“Conta
Thomas de Cantimpré que, em 1248, um sacerdote foi encarregado de
fazer um discurso ao clero de Paris reunido em Sínodo. Este
sacerdote era muito ignorante e, estando na presença de seu
auditório, se confundiu completamente. Então o demônio veio em sua
ajuda e lhe sugeriu que pronunciasse as seguintes palavras: 'Os
príncipes das trevas saúdam os príncipes da igreja, e nós lhes
agradecemos vivamente pela negligência em instruir ao povo. Pois, as
almas estagnadas na ignorância, seguem o caminho do mal e chegam ao
inferno'. Linguagem semelhante bem se poderia dirigir a certos
pais”.
RESPOSTAS AOS PRÍNCIPES DAS TREVAS
A
Grandeza e Dignidade
do
Sacramento do Matrimônio:
Fundamento
da Família.
I
Quis
Deus manifestar suas perfeições infinitas e criou o mundo. Neste
mundo quis ser reconhecido, louvado, adorado. Os céus deviam narrar
a sua glória, o firmamento manifestar a obra de suas mãos; o dia
anunciar ao dia esta mesma verdade, e a noite revelar à noite a
ciência misteriosa do Altíssimo.
Era preciso, porém, aqui,
no meio deste universo visível, uma inteligência que interpretasse
a muda homenagem das criaturas materiais, uma inteligência que
servisse de órgão à adoração universal, uma inteligência que,
elevando-se acima dos mundos, os curvasse, resumidos em si, perante o
trono de Deus, no estremecimento íntimo da adoração e do amor.
Essa inteligência era o homem.
Adão,
ao sair das mãos do Criador, reconheceu toda a importância de sua
missão religiosa. Ao ver esta natureza tão perfeita, tão formosa,
tão plena, tão harmônica, em todas as suas partes; a luz do sol
iluminando durante o dia, a da lua mitigando a escuridão da noite; o
exército inumerável das estrelas, fixas e errantes, formado nos
espaços sem limites; ao ver a terra ostentar seus primores na imensa
variedade das plantas e dos animais, nos montes e nas cordilheiras
altíssimas, nas fontes cristalinas, nos caudalosos rios, nos mares e
Oceanos, arfando em cheias e vazantes regulares, povoados de mil
peixes e mariscos, banhando por ondas, ora serenas, ora agastadas, as
ilhas e os continentes, e mil outras coisas, pasmo da vista e enleio
do entendimento, não pode Adão deixar de reconhecer que ele era
criado para dar glória ao Soberano Autor de tantas maravilhas.
O
primeiro homem foi, pois, o primeiro adorador, da Divindade.
Mas
ele estava só. Passeava solitário e pensativo pelas frescas sombras
dos arvoredos do Éden, sentindo que alguma coisa lhe faltava, que
lhe faltava um complemento de sua vida.
Também
não era ordem da Providência que ele ficasse só. Deus não queria
neste mundo um adorador solitário; queria, pelo contrário, gerações
e gerações de adoradores, uma multidão inumerável de criaturas
inteligentes e livres, que perpetuassem sobre a terra o seu culto, e
glorificassem o seu Santo Nome, praticando obras de justiça e de
santidade, para serem depois premiados com uma eterna bem-aventurança
nos Céus.
Por
isso, disse Deus: “Não
é bom que o homem fique só. Façamos-lhe um adjutório semelhante a
si”.
E
infundindo em Adão um sono profundo, ou antes arrebatando-o em
misterioso êxtase, durante o qual, suspensas as operações dos
sentidos, ia o entendimento conhecendo com lume profético o mistério
que se dava, tirou-lhe Deus da ilharga uma costela, da qual formou a
mulher; e ao receber esta, prorrompeu Adão no cântico admirável, o
cântico das primeiras núpcias, que ressoou suavíssimo no meio dos
encantos virgens daquela natureza primitiva: “Este
é o osso de meus ossos, a carne de minha carne. Por ela deixará o
homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua esposa, e serão dois
numa só carne”.
Palavra
sublime, que fixa a lei eterna da família:
“Um com uma, unidos perante Deus até à morte”.
E derramou Deus sobre a casta união dos esposos a bênção fecunda
que perpetua o gênero humano: “Crescei
e multiplicai-vos, e enchei a terra”.
Tal
é o sagrado laço do Matrimônio. Como o homem e a mulher não são
só corpos, mas almas imortais criadas à imagem e semelhança de
Deus, esta união não é só material, mero resultado do instinto,
como sucede entre os animais; mas é uma união moral, santificada
pela Religião, vínculo espiritual e perpétuo que associa dois
entes, um representando a força e o poder, o outro a beleza e a
graça; um apto pelo vigor do espírito e do corpo ao governo do
exterior e ao ativo labutar dos negócios, o outro destinado, pela
suavidade e delicadeza de seus atrativos e virtudes, a amenizar e
santificar o remanso íntimo do lar; que os associa, digno, com o fim
de se completarem mutuamente, de se auxiliarem nos caminhos da vida,
e procriarem novos entes que glorifiquem o Criador.
II
Jesus
Cristo, Filho de Deus, que veio salvar o que estava perdido, que veio
restaurar e regenerar tudo, elevando a humanidade a uma alta
perfeição sobrenatural, quis que sua graça refluísse até à
fonte mesma da vida, e fez do Matrimônio, que já era um contrato
sagrado, um Sacramento da Lei Nova. Desejou a Salvador deixar ao
mundo um símbolo expressivo da inefável e indissolúvel união que
Ele contraiu com a sua Igreja.
Que
união é esta?
São
Paulo, arrebatado sobre as asas da inspiração divina, no-lo
explica: “O Cristo, diz Ele, amou a sua Igreja, e
entregou-se por Ela, a fim de A santificar purificando-A no banho da
água pela palavra da vida”.
A Igreja é, pois, a nova Eva, que sai no Calvário do lado ferido do
novo Adão, toda formosa, sem mácula, nem ruga, lavada na água de
seu Coração, e revestida na púrpura de seu Sangue. O Homem-Deus a
produz adormecido nos braços da Cruz. Recebe-A por esposa; deixa, de
alguma sorte, seu Pai e sua Mãe, para unir-se a esta Esposa querida,
a quem entregou seu Corpo, seu Sangue, sua Divindade, casando-se com
Ela, na Comunhão Eucarística. Graças a esta nova Aliança, a estas
místicas bodas do Cristo com a humanidade remida, nós nos tornamos
seus membros, osso de seus ossos, carne de sua carne. Por isso, é
que Ele estabeleceu este Sacramento. “Porque somos membros de
seu Corpo; pois fazemos parte de sua Carne e de seus Ossos, por isso,
diz São Paulo, (notai) por isso, deixará o homem seu pai e sua
mãe, e unir-se-á a sua esposa, e serão dois numa só carne. Este
Sacramento é grande, eu o digo, no Cristo e na Igreja”.
É dizer claramente, que a união conjugal entre os fiéis, tem como
causa, como fim, como razão de ser, o representar, o simbolizar do
modo o mais expressivo, o invisível e sacratíssimo Mistério da
união de Cristo com sua Igreja, e ao mesmo tempo, o realizar e
perpetuar esta mesma união; pois fruto do Matrimônio são os
numerosos filhos que ele dá à Igreja para serem incorporados a
Jesus Cristo.
Escolhida,
pois, pelo adorável Salvador a união conjugal, de todas as uniões
naturais a mais íntima, para sinal e símbolo de tão grande e
sublime Mistério, uniu Ele a este sinal o poder e a eficácia de
produzir no homem e na mulher um aumento de graça santificante, com
o direito às graças atuais necessárias para cumprirem os deveres
que este estado, elevado a tal altura, lhes imponha. Um sinal
sensível e de instituição divina, representando ao vivo um
Mistério invisível e produzindo a graça; não é isto o que
chamamos um Sacramento?
O
Matrimônio é pois um verdadeiro e grande Sacramento, e tendo por
termo e objeto de sua significação, Jesus Cristo e a Igreja.
Sacramentum hoc magnum, est, in Christo et in Ecclesia.
É
este um dogma da fé católica solenemente definido pelo sacrossanto
Concílio de Trento nas seguintes palavras: “Se alguém disser
que o Matrimônio não é verdadeira e propriamente um dos sete
Sacramentos da Lei evangélica, instituído por Nosso Senhor Jesus
Cristo, mas introduzido na Igreja pelos homens, seja anátema”.
Quem
poderá dignamente exprimir o que deve a humanidade a Cristo, Autor e
Consumador de nossa Fé, por esta restauração do Matrimônio? Era o
Matrimônio na Lei antiga, como uma vinha plantada pela mão de Deus,
mas que, deixada sem cultura, se encheu de rebentões luxuriosos,
espúrios e silvestres, de modo que já não dava senão uvas de fel,
cachos amargosos. Veio Cristo, celeste Agricultor, não arrancou a
vinha, mas podou-A, isto é, decepou-lhe aqueles rebentões inúteis
da poligamia, do libelo de repúdio, expurgou-A, purificou-A, regou-A
com o orvalho de sua graça, fecundou-A com o calor vivificante do
seu Espírito; e “eis a venturosa vinha a produzir na Igreja
sazonados frutos, de tantos ínclitos Mártires, de tantos Santos
Confessores, de tantas ilibadas Virgens, de tantos coerdeiros dos
Anjos”. Formosa alegoria de um autor. De sorte que, pela
elevação do Matrimônio à dignidade de um Sacramento, a família
recebeu toda a sua consistência, esplendor e perfeição. E como a
sociedade é um composto de famílias, também ela se aperfeiçoou,
se consolidou e se transfigurou de modo admirável, por esta sublime
economia da graça de Cristo. O Matrimônio santificou a família, a
família santificou a sociedade. A civilização cristã brotou deste
gérmen. Porque a civilização cristã,, a verdadeira civilização,
não é outra coisa mais que a irradiação, na grande esfera social,
dessas doces relações, desses puros afetos, desses sacrifícios
sublimes que o Matrimônio cristão produziu na pequena esfera do
lar. Daqui uma fonte inesgotável de amor, de paciência, de
longanimidade, de paz; daqui a santa educação dos filhos,
preparando para a Igreja verdadeiros fiéis, para a pátria cidadãos
prestadios e virtuosos; daqui a dignidade da mulher elevando-se até
a altura de uma gloriosa missão no meio dos povos, como as que
exerceram as Clotildes nas Gálias entre os Frankos, as Theodolindas
na Itália entre os Lombardos, as Ingundes na Espanha entre os
Visigodos, as Berthas, as Edilbergas na Inglaterra entre os
Anglo-Saxões, as Olgas na Polônia, as Giselas na Hungria. Graças à
unidade e indissolubilidade do Matrimônio, tiveram os filhos toda a
segurança de serem convenientemente educados, e deixou a mulher a
condição miserável de escrava, de ludíbrio vil das paixões (que
o marido abandonava aí brutalmente, logo que dela ficava enjoado),
para ser esse ente cheio de prestígios e de virtudes, rodeado até à
morte de uma auréola de estimação respeitosa, de castos afetos e
de constante dedicação.
III
E
notai, que o Sacramento não é uma entidade postiça, que Cristo
Senhor Nosso tenha sobre-ajuntado ao contrato natural, de modo que o
contrato se possa separar do Sacramento, ficando este sob a
jurisdição da Igreja, aquele sob a do Estado. Isto é doutrina
errônea.
Não,
estre Cristãos, o Sacramento não se separa do contrato natural,
antes, é esse mesmo contrato sobrenaturalizado, elevado e
transformado pela instituição de Jesus Cristo, como o tem declarado
a Santa Sé Apostólica,
transformação admirável simbolizada no milagre das Bodas de Caná,
honradas pela presença do Filho de Deus e de sua Mãe Santíssima: a
água é o contrato natural, o vinho o Matrimônio-Sacramento. Ide
agora separar a água do vinho, depois de realizada a miraculosa
transformação!
Aquele
infinito poder que transubstanciou a água em vinho, o pão em seu
Corpo, o vinho em seu Sangue, transubstanciou também, digamos assim,
o contrato natural do Matrimônio dos fiéis em verdadeiro
Sacramento. A mudança prodigiosa é um fato, tenham paciência os
legistas inimigos da Igreja.
O
contrato e o Sacramento são uma só e mesma coisa, um todo
indivisível, como a água do Batismo e as palavras do batizante,
como os Santos Óleos e as palavras do Bispo que confirma: “Querer,
pois, que se regule separadamente o Sacramento e o contrato civil”
(diz um teólogo contemporâneo) “não é coisa menos insensata,
nem menos sacrílega, do que querer, por exemplo, no Batismo dar a um
oficial do governo o cuidado de regular o que diz respeito à ablução
da água, e ao ministro da Igreja o de pronunciar a fórmula”.
Basta
que esta novidade de casamento civil, com que se saíram os modernos,
sobre ser ímpia e funestíssima, pelas consequências desastrosas
que dela redundam à família e à sociedade. Rebaixar o contrato
matrimonial à condição de um contrato civil, é renunciar à
família transfigurada pela pureza do Evangelho, para restabelecer em
seu lugar a família pagã, a família afogada no sensualismo. Tirai
o Sacramento, tirai a graça, tirai Deus; baseai a família numa
simples escritura de tabelião; entregai a vossa família a um homem
por um simples escrito de venda, como se faz com um lote de gado, ou
com uma partida de fazendas; quem suavizará a esta pobre infeliz os
diuturnos incômodos da gravidez, as dores cruciantes do parto, os
contínuos desvelos, trabalhos e os consumos com a amamentação,
educação, instrução e guarda de seus filhos?
Quem
dará conforto a este pai, que curvará a fronte ao peso de tantas e
tão dolorosas apreensões no duro encargo de sustentar uma numerosa
família? Quem guardará o leito conjugal de abomináveis
profanações? Quem moderará a acre excitação de paixões tão
impacientes de freio? Quem dará ao amor, tão impetuoso como o
vento, tão inconstante como ele, essa forte e suave têmpera que o
faz resistir, puro e fiel, a prolongadas ausências, a graves
enfermidades, a desastres de fortuna, a abandono cruéis? Se com a
graça dos Sacramentos; se com juramentos sagrados, feitos em face
dos altares; se com o temor de Deus vivo e atuando nas consciências,
tantas misérias se deploram no recinto dos lares; quanto mais,
sacudido o jugo de Jesus Cristo, e tornada a família uma simples
associação natural, uma coisa toda civil, sem base na Religião?
Quem
porá um dique ao transbordamento dos divórcios? Um contrato como se
faz, assim se desfaz. Não haverá mais mãos a medir à imoralidade,
e a família se dissolverá na infrene desordem das especulações
mais torpes.
Deus
nos livre desta pestífera importação do casamento civil,
que não é mais que imoral mancebia acobertada de uma capa de
legalidade. O Matrimônio, torno a repetir, é por sua
natureza santo e divino; santo e divino na sua origem, pois o próprio
Deus foi que o estabeleceu desde o princípio, e depois Jesus Cristo,
Filho de Deus, revocou-o a sua primitiva pureza e fez dele um
Sacramento; santo e divino no seu fim, que é procriar entes
imortais, feitos à imagem e semelhança do Criador; santo e divino,
enfim, nos bens que produz, a saber, a boa educação da prole, a
fidelidade conjugal, a união perpétua e o vínculo sacramental dos
cônjuges. Por isso, é este estado em tudo e por tudo
digno de respeito e honra, como diz São Paulo.
Esta
é a verdadeira doutrina. Em todos os séculos a Igreja Católica a
manteve sempre inviolável. Em vão atacaram a santidade do
Matrimônio uns chamados ilustrados ou Gnósticos, os
Maniqueus, Simão Mago e outros hereges, na antiguidade; em vão, nos
tempos modernos, Lutero, Calvino e os inovadores Protestantes,
negaram o Sacramento do Matrimônio, e sustentaram, o mesmo Lutero e
alguns mais, ser lícito ter ao mesmo tempo mais de uma mulher;
em vão a impiedade de nossos dias quer despojar o Matrimônio de
todo o seu caráter sagrado, e rebaixá-lo ao nível de um simples
contrato, como outro qualquer; a verdadeira Igreja de Jesus Cristo
condenou e condena tais aberrações; sustentou e sustentará sempre,
ainda contra pretensões de Reis poderosos, como o devasso e cruel
Henrique VIII da Inglaterra, a santidade e indissolubilidade do laço
conjugal.
IV
A
dignidade e excelência do Matrimônio Cristão transparecem também
admiravelmente nas cerimônias com que a mesma Santa Igreja previne e
acompanha a celebração deste ato importante da vida do homem.
O
uso dos esponsais ou desposórios, tomado à antiguidade, tem por
fundamento dar aos futuros esposos tempo de se conhecerem antes de se
unirem. Esta promessa mútua de futuro Matrimônio, estipulada com
seriedade perante a família, e algumas vezes rodeada de certas
solenidades, de várias cerimônias e festas graciosas, segundo os
diversos costumes dos povos, é como o pórtico por onde entram os
nubentes no templo da vida conjugal. Moldados pelo tipo dos castos
desposórios de Jacó e Raquel, na antiga Aliança, de Maria e José
na nova, os esponsais cristãos, nada apresentam que não seja puro,
elevado e digno.
Depois
dos esponsais segue o pregão dos banhos, salutar medida que assegura
a celebração do Matrimônio a necessária publicidade. O ato que
funda uma família, deve ser, com efeito, bem conhecido da sociedade,
não só para evitarem-se uniões clandestinas, mas ainda para que se
possam descobrir os impedimentos canônicos que por ventura se deem
entre os contraentes. Enfim, chega o dia aprazado para o solene
recebimento dos noivos.
Depois
de terem purificado sua consciência no banho sagrado da Penitência,
depois de terem nutrido suas almas com o Maná dos Anjos, ei-los que
entram cheios de mocidade, revestidos de encantadora modéstia,
frementes de indizível emoção, no augusto santuário do Deus vivo.
O jovem esposo compreende que vai fazer um ato sublime,
constituindo-se chefe de uma família, a cujo bem deve dedicar-se até
à morte. O ente gracioso e débil que para ele pendeu procurando
apoio, ali, perante o altar, na presença de Deus, mais profundamente
sente quanto precisa das celestes bênçãos para um enlace que
decide de todo o seu porvir.
Em
ambos a ideia do dever substitui a do prazer. O Sacerdote, Ministro
do Altíssimo, revestido com seus hábitos sagrados, une-lhes as
destras, e recobrindo-as com a alva estola, fá-los pronunciar a
palavra solene que os liga um ao outro com vínculo que só a morte
pode quebrar. Esta palavra irrevogável é ouvida por Deus, que ali
está presente, pelos Anjos, que O rodeiam e O adoram, pela Igreja e
pela sociedade inteira, ali representados no Sacerdote e nas
testemunhas. O Matrimônio que acabam de contrair é ratificado e
confirmado pela palavra sacerdotal em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo, e algumas gotas da água sagrada simbolizam a
purificação das almas pela divina graça. Segue-se a cerimônia do
anel, antigo uso mantido pela Igreja, sinal significativo ainda do
laço indissolúvel que une dois corações puros. O Sacerdote, benze
primeiro o anel, dirigindo a Deus a seguinte e comovente súplica:
“Dignai-Vos, Senhor, abençoar este anel que em Vosso nome
abençoo, para que aquela que o trouxer, guardando inteira fidelidade
a seu esposo, permaneça na Vossa paz e em Vossa bondade, e viva para
sempre em amor recíproco”. Depois do que, entregando ao esposo
o anel consagrado, este o passa ao dedo da esposa, como uma
recordação do sacrossanto empenho que acabam de contrair.
Mas
o homem é débil caniço açoitado pelos ventos; é-lhe necessário
o apoio do alto, para não dobrar-se ao peso de tão graves
obrigações. Por isso, o Sacerdote augusto ora, com os olhos
levantados para o Céu. Como são cheias de divina unção as
palavras que ele profere diante da Majestade de Deus, sobre os
nubentes ajoelhados! Que poesia sublime nesta bênção, em que se
sente passar como um sopro saudoso dos tempos patriarcais!
“Senhor”
(diz o Ministro sagrado), “assisti propício às nossas
súplicas e à instituição com que por disposição Vossa se
propaga o gênero humano, para que esta união que em Vós tem seu
princípio, por Vossos auxílios se conserve. Nós vo-lo pedimos por
Jesus Cristo, Vosso Filho, Nosso Senhor.
Ó
Deus que, por Vosso poder soberano, tirastes tudo do nada, e, depois
de ter criado o homem à Vossa imagem, lhe unistes tão
inseparavelmente a sua companheira, que o corpo de sua esposa foi
produzido da substância mesma do homem, para lhe ensinar que jamais
lhe será lícito separar o que, segundo Vossa bondade e instituição,
foi só um desde a origem; Deus, que excelente, que a aliança
nupcial representa a união sagrada de Jesus Cristo com a Igreja;
Deus, por quem a mulher é unida ao homem; Vós que destes a esta
sociedade, que é a principal de todas, uma bênção de tal caráter,
que nem a punição do Pecado Original, nem o castigo do gênero
humano pelo Dilúvio, puderam destruir; olhai com bondade para a
Vossa serva, aqui presente, que, no momento de ser unida ao seu
esposo, convém ser fortificada com o socorro de Vossa proteção. Qu
o jugo que ela recebe seja para ela um jugo de amor e de paz; fiel e
casta se case em Jesus Cristo, e seja imitadora das Santas mulheres!
Seja amável para seu marido, como Raquel; boa e prudente como
Rebeca; goze de uma longa vida, e sempre fiel como Sara; que jamais
haja em suas ações, coisa alguma que venha do autor do pecado!
Conserve-se sempre ligada fortemente à fé e aos Mandamentos; unida
inseparavelmente a seu único esposo, prive-se de tudo o que é
proibido; corrija sua fraqueza natural pela severidade da vida; seja
digna de respeito pela sua doce gravidade, venerável pelo seu pudor;
seja adornada de doutrinas celestes; obtenha de Vós uma feliz
fecundidade; seja sempre inocente e pura, a fim de que possa chegar
ao repouso dos bem-aventurados e ao reino dos Céus. E que ambos
vejam um dia os filhos de seus filhos até a terceira e quarta
geração, e cheguem assim a uma venturosa velhice. Nós vo-lo
pedimos pelo mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo Vosso Filho.
O
Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó seja convosco, e
Ele mesmo torne completa a sua bênção em vós, para que vejais os
filhos de vossos filhos em dilatados anos, e depois logreis a vida
eterna, sem fim; ajudando-vos Nosso Senhor Jesus Cristo, que com o
Pai e o Espírito Santo vive e reina por todos os séculos dos
séculos. Amém.”
Que
elevação e que beleza! Com razão observa Chateaubriand, que “nos
antigos o hymeneu era uma cerimônia de escândalos e
folias, que não ensinava nenhum dos graves pensamentos
suscitados pelo casamento, e que só o Cristianismo lhe restabeleceu
a dignidade”. Sob a ação desta bênção do Altíssimo e da
graça Sacramental, poderia ser impossível ou difícil a duas almas
jovens unidas por mútuo amor, levantarem os olhares para o Céu e
dizerem a Deus, num ímpeto de profundo afeto, com o jovem Tobias: “E
agora, Senhor, Vós sabeis que não é por impulso de vil paixão que
me uno hoje em Matrimônio, mas unicamente no desejo de procriar e
educar filhos que bendigam Vosso Nome por toda a eternidade!?”
“Estes
sentimentos tão árduos, tão superiores à simples natureza”
(diz o sábio Liberatori), “se elevam sem dificuldade em
todo aquele que, ao casar-se é fortificado pela graça do
Sacramento, e forma este sagrado vínculo na casa do Senhor, entre as
bênçãos sacerdotais, no meio das expiações e da oferenda de um
Sacrifício em que o Filho de Deus se imola por nós como Vítima
propiciatória, como o preço superabundante de preciosíssimas
graças!
Ide
agora, separai o contrato matrimonial da ideia religiosa! Fazei que
ele não passe de um ato natural, quando Deus, quando a Igreja, o
enobreceram deste modo, quando o tornaram tão sublime, quase divino!
Que porá o Estado, a sociedade civil, em lugar destes ritos
sacrossantos, desta proteção poderosa, destes auxílios tão
eficazes? Ao Sacerdote substituirá um empregado público; à
influência da graça, o fraco prestígio da lei; às orações
sagradas, ao Augusto Sacrifício da Igreja, um opíparo banquete e
alusões equívocas dos convivas. Em lugar do Deus dos Cristãos,
tereis o Hymem dos Gentios, em lugar do Filho de Maria, o filho de
Vênus!” Não, não; queremos
o Matrimônio-Sacramento. Nele, como diz um grande escritor, e só
nele os esposos cristãos vivem, e morrem juntos; juntos criam os
frutos de seu consórcio; ao pó se volvem juntos, e juntos revivem
além das raias do sepulcro.
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Fonte:
D. Antônio de Macedo Costa, “O
Livro da Família” –
ou Explicação dos Deveres Domésticos Segundo as Normas da Razão e
do Cristianismo, Oferecido aos seus Diocesanos, Cap. 1, pp. 9-22.
1879.