O
Crucifixo
meu
Livro de Estudo
.jpg)
1.
No Museu de Viena admira-se o célebre quadro de Alberto Dürer –
Os Santos no Céu.
Deus
Pai tem, sobre seus joelhos, seu Filho Crucificado e propõe-no à
contemplação dos Santos.
2.
Eterno e delicioso objeto da contemplação dos Santos no Céu, o
Crucifixo é, neste mundo, o livro de estudo dos futuros
eleitos.
“Pregamos,
diz São Paulo, Jesus Crucificado… Potência e Sabedoria
de Deus para proveito dos Predestinados”.
“A
Cruz do Senhor, diz Santo
Agostinho, não é somente um altar onde se imola a Divina
Vítima, é também uma cadeira, do alto da qual nos dá sublimes
lições”.
Ouvi-me
então:
–
A
sociedade antiga, surge das trevas e vícios do paganismo e sobe,
esperançosa, o Monte Calvário; vive e morre abraçada à Cruz: é
uma sociedade feliz!
–
A
sociedade moderna, tendo horror à Cruz, desce, desvairada, do
Calvário e submerge-se nas trevas e vícios do neo-paganismo; vive e
morre “abraçada
ao esterco,
como diz o Profeta, corrompida
até a medula dos ossos:
é uma sociedade
desgraçada!
A
sociedade hodierna, precisa de arrepiar caminho, lançar-se de novo
nos braços do Cristianismo que tão ingratamente tem abandonado.
– A
graça do Cristianismo, no seu princípio, é a graça de um Deus que
morreu na Cruz; é necessário que, para ter relação com o seu
princípio, nos leve aos prazeres da outra vida pelas mortificações
desta.
–
A
graça do Cristianismo é o preço do Sangue de um Deus; para no-la
aplicarmos, é necessário, como diz São Paulo, crucificarmos a
nossa carne com as paixões e desejos desordenados.
– A
graça no Cristianismo, no seu sujeito – o cristão, acha um
culpado; logo é necessário que o castigue; e, porventura, pode
fazê-lo sem a mortificação? Acha um enfermo; logo é necessário
que seja medicinal, e por consequência, amarga. Precisamos, pois, de
abraçar a mortificação como um castigo justamente devido aos
nossos pecados e um remédio salutar às nossas enfermidades.
Devoção
ao Crucifixo
1.
Um artista italiano do século XIV, Taddeo di Bartolo, deixou-nos um
Crucifixo muito eloquente. Crucificado na Cruz, Jesus dá o último
suspiro. A seus pés, de olhos levantados e fixos no seu Deus
crucificado, está São Jerônimo. É evidente que o Crucifixo é o
seu grande livro de devoção. Encontrava sempre nas páginas desse
livro, escritas com sangue, novos ensinamentos. E aconselhava a todos
os seus discípulos que lessem, sem cessar, neste livro. Eu vos dou o
mesmo conselho.
2.
O Crucifixo tem sido, em toda a parte, através de todos os tempos,
objeto de especial devoção.
Para
propagar o culto da sua Paixão, Jesus Cristo não tem somente
empregado meios ordinários, tem mesmo feito milagres.
O
Crucifixo de São Boaventura enegrecido com os beijos, animava-se
diante do Santo, que se abrasava de amor ao seu contato. O de São
Tomás de Aquino inclina-se um dia para o Santo e diz: “Tomás,
tu falaste bem de mim”.
O
de São Francisco de Assis, um dia, opera esta maravilha: – deixa
sair de suas mãos, de seus pés, do lado aberto, dardos inflamados,
que gravam os estigmas nos membros de São Francisco.
“Não
te esqueças nunca
da
graça que te fez
o
que ficou por teu fiador,
porque
ele expôs a sua vida
para
te valer”.
(Eclo.
29, 20)

O
MEU CRUCIFIXO
Tenhamos
um crucifixo que nos ajude a crucificar-nos com Cristo. Tenhamos um
crucifixo que seja o nosso confidente. Um crucifixo que nos ajude a
beijar a mão do algoz, que nos crucifica com Cristo. Tenhamos um
crucifixo que nos ensine sempre a perdoar, para poder sempre amar.
Tenhamos um crucifixo, para, em qualquer vicissitude da vida: na dor
ou na alegria, na saúde ou na doença, encontrar o sinal da bênção
de Deus.
E
cada qual fixe bem e diga convencido: o meu crucifixo é bandeira, é
remédio, é bálsamo, é vigor, é amor. É tudo na minha vida!
Quando
entibio – afervora-me.
Quando
desfaleço – fortalece-me.
Quando
caio – levanta-me.
Quando
espoliado – enriquece-me.
Quando
entristeço – alegra-me.
Quando
desprezado – considera-me.
Quando
sofro – consola-me.
Quando
incompreendido – compreenda-me.
Quando
desanimo – alenta-me.
Quando
temo – encoraja-me.
Quando
enfermo – cura-me.
Quando
tentado – sustenta-me.
Quando
tremo – assegura-me.
Quando
traído – abraça-me.
Quando
abandonado – procura-me.
Quando
endureço – abranda-me.
Quando
esfrio – aquece-me.
Quando
me apago – ilumina-me.
Quando
me humilho – exalta-me.
Quando
morro – acolhe-me na
eternidade feliz.
História
Admirável da Milagrosa
Imagem
do Santo Crucifixo de Berito
(Exemplo
da Onipotência Divina)
Levantemos,
fiéis, os olhos da nossa alma, e atendamos à representação de um
grave espetáculo, a todas luzes admirável, que, suposto acontecido
nos tempos antigos, merece sua memória ser perene em todos os
séculos.
Contemplemos nele a inefável
misericórdia de Deus, vencedora sempre da malícia humana,
prevenindo nossos corações para um e outro objeto, já com júbilos
já com lamentos, e apagando em nossas lágrimas a compunção, que
as faz amargosas, com o amor, que as torna doce. Foge da mão a pena,
fogem da mente os conceitos, ao dar à luz uma história de que a
mesma luz do sol e das estrelas recusaria justamente ser testemunha.
Porém, a sabedoria do Altíssimo, que todos os futuros antever e
todas as desordens reduz a amável ordem, e a sua Onipotência, que
dos abismos do pecado fabrica empíreos de suas
glórias, pedem os juros de
seu louvor; mas que se paguem do horror de nossos ouvidos com a
relação de tão indignos atrevimentos.
Há
nos confins de Tiro e Sidônia, uma cidade sufragânea a Antioquia,
chamada Berito, onde viviam numerosas famílias de judeus. E junto da
sua sinagoga, que era mui grande, alugou um cristão uma casinha onde
habitava, o qual pôs na parede contrária fronteira à sua cama um
bom painel de Cristo crucificado, de estatura de um homem. Porém,
necessitando de mais capaz vivenda, buscou outra na cidade, para onde
se mudou, levando seus móveis e trabalhos, e esquecendo-se
unicamente de levar a Imagem do Senhor, ou porque o diferiu para
outro dia, e depois lhe saiu da memória, ou porque a sua pouca
devoção mereceu, porventura, que Deus permitisse este descuido; e o
mais certo, é que porque a Divina Providência queria por este meio
renovar nos fiéis a memória da Paixão do Senhor e fazer
inexcusável a perfídia de seus inimigos.
Mudado,
pois, o cristão para outra casa, alugou um judeu esta outra pequena,
que ele deixara; e ali entrava e saía sem advertir no painel, quanto
mais na pintura dele. Um dia convidou a jantar a outro judeu da sua
tribo. E, estando ambos à mesa, o judeu convidado foi levantar os
olhos e, vendo a Sagrada Imagem, disse com estranheza para o seu
camarada: Se tu és judeu, como tens em casa tal Imagem? E começou a
soltar pela boca contra o Salvador do Mundo palavras tão injuriosas e
nefandas, que não permite a decência declará-las. E, não contente
com isto, vai logo delatar aos seus sumos sacerdotes e presidentes da
sinagoga, que aquele judeu tinha em sua casa a Imagem do Nazareno
crucificado. Podes tu (disseram eles), mostrar que falas verdade?
Respondeu o denunciante: Não há nisso mais dificuldade que vir e
ver.
Aquela
tarde, pois, se comunicaram uns com os outros; e logo na manhã
seguinte: Ut factus est dies convenerunt Seniores plebis,
et Principes sacerdotum,
ajuntaram-se os sacerdotes, e
os demais velhos da sinagoga, com outra multidão da mesma canalha;
e, levando por guia ao mesmo delator, vão a casa do outro judeu.
Entram furiosos, veem a Sagrada Imagem, enchem-se de maior raiva,
repreendem coléricos ao culpado em crime, ao seu parecer, mais
detestável que muitos sacrilégios, excomungam-no por essa causa, e
o ameaçam terrivelmente. E que mais? Saltam ao painel e o
despenduram, dizendo: “Façamos-lhe como nossos pais
fizeram naquele tempo”.
Começaram,
pois, a renovar a Paixão do Salvador naquela sua Imagem, com sanha e
irrisão diabólica; e diziam: “Nós ouvimos que, lhe
cuspiram no rosto; façamos assim também”.
E, à porfia, uns de uma parte, outros
da outra, lhe arremessavam asquerosas salivas. “Nós
ouvimos que, o esbofetearam e escarneceram; façamos agora o mesmo”.
E, logo, davam na Imagem muitas bofetadas e lhe faziam incríveis
ludíbrios. “Nós ouvimos que, lhe pregaram mãos e pés;
façamos assim também”. E no
mesmo instante buscaram pregos e os cravaram na Imagem. Tomaram
também uma esponja com fel e vinagre; e disseram: “Esquecia-nos
este tormento, que lhe fizeram nossos pais”;
e puseram a esponja na boca do Senhor. Nem lhe escapou, dar-lhe com a
cana na cabeça. Até que, finalmente, representaram a lançada no
lado do Senhor, já defunto; fizeram,
pois, vir uma lança grande e disseram a um dos seus, que lha metesse
pelo costado. Mas, ó maravilha grande da divina piedade! Assim como
aquele pérfido deu a lançada, manou da ferida Sangue e Água
verdadeiros, não querendo o Senhor, faltar, da parte que lhe tocava,
à perfeição do Mistério, que seus inimigos renovavam. Porém,
foram imitando a seus pais na dureza de coração e cegueira de
entendimento, assim como no mais os imitavam; não lhes causou
milagre, tão notável e manifesto, movimento algum de piedade.
Antes, como tolos e insensatos, ou, para melhor dizer, como
encarniçados na sua malícia, continuaram a mesma cena trágica, e
disseram: “Os que adoram ao Nazareno, dizem que realizou
muitos milagres, dando saúde aos enfermos e vista aos cegos;
experimentemos se faz o mesmo este Sangue e esta Água, que agora
vimos sair, porque sem dúvida tudo é falsidade e fábulas que nos
vendem”. E, logo, veio um com
uma vasilha, e, aparando à ferida, a encheu; e a levaram para a
sinagoga, e convocaram enfermos de vários males, para os ungirem, e
voltarem em matéria de escárnio o sucesso, que não esperavam fosse
milagroso. O primeiro em que fizeram a experiência, foi um
paralítico, que conheciam por tal desde seu nascimento. Vede, almas,
e admirai a contenda ou desafio em que se dignou a entrar a divina
bondade com a malícia humana, para mais gloriosamente triunfar dela.
O mesmo foi ungirem aquele paralítico, que sentir-se de repente com
inteira saúde, de sorte que se levantou firme em suas pernas, como
se de antes nenhum mal padecesse. Do mesmo modo sucedeu aos cegos; do
mesmo modo aos endemoniados.
Começou,
pois, o confuso murmurinho de vozes a crescer; e a fama, voando sobre
muitas línguas, divulgou-se que na sinagoga aparecera uma fonte de
milagres. Correram grandes multidões de judeus, levando cada qual o
enfermo que tinham em casa.
Encheu-se a sinagoga, apesar de ser casa espaçosa, de paralíticos,
aleijados, tolhidos, leprosos e toda espécie de enfermos e vexados,
e de povo, que concorria a ver com seus olhos o que nem na opinião
parece que lhes cabia. Tanta era a presteza com que as maravilhas se
realizavam, que as mãos dos sacerdotes judeus eram as que tardavam e
cansavam de ungir, e não eram elas mais que um instrumento quase
inanimado da invisível Mão do Onipotente, porque, sem saber o que
faziam, não cessavam de realizar. Entretanto, não se ouvia na casa,
e fora dela, mais que vozes, aclamações,
lágrimas e louvores divinos. Porém, ó grande Deus! Ó potência
inenarrável do Crucificado! Ainda as correntes desta fonte não se
espalharam com a franqueza a que seu amor as impelia. Parece que
tomou Deus o caso de aposta e que disse entre Si: Vós, vinde
entender Comigo, e a pôr-me outra vez presente o sacrifício com que
resgatei e salvei o mundo? Não sabeis que há em meu peito, caridade
para padecer morte de Cruz tantas vezes quantas são as almas, se
assim fosse necessário? Não sabeis que sou o que ensinei a dar
benefícios por agravos e favores por injúrias? Ou cuidastes que
poderíeis dar fundo ao abismo do meu amor? Rompeu, pois, a fonte em
borbulhões
maiores; passou a alagar as
almas, depois que alagara os corpos. Trocam-se os corações daqueles
sacerdotes e anciãos, e do mais povo judaico, que presente estava,
até mulheres e meninos; e começa a subir ao Céu uma voz de muitas
vozes, clamando todas: “GLÓRIA A TI JESUS CRISTO, FILHO
DE DEUS, a quem nossos pais crucificaram, e que por nós foste em tua
Imagem de novo crucificado. GLÓRIA A TI, FILHO DE DEUS, realizador
de tantas maravilhas. EM TI CREMOS; A TI VIMOS JÁ BUSCAR; RECEBE-NOS
PROPÍCIO”. Isto clamavam com
ânimo verdadeiramente contrito e devoto; e, continuando as unções,
continuavam as maravilhas.
Sarados,
pois, todos, e vivificados com os favores
do Céu, correu a multidão dos judeus à casa do Bispo, que já
estava a par do caso; e clamaram novamente os sacerdotes e mais povo:
“Um só Deus Pai; um só Filho seu Unigênito, JESUS
CRISTO, que nossos pais crucificaram: Nós O confessamos por Deus.
Eis aqui a sua Sagrada Imagem, que escarnecemos e maltratamos; eis
aqui a ferida do costado; e eis aqui o Sangue e a Água, que dela
vimos sair, e com o que ele foi servido realizar tantos milagres.
Pelo que, pedimos o Sagrado Batismo para ser contados entre os fiéis
da sua Igreja”. Alegrou-se o
Bispo, vendo os exuberantes frutos da divina graça; ele, com o seu
clero, catequizaram e batizaram por muitas semanas a copiosa multidão
que vinha, como sequioso servo, buscar as fontes de água viva, para
nela regenerar-se. Foi também por petição dos mesmos novos
cristãos consagrada em igreja aquela grande sinagoga, e outras que
na cidade havia, se dedicaram aos Mártires. E foi grande e geral a
alegria que houve, porque nem havia corpo enfermo nem alma, que não
buscasse a graça de Deus e louvasse Suas magníficas obras.
Acrescenta
Sigiberto, que este Bispo se chamava Adeodato, e que repartiu em
várias ampulhetas este Sangue, por
todas as igrejas, ordenando que aos nove de Novembro, que foi o dia
da dita crucifixão do Senhor, se celebrasse comemoração dele. No
mesmo dia a manda fazer o Martirológio Romano, e diz que o tesouro
daquele Sangue alcançou a todas as igrejas do Oriente e do Ocidente.
O nosso Cardeal Barônio conjectura, de leccionários antigos, onde
esta narração estava lançada, que aconteceu no tempo da imperatriz
Irene, mãe de Constantino, com quem, por ser de menor de idade,
reinava. E diz que, sendo esta narração lida aos Padres do Segundo
Concílio Niceno, tão longe esteve de lhe pôr dúvida, algum deles
que antes todos, banhados em devotas lágrimas, a ouviam como se
ouvissem a Paixão por algum dos Sagrados Evangelistas. Mas avisa
que, a relação que anda em Súrio, tem misturadas muitas coisas
apócrifas, que é necessário rescindi-las. Fica, pois, por este só
único caso convencido irrefragavelmente
o erro e heresia dos Iconoclastas, aos que hoje teimam em defender os
Sectários.
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