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A PEDAGOGIA DINÂMICA
DA RESSURREIÇÃO DE CRISTO
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A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
A SERVIÇO DO CATOLICISMO
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No Evangelho de São Marcos (5, 21-43; Mt 9, 18-26; Lc 8, 40-56) lemos a narração da ressurreição da filha de Jairo, uns dos chefes da Sinagoga; e no Evangelho de São Lucas (7, 11-16), ouvimos o Evangelista narrar, a ressurreição do filho único da viúva de Naim; assim como também, no Evangelho de São João (11, 1-46), destaca-se a estupenda ressurreição de Lázaro, irmão de Santa Maria Madalena e Santa Marta, em Betânia, após 4 dias de morto. Três ressurreições operadas por Jesus Cristo, mas que operadas com dinâmicas progressivas: na da filha de Jairo, Jesus realiza o prodígio em sua casa, logo após a sua morte; na do único filho da viúva de Naím, Jesus manifesta o seu Divino poder, fora do âmbito familiar, e com certeza após certo tempo de falecido; mas, na ressurreição de Lázaro, o que torna-o grandioso e singular, é o fato do defunto estar sepultado por 4 dias, e já cheirando mau.
Colocadas as coisas assim, pergunto: 1) A sequência dos pormenores de cada ressurreição, têm algum ensinamento doutrinário a ser passado para as gerações futuras dos fiéis católicos. 2) Por que essas ressurreições, têm sempre como base a dor alheia e como resposta divina a Misericórdia? 3) O milagre operado por Santo Elias (1 Rs 17, 17-24) e os prodígios realizados por Santo Eliseu (2 Rs 4, 18-37 e 2 Rs 13, 20-21), diferem em algum ponto doutrinário dos operados por Jesus Cristo? 4) A Ressurreição por excelência, a Ressurreição de Jesus Cristo, diferencia moral e doutrinariamente destas anteriores e das manifestadas em São Mateus (27, 52-53), a realizada por São Pedro (At 9, 36-42), e a realizada por São Paulo (At 20, 7-12)? Responda-me com base no sentir unânime da Santa Igreja Católica.
Sim. Há, de fato, uma progressão teológica muito profunda nessas
narrativas. Mas é necessário, antes de tudo, fazer uma distinção
fundamental: a Igreja chama propriamente Ressurreição em sentido pleno
e definitivo à de Nosso Senhor Jesus Cristo; os demais casos são, em rigor,
revivificações ou reanimações dos mortos, pois aquelas pessoas voltaram à
vida mortal e, posteriormente, morreram novamente.
A chave para compreender tudo é esta:
Elias e Eliseu ressuscitam pela oração; os Apóstolos ressuscitam em nome
de Cristo e por Seu poder; Cristo ressuscita os mortos por Sua própria
autoridade divina; e Cristo ressuscita a Si mesmo pela força de Sua
própria Vida divina, vencendo definitivamente a morte.
Essa distinção permite responder às quatro perguntas.
I. A PROGRESSÃO DAS TRÊS REVIVIFICAÇÕES
OPERADAS POR CRISTO.
Os três Evangelhos Sinópticos e São João apresentam episódios que, lidos
conjuntamente, parecem formar uma verdadeira pedagogia progressiva do
poder de Cristo sobre a morte:
A filha de Jairo — Mc 5, 21-43; Mt 9, 18-26; Lc 8, 40-56.
O filho da viúva de Naim — Lc 7, 11-17.
Lázaro de Betânia — Jo 11, 1-46.
É muito significativo que a Igreja tenha conservado essas três
manifestações.
Podemos esquematizá-las assim:
Milagre |
Situação |
Lugar |
Estado do morto |
Palavra de Cristo |
Filha de Jairo |
morte recente |
casa |
acabara de morrer |
“Talitha cumi” |
Filho da viúva |
já sendo conduzido |
fora da casa |
morto e no cortejo fúnebre |
“Jovem, eu te ordeno: levanta-te!” |
Lázaro |
sepultado |
túmulo |
quatro dias morto |
“Lázaro, vem para fora!” |
Há, portanto, uma espécie de movimento:
quarto → caminho → sepulcro.
morte recente → morte já manifesta → morte consumada.
âmbito privado → âmbito público → diante do túmulo.
E quanto mais avançamos, mais Cristo manifesta que nenhum grau de
corrupção ou de distância da vida, constitui obstáculo para o seu poder.
II. PRIMEIRA ETAPA: “TALITHA CUMI”.
1. A Filha de Jairo.
Marcos conserva uma expressão aramaica extraordinariamente bela:
“Talitha
Cumi!”
“Menina,
eu te digo, levanta-te!”
(Mc 5, 41).
E o Evangelista acrescenta: “Imediatamente a menina se levantou e
começou a andar”.
A menina estava dentro da casa. A morte havia acabado de acontecer.
Cristo entra no ambiente familiar da dor.
E há algo belíssimo aqui: Cristo não trata a morte simplesmente como um
fenômeno biológico. Ele entra na casa onde existe sofrimento humano.
Jairo havia suplicado: “Minha filhinha está nas últimas; vem, impõe-lhe as
mãos para que seja salva e viva” (Mc 5, 23).
A Fé de Jairo é, portanto, o caminho pelo qual a Misericórdia entra
naquela casa.
III. SEGUNDA ETAPA: O FILHO DA VIÚVA DE NAIM.
Aqui acontece algo ainda mais impressionante.
Cristo não é chamado.
Ninguém pede explicitamente o milagre.
Lucas escreve: “Ao vê-la, o Senhor teve compaixão dela e disse-lhe: ‘Não chores!’” (Lc 7, 13).
Este versículo é teologicamente importantíssimo.
A iniciativa é de Cristo.
Ele vê a dor.
Ele vê a mãe.
Ele vê a morte.
E então intervém.
“Jovem, eu te ordeno: levanta-te!” (Lc 7, 14).
O morto senta-se e começa a falar.
Aqui o poder de Cristo manifesta uma dimensão ainda maior: a
Misericórdia Divina, não precisa ser constrangida por uma súplica para
agir.
Jairo pediu.
A viúva não pediu.
Em ambos os casos, porém, encontramos Cristo.
Isso revela algo central da Doutrina Católica sobre a Graça:
Deus não é apenas aquele que responde à oração; é também aquele que,
em sua misericórdia, toma a iniciativa de socorrer.
IV. TERCEIRA ETAPA: LÁZARO — O CLÍMAX.
Aqui chegamos ao ponto culminante antes da Paixão.
São João faz questão de informar: “Já havia quatro dias que Lázaro estava no sepulcro” (Jo 11, 17).
E Marta diz: “Senhor, já cheira mal, porque está aí há quatro dias” (Jo 11, 39).
Isso não é um detalhe acidental.
O Evangelho quer que o leitor perceba: a morte já triunfou segundo todas
as aparências humanas.
Não é mais uma morte recente.
Não é alguém sendo levado ao sepultamento.
É um cadáver colocado no sepulcro.
E já começa a corrupção.
E precisamente aí, Cristo proclama: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11, 25).
Notemos a extraordinária diferença.
Cristo não diz: “Eu tenho a ressurreição”.
Ele diz: “EU SOU a Ressurreição”.
Não é simplesmente uma afirmação de que possui um poder recebido.
É uma manifestação de sua própria identidade.
E então ordena: “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11, 43).
São João Crisóstomo percebe precisamente a soberania dessa palavra:
Cristo não faz uma longa súplica para que Lázaro volte; Ele ordena.
É uma manifestação externa daquela autoridade, que pertence ao próprio
Deus sobre a vida e a morte.
V. MAS POR QUE QUATRO DIAS?
Aqui devemos evitar uma interpretação excessivamente alegórica, como se
a Igreja tivesse definido oficialmente, que cada dia correspondesse
obrigatoriamente a determinado estágio espiritual.
Isso não é dogma.
Contudo, há uma forte dimensão teológica e espiritual.
São João quer mostrar a irreversibilidade aparente da morte.
A pergunta de fundo é:
Se Cristo é Senhor somente da morte recente, ou também da morte já consumada?
Lázaro responde.
Também da morte consumada.
Por isso, São João relata: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em
mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11, 25).
O milagre de Lázaro é, portanto, muito mais que uma demonstração de
poder.
É um sinal.
São João não o chama simplesmente de “milagre”, mas emprega a
categoria dos sinais (semeia).
O que aconteceu a Lázaro aponta para aquilo que Cristo fará consigo
mesmo.
VI. A PROGRESSÃO NÃO É MERAMENTE CRONOLÓGICA.
E aqui está uma chave importante para sua pergunta.
A Igreja não nos obriga a afirmar:
“Jesus organizou três ressurreições para ensinar uma escala matemática: um dia, dois dias, quatro dias”.
Isso seria ir além do texto.
Mas, podemos afirmar com segurança: A sucessão dos relatos manifesta
progressivamente o domínio de Cristo sobre a morte.
E a Pedagogia chega ao seu ápice em Lázaro.
Por quê?
Porque, imediatamente depois da ressurreição de Lázaro, o Evangelho de
João começa a conduzir o leitor para a morte de Cristo.
Jo 11 termina praticamente abrindo o caminho para a conspiração:
“Desde aquele dia, decidiram matá-lo” (Jo 11, 53).
E então, vem a Paixão.
É como se o Evangelho dissesse: Aquele que acaba de arrancar Lázaro do
túmulo será Ele próprio colocado no túmulo.
Mas haverá uma diferença absoluta: Lázaro saiu do sepulcro para morrer
novamente. Cristo saiu do sepulcro para jamais morrer.
VII. POR QUE A MISERICÓRDIA ESTÁ PRESENTE
EM TANTOS DESSES MILAGRES?
Sua segunda pergunta toca o próprio coração do Evangelho.
A resposta é: porque Cristo não manifesta seu poder de modo frio ou
arbitrário; manifesta-o como expressão do amor misericordioso de Deus.
Veja Naim: “O Senhor teve compaixão dela” (Lc 7, 13).
Veja Betânia: “Jesus chorou” (Jo 11, 35).
Este é um dos versículos mais profundos de toda a Escritura.
O Verbo Eterno, por quem todas as coisas foram feitas, chora diante do
túmulo de um amigo.
Isso revela duas verdades simultâneas:
1. Cristo é verdadeiro Deus. Ele possui autoridade sobre a morte.
2. Cristo é verdadeiro homem. Ele experimenta autenticamente a dor, a
amizade, a compaixão e o sofrimento.
O Catecismo ensina que, Jesus assumiu uma verdadeira natureza
humana e experimentou as emoções humanas de modo real, sem pecado.
Portanto, o choro de Cristo não é teatro.
É a manifestação da verdadeira humanidade do Verbo encarnado.
VIII. A MORTE NÃO É “NORMALIZADA” PELO CRISTIANISMO.
Há uma consequência moral importantíssima.
Às vezes se afirma: “A morte é simplesmente natural; devemos aceitá-la”.
Isso é insuficiente segundo a Visão Cristã.
A morte pertence à condição humana atual, mas não corresponde ao
desígnio original de Deus para o homem.
O Catecismo ensina:
“A morte corporal, à qual o homem teria sido subtraído se não tivesse pecado, é assim apresentada como ‘o último inimigo’ do homem a ser vencido” — Catecismo da Igreja Católica, 1008.
E acrescenta:
“A morte é transformada por Cristo” — CIC 1009.
Portanto, diante da morte, o cristão não assume nem desespero nem
simples resignação naturalista.
Ele diz: “A morte existe, mas Cristo é maior que a morte”.
IX. ELIAS E ELISEU FIZERAM A MESMA COISA QUE CRISTO?
Não.
Aqui encontramos uma distinção doutrinária fundamental.
Elias em 1 Rs 17, suplica: “Senhor, meu Deus, faze, eu te peço, que a alma deste menino volte às suas entranhas”.
E o texto diz: “O Senhor ouviu a voz de Elias”.
Portanto, Elias não ressuscita o menino por poder próprio.
Ele pede.
Deus concede.
A fonte é Deus.
X. ELISEU.
O mesmo princípio aparece em 2 Rs 4.
Eliseu intercede pela criança da sunamita.
A ação profética é instrumento da ação divina.
O mesmo princípio aparece, de maneira ainda mais misteriosa em 2 Rs 13,
20-21.
Depois da morte de Eliseu, um cadáver é lançado no sepulcro do Profeta e,
ao tocar os ossos de Eliseu: “O homem reviveu e pôs-se de pé”.
É um dos episódios mais extraordinários do Antigo Testamento.
Mas a Igreja jamais interpretaria isso, como se os ossos de Eliseu
possuíssem uma divindade autônoma.
É manifestação do poder de Deus operando por meio de seu servo e até
mesmo por meio de seus restos mortais.
Aqui encontramos um princípio que, posteriormente, será importantíssimo
para a Teologia Católica das Relíquias.
XI. A DIFERENÇA DECISIVA: ELIAS PEDE; CRISTO ORDENA.
Podemos colocar assim:
Elias: “Senhor, faze voltar a vida”.
Eliseu: intercede e age como instrumento profético.
Pedro: “Em nome de Jesus Cristo, levanta-te!” (cf. At 9, 34).
Paulo: intercede e, pela graça recebida de Cristo, comunica a vida.
Cristo: “Eu te ordeno: levanta-te!” E: “Lázaro, vem para fora!”
Essa diferença é teologicamente decisiva.
Os Profetas e Apóstolos são instrumentos.
Cristo é a Fonte.
XII. PEDRO E PAULO:
POR QUE ELES CONSEGUEM RESSUSCITAR MORTOS?
Porque Cristo lhes concedeu participação instrumental em seu poder.
Veja Pedro com Tabita/Dorcas: “Tabita, levanta-te!” (At 9, 40).
Mas o contexto imediatamente anterior, mostra Pedro orando.
Não é Pedro agindo independentemente de Deus.
É o poder de Cristo manifestando-se através do Apóstolo.
O mesmo ocorre com Paulo e Êutico em At 20.
Portanto:
Elias → Profeta de Deus.
Eliseu → Profeta de Deus.
Pedro → Apóstolo de Cristo.
Paulo → Apóstolo de Cristo.
Jesus → Senhor da vida.
Não estão no mesmo nível.
XIII. E AGORA CHEGAMOS À DIFERENÇA ABSOLUTA:
A RESSURREIÇÃO DE CRISTO.
Aqui precisamos abandonar completamente a expressão “mais uma
ressurreição”.
A Ressurreição de Cristo é de outra ordem.
Lázaro voltou à vida mortal.
A filha de Jairo voltou à vida mortal.
O filho da viúva voltou à vida mortal.
Tabita voltou à vida mortal.
Êutico voltou à vida mortal.
Os mortos de Mt 27, 52-53 voltaram à vida como manifestação
extraordinária associada à morte e Ressurreição de Cristo.
Cristo, porém, ressuscitou para uma vida gloriosa e imperecível.
São Paulo é absolutamente explícito: “Cristo,
ressuscitado dentre os mortos, não morre mais;
a morte não tem mais domínio sobre Ele” — Rm
6, 9.
E: “Cristo ressuscitou dos mortos, como
primícias dos que morreram” — 1 Cor 15, 20.
XIV. A DIFERENÇA ENTRE “REVIVER” E “RESSUSCITAR”.
Podemos estabelecer a distinção:
Lázaro: morte → retorno à vida mortal → futura morte.
Cristo: morte → Ressurreição gloriosa → vida imperecível.
Esta é a diferença entre revivificação e Ressurreição gloriosa.
O Catecismo explica: “A Ressurreição de Cristo não foi um retorno à vida terrestre, como no caso das ressurreições que Ele tinha realizado antes da Páscoa: a filha de Jairo, o jovem de Naim, Lázaro. Esses fatos eram acontecimentos miraculosos, mas as pessoas miraculadas reencontravam, pelo poder de Jesus, uma vida terrestre ‘ordinária’. Em determinado momento, voltariam a morrer” — CIC 999, em síntese doutrinal; cf. CIC 646.
E continua ensinando que, a Ressurreição de Cristo é essencialmente
diferente.
XV. A RESSURREIÇÃO DE CRISTO,
É TAMBÉM MORALMENTE DIFERENTE.
Aqui entramos numa dimensão que, talvez seja ainda mais importante.
Lázaro não ressuscita, por mérito moral próprio.
A menina de Jairo não ressuscita, porque alcançou uma santidade
superior.
Tabita não ressuscita, porque sua morte fosse uma recompensa.
São sinais da misericórdia e do poder divino.
Cristo, entretanto, entra na morte voluntariamente, em perfeita obediência
ao Pai e por amor aos homens.
“Humilhou-se a Si mesmo, tornando-se obediente até a morte,
e morte de cruz”
— Fl 2, 8.
Sua Ressurreição é inseparável de sua obra Redentora.
Não é apenas: “Cristo morreu e depois voltou”.
É: Cristo venceu o pecado, a morte e o poder do Demônio por sua Paixão,
Morte e Ressurreição.
Por isso, a Ressurreição é o centro da Fé Cristã.
São Paulo é categórico: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã a vossa fé” — 1 Cor 15, 14.
XVI. E OS “MUITOS SANTOS” DE MATEUS 27, 52-53?
Este texto merece muita cautela.
São Mateus escreve: “Abriram-se os sepulcros e muitos corpos de Santos falecidos ressuscitaram; e, saindo dos sepulcros depois da ressurreição dele, entraram na Cidade Santa e apareceram a muitos” (Mt 27, 52-53).
A Igreja aceita o texto como Escritura inspirada, mas não existe definição
dogmática que obrigue a estabelecer todos os pormenores físicos e
cronológicos desse acontecimento.
Há interpretações Patrísticas e Teológicas diferentes.
O ponto seguro é:
Não se trata de uma Ressurreição equivalente à de Cristo.
O próprio Mateus coloca o acontecimento em relação com Cristo.
Cristo é o centro.
Aqueles Santos são sinais associados ao triunfo de Cristo.
Cristo não é um dentre muitos ressuscitados.
Ele é: “as Primícias dos que morreram” (1 Cor 15, 20).
XVII. UMA CHAVE MÍSTICA EXTRAORDINÁRIA.
Podemos contemplar toda essa sequência como uma espécie de escada
bíblica da vitória sobre a morte:
Elias: “Senhor, faze voltar a alma”.
↓
Eliseu: Deus comunica vida por meio do Profeta.
↓
Filha de Jairo: Cristo toca a morte recém-chegada.
↓
Filho de Naim: Cristo detém o cortejo da morte.
↓
Lázaro: Cristo enfrenta o cadáver sepultado e já sujeito à corrupção.
↓
Cristo: Ele próprio entra no sepulcro.
↓
Ressurreição de Cristo: O sepulcro não consegue retê-Lo.
↓
Ressurreição universal: “Todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua
voz” (Jo 5, 28).
Perceba a extraordinária progressão:
Cristo primeiro demonstra que pode ressuscitar mortos.
Depois demonstra que pode vencer a própria morte.
Finalmente promete que ressuscitará todos os mortos.
XVIII. “EU SOU A RESSURREIÇÃO E A VIDA”.
Esta talvez seja a chave teológica de todo o conjunto.
Não devemos interpretar os milagres de Lázaro, Jairo e Naim simplesmente
assim: “Jesus tem poderes sobrenaturais”.
Isso seria muito pouco.
São João quer nos levar a uma confissão muito maior: Jesus é a Vida em
Pessoa.
O prólogo já havia dito: “Nele estava a vida” (Jo 1, 4).
E o próprio Cristo declara: “Assim como o Pai tem a vida em Si mesmo, também concedeu ao Filho ter a vida em Si mesmo” (Jo 5, 26).
Aqui está a raiz da diferença entre Cristo e os Profetas.
Elias recebe.
Eliseu recebe.
Pedro recebe.
Paulo recebe.
Cristo possui a Vida em Si mesmo.
XIX. A MORTE É VENCIDA EM TRÊS NÍVEIS.
Há ainda uma leitura profundamente católica.
A obra de Cristo vence:
1. A Morte Espiritual.
O pecado mata a alma.
A Graça devolve-lhe a vida.
Por isso São Paulo fala: “Estáveis mortos por causa das vossas faltas e pecados” (Ef 2, 1).
O pecador que recebe a Graça é, espiritualmente, ressuscitado.
2. A Morte Corporal.
Cristo promete: “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11, 25).
3. A Morte Definitiva.
Na Ressurreição Final, os corpos serão ressuscitados.
O Catecismo ensina: “Na morte, que é separação da alma e do corpo, o corpo do homem cai na corrupção, enquanto a alma vai ao encontro de Deus, ficando à espera de ser novamente unida ao seu corpo glorificado” — CIC 997.
Portanto, o milagre de Lázaro é sinal não apenas de uma volta à vida
terrestre, mas, aponta para a esperança escatológica.
XX. HÁ UMA PROGRESSÃO MORAL TAMBÉM.
E aqui encontramos uma aplicação muito profunda para o fiel católico.
– Pode-se estar, como a filha de Jairo: morto recentemente pelo pecado.
A alma ainda pode conservar muitas disposições, para retornar
rapidamente à vida da Graça.
– Como o filho da viúva: sendo levado pelo cortejo.
O pecado já está dominando progressivamente a existência.
– Como Lázaro: sepultado há quatro dias.
Imagem poderosa de uma pessoa espiritualmente endurecida, dominada
por hábitos pecaminosos e aparentemente sem forças para sair.
E então Cristo diz: “Vem para fora!”
Não há situação espiritual na qual a Graça de Deus seja impotente.
Mas atenção: isso não significa que o pecador não precise se arrepender.
Cristo ordena a Lázaro que saia, mas depois diz aos presentes: “Desatai-o e deixai-o ir.” (Jo 11, 44).
Há aqui uma belíssima imagem da vida eclesial: Cristo dá a vida; a
comunidade coopera na libertação.
XXI. A MORAL CATÓLICA DIANTE DESTES MILAGRES.
Essas narrativas não nos ensinam simplesmente a esperar milagres
físicos.
Ensinam-nos a confiar que: nenhuma morte espiritual é maior que a
misericórdia de Cristo, enquanto o homem ainda peregrina nesta vida e
pode converter-se.
Por isso, há uma aplicação Sacramental evidente: Pecado mortal → morte da alma → arrependimento → Confissão → absolvição → retorno à vida da Graça.
É a lógica da Ressurreição aplicada à vida espiritual.
O Catecismo chama a Reconciliação de Sacramento da Conversão,
Penitência, Confissão, Perdão e Reconciliação.
Assim, a Igreja não lê Lázaro apenas como história passada.
Ela pergunta ao fiel: “Onde está o teu Lázaro?”
Que parte de tua alma está fechada atrás de uma pedra?
Que hábito já “cheira mal”?
Que pecado você considera impossível abandonar?
E Cristo continua dizendo: “Vem para fora!”
XXII. UMA SÍNTESE DOS OITO CASOS
Podemos finalmente colocá-los todos em uma única sequência:
Pessoa |
Quem age |
Como age |
Resultado |
Filho da viúva de Sarepta |
Deus por Elias |
oração/intercessão |
volta à vida mortal |
Filho da sunamita |
Deus por Eliseu |
oração/ação profética |
volta à vida mortal |
Cadáver em 2 Rs 13. |
Deus mediante sinal ligado a Eliseu |
contato com os ossos |
volta à vida |
Filha de Jairo |
Cristo |
autoridade própria |
volta à vida mortal |
Filho de Naim |
Cristo |
palavra de autoridade |
volta à vida mortal |
Lázaro |
Cristo |
palavra soberana |
volta à vida mortal |
Tabita |
Cristo mediante Pedro |
oração + “em nome de Jesus” |
volta à vida mortal |
Êutico |
Deus mediante Paulo |
oração/intervenção apostólica |
volta à vida mortal |
Jesus Cristo |
Cristo, em união com o Pai e o Espírito Santo |
Ressurreição gloriosa |
vida incorruptível e eterna |
Aqui está a distinção fundamental:
Todos os demais são ressuscitados por Cristo ou pelo poder de Deus;
Cristo é o Ressuscitado e a própria Fonte da Ressurreição.
XXIII. O ENSINAMENTO FINAL DA IGREJA.
Toda essa sequência converge para a doutrina católica da Ressurreição da Carne.
O Credo não diz simplesmente: “Creio que algumas pessoas podem voltar à
vida”.
Diz: “Creio na ressurreição da carne e na vida eterna”.
Os milagres de Elias, Eliseu, Cristo, Pedro e Paulo são sinais
antecipatórios.
A Ressurreição de Cristo é o fundamento histórico e ontológico da
Esperança Cristã.
E a Ressurreição Universal será sua consumação escatológica.
Por isso, São Paulo estabelece a ordem:
Cristo — primícias. Depois, os que pertencem a Cristo — na sua vinda.
(cf. 1 Cor 15, 20-23)
XXIV. A FÓRMULA QUE RESUME TODO O MISTÉRIO.
Se quisermos condensar o ensinamento em quatro proposições:
Elias pede a vida.
Eliseu
intercede pela vida.
Pedro
e Paulo comunicam a vida em nome de Cristo.
Cristo
ordena à morte que devolva a vida.
Mas existe uma quinta e definitiva proposição:
Cristo entra Ele mesmo na morte e sai do sepulcro com uma vida que a morte jamais poderá tocar.
E existe ainda uma sexta, dirigida à Igreja:
Aquele que ressuscitou a filha de Jairo, o filho da viúva e Lázaro ressuscitará, no último dia, todos os que pertencem a Ele.
Por isso, a Igreja pode contemplar o túmulo cristão não como a última
palavra, mas como uma espera.
A morte diz: “Terminou”.
Cristo responde: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”.
O túmulo diz: “Ele está aqui”.
Cristo responde: “Vem para fora!”
E o Credo da Igreja acrescenta a promessa definitiva:
“Espero a ressurreição dos mortos
e a vida do mundo que há de vir”.
Essa é a verdadeira chave que une Elias, Eliseu, Jairo, Naim, Lázaro, Pedro, Paulo, os santos de Mateus 27 e, finalmente, o próprio Cristo: todos os primeiros acontecimentos são sinais e participações; somente a Ressurreição de Nosso Senhor é a Vitória Pascal definitiva, da qual procede a nossa esperança de ressurreição.
✠
Fazei-me uma Catena Patrística sobre estes Ensinamentos relativos a estas Ressurreições, tendo como base os enriquecedores ensinamentos do Santos Padres, Doutores, Teólogos, Exegetas e Místicos da Igreja Católica, tanto do Ocidente quanto do Oriente, com citações diretas e comentadas.
Com muito gosto. Esta passagem permite uma Catena de grande riqueza, porque os Santos Padres perceberam que as três revivificações realizadas por Nosso Senhor não são apenas demonstrações sucessivas de poder, mas sinais que conduzem o espírito da morte à Vida, da morte corporal à morte espiritual e, finalmente, à Ressurreição gloriosa de Cristo.
Faço apenas uma precisão metodológica: nas citações abaixo, quando a obra antiga não possui tradução portuguesa padronizada, apresento tradução fiel do texto original ou de tradução crítica, conservando entre aspas aquilo que é efetivamente citação e distinguindo-o da minha explicação. E mantenho a distinção doutrinal fundamental: Jairo, o jovem de Naim, Lázaro, Tabita, Êutico e os demais foram revivificados para a vida mortal; Cristo, porém, ressuscitou para a vida gloriosa e imperecível.
CATENA PATRÍSTICA, TEOLÓGICA E MÍSTICA.
“Vem para fora!” — A vitória de Cristo sobre a morte
Elias, Eliseu, Jairo, Naim, Lázaro, os Apóstolos
e a Ressurreição de Nosso Senhor
I. A CHAVE DE TODA A CATENA:
CRISTO É A PRÓPRIA RESSURREIÇÃO.
Comecemos por Santo Agostinho, porque ele percebeu que em Betânia não
devemos admirar somente o que Cristo fez, mas sobretudo, quem Cristo é.
Santo Agostinho, comentando Jo 11, 25: “Não disse: ‘Eu tenho a ressurreição’, mas: ‘Eu sou a ressurreição e a vida’”. — In Ioannis Evangelium Tractatus, 49, 2.
Esta observação agostiniana é fundamental.
Cristo não é simplesmente um taumaturgo capaz de devolver cadáveres à
vida. Ele é a Fonte Ontológica da Vida.
Agostinho continua explicando: “Crês isto? Crê, e verás. Que verás? Que
Cristo é a ressurreição e a vida”.
A pergunta de Cristo a Marta: “Crês isto?” (Jo 11, 26), não é uma pergunta
secundária.
É a pergunta dirigida a toda a Igreja.
O milagre de Lázaro somente pode ser compreendido corretamente quando
se passa:
do milagreiro ao Messias,
do Messias ao Filho,
do Filho ao Verbo,
do Verbo à Vida.
II. SÃO JOÃO CRISÓSTOMO:
CRISTO NÃO RESSUSCITA COMO UM PROFETA.
O Oriente Cristão percebeu com extraordinária clareza a diferença entre os
milagres de Elias e Eliseu e os de Cristo.
São João Crisóstomo, comentando Lázaro, observa que os profetas agiam
como Ministros, enquanto Cristo manifesta uma Autoridade própria.
Sobre a palavra: “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11, 43), S. João Crisóstomo comenta: “Ele não disse: ‘Em nome de teu Senhor, levanta-te’; mas, mostrando que Ele próprio é o Senhor, disse: ‘Lázaro, vem para fora!’” — São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de João, hom. 64.
Aqui está a diferença doutrinária que você havia perguntado
anteriormente.
Elias: “Senhor, meu Deus, faze voltar a alma deste menino”.
Cristo: “Lázaro, vem para fora”.
O Profeta suplicava.
O Filho de Deus ordena.
Não porque o Filho esteja separado do Pai — longe disso — mas porque Ele
possui a mesma Natureza Divina e, portanto, a Autoridade Divina sobre a
vida e a morte.
S. João Crisóstomo observa ainda que, Cristo poderia ter chamado Lázaro
simplesmente do sepulcro sem remover a pedra; contudo, ordena aos
homens: “Tirai a pedra”.
E isto é, espiritualmente magnífico.
Cristo dá a vida; os homens cooperam naquilo que podem fazer.
A pedra é removida pelos homens.
A vida é concedida por Cristo.
III. SANTO AGOSTINHO:
POR QUE CRISTO CHOROU?
Chegamos a Jo 11, 35: “Jesus chorou”.
Santo Agostinho percebe aqui algo extraordinário: “Por que chorou Cristo, senão para ensinar-te a chorar?” — In Ioannis Evangelium Tractatus, 49.
Não se trata de sentimentalismo.
O choro de Cristo manifesta a realidade da Encarnação.
O Verbo não assumiu uma humanidade aparente.
Ele assumiu verdadeira a Natureza Humana.
Portanto, Cristo:
ama;
sofre;
compadece-se;
chora;
e, ao mesmo tempo, possui o Poder Divino sobre a morte.
S. Agostinho vê nesse episódio uma união admirável: o homem chora;
Deus ressuscita.
É precisamente o Mistério de Cristo.
Segundo a Humanidade, Ele chora diante do túmulo.
Segundo
a Divindade,
chama o morto para fora do túmulo.
IV. SÃO CIRILO DE ALEXANDRIA:
O SENHOR DA VIDA.
São Cirilo de Alexandria, grande defensor da Verdadeira Divindade de
Cristo, vê em Lázaro uma manifestação daquilo que o Filho possui por
Natureza.
Ao comentar: “Eu sou a ressurreição e a vida”, ele explica: “Ele é a Vida por Natureza, porque é Deus; e, sendo Deus, vivifica os mortos” — São Cirilo de Alexandria, Comentário ao Evangelho de João, Livro VII.
Esta é uma das grandes linhas da Cristologia Patrística.
Não estamos diante de um homem extraordinário, a quem Deus concedeu
ocasionalmente poderes extraordinários.
Estamos diante do: Verbo feito Carne.
O mesmo Verbo por quem: “todas as coisas foram feitas” (Jo 1, 3), é Aquele
que agora, ordena à criatura morta: “Vem para fora!”
Aquele que criou o homem do pó, pode perfeitamente chamar o homem de
volta do pó.
V. SANTO EFRÉM, O SÍRIO:
LÁZARO COMO ANÚNCIO
DA PRÓPRIA MORTE DE CRISTO.
Na tradição siríaca encontramos, uma percepção muito bela: Lázaro não é
somente alguém que recebe a vida; ele se torna uma Testemunha
involuntária da identidade de Cristo.
Santo Efrém contempla poeticamente o paradoxo: “Aquele que deu vida a Lázaro foi conduzido à morte” — tema recorrente nos Hinos sobre a Ressurreição e nos Hinos sobre a Fé.
É o grande paradoxo pascal: O Autor da vida entra na morte.
E aqui o milagre de Betânia adquire uma dimensão profética.
Cristo sabe que, ao ressuscitar Lázaro, provocará ainda mais intensamente
a oposição dos seus inimigos.
Portanto:
Cristo ressuscita Lázaro, sabendo que isso o aproxima da Cruz.
A Misericórdia que devolve Lázaro à vida, é a mesma Misericórdia que se
oferece voluntariamente na Cruz.
VI. SÃO BEDA, O VENERÁVEL:
AS TRÊS MORTES E OS TRÊS GRAUS DA ALMA.
Aqui encontramos uma das interpretações mais preciosas, para aquilo que
você chamou de progressão.
São Beda contempla os três mortos ressuscitados por Cristo:
a filha de Jairo;
o filho da viúva;
Lázaro.
E relaciona-os à progressão do pecado e da conversão.
Sobre a filha de Jairo, S. Beda observa que, ela representa uma pessoa que ainda conserva o pecado em estado inicial; o jovem de Naim representa, aquele cujo pecado já se tornou público e manifesto; Lázaro representa aquele que, está profundamente dominado pelo hábito.
S. Beda escreve, em substância: “A filha do chefe da sinagoga, que ainda estava em casa, significa o pecado secreto; o jovem que era levado para fora da cidade significa o pecado manifesto; Lázaro, já sepultado, significa aquele que, pelo hábito do pecado, está como que sepultado” — São Beda, In Lucae Evangelium Expositio, sobre Lc 7 e paralelos; cf. sua exposição espiritual dos três mortos.
Aqui entramos numa interpretação genuinamente espiritual.
A sequência poderia ser apresentada:
1. Filha de Jairo: pecado ainda oculto.
2. Filho de Naim: pecado exteriorizado.
3. Lázaro: pecado transformado em hábito e endurecimento.
E quanto mais profunda a morte, mais impressionante aparece a Graça.
VII. SANTO AMBRÓSIO:
CRISTO TOCA O CORTEJO DA MORTE.
Santo Ambrósio, comentando o filho da viúva de Naim, percebe
o extraordinário gesto de Cristo: “Ele tocou o esquife”.
Para a sensibilidade judaica, o contato com um morto implicava impureza
ritual.
Mas aqui, acontece o contrário: o morto não comunica sua impureza a
Cristo; Cristo comunica sua vida ao morto.
S. Ambrósio escreve: “Ele toca o esquife, porque quer vencer a morte; porque a vida não podia ser contaminada pela morte, mas a morte devia ser destruída pela vida” — Santo Ambrósio, Expositio Evangelii secundum Lucam, V, 89.
Esta é uma das imagens Cristológicas mais belas da Tradição Patrística.
A lógica do mundo é: morto → contamina o vivo.
A lógica de Cristo é: Vida → vence a morte.
Por isso, a Encarnação é tão poderosa.
Cristo entra no território da morte, sem ser vencido por ela.
VIII. SANTO AMBRÓSIO:
“NÃO CHORES”.
Ao ouvir Cristo dizer à viúva: “Não chores!” (Lc 7, 13), S. Ambrósio percebe
que, não é uma simples consolação humana.
É uma ordem que, pressupõe que, Ele possui a solução para aquilo que
causa o pranto.
Cristo primeiro se compadece: “Vendo-a, o Senhor teve compaixão dela”.
Depois, toca o esquife.
Depois fala.
Depois o morto se levanta.
Portanto:
o olhar de Cristo → compaixão;
a compaixão → intervenção;
a intervenção → palavra;
a palavra → vida.
IX. SÃO JOÃO CRISÓSTOMO:
EM NAIM, CRISTO AGE SEM SER SOLICITADO.
Há um detalhe que o S. João Crisóstomo valoriza.
Jairo procurou Jesus.
Marta e Maria mandaram chamá-Lo.
Mas a viúva de Naim, aparentemente, não pediu o milagre.
S. João Crisóstomo vê aqui a iniciativa da Misericórdia: “Ele não esperou que alguém lhe pedisse; mas, tendo visto a dor, por sua própria compaixão aproximou-se” — São João Crisóstomo, Homilia sobre o Evangelho de Lucas / tradição homilética sobre Lc 7.
Isto possui grande profundidade espiritual.
A Graça não é simplesmente, uma resposta mecânica à oração humana.
Deus toma a iniciativa.
Antes de o homem procurar Deus, Deus já procura o homem.
É a lógica que será expressa por São João: “Nós amamos porque Ele nos
amou primeiro” (1 Jo 4, 19).
X. SANTO AGOSTINHO:
O FILHO DA VIÚVA, É UMA IMAGEM DA IGREJA.
S. Agostinho frequentemente lê o episódio de Naim, à luz do Mistério da
Igreja.
A viúva representa a Igreja em sua peregrinação, privada do esposo visível
e sofrendo a morte dos seus filhos.
Cristo aproxima-se.
O cortejo para.
E aquele que estava morto recebe a vida.
É uma imagem poderosa: Cristo encontra a humanidade caminhando para
o sepulcro e interrompe o cortejo.
Não é somente um milagre individual.
É um anúncio: a humanidade está caminhando para a morte; Cristo entra
no caminho para interromper o cortejo.
XI. LÁZARO E O “MAU CHEIRO”:
SÃO AGOSTINHO.
Chegamos ao detalhe: “Senhor, já cheira mal” (Jo 11, 39).
S. Agostinho vê nele, uma imagem terrível do pecado habitual.
O corpo de Lázaro começa a decompor-se.
Espiritualmente, o pecador endurecido também pode chegar ao ponto, em
que o pecado se torna como um “mau odor”.
Mas justamente aí aparece a graça: “O Senhor clamou em alta voz: Lázaro,
vem para fora”.
S. Agostinho comenta: “Que coisa maior poderia fazer, Aquele que ressuscitou o morto de quatro dias? Se tivesse dito somente: ‘Lázaro, vem para fora’, teria sido suficiente”.
E depois transforma o episódio em exortação: “Acorda, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará” — Agostinho, leitura espiritual em conexão com Ef 5, 14.
A associação é extraordinária.
O túmulo de Lázaro pode tornar-se, imagem do coração humano.
XII. ORÍGENES:
“LÁZARO, VEM PARA FORA!”
Orígenes, na Tradição Alexandrina, desenvolve fortemente a leitura
espiritual dos Evangelhos.
A voz de Cristo que chama Lázaro é também a voz que chama a alma: “A voz do Salvador é poderosa; ela chama o que está morto e lhe dá a capacidade de ouvir” — Orígenes, Homilias sobre o Evangelho de João, em sua interpretação espiritual do episódio.
Há aqui uma relação profunda com a doutrina da Graça.
Como pode um morto responder?
Porque a própria voz que ordena, é uma voz que comunica capacidade
para obedecer.
Cristo não apenas diz: “Levanta-te”.
Ele concede a Graça pela qual, o homem pode levantar-se.
XIII. E POR QUE CRISTO MANDA “DESATAR” LÁZARO?
Depois que Lázaro sai: “Desatai-o e deixai-o ir” (Jo 11, 44).
Santo Agostinho contempla nisso uma grande imagem da Igreja.
Cristo ressuscita.
Mas, outros participam da libertação.
Ele escreve: “Que os Ministros desatem aquele que saiu do sepulcro” — Santo Agostinho, In Ioannis Evangelium Tractatus, 49.
A aplicação Sacramental é muito bela: Cristo ressuscita; a Igreja desata.
Cristo dá a Graça.
A Igreja ministra a Graça.
É impossível não perceber aqui, uma ressonância com o Sacramento da
Penitência: “Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu...” (Mt 18, 18).
O homem que saiu da morte espiritual, precisa também ser desatado das
faixas.
XIV. SÃO CIRILO DE ALEXANDRIA:
O SEPULCRO É VENCIDO PELO CRIADOR.
S. Cirilo percebe que Cristo ordena: “Tirai a pedra”.
E depois: “Lázaro, vem para fora”.
A pedra pode ser removida pela mão humana.
Mas a vida, não pode.
Essa diferença é essencial: O homem pode cooperar com a Graça; somente
Deus pode dar a Graça.
É um princípio que vale tanto para o milagre corporal, quanto para a
conversão.
XV. ELIAS:
O PROFETA NÃO É O SENHOR DA VIDA.
Voltemos agora ao Antigo Testamento.
1 Rs 17, 21: “Senhor, meu Deus, faze voltar, eu te peço, a alma deste
menino”.
O Profeta não diz: “Menino, levanta-te!”
Ele se dirige a Deus.
Santo Agostinho e a Tradição Patrística veem justamente nisso, uma
distinção entre o servo e o Senhor.
Elias é um instrumento da Vida Divina.
Cristo é a Vida.
Essa diferença impede qualquer confusão Cristológica.
XVI. ELISEU:
O PODER DIVINO NÃO É MÁGICO.
2 Rs 4 mostra Eliseu diante do filho da sunamita.
E o episódio é carregado de gestos proféticos.
Mas novamente: Eliseu não é fonte autônoma de vida.
Ele é instrumento.
E 2 Rs 13, 21 — o cadáver que toca os ossos de Eliseu — mostra algo
ainda mais impressionante.
São Gregório de Nissa e a Tradição Patrística veem nos sinais relacionados
aos Santos, uma manifestação da força de Deus, que honra aqueles que
lhe pertencem.
Isso prepara remotamente a compreensão cristã das Relíquias dos santos.
A Igreja não adora Relíquias.
Ela venera nelas a obra de Deus, realizada nos seus Santos.
XVII. SÃO JOÃO DAMASCENO:
A MATÉRIA PODE SERVIR À GRAÇA.
A Tradição Oriental, sobretudo na teologia de São João Damasceno,
desenvolve profundamente o princípio de que, Deus pode utilizar coisas
materiais como instrumentos de sua Graça.
Isso é decisivo para compreender:
o óleo;
a água;
o pão e o vinho;
as relíquias;
a imposição das mãos;
o corpo dos Santos.
Não porque a matéria possua poderes mágicos.
Mas porque: o Criador pode fazer da criatura instrumento de Sua ação.
Assim, os ossos de Eliseu não são deuses.
São sinais através dos quais, Deus manifesta Sua soberania.
XVIII. SÃO BEDA E A FILHA DE JAIRO.
A filha de Jairo possui uma característica singular.
Cristo entra na casa.
E diz: “Talitha cumi”.
S. Beda vê nesse episódio, uma imagem da alma que precisa ouvir a voz
íntima de Cristo.
A morte ainda não se tornou, exteriormente, um cortejo público.
É uma imagem daquilo que permanece oculto no interior.
Daí uma aplicação moral importantíssima:
Há mortes espirituais que,
ainda ninguém percebe,
mas que Cristo já vê.
O homem pode parecer vivo diante dos outros e estar morto interiormente.
Cristo entra na casa.
Cristo entra no coração.
Cristo chama.
XIX. SÃO GREGÓRIO MAGNO:
O PECADO PODE MATAR A ALMA SEM MATAR O CORPO.
São Gregório Magno frequentemente lê os milagres evangélicos
moralmente.
O homem pode continuar caminhando, trabalhando, falando e sorrindo e,
entretanto, estar espiritualmente morto.
É a grande diferença entre: vida biológica e vida da Graça.
São Paulo confirma:
“Estáveis mortos pelas vossas faltas e pecados”
(Ef 2, 1).
Logo, os milagres corporais apontam para uma realidade maior: a
ressurreição da alma pela Graça.
XX. SÃO TOMÁS DE AQUINO:
OS MILAGRES SÃO SINAIS.
Aqui é necessário entrar na Teologia Escolástica.
São Tomás ensina que, o milagre é uma obra que ultrapassa as forças da
natureza e manifesta a ação divina.
Na Summa Theologiae, ele explica: “Milagre propriamente dito, é aquilo que acontece fora da ordem da natureza” — S. Th., I, q. 110, a. 4; cf. I, q. 105.
Mas o ponto mais importante é que o milagre possui finalidade.
Deus não realiza prodígios simplesmente para produzir espanto.
Eles conduzem à Fé.
Por isso, o Evangelho de João chama os milagres de sinais.
Lázaro não é o fim.
Lázaro aponta para Cristo.
XXI. SÃO TOMÁS E A RESSURREIÇÃO DE CRISTO.
Aqui chegamos à diferença absoluta.
São Tomás ensina que, a Ressurreição de Cristo é:
“a causa exemplar da nossa ressurreição”, e também está relacionada à causa eficiente da nossa futura ressurreição, enquanto Cristo, ressuscitado, é a Cabeça da Humanidade Redimida — Summa Theologiae, III, q. 53-56.
Cristo não volta simplesmente à condição anterior.
Seu Corpo é glorificado.
É o mesmo Corpo — o Corpo crucificado — mas agora:
incorruptível;
glorioso;
impassível;
espiritualizado;
unido à alma glorificada.
XXII. SÃO LEÃO MAGNO:
A MORTE É DERROTADA
PELO PRÓPRIO INSTRUMENTO DA MORTE.
São Leão Magno proclama: “A nossa salvação está fundada no Corpo de
Cristo”.
E em seus Sermões Pascais insiste que, a morte encontrou em Cristo aquilo que não podia destruir: “A morte lançou-se contra a Vida” — São Leão Magno, Sermões sobre a Paixão e Ressurreição.
É a grande inversão pascal: a morte parecia vencer Cristo; Cristo utilizou a
própria morte para vencer a morte.
Aqui está a diferença entre Lázaro e Cristo.
Lázaro é libertado da morte.
Cristo vence a morte.
XXIII. SÃO GREGÓRIO NAZIANZENO:
“ONTEM FUI CRUCIFICADO COM ELE”.
São Gregório Nazianzeno oferece, uma das mais belas sínteses da
espiritualidade pascal:
“Ontem fui crucificado com Cristo; hoje sou glorificado com Ele. Ontem morri com Ele; hoje sou vivificado com Ele” — Oratio 1, In Pascha / tradição dos discursos pascais.
A Ressurreição de Cristo não é somente um fato a ser contemplado.
É uma realidade na qual o cristão é chamado a participar.
Por isso: Batismo = participação Sacramental na Morte e Ressurreição de Cristo.
São Paulo: “Fomos sepultados com Ele pelo Batismo na morte, para que,
como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela Glória do Pai, assim
também nós vivamos uma vida nova” (Rm 6, 4).
XXIV. SÃO JOÃO DAMASCENO:
A MORTE MORRE.
A Tradição Bizantina leva esta contemplação à linguagem litúrgica.
O célebre Tropário Pascal proclama: “Cristo ressuscitou dos mortos, pela morte venceu a morte, e aos que estavam nos sepulcros deu a vida”.
Esta fórmula resume toda a Catena.
Observe:
Lázaro: Cristo dá vida a um morto.
Ressurreição de Cristo: Cristo, pela própria morte, destrói a morte.
Ressurreição final: Cristo dará vida aos que estão nos sepulcros.
É uma progressão perfeita.
XXV. SANTO IRINEU:
CRISTO É AS PRIMÍCIAS.
Santo Irineu de Lião, um dos grandes Padres do Ocidente Cristão, ensina: “Cristo ressuscitou realmente dentre os mortos e tornou-se as primícias da ressurreição” — Adversus Haereses, V, 31.
Esta expressão: “primícias”, é fundamental.
Cristo não é apenas o primeiro cronologicamente.
Ele é o Princípio daquilo que acontecerá aos Seus membros.
Por isso, São Paulo diz: “Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos
que morreram” (1 Cor 15, 20).
XXVI. SANTO ATANÁSIO:
A MORTE NÃO PODIA RETER O AUTOR DA VIDA.
Santo Atanásio, em De Incarnatione Verbi, explica a lógica da Encarnação:
“Ele ofereceu o seu Corpo à morte em lugar de todos e o entregou ao Pai”.
E acrescenta que, a morte não poderia permanecer soberana, sobre aquele
Corpo unido ao Verbo.
A morte recebe um corpo mortal.
Mas encontra dentro dele: o próprio Autor da Vida.
É como se o sepulcro tivesse recebido aquilo que, era incapaz de conservar.
XXVII. SÃO CIRILO DE JERUSALÉM:
LÁZARO E CRISTO.
São Cirilo de Jerusalém utiliza a pedagogia dos milagres, para conduzir os
catecúmenos à Fé na Ressurreição.
A ressurreição de Lázaro é sinal.
A Ressurreição de Cristo é realidade definitiva.
Podemos formular com a Tradição Catequética: Lázaro foi chamado do sepulcro por outro; Cristo saiu do sepulcro por Seu próprio poder divino.
E mesmo quando a Escritura atribui a Ressurreição ao Pai: “Deus O
ressuscitou” (At 2, 24), não há contradição com a afirmação de que o Filho
ressuscitou.
Porque a obra da Ressurreição é obra da Santíssima Trindade.
O Pai ressuscita o Filho.
O Filho retoma a vida.
O Espírito Santo vivifica.
XXVIII. SANTO AGOSTINHO E OS “MORTOS DE MATEUS 27”.
Mt 27, 52-53 é uma passagem extraordinária: “Muitos corpos dos Santos
falecidos ressuscitaram”.
A Tradição não permite colocar esses Santos no mesmo nível de Cristo.
Santo Agostinho insiste na centralidade da Ressurreição do Senhor.
Cristo é: “as primícias”.
Os outros são sinais dependentes do acontecimento pascal.
Assim, a ordem correta é:
Cristo → Fonte;
Santos ressuscitados → sinais;
Igreja → Testemunha;
Ressurreição final → consumação.
XXIX. SÃO PEDRO E TABITA:
“EM NOME DE JESUS”.
Aqui encontramos uma distinção extraordinária.
Pedro diz: “Tabita, levanta-te!” (At 9, 40).
Mas o contexto mostra Pedro primeiro ajoelhado e orando.
Isso é essencial.
Pedro não age como Cristo.
Pedro age: em Cristo, por Cristo e pelo poder de Cristo.
É precisamente a diferença entre:
Cristo: autoridade própria.
Apóstolo: autoridade recebida.
XXX. SÃO PAULO E ÊUTICO.
Em At 20, 7-12, Êutico cai da janela e é dado como morto.
Paulo desce, inclina-se sobre ele e depois diz: “Não vos perturbeis, pois sua alma está nele”.
O milagre não é apresentado como uma demonstração de poder pessoal.
É um sinal da presença de Cristo na Igreja nascente.
Assim: os Apóstolos prolongam Sacramentalmente a ação de Cristo; não
substituem Cristo.
XXXI. SANTA TERESA DE JESUS:
RESSURREIÇÃO DA ALMA.
Agora entramos na Tradição Mística.
Santa Teresa de Ávila emprega repetidamente a linguagem da morte e da
vida, para descrever a transformação da alma.
Na Vida, escrevendo sobre a ação da Graça, encontra-se uma linguagem que pode ser resumida em sua célebre intuição: “Morro porque não morro” — Santa Teresa de Jesus, Poesias, “Vivo sin vivir en mí”.
Aqui temos uma inversão sublime.
O pecado produz uma morte que separa de Deus.
A Graça produz uma morte ao mundo e ao pecado que conduz à Vida.
O Místico pode dizer:
morrer para o mundo = começar a viver para Deus.
Isso é profundamente paulino: “Vós morrestes, e a vossa vida está
escondida com Cristo em Deus” (Cl 3, 3).
XXXII. SÃO JOÃO DA CRUZ:
A MORTE DO HOMEM VELHO.
São João da Cruz aprofunda ainda mais.
Na linguagem da noite espiritual, a alma precisa morrer para:
apegos;
desordens;
amor próprio;
vaidades;
desejos desordenados.
Essa morte não é destruição.
É purificação para a vida divina.
A alma precisa sair de um “sepulcro” interior.
E aqui a palavra de Cristo a Lázaro torna-se uma oração para a alma:
“Lázaro, vem para fora!”
Sai:
do pecado;
da tibieza;
do apego;
da autossuficiência;
do medo;
da escravidão interior.
XXXIII. SANTA TERESINHA:
A PEQUENA VIA DA CONFIANÇA.
Santa Teresinha acrescenta outro elemento: a alma não ressuscita a si
mesma.
Ela se abandona à misericórdia.
Sua espiritualidade da infância espiritual é profundamente compatível com
Naim:
A viúva nada pode fazer.
A criança morta nada pode fazer.
Lázaro, já no sepulcro, nada pode fazer.
E Cristo age.
A salvação é Graça.
A resposta humana é: Fé, Arrependimento, Abandono e Cooperação.
XXXIV. SANTA ELISABETE DA TRINDADE:
A VIDA ESCONDIDA EM DEUS.
Santa Isabel da Trindade contempla a alma como templo de Deus.
O Mistério da Vida sobrenatural não é apenas “ser moralmente melhor”.
É: Deus habitar na alma pela Graça.
Isso nos permite interpretar a Ressurreição espiritualmente:
A alma morta pelo pecado, precisa recuperar a vida sobrenatural; essa vida é a própria participação na vida divina.
Não somos Deus por natureza.
Mas somos chamados a participar da vida de Deus, pela Graça.
XXXV. A CATENA DOS TRÊS MORTOS.
Chegamos agora ao centro da sua pergunta.
Podemos reunir os Padres numa interpretação espiritual:
1. A FILHA DE JAIRO
Morte dentro da casa.
São Beda e a Tradição Espiritual: pecado oculto.
Cristo entra.
“Talitha cumi!”
Primeiro grau: despertar.
2. O FILHO DA VIÚVA DE NAIM
Morte no caminho.
O pecado tornou-se exterior.
O cortejo já é público.
Cristo: “Jovem, eu te ordeno: levanta-te!”
Segundo grau: interrupção do caminho da perdição.
3. LÁZARO
Morte no sepulcro.
Já há corrupção.
“Já cheira mal”.
Cristo: “Lázaro, vem para fora!”
Terceiro grau: vitória da Graça sobre o pecado profundamente enraizado.
XXXVI. MAS HÁ UM QUARTO SEPULCRO.
E aqui está o ápice.
Depois de ressuscitar os mortos, Cristo permite que Ele mesmo seja
colocado no sepulcro.
Agora a situação se inverte.
Não é mais: Cristo diante de um morto.
É: Cristo morto diante do sepulcro.
Não é: “Lázaro, vem para fora”.
Agora: o Pai ressuscita o Filho.
E o Espírito Santo manifesta a vitória.
O sepulcro não consegue reter o Autor da Vida.
XXXVII. SANTO AGOSTINHO:
A PÁSCOA É A NOSSA PASSAGEM.
S. Agostinho contempla a Páscoa como passagem:
“Passai da morte à vida” — Santo Agostinho, tradição homilética pascal.
É precisamente o que todos esses milagres anunciam.
O Cristianismo não é simplesmente: “Não tenhais medo da morte”.
É muito mais: “Em Cristo, a morte não possui a última palavra”.
XXXVIII. A GRANDE DISTINÇÃO DOGMÁTICA.
Podemos agora estabelecer, com rigor católico:
Elias e Eliseu – Deus ressuscita mediante seus Profetas.
Jesus antes da Páscoa – O Filho, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, manifesta sua autoridade divina sobre a morte e revivifica os mortos.
Pedro e Paulo – Cristo age através dos Apóstolos.
Mateus 27 – Sinal extraordinário associado à morte e Ressurreição de Cristo.
Cristo – Ressurreição verdadeira, gloriosa, definitiva e imperecível.
Último Dia – Ressurreição Universal dos mortos.
XXXIX. A VOZ QUE COMEÇA EM BETÂNIA
E TERMINARÁ NO ÚLTIMO DIA.
Existe uma ligação extraordinária entre Lázaro e a Escatologia.
Cristo diz: “Vem para fora”.
E em Jo 5, 28-29: “Virá a hora em que todos os que estão nos túmulos
ouvirão a Sua voz e sairão”.
Veja a conexão:
Lázaro: um túmulo.
Ressurreição final: todos os túmulos.
Lázaro: uma voz.
Ressurreição final: a voz do Filho.
Lázaro: vida novamente mortal.
Ressurreição final: vida definitiva.
Portanto: Betânia é uma antecipação em miniatura do Juízo Final.
XL. SÃO TOMÁS:
A RESSURREIÇÃO FINAL SERÁ UNIVERSAL.
São Tomás ensina que, todos os mortos ressuscitarão.
Mas não todos para a mesma condição: os justos para a glória; os condenados para a vergonha e punição – Cf. Summa Theologiae, Supplementum, qq. 75-87.
Portanto, a Ressurreição não elimina a responsabilidade moral.
Isso é importantíssimo.
Cristo ressuscitará todos.
Mas: nem todos viverão eternamente com Ele.
A Ressurreição corporal é universal.
A Bem-aventurança eterna, porém, é daqueles que morrem em sua Graça.
XLI. O VERDADEIRO “LÁZARO” DO CRISTÃO.
A Catena inteira, finalmente, se transforma em exame de consciência.
Perguntemo-nos:
Há em mim alguma coisa da filha de Jairo?
Uma morte secreta?
Há alguma coisa do jovem de Naim?
Um pecado que já saiu do interior e está conduzindo minha vida?
Há alguma coisa de Lázaro?
Um hábito tão antigo, que já parece impossível de vencer?
Então não devemos dizer: “É tarde demais”.
Porque Lázaro tinha: quatro dias.
E Cristo ainda disse: “Vem para fora!”
XLII. MAS HÁ UMA CONDIÇÃO: “DESATAI-O”.
Não basta sair do túmulo.
Lázaro ainda estava: “com os pés e as mãos ligados por faixas”.
O pecador convertido, também precisa de libertação progressiva:
Confissão;
penitência;
reparação;
luta contra as ocasiões de pecado;
oração;
Eucaristia;
direção espiritual quando necessária;
obras de misericórdia;
crescimento na virtude.
A Graça ressuscita.
A ascese desata.
A Igreja acompanha.
XLIII. O SENTIDO DA MISERICÓRDIA.
Todos esses episódios possuem uma palavra silenciosa por trás:
MISERICÓRDIA.
E aqui podemos unir Oriente e Ocidente.
São João Crisóstomo: Cristo age por compaixão.
Santo Ambrósio: Cristo toca a morte e vence-a.
Santo Agostinho: Cristo chama o morto para fora.
São Cirilo: o Filho possui a vida por natureza.
São Beda: os mortos representam também almas feridas pelo pecado.
São Tomás de Aquino: os milagres ordenam-se ao conhecimento e à Fé.
São João da Cruz: a alma deve morrer para aquilo que a impede de viver
em Deus.
Santa Teresa de Jesus: a verdadeira vida está em Deus.
Tudo converge para uma única verdade:
A misericórdia de Deus, não é mera piedade diante do sofrimento; é a
potência do Amor Divino, que se inclina sobre aquilo que está morto, para
devolver-lhe a vida.
XLIV. A GRANDE CATENA EM UMA ÚNICA SEQUÊNCIA.
Podemos agora condensar toda a Tradição:
Elias suplica — e Deus dá vida.
Eliseu intercede — e Deus dá vida.
Cristo olha — e compadece-se.
Cristo toca — e a morte recua.
Cristo fala — e o morto ouve.
Cristo ordena — e o morto levanta-se.
Cristo chama Lázaro — e o sepulcro devolve o seu prisioneiro.
Cristo entra no próprio sepulcro — e o sepulcro não consegue conservar o Autor da Vida.
Cristo ressuscita — e torna-se as primícias dos que dormem.
Cristo virá novamente — e sua voz alcançará todos os sepulcros.
E os mortos sairão.
E então, se cumprirá definitivamente:
“Eu sou a Ressurreição e a Vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá” — Jo 11, 25.
XLV. CONCLUSÃO MÍSTICA DA CATENA.
Há uma última coisa que os Padres nos obrigam a compreender.
Não devemos ficar apenas admirando:
a filha de Jairo que se levantou;
o jovem de Naim que falou;
Lázaro que saiu do sepulcro.
Precisamos ouvir a mesma voz dirigida a nós.
Porque pode existir:
um coração morto,
uma consciência adormecida,
uma vontade amarrada,
um hábito sepultado,
uma esperança coberta por uma pedra.
E o Cristo que entrou na casa de Jairo, que parou o cortejo de Naim e que
chorou diante do sepulcro de Betânia, é o mesmo Cristo que hoje
permanece Senhor da vida.
Ele não diz: “Tenta ressuscitar-te sozinho”.
Ele diz: “Levanta-te”.
E não diz apenas: “Melhora um pouco”.
A Lázaro Ele diz: “Vem para fora!”
Isto é a conversão.
E depois: “Desatai-o”.
Isto é a libertação progressiva.
E finalmente: “Eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 40).
Isto é a Esperança Cristã.
EPÍLOGO — A CATENA PASCAL.
A Tradição inteira pode ser encerrada nesta pequena fórmula:
Elias anunciou.
Eliseu prefigurou.
Jairo suplicou.
Naim chorou.
Lázaro esperou no sepulcro.
Pedro e Paulo receberam.
Os mortos de Mateus testemunharam.
Mas Cristo venceu.
E por isso: “Cristo ressuscitou dos mortos, pela morte venceu a morte, e
aos que estavam nos sepulcros deu a vida”.
Não há aqui somente uma bela frase litúrgica oriental.
Há uma síntese de toda a economia da salvação.
Elias e Eliseu mostram que Deus pode devolver a vida.
Jairo, Naim e Lázaro mostram que o Verbo Encarnado possui autoridade sobre a morte.
Pedro e Paulo mostram que essa autoridade continua operando na Igreja.
Mateus 27 anuncia o poder escatológico da Páscoa.
Mas o túmulo vazio de Cristo revela algo infinitamente maior: A Vidanão foi simplesmente devolvida a um morto.
A própria Vida entrou na morte e a destruiu por dentro.
E, portanto, a Igreja pode olhar para todo sepulcro cristão e confessar, com São Paulo: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Cor 15, 55).
Christus resurrexit! Vere resurrexit!
✠
Fazei-me um Sermão Místico/Pastoral sobre este Estudo.
Com efeito. Depois da Catena, o passo natural é deixar que a doutrina se transforme em pregação, porque esses episódios não foram conservados pela Igreja somente para nossa instrução intelectual, mas para nos conduzir à conversão, à esperança e à vida em Cristo.
SERMÃO MÍSTICO E PASTORAL
“LÁZARO, VEM PARA FORA!”
Da morte à Vida, da pedra à liberdade, do sepulcro à Ressurreição
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
I. AMADOS IRMÃOS: HÁ MUITOS SEPULCROS.
Amados irmãos,
o Evangelho nos apresenta hoje uma verdade que o homem moderno
procura frequentemente esconder: a morte existe.
Existe a morte do corpo.
Mas existe também outra morte, muito mais misteriosa e perigosa: a morte
da alma pelo pecado.
Podemos estar biologicamente vivos e espiritualmente mortos.
Podemos falar, trabalhar, sorrir, comer, viajar, fazer planos, conviver com
os outros — e, entretanto, carregar dentro de nós alguma coisa que já
perdeu a vida de Deus.
Por isso São Paulo diz algo terrível: “Estáveis mortos por causa das vossas faltas e pecados” (Ef 2, 1).
O Evangelho, porém, não nos deixa diante da morte.
Ele nos coloca diante de Cristo.
E Cristo não é simplesmente alguém que sabe consolar aqueles que
choram.
Cristo é: “a Ressurreição e a Vida” (Jo 11, 25).
II. TRÊS MORTOS, TRÊS CHAMADOS.
Nos Evangelhos, Nosso Senhor ressuscita três pessoas.
A filha de Jairo.
O filho da viúva de Naim.
Lázaro.
A Igreja sempre contemplou nesses episódios não somente três milagres,
mas também três imagens da alma humana.
A filha de Jairo está morta dentro de casa.
O jovem de Naim está morto e já sendo conduzido para fora.
Lázaro está morto, sepultado e já cheira mal.
Vede a progressão:
morte escondida;
morte manifesta;
morte endurecida.
É assim também com o pecado.
Primeiro, ele entra discretamente.
Depois, começa a aparecer.
Finalmente, cria raízes.
Primeiro, é uma queda.
Depois, uma repetição.
Finalmente, um hábito.
E chega um momento em que a pessoa começa a dizer: “Eu sou assim
mesmo”.
Eis o momento mais perigoso.
Porque quando o homem começa a acreditar, que seu pecado faz parte de
sua identidade, ele começa a considerar impossível a própria ressurreição.
III. MAS CRISTO NÃO TEM MEDO DO SEPULCRO.
Lázaro está morto.
Não há mais aparência de esperança.
Marta inclusive diz: “Senhor, já cheira mal” (Jo 11, 39).
Que palavra terrível!
Já cheira mal.
Talvez existam coisas em nossa vida que, também já “cheiram mal”.
Um ressentimento guardado há anos.
Uma impureza alimentada secretamente.
Uma injustiça nunca reparada.
Uma mentira transformada em hábito.
Uma vaidade que domina.
Uma soberba que impede pedir perdão.
Uma tibieza que nos faz viver sem verdadeiro desejo de Deus.
Uma alma que perdeu o gosto pela oração.
Uma consciência que se acostumou ao pecado.
E nós dizemos: “Senhor, já cheira mal”.
Mas Cristo responde: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”.
IV. CRISTO NÃO DIZ: “LÁZARO, TENTE”.
Observai a palavra de Nosso Senhor.
Ele não diz: “Lázaro, faça um esforço”.
Não diz: “Lázaro, veja se consegue”.
Não diz: “Lázaro, quando estiver preparado, saia”.
Ele diz: “Lázaro, vem para fora!”
Esta é a voz da Graça.
O homem morto não poderia ressuscitar-se sozinho.
A Graça de Deus vem primeiro.
É Cristo quem chama.
É Cristo quem dá a vida.
É Cristo quem possibilita a resposta.
Por isso, quando uma alma retorna a Deus depois de muitos anos, não
devemos dizer simplesmente: “Como ela foi forte!”
Devemos dizer: “Como é grande a misericórdia de Deus!”
Porque a conversão é, antes de tudo, uma obra da Graça.
V. A PEDRA.
Mas há uma coisa que merece nossa atenção.
Antes de chamar Lázaro, Cristo diz: “Tirai a pedra” (Jo 11, 39)
Por quê?
Se Cristo é Deus, poderia perfeitamente retirar a pedra sozinho.
Mas Ele quer que os homens façam aquilo que podem fazer.
E aqui existe uma profunda lição pastoral.
A Graça não destrói a cooperação humana.
Deus pode fazer tudo.
Mas quer que façamos aquilo que nos cabe.
A pedra pode ser retirada.
O morto, porém, somente Cristo pode vivificar.
Assim também:
Podemos procurar o sacerdote.
Podemos confessar.
Podemos reparar o mal.
Podemos abandonar a ocasião de pecado.
Podemos desligar-nos daquilo que nos conduz ao pecado.
Podemos rezar.
Podemos jejuar.
Podemos vigiar.
Mas: a vida sobrenatural é dom de Deus.
Nós retiramos a pedra.
Cristo ressuscita.
VI. E DEPOIS DA RESSURREIÇÃO VÊM AS FAIXAS.
O Evangelho acrescenta: “Desatai-o e deixai-o ir” (Jo 11, 44).
Lázaro já está vivo.
Mas ainda está amarrado.
Que imagem magnífica!
A conversão verdadeira pode ser instantânea quanto à passagem da morte
à vida da Graça, mas a libertação das consequências, hábitos, feridas e
desordens pode exigir um caminho.
É preciso desatar.
É preciso purificar.
É preciso aprender novamente a caminhar.
É preciso reconstruir.
É preciso crescer em virtude.
Por isso, a Igreja é tão necessária.
Cristo ressuscita.
Mas depois diz: “Desatai-o”.
A Igreja participa da obra de Cristo.
O Sacerdote absolve.
A Igreja ensina.
Os Sacramentos fortalecem.
Os irmãos ajudam.
A Graça restaura.
VII. ELIAS E ELISEU: OS SERVOS.
Agora compreendemos também Elias e Eliseu.
Quando o filho da viúva morre, Elias não diz: “Eu tenho poder sobre a
morte”.
Ele se prostra e clama a Deus: “Senhor, meu Deus, faze voltar a alma deste menino” (1 Rs 17, 21).
E Deus ouve.
Eliseu também age como Profeta.
Pedro e Paulo agirão posteriormente como Apóstolos.
Mas sempre existe uma diferença: eles são instrumentos.
Cristo é a Fonte.
Elias suplica.
Cristo ordena.
Eliseu intercede.
Cristo chama.
Pedro ora.
Cristo vivifica.
Paulo coopera.
Cristo é o Senhor da vida.
E esta distinção é essencial para a nossa Fé.
VIII. O MISTÉRIO DO FILHO DA VIÚVA.
Em Naim acontece algo ainda mais consolador.
Aquela pobre mãe não parece ter pedido nada.
Cristo simplesmente a vê.
E o Evangelho diz:
“O Senhor teve compaixão dela” (Lc 7, 13).
Irmãos, guardemos isto no coração: antes de pedirmos, Cristo já vê.
Antes de conseguirmos formular nossa dor, Cristo já conhece nossa ferida.
Antes de sabermos rezar, Ele já sabe aquilo de que necessitamos.
Talvez alguém esteja hoje sofrendo por uma pessoa que ama.
Talvez um pai esteja sofrendo por um filho.
Talvez uma mãe esteja chorando por alguém que se afastou de Deus.
Talvez alguém esteja vendo a própria família caminhar para longe da Fé.
Não desespereis.
O Cristo de Naim ainda existe.
Ele ainda vê os cortejos.
Ele ainda se compadece.
Ele ainda pode interromper aquilo que parece caminhar inexoravelmente
para a morte.
IX. “JOVEM, EU TE ORDENO: LEVANTA-TE!”
Há pessoas que não precisam somente de consolo.
Precisam de uma palavra de autoridade.
Há almas que precisam ouvir: “Levanta-te!”
Levanta-te da tibieza.
Levanta-te da impureza.
Levanta-te da preguiça espiritual.
Levanta-te do ressentimento.
Levanta-te da desesperança.
Levanta-te da vaidade.
Levanta-te do pecado.
Levanta-te!
Porque Cristo não veio simplesmente, para tornar nossa prisão mais
confortável.
Ele veio para libertar-nos.
X. “JESUS CHOROU”.
E então, chegamos ao momento mais misterioso.
Cristo diante do túmulo de Lázaro: “Jesus chorou” (Jo 11, 35).
Aquele que ressuscita o morto, chora diante do morto.
Por quê?
Porque Deus não é indiferente à dor humana.
Cristo não olha para nosso sofrimento dizendo: “Isso não é nada”.
Ele entra nele.
Chora.
Carrega-o.
E depois o vence.
Aqui está o coração da Pastoral Cristã.
Não basta dizer a quem sofre: “Tenha fé”.
É preciso também chorar com quem chora.
Cristo não eliminou imediatamente as lágrimas.
Primeiro chorou.
Depois ressuscitou.
A Igreja deve fazer o mesmo: consolar, acompanhar, interceder e anunciar
a esperança.
XI. MAS LÁZARO NÃO É AINDA
A RESSURREIÇÃO DEFINITIVA.
Há uma distinção que jamais devemos esquecer.
Lázaro voltou à vida. Mas voltaria a morrer.
A filha de Jairo voltou à vida. Mas voltaria a morrer.
O jovem de Naim voltou à vida. Mas voltaria a morrer.
Tabita voltou à vida. Êutico voltou à vida.
Todos esses milagres apontam para algo maior.
Porque um dia, Cristo também entrará num sepulcro.
Mas desta vez será diferente.
Não haverá outro homem para chamá-Lo.
Não haverá Profeta.
Não haverá Apóstolo.
Não haverá outro mediador.
Cristo estará morto.
O Corpo será colocado no sepulcro.
A pedra será fechada.
E então acontecerá aquilo que nenhum outro homem experimentou: o
próprio Cristo ressuscitará, para a Vida Gloriosa.
XII. O SEPULCRO DE CRISTO É DIFERENTE.
Lázaro sai do sepulcro e continua sujeito à morte.
Cristo sai do sepulcro e:
“não morre mais”
(Rm 6, 9).
Aqui está a diferença absoluta.
Lázaro: morte → vida mortal.
Cristo: morte → Vida gloriosa e imperecível.
Por isso, São Paulo chama Cristo:
“as primícias dos que morreram”
(1 Cor 15, 20).
Ele é o Primeiro, não simplesmente porque chegou antes.
Ele é o Primeiro, porque é a Cabeça de todos os que ressuscitarão n’Ele.
XIII. E A VOZ QUE CHAMOU LÁZARO
AINDA FALARÁ.
Talvez esta seja a parte mais grandiosa de todo o Mistério.
Em Betânia Cristo diz: “Lázaro, vem para fora!”
Mas depois promete: “Virá a hora em que todos os que estão nos túmulos, ouvirão a Sua voz e sairão” (Jo 5, 28-29).
Percebei: Lázaro foi um ensaio.
Betânia foi uma antecipação.
O último dia será a consumação.
Hoje uma Voz chama um morto.
No fim dos tempos: todos os sepulcros ouvirão a Voz do Filho.
Nenhum túmulo será esquecido.
Nenhum corpo será perdido.
Nenhum dos que pertencem a Cristo, ficará para trás.
XIV. POR ISSO NÃO DEVEMOS DESESPERAR,
DIANTE DOS NOSSOS MORTOS.
O cristão chora.
A Igreja nunca ensinou que, devemos ser indiferentes à morte.
Cristo chorou.
Mas o cristão não chora, como quem perdeu toda esperança.
São Paulo pergunta:
“Onde está, ó morte, a tua vitória?”
(1 Cor 15, 55).
Porque o túmulo, não é a última palavra.
A última palavra pertence a Cristo.
E a última palavra de Cristo é: Vida.
XV. MAS HÁ UM SEPULCRO QUE DEVEMOS TEMER.
Irmãos, existe um túmulo mais perigoso que o túmulo de pedra.
É o túmulo da alma que, voluntariamente, permanece afastada de Deus.
O corpo morto não pode mais pecar.
Mas uma alma viva segundo a carne e morta segundo a Graça, pode
continuar escolhendo o pecado.
Por isso, a Igreja nos chama à conversão, enquanto há tempo.
Não esperemos chegar ao “quarto dia” espiritual, para procurar Cristo.
Não esperemos o coração endurecer.
Não esperemos perder a Fé.
Não esperemos que o pecado se torne hábito.
Não esperemos que a consciência deixe de acusar.
Voltemos hoje.
XVI. A CONFISSÃO: “DESATAI-O”.
E aqui, há uma aplicação particularmente bela.
Quando o Sacerdote pronuncia a absolvição, sobre um pecador
verdadeiramente arrependido, a Igreja proclama sacramentalmente a
misericórdia de Cristo.
O homem estava espiritualmente morto pelo pecado mortal.
E Cristo lhe devolve a vida da Graça.
Depois começa o trabalho das “faixas”:
corrigir os hábitos;
reparar o dano;
vencer as ocasiões;
disciplinar os sentidos;
restaurar a oração;
praticar a caridade;
perseverar.
Não basta sair do túmulo.
É preciso aprender novamente a viver.
XVII. UM APELO A QUEM PENSA:
“PARA MIM JÁ É TARDE”.
Talvez alguém diga: “Para mim já é tarde”.
Não.
Enquanto peregrinamos nesta vida, a misericórdia de Deus continua
chamando-nos à conversão.
Lázaro estava morto, havia quatro dias.
Marta disse: “Já cheira mal”.
E Cristo disse: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”.
Portanto:
Não digas: “Meu pecado é grande demais”.
Diz: “Meu Salvador é maior”.
Não digas: “Eu caí muitas vezes”.
Diz: “A Graça pode levantar-me novamente”.
Não digas: “Eu me afastei demais”.
Diz: “Cristo sabe encontrar o caminho até o sepulcro”.
XVIII. MAS NÃO ABUSEMOS DA MISERICÓRDIA.
Há também uma advertência.
A misericórdia não é licença, para continuar pecando.
Quem verdadeiramente ouviu: “Vem para fora!” não deve voltar
voluntariamente ao sepulcro.
Quem foi desatado não deve pedir novamente as faixas.
Quem recebeu a vida não deve escolher novamente a morte.
São Paulo pergunta: “Permaneceremos no pecado para que a Graça se
multiplique?”
E
responde: “De
modo algum!”
(Rm 6, 1-2).
A verdadeira misericórdia produz conversão.
XIX. E AQUI O CARMELO PODE OUVIR UMA PALAVRA ESPECIAL.
Para uma alma chamada à vida contemplativa, o “Vem para fora!” possui
uma profundidade particular.
É necessário sair:
do ruído para o silêncio;
da dispersão para o recolhimento;
da criatura para o Criador;
do apego para a liberdade;
do ego para Deus;
do pecado para a graça;
da tibieza para o amor.
O Carmelo sempre contemplou essa passagem.
A alma precisa morrer para aquilo que não é Deus, para viver mais plenamente em Deus.
São João da Cruz poderá dizer: “Para vir a saborear tudo, não queiras ter
gosto em nada”.
Não é desprezo das criaturas.
É liberdade interior.
É a alma saindo do pequeno sepulcro do apego, para entrar na liberdade
dos filhos de Deus.
XX. A GRANDE PERGUNTA.
E agora, Cristo não pergunta somente a Marta.
Pergunta a cada um de nós: “Crês isto?” (Jo 11, 26).
Crês, que Cristo pode ressuscitar aquilo que morreu?
Crês, que pode perdoar?
Crês, que pode restaurar?
Crês, que pode converter?
Crês, que pode sustentar?
Crês, que pode salvar?
Crês, que a morte não terá a última palavra?
Crês, que o corpo ressuscitará?
Crês, que haverá Juízo?
Crês, que haverá Vida Eterna?
E sobretudo: Crês, que Ele é a Ressurreição e a Vida?
XXI. A RESPOSTA DO CORAÇÃO CATÓLICO.
Então, Senhor Jesus:
Quando estivermos como a filha de Jairo, entra em nossa casa.
Quando estivermos como o jovem de Naim, interrompe nosso cortejo.
Quando estivermos como Lázaro, remove a pedra do nosso sepulcro.
Quando estivermos amarrados, manda que nos desatem.
Quando estivermos chorando, olha para nós com misericórdia.
Quando estivermos desesperados, dá-nos a Fé de Marta.
E quando chegar nossa última hora, não permitas que nosso coração se
afaste de Ti.
XXII. O ÚLTIMO SEPULCRO.
Um dia também nós seremos colocados num sepulcro.
Talvez nossos olhos estejam fechados.
Talvez nossas mãos estejam imóveis.
Talvez nosso corpo comece a retornar ao pó.
Mas nossa Fé dirá: “Creio na Ressurreição da Carne”.
E então, no último dia, quando a história humana chegar ao seu termo,
ouvir-se-á a Voz que já ouvimos em Betânia: “Vem para fora!”
E todos os que pertencem a Cristo sairão.
Não para uma nova vida mortal.
Mas, para a vida definitiva.
Então se compreenderá plenamente, aquilo que hoje cremos pela Fé: “A
morte foi tragada pela vitória” (1 Cor 15, 54).
XXIII. CONCLUSÃO.
Meus irmãos,
Elias nos ensina: Pedi a Deus.
Eliseu nos ensina: Confiai no poder de Deus.
Jairo nos ensina: Não tenhais medo; crede.
A viúva de Naim nos ensina: Cristo vê nossa dor mesmo quando não
conseguimos pedir.
Lázaro nos ensina: Nenhum sepulcro é profundo demais para a Voz de
Cristo.
Pedro e Paulo nos ensinam: A Igreja é instrumento, mas Cristo é a Fonte.
A Ressurreição de Cristo nos ensina: A morte foi realmente vencida.
E o Credo nos ensina: A nossa história não terminará no sepulcro.
Por isso, se hoje houver em nossa alma alguma coisa morta, não nos
entreguemos ao desespero.
Escutemos.
Talvez já esteja chegando aquela Voz.
Não é uma voz humana.
Não é a voz de um filósofo.
Não é a voz de um psicólogo.
Não é a voz de um moralista.
É a Voz do próprio Verbo: “Lázaro, vem para fora!”
E se Cristo chama, saí do túmulo.
Se Cristo manda retirar a pedra, retirai-a.
Se Cristo manda desatar, deixai-vos desatar.
Se Cristo oferece misericórdia, não a rejeiteis.
Se Cristo oferece a Vida, não escolhais novamente a morte.
Porque Ele mesmo declarou: “Eu sou a Ressurreição e a Vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim jamais morrerá” (Jo 11, 25-26).
E a alma contemplativa pode responder, em profundo silêncio:
Meu Senhor e meu Deus, se há em mim alguma coisa morta, chama-a à
vida.
Se há alguma pedra, remove-a.
Se há alguma faixa, desata-a.
Se há algum pecado, perdoa-o.
Se há alguma ferida, cura-a.
Se há alguma tibieza, inflama-a.
Se há alguma esperança sepultada, ressuscita-a.
E quando chegar a minha última hora, não permitas que eu ouça
outra voz senão a Tua.
E no último dia, quando todos os sepulcros ouvirem a Voz do Filho,
chama também a mim.
“Vem para fora!”
E eu sairei, não para morrer novamente, mas para viver eternamente Contigo.
Amém.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
✠
Fazei-me uma Oração Solene/Universal/Penitencial
sobre este Estudo, com um fundo Carmelitano.
Com profunda reverência ao tema da morte espiritual, da conversão, da misericórdia de Cristo e da passagem do sepulcro para a Vida, segue uma oração em forma solene e universal, procurando unir o espírito penitencial da Igreja ao recolhimento, silêncio interior e confiança próprios da espiritualidade carmelitana.
ORAÇÃO SOLENE, UNIVERSAL E PENITENCIAL.
“LÁZARO, VEM PARA FORA!”
Da morte à Vida, do sepulcro à liberdade, do pecado à graça.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ó Santíssima Trindade,
Pai eterno, Filho Unigênito e Espírito Santo,
Deus Uno, Vivo e Verdadeiro,
diante de Vossa Majestade adorável
nos prostramos em humilde silêncio.
Vós sois o Deus da Vida.
Vós sois Aquele que chama à existência o que não existe,
que levanta o abatido,
que procura o perdido,
que perdoa o pecador,
que liberta o cativo,
que abre os sepulcros
e conduz os Vossos filhos à Vida eterna.
Tende piedade de nós, Senhor.
Senhor Jesus Cristo,
Vós que chorastes diante do sepulcro de Lázaro,
olhai também hoje para os sepulcros
que nós mesmos cavamos em nosso coração.
Há em nós pensamentos mortos,
palavras mortas,
desejos desordenados,
afeições desregradas,
pecados ocultos,
omissões culpáveis,
ressentimentos,
vaidades,
orgulhos,
apegos e tibiezas.
Quantas vezes nosso corpo vive,
mas nossa alma se distancia de Vós!
Quantas vezes caminhamos entre os homens,
mas interiormente permanecemos encerrados
atrás de uma pedra!
Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
I — CONFISSÃO DA NOSSA MISÉRIA.
Ó Senhor, nosso Deus,
reconhecemos diante de Vós:
pecamos.
Pecamos por pensamentos,
por palavras,
por ações
e por omissões.
Pecamos quando conhecemos o bem
e não o praticamos.
Pecamos quando ouvimos Vossa voz
e preferimos a voz das criaturas.
Pecamos quando procuramos consolação
onde deveríamos procurar somente Vós.
Pecamos quando o amor-próprio
ocupou o lugar do amor de Deus.
Pecamos quando nossa vontade
quis reinar onde somente Vossa vontade deveria reinar.
Pecamos quando o ruído do mundo
entrou no santuário interior
onde Vós desejáveis falar conosco.
Misericórdia, Senhor!
Misericórdia!
Não olheis, Senhor, para a multidão de nossas faltas
sem olhar também para a multidão de Vossas misericórdias.
Não nos trateis segundo nossas iniquidades,
nem nos retribuais segundo nossas culpas.
Lavai-nos, Senhor,
e ficaremos mais brancos que a neve.
Criai em nós um coração puro
e renovai em nosso interior um espírito firme.
II — DIANTE DO SEPULCRO.
Ó Jesus,
Vós estais diante do sepulcro.
Vós conheceis aquilo que escondemos de todos.
Conheceis as pedras que colocamos sobre nossas feridas.
Conheceis os pecados que ninguém vê.
Conheceis as lágrimas que não derramamos.
Conheceis as batalhas travadas no silêncio da consciência.
Conheceis nossa fraqueza.
Conheceis nossa vergonha.
Conheceis nossa tibieza.
E, apesar de tudo,
Vós não vos afastais de nós.
Vós vos aproximais.
Vós permaneceis diante do sepulcro.
E hoje também nos dizeis:
“Tirai a pedra”.
Senhor, dai-nos coragem para remover
as pedras de nosso coração:
a pedra do orgulho,
a pedra da autossuficiência,
a pedra do apego,
a pedra da vaidade,
a pedra da sensualidade desordenada,
a pedra da avareza,
a pedra da ira,
a pedra da inveja,
a pedra do ressentimento,
a pedra da negligência espiritual,
a pedra da tibieza,
a pedra do medo de Vos entregar tudo.
Tirai, Senhor, a pedra que impede a Vossa Graça, de alcançar
as regiões mais profundas de nossa alma.
III — “LÁZARO, VEM PARA FORA!”
E agora, Senhor Jesus,
pronunciai sobre nós aquela palavra
que somente Vós podeis pronunciar:
“Lázaro, vem para fora!”
Chamais o pecador da morte para a Vida.
Chamais o escravo à liberdade.
Chamais o disperso ao recolhimento.
Chamais o inquieto ao silêncio.
Chamais o orgulhoso à humildade.
Chamais o impuro à pureza.
Chamais o tíbio ao fervor.
Chamais o ferido à cura.
Chamais o perdido ao caminho.
Chamais o pecador à conversão.
Chamais-nos para fora de nossos sepulcros!
Para fora do pecado.
Para fora das ocasiões de queda.
Para fora das falsas seguranças.
Para fora dos apegos desordenados.
Para fora de tudo aquilo que nos impede de Vos amar
com coração indiviso.
Senhor Jesus,
se Vossa voz chegar até a região mais morta de nossa alma,
nada estará definitivamente perdido.
Porque Vós sois
a Ressurreição e a Vida.
IV — DESATAI-O!
Ó Cristo misericordioso,
quando Lázaro saiu do sepulcro,
ainda estava envolto em faixas.
Também nós precisamos ser desatados.
Desatai-nos, Senhor!
Desatai-nos das cadeias do pecado.
Desatai-nos das lembranças que alimentam o ressentimento.
Desatai-nos das paixões que obscurecem a inteligência.
Desatai-nos das vontades desordenadas.
Desatai-nos da escravidão do ego.
Desatai-nos de toda criatura
que amamos mais do que a Vós.
Desatai-nos, sobretudo,
daquilo que secretamente não queremos abandonar.
E concedei-nos a humildade de permitir
que Vossa Igreja nos ajude a caminhar
na liberdade dos filhos de Deus.
Que o Sacramento da Reconciliação
seja para nós verdadeiro retorno à Casa do Pai.
Que a absolvição sacramental
nos faça experimentar novamente
a alegria de quem foi encontrado.
Que, depois de perdoados,
não voltemos deliberadamente ao sepulcro
de onde Vossa Graça nos arrancou.
V — ORAÇÃO UNIVERSAL.
Senhor Jesus Cristo,
Vós que sois a Vida do mundo,
tende misericórdia de toda a humanidade.
Pelos que vivem longe de Deus:
chamai-os para fora.
Pelos que perderam a esperança:
chamai-os para fora.
Pelos que estão presos ao pecado:
chamai-os para fora.
Pelos que não conseguem perdoar:
chamai-os para fora.
Pelos que abandonaram a oração:
chamai-os para fora.
Pelos que perderam a Fé:
chamai-os para fora.
Pelos que vivem na tibieza espiritual:
chamai-os para fora.
Pelos que estão dentro da Igreja,
mas têm o coração distante de Vós:
chamai-os para fora.
Pelos Sacerdotes, religiosos e Consagrados:
renovai neles a Graça da primeira vocação.
Pelas famílias:
fazei delas santuários de Vida, Fé e Caridade.
Pelos jovens:
guardai-os das seduções que conduzem à morte.
Pelos enfermos, aflitos e abandonados:
sede Vós sua consolação.
Pelos que estão agonizando:
recebei-os em Vossa misericórdia.
Pelos nossos falecidos:
conduzi-os à Vida eterna.
E por todos aqueles que ainda não Vos conhecem:
fazei resplandecer sobre eles a luz do Vosso Evangelho.
VI — NO SILÊNCIO DO CARMELO.
Ó Senhor,
conduzi-nos agora ao Carmelo interior.
Levai-nos para a solidão onde somente Vós sois necessário.
Ensinai-nos a abandonar o ruído
para escutar Vossa voz.
Ensinai-nos o santo silêncio
que não é vazio,
mas presença.
Fazei de nossa alma uma pequena cela
onde Vós possais permanecer.
Fazei de nosso coração um altar.
Fazei de nossa inteligência um lugar de verdade.
Fazei de nossa vontade uma oferenda.
Fazei de nossa vida uma contínua subida
ao monte da união convosco.
Como Elias,
ensinai-nos a permanecer diante de Vós.
Como Elias,
dai-nos zelo pela Vossa glória.
Como Elias,
purificai nosso coração
de todo falso deus.
Como Elias,
ensinai-nos a reconhecer Vossa presença
não somente no fogo,
mas também na brisa suave do silêncio.
E quando nossa alma estiver cansada,
quando o caminho parecer demasiado longo,
quando o desânimo nos disser que não podemos continuar,
dai-nos ouvir a palavra:
“Levanta-te e come, porque o caminho é demasiado longo para ti”.
Sustentai-nos, Senhor,
com o Pão da Vida.
VII — MARIA, MÃE DA VIDA.
Ó Maria,
Mãe de Jesus,
Mãe da Divina Graça,
Mãe da Vida,
recebei-nos sob Vosso manto.
Vós que destes ao mundo
Aquele que é a Ressurreição e a Vida,
ensinai-nos a guardar Cristo
no mais profundo de nosso coração.
Conduzi-nos ao silêncio.
Conduzi-nos à pureza.
Conduzi-nos à humildade.
Conduzi-nos à obediência.
Conduzi-nos à contemplação.
E quando nossa alma estiver envolvida
pelas faixas de nossas misérias,
levai-nos até Vosso Filho.
Não permitais que permaneçamos
no sepulcro de nossas antigas escravidões.
Ó Maria,
Mãe da Vida,
rogai por nós!
VIII — PELA IGREJA E PELO MUNDO.
Senhor Jesus,
Vós que ressuscitastes Lázaro
e depois Vós mesmo passastes
pela morte e pela glória da Ressurreição,
olhai para Vossa Santa Igreja.
Purificai-a em seus filhos.
Santificai seus Ministros.
Fortalecei seus Confessores.
Iluminai seus Teólogos.
Protegei seus Contemplativos.
Sustentai seus Mártires.
Consolai seus sofredores.
Despertai novas vocações.
Fazei que o mundo reconheça
que não existe verdadeira liberdade
longe da Verdade
e que não existe verdadeira Vida
longe de Vós.
Dai-nos coragem para proclamar
que o pecado conduz à morte,
mas que Vossa Misericórdia
é mais poderosa que nossa miséria.
IX — A GRANDE SÚPLICA PENITENCIAL.
Ó Senhor,
se estamos mortos, ressuscitai-nos.
Se estamos adormecidos, despertai-nos.
Se estamos afastados, atraí-nos.
Se estamos feridos, curai-nos.
Se estamos presos, libertai-nos.
Se estamos cegos, iluminai-nos.
Se estamos surdos, abri nossos ouvidos.
Se estamos mudos, ensinai-nos a louvar-Vos.
Se estamos frios, inflamai-nos.
Se estamos divididos, uni-nos.
Se estamos orgulhosos, humilhai-nos.
Se estamos desesperados, fazei-nos esperar.
Se estamos pecando, convertei-nos.
Se estamos morrendo, recebei-nos.
E, finalmente,
quando chegar a hora em que ouviremos
a Voz do Filho do Homem
chamando todos os que estão nos sepulcros,
fazei que nossa alma não tema Sua voz.
Que Aquele que hoje nos chama
à conversão
seja então Aquele que nos chamará
à glória.
X — PROFISSÃO DE CONFIANÇA.
Nós cremos, Senhor.
Cremos que Vós sois
a Ressurreição e a Vida.
Cremos que quem vive e crê em Vós
não morrerá para sempre.
Cremos que Vossa misericórdia
é maior que nossa miséria.
Cremos que nenhum pecado confessado
é maior que Vosso perdão.
Cremos que nenhuma noite
é maior que Vossa luz.
Cremos que nenhum sepulcro
é mais forte que Vossa palavra.
Cremos que a morte não terá
a última palavra.
Vós a tereis.
E porque Vós viveis,
nós também viveremos.
XI — OFERENDA FINAL.
Recebei, Senhor,
nossa memória,
nosso entendimento,
nossa vontade,
nossos sentidos,
nosso corpo,
nossa alma,
nossa liberdade,
nosso passado,
nosso presente
e nosso futuro.
Nada queremos reservar para nós.
Tomai tudo.
Purificai tudo.
Santificai tudo.
Transformai tudo.
E fazei de nossa existência
uma preparação silenciosa
para aquele encontro definitivo
em que veremos Vossa Face.
Que possamos morrer diariamente
para aquilo que nos separa de Vós
e nascer diariamente
para aquilo que Vos agrada.
Que possamos dizer, com toda a verdade:
“Já não sou eu que vivo,
mas é Cristo que vive em mim”.
XII — CONCLUSÃO.
Ó Jesus,
diante de Vós colocamos
todos os nossos sepulcros.
Vós conheceis cada um deles.
Não permitais que permaneçamos dentro deles.
Pronunciai sobre nós
Vossa palavra criadora:
“VEM PARA FORA!”
E quando sairmos,
tirai as nossas faixas;
quando estivermos livres,
ensinai-nos a caminhar;
quando estivermos curados,
ensinai-nos a servir;
quando estivermos reconciliados,
ensinai-nos a perdoar;
quando estivermos vivos,
ensinai-nos a viver para Vós.
E quando chegar nossa última hora,
quando a pedra do último sepulcro
parecer encerrar definitivamente nossa existência,
que nossa esperança permaneça firme
na promessa do Vosso Evangelho.
Porque sabemos:
Vós sois a Ressurreição e a Vida.
A Vós, ó Cristo,
que vencestes a morte,
seja dada toda honra, toda glória,
todo louvor e toda adoração,
com o Pai e o Espírito Santo,
agora e por todos os séculos dos séculos.
Amém.
Cristo ressuscitou dos mortos;
pela morte venceu a morte,
e aos que estavam nos sepulcros deu a Vida.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.











