BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

domingo, 7 de outubro de 2012

EIS A VERDADEIRA CAUSA QUE LEVOU SÃO BRUNO E SEUS COMPANHEIROS A FUNDAREM A CARTUXA.


... São Bruno, o modelo e a admiração de todo o clero, edificava pela pureza de seus costumes toda a cidade, quando Manassés intrometendo-se simoniacamente na Sé Arquiepiscopal de Reims, procurou manter-se nela por toda sorte de violências e de dissoluções. Julgou o Santo que não podia, nem devia ocultar a dor que lhe causava semelhante escândalo. A sua conduta já por si era uma censura aos desregramentos deste Pastor mercenário para passar desapercebida; maltratou pois a Bruno, e nada esqueceu para o perder.

Mas, tendo sido expulso Manassés, deliberou-se dar-lhe como sucessor o nosso Santo. Este, logo que o soube, ficou alarmado do projeto; fugiu secretamente, e tão bem se escondeu, que foi preciso escolher outro. O novo eleito foi Reinaldo de Bellay, tesoureiro da igreja de Tours. Alguns biógrafos modernos opinam que estas perturbações da igreja de Reims, juntas ao desgosto que inspirava ao nosso Santo tudo aquilo que no mundo mais lisonjeia, foram o principal móbil do seu retiro a qualquer afastado deserto, para se ocupar somente do negócio importante da sua salvação. Mas é pouco verossímil que uma causa tão leve tenha tido um efeito tão surpreendente. Uma vida tão regular e tão inocente não teria sido seguida de uma penitência espantosa; uma tal resolução pois deveu ter outra coisa.


Com efeito a tradição, nascida com a própria Ordem dos Cartuxos, e autorizada pelo testemunho do famoso João Gerson, Chanceler da Universidade de Paris, de Santo Antonino e de todos os grandes homens desta Ordem é que a verdadeira causa da resolução que tomou subitamente o nosso Santo de se ir sepultar no resto de seus dias em um horrendo deserto, e de nele passar a vida mais austera, foi um dos mais assombrosos acontecimentos que podem abalar profundamente a alma.  O autor da história da vida do nosso Santo, que a escreveu no ano de 1150, quarenta e seis anos depois da sua morte, e que faz uma relação muito circunstanciada e muito exata dos princípios dos Cartuxos; um santo religioso da Cartuxa de Merya, que vivia em 1270; Guilherme de Erbura que escrevia em 1313; o autor da Crônica dos Priores da Cartuxa que florescia em 1383; enfim, o célebre Dionísio, o Cartuxo, que morreu em 1471; todos estes grandes homens que certamente nem eram simples, nem crédulos, e muito menos visionários, emitem sobre este fato opinião muito diversa e mais provável que a dos críticos do século décimo sétimo, que foram os primeiros que deram como apócrifa esta venerável tradição. Eis como todos estes historiadores contam o acontecimento, de que se serviu Deus para levar São Bruno a sepultar-se no deserto e a lançar os fundamentos da Ordem dos Cartuxos.


Durante a estada do nosso Santo em Paris, morreu um célebre doutor da Universidade, homem que passava por ser de reconhecida probidade e honesto, depois de se preparar com a recepção dos Santos Sacramentos. Tivera o seu corpo depósito na igreja. Quando se estava cantando o Ofício de corpo presente, ao chegarem à quarta lição que começa: Responde mihi, o cadáver levantou a cabeça do féretro e com voz lastimosa exclamou: Por justo juízo de Deus sou acusado: dito isto, tornou a repousar a cabeça, como dantes.

Apoderou-se de todos os assistentes um terror geral, e resolveram deixar para o outro dia os funerais. Neste dia foi muito maior a concorrência; recomeçou-se o Ofício, e ao chegar às mesmas palavras, tornou o cadáver a erguer a cabeça e a exclamar com voz esforçada e mais lastimosa: Por justo juízo de Deus estou julgado.

Subiu de repente o pasmo e o espanto. Resolveram diferir a inumação para o terceiro dia. Neste foi imenso o concurso; deu-se princípio ao Ofício; como nos precedentes; quando se cantavam as mesmas palavras, levantou o defunto a cabeça, e em voz horrível e espantosa exclamou: Não careço de orações; por justo juízo de Deus estou condenado ao fogo eterno.


É fácil compreender a impressão que faria nos ânimos um acontecimento tão extraordinário. Achava-se Bruno presente a este espetáculo; tão fortemente se emocionou com ele que, retirando-se todo horrorizado, resolveu deixar quanto tinha e enterrar-se em algum espantoso deserto para ali passar a vida entregue unicamente aos rigores da mortificação e da penitência. Parecia necessário um sucesso tão trágico para uma resolução tão generosa.

Estando nestes pensamentos, vieram visitá-lo seis amigos seus; logo que chegaram, disse-lhes o Santo com as lágrimas nos olhos: “Amigos, em que pensamos? Condenou-se um homem que na opinião de todos viveu cristãmente; quem pois poderá fiar-se seguramente no testemunho da sua consciência? Oh! Que formidáveis são os juízos de Deus! O morto não falou para si; a nós se dirigiu o aviso daquele espantoso milagre. Pelo que me toca tomei já o meu partido; resolvido estou a abandonar tudo para sempre: benefícios, empregos, rendas, tudo se acabou já para mim; vou sepultar-me vivo no deserto mais horroroso que encontrar, e aí passar a vida na amargura, na solidão e na penitência”. Movidos todos aqueles amigos do que acabavam de ouvir, protestaram que todos estavam no mesmo pensamento e na mesma resolução, prontos a segui-lo.


Chamavam-se Lauduíno, que depois de São Bruno foi o primeiro Prior da Grande Cartuxa; Estêvão de Bourg e Estêvão de Die, ambos Cônegos de S. Rufo em Valência do Delfinado; um Sacerdote, chamado Hugo, e dois leigos que se chamavam André e Guerino. Entraram a discorrer sobre qual deserto lhes conviria: os dois Cônegos de S. Rufo disseram que em seu país havia um santo Bispo, em cuja Diocese dispunha de muitos bosques, e sítios inacessíveis e penhascos; que não duvidavam do zelo e muita bondade que favorecia os seus intentos, caso recorressem a ele. Este santo Prelado era Hugo, Bispo de Grenoble, célebre por sua santidade, e um dos maiores Prelados do seu século. Aplaudiram todos este parecer.

Pedida por São Bruno a demissão da sua prebenda, e feita a renúncia de tudo, tomou o caminho do Delfinado com seus seis companheiros, lançou-se aos pés do santo Bispo de Grenoble, pedindo-lhe que se dignasse conceder aos sete um sítio ermo, aonde pudessem retirar-se. Lembrou-se então S. Hugo de um sonho que tivera na noite precedente, em que lhe pareceu ver o  próprio Deus fabricando para Si um templo, em um deserto do seu Bispado chamado a Cartuxa, e que sete estrelas levantadas da terra em forma de círculo iam adiante do mesmo Bispo como para lhes mostrarem o caminho.

Mandou-os sentar a todos, e tendo-lhes perguntado qual o motivo de sua viagem, tomou a palavra São Bruno, e depois de lhe referir o prodigioso acontecimento de Paris, lhe suplicou fosse servido assinalar-lhes algum deserto, onde passassem a vida na penitência e retirados do comércio humano. Logo que S. Hugo ouviu a sua narração, referiu-lhes a visão que tinha tido, certo de que eram eles as sete estrelas misteriosas. Abraçou-os ternamente, louvou os seus generosos intentos, ofereceu-lhes o deserto da Cartuxa, descrevendo-o desta maneira: “Se buscais lugar inacessível aos homens, não achais outro menos pisado por pé humano; mas notai que é uma silenciosa solidão, cuja vista mete horror; é um conjunto de penhas escarpadas, cujos cimos sobem até se ir esconder no seio das nuvens. No inverno está todo coberto de espessos lençóis de neve, obumbrado por névoas perpétuas, sendo o frio por um lado insuportável, por outro interminável; numa palavra, é um lugar que até agora só o têm povoado as feras”.


Vendo que esta descrição longe de lhes esfriar o ardor, mais lhes despertava os brios, acrescentou: “Conheço claramente que Deus vos destina a esta horrorosa solidão; o mesmo Senhor vos dará as forças para nela vos manterdes”. Demorou-os alguns dias no paço, para que se restaurassem das fadigas do caminho; depois disto foi acompanhá-los até ao lugar de que os deixou de posse. Não contente de ceder-lhes todo o direito que a ele tinha, ofereceu-se para indenizar o dono de quaisquer pretensões que pudesse alegar, tudo para que nada os pudesse estorvar ou inquietar.

A primeira coisa de que trataram os solitários foi da edificação da capela em honra da Santíssima Virgem, e de umas celazinhas a pouca distância uma das outras, em um terreno que está no meio de três grandes penhascos, de cuja base brota uma pequena fonte, que ainda hoje chamam de S. Bruno, tudo perto da capela, que desde então é conhecida pelo nome de Santa Maria das Choças. Entraram estes anjos em carne humana a habitar aquele deserto, e a levar nele a vida mais austera que se tem visto na Igreja. Era dia de São João Batista, do ano 1084...



 
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Fonte: Rev. Pe. Croiset, S.J., “Ano Cristão ou Devocionário para todos os dias do ano”, traduzido do francês, revisto e adaptado às últimas Reformas Litúrgicas pelo Rev. Pe. Matos Soares, Professor do Seminário do Porto, Vol. X, Dia 6 de Outubro – Festa de São Bruno, pp. 71-75; Tip. “Porto Médico”, Ltda, Porto, 1923.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

“A fobia da liberdade” e a censura.



SOBERBO!

Por Reinaldo Azevedo

Os seguidores de Maomé e os “racialistas” recriam a censura no Brasil, com participação da Justiça Ou: O fato de um filme ser um lixo não dá a ninguém o direito de matar ou de impor aos outros a sua vontade.

Tenho 51 anos. Integrei a jovem geração que lutou por liberdade de pensamento e expressão. E que a conquistou, junto com os mais velhos, que se dedicaram à luta institucional.

Aqui, abro parênteses para uma pequena digressão. Depois retorno ao leito do rio. Dia desses, Lula sugeriu que o regime democrático é uma conquista do PT. Uma ova! Tivesse o sistema político seguido a sua orientação, o Regime Militar teria elegido (e não “eleito” nesse caso…) Paulo Maluf, hoje um aliado dos petistas (era premonição?), presidente da República.

Tivesse o sistema político seguido a sua orientação, a Constituição de 1988 teria ficado sob a sombra da ilegitimidade, já que os petistas se negaram a participar da sessão de homologação da Carta. E muitos foram os outros boicotes do partido à ordem legal.
 
A Lei de Anistia, fundamental para a transição para a democracia, nada deveu ao petismo — o partido só seria fundado em 1980.

Tampouco tem qualquer vínculo com o movimento sindical do ABC. Ao contrário até: a pauta do lulismo, até ali, tinha pouquíssimo apelo de natureza institucional. O desejo de liberdade que a muitos movia, só vim saber depois, só poderia ser garantido por uma sociedade democrática, de mercado e laica.

O que me levou, aliás, aos 15 anos, a me ligar a um grupo de esquerda foi justamente não me conformar com a possibilidade de que um estado onipresente dissesse o que eu poderia ou não fazer. O vocabulário era outro. Falávamos então “o sistema”. Éramos contra “o sistema”. É claro que, se era liberdade o que eu queria, a esquerda não era o caminho, como descobri depois. Mas, já escrevi, não me arrependo dos meus impulsos de então nem do meu equívoco. É evidente que a ditadura tinha de acabar.

Trinta e seis anos depois, pego-me aqui a noticiar que a Justiça determinou que o Google, a pedido da União Nacional Islâmica (UNI), retire do Youtube, no Brasil, qualquer trailer do filme “Inocência Islâmica”. Não vi esse troço nem tentarei. O que li a respeito já me basta. É um lixo! Suponho que a UNI, para pedir a censura, o tenha visto. E agora pretende impor ao conjunto dos brasileiros — como, parece, boa parte dos islâmicos querem impor ao mundo — os seus valores e a sua leitura da realidade. A síntese é a seguinte: a UNI já viu o filme por nós todos e decidiu que não temos o direito de formular o nosso próprio juízo — inclusive constatar que é um lixo.

O Departamento Nacional de Censura, durante a ditadura militar, fazia rigorosamente isto: via antes os filmes. Se julgasse que eles poderiam trazer qualquer ameaça à ordem interna ou à índole pacífica do nosso povo, proibia. Nos tempos mais severos, os autores poderiam ser perseguidos.

O valor da democracia é outro. As maiores conquistas da humanidade se deram num ambiente de liberdade, de livre exame dos fatos e da história. Por mais odioso ou errado — no sentido de que possa estar em desacordo com os fatos — que seja um pensamento, é na liberdade de apontar o erro que reside a nossa grande qualidade. Se há mesmo, no tal filme, discriminação de uma religião e incitamento ao preconceito, práticas vetadas pela nossa Constituição, é preciso que se proceda a um exame objetivo do caso em questão.

A Constituição aboliu — e isso nos custou bastante — a censura prévia. A UNI não pode ter a pretensão, não numa democracia, de decidir ela própria, com o concurso de juízes brasileiros, o que podemos ou não ver. E isso vale, obviamente, para qualquer religião.

Duas das novelas que estão no ar, na Globo, ridicularizam impiedosamente personagens católicos — avançando para a caricatura grotesca. Carminha, a Megera de “Avenida Brasil”, diz-se uma católica fervorosa. Tem uma ONG, que administra em parceria com um padre idiota e comilão, só para roubar dinheiro de Tufão, o Cornão. Em público, exibe seus dotes de carola, persignando-se, fazendo tábula rasa de valores que são caros a milhões de pessoas. É evidente que essa história acaba tendo uma moral: o católico fervoroso é sempre um santarrão do pau oco, alguém que, no escurinho, pratica o contrário da fé que prodigaliza.

Em Gabriela, um padre afrescalhado, que gosta de virar os olhinhos quando fala, é só um contínuo idiota dos coronéis: nega-se a casar Gabriela porque já vivia com o noivo, mas celebra o casamento de um assassino confesso. As beatas que vivem ao redor do altar são exemplos notáveis de hipocrisia, vigarice moral e parvoíce. Sim, como católico, confesso, ofendem-me as duas reduções grosseiras da religião. Não é a crítica em si, não — eu sou apaixonado, por exemplo, por “O Vermelho e O Negro”, de Stendhal —, mas a simplificação rasteira. Mas vou fazer o quê? Os católicos farão o quê?

Podem protestar, fazer abaixo-assinados, mandar cartinhas à emissora, essas coisas muito próprias das democracias. E só! Não se concebe que, vendo ofendidos seus valores ou sua igreja, saiam por aí a botar fogo no mundo, a matar pessoas, a impor aos não católicos a sua visão de mundo.

Lembram-se da campanha antiaborto em 2010

Não precisamos ir muito longe, não. Recuemos modestos dois anos. Este país — e a maior parte de sua imprensa — assistiu calado a uma clara agressão à liberdade religiosa e à liberdade de expressão quando foram apreendidos panfletos impressos por católicos pregando a seus fiéis que não votassem em candidatos favoráveis ao aborto. O PT recorreu à Justiça, e o TSE determinou que a Polícia Federal os recolhesse. Pessoas foram detidas por portar o papel. O texto não citava o PT. O texto não citava Dilma. O texto tratava apenas de valores. Fazia uma recomendação pacífica — VOTO!!! — a seus fiéis. Nada mais do que isso.

A imprensa assistiu calada àquele absurdo e, em muitos aspectos, até estimulou a decisão, na medida em que passou a considerar a expressão de uma opinião de uma parcela da Igreja uma interferência indevida no processo eleitoral. Como se a manifestação de religiosos trouxesse, em si mesma, o mal. A questão alcançou 2012. E de maneira dramática. Antes mesmo que o PSDB ensaiasse os seus primeiros passos eleitorais, o “jornalismo independente” arrancou do partido uma espécie de promessa de que jamais se tocaria nesse assunto — ou no kit gay. Esses setores do jornalismo só se esqueceram de combinar com Celso Russomanno e com a Igreja Universal. Mas não vou tomar o atalho. Volto ao meu leito.

Uma carta de uma página — pacífica, respeitosa, decente — foi tratada como manifestação do obscurantismo, das trevas, da religiosidade tacanha.

Agora, a censura imposta pelos islâmicos — mundo afora, na pancadaria; entre nós, com o auxílio da Justiça — é recebida sob um silêncio reverencial, com medo. São os setores que adoram odiar os cristãos, que não ameaçam ninguém, mas que reconhecem aos muçulmanos uma espécie de “direito natural” de impor mundo afora os seus valores e as suas crenças. A ironia perversa é que, no dia em que a Justiça brasileira volta a aplicar a censura prévia, a presidente brasileira, na ONU (ver posts abaixo), acusou a existência de “islamofobia” no Ocidente, como se os crentes dessa religião estivessem impedidos de exercer livremente as suas convicções.

Imaginem, reitero, se católicos tivessem tentando impor quaisquer limites ao catolicismo vigarista da Carminha ou à moral torta e saltitante do padre de “Gabriela”. Ainda que tivessem se manifestado apenas por intermédio de um texto, ouviríamos a gritaria: “Censura!”.  Uma ação judicial, então, não teria chance de prosperar — e é bom que assim seja. Os católicos têm de aprender a defender os seus valores sem esperar que o estado ou os meios de comunicação façam isso por eles. Até porque o que está realmente em curso no Ocidente e, desde sempre, em vários países islâmicos é outra fobia: a “Cristofobia”, que é título de um dos capítulos de “O País dos Petralhas II – O inimigo agora é o mesmo”.

Já escrevi posts aqui tratando de suas situações curiosas. O New York Times publicou um anúncio conclamando as pessoas a abandonar o catolicismo, apontando as suas mazelas. Uma leitora teve uma ideia: fez peça idêntica, mas convidando fiéis a abandonar o islamismo. O anúncio foi recusado. Mark Thompson, então chefão da BBC, admitiu no começo deste ano que a rede jamais zombaria de Maomé como zombava de Cristo e explicou as razões: os muçulmanos consideram isso uma ofensa. Já os cristãos não se importavam muito. Entendo. No mês passado, Thompson mudou de continente e foi ser CEO do New York Times. Pelo visto, o jornal continuará a publicar anúncios incitando católicos a abandonar a sua religião e continuará a não publicar os que conclamam os islâmicos a fazer o mesmo. Pelo visto, quem tem o argumento da força a utiliza como força do argumento.

Não, não vi o filme e não vou ver. Aliás, o mundo o teria ignorado não tivesse sido ele transformado numa causa pelo radicalismo islâmico, que agora faz a sua pauta chegar ao Brasil.

Uma entrevistado presidente do Egito

No domingo, o New York Times, aquele de que Thompson é agora o chefão, publicou uma entrevista com o presidente do Egito, Mohamed Mursi, um dos líderes da Irmandade Muçulmana. Mais do que apoiado, ele tem incentivado manifestações de protesto contra o tal filme. Para provar a sua notável compreensão sobre o mundo moderno, afirmou esta maravilha:

“Se você quer avaliar as ações do povo egípcio segundo o padrão cultural alemão, chinês ou americano, então não há o que fazer. Quando os egípcios decidem alguma coisa, provavelmente isso não é apropriado para os Estados Unidos. Quando os americanos decidem alguma coisa, isso, evidentemente, não é apropriado para o Egito”.

Certo! Os povos têm, segundo ele, sua identidade, suas necessidades, sua visão de mundo. Isso não pode servir de pretexto, claro!, para que tiranias sanguinolentas se imponham ao arrepio de qualquer ordem internacional, mas é fato que um povo não pode dizer ao outro o que fazer. Ora, no Ocidente — nos Estados Unidos e nos demais países compreendidos sob essa designação —, a liberdade de expressão, de pensamento e de crítica é um valor, um fundamento. Que se note: não é a crítica aos muçulmanos ou a ironia com Maomé que têm ser protegidos, mas a possibilidade de expressar um ponto de vista. Se os egípcios podem e devem viver sob seus valores, por que seria diferente nas democracias ocidentais? O New York Times não lhe fez essa pergunta. Vai ver era para não ofender o entrevistado.

O mal está entre nós

O mal da censura está entre nós. Por incrível que possa parecer, por mais estúpido que isso se nos afigure, Monteiro Lobato, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos — e era mesmo, acreditem! —, estará sob julgamento no STF. Terminou sem acordo ontem uma reunião entre o Ministério da Educação e representantes de um tal Instituto Advocacia Racial e Ambiental (Iara), que quer impedir a distribuição do livro “Caçadas de Pedrinho” em escolas públicas. O Iara submeteu a obra a um tribunal racial e exige que se acrescente a ela um adendo apontando os trechos considerados racistas.

Em 2010, depois de denúncia da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, o Conselho Nacional de Educação (CNE) determinou o banimento do livro das escolas. O MEC pediu reconsideração, e o veto foi anulado. A Iara impetrou um mandado de segurança em nome do, calculem!,  técnico em gestão educacional Antônio Gomes Neto. No dia 11, o ministro Luiz Fux convocou uma audiência entre as partes, mas não houve acordo. A matéria agora deve ser analisada pelo plenário.

Adami já deixou claro que só aceita um resultado. Promete recorrer a “cortes internacionais” — como se a elas o STF fosse subordinado — caso não consiga o seu intento. Animado com a sua compulsão para censor, já pôs outro livro de Lobato na mira: “Negrinha”, que reúne 22 contos do autor. O Iara protocolou na manhã desta terça uma ação administrativa na Controladoria Geral da União (CGU) questionando a distribuição da obra em escolas públicas.

Vamos ver

Meu primeiro livro, “Contra o Consenso”, traz um pequeno ensaio sobre Monteiro Lobato. Noto ali o óbvio (embora o tema do meu texto seja outro): Lobato não é, com efeito, uma referência para o debate racial, nos termos em que as pessoas civilizadas entendem hoje a questão. Era um homem com todas as deformações do seu tempo — como todos nós. Por isso existem os professores. Por isso existem as escolas. Aliás, quem dera Lobato fosse hoje um autor trabalhado em sala de aula! Não é, com ou sem distribuição de livros pelo MEC. Seu vocabulário, mesmo na obra infantil, se tornou dramaticamente distante da indigência de nossas escolas. Que Lobato o quê! Hoje o que se leva à sala de aula, não raro, são as referências do que Paulo Freire (Deus meu!) chamava “educando”: RAP e funk! Trinta e dois por cento dos nossos universitários não são plenamente alfabetizados. Quatro por cento são analfabetos. O Jeca Tatu de Lobato era só um coitado! Os nossos Jecas estão no poder.

Imaginem se a Itália ousaria acrescentar à Divina Comédia, de Dante, uma advertência, chamando a atenção para o caráter anti-islâmico e antissemita da obra — porque há passagens que permitem essa leitura. Ou se a Inglaterra faria o mesmo com peças de Shakespeare, proibindo Otelo (o escuro incontido) ou “O Mercador de Veneza” (por antissemitismo). Ou se os EUA acrescentariam um “cuidado” por causa das inclinações fascistas de Ezra Pound! Ou se Portugal deveria censurar Alexandre Herculano em razão de “Eurico, o Presbítero”, para não mexer com susceptibilidades da Espanha (que apanha na obra) e dos muçulmanos.

O que é a educação numa sociedade livre senão a aquisição do pensamento científico e a formação do espírito crítico e de convicções no confronto livre de ideias? A ser como querem esses do tal Iara, toda obra deveria estar sempre em constante reescritura para adaptá-la aos valores contemporâneos. Não posso imaginar delírio totalitário maior do que esse — porque isso significaria, de fato, o fim da história.

Encerrando
Volto aos meus 15 anos, ao meu inconformismo com o “sistema”, o tal que ousava dizer o que eu podia ou não fazer, o que eu podia ou não ler, o que eu podia ou não pensar. Ao alcance do braço, em razão da disposição da estante em que estão estes livros, pego aqui “Trotski – Escritos Sobre Sindicato”. É uma publicação de outubro de 1978. Foi impresso antes ainda do fim do AI-5, que foi extinto no dia 13 daquele mês. Duas prateleiras abaixo, “Gramsci e o Bloco Histórico”, da Editora Paz e Terra. Ano de publicação: 1977 — na vigência ainda da ditadura, com todos os seus instrumentos.
Em 2012, os “novos iluminados”, agora divididos  em corporações do ofício do pensamento, resolvem impor a censura prévia ao país e tirar livros de circulação. Tudo em nome da democracia! É a fobia da liberdade!


 

“80% dos católicos alemães não acreditam mais em Deus”.





Dom Wilhelm Schraml.FSSPX-Itália | Tradução: Gederson Falcometa:  Estas são as palavras de Dom Wlhelm Schraml, bispo de Paussau, na Alemanha, em uma entrevista a Passauer Neue Presse. O prelado também declarou que 70% dos cristãos alemães não acreditam mais na ressurreição dos mortos. Que terrível constatação de falência, sobretudo quando se considera que os 20% restantes não aceitam todos os dogmas da fé católica.

Onde está a primavera da Igreja que deveria florir depois do Concílio Vaticano II?

 

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