BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

domingo, 10 de junho de 2012

Podemos Ainda Hoje Ser Cristãos?


Edith Stein

Mas, porque será tão importante raciocinar e aprofundar as nossas crenças? Per­guntará algum de meus leitores. Mais ainda. Não será perigoso indagar, pretender conhe­cer demasiadamente as razões da nossa Fé?

“A minha Fé! Também eu sou católico, e todos os meus antepassados o foram. Aprendi o Credo dos lábios de minha mãe, e desde então, guardo-o com piedoso amor, como uma herança que me legaram meus pais. Rezo-o com frequência, não nego um só artigo do Símbolo... Mas, temo! Temo, que se faço dele um estudo crítico, se o examino com toda a minuciosidade, se desfaço e analiso todos os seus ensinamentos, temo, que se desmorone! Os móveis que herdamos de nossos maiores colocamo-los com cuidado num canto da sala e guardamo-los piedosamente, sem os usar, sem nos sentarmos sobre eles...”

Creio que a muitos de meus leitores, especialmente aos homens, lhes veio o mesmo pensamento, ao ver que íamos ocupar-nos longamente do Credo. Seus escrúpulos vem dum fundo certamente respeitável, mas – não vos surpreendais se o digo de um modo claro e alto – ninguém tem mais necessidade de estudar o Credo, que, precisamente, os que assim objetam.

Por que necessitamos conhecer melhor a nossa Fé?

Em primeiro lugar, porque não havemos de considerá-la como móvel velho her­dado de nossos maiores, como jóia que guardamos esquecida, como carga que levamos sem alma, só por sentimento de piedade... Infelizmente, para muitos católicos, não signifi­ca outra coisa a Fé... Para nós, deve ser mais alguma coisa: devemos cultivá-la – ainda que herdada de nossos maiores – com esforçado trabalho espiritual, transformá-la em ri­queza própria, pessoal, consciente. Sou católico não somente porque meu pai também o foi e porque o foram também meus antepassados, senão também, porque conheço os Dogmas da minha Religião, e sei que estes ainda hoje são belos e encerram a Verdade, e sinto-me orgulhoso de poder chamar-me católico.

Mas, será possível, hoje, tanta convicção a respeito do Credo antigo? Não correrá perigo de fenecer?

Estes e semelhantes pensamentos podem ocorrer a qualquer homem instruído, que siga com espírito observador o caminhar da humanidade; e estes pensamentos, que se convertem em espinhos, não podemos deixá-los cravados nas almas.

Apresenta-se-nos esta questão. Podemos ainda hoje ser cristãos? - Não só “po­demossenão que devemos sê-lo! Ou seremos cristãos – e não só oficialmente, de pa­lavra, senão também na vida real – ou deixaremos de ser homens. Ou Cristianismo, ou manicômio. Ou Cristianismo, ou então veremos mulheres, que assassinam seus maridos com arsênico tirado do papel de apanhar moscas; ou Cristianismo, ou fi­lhos que levantam mão assassina contra seus próprios pais.[1]  

Não haverá nada a mudar na Fé de nossos pais? Não. O Cristianismo ainda hoje é capaz de dar satisfação completa a todos os espíritos necessitados. As formas ex­teriores da nossa vida mudaram, mas não mudou a alma humana. Antigamente os ho­mens benziam-se ao empreender uma longa viagem, hoje ainda há pilotos que antes de levantar voo se benzem. Há diretores de fábricas que vão com a mesma pontualidade à Missa Dominical, com que foram seus avós, com a única diferença que estes iam a pé e aqueles vão agora de automóvel. Há dramaturgos modernos que querem ser sepultados com o hábito franciscano, como Hugo von Hoffmanstal, morto ainda há pouco. Há operá­rios que permanecem fiéis a Cristo, mesmo no meio das mais veemente agitação vermelha.

Mas isto devemos sabê-lo todos de um modo consciente, e com uma consci­ência real devemos fazer mais e mais cristã a nossa alma e a nossa vida. Esta época clama por homens cristãos tão conscientes como o foi Estevão Széchenyi[2] que escreveu a seu filho bela as seguintes linhas: “Cumpri estritamente todas as práticas da Religião Católica, não para dar bom exemplo aos aldeões, ó não, porque tal proceder seria hipocri­sia. Fui à Missa, confessei-me... porque sou deveras católico”[3].

2º – Portanto, se me perguntarem porque devemos conhecer a nossa Fé, aí vai a resposta: A minha Fé não deve ser um móvel piedosamente guardado, como pano velho em que não se pode tocar.

Devo examinar a minha Fé de perto, com diligência, em seus fundamentos; não devo ter dela uma só dúvida, um só “quiçá” ou “talvez”. A minha Fé há de re­sistir com a firmeza de uma rocha a todos os críticos... Porquê? Porque a minha Fé exige-me muitos e grandes sacrifícios. Exige, que meu entendimento se incline ante a Verdade divina e minha vontade ante os Preceitos de Deus. Pois bem, não poderei cumprir com estas exigências, se não souber de ciência certa, que cada frase, cada palavra do Credo é uma verdade santa, inconcussa.

A nossa Religião não se contenta com que recitemos o Credo, sem que tire­mos do Credo graves consequências. A nossa Religião, quer orientar nossa vida diá­ria, nossos assuntos mais insignificantes e orientá-los com seus preceitos, que às vezes são muito difíceis, e penetram até ao mais íntimo de nossos particulares interesses.

A minha Fé, não só me acompanha na igreja, quando me concentro na oração, senão que está presente no escritório da minha oficina, no balcão da minha loja, no fogão da minha cozinha, no meio de meus negócios, no meio de meus prazeres, pe­netra no santuário mais íntimo da família, em tudo quer dispor e mandar.

E, como poderei cumprir esses preceitos rígidos, se não estou convencido da sua verdade completa, se não vejo que minha Fé tem realmente direito de exigir-me todos estes sacrifícios? Com uma Fé tímida, vacilante, débil, não podemos corres­ponder às severas exigências da Moral Cristã.

Sabes, que Fé necessitamos? Uma Fé vigorosa como a que vive hoje – para mencio­nar só um exemplo dos mais modernos – no peito de um dos escritores mais céle­bres, o atual embaixador de França em Washington, Paulo Claudel, que em sua juventu­de, era completamente incrédulo e levava uma vida frívola, mas depois de ouvir o chama­mento da graça, converteu-se e agora escreve de si mesmo: “Tenho mil vezes mais certe­za da verdade da Religião Católica que do sol que vejo no Céu”[4].

A confissão de fé deste célebre escritor, as palavras deste homem completamente moderno e profundamente instruído, devem ressoar em nossa alma: “Tenho mais certeza da minha Fé, que do sol que vejo no Céu!”

Certamente, podemo-nos queixar do mundo atual, mas também, não nos faltam mo­tivos para nos alegrarmos. Queixarmo-nos de que no último século, foram tantos os que perderam o laço espiritual da Fé de nossos pais; mas, alegrarmo-nos também de que nos últimos lustros dos século atual foram tantos, os que a conheceram e a ama­ram. Podem entristecer-nos os pagãos modernos, que fecham os olhos ao sol do Cristia­nismo; mas, deve encher-nos de júbilo, que a nossa Fé não tenha rival, ainda hoje, nos seus valores morais, educativos e culturais. Que seja ela que salva para a hu­manidade todos aqueles tesouros mais valiosos que o diamante, e sem ela perece­riam irremediavelmente, como, por exemplo, o Matrimônio, a Família, a Vida da Cri­ança, a Propriedade, o Princípio de Autoridade, a Honradez, o Domínio de si mes­mo.

Pois bem, desta Fé Cristã trataremos nos capítulos seguintes.

Bem-aventurado aquele em quem vive com vigor a Fé Cristã! Este quando sor­ri, sabe que chegará um tempo, em que o seu sorriso será eterno; e quando chora sabe, também, que virá tempo em que jamais chorará.

Portanto, ainda que o mundo atual se transformou por completo e já não se pareça ao de nossos maiores, eu, não obstante, persevero na Fé de meus pais!

Zune o avião... buzina o automóvel... atordoa com estrépido o rádio... Quanto mudou o mundo! E eu levanto a minha cabeça e exclamo no meio deste ruído caótico: Creio! Creio! Creio!


Fonte: “Creio em Deus – Fé e Existência de Deus”, Mons. Tihamer Tóth, pp. 15-20; Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1952.


 

[1]   O autor alude a crimes que produziram grande sensação na época em que escreveu este livro (1929).
[2]   Estêvão Széchenyi a quem a posteridade agradecida designa com o nome honroso “o maior dos húngaros”, é uma das figuras que mais sobressaem na história cultural do reino de S. Estêvão. A nação húngara, contraiu com ele uma dívida perene de gratidão.
[3]   Széchenyi Isteván: Intelmei Béla fiához. Anotações a seu filho Béla.
[4]   Les Témoins du Renouveau Catholique.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Adoração e Sacralidade: “Uma interpretação unilateral do Concílio Vaticano II penalizou esta dimensão. A novidade cristã quanto ao culto foi influenciada por uma mentalidade mundana dos anos 60 e 70.”


junho 7, 2012

Antes de tudo, uma reflexão sobre o valor do culto eucarístico, em especial da adoração ao Santíssimo Sacramento. É a experiência que também esta noite nós viveremos depois da Missa, antes da procissão, durante sua realização e no seu final. Uma interpretação unilateral do Concílio Vaticano II penalizou esta dimensão, restringindo na prática a Eucaristia ao momento celebrativo.

[...] Com efeito, como muitas vezes acontece, para destacar um aspecto se acaba por sacrificar outro. Neste caso, a acentuação dada à celebração da Eucaristia foi em detrimento da adoração, como ato de fé e de oração dirigido ao Senhor Jesus, realmente presente no Sacramento do altar. Esse desequilíbrio teve repercussões também na vida espiritual dos fiéis. De fato, concentrando toda a relação com Jesus Eucaristia somente no momento da Santa Missa, corre-se o risco de esvaziar de Sua presença o restante do tempo e do espaço existenciais.

[...] Agora gostaria de passar brevemente para o segundo aspecto: a sacralidade da Eucaristia. Também aqui sofremos no passado recente com certa incompreensão da mensagem autêntica da Sagrada Escritura. A novidade cristã quanto ao culto foi influenciada por uma mentalidade mundana dos anos 60 e 70 do século passado. É verdade, e permanece sempre válido, que o centro do culto já não está mais nos ritos e nos sacrifícios antigos, mas no próprio Cristo, na sua pessoa, na sua vida, no seu mistério pascal.

E, todavia, desta novidade fundamental não se deve concluir que o sagrado não existe mais, mas que encontrou sua realização em Jesus Cristo, Amor divino encarnado. A carta aos Hebreus, que ouvimos esta noite na segunda Leitura, nos fala justamente da novidade do sacerdócio de Cristo, “sumo sacerdote dos bens vindouros” (Hb 9, 11), mas não diz que o sacerdócio acabou. Cristo “é mediador de uma nova aliança” (Hb9,15), estabelecida no seu sangue, que purifica “a nossa consciência das obras mortas” (Hb9,14).

Ele não aboliu o sagrado, mas o levou a cabo, inaugurando um novo culto, que é sim plenamente espiritual, mas que todavia, até que estejamos em caminho no tempo, se serve ainda de sinais e de ritos, que desaparecerão somente no fim, na Jerusalém celeste, onde não haverá mais nenhum templo. Graças a Cristo, a sacralidade é mais verdadeira, mais intensa, e, como acontece para os mandamentos, também mais exigente!

Não basta observar o rito, mas se requer a purificação do coração e o envolvimento da vida. Apraz-me sublinhar que o sagrado possui uma função educativa, e seu desaparecimento inevitavelmente empobrecerá a cultura, de modo particular a formação das novas gerações. Se, por exemplo, em nome de uma fé secularizada e não mais necessária de sinais sagrados, fosse abolida esta procissão urbana de Corpus Domini, o perfil espiritual de Roma resultaria “esvaziado”, e nossa consciência pessoal e comunitária se tornaria enfraquecida. Também pensamos em uma mãe e em um pai que, em nome de uma fé dessacralizada, privassem seus filhos de qualquer ritual religioso: na realidade terminariam por deixar o campo livre a tantos substitutos presentes na sociedade de consumo, e a outros ritos e a outros sinais, que mais facilmente poderiam se tornar ídolos.





quarta-feira, 6 de junho de 2012

Vaticano Condena Obra de Religiosa que Promove Masturbação, Homossexualidade e Divórcio.


VATICANO, 04 Jun. 12 / 02:09 pm (ACI/EWTN Noticias) A Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) no Vaticano, com a aprovação do Papa Bento XVI, condenou o livro “Just Love. A Framework for Christian Sexual Ethics” (Só Amor: Um marco para a ética sexual cristã) da religiosa Ir. Margaret A. Farley, ex-superiora geral da congregação ‘Sisters of Mercy of the Americas’ (Irmãs da Misericórdia das Américas),  no qual se promove a masturbação, os atos homossexuais, as uniões homossexuais e o divórcio.



Por sua importância, ACI Digital reproduz em sua integridade a notificação divulgada hoje pela CDF e assinada pelo seu Prefeito o Cardeal William Levada:

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

Notificação sobre o livro
Just Love. A Framework for Christian Sexual Ethics
de Irmã Margaret A. Farley, R.S.M.

Introdução

A Congregação para a Doutrina da Fé, depois de um primeiro exame do livro da Irmã Margaret A. Farley, R.S.M., Just Love. A Framework for Christian Sexual Ethics (New York: Continuum, 2006), endereçou à autora por meio dos bons ofícios de Irmã Mary Waskowiak, então Superiora Geral das Sisters of Mercy of the Americas, com carta de 29 de março de 2010, uma avaliação preliminar abrangente, indicando os problemas doutrinais presentes no texto. A resposta de 28 de outubro de 2010, enviada pela Irmã Farley, não foi suficiente para esclarecer os problemas indicados. Como o caso se referisse a erros doutrinários presentes num livro cuja publicação se revelara causa de confusão entre os fiéis, a Congregação decidiu empreender um “exame para casos de urgência”, segundo o Regulamento para o exame doutrinal (cf. cap. IV, art. 23-27).

A propósito, depois da avaliação feita por uma Comissão de especialistas (cf. art. 24), a Sessão Ordinária da Congregação, em data de 8 de junho de 2011 confirmou que o livro em questão continha proposições errôneas, e que a sua divulgação implicava riscos de graves danos aos fiéis. Sucessivamente, com carta de 5 de julho de 2011, foi transmitida à Irmã Waskowiak a lista das proposições errôneas, pedindo que quisesse convidar a Irmã Farley a corrigir as teses inaceitáveis contidas no seu livro (cf. art. 25-26).

Com carta de 3 de outubro de 2011, a Irmã Patrícia McDermott, que entrementes se sucedera à Irmã Mary Wakowiak como Superiora Geral das Sisters of Mercy of the Americas, transmitiu à Congregação a resposta da Irmã Farley, acompanhada pelo próprio parecer e do de Irmã Waskowiak, em conformidade com o art. 27 do supracitado Regolamento. Esta resposta, avaliada pela Comissão de especialistas, foi submetida à Sessão Ordinária para discernimento, aos 14 de dezembro de 2011. Em tal ocasião, considerando que a resposta da Irmã Farley não esclarecia adequadamente os graves problemas contidos no seu livro, tomou-se a decisão de proceder à publicação desta Notificação.

1. Problemas de caráter geral

A Autora não apresenta uma compreensão correta do papel do Magistério da Igreja como ensinamento autorizado dos Bispos em comunhão com o Sucessor de Pedro, que guia a compreensão sempre mais profunda, por parte da Igreja, da Palavra de Deus, como se encontra na Sagrada Escritura, e transmitida fielmente pela tradição viva da Igreja. Ao tratar de argumentos de caráter moral, Irmã Farley ou ignora o ensinamento constante do Magistério ou, quando o menciona ocasionalmente, o trata como uma opinião entre outras. Uma tal posição não pode ser justificada de modo algum, nem mesmo ao interno de uma prospectiva ecumênica que a Autora deseja promover. Irmã Farley revela outrossim uma compreensão defeituosa da natureza objetiva da lei moral natural, escolhendo antes de argumentar partindo de conclusões seletas de determinadas correntes filosóficas ou com a sua própria compreensão da “experiência contemporânea”. Um tal modo de tratar não é conforme à genuína teologia católica.

2. Problemas específicos

Dentre os numerosos erros e ambigüidades do livro, é mister chamar a atenção para as posições a respeito da masturbação, dos atos homossexuais, das uniões homossexuais, da indissolubilidade do matrimônio e do problema do divórcio e das segundas núpcias.

Masturbação

Irmã Farley escreve: “A masturbação (…) geralmente não comporta nenhum problema de caráter moral. (…) Este é sem dúvida o caso de muitas mulheres que (…) encontraram um grande bem no prazer buscado consigo mesmas – e talvez exatamente na descoberta das suas próprias possibilidades em relação ao prazer -, algo que muitas nem tinham experimentado e nem mesmo conhecido no tocante às suas relações sexuais ordinárias com maridos ou amantes. Neste sentido, é possível afirmar que a masturbação de fato favorece as relações muito mais do que as obstacula. Por isso a minha observação conclusiva é que os critérios da justiça, assim como os apresentei até agora, pareceriam aplicáveis à escolha de provar prazer sexual auto-erótico somente enquanto esta atividade pode favorecer ou danificar, mantém ou limita, o bem-estar e a liberdade de espírito. E esta resta amplamente uma questão de caráter empírico, não moral” (p. 236).

Estas afirmações não são conformes à doutrina católica: “Na linha duma tradição constante, tanto o Magistério da Igreja como o sentido moral dos fiéis têm afirmado sem hesitação que a masturbação é um ato intrínseca e gravemente desordenado». «Seja qual for o motivo, o uso deliberado da faculdade sexual fora das normais relações conjugais contradiz a finalidade da mesma». O prazer sexual é ali procurado fora da «relação sexual requerida pela ordem moral, que é aquela que realiza, no contexto dum amor verdadeiro, o sentido integral da doação mútua e da procriação humana. Para formar um juízo justo sobre a responsabilidade moral dos sujeitos, e para orientar a ação pastoral, deverá ter-se em conta a imaturidade afetiva, a força de hábitos contraídos, o estado de angústia e outros fatores psíquicos ou sociais que podem atenuar, ou até reduzir ao mínimo, a culpabilidade moral.”1

Atos Homossexuais

Irmã Farley escreve: “Do meu ponto de vista (…), as relações homossexuais o os atos homossexuais podem ser justificados, de acordo com a mesma ética sexual, exatamente como as relações e os atos heterossexuais. Por isso, as pessoas com inclinações homossexuais, assim como os seus respectivos atos, podem e devem ser respeitados, indiferentemente de haver ou não a alternativa de serem diferentes” (p. 295).

Tal posição não é aceitável. A Igreja Católica, de fato, distingue entre pessoas com tendências homossexuais e atos homossexuais. Quanto às pessoas com tendências homossexuais, o Catecismo da Igreja Católica ensina que as mesmas devem ser acolhidas “com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta”.2 No entanto, quanto aos atos homossexuais o Catecismo afirma: “Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves a Tradição sempre declarou que «os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados. São contrários à lei natural, fecham o ato sexual ao dom da vida, não procedem duma verdadeira complementaridade afetiva sexual, não podem, em caso algum, ser aprovados”.3

Uniões Homossexuais

Irmã Farley escreve: “Legislações sobre a não discriminação dos homossexuais, como também sobre os casais de fato, as uniões civis e os matrimônios gay, podem ter um papel importante na transformação do ódio, da marginalização e da estigmatização de gays e lésbicas, o que se reforça ainda hoje com ensinamentos a respeito do sexo “contra a natureza”, desejo desordenado ou amor perigoso. (…) Uma das questões mais urgentes do momento, diante da opinião pública dos Estados Unidos, é o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo – equivale a dizer a concessão de um reconhecimento social e de uma qualificação jurídica às uniões homossexuais, sejam masculinas ou femininas, comparáveis às uniões entre heterossexuais” (p. 293).

Tal posição é oposta ao ensinamento do Magistério: “A Igreja ensina que o respeito para com as pessoas homossexuais não pode levar, de modo nenhum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. O bem comum exige que as leis reconheçam, favoreçam e protejam a união matrimonial como base da família, célula primária da sociedade. Reconhecer legalmente as uniões homossexuais ou equipará-las ao matrimônio, significaria, não só aprovar um comportamento errado, com a consequência de convertê-lo num modelo para a sociedade atual, mas também ofuscar valores fundamentais que fazem parte do patrimônio comum da humanidade. A Igreja não pode abdicar de defender tais valores, para o bem dos homens e de toda a sociedade”.4 “Em defesa da legalização das uniões homossexuais não se pode invocar o princípio do respeito e da não discriminação de quem quer que seja. Uma distinção entre pessoas ou a negação de um reconhecimento ou de uma prestação social só são inaceitáveis quando contrárias à justiça. Não atribuir o estatuto social e jurídico de matrimônio a formas de vida que não são nem podem ser matrimoniais, não é contra a justiça; antes, é uma sua exigência”.5

Indissolubilidade do Matrimônio

Irmã Farley escreve: “A minha posição pessoal é que o empenho matrimonial seja sujeito à dissolução pelas mesmas razões fundamentais pelas quais todo empenho permanente, extremamente grave e quase incondicionado, pode cessar de exigir um vínculo. Isto implica que existam de fato situações nas quais as coisas mudaram demais – um ou os dois partner mudaram, a relação entre eles mudou, a razão original do seu compromisso recíproco parece completamente extinta. O sentido de um compromisso permanente é ademais exatamente aquele de vincular a despeito de todas as mudanças que podem aparecer. Mas é possível de sustentá-lo sempre? É possível sustentá-lo apesar de mudanças radicais e imprevistas? A minha resposta é: às vezes não é possível. Às vezes a obrigação pode ser desfeita e o compromisso pode ser legitimamente modificado”(págs. 304-305).

Uma opinião semelhante está em contradição com a doutrina católica sobre a indissolubilidade do matrimônio: “Pela sua própria natureza, o amor conjugal exige dos esposos uma fidelidade inviolável. Esta é uma consequência da doação de si mesmos que os esposos fazem um ao outro. O amor quer ser definitivo. Não pode ser «até nova ordem». «Esta união íntima, enquanto doação recíproca de duas pessoas, tal como o bem dos filhos, exigem a inteira fidelidade dos cônjuges e reclamam a sua união indissolúvel». O motivo mais profundo encontra-se na fidelidade de Deus à sua aliança, de Cristo à sua Igreja. Pelo sacramento do Matrimônio, os esposos ficam habilitados a representar esta fidelidade e a dar testemunho dela. Pelo sacramento, a indissolubilidade do Matrimônio adquire um sentido novo e mais profundo. O Senhor Jesus insistiu na intenção original do Criador, que queria um matrimônio indissolúvel. E abrogou as tolerâncias que se tinham infiltrado na antiga Lei. Entre batizados, o matrimônio rato e consumado não pode ser dissolvido por nenhum poder humano, nem por nenhuma causa, além da morte”6.

Divórcio e Segundas Núpcias

Irmã Farley escreve: “Se há filhos do matrimônio, os ex-cônjuges deverão ajudar-se reciprocamente por anos, talvez por toda a vida, no projeto familiar empreendido. De qualquer modo, as vidas de duas pessoas uma vez casadas continuam marcadas pela experiência do matrimônio. A profundidade daquilo que resta admite graus, mas algo resta. No entanto, aquilo que resta impede um segundo matrimônio? Acho que não. Qualquer tipo de obrigação que implique um empenho não deve incluir a proibição de um novo matrimônio – pelo menos não tanto quanto a ligação atual entre os esposos resulte numa tal proibição para quem continua vivo depois da morte do cônjuge” (p. 310).

Tal visão contradiz a doutrina católica que exclui a possibilidade de segundas núpcias depois de um divórcio: “Hoje em dia e em muitos países, são numerosos os católicos que recorrem ao divórcio, em conformidade com as leis civis, e que contraem civilmente uma nova união. A Igreja mantém, por fidelidade à palavra de Jesus Cristo («quem repudia a sua mulher e casa com outra comete adultério em relação à primeira; e se uma mulher repudia o seu marido e casa com outro, comete adultério»: Mc 10, 11-12), que não pode reconhecer como válida uma nova união, se o primeiro Matrimônio foi válido. Se os divorciados se casam civilmente, ficam numa situação objetivamente contrária à lei de Deus. Por isso, não podem aproximar-se da comunhão eucarística, enquanto persistir tal situação. Pelo mesmo motivo, ficam impedidos de exercer certas responsabilidades eclesiais. A reconciliação, por meio do sacramento da Penitência, só pode ser dada àqueles que se arrependerem de ter violado o sinal da Aliança e da fidelidade a Cristo e se comprometerem a viver em continência completa.”7

Conclusão

Com esta Notificação, a Congregação para a Doutrina da Fé expressa profundo pesar pelo fato de que um membro de um Instituto de Vida Consagrada, a Irmã Margaret A. Farley, R.S.M., afirme posições em contraste direto com a doutrina católica no âmbito da moral sexual. A Congregação previne os fiéis de que o livro Just Love. A Framework for Christian Sexual Ethics não é conforme à doutrina da Igreja e portanto não pode ser utilizado como válida expressão da doutrina católica nem para a direção espiritual e formação, nem para o diálogo ecumênico e inter-religioso. A Congregação deseja além disso encorajar os teólogos a fim de que prossigam na tarefa do estudo e do ensinamento da teologia moral em plena conformidade com os princípios da doutrina católica.

O Sumo Pontífice Bento XVI, durante a Audiência concedida ao abaixo assinado Cardeal Prefeito, em data de 16 de março de 2012 aprovou a presente Notificação, decidida na Sessão Ordinária desta Congregação em data de 14 de março de 2012, e mandou que se publicasse.

Roma, da Sede da Congregação para a Doutrina da Fé, 30 de março de 2012.

William Cardeal Levada
Prefeito




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