BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quarta-feira, 8 de março de 2023

SÃO TOMÁS DE AQUINO, DOUTOR DA IGREJA CATÓLICA.


São Tomás, lustre e ornamento do estado religioso, um dos mais brilhantes luminares de todo o mundo, um dos maiores Santos e dos mais esclarecidos Doutores da Igreja, era italiano, de uma das mais nobres famílias do reino de Nápoles. Landulfo, seu pai, pertencia à ilustre casa dos Condes de Aquino, entroncada com os reis da Sicília e de Aragão; e Teodora, sua mãe, era filha do Conde Chieti, descendente dos príncipes normandos, que tinham conquistado outrora os reinos de Nápoles e da Sicília.

Tomás nasceu no mês de março de 1225, no castelo de Rocca-Sicca, pouco distante da cidade de Aquino. Puseram-lhe o nome de Tomás, de conformidade com o que tinha anunciado um santo eremita, prognosticando a alta santidade daquele menino e os importantes serviços que viria a prestar à Igreja.

Não tardou em confirmar-se o vaticínio deste homem de Deus, com um sucesso singular. Notou um dia a ama que o criava, que o menino tinha um pedaço de papel na mão, e quis tirar-lhe. Mas Tomás, que só contava um ano, apertou-o tanto entre as mãozinhas, chorou e afligiu-se de tal modo, que ela se viu obrigada a desistir do intento. Presenciando isto a mãe, desejou saber o que o papel continha, e tirou-lhe à força. Que surpresa não foi a sua ao ver nele escritas as palavras: Ave, Maria!

Redobrou o menino os vagidos e os gritos, sendo preciso restituir-lhe o papel para se calar; mas ele, apenas o tornou a ver nas suas mãos, levou-o imediatamente à boca em atitude de o engolir. Tão estranho fato, que várias pessoas presenciaram, que fez julgar a todos que o menino Tomás viria a ser um grande santo e um fidelíssimo servo de Maria.

Para secundar as inclinações de Tomás, que todas convergiam para a piedade, seus pais mandaram-no aos cinco anos para o Mosteiro de Monte Cassino, a fim de ser ali educado. O natural feliz do nosso ditoso jovem quase nada deixou que fazer à educação. Antecipava-se às instruções a sua inclinação para a virtude. Todos os seus divertimentos reduziam-se ao estudo e à oração; o que fez com que o Abade aconselhasse seu pai a mandá-lo para alguma universidade.

Tomás estudou humanidades e filosofia com grande distinção; porém, os seus grandes progressos nas letras humanas ficavam muito longe dos que ia fazendo cada dia na ciência dos Santos. Conservou a inocência no meio da corrupção do século; temendo, porém, naufrágio, demandou porto seguro. Foi esta a célebre Ordem dos Pregadores, que, embora fundada há pouco, enchia já o mundo com as maravilhas que operava, e renovando o antigo esplendor do estado religioso, edificava então, como edifica ainda hoje, toda a Igreja, com as grandes virtudes dos seus filhos, com a sua profunda sabedoria, e com os frutos do seu zelo verdadeiramente apostólico.

Foi o santo recebido no Convento de Nápoles, aos dezoito anos de idade; e logo desde os primeiros dias do noviciado era modelo de perfeição religiosa. Fez pasmar o mundo, pouco acostumado então a semelhantes exemplos, o retiro de um jovem daquela qualidade e daquelas esperanças. Seus pais ficaram admirados.

Sabendo o noviço que sua mãe se encaminhava para Nápoles com o intuito de o tirar da religião, pediu ao Prior que o enviasse para Roma. Ali o seguiu a aflita senhora, e não o encontrando, porque os Superiores o tinham mandado para Paris, a fim de concluir os seus estudos, não desanimou nem desistiu do empenho. Escreveu imediatamente aos seus dois filhos mais velhos, Landulfo e Reinaldo, que serviam nos exércitos do imperador Frederico, e que então se achavam na Toscana, para que por todos os modos diligenciassem prender seu irmão Tomás, e lho remetessem com boa escolta. Assim o cumpriram os dois irmãos.

A Condessa, que não queria que seu filho abraçasse o estado religioso, tendo-o agora à sua disposição, valeu-se de todos os artifícios para o abrigar a despir o hábito: rogos, razões, lágrimas, lisonjas, ameaças, tudo empregou, mas tudo sem proveito. O santo jovem respondeu-lhe sempre muito respeitosa e modestamente, mas com toda a firmeza, que Deus era o seu primeiro e soberano Senhor, e que a sua voz era mais forte que a da carne e do sangue; e visto que Ele o chamava para a religião, pedia aos seus pais que não lhe pusessem obstáculos.

Vendo que nada adiantava, a Condessa encomendou a empresa a uma filha sua, dama de singularíssimo respeito, fiando da sua discrição, da sua arte e das suas lágrimas o triunfo sobre a resistência de Tomás; mas este, como adquiria todos os dias novas forças, recorrendo à oração, sustentou o rude ataque com tanto êxito, que longe de entibiar no fervoroso empenho de se manter no estado que escolhera, persuadiu sua irmã a fazer-se também religiosa, – o que ela realizou pouco depois no Convento de Santa Maria de Cápua, onde foi Abadessa e veio a morrer santamente.

A vitória que o santo conseguiu de seus irmãos, não foi tão vantajosa nos efeitos, mas muito mais custosa. Tendo voltado do exército, Landulfo e Reinaldo, deixando-se levar unicamente pelo orgulho e pelo espírito de soldados, quiseram realizar a empresa à viva força. Encerraram Tomás na torre do castelo, arracaram-lhe o hábito, fazendo-o em mil pedaços, e tentaram cansar a sua perseverança com o rigor de cruéis tratamentos.

Achando-o inflexível, resolveram abrandá-lo por meio da sensualidade e do deleite; e discorrendo que Tomás perderia a vocação no mesmo instante em que perdesse a graça, introduziram no quarto da torre uma jovem cortesã, a mais atrevida que havia então. O ataque foi violento e o santo conheceu toda a força do perigo. Levantou o coração a Deus, implorou o auxílio de Maria; e como não pudesse fugir, pegou de um tição do fogareiro, e assim pôs em fuga aquela desgraçada. Pasmado só com a ideia do perigo, riscou com o tição uma cruz na parede e prostrando-se diante do Senhor, que lhe dera a vitória, fez voto de perpétua castidade.

Não tardou o Senhor, em recompensar a generosa fidelidade do seu puríssimo servo; tendo adormecido, sentiu que durante o sono, dois Anjos lhe apertaram os rins com um cíngulo, em sinal do dom da pureza que lhe comunicava. Desde então, como ele mesmo atestou pouco antes da morte, nunca mais sentiu os molestos estímulos da concupiscência.

Souberam os frades da sua Ordem o que se tinha passado; e encantados com uma tão heroica perseverança, acharam meio de o ver e de o consolar, e levaram-lhe um hábito. A mãe, recordando-se então do que tinha sido predito de seu filho, não quis opor-se mais aos desígnios de Deus; e fingindo ignorar as medidas que se tomavam para lhe dar a liberdade, consentiu que o descessem por uma janela da torre. Vendo-se livre, depois de uma prisão de quase dois anos, voltou para o Convento de Nápoles, onde foi recebido pelos religiosos com a alegria e os aplausos que mereciam a sua virtude e perseverança. Ali fez a sua profissão.

Temendo os Superiores que segunda vez lhe roubassem aquele tesouro, enviaram-no para Roma, donde o Geral da Ordem o fez partir para Paris, e dali para Colônia, onde estava então ensinando teologia Alberto Magno, o mais famoso doutor que naquele tempo tinha a Ordem dos Pregadores.

Sob a direção de tal mestre, fez Tomás assombrosos progressos; porém, tão ocultos no véu da modéstia, que os seus condiscípulos chamavam-lhe o boi mudo. Mas, por maior cuidado que tivesse de confirmar pelo silêncio a opinião menos vantajosa que corria da sua capacidade, a penetração do seu espírito traduzia através da profunda humildade, e aquele pretenso boi mudo, tornou-se dentro de pouco tempo o oráculo de todo o universo e o Anjo das Escolas.

Vãmente recusou tomar o grau de doutor na célebre Universidade de Paris, pois teve de obedecer. Logo que recebeu a borla, mandaram-no explicar o Mestre das Sentenças; o Tomás de tal modo se houve, que quase logo desde o primeiro dia igualou a alta reputação de seu mestre Alberto Magno, e excedeu a todos os outros professores.

A facilidade que tinha em aclarar e resolver as dificuldades mais obscuras; a penetração, a erudição e o método que se admiram em todas as suas obras, comprovam o que o Papa João XXII diz na Bula da sua Canonização: Que a sua doutrina teve mais de infusa do que de adquirida.

Dava sempre princípio ao estudo pela oração; e ele mesmo confessou que as dúvidas que se lhe ofereciam, o seu principal oráculo era o Crucifixo. Ensinou em Bolonha, em Fondi, em Pisa e em Orvietto, com a mesma reputação que em Paris; e em todas as partes deixou provas da sua santidade e sabedoria.

Tendo-se declarado contra as Ordens Religiosas, certos espíritos malignos, e alguns hereges contra a Santa Sé, Tomás fez emudecer aqueles, e confundiu estes com os seus escritos, com tanta viveza e com tão vitoriosa eficácia, que desde então o olharam e temeram como o seu maior açoite, tanto os dissolutos como os inimigos da Igreja.

À vasta sabedoria que todos admiravam em Tomás, correspondeu sempre a eminência da sua heroica virtude. Era difícil encontrar homem de mérito mais verdadeiro, nem mais universalmente reconhecido, e nunca houve ninguém mais humilde. Quando estava ensinando em Bolonha, chegou ao Convento um frade que não o conhecia, e tendo de comprar algumas coisas pediu-lhe que o acompanhasse à praça. Achava-se o santo muito molestado de um pé, e além disso era quase a hora de entrar para dar aula; porém, sem alegar nem uma nem outra desculpa, foi acompanhando o bom do religioso, que mal soube com quem tratava, se desfez em desculpas, mas o santo viu-se mais embaraçado com as desculpas, do que com o exercício do ato que fizera, impulsionado pela humildade.

Recusou tenazmente as primeiras dignidades Eclesiásticas, e nomeadamente o Arcebispado de Nápoles, mau grado as reiteradas instâncias do Papa. Não se podia levar mais longe a mortificação do corpo e do coração. Houve quem dissesse que ele tinha nascido sem paixão; tanto as tinha mortificadas. A doce suavidade do gênio, o tom da voz e a serenidade do semblante, foram sempre inalteráveis; e à força de macerar a carne, tinha quase perdido o uso dos sentidos.

Posto que houvesse recebido por especial privilégio o dom da pureza, nada poupou que pudesse servir à conservação de tão delicada virtude. Nunca fitou o rosto de mulher alguma, e toda a vida evitou escrupulosamente todas as conversações que pôde desculpar com este sexo.

A sua devoção favorita foi a que professou ao Santíssimo Sacramento. Sempre que se aproximava do altar, deixava-o orvalhado de lágrimas. Brotavam-lhe pelo semblante os interiores incêndios do seu amor. Por ordem do Papa Urbano IV, compôs o Ofício do Santíssimo Sacramento, com aquela terna efusão do coração que se faz sentir em cada palavra; e não contribuiu pouco para que se ordenasse a celebração da sua Festa Solene em toda a Igreja, e para reacender no coração dos fiéis o quase extinto fogo do amor a Jesus Sacramentado.

A ternura de São Tomás para com a Santíssima Virgem, constituiu desde o berço parte do seu caráter. Muitas vezes lhe apareceu esta Soberana Rainha durante a vida; e poucos dias antes de morrer assegurou-lhe, que ele nada tinha pedido ao Filho por intercessão da Mãe, que não tivesse conseguido.

Seria interminável a relação das virtudes e das maravilhas deste grande gênio. Nunca deixava de pregar a Palavra de Deus; e estando a exercer este ministério pela Oitava da Páscoa na Basílica de São Pedro, curou de um fluxo de sangue uma mulher, que tocou a fímbria das suas vestes.

A sua vida foi uma perpétua cadeia de milagres, o mais visível dos quais, como notaram os próprios Sumos Pontífices, é que um só homem em menos de vinte anos, pudesse ensinar com inaudito aplauso em quase todas as Universidades mais célebres da Europa; combater e dissipar com os seus escritos os maiores inimigos da Igreja; converter com os seus Sermões grande número de pecadores e de hereges; compor aquela prodigiosa multidão de sapientíssimas obras, que podem chamar-se o Tesouro da Religião; explicar com tanta precisão e com tanta solidez os Mistérios mais obscuros da Teologia; ensinar com tanta unção e nitidez as verdades da Moral; expor com tanta clareza nos seus sábios Comentários os Livros da Sagrada Escritura; satisfazer tão plenamente a quantas dúvidas que incessantemente e de todas as partes lhe propunham como a Oráculo; e apesar disto, dar todos os dias muitas horas à oração; não se dispensar quase nunca dos mais ordinários exercícios da Comunidade; macerar a sua carne com austeríssima penitência, apesar de ter uma saúde fraca. Tal foi a vida de São Tomás de Aquino.

Mas não se deve admirar, diz Santo Antonino, falando do nosso grande Santo, que um homem que nunca perdia a Deus de vista e tinha frequente conversação com as celestiais inteligências; que um homem, a quem tantas vezes se viu arrebatado em êxtases maravilhosos, durando alguns por espaço de três dias inteiros; um homem a quem os Apóstolos São Pedro e São Paulo ditavam a exposição de suas Epístolas; não se deve admirar, que um homem assim possuísse uma ciência tão profunda e operasse tantas maravilhas em favor da Religião.

Foi isto o que armou a indignação de todos os hereges contra ele. Como é a este admirável Doutor que se deve aquele método regular, que reina nas Escolas, com o qual se resolvem as dúvidas, se arranca a máscara do erro e se explicam os Dogmas da Fé, segundo a verdadeira inteligência da Igreja e dos Santos Padres; a heresia não conheceu maior inimigo que São Tomás, porque nenhum heresiarca tem podido defender-se contra a solidez, e, se é lícito falar assim, contra a infalibilidade da sua doutrina.

E esta doutrina angélica, que tantas vezes e por tantos Papas tem sido elogiada, é esta doutrina que o grande São Pio V reconheceu por uma das Regras mais certas e infalíveis da Fé, tendo-se muitos Sagrados Concílios valido das próprias palavras de Tomás, para a disposição dos seus Cânones.

Que heresia, diz o mesmo ilustre Pontífice, não tem sido desarmada pela doutrina deste Santo Doutor? Que erro poderá levantar-se, cujo contra-veneno não se ache na sua portentosa Summa? Cada artigo desta obra admirável, diz o Papa João XXII, é um milagre. O que segue a doutrina de São Tomás, diz Inocêncio V, não poderá transviar-se; e o que dela se afasta, expõe-se a errar.

Comparado aos Espírito Angélicos, não menos pela inocência do que pelo engenho, mereceu o nome de Doutor Angélico, título que lhe foi confirmado por São Pio V. Porém, o maior elogio deste grande Doutor e da sua assombrosa doutrina, é o que lhe sucedeu, achando-se em Nápoles, quando compunha a Terceira Parte da sua Summa.

Estava em oração na Capela de São Nicolau, diante de um Crucifixo, quando entrou num doce êxtase, durante o qual ouviu uma voz miraculosa, que saindo do Crucifixo disse estas palavras: Tomás, tens escrito bem de Mim; que recompensa queres que te dê? Ao que o Santo respondeu: Nenhuma outra, senão Vós, Senhor, nenhuma outra. Assegura-se que recebeu o mesmo favor em Orvietto, quando compunha o Ofício do Santíssimo Sacramento; e em Paris, quando explicava o que nos ensina acerca deste Mistério.

Achava-se em Nápoles, dando fim às suas últimas obras, quando recebeu ordem do Papa Gregório X para se apresentar no Concílio Geral, que acabava de convocar em Lião; e não obstante estar ainda mal convalescido de uma espécie de apoplexia, cuja violência o tinha privado dos sentidos, por espaço de três dias, logo se pôs à caminho.

Chegado ao Mosteiro de Fossa-Nova, da Ordem de Cister, foi de novo assaltado pela doença de que tinha sido atacado. Em virtude dos remédios que lhe aplicaram e do caritativo desvelo com que os Monges acudiram a conservar aquela preciosa vida, sentiu o Santo algum alívio. Aproveitando-se deste intervalo, os referidos Monges pediram-lhe que lhes fizesse uma exposição do Livro dos Cantares. Tomás começou a trabalhar nela, mas não a pode concluir, porque o mal voltou a assaltá-lo com maior e mais perigoso ataque.

Conhecendo que se ia já aproximando o ditoso fim da sua gloriosa carreira, confessou-se e recebeu o Sagrado Viático, fazendo a Profissão de Fé diante da Hóstia consagrada, com lágrimas tão copiosas e tão ternas, que fez humedecer também os olhos de todos os assistentes. Recebida a Extrema-Unção, com uma presença de espírito e devoção extraordinária, entregou a venturosa alma nas mãos do Criador e foi receber no Céu, o prêmio que Deus lhe tinha preparado.

Morreu na quinta-feira, 7 de Março, do ano de 1274, contando apenas 50 anos de idade, cumulado de glória e merecimentos.

Tanto pelos milagres que tinha feito em vida, como pelos que continuaram depois da sua morte, juntos à santidade da sua vida, o Papa João XXII canonizou-o no ano de 13323, aos quarenta e nove anos depois de falecido; e no ano de 1567 mandou São Pio V, que em todo o mundo católico se rezasse o Ofício de São Tomás, como de Doutor da Igreja.

Foram muitas as trasladações que se fizeram do santo corpo, e em todas elas se achou inteiro e incorrupto. Houve grandes e ruidosos pleitos entre os Padres Dominicanos e os Monges de Fossa-Nova, sobre a posse destas inestimáveis relíquias, até que o Papa Urbano V os terminou em favor dos primeiros; e em virtude da sentença pontifícia, foi trasladado o corpo de São Tomás, para o Convento de Tolosa, no ano de 1369.

Paris possui um osso do braço direito, e Nápoles outro. Esta segunda cidade venera e honra São Tomás, como um dos seus Patronos e Protetores.

As suas Obras, foram publicadas em Roma em 18 volumes in-fol., 1570-71; em Paris, em 23 volumes in-fol., 1636-41; em Veneza, em 20 volumes, in-4., 1745; em Parma, em 24 volumes, in-fol., 1857-58; e, reimpressas pelo Abade Migne, em 4 volumes in-8, a duas colunas.

Encontram-se nelas, com Tratados Dogmáticos de Teologia, Comentários sobre Aristóteles, – sobre a Escritura, – sobre o Mestre das Sentenças (Pedro Lombardo), Sermões, Escritos de Controvérsia, e Poesias (especialmente Hinos: Lauda, Sion; Adorote; Pange, língua; Verbum supernum, etc.) As suas Obras principais são uma Suma de Fé Católica contra os Gentios, e uma Suma de Teologia.

O imortal Pontífice Leão XIII, recebendo jubiloso as reclamações e os votos de quase todos os Bispos do Orbe Católico, e de outros Varões eminentes pela ciência, piedade e dignidade eclesiástica, tendo em vista principalmente combater tantos maus sistemas filosóficos, e desejando promover o desenvolvimento das ciências e a utilidade comum do Gênero Humano, depois de consultada a Sagrada Congregação dos Ritos, pela sua memorável Encíclica Aeterni Patris, declarou São Tomás de Aquino, Especial Patrono de todas as Universidades Católicas, Academias, Liceus e Escolas, ordenando que a mesma Sagrada Congregação dos Ritos, introduzisse no Martirológio e nas lições do Breviário Romano, a menção deste fato.


___________________________

Fonte: Pe. Croiset, “Ano Cristão”, Vol. III, dia 7 de Março, pp. 79-86. Traduzido do Francês e adaptado às últimas reformas litúrgicas pelo Pe. Matos Soares, professor do Seminário do Porto. Tip. “Porto Medico”, Ltda. Porto. 1923.


segunda-feira, 6 de março de 2023

SANTAS PERPÉTUA E FELICIDADE, MÁRTIRES.


Perpétua mesmo foi que escreveu parte da história do seu martírio. Ouçamos com particular atenção o seu relatório, escrito no cárcere, na véspera do seu suplício.

Aos 7 de março do ano 203, o pro-cônsul Firminiano mandou prender em Cartago cinco jovens catecúmenos: Revocato e Felicidade, de condição servil; Saturnino, Secundo e Perpétua. Felicidade estava então grávida de sete meses, e Perpétua tinha um tenro filhinho, que amamentava.

Esta última, contava apenas vinte e dois anos de idade, descendia de família nobre, e era casada com um fidalgo distinto. Parece que sua mãe era cristã, mas seu pai, homem já velho, era muito aferrado ao paganismo. Amava ele Perpétua mais que aos outros filhos, dos quais um era também cristão, outro catecúmeno, que morrera na idade de sete anos. Sátiro, que segundo parece, era irmão de Saturnino, e tinha doutrinado os nossos santos mártires, deixou-se voluntariamente prender, para ir reunir-se a eles. Quando estes generosos soldados de Jesus Cristo foram presos, estiveram alguns dias fechados em uma casa particular; e foi ali que começaram os combates, que Santa Perpétua e Santa Felicidade tiveram de sustentar contra a natureza e o Inferno; ouçamos a mesma Santa Perpétua:

Estávamos ainda, diz ela, com os nossos perseguidores, quando meu pai, movido da sua ternura, veio fazer novos esforços para abalar a minha constância. Meu pai, lhe disse eu, este vaso de terra que aqui está poderá mudar de nome? – Certamente não pode, me respondeu ele. – Do mesmo modo, lhe repliquei eu, não posso ser senão o que sou: isto é, cristã.

A estas palavras, meu pai atirou-se a mim para me arrancar os olhos; mas contentou-se com maltratar-me, retirando-se depois confundido, por não ter podido vencer a minha resolução com todos os artifícios, que o Demônio lhe sugeria. Passados alguns dias, em que não me apareceu, dei graças a Deus, consolando-me da sua ausência. Aproveitamos este pequeno intervalo, para receber o Batismo; ao sair da água, o Espírito Santo inspirou-me para não pedir outra coisa, senão a paciência nos tormentos.

Poucos dias depois fomos conduzidos à prisão; fiquei espantada, porque nunca tinha visto iguais trevas. Sofremos bastante neste dia, tanto pela estreiteza do lugar, como pela insolência dos soldados que nos guardavam. O que me causava mais pena, era não ter o meu filho; mas os Bem-aventurados Diáconos Tércio e Pompônio, que nos assistiam, conseguiram à força de dinheiro, que nos pusessem algumas horas em um lugar onde pudéssemos respirar. Enquanto cada um pensava nos seus negócios, amamentava eu o meu filho, que me haviam trazido; roguei a minha mãe que o tomasse a seu cuidado, e consolei-a, bem como a meu irmão. Eu mesmo estava penetrada de dor, vendo a que lhes causava. Passei muitos dias nestes transes, mas, tendo obtido que me deixassem o meu filho na prisão, achei-me consolada, e pareceu-me a prisão uma habitação agradável, sendo-me indiferente estar ali ou em qualquer outra parte.

Um dia, disse-me meu irmão: “Eu sei Perpétua, que és muito agradável de Deus; pede-Lhe, pois, eu te rogo, que te dê a conhecer por alguma visão, se terás de sofrer o martírio, e dize-me depois”. Como eu sabia, que Deus me dava cada dia mil sinais da Sua bondade, respondi com confiança a meu irmão: amanhã saberás o que há de acontecer. Pedi, pois, ao Senhor, para que me desse uma visão, e eis aqui a que tive:

Vi uma escada de prodigiosa altura, que chegava da terra ao Céu; mas tão estreita, que não podia subir senão uma pessoa de cada vez; ambos os lados estavam eriçados de lanças, espadas, ganchos e cutelos; de sorte que todo aquele que descuidadamente subisse, não podia deixar de ser dilacerado por todos aqueles instrumentos. Junto da escada estava um Dragão horrendo, que parecia sempre disposto a atirar-se a quem tentasse subir. O primeiro que subiu foi Sátiro, que não estava conosco quando fomos presos, mas que depois se entregou voluntariamente aos perseguidores por nossa causa. Depois que ele chegou ao alto da escada, voltou-se para mim e disse-me: Perpétua, eu te espero; mas tem cuidado, que o Dragão não te morda. Respondi-lhe: Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, não me fará mal. Neste momento o Dragão, como se tivesse medo de mim, ergueu brandamente a cabeça por baixo da escada, e, dispondo-me eu a subir, serviu-me de primeiro degrau.

Logo que cheguei ao alto, vi um homem de grande estatura, vestido de pastor, cujos cabelos eram brancos, e estava mungindo as suas ovelhas, e cercado de inumerável multidão de pessoas, vestidas de branco. Este homem chamou-me pelo meu nome, e disse-me: Minha filha, sê bem-vinda. Depois, deu-me uma espécie de requeijão, feito do leite que ordenhava. Recebi-o juntando as mãos e comi-o; todos os que estavam presentes responderam – Amém – Acorde a este rumor, mastigando o que parecia muito doce. Contei esta visão a meu irmão, e concluímos que sofreríamos a morte. Começamos desde logo a desligar-nos das coisas terrenas e a pôr todo o pensamento na eternidade.

Alguns dias depois, tendo-se espalhado o boato de que íamos a interrogatório, vi entrar meu pai na prisão; a dor estava pintada em seu rosto: “Minha filha, me disse ele, tem compaixão da minha velhice; compadece-te de mim. Se mereço que me chames teu pai, pois que te criei até esta idade, e sempre no meu coração te preferi a teus irmãos, tua mãe e teu filho, que não poderá sobreviver à tua morte. Deixa essa fereza, para não perderes a todos; porque nenhum de nós ousará aparecer em público, se fores condenada ao suplício”.

Dizendo isto, beijou-me as mãos; depois, lançando-se a meus pés, todo banhado em lágrimas, chamava-me, não sua filha, mas sua senhora. A minha dor era extrema, pensando que de toda a minha família, ele era o único que não se regozijava com o meu martírio. Disse-lhe para o consolar: Ora, meu pai; há de acontecer só o que aprouver a Deus; a nossa sorte depende Dele e não de nós! – Retirou-se oprimido de tristeza.

No dia seguinte, quando jantávamos, vieram-nos repentinamente buscar, para sermos interrogados. A notícia espalhou-se imediatamente por todos os bairros da cidade, e a sala da audiência encheu-se de gente. Fizeram-nos subir a uma espécie de teatro, onde o juiz tinha o seu tribunal.

Comparecemos perante Hilarião, governador da província, que representava o pro- cônsul, há pouco falecido. Todos os que antes de mim foram interrogados generosamente confessaram a Jesus Cristo. Chegando a minha vez preparava-me para responder, quando meu pai aparece, acompanhado de meu filho, que um criado trazia nos braços.

Afastou-me um pouco do tribunal, e empregou todos os meios que a ternura pode sugerir, para me enternecer pela sorte do meu inocente filho. Hilarião coadjuvava meu pai. Pois quê, me diz ele, não te enternecem nem as cãs de teu velho pai, que deixarás inconsolável, nem a inocência deste menino, que ficará órfão pela tua morte? Vamos, basta que sacrifiques pela prosperidade dos imperadores!

Respondi-lhe. Não, jamais sacrificarei. Hilarião replicou: Logo, és cristã? – Sim, sou cristã, lhe tornei eu.

Entretanto, meu pai, que tinha vindo esperançado de me persuadir, recebeu uma varada de um porteiro, a que Hilarião tinha ordenado que o mandasse retirar. Este golpe foi-me muito sensível; senti a mais viva dor, por ver meu pai assim maltratado na velhice. O juiz pronunciou depois a nossa sentença, condenando-nos a sermos todos lançados às feras. Tornamos para a prisão cheios de alegria.

Logo que entrei, pedi ao Diácono Pompônio, que fosse a meu pai pedir o meu filho; mas ele não quis mandar-mo.

Parece que Secundo tinha morrido na prisão antes do interrogatório, porque não se fala dele. Hilarião, antes de pronunciar a sentença, tinha feito sofrer uma cruel flagelação a Sátiro, Saturnino e Revocato; igualmente tinha mandado esbofetear Perpétua e Felicidade.

Demorou o suplício dos mártires para os jogos, destinados a festejar Geta, que o imperador Severo, seu pai, tinha criado César, logo que Caracala foi proclamado Augusto. Ouçamos Santa Perpétua, continuando o seu relatório.

Pouco depois, transferiram-nos para a prisão do campo; e fomos todos metidos a ferros até ao dia em que deveríamos ser expostos às feras. Entretanto, o oficial chamado Pudêncio, que comandava as guardas da prisão, vendo que Deus nos favorecia com muitas graças, concebeu por nós grande estima, e deixou entrar livremente os irmãos, que vinham ver-nos, ou para nos consolar, ou para eles mesmos receberem consolação.

Como o dia destinado para o espetáculo se aproximava, veio meu pai visitar-me. Estava numa prostração inexplicável, arrancava a barba, lançava-se por terra, e ali se deixava ficar de braços, maldizendo a sua velhice e dizendo coisas capazes de comover todas as criaturas.

Eu morria de aflição por vê-lo neste estado”. Aqui acaba a relação de Santa Perpétua; o que se segue foi escrito por uma testemunha ocular.

Como fica dito, Felicidade estava grávida de sete meses, e vendo o dia do espetáculo tão próximo, estava muita aflita, receando que o seu martírio fosse diferido, porque não era permitido executar as mulheres grávidas, antes do seu parto.

Os companheiros do seu sacrifício experimentavam grande tristeza, por a deixarem só no caminho da sua comum esperança. Por isso, todos se propuseram em oração, a fim de que, ficasse livre antes do dia do combate. Logo depois dos seus rogos, sentiu as dores do parto, cuja violência lhe fez soltar alguns gritos. Então, um dos carcereiros lhe disse: “Tu gemes?… Que será, quando fores lançada às feras?… Sou eu, respondeu Felicidade, que sinto agora o que sofro; mas lá, haverá outrem em mim, que sofrerá por mim como eu sofrerei por Ele”. Deu à luz uma menina, que certa mulher cristã criou como sua filha.

Entretanto o tribuno, que tinha os Santos Mártires a seu cargo, tratava-os com extremo rigor. Perpétua, conservando sempre o seu elevado caráter, disse-lhe corajosamente: Como ousas tratar com tanta dureza presos que pertencem a César e que estão destinados a combater no dia da sua festa?… Porque lhe recusas o pouco alívio, que lhes é concedido até esse dia? Não será em ti louvável que nos achem sãos e bem tratados? O tribuno, envergonhado e corrido da repreensão, ordenou que os tratassem com mais humanidade, e então permitiram aos irmãos que entrassem na prisão. Trouxeram refrescos, e o carcereiro Pudêncio, que se tinha convertido, prestava-lhes ocultamente todos os serviços que dependiam dele.

Na véspera do combate, tiveram, segundo o costume, a ceia, que se chamava ceia livre, e que era pública. Fizeram os Santos, quanto lhes foi possível, por tornar esta última ceia uma refeição de caridade. A sala, onde comiam, estava cheia de povo, ao qual os Mártires discursavam sucessivamente.

Umas vezes falavam-lhes com firmeza, ameaçando-os com a ira de Deus; outras, exaltavam a felicidade, que tinham, de morrer pelo Nome de Jesus Cristo; e outras, finalmente, lhes repreendiam a sua brutal curiosidade. “Pois quê, lhes dizia Sátiro, não vos bastará o dia de amanhã, para nos contemplardes à vossa vontade? Hoje inculcais ter compaixão de nós, amanhã batereis as palmas quando expirarmos. Em todo o caso, reparai bem em nós, a fim de nos conhecerdes no dia tremendo, em que todos os homens serão julgados”. Estas palavras, pronunciadas com o tom de segurança e firmeza, que a fé inspira, causavam abalo na maior parte deles. Uns retiraram-se cheios de terror, muitos ficaram para se doutrinarem, e creram em Jesus Cristo.

Raiou, enfim, o dia destinado para o triunfo dos generosos atletas. Foram tirados da prisão e conduzidos ao anfiteatro; a alegria pintava-se-lhes no rosto, nas palavras e em todo o exterior. Perpétua ia em último lugar; a tranquilidade da sua alma manifestava-se em seu gesto.

Levava com modéstia os olhos ao chão, para ocultar aos espectadores a sua natural vivacidade. Felicidade transbordava de alegria, por ir na companhia dos outros, combater as feras. Logo que chegaram à porta do Anfiteatro, quiseram, segundo o costume, fazer-lhes vestir os trajes, que se costumavam levar para aquele espetáculo, que era, para os homens, manto vermelho, como usavam os sacerdotes de Saturno, e para as mulheres, mantilha em que envolviam a cabeça, como as sacerdotisas de Ceres. Os Mártires, porém, recusaram vestir as librés da idolatria.

Perpétua cantava, como estando já segura da vitória. Revocato, Saturnino e Sátiro, ameaçavam o povo com o juízo de Deus.

Logo que chegaram defronte da tribuna de Hilarião, presidente dos jogos, bradaram-lhe: “Por ti somos julgados neste mundo; mas Deus te julgará no outro”. O povo, irritado com esta audácia, pediu que fossem açoitados. Os Santos, porém, alegraram-se por serem tratados como o tinha sido Jesus Cristo, seu divino Mestre.

Este Deus de bondade, que disse: pedi, e recebereis, ouviu a oração dos Mártires, que estando um dia conversando na prisão acerca dos diversos suplícios que se davam aos cristãos, uns desejavam morrer de uma sorte, outros de outra. Saturnino mostrou desejo de ser exposto a todas as feras do anfiteatro, a fim de multiplicar as suas vitórias, multiplicando os combates. Obteve em parte o que desejava, porque ele e Revocato, depois de haverem sido por longo tempo atacados por um leopardo, o foram também por um furioso urso, que os arrastou para junto do teatro, onde os deixou todos dilacerados. Sátiro nada temia tanto como ser exposto a um urso, e o que queria era que um leopardo lhe tirasse a vida no primeiro assalto. Mas, eis que investe contra ele um javali, o qual porém, virando-se para o picador que o açolava, rasgou-lhe o ventre com as presas, e logo voltando para Sátiro, contentou-se com o arrastar alguns passos pela areia. Levaram-no então para junto de um corpulento urso, que não quis sair da jaula. Assim, Sátiro, entrou e saiu do combate sem ter recebido nenhuma ferida.

Foi então que, tendo-se retirado para debaixo dos pórticos do anfiteatro, achou ocasião de falar a Pudêncio, a quem exortou a perseverar na fé. “Vês, lhe diz ele, como as feras não me fizeram mal? Parece que sabiam os meus desejos, e a predição que eu tinha feito. Crê, pois, firmemente em Jesus Cristo. Eu volto ao anfiteatro, onde um leopardo me tirará a vida, com um só golpe dos seus dentes”. Assim aconteceu; quase no fim do espetáculo, um leopardo atirou-se a ele e de uma só dentada lhe abriu tão larga ferida, que o sangue corria a jorros, e o povo exclamou: Ei-lo batizado segunda vez. Então, o Mártir voltou os olhos moribundos para Pudêncio, dizendo-lhe: Adeus, caro amigo, lembra-te da minha fé. Longe de te horrorizarem, sirvam os meus sofrimentos para te fortalecer. Pediu-lhe depois um anel, que tinha no dedo, e tendo-o molhado em seu sangue restituiu-lho, dizendo-lhe: Recebe-o como penhor da nossa amizade; traze-o por amor de mim; recorda-te o sangue em que está tinto do que eu derramei a jorros por Jesus Cristo. Depois disto, transportaram o Santo Mártir a um lugar para onde levavam os que não morriam logo das feridas.

Neste meio tempo o Demônio, estalando de raiva, por ver que o sexo mais fraco, ia alcançar mais assinalada vitória, tinha disposto as coisas de modo que, contra o costume, destinaram uma vaca brava, para combater contra Perpétua e Felicidade. As duas Santas foram, portanto despidas, e espetáculo ficou o povo possuído de horror e compaixão, vendo uma dama tão delicada, e outra que acabava de ser mãe. Retiraram-nas, pois, e cobriram-nas com roupas flutuantes. A vaca, tendo-se arremessado primeiro a Perpétua, atirou-a ao ar, e deixou-a cair de costas. A jovem Mártir, percebendo que os seus vestidos estavam rasgados, concertou-os prontamente, menos ocupada das suas dores que da sua ofendida modéstia; e levantando-se logo, entrançou os cabelos, que se tinham soltado, a fim de não se parecer com as pessoas aflitas.

Tendo reparado em Felicidade, que tinha sido muito maltratada pela vaca, e que estava estendida sobre a areia, correu a ela e deu-lhe a mão para a ajudar a levantar-se. Ambas esperavam que se lhes fizesse sofrer novo ataque; mas, não o tendo querido o povo, foram conduzidas à porta que dava para a praça pública.

Ali foi Perpétua recebida por uma catecúmena, chamada Rústica.

Nesta ocasião a Mártir acordou como de um profundo sono, e perguntou quando as exporiam a essa furiosa vaca. Quando lhe disseram o que já se tinha passado, não quis crer, até que reconheceu a catecúmena e observou no seu corpo e vestidos os sinais do que tinha sofrido.

Ah, onde estava ela pois? Exclama Santo Agostinho, falando deste acontecimento; onde estava ela, quando era acometida e dilacerada pela cruel fera? Sem lhe sentir os golpes, perguntava após um violento combate, quando deveria ele começar? Que via ela para não ver o que todo o mundo via? Que sentia ela, para não sentir tão agudas dores? Por que amor, por que êxtase estava de tal modo transportada fora de si mesma, e como divinamente embriagada, que parecia insensível a um corpo mortal?”

Mandou a Santa chamar seu irmão e disse-lhe, bem como a Rústica: Persisti firmes na fé, uni-vos uns aos outros, e não vos escandalizeis pelos meus padecimentos.

Entretanto, dispunham-se a degolar os Mártires no Spoliarium, aonde Sátiro tinha sido transportado. Era este, como havemos dito, o lugar onde acabavam aqueles, que as feras não haviam inteiramente morto; mas, para gozar até ao fim deste desumano espetáculo, o povo pediu que todos fossem degolados no meio do anfiteatro.

Então levantaram-se imediatamente, abraçaram-se para selar o santo ósculo da paz, e dirigiram-se para onde o povo os chamava. Todos receberam o golpe mortal sem fazer o menor movimento, sem soltar a menor queixa. Sátiro foi o primeiro coroado, conforme a visão de Santa Perpétua. Deu ela nas mãos de um gladiador inábil, que a fez sofrer longo tempo, sendo ela mesma quem por último guiou a mão trêmula do algoz que a degolava, indicando-lhe o lugar onde devia ferir.

Os seus corpos gloriosos foram recolhidos pelos fiéis.

No quinto século estavam na grande Igreja de Cartago. A sua festa, segundo refere Santo Agostinho, atraíra mais povo para honrar a sua memória, do que outrora atraíra pagãos o seu martírio. Os nomes de Santa Perpétua e Santa Felicidade foram incluídos no Cânon da Missa. Que mais belos nomes podia a Igreja, nossa Mãe, consagrar à imortalidade? Que mais tocantes exemplos podia Ela propor às gerações cristãs!1


_________________________

Fonte: Pe. Croiset, “Ano Cristão”, Vol. III, dia 6 de Março, pp. 64-69. Traduzido do Francês e adaptado às últimas reformas litúrgicas pelo Pe. Matos Soares, professor do Seminário do Porto. Tip. “Porto Medico”, Ltda. Porto. 1923.

1.  Do Catecismo de Perseverança.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023


CARTA ENCÍCLICA
MORTALIUM ANIMOS
DO SUMO PONTÍFICE
PAPA PIO XI
AOS REVMOS. SENHORES PADRES PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS, BISPOS
E OUTROS ORDINÁRIOS DOS LUGARES
EM PAZ E UNIÃO COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE A PROMOÇÃO DA VERDADEIRA
UNIDADE DE RELIGIÃO

 

Veneráveis irmãos
Saúde e Bênção Apostólica 


1. Ânsia Universal de Paz e Fraternidade

Talvez jamais em uma outra época os espíritos dos mortais foram tomados por um tão grande desejo daquela fraterna amizade, pela qual em razão da unidade e identidade de natureza – somos estreitados e unidos entre nós, amizade esta que deve ser robustecida e orientada para o bem comum da sociedade humana, quanto vemos ter acontecido nestes nossos tempos.

Pois, embora as nações ainda não usufruam plenamente dos benefícios da paz, antes, pelo contrário, em alguns lugares, antigas e novas discórdias vão explodindo em sedições e em conflitos civis; como não é possível, entretanto, que as muitas controvérsias sobre a tranquilidade e a prosperidade dos povos sejam resolvidas sem que exista a concórdia quanto à ação e às obras dos que governam as Cidades e administram os seus negócios; compreende-se facilmente (tanto mais que já ninguém discorda da unidade do gênero humano) porque, estimulados por esta irmandade universal, também muitos desejam que os vários povos cada dia se unam mais estreitamente.

2. A Fraternidade na Religião. Congressos Ecumênicos

Entretanto, alguns lutam por realizar coisa não dissemelhante quanto à ordenação da Lei Nova trazida por Cristo, Nosso Senhor.

Pois, tendo como certo que rarissimamente se encontram homens privados de todo sentimento religioso, por isto, parece, passaram a Ter a esperança de que, sem dificuldade, ocorrerá que os povos, embora cada um sustente sentença diferente sobre as coisas divinas, concordarão fraternalmente na profissão de algumas doutrinas como que em um fundamento comum da vida espiritual.

Por isto costumam realizar por si mesmos convenções, assembléias e pregações, com não medíocre frequência de ouvintes e para elas convocam, para debates, promiscuamente, a todos: pagãos de todas as espécies, fiéis de Cristo, os que infelizmente se afastaram de Cristo e os que obstinada e pertinazmente contradizem à sua natureza divina e à sua missão.

3. Os Católicos não podem aprová-lo

Sem dúvida, estes esforços não podem, de nenhum modo, ser aprovados pelos católicos, pois eles se fundamentam na falsa opinião dos que julgam que quaisquer religiões são, mais ou menos, boas e louváveis, pois, embora não de uma única maneira, elas alargam e significam de modo igual aquele sentido ingênito e nativo em nós, pelo qual somos levados para Deus e reconhecemos obsequiosamente o seu império.

Erram e estão enganados, portanto, os que possuem esta opinião: pervertendo o conceito da verdadeira religião, eles repudiam-na e gradualmente inclinam-se para o chamado Naturalismo e para o Ateísmo. Daí segue-se claramente que quem concorda com os que pensam e empreendem tais coisas afasta-se inteiramente da religião divinamente revelada.

4. Outro erro. A união de todos os Cristãos. Argumentos falazes

Entretanto, quando se trata de promover a unidade entre todos os cristãos, alguns são enganados mais facilmente por uma disfarçada aparência do que seja reto.

Acaso não é justo e de acordo com o dever – costumam repetir amiúde – que todos os que invocam o nome de Cristo se abstenham de recriminações mútuas e sejam finalmente unidos por mútua caridade?

Acaso alguém ousaria afirmar que ama a Cristo se, na medida de suas forças, não procura realizar as coisas que Ele desejou, ele que rogou ao Pai para que seus discípulos fossem "UM" (Jo 17, 21)?

Acaso não quis o mesmo Cristo que seus discípulos fossem identificados por este como que sinal e fossem por ele distinguidos dos demais, a saber, se mutuamente se amassem: "Todos conhecerão que sois meus discípulos nisto: se tiverdes amor um pelo outro?" ( Jo 13, 35).

Oxalá todos os cristão fossem "UM", acrescentam: eles poderiam repelir muito melhor a peste da impiedade que, cada dia mais, se alastra e se expande, e se ordena ao enfraquecimento do Evangelho.

5. Debaixo desses argumentos se oculta um erro gravíssimo

Os chamados "pancristãos" espalham e insuflam estas e outras coisas da mesma espécie. E eles estão tão longe de serem poucos e raros mas, ao contrário, cresceram em fileiras compactas e uniram-se em sociedades largamente difundidas, as quais, embora sobre coisas de fé cada um esteja imbuído de uma doutrina diferente, são, as mais das vezes, dirigidas por acatólicos.

Esta iniciativa é promovida de modo tão ativo que, de muitos modos, consegue para si a adesão dos cidadão e arrebata e alicia os espíritos, mesmo de muitos católicos, pela esperança de realizar uma união que parecia de acordo com os desejos da Santa Mãe, a Igreja, para Quem, realmente, nada é tão antigo quanto o reconvocar e o reconduzir os filhos desviados para o seu grêmio.

Na verdade, sob os atrativos e os afagos destas palavras oculta-se um gravíssimo erro pelo qual são totalmente destruídos os fundamentos da fé.

6. A verdadeira norma nesta matéria

Advertidos, pois, pela consciência do dever apostólico, para que não permitamos que o rebanho do Senhor seja envolvido pela nocividade destas falácias, apelamos, veneráveis irmãos, para o vosso empenho na precaução contra este mal. Confiamos que, pelas palavras e escritos de cada um de vós, poderemos atingir mais facilmente o povo, e que os princípios e argumentos, que a seguir proporemos, sejam entendidos por ele pois, por meio deles, os católicos devem saber o que devem pensar e praticar, dado que se trata de iniciativas que dizem respeitos a eles, para unir de qualquer maneira em um só corpo os que se denominam cristãos.

7. Só uma religião pode ser verdadeira: A revelada por Deus

Fomos criados por Deus, Criador de todas as coisas, para este fim: conhecê-l'O e serví-l'O. O nosso Criador possui, portanto, pleno direito de ser servido.

Por certo, poderia Deus ter estabelecido apenas uma lei da natureza para o governo do homem. Ele, ao criá-lo, gravou-a em seu espírito e poderia portanto, a partir daí, governar os seus novos atos pela providência ordinária dessa mesma lei. Mas, preferiu dar preceitos aos quais nós obedecêssemos e, no decurso dos tempos, desde os começos do gênero humano até a vinda e a pregação de Jesus Cristo, Ele próprio ensinou ao homem, naturalmente dotado de razão, os deveres que dele seriam exigidos para com o Criador: "Em muitos lugares e de muitos modos, antigamente, falou Deus aos nossos pais pelos profetas; ultimamente, nestes dias, falou-nos por seu Filho" ( Heb 1,1 Seg).

Está, portanto, claro que a religião verdadeira não pode ser outra senão a que se funda na palavra revelada de Deus; começando a ser feita desde o princípio, essa revelação prosseguiu sob a Lei Antiga e o próprio Cristo completou-a sob a Nova Lei.

Portanto, se Deus falou – e comprova-se pela fé histórica Ter ele realmente falado – não há quem não veja ser dever do homem acreditar, de modo absoluto, em Deus que se revela e obedecer integralmente a Deus que impera. Mas, para a glória de Deus e para a nossa salvação, em relação a uma coisa e outra, o Filho Unigênito de Deus instituiu na terra a sua Igreja.

8. A única religião revelada é a Igreja Católica

Acreditamos, pois, que os que afirma serem cristão, não possam fazê-lo sem crer que uma Igreja, e uma só, foi fundada por Cristo. Mas, se se indaga, além disso, qual deva ser ela pela vontade do seu Autor, já não estão todos em consenso.

Assim, por exemplo, muitíssimos destes negam a necessidade da Igreja de Cristo ser visível e perceptível, pelo menos na medida em que deva aparecer como um Corpo único de fiéis, concordes em uma só e mesma doutrina, sob um só Magistério e um só Regime. Mas, pelo contrário, julgam que a Igreja perceptível e visível é uma Federação de várias comunidades cristãs, embora aderentes, cada uma delas, a doutrinas opostas entre si.

Entretanto, Cristo Senhor instituiu a sua Igreja como uma sociedade perfeita de natureza externa e perceptível pelos sentidos, a qual, nos tempos futuros, prosseguiria a obra da reparação do gênero humano pela regência de uma só Cabeça ( Mt 16, 18 seg.; Lc 22, 32; Jo 21, 15-17), pelo Magistério de uma voz viva ( Mc 16,15) e pela dispensação dos Sacramentos, fontes da graça celeste ( Jo 3, 5; 6,48-50; 20,22 seg.; cf. Mt 18, 18; etc.). Por esse motivo, por comparações afirmou-a semelhante a um reino ( Mt, 13), a uma casa ( Mt 16, 18), a um redil de ovelhas ( Jo 10, 16) e a um rebanho ( Jo 21, 15-17).

Esta Igreja, fundada de modo tão admirável, ao Lhe serem retirados o seu Fundador e os Apóstolos que por primeiro a propagaram, em razão da morte deles, não poderia cessar de existir e ser extinta, uma vez que Ela era aquela a quem, sem nenhuma discriminação quanto a lugares e a tempos, fora dado o preceito de conduzir todos os homens à salvação eterna: "Ide, pois, ensinai a todos os povos" (Mt 28, 19).

Acaso faltaria à Igreja algo quanto à virtude e eficácia no cumprimento perene desse múnus, quando o próprio Cristo solenemente prometeu estar sempre presente a ela: "Eis que Eu estou convosco, todos os dias, até a consumação dos séculos?" ( Mt 28, 20).

Deste modo, não pode ocorrer que a Igreja de Cristo não exista hoje e em todo o tempo, e também que Ela não exista hoje e em todo o tempo, e também que Ela não exista como inteiramente a mesma que existiu à época dos Apóstolos. A não ser que desejemos afirmar que: Cristo Senhor ou não cumpriu o que propôs ou que errou ao afirmar que as portas do inferno jamais prevaleceriam contra Ela (Mt 16,18).

9. Um erro capital do movimento ecumêmico na pretendida união das Igrejas cristãs

Ocorre-nos dever esclarecer e afastar aqui certa opinião falsa, da qual parece depender toda esta questão e proceder essa múltipla ação e conspiração dos acatólicos que, como dissemos, trabalham pela união das igrejas cristãs.

Os autores desta opinião acostumaram-se a citar, quase que indefinidamente, a Cristo dizendo: "Para que todos sejam um"... "Haverá um só rebanho e um só Pastos"( Jo 27,21; 10,16). Fazem-no todavia de modo que, por essas palavras, queriam significar um desejo e uma prece de Cristo ainda carente de seu efeito.

Pois opinam: a unidade de fé e de regime, distintivo da verdadeira e única Igreja de Cristo, quase nunca existiu até hoje e nem hoje existe; que ela pode, sem dúvida, ser desejada e talvez realizar-se alguma vez, por uma inclinação comum das vontades; mas que, entrementes, deve existir apenas uma fictícia unidade.

Acrescentam que a Igreja é, por si mesma, por natureza, dividida em partes, isto é, que ela consta de muitas igreja ou comunidades particulares, as quais, ainda separadas, embora possuam alguns capítulos comuns de doutrina, discordam todavia nos demais. Que cada uma delas possui os mesmos direitos, que, no máximo, a Igreja foi única e una, da época apostólica até os primeiros concílios ecumênicos.

Assim, dizem, é necessários colocar de lado e afastar as controvérsias e as antiquíssimas variedade de sentenças que até hoje impedem a unidade do nome cristão e, quanto às outras doutrinas, elaborar e propor uma certa lei comum de crer, em cuja profissão de fé todos se conheçam e se sintam como irmãos, pois, se as múltiplas igrejas e comunidades forem unidas por um certo pacto, existiria já a condição para que os progressos da impiedade fossem futuramente impedidos de modo sólido e frutuoso.

Estas são, Veneráveis Irmãos, as afirmações comuns.

Existem, contudo, os que estabelecem e concedem que o chamado Protestantismo, de modo bastante inconsiderado, deixou de lado certos capítulos da fé e alguns ritos do culto exterior, sem dúvida gratos e úteis, que, pelo contrário, a Igreja Romana ainda conserva.

Mas, de imediato, acrescentam que esta mesma Igreja também agiu mal, corrompendo a religião primitiva por algumas doutrinas alheias e repugnantes ao Evangelho, propondo acréscimos para serem cridos: enumeram como o principal entre estes o que versa sobre o Primado de Jurisdição atribuído a Pedro e a seus Sucessores na Sé Romana.

Entre os que assim pensam, embora não sejam muitos, estão os que indulgentemente atribuem ao Pontífice Romano um primado de honra ou uma certa jurisdição e poder que, entretanto, julgam procedente não do direito divino, mas de certo consenso dos fiéis. Chegam outros ao ponto de, por seus conselhos, que diríeis serem furta-cores, quererem presidir o próprio Pontífice.

E se é possível encontrar muitos acatólicos pregando à boca cheia a união fraterna em Jesus Cristo, entretanto não encontrareis a nenhum deles em cujos pensamentos esteja a submissão e a obediência ao Vigário de Jesus Cristo enquanto docente ou enquanto governante.

Afirmam eles que tratariam de bom grado com a Igreja Romana, mas com igualdade de direitos, isto é, iguais com um igual. Mas, se pudessem fazê-lo, não parece existir dúvida de que agiriam com a intenção de que, por um pacto que talvez se ajustasse, não fossem coagidos a afastarem-se daquelas opiniões que são a causa pela qual ainda vagueiem e errem fora do único aprisco de Cristo.

10. A Igreja Católica não pode participar de semelhantes reuniões 

Assim sendo, é manifestamente claro que a Santa Sé, não pode, de modo algum, participar de suas assembléias e que, aos católicos, de nenhum modo é lícito aprovar ou contribuir para estas iniciativas: se o fizerem concederão autoridade a uma falsa religião cristã, sobremaneira alheia à única Igreja de Cristo. 

11. A verdade revelada não admite transações

Acaso poderemos tolerar – o que seria bastante iníquo-, que a verdade e, em especial a revelada, seja diminuída através de pactuações?

No caso presente, trata-se da verdade revelada que deve ser defendida. 

Se Jesus Cristo enviou os Apóstolos a todo o mundo, a todos os povos que deviam ser instruídos na fé evangélica e, para que não errassem em nada, quis que, anteriormente, lhes fosse ensinada toda a verdade pelo Espírito Santo, acaso esta doutrina dos Apóstolos faltou inteiramente ou foi alguma vez perturbada na Igreja em que o próprio Deus está presente como regente e guardião?

Se o nosso Redentor promulgou claramente o seu Evangelho não apenas para os tempos apostólicos, mas também para pertencer às futuras épocas, o objeto da fé pode tornar-se de tal modo obscuro e incerto que hoje seja necessários tolerar opiniões pelo menos contrárias entre si?

Se isto fosse verdade, dever-se-ia igualmente dizer que o Espírito Santo que desceu sobre os Apóstolos, que a perpétua permanência dele na Igreja e também que a própria pregação de Cristo já perderam, desde muitos séculos, toda a eficácia e utilidade: afirmar isto é, sem dúvida, blasfemo.

12. A Igreja Católica: depositária infalível da verdade

Quando o Filho unigênito de Deus ordenou a seus enviados que ensinassem a todos os povos, vinculou então todos os homens pelo dever de crer nas coisas que lhes fossem anunciadas pela "testemunha pré-ordenadas por Deus" (At 10, 41). Entretanto, um e outro preceito de Cristo, o de ensinar e o de crer na consecução da salvação eterna, que não podem deixar de ser cumpridos, não poderiam ser entendidos a não ser que a Igreja proponha de modo íntegro e claro a doutrina evangélica e que, ao propô-la, seja imune a qualquer perigo de errar.

Afastam-se igualmente do caminho os que julgam que o depósito da verdade existe realmente na terra, mas que é necessário um trabalho difícil, com tão longos estudos e disputas para encontrá-lo e possuí-lo, que a vida dos homens seja apenas suficiente para isso, com se Deus benigníssimo tivesse falado pelos profetas e pelo seu Unigênito para que apenas uns poucos, e estes mesmos já avançados em idade, aprendessem perfeitamente as coisas que por eles revelou, e não para que preceituasse uma doutrina de fé e de costumes pela qual, em todo o decurso de sua vida mortal, o homem fosse regido.

13. Sem fé, não há verdadeira caridade

Estes pancristãos, que empenham o seu espírito na união das igrejas, pareceriam seguir, por certo, o nobilíssimo conselho da caridade que deve ser promovida entre os cristãos. Mas, dado que a caridade se desvia em detrimento da fé, o que pode ser feito?

Ninguém ignora por certo que o próprio João, o Apóstolo da Caridade, que em seu Evangelho parece ter manifestado os segredos do Coração Sacratíssimo de Jesus e que permanentemente costumavas inculcar à memória dos seus o mandamento novo: "Amai-vos uns aos outros", vetou inteiramente até mesmo manter relações com os que professavam de forma não íntegra e incorrupta a doutrina de Cristo: "Se alguém vem a vós e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem digais a ele uma saudação" (2 Jo 10).

Pelo que, como a caridade se apóia na fé íntegra e sincera como que em um fundamento, então é necessário unir os discípulos de Cristo pela unidade de fé como no vínculo principal.

14. União Irracional 

Assim, de que vale excogitar no espírito uma certa Federação cristã, na qual ao ingressar ou então quando se tratar do objeto da fé, cada qual retenha a sua maneira de pensar e de sentir, embora ela seja repugnante às opiniões dos outros?

E de que modo pedirmos que participem de um só e mesmo Conselho homens que se distanciam por sentenças contrárias como, por exemplo, os que afirmam e os que negam ser a sagrada Tradição uma fonte genuína da Revelação Divina?

Como os que adoram a Cristo realmente presente na Santíssima Eucaristia, por aquela admirável conversão do pão e do vinho que se chama transubstanciação e os que afirmam que, somente pela fé ou por sinal e em virtude do Sacramento, aí está presente o Corpo de Cristo?

Como os que reconhecem nela a natureza do Sacrifício e a do Sacramento e os que dizem que ela não é senão a memória ou comemoração da Ceia do Senhor?

Como os que crêem ser bom e útil invocar súplice os Santos que reinam junto de Cristo - Maria, Mãe de Deus, em primeiro lugar - e tributar veneração às suas imagens e os que contestam que não pode ser admitido semelhante culto, por ser contrário à honra de Jesus Cristo, "único mediador de Deus e dos homens"? ( 1 Tim 2, 5). 

15. Princípio até o indiferentismo e o modernismo

Não sabemos, pois, como por essa grande divergência de opiniões seja defendida o caminho para a realização da unidade da Igreja: ela não pode resultar senão de um só magistério, de uma só lei de crer, de uma só fé entre os cristãos. Sabemos, entretanto, gerar-se facilmente daí um degrau para a negligência com a religião ou o Indiferentismo e para o denominado Modernismo. os que foram miseravelmente infeccionados por ele defendem que não é absoluta, mas relativa a verdade revelada, isto é, de acordo com as múltiplas necessidades dos tempos e dos lugares e com as várias inclinações dos espíritos, uma vez que ela não estaria limitada por uma revelação imutável, mas seria tal que se adaptaria à vida dos homens.

Além disso, com relação às coisas que devem ser cridas, não é lícito utilizar-se, de modo algum, daquela discriminação que houveram por bem introduzir entre o que denominam capítulos fundamentais e capítulos não fundamentais da fé, como se uns devessem ser recebidos por todos, e, com relação aos outros, pudesse ser permitido o assentimento livre dos fiéis: a Virtude sobrenatural da fé possui como causa formal a autoridade de Deus revelante e não pode sofrer nenhuma distinção como esta.

Por isto, todos os que são verdadeiramente de Cristo consagram, por exemplo, ao mistério da Augusta Trindade a mesma fé que possuem em relação ao dogma da Mãe de Deus concebida sem a mancha original e não possuem igualmente uma fé diferente com relação à Encarnação do Senhor e ao magistério infalível do Pontífice romano, no sentido definido pelo Concílio Ecumênico Vaticano.

Nem se pode admitir que as verdade que a Igreja, através de solenes decretos, sancionou e definiu em outras épocas, pelo menos as proximamente superiores, não sejam, por este motivo, igualmente certas e nem devam ser igualmente acreditadas: acaso não foram todas elas reveladas por Deus?

Pois, o Magistério da Igreja, por decisão divina, foi constituído na terra para que as doutrinas reveladas não só permanecessem incólumes perpetuamente, mas também para que fossem levadas ao conhecimento dos homens de um modo mais fácil e seguro. E, embora seja ele diariamente exercido pelo Pontífice Romano e pelos Bispos em união com ele, todavia ele se completa pela tarefa de agir, no momento oportuno, definindo algo por meio de solenes ritos e decretos, se alguma vez for necessário opor-se aos erros ou impugnações dos hereges de um modo mais eficiente ou imprimir nas mentes dos fiéis capítulos da doutrina sagrada expostos de modo mais claro e pormenorizado.

Por este uso extraordinário do Magistério nenhuma invenção é introduzida e nenhuma coisa nova é acrescentada à soma de verdades que estando contidas, pelo menos implicitamente, no depósito da revelação, foram divinamente entregues à Igreja, mas são declaradas coisas que, para muitos talvez, ainda poderiam parecer obscuras, ou são estabelecidas coisas que devem ser mantidas sobre a fé e que antes eram por alguns colocados sob controvérsia.

16. A única maneira de unir todos os cristãos

Assim, Veneráveis Irmãos, é clara a razão pela qual esta Sé Apostólica nunca permitiu aos seus estarem presentes às reuniões de acatólicos por quanto não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela.

Dizemos à única verdadeira Igreja de Cristo: sem dúvida ela é a todos manifesta e, pela vontade de seu Autor, Ela perpetuamente permanecerá tal qual Ele próprio A instituiu para a salvação de todos. Pois, a mística Esposa de Cristo jamais se contaminou com o decurso dos séculos nem, em época alguma, poderá ser contaminada, como Cipriano o atesta: "A Esposa de Cristo não pode ser adulterada: ela é incorrupta e pudica. Ela conhece uma só casa e guarda com casto pudor a santidade de um só cubículo" ( De Cath. Ecclessiae unitate, 6).

E o mesmo santo Mártir, com direito e com razão, grandemente se admirava de que pudesse alguém acreditar que "esta unidade que procede da firmeza de Deus pudesse cindir-se e ser quebrada na Igreja pelo divórcio de vontades em conflito" (ibidem).

Portanto, dado que o Corpo Místico de Cristo, isto é, a Igreja, é um só ( 1 Cor 12, 12), compacto e conexo ( Ef. 4, 15), à semelhança do seu corpo físico, seria inépcia e estultície afirmar alguém que ele pode constar de membros desunidos e separados: quem pois não estiver unido com ele, não é membro seu, nem está unido à cabeça, Cristo (Cfr. Ef. 5, 30; 1, 22). 

17. A obediência ao Romano Pontífice 

Mas, ninguém está nesta única Igreja de Cristo e ninguém nela permanece a não ser que, obedecendo, reconheça e acate o poder de Pedro e de seus sucessores legítimos.

Por acaso os antepassados dos enredados pelos erros de Fócio e dos reformadores não estiveram unidos ao Bispo de Roma, ao Pastor supremo das almas?

Ai! Os filhos afastaram-se da casa paterna; todavia ela não foi feita em pedaços e nem foi destruída por isso, uma vez que estava arrimada na perene proteção de Deus. Retornem, pois, eles ao Pai comum que, esquecido das injúrias antes gravadas a fogo contra a Sé Apostólica, recebê-los-á com máximo amor.

Pois se, como repetem freqüentemente, desejam unir-se Conosco e com os nossos, por que não se apressam em entrar na Igreja, "Mãe e Mestra de todos os fiéis de Cristo" (Conc. Later 4, c.5)?

Escutem a Lactâncio chamado amiúde: "Só... a Igreja Católica é a que retém o verdadeiro culto. Aqui está a fonte da verdade, este é o domicílio da Fé, este é o templo de Deus: se alguém não entrar por ele ou se alguém dele sair, está fora da esperança da vida e salvação. É necessário que ninguém se afague a si mesmo com a pertinácia nas disputas, pois trata-se da vida e da salvação que, a não ser que seja provida de um modo cauteloso e diligente, estará perdida e extinta" ( Divin. Inst. 4, 30, 11-12).

18. Apelo às seitas dissidentes

Aproximem-se, portanto, os filhos dissidentes da Sé Apostólica, estabelecida nesta cidade que os Príncipes dos Apóstolos Pedro e Paulo consagraram com o seu sangue; daquela Sede, dizemos, que é "raiz e matriz da Igreja Católica" ( S. Cypr., ep. 48 a d Cornelium, 3), não com o objetivo e a esperança de que "a Igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade" ( 1 Tim 3, 15) renuncie à integridade da fé e tolere os próprios erros deles, mas, pelo contrário, para que se entreguem a seu magistério e regime.

Oxalá auspiciosamente ocorra para Nós isto que não ocorreu ainda para tantos dos nossos muitos Predecessores, a fim de que possamos abraçar com espírito fraterno os filhos que nos é doloroso estejam de Nós separados por uma perniciosa dissensão.

Prece a Nosso Senhor e a Nossa Senhora. Oxalá Deus, Senhor nosso, que "quer salvar todos os homens e que eles venham ao conhecimento da verdade"( 1 Tim. 2, 4) nos ouça suplicando fortemente para que Ele se digne chamar à unidade da Igreja a todos os errantes.

Nesta questão que é, sem dúvida, gravíssima, utilizamos e queremos que seja utilizada como intercessora a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da graça divina, vencedora de todas as heresias e auxílio dos cristãos, para que Ela peça, para o quanto antes, a chegada daquele dia tão desejado por nós, em que todos os homens escutem a voz do seu Filho divino, "conservando a unidade de espírito em um vínculo de paz" (Ef. 4, 3).

19. Conclusão e Bênção Apostólica

Compreendeis, Veneráveis Irmãos, o quanto desejamos isto e queremos que o saibam os nossos filhos, não só todos os do mundo católico, mas também os que de Nós dissentem. Estes, se implorarem em prece humilde as luzes do céu, por certo reconhecerão a única verdadeira Igreja de Jesus Cristo e, por fim, nEla tendo entrado, estarão unidos conosco em perfeita caridade.

No aguardo deste fato, como auspício dos dons de Deus e como testemunho de nossa paterna benevolência, concedemos muito cordialmente a vós, Veneráveis Irmãos, e a vosso clero e povo, a bênção apostólica.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia seis de janeiro, no ano de 1928, festa da Epifania de Jesus Cristo, Nosso Senhor, sexto de nosso Pontificado.

 

PIO PP. XI.

 


Copyright © Dicastero per la Comunicazione - Libreria Editrice Vaticana


Mortalium Animos: sobre a promoção da unidade de religião (6 de janeiro de 1928) | PIO XI (vatican.va)


Redes Sociais

Continue Acessando

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...