ardente desse Coração, e assim acender a Caridade quase apagada nos corações dos mortais.

Somos chegados aos tempos, de que fala o Discípulo predileto. O fogo da Caridade está apagado no coração de muitos cristãos. Como se poderá tornar a acender? Por meio desta santa devoção. Experimente vós também; e haveis de confessar esta verdade”.2



Do Segundo Livro das Revelações

de Nosso Senhor Jesus Cristo a Santa Gertrudes3


No Domingo seguinte, da Quinquagésima4, durante a Missa, Vós estimulastes e aumentastes os desejos de minha alma, para que ela quisesse favores mais sublimes que tínheis intenção de lhe conceder. Foi especialmente com estas duas palavras do Responsório: “Bendizendo, eu te bendirei”5, e o versículo do nono Responsório: “Darei esta terra a ti e à tua raça”6Então, com a Vossa venerável mão em Vosso Peito Sagrado, mostrastes onde se encontram essas regiões prometidas por Vossa infinita liberalidade.

Ó terra bem-aventurada, que encheis de felicidade todos os que em Vós habitam! Campo de delícias, da qual a menor partícula pode satisfazer abundantemente a fome de todos os eleitos e dar ao coração humano tudo o que lhe pode ser doce e agradável!

Eu considerava, com atenção talvez insuficiente, mas ao menos tanto quanto podia, esse espetáculo tão digno de atrair meu olhar. Então, apareceu-me a Bondade e a Humanidade de Deus Nosso Salvador, não por causa das obras de justiça pelas quais minha indignidade tivesse podido merecer esse favor, mas devido à Sua inefável misericórdia, que me justificava pela regeneração adotiva7 e me preparava para a união mais íntima convosco, ó meu Deus! União, em verdade, espantosa e temível, digna de admiração, celeste e inestimável!

Ó meu Deus! Em virtude de que méritos de minha parte e por que misterioso juízo, recebi tão grande favor? Certamente, o amor que esquece a dignidade do próprio sangue e se mostra cheio de condescendência, o amor que se precipita sem esperar a reflexão e o julgamento da razão, Vos inebriou até à loucura, se ouso assim falar, ó meu dulcíssimo Senhor, para que chegásseis a unir duas coisas tão diferentes. Ou melhor, para empregar linguagem mais respeitosa para com Vossa Majestade, essa suave bondade que é inata em Vós e faz parte de Vossa essência, foi abalada pelo contato da terna caridade que operou a salvação do gênero humano e em virtude da qual Vós não apenas amais, mas Sois o próprio Amor.

Será, pois, essa caridade, que Vos terá levado a tirar de Sua extrema indignidade uma miserável criatura, desprezível por sua vida e seus maus hábitos, para elevá-la à participação de Vossa real e divina grandeza? Vos quisestes com isto aumentar a confiança de todos os membros da Igreja, e é o que quero e desejo para todo o cristão, esperando que ninguém fará, como eu, tão mau uso dos dons de Deus nem dará tanto escândalo ao próximo.

Mas como as coisas invisíveis de Deus podem ser percebidas pela inteligência por meio de imagens sensíveis, pareceu-me que jorravam gotas de suor da parte do Peito Sagrado do Senhor em que Ele havia recebido minha alma, sob a forma de cera amolecida ao fogo, no dia da Purificação. Era como se a substância dessa cera tivesse sido inteiramente liquefeita pelo excesso do calor encerrado no Seio de meu Deus. O Divino Coração absorvia essas gotas com inefável e incompreensível virtude. Parecia que o amor, expansivo por natureza, encerrara sua força vitoriosa nas profundidades do Sagrado Coração.

Ó Solstício Eterno, Moradia segura que contém todas as delícias, Paraíso das alegrias eternas, Fonte de onde jorram indescritíveis deleites. Vós atraís, com abundantes flores de suave primavera; encantais, com as suaves notas de uma harmonia toda espiritual; reanimais, com uma brisa perfumada de vivificantes aromas; inebriais, com a doçura envolvente de sabores místicos; transformais, com as maravilhosas carícias de Vossos santos abraços.

Oh, três vezes feliz, quatro vezes bem-aventurado e, se posso dizer, mil vezes santo aquele que, dirigido pela graça, merece aproximar-se desse lugar abençoado com coração puro, mãos inocentes e lábios sem mancha! Como descrever o que ele vê, ouve, respira, prova e sente? Por que minha língua impotente se esforçaria por balbuciar algo disso? É verdade que, por efeito da Bondade divina, fui admitida a gozar desses favores. Mas, envolvida pelo espesso manto de minhas faltas e negligências, só podia recebê-los muito imperfeitamente, porque toda a ciência reunida dos Anjos e dos homens não poderia produzir uma só palavra que exprimisse, ainda que pouco, a supereminente grandeza de tão sublime união”.



Dos Exercícios Espirituais de Santa Gertrudes8


Exercício Primeiro: … Eu Vos saúdo, ó Santo Anjo de Deus, guarda de minha alma e de meu corpo. Pelo dulcíssimo Coração de Jesus Cristo, Filho de Deus, recebei-me sob a proteção de vossa fiel paternidade por amor Daquele que nos criou, e que no dia de meu Batismo me colocou sob a vossa guarda. Ajudai-me a atravessar sem manchar-me a torrente desta vida, até que seja admitida a contemplar convosco e como vós esta deleitável Face, esta Beleza cheia de delícias da Soberana Divindade, cuja vista excede infinitamente as mais doces felicidades (p. 116)... 

… Conservai no santuário de Vosso Coração, tão cheio de bondade, ó meu dulcíssimo Jesus, a pureza de minha inocência batismal e o juramento de minha fé, a fim de que estejam abrigados sob a Vossa fiel proteção, e que eu possa apresentar-Vo-los, em sua integridade, na hora de minha morte. Imprimi sobre meu coração o selo de Vosso Coração, a fim de que eu viva segundo Vossa Vontade, e que depois deste exílio chegue a Vós, sem obstáculo e cumulada de alegria (p. 127)...

Exercício Segundo: … Ocultai-me na rocha inquebrantável de Vossa paternal proteção. Recolhei-me longe de tudo, na abertura do Vosso Coração Dulcíssimo, oh! O mais querido dos amados (p. 131)!...

Exercício Terceiro: … Qual é a Vossa grandeza, ó Rei dos reis, Senhor dos senhores! Todo o exército dos astros está às Vossas ordens, e é ao homem que prendestes o Vosso Coração (p. 143)... Fonte da Luz Eterna, Trindade Santa, ó Deus! Sustentai-me com Vosso Divino poder; governai-me com Vossa Divina Sabedoria; e por Vossa Divina Bondade tornai-me conforme ao Vosso Coração (p. 145)...

Exercício Quarto: … Nesse túmulo de amor envolvei-me na mortalha da Vossa preciosa Redenção; embalsamai-me com os preciosos perfumes da Vossa morte; colocai-me no Vosso Coração lanceado como num sepulcro de mármore do mais alto valor (p. 197)... Agora pois, ó amor! Ó meu Rei e meu Deus! Agora, ó meu Jesus, recebei-me sob a guarda do Vosso Divino Coração. Ali me unireis a Vós por Vosso amor, afim de que para Vós viva inteiramente (p. 202)...

Exercício Quinto: … Oh! Abri-me, como um asilo de salvação, Vosso Coração tão amante. Quanto ao meu, já não o possuo mais; sois Vós, ó meu caro Tesouro, quem o tomastes e o guardais em Vós (p. 217)... Bem-aventurada a alma que Vos tem cativo pelo seu inseparável amor! Feliz o coração que sente imprimir-se nele o beijo do Vosso Sagrado Coração, penhor de indissolúvel aliança, ó Deus amor! (p. 236)... Ó Deus amor, Vós me adotastes por Vossa filha: nutri-me segundo o Vosso Coração (pp. 237-238)...

Exercício Sexto: … Abri-me o tesouro de Vosso misericordioso Coração; nele é que reside o objeto dos meus desejos (p. 240)... Ó amor! Encarrega-te de responder por mim a Jesus, meu Deus, Verbo de vida. Comove em meu favor este Coração Divino, no qual o Teu Poder se mostra com tanto brilho (p. 242)... Eis que a minha alma se enfraquece e desmaia por causa do tédio desta vida, e desejo ardentemente morrer e estar convosco, para que possa oferecer-Vos os doces holocaustos de alegria, no Céu, entre as multidões bem-aventuradas que jubilam em Vosso louvor. Aí queimarei sobre o altar de ouro do Vosso Coração Divino o incenso que Vos é agradável; isto é, o de minha alma e do meu espírito imolados, com delícias, em troca de tantos favores extraordinários com os quais me consolastes, ó meu Pai e Mestre, em todas as tribulações e angústias (p. 250)... Assentado à direita do Pai na minha própria natureza humana, ó meu Amado, aí demonstrais o poder do Vosso amor. Aí é que me trazeis escrita sobre as Vossas mãos9, sobre os Vossos pés e em Vosso dulcíssimo Coração, para nunca esquecerdes a minha alma que resgatastes por preço tão elevado (p. 253)... Deus do meu coração, objeto querido dos meus votos! Pelo Vosso poder infinito admiti, desde esta hora, nas melodias que emanam de Vosso Divino Coração, uma nova nota para exprimir o meu indigno louvor, a minha impotente ação de graças. Que esta nova nota, encerrada no Vosso harmonioso canto, seja a homenagem que Vos devo em troca dos Vossos benefícios, por me haverdes criado, resgatado, eleito e retirado do mundo (pp. 261-262)... Mas desde já lanço no turíbulo de ouro do Vosso Coração Divino (no qual arderá em Vossa glória o suavíssimo perfume do eterno amor) o meu coração, qual mínimo grão de incenso, ardentemente desejando que, não obstante a sua indignidade, o sopro de Vosso Espírito o acenda com a Sua vida, consumindo-o unicamente em Vossa glória (p. 270)... Alegria e jubilo a Vós, neste Coração amantíssimo e fidelíssimo que para mim foi aberto pela lança, para que o meu coração aí pudesse entrar e nele repousar. Alegria e jubilo a Vós, neste dulcíssimo Coração, meu único refúgio em meu exílio; esse Coração tão cheio de terna solicitude para comigo, tão alterado em Seu amor por mim; que jamais repousará até que nEle me haja recebido para a eternidade (pp. 274-275)... Fazei-me sentir os efeitos desta bondade que se mostrou tão misericordiosa para comigo, quando, quando para o meu resgate, o Vosso dulcíssimo Coração foi partido de amor sobre a Cruz! (p. 293)...

Exercício Sétimo: … O seio de Vossa misericórdia, ó amável Jesus, tornar-se-á minha doce prisão; sentir-me-ei presa em Vosso Coração Divino (p. 302)... E tu, ó amor, tu te atacas até ao próprio Coração do meu Jesus, e com tanto vigor que, em sua dedicação por nós, sucumbe transpassado, e não é mais do que um coração aniquilado (p. 321)... Essa dedicação, digna de um Deus, ó amor, me abriu a entrada do terno Coração do meu Jesus. Ó Coração cheio de doçura! Ó Coração transbordando de compaixão! Ó Coração superabundante de Caridade! Ó Coração de onde destilam como o orvalho a suavidade e a misericórdia! Ó Coração, objeto da minha ternura, dignai-Vos absorver meu próprio coração em Vós mesmo. Vós que sois mais caro ao meu coração do que a Peroba mais preciosa, convidai-me ao festim da vida (p. 324)... Ó amor, tomai este Divino Coração, este turibulo onde arde tão suave incenso, esta hóstia tão nobre: oferecei-O por mim sobre o altar de ouro onde está selada a reconciliação do homem; oferecei-O para suprir o que dia a dia me faltou em todo o curso da minha vida, durante a qual fui tão estéril para Vós. Ó amor! Mergulhai minha alma nas ondas que rebentam deste Coração tão cheio de bondade; sepultai toda a multidão de minhas iniquidades e negligências nas profundezas de Sua Divina Misericórdia... Ó Coração mais amado do que todas as coisas, o clamor do meu próprio coração chega até Vós. Lembrai-Vos de mim; que a doçura de Vossa caridade dê coragem a este culpado coração (pp. 325-326)... Na hora da minha morte abri-me sem demora a porta do Vosso Coração tão cheio de bondade, e dignai-Vos fazer com que nada retarde a minha entrada no santuário secreto de Vosso Coração, de Vosso Amor, onde gozarei de Vós, onde Vos possuirei, ó Vós que Sois a alegria verdadeira do meu coração! Amém (p. 338)... Levai-me prontamente a unir-me a Vós, ó encanto eterno de minha alma, único amor de meu coração! Vós cujas feições são tão amáveis e cujo Coração tão terno, longe de Vós minha alma está exilada. Deus de meu coração, meu espírito entregou-se à dissipação: dignai recolhê-lo em Vós. Meu Bem-amado, pela pureza de intenção que reinou sempre em Vossos Santos pensamentos, pelo ardente amor de Vosso Coração transpassado pelo ferro, purificai todos os perversos pensamentos do meu coração culpado. Que Vossa amargurada Paixão seja para mim um amparo no momento da minha morte; que o Vosso coração despedaçado pelo amor torne-se a minha eterna morada; pois Sois amado por mim acima de toda a criatura (pp. 340-341)...


_________________________

1.  Vita, I, 4, c. 3.

2.  Francisco Vannutelli, S.J., “O Mês de Junho Consagrado ao Santíssimo Coração de Jesus”, 3º Dia, pp. 28-29. 6ª Edição, Casa Duprat, São Paulo, 1934.

3.  “Segredos do Coração de Jesus – Revelações de Santa Gertrudes”, Livro II, Cap. VIII, pp. 33-36. Tradução de Celso da Costa Carvalho Vidigal, Artpres Indústria Gráfica e Editora Ltda, São Paulo, 2004.

4.  Esto mihi…, etc.

5.  Benedicens benedicam… Versículo do Responsório Locutus est, do mesmo Domingo.

6.  Tibi enim et semini tuo dabo has regions, do Responsório Movens, que não é citado textualmente.

7.  Tit. III, 4.

8.  Manual Gertrudiano ou Exercícios Espirituais de Santa Gertrudes Magna, Virgem da Ordem de São Bento. Edição Portuguesa. Typografia de B. Herder, Friburgo em Brisgau, Alemanha, 1914.

9.  Isaías 49, 16.


terça-feira, 15 de novembro de 2022

O LIVRO DOS ELEITOS: O CRUCIFIXO.


O Crucifixo

meu Livro de Estudo1

1. No Museu de Viena admira-se o célebre quadro de Alberto Dürer – Os Santos no Céu.

Deus Pai tem, sobre seus joelhos, seu Filho Crucificado e propõe-no à contemplação dos Santos.

2. Eterno e delicioso objeto da contemplação dos Santos no Céu, o Crucifixo é, neste mundo, o livro de estudo dos futuros eleitos.

Pregamos, diz São Paulo, Jesus Crucificado… Potência e Sabedoria de Deus para proveito dos Predestinados”.2

A Cruz do Senhor, diz Santo Agostinho, não é somente um altar onde se imola a Divina Vítima, é também uma cadeira, do alto da qual nos dá sublimes lições”.


Ouvi-me então:

A sociedade antiga, surge das trevas e vícios do paganismo e sobe, esperançosa, o Monte Calvário; vive e morre abraçada à Cruz: é uma sociedade feliz!

A sociedade moderna, tendo horror à Cruz, desce, desvairada, do Calvário e submerge-se nas trevas e vícios do neo-paganismo; vive e morre “abraçada ao esterco, como diz o Profeta, corrompida até a medula dos ossos: é uma sociedade desgraçada!

A sociedade hodierna, precisa de arrepiar caminho, lançar-se de novo nos braços do Cristianismo que tão ingratamente tem abandonado.

A graça do Cristianismo, no seu princípio, é a graça de um Deus que morreu na Cruz; é necessário que, para ter relação com o seu princípio, nos leve aos prazeres da outra vida pelas mortificações desta.

A graça do Cristianismo é o preço do Sangue de um Deus; para no-la aplicarmos, é necessário, como diz São Paulo, crucificarmos a nossa carne com as paixões e desejos desordenados.

A graça no Cristianismo, no seu sujeito – o cristão, acha um culpado; logo é necessário que o castigue; e, porventura, pode fazê-lo sem a mortificação? Acha um enfermo; logo é necessário que seja medicinal, e por consequência, amarga. Precisamos, pois, de abraçar a mortificação como um castigo justamente devido aos nossos pecados e um remédio salutar às nossas enfermidades.


Devoção ao Crucifixo


1. Um artista italiano do século XIV, Taddeo di Bartolo, deixou-nos um Crucifixo muito eloquente. Crucificado na Cruz, Jesus dá o último suspiro. A seus pés, de olhos levantados e fixos no seu Deus crucificado, está São Jerônimo. É evidente que o Crucifixo é o seu grande livro de devoção. Encontrava sempre nas páginas desse livro, escritas com sangue, novos ensinamentos. E aconselhava a todos os seus discípulos que lessem, sem cessar, neste livro. Eu vos dou o mesmo conselho.

2. O Crucifixo tem sido, em toda a parte, através de todos os tempos, objeto de especial devoção.

Para propagar o culto da sua Paixão, Jesus Cristo não tem somente empregado meios ordinários, tem mesmo feito milagres.

O Crucifixo de São Boaventura enegrecido com os beijos, animava-se diante do Santo, que se abrasava de amor ao seu contato. O de São Tomás de Aquino inclina-se um dia para o Santo e diz: “Tomás, tu falaste bem de mim”.

O de São Francisco de Assis, um dia, opera esta maravilha: – deixa sair de suas mãos, de seus pés, do lado aberto, dardos inflamados, que gravam os estigmas nos membros de São Francisco.


Não te esqueças nunca

da graça que te fez

o que ficou por teu fiador,

porque ele expôs a sua vida

para te valer”.

(Eclo. 29, 20)


O MEU CRUCIFIXO3

Tenhamos um crucifixo que nos ajude a crucificar-nos com Cristo. Tenhamos um crucifixo que seja o nosso confidente. Um crucifixo que nos ajude a beijar a mão do algoz, que nos crucifica com Cristo. Tenhamos um crucifixo que nos ensine sempre a perdoar, para poder sempre amar. Tenhamos um crucifixo, para, em qualquer vicissitude da vida: na dor ou na alegria, na saúde ou na doença, encontrar o sinal da bênção de Deus.

E cada qual fixe bem e diga convencido: o meu crucifixo é bandeira, é remédio, é bálsamo, é vigor, é amor. É tudo na minha vida!


Quando entibio – afervora-me.

Quando desfaleço – fortalece-me.

Quando caio – levanta-me.

Quando espoliado – enriquece-me.

Quando entristeço – alegra-me.

Quando desprezado – considera-me.

Quando sofro – consola-me.

Quando incompreendido – compreenda-me.

Quando desanimo – alenta-me.

Quando temo – encoraja-me.

Quando enfermo – cura-me.

Quando tentado – sustenta-me.

Quando tremo – assegura-me.

Quando traído – abraça-me.

Quando abandonado – procura-me.

Quando endureço – abranda-me.

Quando esfrio – aquece-me.

Quando me apago – ilumina-me.

Quando me humilho – exalta-me.

Quando morro – acolhe-me na eternidade feliz.



História Admirável da Milagrosa

Imagem do Santo Crucifixo de Berito4

(Exemplo da Onipotência Divina)

Levantemos, fiéis, os olhos da nossa alma, e atendamos à representação de um grave espetáculo, a todas luzes admirável, que, suposto acontecido nos tempos antigos, merece sua memória ser perene em todos os séculos.5 Contemplemos nele a inefável misericórdia de Deus, vencedora sempre da malícia humana, prevenindo nossos corações para um e outro objeto, já com júbilos já com lamentos, e apagando em nossas lágrimas a compunção, que as faz amargosas, com o amor, que as torna doce. Foge da mão a pena, fogem da mente os conceitos, ao dar à luz uma história de que a mesma luz do sol e das estrelas recusaria justamente ser testemunha. Porém, a sabedoria do Altíssimo, que todos os futuros antever e todas as desordens reduz a amável ordem, e a sua Onipotência, que dos abismos do pecado fabrica empíreos de suas glórias, pedem os juros de seu louvor; mas que se paguem do horror de nossos ouvidos com a relação de tão indignos atrevimentos.

Há nos confins de Tiro e Sidônia, uma cidade sufragânea a Antioquia, chamada Berito, onde viviam numerosas famílias de judeus. E junto da sua sinagoga, que era mui grande, alugou um cristão uma casinha onde habitava, o qual pôs na parede contrária fronteira à sua cama um bom painel de Cristo crucificado, de estatura de um homem. Porém, necessitando de mais capaz vivenda, buscou outra na cidade, para onde se mudou, levando seus móveis e trabalhos, e esquecendo-se unicamente de levar a Imagem do Senhor, ou porque o diferiu para outro dia, e depois lhe saiu da memória, ou porque a sua pouca devoção mereceu, porventura, que Deus permitisse este descuido; e o mais certo, é que porque a Divina Providência queria por este meio renovar nos fiéis a memória da Paixão do Senhor e fazer inexcusável a perfídia de seus inimigos.

Mudado, pois, o cristão para outra casa, alugou um judeu esta outra pequena, que ele deixara; e ali entrava e saía sem advertir no painel, quanto mais na pintura dele. Um dia convidou a jantar a outro judeu da sua tribo. E, estando ambos à mesa, o judeu convidado foi levantar os olhos e, vendo a Sagrada Imagem, disse com estranheza para o seu camarada: Se tu és judeu, como tens em casa tal Imagem? E começou a soltar pela boca contra o Salvador do Mundo palavras tão injuriosas e nefandas, que não permite a decência declará-las. E, não contente com isto, vai logo delatar aos seus sumos sacerdotes e presidentes da sinagoga, que aquele judeu tinha em sua casa a Imagem do Nazareno crucificado. Podes tu (disseram eles), mostrar que falas verdade? Respondeu o denunciante: Não há nisso mais dificuldade que vir e ver.

Aquela tarde, pois, se comunicaram uns com os outros; e logo na manhã seguinte: Ut factus est dies convenerunt Seniores plebis, et Principes sacerdotum,6 ajuntaram-se os sacerdotes, e os demais velhos da sinagoga, com outra multidão da mesma canalha; e, levando por guia ao mesmo delator, vão a casa do outro judeu. Entram furiosos, veem a Sagrada Imagem, enchem-se de maior raiva, repreendem coléricos ao culpado em crime, ao seu parecer, mais detestável que muitos sacrilégios, excomungam-no por essa causa, e o ameaçam terrivelmente. E que mais? Saltam ao painel e o despenduram, dizendo: “Façamos-lhe como nossos pais fizeram naquele tempo”.

Começaram, pois, a renovar a Paixão do Salvador naquela sua Imagem, com sanha e irrisão diabólica; e diziam: “Nós ouvimos que, lhe cuspiram no rosto; façamos assim também”. E, à porfia, uns de uma parte, outros da outra, lhe arremessavam asquerosas salivas. “Nós ouvimos que, o esbofetearam e escarneceram; façamos agora o mesmo”. E, logo, davam na Imagem muitas bofetadas e lhe faziam incríveis ludíbrios. “Nós ouvimos que, lhe pregaram mãos e pés; façamos assim também”. E no mesmo instante buscaram pregos e os cravaram na Imagem. Tomaram também uma esponja com fel e vinagre; e disseram: “Esquecia-nos este tormento, que lhe fizeram nossos pais”; e puseram a esponja na boca do Senhor. Nem lhe escapou, dar-lhe com a cana na cabeça. Até que, finalmente, representaram a lançada no lado do Senhor, já defunto; fizeram, pois, vir uma lança grande e disseram a um dos seus, que lha metesse pelo costado. Mas, ó maravilha grande da divina piedade! Assim como aquele pérfido deu a lançada, manou da ferida Sangue e Água verdadeiros, não querendo o Senhor, faltar, da parte que lhe tocava, à perfeição do Mistério, que seus inimigos renovavam. Porém, foram imitando a seus pais na dureza de coração e cegueira de entendimento, assim como no mais os imitavam; não lhes causou milagre, tão notável e manifesto, movimento algum de piedade. Antes, como tolos e insensatos, ou, para melhor dizer, como encarniçados na sua malícia, continuaram a mesma cena trágica, e disseram: “Os que adoram ao Nazareno, dizem que realizou muitos milagres, dando saúde aos enfermos e vista aos cegos; experimentemos se faz o mesmo este Sangue e esta Água, que agora vimos sair, porque sem dúvida tudo é falsidade e fábulas que nos vendem”. E, logo, veio um com uma vasilha, e, aparando à ferida, a encheu; e a levaram para a sinagoga, e convocaram enfermos de vários males, para os ungirem, e voltarem em matéria de escárnio o sucesso, que não esperavam fosse milagroso. O primeiro em que fizeram a experiência, foi um paralítico, que conheciam por tal desde seu nascimento. Vede, almas, e admirai a contenda ou desafio em que se dignou a entrar a divina bondade com a malícia humana, para mais gloriosamente triunfar dela. O mesmo foi ungirem aquele paralítico, que sentir-se de repente com inteira saúde, de sorte que se levantou firme em suas pernas, como se de antes nenhum mal padecesse. Do mesmo modo sucedeu aos cegos; do mesmo modo aos endemoniados.

Começou, pois, o confuso murmurinho de vozes a crescer; e a fama, voando sobre muitas línguas, divulgou-se que na sinagoga aparecera uma fonte de milagres. Correram grandes multidões de judeus, levando cada qual o enfermo que tinham em casa. Encheu-se a sinagoga, apesar de ser casa espaçosa, de paralíticos, aleijados, tolhidos, leprosos e toda espécie de enfermos e vexados, e de povo, que concorria a ver com seus olhos o que nem na opinião parece que lhes cabia. Tanta era a presteza com que as maravilhas se realizavam, que as mãos dos sacerdotes judeus eram as que tardavam e cansavam de ungir, e não eram elas mais que um instrumento quase inanimado da invisível Mão do Onipotente, porque, sem saber o que faziam, não cessavam de realizar. Entretanto, não se ouvia na casa, e fora dela, mais que vozes, aclamações, lágrimas e louvores divinos. Porém, ó grande Deus! Ó potência inenarrável do Crucificado! Ainda as correntes desta fonte não se espalharam com a franqueza a que seu amor as impelia. Parece que tomou Deus o caso de aposta e que disse entre Si: Vós, vinde entender Comigo, e a pôr-me outra vez presente o sacrifício com que resgatei e salvei o mundo? Não sabeis que há em meu peito, caridade para padecer morte de Cruz tantas vezes quantas são as almas, se assim fosse necessário? Não sabeis que sou o que ensinei a dar benefícios por agravos e favores por injúrias? Ou cuidastes que poderíeis dar fundo ao abismo do meu amor? Rompeu, pois, a fonte em borbulhões maiores; passou a alagar as almas, depois que alagara os corpos. Trocam-se os corações daqueles sacerdotes e anciãos, e do mais povo judaico, que presente estava, até mulheres e meninos; e começa a subir ao Céu uma voz de muitas vozes, clamando todas: “GLÓRIA A TI JESUS CRISTO, FILHO DE DEUS, a quem nossos pais crucificaram, e que por nós foste em tua Imagem de novo crucificado. GLÓRIA A TI, FILHO DE DEUS, realizador de tantas maravilhas. EM TI CREMOS; A TI VIMOS JÁ BUSCAR; RECEBE-NOS PROPÍCIO”. Isto clamavam com ânimo verdadeiramente contrito e devoto; e, continuando as unções, continuavam as maravilhas.

Sarados, pois, todos, e vivificados com os favores do Céu, correu a multidão dos judeus à casa do Bispo, que já estava a par do caso; e clamaram novamente os sacerdotes e mais povo: “Um só Deus Pai; um só Filho seu Unigênito, JESUS CRISTO, que nossos pais crucificaram: Nós O confessamos por Deus. Eis aqui a sua Sagrada Imagem, que escarnecemos e maltratamos; eis aqui a ferida do costado; e eis aqui o Sangue e a Água, que dela vimos sair, e com o que ele foi servido realizar tantos milagres. Pelo que, pedimos o Sagrado Batismo para ser contados entre os fiéis da sua Igreja”. Alegrou-se o Bispo, vendo os exuberantes frutos da divina graça; ele, com o seu clero, catequizaram e batizaram por muitas semanas a copiosa multidão que vinha, como sequioso servo, buscar as fontes de água viva, para nela regenerar-se. Foi também por petição dos mesmos novos cristãos consagrada em igreja aquela grande sinagoga, e outras que na cidade havia, se dedicaram aos Mártires. E foi grande e geral a alegria que houve, porque nem havia corpo enfermo nem alma, que não buscasse a graça de Deus e louvasse Suas magníficas obras.

Acrescenta Sigiberto, que este Bispo se chamava Adeodato, e que repartiu em várias ampulhetas este Sangue, por todas as igrejas, ordenando que aos nove de Novembro, que foi o dia da dita crucifixão do Senhor, se celebrasse comemoração dele. No mesmo dia a manda fazer o Martirológio Romano, e diz que o tesouro daquele Sangue alcançou a todas as igrejas do Oriente e do Ocidente. O nosso Cardeal Barônio conjectura, de leccionários antigos, onde esta narração estava lançada, que aconteceu no tempo da imperatriz Irene, mãe de Constantino, com quem, por ser de menor de idade, reinava. E diz que, sendo esta narração lida aos Padres do Segundo Concílio Niceno, tão longe esteve de lhe pôr dúvida, algum deles que antes todos, banhados em devotas lágrimas, a ouviam como se ouvissem a Paixão por algum dos Sagrados Evangelistas. Mas avisa que, a relação que anda em Súrio, tem misturadas muitas coisas apócrifas, que é necessário rescindi-las. Fica, pois, por este só único caso convencido irrefragavelmente o erro e heresia dos Iconoclastas, aos que hoje teimam em defender os Sectários.


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1.  Côn. Júlio Antônio dos Santos, Diretor Espiritual do Seminário de Coimbra, “O Crucifixo – meu livro de estudos”, Vol. I, composto e impresso nas oficinas da Gráfica de Coimbra, Coimbra – 1942.

2.  I Cor. 1, 23-25.

3.  Pe. A. Monteiro da Cruz, S.J.

4.  Pe. Manuel Bernardes, Oratoriano de Lisboa, “Nova Floresta”, Tomo IV, Título XV – Culto Divino, pp. 229-235. Nova Edição, Livraria Lello & Irmão – Editores, Porto, 1949.

5.  Baronius, anno Christi, 787 a n. 35, ex Athesio juxa versionem Anastasii.

6.  Luc. 22, 66.


sexta-feira, 11 de novembro de 2022

“NÃO SOU EU QUE VIVE, MAS É CRISTO, O SENHOR, QUE VIVE EM MIM”. (Gál. 2, 20)


Dizem que Pe. Pio no confessionário está em estado iluminativo. Ou melhor dizer: Deus o deixa parcialmente participar de Sua Onisciência. Ter um penitente a infelicidade de silenciar ou diminuir sua culpa por falsa vergonha, é coisa que nunca acontece, ao confessar-se com o Pe. Pio. A alma aparece descoberta ante os olhos do abençoado Sacerdote e, com aviso severo, chama ele a atenção do infeliz: “Traem teus lábios palavras blasfemas”. A omissão da Missa Dominical, Pe. Pio não deixa passar com facilidade. Pecadores inveterados nos vícios, como os borrachos (bêbados) ou os que vivem desonestamente (adúlteros/fornicadores), trata-os com máxima severidade. Não concede indiscriminadamente a absolvição, mas exorta primeiro o penitente a que se corrija sinceramente. E dá-lhe um prazo. Neste prazo o penitente deve mostrar sua sinceridade. Sem verdadeiro arrependimento e propósito firme, de romper com os maus costumes, não pode contar com a absolvição.



Fustiga (repreende) particularmente o espírito atrevido da época atual, nomeadamente a maneira despudorada da moda feminina, como o trajar calças a qualquer hora e em lugares impróprios. Vigia, em união com seus Confrades, para que senhoras indecentemente vestidas não penetrem no sagrado recinto. Promulgou Deus suas Leis em tábuas de pedra, para todos os homens e todas as épocas, e não em tábuas de borracha elástica, que a gente pudesse esticar conforme os seus apetites. (Para Deus não existem loucuras da moda). Há somente um sol; e todos os relógios do mundo orientam-se de acordo com ele. Assim devem os homens orientar-se segundo o Deus verdadeiro e vivo. Padre Pio fica indignado quando se defronta com senhoras indecorosamente vestidas. Dando-se isso na igreja, então, ele dá ordem de afastarem tais pessoas. Da mesma forma homens e mulheres só podem entrar na Casa de Deus vestindo mangas (compridas). Rapazes e homens têm de comparecer com calças compridas, se não quiserem ouvir o aviso de se retirarem do sagrado recinto. Sempre que o Pe. Pio não dá a absolvição, fechando aos penitentes a portinhola (do confessionário), algumas pessoas perguntam com leve queixume: porque trata certos penitentes com tanto rigor? Então, com voz trêmula, responde: “Sabes, por ventura, que tormentos tenho de suportar, quando me fecho em frente de alguém? É O TODO PODEROSO SENHOR QUE ME OBRIGA. Eu próprio não chamo a ninguém, nem tão pouco a ninguém repilo. É OUTRO QUE NOS CHAMA E REPELE, e cujo instrumento inútil eu sou”. Talvez o Padre Pio tenha na memória a palavra do Apóstolo, que diz: “Não sou eu que vive, mas é Cristo, o Senhor, que vive em mim”.


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Fonte: Karl Wagner, BERICHT ÜBER PATER PIO - Meus Encontros com o Padre Pio”, Cap. “Coisas que Impressionam”, pp. 34-35. Tradução de Fr. Faustino Wessolly, O.F.M., Viena, 1966.


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