BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

MÍSTICO DIÁLOGO DA CRIATURA COM O CRIADOR. 1ª Parte.


“Diálogo do homem que é concebido no ventre materno

e por infortúnio não nasce à luz do dia e,

sem receber o Sacramento do Batismo,

vai sua alma para o Limbo,

casa de sua eternidade”

(Fr. Antônio do Sacramento).


“Que aos 40 dias, pouco mais ou menos, sendo varão, ou aos 80, sendo fêmea, é criada a alma imediatamente por Deus e infundida no corpo organizado no ventre materno, e ficam os dois, corpo e alma, uma criatura humana vivente. No mesmo instante, ao nosso modo de explicar, fala a alma com Deus, que a criou do nada, à Sua semelhança, e lhe rende as graças por tão grande benefício, submergida no profundo conhecimento do seu nada e no claro conhecimento do imenso mar do Ser Divino.

► Alma: Senhor de infinita grandeza, (diz a alma falando com Deus), que a tudo o que tem ser criastes do nada, para glória Vossa: rendo-Vos as graças pelo incomparável benefício de me criardes do nada, e de me fazerdes a Vossa semelhança. Donde mereci, meu infinito bem, gozar de tão grande benefício? Neste instante próximo passado era nada, se é que o nada tem ser: e agora sou um espírito perfeito, mui semelhante aos espíritos angélicos na sua criação. Já sei, pelo conhecimento que me dais, que sou criada para Vos gozar por toda a eternidade, e para Vos honrar, por serdes digno de toda a honra e glória. Mas ai de mim, Senhor, que visto ser preciso unir-me com este corpo, organizado por virtude da natureza no ventre materno, com especial concurso da Vossa providência, receio muito, que me seja contrário nos progressos da vida, e que venha, por causa de seus apetites, a perder-Vos por toda a eternidade! É possível, meu Deus, que, sendo criada em vosso agrado, tão pouco tempo hei de lograr este bem! Que no instante, que me unir a este corpo, imundo pelas imperfeições da natureza corrupta e horroroso pelas máculas da culpa, hei de ficar asquerosa aos Vossos Divinos olhos! Que sem remédio hei de contrair o reato da culpa de Adão e Eva, só com me unir a este corpo, que deles traz sua origem! Que hei de ficar exposta a tantos trabalhos da vida humana, em perigo de vos perder por toda a eternidade! Com tudo, Senhor, rendo-me de boa vontade às Vossas divinas determinações; pois conheço que são inescrutáveis Vossos juízos (Apoc. 16, 7).

Levado da Sua infinita bondade, fala Deus à alma e a consola, para que entre a informar o corpo, por ser isto muito do Seu divino agrado.

► Deus: Filha Minha, a quem do nada criei à Minha semelhança, e a quem tenho um amor infinito. Bem vejo que és mais escolhida que o sol, mais formosa que a lua e mais resplandecente que a estrela d’Alva (Cânt. 6, 9); e que, com a união que estás para fazer com este corpo, imundo pelo pecado, hás de ficar asquerosa como lepra, e horrorosa como a noite escura; porém, atendendo à Lei que pus a Adão e Eva, como eles transgrediram o Meu Preceito, não há remédio senão que informes esse corpo amaldiçoado, e que fiques contraindo a culpa de Adão. Executa com submisso rendimento esta Minha determinação, que te darei meios, como dei aos primeiros pais, para que chegues a lograr a Minha Bem-aventurada vista, com mais realce da Minha graça. Dou-te a vontade livre, para que, chegando tu e o corpo, teu companheiro, à luz do dia e à luz da razão, escolhas o que melhor te estiver a gosto, ou salvação ou condenação eterna. Para te segurares no melhor partido: na Minha Igreja tens uma Lei e um Batismo, os quais, juntos com boas obras, são porta franca para a Minha glória (S. Jo. 3, 5). Entra já, e não temas.

Novamente falando a alma com Deus, lhe expressa seus temores, para entrar à união do corpo.

► Alma: Muito me agradará, Senhor e Deus meu, o dar cumprimento à Vossa divina Vontade, que devo antepor a todo o meu desejo; porém, oh, quanto temo que a entrada neste corpo hediondo seja para minha perdição eterna! Este corpo sempre será contrário ao espírito; e só por milagre da Vossa Divina Onipotência se sujeitará às leis da razão. De certo teremos uma guerra contínua toda à vida (Jó 7, 1), ainda que espere na Vossa infinita bondade o subjugarei, quanto for possível, para que siga as leis da razão, e não as do apetite, em termos que se siga a Vossa glória, e eu chegue a lograr a Vossa vista. Mas ai, que não sei se este corpo, que me mandais informar, para que tenha espírito de vida, é gerado de pais gentios, ou de maometanos, ou de hebreus, ou de hereges, ou de cismáticos, que não Vos conheçam ou não Vos amem! E, neste lance, dificultosa será a minha salvação; porque, pela criação, que nos hajam de dar, ficarei instruída em erros, sem o Vosso santo temor, sem conhecimento de Vosso Santo Nome e sem Batismo e quando não seja condenada a penas eternas, por não ter cometido pecados atuais em matéria grave, ficarei sem gozar para sempre da Vossa vista! Ó Senhor, a quem adoro submergida na profundeza do meu nada: que é isto, a que me expõe Vossa ciência infinita?

Responde Deus à alma e lhe diz: que não esquadrinhe os inescrutáveis segredos da Sua Providência!

► Deus: Não te compete, Minha filha, saber os segredos da Minha Providência. Sou Senhor Onipotente; e na Minha poderosa mão está o fazer vasos de escolha ou de injúria: sem fazer injustiça aos vasos, não obstante serem todos fabricados do mesmo barro (Rom. 9, 21). Determino-te que informes este corpo, e com tua união fique em estado de vivente; e assim como receias que seja oriundo de pais que, pelos seus maus costumes, te desviem da Minha Lei e da Minha Graça, e que sejam causa motiva da tua condenação eterna: também podes informar um corpo oriundo de pais virtuosos, que te dirijam pelos caminhos da santidade, e gozes para sempre da Minha gloriosa vista. O certo é que, ou os pais deste corpo que informas sejam bons ou maus, se morreres sem Batismo, será a tua sorte a de ires ser habitante do lugar do Limbo, nas profundezas da terra, até o dia Juízo; e se chegares a sair à luz do dia e à luz da razão, na tua vontade fica escolher boa ou má sorte, ou de salvação ou de condenação: pois não hei de faltar em te assistir com todos os meios para te salvar. Ainda que em Minhas mãos poderosas estejam todas as boas sortes, na vontade, que te deixo livre, está o poderes escolher da Minha mão uma sorte boa. Entra já a informar este corpo, e não inquiras mais os segredos da Minha Providência; porque estes não estão subordinados à vontade das criaturas e só saem à luz, quando são executados pelas Minhas determinações soberanas.

Fala a alma ao corpo, antes de o informar; expressando o grande horror que lhe tem.

► Alma: Irmão corpo, a quem vejo, como sepultado, no apertado túmulo do ventre materno, cheio de fealdades, tendo mais demonstrações de monstro, do que de homem: a quem tua mãe, pouco tempo há, concebeu em pecados, elevada em seus apetites: Dou-te parte, que és, e não outro, aquele a quem, por determinação da Divina Vontade, venho informar com espírito de vida. Comigo hás de viver unido, e inseparável, em todo o tempo que formos peregrinos no mundo. Por esta união ficarei (oh desgraça maior) contraindo o Pecado Original, que tu e teus ascendentes contraíram em Adão (Rom. 5, 12). Uniformemente seremos participantes dos trabalhos e dos gostos da vida: e depois da morte, a que ficamos sujeitos, seremos participantes, a seu tempo, ou da salvação ou da condenação, por séculos sem fim. Hás de entender, irmão corpo, que sou um espírito nobilíssimo, criado imediatamente por Deus, e que tu és vil, oriundo da terra, vaso de barro e frágil. Se, pelo benefício de te dar alentos de vida e te associar a mim com estreita união, me fores fiel companheiro, conseguiremos uma boa sorte, que é, na vida mortal, amar a Deus e depois na vida, que esperamos, o goza-Lo para sempre. No meu domínio e na tua obediência, estará a nossa dita.

Responde o corpo à alma, agradecendo-lhe o benefício de o fazer vivente e de admiti-lo à sua companhia.

► Corpo: Nobilíssimo espírito, imediatamente criado por Deus, com evidentes demonstrações de Sua imagem: Seja em boa hora a tua vinda a informar-me com espíritos de vivente. Faço-te saber que sou tão miserável, que, tendo minha origem da terra, e neste cárcere materno, onde me vês, tenho aparências de monstro. Tão hediondo estou, que, se desta sorte, que me queres informar, fosse visto do mundo, a todos causaria espanto. Porém, rogo-te, alma, que me infundas os espíritos de vivente; que espero no Senhor, que te criou, de te ser fiel em tudo. Advirto-te, que não te fies nas minhas promessas; porque, como sou barro (Gên. 5, 19), sou quebradiço, e como sou pó, qualquer vento me leva, e tudo depois acaba em ruína. Bem conheço a diferença que há entre mim e ti: que eu sou corpo caduco, e tu és espírito perfeito; eu sou criado, e tu és senhora; eu sou vil, e tu és nobilíssima; imortal, à tua parte compete o mando, e à minha, a obediência. Se me tratares com rigor, serei fiel servo; e se me lisonjeares com amor, ser-te-ei ingrato. Usa alma, do teu direito, se queres ter em mim domínio: eu estou pronto para te obedecer; porém, não faltes em me subjugar. Havendo entre nós esta economia, haverá em nós vida, graça e glória.

Informa a alma ao corpo, e ficam um composto vivente, companheiros inseparáveis por toda a vida.

► Alma: Sem demora, irmão corpo, te dou alentos de vida; porque assim o determina o Autor da Natureza e da Graça. Recebe em boa paz este íntimo abraço que te dou. É tão íntimo e apertado este abraço, que durará em perfeita união por toda a vida caduca, e depois do Juízo Final durará, com nova reunião, por toda a eternidade. Oh, praza à Majestade Divina, que esta nossa união seja para glória eterna, e não para eterna pena! Irmão corpo: Enquanto estivermos encerrados neste cárcere materno, me sujeito a todos os teus movimentos; porque me acho em estado de não poder usar de minhas potências. Estou adormecida, mais com aparências de morta, do que com realidades de viva: porém, se sairmos à luz do mundo, usarei a seu tempo do meu direito. Espero que me reconheças por senhora, e a ti por servo, para que, em tudo, trabalhemos com acerto, e Deus seja em nós glorificado.

Alma e corpo agradecem a Deus o estado de viventes, em que se acham no ventre materno: lamentando-se da sua prisão e do perigo, em que existem, de não saírem à luz do dia, pelo nascimento, e à luz da Graça, pelo Batismo.

► Alma e Corpo: Altíssimo Deus, Criador de tudo e Salvador nosso: Infinitas graças Vos sejam dadas pelo incomparável benefício de nos tirardes do nada para o ser, e de nos dardes alentos de vida. Aqui estamos em perfeita união neste cárcere materno, rendidos às determinações de Vossa Santíssima Vontade; e intimamente desejamos que se cumpra em tudo que for de glória Vossa. Pedimo-Vos, porém, se não encontra Vossas Divinas determinações, que nos livreis de perigos de vida nesta escura prisão; pois são sem número os que nos acometem: e será grande desgraça nossa não chegar pelo nascimento à luz do dia, para conseguirmos pelo Batismo a luz da Graça e ficarmos em via de merecer a Vossa glória. Senhor valha-nos a Vossa poderosa mão, para que saiamos deste miserável mar às praias do mundo, e que não aconteça que, por descuido de nossa mãe, ou por algum infortúnio, passemos deste escuro cárcere para as regiões da eternidade, sem esperança de lograr o bem de Vossa Bem-aventurada vista.

Consola Deus aos dois companheiros, alma e corpo, animando-os, para que estejam conformes com Sua Santíssima Vontade em todo o infortúnio, que lhes possa acometer no ventre materno.

► Deus: Criaturas Minhas, a quem fiz à Minha semelhança, e a quem dei o ser e a vida, por altos fins da Minha Providência: Chegam a Meus ouvidos vossas vozes, e ferem Meu Coração vossas misérias. Tende paciência nos trabalhos e confortai-vos nos infortúnios. Ide continuando os movimentos de viventes nesses apertos do útero e nessas escuridades do ventre, para que a seu tempo chegueis a sair à região dos peregrinos. A natureza, de quem Sou Autor, também concorrerá com o que lhe toca à sua parte; causados pela negligência dos pais e pela malícia das criaturas. Com minha mão poderosa poderia desviar tudo; porém, como deixo obrar as causas segundas, por não revogar as Minhas determinações primeiras, daí se segue ficarem algumas vezes frustradas muitas coisas, que determinava em bem de Minhas almas. Dou-Vos a Minha Santa Bênção, e continuai com o movimento de viventes neste lugar em que vos achais.

Por descuido da mãe, ou por indisposição da natureza, ou por industriosa malícia de alguma criatura, morre no útero o feto animado; e em tal infortúnio se aparta a alma do corpo, caminhando um e outro para o seu lugar determinado, e lamentando sua infelicidade.

► Alma: Irmão corpo (lamenta a alma), com quem, poucas horas, ou poucos dias, ou poucos meses há, me uni tão estreitamente: É possível que, entre tantas almas e corpos que, ao depois de criados, tiveram a felicidade de sair à luz do dia, de receberem a luz da Graça, de terem a luz do da razão, de possuírem a luz da Fé e de gozarem a luz da glória, só nós não havíamos de ter esta alegria! Deste escuro cárcere do ventre materno, onde estamos com prisões tão apertadas, havemos de ir, tu para um monturo, a converter-te em terra, e eu para o Limbo, para estar na companhia de outras almas, pouco afortunadas, a esperar em obscuridade a vinda do Senhor a Juízo Final, para sermos outra vez reunidos, sem esperanças de ver a Divindade do Altíssimo por toda a eternidade! Vai, irmão corpo, seguindo o teu caminho para este monturo: converte-te em terra (Gên. 3, 19), e nela descansa até o Juízo Último; que então virei informar-te outra vez, para sermos inseparáveis companheiros no lugar, à que Deus nos mandar ter nossa habitação por toda a eternidade.

Despede-se também o corpo da alma, lamentando sua desgraça em não chegar à luz do dia e em perder o direito da glória.

► Corpo: Alma minha e muito amada senhora: Oh, quanto glorioso estava, por me teres dado alentos de vida, e por possuir a esperança de merecer no mundo com boas obras a Bem-aventurança eterna! E agora quão triste me afasto da tua sociedade! Vou ser lançado na terra, como se fosse terra; e a mesma mãe, que me concebeu, é a primeira que aborrece minha presença. Serei lançado em um monturo com nojo, e quando falarem em mim será com espanto. Serei desprezado, como se não chegasse ao ser da vida, e minha lembrança ficará sepultada na mesma terra, onde me derem o jazigo. Vou esperar nesse monturo a Ressurreição dos Mortos; e então virás com virtude superior informar esta pouca terra, que de mim se conservará, e ressurgirei melhorado; porque por virtude Divina crescerei a estatura perfeita, sem estas imperfeições, que agora tenho. Esse será o dia, em que nos ajuntaremos com união tão inseparável, que jamais nos dividiremos por séculos sem fim. É verdade que seremos sempre acompanhados da pena de não podermos ver a Deus na glória, ainda que, com todos os mais filhos de Adão, teremos a alegria de ver no dia do Juízo ao Redentor do Mundo, Jesus Cristo Nosso Rei (S. Mat. 24, 30), não quanto ao Ser Divino, senão quanto ao ser Humano. Depois de assistirmos ao Juízo Universal e de vermos a Cristo, triunfante de Seus inimigos, subir com Glória e Majestade para a Bem-aventurança, com todos os Anjos e Justos na Sua Companhia; e depois de vermos submergidos nas entranhas da terra aos condenados e ficarem nos Infernos penando por toda a eternidade (S. Mat. 25, 41): ficaremos no nosso competente lugar para sempre, com todos os mais corpos e almas, a quem coube esta nossa sorte. Vai com Deus, alma, para esse cárcere do Limbo, louvar aos altos juízos do Senhor; que eu cá te espero para a ressurreição geral, e serás para sempre minha inseparável companheira.

Parte a alma para o Limbo, lugar no centro da terra, e mutuamente se saúda com as almas, que estão naquele lugar, consolando-se com a sua sorte.

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Alma: Almas, que estais encerradas neste estreito lugar do centro da terra: Aqui sou chegada a vossa companhia, para vos fazer perpétua sociedade na vossa pena. A vossa sorte em tudo foi como a minha: disposições foram do Altíssimo, cujos segredos são incompreensíveis ao entendimento criado. Consolemo-nos umas com as outras, e rendamos contínuos louvores ao Senhor, que assim foi servido. Esta consideração nos alentará neste lugar; porque suposto não seja bastante para nos aliviar a saudade, procedida da certeza de não podermos ver a Face de Deus, sempre nos consolará na nossa pena; e porque estamos livres da mágoa, que tem os que ofenderam ao nosso Criador com alguma culpa atual. Não nos seja pesada esta prisão, até a Segunda Vinda do Senhor, a julgar ao mundo; pois os Santos Padres antigos também experimentaram aqui semelhante prisão, até a Primeira Vinda do mesmo Senhor a remir com Sua Morte aos homens do cativeiro do pecado. Algum dia há de ter fim esta nossa prisão, e dizem que será para o dia do Juízo Final, quando cada um de nós for informar, por virtude Divina, o corpo, seu antigo companheiro, para viver com ele de sociedade para sempre. Iremos naquele tremendo dia com os mais filhos de Adão a juízo, unidas aos nossos corpos (S. Mat. 25, 32): e então teremos a consolação de ver ao nosso Criador, a Maria Santíssima, Sua Mãe e nossa Irmã, aos Anjos, aos Bem-aventurados, e aos nossos pais, parentes e irmãos, dos quais pode ser que uns subam em triunfo com o Redentor para a Glória, e outros desçam em confusão com Lúcifer para o Inferno. Então, segundo se afirma, ficaremos povoando o mundo reformado e vivendo em contentamento e alegria, como haviam de viver os nossos primeiros Pais no Paraíso, se não decaíssem da Graça Original. Também, segundo a mais pia opinião, veremos daquele lugar onde habitarmos, a Humanidade de Cristo Senhor Nosso na Bem-aventurança, a presença de Maria Santíssima e a dos Bem-aventurados. Porém (ó saudade sem limite), não veremos a Divindade e Glória de Deus; porque não tivemos a fortuna de entrar na Igreja Militante pela porta do Batismo e pela luz da Fé, que são as portas, por onde o Senhor franqueia a entrada para a Bem-aventurança. Consolemo-nos, caríssimas irmãs, pois assim o dispôs o Altíssimo; e como esta é a nossa fortuna, determinada pela Sua Divina Vontade, devemos conformar-nos com ela e fazer ao mesmo Senhor contínuas canções de louvor e glória.

Correspondem as almas do Limbo à alma, sua nova companheira, com semelhantes consolações.

► Almas do Limbo: Nossa irmã caríssima: Bem-vinda sejais para a nossa sociedade. Agradecemos muito a consolação, que nos dais nas vossas palavras, fundadas em tanta razão e em tão bons princípios. Muitas de nós aqui estão encarceradas há muitas centenas de anos, e sempre temos estado conformes com a Vontade Divina. Serve-nos de grande consolação considerarmos que isto foram disposições do Altíssimo para glória Sua. De certo entendemos que o Senhor nos fez uma incomparável mercê em nos criar do nada à Sua semelhança e que, suposto não esperemos gozar da Sua Divindade, sempre temos a confiança, que havemos de gozar para sempre da Sua Bênção e do Seu Amor. Depois que informarmos os nossos corpos na Ressurreição Geral, teremos os dotes naturais em grau perfeito, e gozaremos neste lugar, que Deus nos permitir, que dizem será o mundo reformado, todas as delícias castas e divertimentos honestos. Serão tais estes regozijos, que nunca haverá no mundo semelhantes, enquanto for habitado dos mortais; e segundo já nos insinuastes, teremos, conforme a opinião de alguns autores, grandes consolações com a vista da Santíssima Humanidade de Cristo, de Maria Santíssima, dos Anjos e dos Bem-aventurados. Os astros e planetas, que sempre seguiram seu curso, nos darão benignas influências, e os elementos nos serão em extremos saudáveis. Veremos desta nossa habitação estes horrendos calabouços, principalmente o lugar e os tormentos dos condenados, sem termos da sua desgraça alguma pena, porque eles assim o mereceram pelas suas culpas. Com muitas danças honestas e canções devotas, louvaremos ao Senhor em alegria e, desta sorte, aliviaremos a saudade de não ver a Sua Divina Face. Passarão as continuadas rodas dos séculos e voltarão a principiar, sem nunca terem fim; e em disposição perfeita, com notável agilidade, e com grande contentamento, viveremos enquanto Deus for Deus. Esta é a sorte, que nos espera depois de sairmos deste cárcere subterrâneo, e dela gozaremos, nós que somos milhões de almas que aqui estamos: sendo a causa desta nossa sorte, em umas, o não chegarem a ver a luz do dia; porque expiraram no ventre de suas mães; em outras, porque nasceram ao mundo e morreram sem Batismo; e, em outras, porque sendo filhas de gentios, maometanos, hebreus e de hereges, acabaram a vida sem Batismo e sem cometerem culpa mortal”.


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Fonte: Fr. Antônio do Sacramento, da Sagrada Religião dos Observantes da Província de Portugal, “Ventura do Homem Predestinado e Desgraça do Homem Precito”, Diálogo I, pp. 15-29, 1ª Edição Brasileira, Ed. Vozes, 1938.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

DA ILÍCITA E PERIGOSA ATITUDE DE INQUIRIR, OS MISTERIOSOS DESÍGNIOS DE DEUS.

 


Santo Agostinho em cem lugares ensina esta mesma prática. Diz ele: “Ninguém vem ao Salvador senão sendo atraído. Quem é que Ele atrai, e quem é que Ele não atrai, por que é que Ele atrai este e não aquele, não queiras ajuizar disto, se não queres errar. Escuta uma vez e ouve. Não és atraído? Reza a fim de seres atraído. De certo, ao cristão que ainda vive da Fé e que não vê o que é perfeito, mas sabe apenas em parte, basta saber e crer que Deus não livra ninguém da condenação senão por misericórdia gratuita, por Jesus Cristo Nosso Senhor, e que Ele não condena ninguém senão pela Sua justíssima verdade, pelo mesmo Jesus Cristo Nosso Senhor. Mas saber por que é que Ele livra este de preferência àquele, sonde quem puder tamanha profundeza dos Seus juízos, mas resguarde-se do precipício, pois os Seus decretos não são por isso injustos, ainda que sejam secretos.1 Mas, por que então livra Ele estes de preferência àqueles?2 Dizemos outra vez: Ó homem! Quem és tu para responderes a Deus?3 Incompreensíveis são os Seus juízos.4 E acrescentemos isto: Não inquiras das coisas que estão acima de ti,5 e não investigues o que está além de tuas forças.6 Ora, Ele não faz misericórdia àqueles a quem, por uma verdade mui secreta e muito afastada dos pensamentos humanos, julga não dever conceder Seu favor ou misericórdia (Quaest. II, ad Simplic.).7

Vemos às vezes crianças gêmeas das quais uma nasce cheia de vida, e recebe o Batismo; a outra, nascendo, perde a vida temporal antes de renascer para a eterna; uma, por conseguinte, é herdeira do Céu, a outra é privada da herança. Ora, por que será que a Divina Providência dá desfechos tão diversos a tão semelhante nascimento? De certo, pode-se dizer que a Providência de Deus ordinariamente não viola as Leis da Natureza; de tal sorte que, sendo um desses gêmeos vigoroso e o outro demasiado fraco para suportar o esforço da saída do seio materno, este morreu antes de poder ser batizado, e o outro viveu; não havendo assim a Providência querido impedir o curso das causas naturais, que, nessa ocorrência, terão sido a razão da privação do Batismo naquele que o não teve. E certamente esta resposta é bem sólida”.


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Fonte: São Francisco de Sales, “Tratado do Amor de Deus”, Liv. IV, Cap. VII, pp. 226-227. 2ª Edição, Ed. Vozes, Petrópolis, 1996.

1.  I Tract. XXVI in Joan.

2.  Ep. 105.

3.  De bono persever., c. XII.

4.  Rom. XI, 20.

5.  Rom. XI, 33.

6.  Ecli., III, 22.

7.  Quaest., II ad Simplic.


SÃO JOSÉ, O PAI PUTATIVO DE JESUS CRISTO E SUAS GRANDEZAS.

 


De Maria a José a transição é natural e fácil. Os mistérios de São José procedem da Santa Infância e elevam-se como uma nuvem de incenso. Ele pertence inteiramente a esta época. Fora daí não sabemos nada dele. Parece que foi só para este fim que Deus o criou e ornou de santidade maravilhosa, a única obra que lhe foi ordenada. Ele nenhuma relação tem com a Paixão, que, aliás, não projeta sobre ele as sombras que antecipadamente se estendem sobre a Mãe das Dores. Mais: antes que Jesus tivesse deixado a casa de Nazaré para ir desempenhar o seu Santo Ministério, José foi juntar-se a seu pai no túmulo. Consumido de divino amor, ele morreu em suave êxtase, a cabeça apoiada no seio de Jesus, tendo Maria ao seu lado, numa palavra, na presença do que havia de mais belo, de mais santo, de mais celeste sobre a terra. Nenhum pensamento de violência passou entre as lembranças dos seus pacíficos deveres, posto que não fossem isentas de inquietações. O sangue da sua circuncisão foi o seu Getsêmani e o seu Gólgota. Sua infância perdeu-se na obscuridade e dela não podemos formar nenhuma ideia, além do que se revelou numa visão da Irmã Emmerich. Mas quem pode duvidar que tudo não tivesse sido preparado para o grande ofício de que Deus haveria de entregá-lo? Quem pode duvidar que tudo estava disposto para formá-lo e lhe dar a consagração que lhe convinha como pai de criação do Verbo feito carne?

Pertencendo ele, como pertence, à Santa Infância, não nos surpreende saber que o espírito de devoção a ele é o espírito de devoção à Santa Infância, mas com circunstâncias que o fazem ainda mais tocante. Primeiro que tudo, ele parece representar-nos no estábulo de Belém, na estada no Egito e na casa de Nazaré. Toda esta intimidade e familiaridade, à qual o Infante Salvador se digna de nos dar direito e título por sua Encarnação; todos os minuciosos serviços que ele condescende em receber do nosso amor e devoção; toda esta alegria e esta serenidade que a vista da fraqueza infantil misturada com o temor que a presença da sua Divindade nos expõem; todas estas coisas José aí está para as receber ou restituir, sentir ou mostrar, como em nosso nome. Ele aí está como o representante de todos os fiéis, e sobretudo daqueles, cujos corações, em razão de um atrativo especial, são impelidos para estes primeiros Mistérios de Jesus.

Mas, em segundo lugar, São José está em Belém, no Egito, no deserto e em Nazaré, como sombra do Pai Eterno. Aí está o imenso da sua dignidade. A incomensurável e para sempre bendita paternidade de Deus lhe é comunicada de um modo figurado; ele é o pai de criação de Jesus; aos olhos do mundo exterior passa por ser o verdadeiro pai. Ele exerce a autoridade de pai e dispensa ao Filho de Deus os deveres e solicitude paternais. Além disso, em sua natureza humana, Nosso Senhor está subordinado a José, ele que, em sua natureza divina, não poderia jamais ser subordinado ao Pai Eterno. Os inefáveis tesouros de Deus, Jesus e Maria, são confiados à guarda de José; ele mesmo é um tesouro e, ao mesmo tempo, guarda dos tesouros; tem parte nos planos da Redenção. Como Jesus ou Maria, tem ele os seus tipos, seus precursores e sua profecia no Antigo Testamento. Assiste a Deus em manter oculto o Mistério da Encarnação e, como representante do Pai Eterno, ele, em seu ministério junto ao Santo Infante, está sempre a nos lembrar a sua Divindade. Pelas funções de que dispunha, obsta a que nos esqueçamos que Jesus é verdadeiro Deus e Filho de Deus; e assim, ensinando-nos a maior familiaridade com Jesus, ensina-nos também a ter-lhe maior respeito. Se ele nos anima a aproximar-nos e ir beijar os pés de Jesus, ao mesmo tempo nos ordena que nos ajoelhemos e adoremos profundamente o Eterno recém-nascido. Assim, no Céu e na terra, se veem reunidas nele as duplas funções de representante do Pai Eterno e de representante dos fiéis cristãos. Que há de admirar de que os Teólogos nos falam das graças sem número e dos dons preciosos dos quais é ele ornado? Há de que surpreender que os fiéis creiam que por ele foi antecipada a ressurreição dos justos, que ele foi um dos que percorreram as ruas de Jerusalém no dia de páscoa com seu corpo ressuscitado e que ele também subiu aos Céus, no dia da Ascensão, no séquito de Nosso Senhor?

Que tesouro deu Jesus à Igreja nesta sublime e terna devoção! Já toda a doutrina tocante a Nosso Senhor estava estabelecida e fixada. Haurindo nos tesouros da Tradição Apostólica, a Igreja tinha achado os meios de vencer a heresia e, em virtude da Infalibilidade da Cátedra de Pedro, sancionara Ela os atos dos Concílios e definira a verdadeira doutrina sobre a Pessoa e a realidade da sua Sagrada Humanidade, a Unidade da sua Pessoa, a separação distinta das suas Naturezas e dupla vontade, mas tinham-se também exposto sublimes verdades a respeito de sua Alma, suas Faculdades, o modo de União Hipostática, sendo dado aos fiéis saciarem-se livremente nas fontes fecundas da pura teologia. Mas uma verdade sobressaia a todas as outras. As alturas inacessíveis da sua Divindade elevavam-se acima de toda a dúvida aos olhos dos homens. O professor em sua cadeira ou o menino na escola de catecismo não podiam duvidar do dogma sem saber que havia deixado de ser católico. Mas, ao passo que estas verdades eram patenteadas, as tradições da Tradição Apostólica eram resolvidas frequentemente, a respeito da dignidade da Mãe de Deus. Para assegurar a honra do Filho, consultaram-se as antigas Igrejas; e as vozes de Pedro, Paulo, Tiago e João emitiram oráculos que envolviam o Filho na honra de sua Mãe. E, uma vez extinto este tumulto de conflitos com a heresia, e desaparecida a oposição que tinham levantado, então, visível a todos os olhos e tal qual João a tinha enxergado na ilha de Patmos, apareceu a visão magnífica da Mulher, da Mãe do Menino-Rei, com a cabeça coroada de Doze Estrelas e o crescente da lua sob os pés. Assim, a adoração de Jesus e a devoção a Maria tinham tomado os seus lugares irrevogavelmente no coração dos fiéis e no sistema prático da Igreja, ambos instruindo, iluminando, nutrindo e santificando o povo cristão.

Mas havia ainda uma pessoa da “terrestre trindade” que estava fora destas honras. A devoção a São José existia de algum modo latente na Igreja. Não era que se esperassem novas revelações em acréscimo ao que dele já era conhecido: ele pertencia exclusivamente à Santa Infância e lia-se o seu nome no começo do Evangelho segundo São Mateus. Dois evangelistas tinham guardado silêncio absoluto sobre ele e um terceiro apenas mencionou seu nome na genealogia. A Tradição conservava algumas fracas lembranças dele, e não havia outra luz senão a que era tomada do Evangelho de São Mateus. Tudo quanto sabemos agora de São José existia então; só o sentimento dos fiéis não ia de par com a plenitude do saber que os Apóstolos possuíam: longe disso; tal sentimento tinha de crescer pouco a pouco para ficar ao nível do saber que os Apóstolos possuíam; era mister que o sobrepujasse, que o enchesse de devoção, o animasse com instituições e o submetesse a uma hierarquia perfeitamente administrada. Mas a final foi chegado o tempo prefixado por Deus para ser instituída tão amável devoção; e, como todos os dons, veio quando os tempos estavam sombrios e calamitosos.

Ó bela Provença! Esta terna devoção elevou-se da Igreja do Ocidente, do teu solo perfumoso, semelhante a uma ligeira nuvem de flores de amendoeira, que parecem flutuar entre o Céu e a terra e suspender suas brancas cores por sobre os teus cantos perfumados, nas primeiras horas da primavera. A nova devoção nasceu no seio de uma Confraria, na branca cidade de Avinhão,1 e foi embalada pela corrente do Ródano, esse rio sobre o qual flutua a memória de tantos martírios; que banha Lion, Orange, Viena e Arles e se lança no mar que banha as praias da Palestina. A terra que a contemplativa Madalena consagrou por sua vida solitária, e onde Marta e sua escola de virgens tinham entoado louvores a Deus; onde Lázaro usou a mitra em vez da mortalha, foi também aí que surgiu o início da tão gloriosa devoção, espalhando-se depois por toda a Igreja universal.

Gérson foi o designado para ser o teólogo e doutor desta devoção e Santa Teresa para ser a santa; e São Francisco de Sales para ser o mestre que haveria de a divulgar. As casas do Carmelo foram-lhe como a santa casa de Nazaré; e os colégios dos Jesuítas o local pacífico de sua residência no sombrio Egito.

As almas contemplativas receberam-na e dela se nutriram; as que preferiam a vida ativa dela se apossaram e foram em seu nome cuidar dos doentes e dar sustento aos que tinham fome. O povo dos trabalhadores acorreu a ele, pois o Santo e seu culto pertenciam-lhes a títulos iguais. Os jovens deixaram-se arrastar pelo seu atrativo e, por efeito dela, se tornaram puros; os velhos descansaram nela e nela encontraram paz. São Sulpício adotou-a. Formou-se ainda o espírito do Clero Secular. E quando a grande Comunidade dos Jesuítas procurou refúgio no Sagrado Coração, e seus membros, dispersos, conservaram suas lâmpadas acesas, prontas para o dia da restauração da Companhia, a devoção a São José foi seu arrimo e consolo.

É assim que a bela devoção a São José atraiu a si as Ordens Religiosas e as Congregações, os grandes e os pequenos, os eclesiásticos e os leigos, as escolas e as confrarias, os hospitais, as salas de asilo e as penitenciárias; é assim que o vemos muitas vezes voltando-se para Jesus, caminhando junto de Maria e projetando por toda parte a doce imagem do Pai Eterno. E, depois de encher de seus suaves perfumes toda a Europa, atravessou o Atlântico, embrenhou-se nas florestas virgens, abraçou todo o Canadá, tornou-se para os Missionários auxiliar poderoso e milhares de selvagens entoaram, ao por do sol, nos bosques e prados do Novo Mundo, hinos em honra de São José ou louvores ao pai de criação de Nosso Senhor.

Mas que relação tem tudo isto com o Santíssimo Sacramento? Muito e muito mais do que se pensa; porquanto este sentimento dos fiéis, de acordo com a voz da autoridade, designou esta devoção como especial aos Padres, e isto simplesmente por causa das suas funções para com o Santíssimo Sacramento. No pequeno número das orações a São José, indulgenciadas pela Santa Sé, há duas que são reservadas exclusivamente aos Padres. Uma deve ser dita antes da Missa e fala do Ministério e dos privilégios de São José, que consistiam não só em ver e ouvir a Jesus, mas em levá-Lo, beijá-Lo, vesti-Lo e cuidar d'Ele; e prossegue nestes termos: “Ó Deus, Vós que nos tendes revestido de um Sacerdócio real, concedei-nos que, como o Bem-aventurado José mereceu tocar respeitosamente e levar em seus braços vosso Filho único, nascido da Virgem Maria, possamos também servir aos vossos altares”. E também numa Coleta chamada a Oração eficaz, também indulgenciada por Pio VII, exclusivamente para os Padres, São José é chamado o Guarda dos Virgens Jesus e Maria e modelo de nosso Ministério para com ambos. Mas notai o paralelo existente entre São José e o Sacerdócio Católico. Ele era o intendente da casa de Deus; as mesmas funções são atribuídas aos Padres. Ele era o dispensador dos dons de Deus; os Padres o são também. Ele tocava, levava, elevava e baixava o Corpo de Jesus Cristo; não fazem o mesmo os Padres? Se Jesus foi submetido a São José, Jesus o é ainda, e de um modo mais amável ainda, aos seus Padres. Se foi dado a São José beijar a Jesus, a mesma honra não será dada, sem dúvida, aos Padres, mas beijarão a patena, sobre a qual não tardará muito Ele irá repousar. Se São José lavou e vestiu a Jesus, os Padres hão de, sob esta relação, se contentar com lavar os vasos e corporais sacros, envolver o cibório, velar o tabernáculo e ornar o seu trono coroado de flores. Que é a exposição, a procissão, a bênção, a comunhão, a ação de abrir e fechar o tabernáculo e levar o Santíssimo aos enfermos, senão outras tantas repetições do que São José prestava ao Menino Jesus? Ocorre só esta diferença: o que era prerrogativa dele só, cabe agora a uma multidão de Padres. E o Mistério da Consagração é um imenso e maravilhoso império que se estende infinitamente além do alcance da nossa inteligência, onde a sombra de São José poderia chegar e onde Maria, o Espírito Santo e a grande obra primitiva da criação se apresentam com traços de semelhança. Mas o gênio inventivo da arte cristã, em uma das mais engenhosas e felizes das suas inspirações, não encontrou, para representar o nosso Ministério junto ao Santíssimo Sacramento de modo mais exato, imagem mais expressiva do que os Mistérios de São José. Assim, a devoção ao Santíssimo Sacramento compreende e abrange as grandes devoções, cujo objeto são Maria e José, em suas relações com a Santa Infância, à qual ambos pertenciam. Era de esperar que, pela natureza das coisas, o Santíssimo Sacramento se tornasse a devoção universal da Igreja; e, pois, não há por onde admirar que nela sejam encontrados traços das relações entre a mesma e as diversas devoções. Estas relações evidenciam quanto as devoções especiais estão longe de ser simples ornamentos ao sistema católico e quanto é, ao mesmo tempo, pouco reverente e contrário à teologia tentar estabelecer contraste entre elas e outras formas de piedade, como se aquelas fossem os únicos sólidos e fecundos de seus frutos. No Catolicismo tudo é ligado, coeso. A doutrina ortodoxa está em estreita correspondência com estas devoções: a honra de Jesus está envolta nelas; e quanto à mortificação, para que esteja superior à austeridade de um estoico ou de um faquir, cumpre proceda de uma instituição cheia de amor de Jesus e só deste amor.


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Fonte: Rev. Pe. Frederick William Faber, Oratoriano, “O Santíssimo Sacramento ou As Obras e Vias de Deus”, Livro Segundo, Secção V, pp. 149-156. 2ª Edição, Editora Vozes Ltda., Petrópolis/RJ, 1939.

1. Há outra versão, segundo a qual esta devoção foi trazida ao Ocidente pelos CARMELITAS, que a tomaram da Igreja grega.


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