BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

CATECISMO SOBRE A PORÇÃO DOBRADA DO ESPÍRITO (SANTO ELIAS E SANTO ELISEU).

 

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

A SERVIÇO DO CATOLICISMO

DÁ-ME A PORÇÃO DOBRADA

DO TEU ESPÍRITO


A frase de 2 Reis 2, 9 — “Peço-te que me toque por herança a porção dobrada do teu espírito” — tem sido objeto de meditação por diversos Padres da Igreja, que a interpretaram tanto de forma espiritual quanto tipológica. A seguir, apresento um apanhado das principais interpretações Patrísticas sobre essa expressão, especialmente centrada na relação entre Elias e Eliseu, e transpondo-o para a vida espiritual do cristão.

Essa comparação aprofunda ainda mais o valor espiritual da “porção dobrada do espírito” à luz da tradição carmelita. A seguir, farei um “paralelo entre as interpretações patrísticas” e os “ensinamentos dos místicos carmelitas”, sobretudo São João da Cruz e Santa Teresa de Jesus, que não comentaram diretamente 2 Reis 2, 9, mas viveram e ensinaram segundo o mesmo espírito.


Meditação Patrística: 

“Dá-me a porção dobrada do teu espírito”.

Inspirada em 2 Reis 2, 9: “Quando passaram o Jordão, Elias disse a Eliseu: ‘Pede o que queres que eu te faça antes que seja levado de ti’. Eliseu respondeu: ‘Que me seja dada a porção dobrada do teu espírito’”. (2 Reis 2, 9)

1. O pedido do discípulo fiel,

a porção dobrada como 

plenitude do Espírito Santo.

O discípulo não pede ouro, nem fama, nem descanso. Ele pede o Espírito — e não em qualquer medida, mas “em porção dobrada”. Os Santos Padres veem aqui o coração do verdadeiro seguidor: aquele que anseia não tanto por dons exteriores, mas pela herança espiritual do seu mestre.

São João Crisóstomo interpreta essa porção dobrada não como superioridade de Eliseu sobre Elias, mas como uma intensificação da graça necessária para sua missão. Ele sugere que Eliseu pediu não “mais” do que Elias tinha, mas “o necessário” para continuar sua obra profética diante de um povo ainda mais endurecido.

Não é que Eliseu quisesse ser maior do que seu mestre, mas que reconhecia a grandeza do peso que herdaria. Por isso, pede o dobro: não em orgulho, mas em humildade”.

(Homilia sobre 2 Reis, fragmento atribuído)

A Porção Dobrada: Espiritualidade Carmelitana.

1. “Desejo ardente do Espírito”.

Santos Padres: Eliseu pede intensamente o Espírito — um desejo santo, humilde e ousado.

Os Místicos Carmelitas

Santa Teresa ensina que Deus dá muito à alma que “deseja muito”, e que o progresso espiritual começa com um desejo firme de avançar:

Importa muito, e tudo, uma grande e determinada determinação de não parar até alcançar a fonte.” (Caminho de Perfeição, cap. 21)

São João da Cruz ensina, que o Espírito se comunica à alma que se esvazia totalmente:

Deus dá-se totalmente à alma na medida em que ela totalmente se entrega”. (Dito Espiritual 56)

Assim como Eliseu pediu com intensidade, o místico carmelita “clama por uma união mais profunda com Deus”. A “porção dobrada” é símbolo do “anseio pela plenitude da vida interior”.

Aqui me pergunto: O que tenho pedido a Deus? Tenho buscado o Espírito com a mesma ousadia e confiança de Eliseu?

2. Porção dobrada como herança do primogênito.

Herdeiro do Espírito – filho no Espírito.

Elias não tinha filhos carnais, mas Eliseu se tornou filho “no Espírito”. É este o nascimento que conta no Reino de Deus: nascer do alto (Jo 3, 3), ser gerado por mestres santos e incorporado à linhagem dos que vivem pela fé.

O Espírito não se transmite por carne, mas por herança de obediência e comunhão. Eliseu é filho porque caminhou, serviu e seguiu Elias até o fim”. (Santo Ambrósio)

Vários Padres, como Santo Ambrósio e São Gregório de Nissa, fazem uma analogia com a lei mosaica, onde o primogênito recebia uma “porção dobrada” da herança (cf. Dt 21, 17). Assim, Eliseu é visto como o “herdeiro espiritual” de Elias, recebendo o papel de continuador de sua missão profética.

Assim como o primogênito recebia porção dobrada, Eliseu, filho do espírito de Elias, recebe não para dominar, mas para servir com maior poder”. (Santo Ambrósio, “De Spiritu Sancto”, II, cap. 11)

Os Místicos Carmelitas

Místicos Carmelitas: O caminho carmelita é profundamente filial. A alma é chamada a ser filha no Espírito, “modelando-se a Cristo e à Virgem Maria”, como fez Santa Teresa de Jesus ao fundar o Carmelo reformado “em obediência e humildade”.

O verdadeiro amor de Deus cresce quando cresce a humildade. E esta é a herança dos que seguem os Seus santos.” (Livro da Vida, cap. 13)

São João da Cruz vê o discipulado espiritual como um processo de “transformação pelo amor”, que leva o discípulo à semelhança com o Mestre – uma herança viva.

Tenho sido um verdadeiro filho espiritual? Tenho me deixado formar, moldar e herdar não apenas ensinamentos, mas o espírito dos santos?

3. Porção dobrada como figura de Cristo e da Igreja:

A missão redobrada da Igreja e a plenitude da graça.

Alguns Padres veem Elias como figura de Cristo, e Eliseu como figura da Igreja. Elias foi levado ao céu; Eliseu recebeu o Espírito. Cristo subiu ao Céu; e sobre nós foi derramado o Espírito em Pentecostes. — A “porção dobrada” de Eliseu anuncia uma efusão “ainda maior” do Espírito Santo sobre a Igreja nascente, maior em manifestação, porque agora se estende a todos os povos.

Santo Agostinho faz eco dessa leitura: “Elias foi levado ao céu, e Eliseu recebeu o Espírito dobrado. Cristo ascendeu aos céus, e enviou o Espírito não só sobre um, mas sobre todos. Multiplicou-se a herança, porque cresceu o Corpo”. (Sermão 268, 2)

Nós somos “Eliseus” depois de Pentecostes. Recebemos não apenas sinais, mas a plenitude dos Sacramentos, a Palavra, o Corpo de Cristo. “Estamos vivendo à altura dessa herança dobrada?”

Os Místicos Carmelitas

Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz ensinam que o Espírito Santo “age com abundância” na alma que se dispõe. A mística carmelita não se contenta com “graças comuns” – a ela busca a “porção dobrada” das graças “infusas, transformantes, unitivas”.

A alma chega à união divina quando já não vive por si mesma, mas pelo Espírito.” (Subida do Monte Carmelo, II, 5)

Esta “porção dobrada” não é carisma externo, mas “graça interior de união transformante”, que inflama a alma como o carro de fogo de Elias.

4. Porção dobrada como progressão na vida espiritual:

A travessia do Jordão, a Noite Escura e a união com Deus.

Antes de receber o Espírito, Eliseu atravessa o Jordão. Para os Santos Padres, o Jordão simboliza o desapego, a passagem da vida antiga para a nova, ou seja, a morte para o mundo e o nascimento para Deus. Só recebe a porção dobrada quem ousa deixar tudo — terra, mestres, glória — e atravessar com coragem para o outro lado.

O discípulo passa o Jordão e vê o mestre elevado aos céus. Este é o caminho da alma: atravessar o mundo e contemplar o céu”. (Orígenes)

Orígenes, sempre inclinado ao sentido místico, interpreta a porção dobrada como símbolo da passagem da “vida ativa” (representada por Elias) para a “vida contemplativa e mística” (representada por Eliseu). O “dobro” representa a plenitude da santidade que se dá a quem vai além da ação e alcança a união.

Eliseu pede o dobro, porque deseja subir do serviço ao repouso, da ação ao êxtase”. (Homilias sobre 2 Reis)

Os Místicos Carmelitas

Para São João da Cruz, o caminho para a união com Deus passa “necessariamente pela Noite Escura”, que é o grande Jordão da alma:

A alma deve passar por uma noite escura, onde nada vê, nada sente, nada compreende, para receber tudo de Deus.” (Noite Escura, I, 8)

A “porção dobrada” só é dada à alma que passa pelo despojamento radical, como Eliseu que abandona tudo e atravessa com Elias. “A travessia é o caminho da cruz, da fé pura e do amor nu”.

Tenho coragem de atravessar o meu Jordão? De deixar o conhecido, o confortável, o que me prende… para seguir o Espírito?

Resumo das interpretações

Sentido Patrístico _ Significado da “porção dobrada”.

Carismático (Crisóstomo) - Intensificação do Espírito para missão profética.

Legal/hereditário (Ambrósio, Gregório) - Herança espiritual de primogênito.

Cristológico-Eclesial (Agostinho) - Efusão do Espírito na Igreja pós-Pentecostes.

Místico (Orígenes) - Progresso da alma na vida espiritual.

Conclusão: Um mesmo Espírito.

A “porção dobrada” pedida por Eliseu e interpretada pelos Padres da Igreja não é algo exterior ou carismático apenas: é símbolo de um “estado de alma” que anseia por mais de Deus, que se dispõe a atravessar a purificação e a seguir o Espírito com fé ardente.

Este é exatamente o espírito da “via carmelitana”:

• Desejo profundo e absoluto por Deus (como Eliseu).

• Herança espiritual recebida pela humildade e obediência (como Teresa).

• Despojamento total para que o Espírito opere (como João da Cruz).

• Travessia dolorosa, mas gloriosa até a união (como a Noite Escura).

“Pedi muito: não a metade, mas a plenitude. Pedi não uma luz, mas o fogo. E Deus, que é generoso, vos dará não apenas porção dobrada, mas herança eterna”.

Por que Santo Elias delegou a porção dobrada 

do seu espírito a Santo Eliseu, 

só depois de atravessar o rio Jordão?

A travessia do rio Jordão antes da concessão da porção dobrada do espírito de Elias a Eliseu tem um profundo simbolismo espiritual e cultural. Esse momento, narrado em 2 Reis 2, representa mais do que uma simples jornada física — é uma transição legando, autoridade e missão profética.

Significado da travessia

  • Separação simbólica: O Jordão era frequentemente visto como um limite entre o velho e o novo. Ao atravessá-lo, Elias e Eliseu estavam deixando para trás o ministério anterior e entrando em uma nova fase.

  • Prova de fidelidade: Eliseu acompanhou Elias até o fim, recusando-se a deixá-lo, mesmo quando incentivado a ficar. Isso demonstrou sua devoção e preparo para assumir o ministério.

  • Testemunho necessário: Elias disse que Eliseu só receberia a porção dobrada se o visse sendo levado ao céu. A travessia e o momento posterior foram parte dessa condição divina.

O que é a porção dobrada?

  • Herança espiritual: Eliseu não pediu o dobro de poder, mas sim o direito de ser o principal sucessor espiritual de Elias — como um filho primogênito que recebe porção dobrada da herança, conforme Deuteronômio 21, 174.

  • Compromisso com o chamado: Eliseu queria continuar o ministério profético com ainda mais dedicação, assumindo os desafios e responsabilidades que viriam com isso.

Esse momento à beira do Jordão é como um rito de passagem. Elias não apenas testou Eliseu, mas também o preparou para o peso da missão que viria. E quando Elias foi levado ao Céu em um redemoinho, Eliseu recebeu seu manto — e com ele, a confirmação de que o espírito de Elias repousava sobre ele.

Mostre-me como essa história se conecta

com outros momentos bíblicos de sucessão espiritual.

A sucessão espiritual é um tema recorrente na Bíblia, e a história de Elias e Eliseu é apenas uma entre várias que revelam como Deus prepara e transfere autoridade para novos líderes. Aqui estão alguns exemplos marcantes:

Elias e Eliseu

(2 Reis 2)

  • Elias passa seu manto profético a Eliseu após ser levado ao Céu.

  • Eliseu recebe a porção dobrada do espírito de Elias, simbolizando continuidade e expansão do ministério.

Moisés e Josué

(Deuteronômio 31; Josué 1)

  • Moisés, já idoso, reconhece que não pode mais liderar e transfere a liderança a Josué.

  • Josué é encorajado a ser forte e corajoso, pois Deus estaria com ele como esteve com Moisés.

  • Representa a transição de libertação para conquista.

Saul e Davi

(1 Samuel 16; 2 Samuel 5)

  • Deus rejeita Saul e escolhe Davi como rei.

  • Embora a sucessão seja conturbada, Davi é ungido por Samuel e assume o trono com legitimidade divina.

  • Mostra que a sucessão pode envolver conflitos, mas o propósito de Deus prevalece.

Eli e Samuel

(1 Samuel 3)

  • O sacerdote Eli falha em corrigir seus filhos, e Deus levanta Samuel como novo profeta.

  • Samuel ouve a voz de Deus ainda jovem, marcando o início de uma nova era profética.

Jesus e os Apóstolos

(João 14–17; Atos 1–2)

  • Jesus prepara seus discípulos para continuar sua missão após sua ascensão.

  • Promete o Espírito Santo como capacitação para a missão.

  • Pedro assume papel de liderança, e o Espírito é derramado em Pentecostes.

Essas histórias mostram que:

  • A sucessão espiritual exige preparo, obediência e fidelidade.

  • Deus confirma seus escolhidos com sinais, palavras proféticas ou autoridade espiritual.

  • A transição é muitas vezes marcada por provação, coragem e renovação.

Quais foram os comentários 

dos Santos Padres sobre isso?

Os Santos Padres da Igreja — como Santo Agostinho, São Gregório de Nissa, São Basílio de Cesareia e outros — comentaram amplamente sobre sucessão espiritual, especialmente em contextos de transmissão da fé, autoridade e carismas dentro da Igreja. Embora nem todos tenham se referido diretamente à história de Elias e Eliseu, muitos abordaram temas que se conectam profundamente com esse episódio.

Temas recorrentes nos comentários patrísticos

sobre sucessão espiritual

  • Continuidade da fé apostólica: Os Padres viam a sucessão como essencial para preservar a doutrina verdadeira. São Basílio, por exemplo, defendia que a fé deve ser transmitida com fidelidade desde os Apóstolos, e que os bispos são guardiões dessa herança.

  • Transmissão de autoridade espiritual: Santo Agostinho destacou que a autoridade espiritual não é apenas institucional, mas também carismática — como no caso de Eliseu recebendo o espírito de Elias. Ele via isso como sinal da ação do Espírito Santo na Igreja.

  • Obediência e humildade como pré-requisitos: São João Crisóstomo ensinava que o discípulo deve ser obediente e humilde para receber a graça e a missão do mestre. Eliseu, ao seguir Elias até o fim, exemplifica essa postura.

  • Ação do Espírito Santo: Os Padres afirmavam que a verdadeira sucessão espiritual só ocorre quando há intervenção divina. São Gregório de Nissa via o Espírito como o elo entre gerações de líderes espirituais, garantindo que a missão não fosse apenas humana, mas divina.

Onde encontrar esses comentários?

Você pode explorar obras patrísticas como:

  • Confissões e A Cidade de Deus, de Santo Agostinho

  • Homilias sobre Elias, atribuídas a São João Crisóstomo

  • Tratado sobre o Espírito Santo, de São Basílio

  • Compilações como Deus Pai nas Fontes Patrísticas, que reúne reflexões sobre a paternidade divina e sucessão espiritual

Mostre-me trechos 

específicos desses textos.

Aqui estão trechos patrísticos específicos que abordam a sucessão espiritual e apostólica, especialmente em relação à transmissão da autoridade e da fé:

Santo Irineu de Lião – Contra as Heresias (Adversus Haereses)

“Onde está a Igreja, aí está o Espírito de Deus; e onde está o Espírito de Deus, aí está a Igreja e toda graça. O Espírito é a verdade.” (Livro III, capítulo 24, parágrafo 1) Irineu defende que a sucessão dos bispos garante a preservação da verdade apostólica.

“Os Apóstolos instituíram bispos nas Igrejas e entregaram-lhes a sucessão, para que, ao morrerem, outros homens provados lhes sucedam.” (Livro III, capítulo 3, parágrafo 1)

Esse trecho é um dos mais claros sobre a sucessão espiritual como continuidade legítima da missão apostólica.

Santo Agostinho – A Cidade de Deus

“A Igreja, desde os tempos dos Apóstolos, é sustentada por uma sucessão de pastores que, pela graça do Espírito Santo, guardam o depósito da fé.” Agostinho reforça que a autoridade espiritual não é apenas institucional, mas carismática e sustentada pela ação divina.

São Basílio de Cesareia – Tratado sobre o Espírito Santo

“O Espírito Santo distribui seus dons como quer, e é por Ele que os ministros da Igreja são ordenados e confirmados.” (Capítulo 16, parágrafo 39) Basílio vê o Espírito como o agente direto da sucessão espiritual e da harmonia entre os líderes da Igreja.

Santo Inácio de Antioquia – Carta aos Esmirnenses

“Onde está o bispo, aí esteja o povo, como onde está Cristo Jesus, aí está a Igreja Católica.” (Capítulo 8) Inácio defende a unidade e autoridade episcopal como reflexo da presença de Cristo e da continuidade apostólica.


Oração final:


Senhor, como Eliseu, eu Te peço:

Dá-me porção dobrada do Teu Espírito.

Não para glória minha,

mas para carregar o peso da Tua missão.


Dá-me o Espírito do fogo,

que purifica e consome todo egoísmo.

Dá-me o Espírito da paz,

que sabe esperar em silêncio como Elias na caverna.


Ensina-me a ser filho no Espírito,

fiel até o fim,

disposto a seguir-Te até que o céu se abra

e Tua glória me toque.

Amém.


domingo, 2 de novembro de 2025

A IGNORÂNCIA RELIGIOSA É A ESTRADA LARGA DA PERDIÇÃO.


E, em coisas de Religião,

uma grande parte

de homens de nosso tempo

deve ser considerada ignorante”

(São Pio X, Carta Encíclica “Acerbo Nimis”, de 15/4/1905).

O Senhor Deus no Antigo Testamento já dizia, pela boca do profeta Oséias: “... o Senhor vai entrar em juízo com os habitantes desta terra, porque não há verdade, nem há misericórdia, nem há conhecimento de Deus nesta terra... O meu povo calou-se, porque não teve ciência... E o povo (insensato e) sem entendimento será castigado…” (4, 1-14). Lendo-se o capítulo todo veremos a multidão de desgraças que procede de tal ignorância.

Vejamos outra consequência resultante da falta de conhecimento da Lei de Deus. O Senhor Deus, pela boca do profeta Jeremias, diz: “(para os castigar) deixei a Minha Casa, abandonei a Minha herança; entreguei a que era as delícias da Minha Alma, nas mãos dos seus inimigos... porque não há ninguém que considere no seu coração (a Minha Lei)” (12, 7-11).

O Papa São Pio X ensina: “Por isso, o Nosso Predecessor Bento XIV justamente escreveu: 'Afirmamos que a maior parte dos condenados às penas eternas padecem sua perpétua desgraça, por ignorarem os Mistérios da Fé, que necessariamente se devem conhecer e crer, para se ser contado no número dos eleitos' (Instit. XXVII, 18)” (Carta Encíclica “Acerbo Nimis”, de 15/4/1905).

Foi a ignorância uma filha perniciosa, que nasceu da primeira culpa, e depois, passou a ser mãe, de quem nascem muitos e muitos pecados abomináveis; e não há pior, nem ignorância mais perniciosa do que aquela, que muito contente de si mesma, não busca o seu desengano. Tal acontece a muitos católicos, que, vivendo na cegueira dos seus erros e na falta dos seus deveres, não sabem, nem procuram saber a sã doutrina para a praticarem e se salvarem; e vivem muito satisfeitos. Tendo todos dois caminhos a seguir, um que conduz ao Céu pela Doutrina Cristã, o outro que leva ao Inferno pela ignorância das obrigações, muitas almas cristãs se deixam iludir, caem em muitas culpas, e depois no fogo eterno, porque não procuram saber os seus deveres. O mundo todo está cheio destes ignorantes na Doutrina Cristã, porque não sabem no perigo em que vivem.

Diz Deus Espírito Santo: “Filho meu, ouve os Meus discursos, e inclina o teu ouvido às Minhas palavras. Nunca às percas de vista; conserva-as no íntimo do teu coração, porque são vida para os que as acham, e saúde para toda a carne” (Prov. 4, 20-22). Portanto, irmãos, tratemos de ouvir e de aprender tudo o que a Santa Madre Igreja Católica nos ensina através da Doutrina Cristã.

Aos desavisados, Santa Joana d'Arc ensina: “Quanto a Jesus Cristo e à Igreja, parece-me que são uma só coisa, e que não há questionamento sobre isto” (in Actes du Procès).

São Francisco de Sales ensina: “A Doutrina Cristã propõe-nos claramente as verdades que Deus quer que creiamos, os bens que quer que esperemos, as penas que quer que temamos, o que quer que amemos, os Mandamentos que quer que guardemos e os Conselhos que deseja que sigamos. E tudo isso se chama a Vontade significada de Deus, porque Ele nos significou e manifestou que quer e exige que tudo isso seja crido, esperado, temido, amado e praticado” (Traité de l'Amour de Dieu, 2, VIII, c. 3).

No capítulo sétimo, do Livro da Sabedoria, diz o Sábio: 'Desejei a inteligência e ela me foi dada; invoquei a Deus, e veio a mim o espírito da Sabedoria, e a preferi aos reinos e aos tronos e julguei que as riquezas nada valiam em sua comparação; nem pus em paralelo com ela as pedras preciosas; porque todo o ouro em sua comparação é uma pouca de areia, e a prata é como lodo a sua vista' (7, 7). A verdadeira sabedoria, em que havemos de pôr os olhos, é a perfeição, que consiste em nos unirmos com Deus por amor, conforme aquilo do Apóstolo: 'Sobre toda as coisas porém tende caridade, que é vínculo da perfeição' (Col. 3, 14), e nos ajunta e une com Deus... e assim diz o Profeta Jeremias: 'Não se glorie o sábio na sua sabedoria nem o forte em sua fortaleza, nem o rico em suas riquezas, mas só nisto se glorie o que se quiser gloriar, em saber-Me e reconhecer-Me a Mim' (9, 23-24). Este é o maior dos tesouros, conhecer, amar e servir a Deus: este é o maior negócio que podemos ter: antes não temos outro, porque para Ele fomos criados e para isso viemos à Religião: este é o nosso fim, e este há de ser o nosso paradeiro, nosso descanso e nossa glória... Certamente (diz S. Fulgêncio, Abade) no dia do Juízo não nos perguntarão o que lemos, mas o que fizemos, nem se falamos bem, mas se honestamente vivemos (De Imit. Christi, I, 3; S. Luc. X, 20)” (Santo Afonso Rodrigues, “Exercício de Perfeição e Virtudes Cristãs”, Tomo I, Tratado 1º, cap. I; versão do Castelhano por Fr. Pedro de Santa Clara, ed. da Federação das Congregações Marianas do Estado de São Paulo, 1926).

Oh! A Doutrina Cristã é quem nos ensina a servir a Deus, e que dirige nossos passos pelo caminho da paz da consciência, como diz São Bernardo de Claraval, Doutor da Igreja. Assim como o nosso corpo sem respiração não pode viver, também a nossa alma sem conhecimento de Deus e da Sua Doutrina não pode subsistir na Graça do mesmo Deus, e salvar-se, como diz São Basílio.

São Paulo nos diz: 'Se alguém ignora as suas obrigações, será ignorado; se alguém desconhece a Deus ou a Sua Doutrina, será de Deus desconhecido' (cfr. I Cor. 14, 3-38)” (R. Pe. Fr. Manuel da Madre de Dios, O.C.D., “Práticas Mandamentais ou Reflexões Morais sobre os Mandamentos da Lei de Deus, e os abusos que lhes são opostos”, 1871).

E é bem certo, que o Demônio nenhuma coisa procura tanto, como impedir o conhecimento da Doutrina e coisas santas; porque desta ignorância se aproveita para introduzir a maldade; e deste modo ganha imensas almas para o Inferno. Ai! Quantas almas eles assim caçam e levam ao Inferno! Eles obrigados por Deus chegaram a confessar de uma vez, que agradeciam muito a alguns Prelados, Pastores e chefes de famílias o pouco cuidado que tinham em ensinar a Doutrina Cristã; porque daí resultava colherem muitas almas para o Inferno; assim o declararam, quando se celebrava um Concílio Provincial em França.

Pode ser que algum espírito esclarecido de nossa época não acredite nesta história, por isso, vem em nosso auxílio um grave testemunho:

Conta Thomás de Cantimpré que, em 1248, um Sacerdote foi encarregado de fazer um discurso ao Clero de Paris, reunido em Sínodo. Este Sacerdote era muito ignorante e, estando na presença de seu auditório, se confundiu completamente. Então o Demônio veio em sua ajuda e lhe sugeriu que pronunciasse as seguintes palavras: 'Os Príncipes das Trevas saúdam os Príncipes da Igreja, e nós lhes agradecemos vivamente pela negligência em instruir ao povo, pois, as almas estagnadas na ignorância, seguem o caminho do mal e chegam ao Inferno'. Linguagem semelhante bem se poderia dirigir a certos pais” (Sermons de S. Alphonse de Liguori, Analyses, Commentaires, Exposé du Système de as Prédication, par le R. P. Basile Braeckman, de la Congrégation du T. S. Rédempteur, Tome Second. Jules de Meester – Imprimeur – Éditeur, Roulers, pp. 464-472).

Deus Espírito Santo continua a nos dizer: “Ensina ao justo, e ele se apressará em aprender” (Prov. 9, 9).

Santo Efrém, Doutor da Igreja, estando a orar, ouviu uma voz que lhe disse: “Parte e come”. Que ei de comer, respondeu ele, ou quem o há de dar a mim? “Vai a Basílio, ouviu outra vez, vai a Basílio, e ele te ensinará e dará o pão”. Partiu Efrém, e achou São Basílio a ensinar doutrina, e então, conheceu qual o pão que devia procurar. Almas cristãs que me ouvis, novos e velhos, pequenos e grandes, vinde todos à doutrina, e procurai quem vos instrua nas coisas de Deus; não fiqueis, nem andeis mais nessa ignorância e no risco de vos perderdes; atendei-me e acreditai-me, que talvez só por falta de doutrina andareis em Pecado Mortal, e assim ireis sem remédio ao Inferno.

Deus Espírito Santo nos ensina: “Filho, se Me deres atenção, aprenderás, e, se aplicares o teu espírito, serás sábio. Se Me ouvires receberás a instrução, e, se fores amigo do ouvir, serás sábio” (Eclo. 6, 33-34).

"Imenso é o número, e aumenta de dia para dia, daqueles que ignoram a Religião inteiramente, ou que não têm da Fé Cristã, senão um conhecimento tal que lhes permite, no meio da luz da Verdade Católica, viver à maneira dos idólatras. Ah! Que avultado número e não somente entre as crianças, mas ainda entre os adultos e os velhos, que não conhecem absolutamente nada dos principais Mistérios da Fé, e que, ouvindo o Nome de Cristo, respondem: 'Quem é... para que eu creia Nele?' (S. Jo. 9, 36). Por isso, não consideram como vício conceber e alimentar ódios contra outrem, realizar os contratos mais iníquos, exercer profissões desonestas, emprestar dinheiro com usura e praticar outras ações não menos condenáveis. Por isso, ignorando a Lei de Cristo, que proíbe não somente fazer coisas vergonhosas, mas também pensar nelas e desejá-las conscientemente, muitas pessoas, ainda que, talvez por uma outra causa, se abstenham de prazeres vergonhosos, acolhem todavia no seu espírito os piores pensamentos, que nenhuma noção religiosa afasta, multiplicando assim as iniquidades indefinidamente. E estes vícios, Nós o repetimos, encontram-se não somente nas populações dos campos ou na porção miserável do povo, mas também, e talvez mais frequentemente, entre os homens de uma condição mais elevada, compreendendo neste número aqueles a quem a ciência incha, e que, apoiados numa vã erudição, se julgam autorizados a ridicularizar a Religião e 'blasfemam de tudo quanto ignoram' (Jud. 10)" (Papa São Pio X, Carta Encíclica "Acerbo Nimis", de 15 de Abril de 1905; cfr. D. Santiago José Garcia Mazo, "O Catecismo da Doutrina Cristã Explicado ou Explicações do Catecismo de Astete", p. 36, 6ª Edição, Porto, 1905).


quarta-feira, 29 de outubro de 2025

A ABOMINAÇÃO NO TEMPLO SANTO: A IMODÉSTIA NA IGREJA.


Três inimigos porfiam nesta tentativa sacrílega (de expulsar Deus da sociedade humana como um Hóspede importuno): a falsa ciência, a falsa política e a falsa religião. Um guerreia a Deus nos domínios da criação material; outro O guerreia no regime e governo das sociedades humanas; e o terceiro O guerreia dentro do próprio Templo! Um nega o Dogma da Criação do Mundo por Deus, e, já para uma multidão de homens, o Mundo é eterno, não teve princípio nem terá fim! Outro nega o Dogma da Providência Divina na marcha das sociedades humanas, e já para uma multidão de homens Deus nada tem que ver com as Leis, os Códigos, a Educação, o Ensino, nem mesmo com o Casamento, o Lar doméstico e a Família! O terceiro não respeita e despreza, o que importa negar praticamente, o Dogma da Eucaristia, isto é, a Presença Real de Jesus Cristo no Templo, e já para uma multidão de falsos devotos, o Templo não é verdadeiramente a Casa de Deus!

Três abominações! Três grandes calamidades da nossa época! E como são absurdas!”

Falaremos apenas do terceiro inimigo mortal de Deus.

"Sem dúvida, o universo inteiro é um templo cheio da glória de Deus, presente em todos os lugares (como Criador e Provedor), tendo direito a receber as homenagens do homem! Impossível ao homem, onde quer que esteja, evitar a Presença de Deus!

A Presença de Deus, de tal modo consagra o universo que, em todos os lugares, por toda a parte, devemos estar puros e isentos de toda mácula, certos de que o olhar divino está fixo sobre cada um de nós, e pecar não podemos sem profanar o universo. Há no universo, entretanto, lugares especialmente consagrados à Divindade, e onde o Deus Redentor quer habitar verdadeiramente no Mistério inefável da Eucaristia, que responde e perpetua a Vida de Jesus Cristo dando-se aos homens, em todas as suas prodigalidades, tão realmente como se deu nos 33 anos da vida Humana na Judeia.

Belém, Egito, Nazaré, Cafarnaum, Tabor, Betânia, Jerusalém, Getsêmani e Calvário, ─ não são para os que penetram num Templo Católico, cidades ou lugares remotos; são episódios vivos que devemos contemplar; Mistérios, de que podemos nos utilizar; continuações místicas, porém, reais, do Verbo Divino, porque a Eucaristia reproduz realmente a Sua Encarnação, e, reproduzindo-a, de novo Ele nasce, de novo cresce, de novo se desenvolve, de novo prega, de novo se imola e se crucifica, de novo morre e de novo ressuscita.

Ó! Como é bela, como é sublime esta Verdade da Fé! Também a Eucaristia é a Glória da Igreja! E se dos nossos Templos tirardes o Deus oculto, mas Real, que reside nos Tabernáculos, esses Templos não serão mais do que casas de pedra, vazias como as casas de oração dos Protestantes…

À beleza e à sublimidade da verdade eucarística corresponde necessariamente um dever, cuja infração não pode deixar de ser a Abominação do Templo: ─ o dever da reverência ─ que, se em todo o universo é devido a Deus, no Templo o é de um modo especial, e não se pode compreender que se realize sem uma disposição de Inocência, ou ao menos, de Penitência, sem o Recolhimento do espírito, sem a Decência ou a Modéstia exterior.

Quanto à Inocência ou à Penitência, quantos homens atualmente frequentam os Templos com esta disposição?! A Igreja não repeli nenhum pecador, mas quer que o pecador, vindo ao Templo, comparecendo perante a Majestade do Deus Redentor, traga ao menos desejos de justiça e de penitência, quer que compreenda que, sentir-se culpado de pecados e não pensar nos meios de resgatá-los; ter o coração corrompido e não querer os remédios, que o podem regenerar; separar-se de Jesus Cristo, e nem no lugar onde Ele reside aceitar a União que a Igreja lhe propõe, é desprezar Jesus Cristo, insultar o seu amor, e zombar do Ministério de seus Sacerdotes.

Quanto ao Recolhimento, é preciso que ele se traduza em adoração, ação de graças e súplica. Quantos homens, dos que frequentam atualmente os Templos da Cristandade, verdadeiramente se prostram diante do Deus Redentor?! Como compreender que tantos homens estejam nos Templos sem nenhum sinal de aniquilamento perante a Majestade de Deus, sem consciência da miséria de que estão cheios, sem nenhum sinal, nem indício em sua conduta, em seus atos, de que compreendem as grandezas e as maravilhas da Redenção?!

É no Templo que se reproduz incessantemente a Morte de um Deus, não sendo o altar, no Sacrifício da Missa, senão um outro Calvário, e a Missa, a mesma Imolação da mesma Vítima. É no Templo que está patente, como um poço de abundância, o poço Sacramental em que se lavam as máculas do pecado, e de onde o pecador sai mais puro e mais brando que a neve. É no Templo que o banquete das almas é servido à humanidade com uma simplicidade que disfarça a opulência, pois que o manjar desse banquete é a Carne, e o vinho desse banquete é o Sangue de um Deus. É no Templo que, rivalizando com os Sacramentos, a palavra do Padre, seja nas alturas do discurso sublime, seja nas simples efusões de uma prática familiar, reproduz os Ensinos do Divino Mestre! Desprezar tudo isto não é verdadeiramente profanar o Templo?!

Quanto à Decência e à Modéstia exterior, não são profanações sem nome fazer do luxo uma arma de guerra contra o Deus dos Pobres, mas que o é também dos Ricos?! Aparecer nos Templos não só com fausto e vaidade, mas também com imodéstia e imprudência, opondo aos gemidos e às lágrimas, que a Igreja pede pelos pecados, o brilho louco dos diamantes que deslumbram o mundo?! Fazer dos vestuários que não têm por fim senão o recato do corpo humano, meios, pelo contrário, de expor o corpo humano, como uma carne pública, às cobiças da luxúria?! Vir aos Templos disputar com Jesus Cristo os olhares e as homenagens que somente a Ele são devidos?!

Ah! Os católicos que veem ao Templo, não para humilhar-se, mas para saciar os vermes da consciência, esses profanam o Templo! E o seu proceder é, sem dúvida alguma, muito pior, muito mais abominável do que o orgulho da falsa ciência e a incapacidade da falsa política!

Ó! De todos os crimes desta época, o maior de todos e o que mais ultraja a Majestade Divina é a profanação do Templo, donde hoje, como de todos os outros lugares da terra, parece que O querem expulsar até mesmo aqueles que fazem profissão de piedade.

O Templo! Eis a última cidadela que resta a Jesus Cristo! Pouco falta, porém, que lhe seja arrancada; e, arrancada que seja, sitiada como já está pelo exército inimigo, cujas legiões são os Protestantes, os Espíritas, os Positivistas e os Maçons, entrará nele, arrogante, altivo, soberbo, esse que todas as línguas chamam o Anticristo!” 

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Fonte: R. Pe. Júlio Maria, C. Ss. R., “A Segunda Vinda de Jesus Cristo”, Cap. X, Estabelecimento de Artes Gráficas − C. Mendes Júnior, 1932).


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