
Como
Tradição, é impossível achar um testemunho mais antigo e mais
autorizado que o de São Paulo.
Eis
como se exprime, categoricamente, o grande Apóstolo em sua Primeira
Carta aos cristãos de Corinto: “O Senhor me revelou que Jesus,
na noite em que foi entregue, tomou o pão, dando graças, abençoou-o
e disse: Tomai e comei, esse é o meu Corpo…”.
Isso
foi escrito menos de vinte anos após a morte de Cristo.
Ainda
que se abstraia a infalibilidade da testemunha, e se considere
somente o seu valor histórico: “reconhece-se facilmente,
nota um eminente crítico, que seu alcance é magnífico,
quer se considere a data do depoimento, a qualidade do testemunho ou
a tradição a que se refere. Aqui temos a mais antiga e autêntica
interpretação da Igreja sobre a Eucaristia, e se observarmos a
importância da celebração frequente desse Mistério no culto
cristão, é preciso confessar que uma tradição assim
confirmada impõe-se não só à asseveração do teólogo como ao
respeito de todo historiador”.
Também, quem poderia ter “inventado” a Eucaristia, senão Jesus
Cristo? Quem “inventaria” essa Presença Real? É preciso não
esquecer que a primeira geração de cristãos mostra uma extrema
timidez às inovações, tem grande dificuldade em despojar-se do
Judaísmo e não admite os novos ritos cristãos senão após
conhecimento de causa.
Finalmente,
não podemos assinalar, nos primeiros tempos da Igreja, grandes
pensadores, homens de tal influência que ousassem, por sua única
autoridade, impor uma crença tão extraordinária como a da
Presença Real, se supormos que essa não fora ensinada pelo próprio
Salvador.
Admitindo,
até, que esse inventor anônimo haja existido, estaremos em face de
um milagre histórico ainda mais estranho, em seu gênero, que a
própria Presença Real.
Em
outras palavras, é muito mais inconcebível supor a aceitação,
pelos cristãos, desse milagre, sem atribuí-lo a Jesus Cristo, que
admitir a sua criação, partindo essa do Filho de Deus.
Nos
séculos que se seguiram às eras apostólicas, as provas da crença
geral da Igreja na Presença Eucarística se multiplicam.
A
seus cristãos que suspiravam: “Quereríamos ter vivido no tempo do
Salvador, contemplar seus traços, tocar suas vestes!”, que
respondiam os pregadores: “Mas tendes mais que isso. Se não podeis
ver a silhueta humana do Cristo, podeis tocá-Lo, conhecê-Lo,
recebê-Lo em vós mesmos. E o Cristo que nos alimenta, é o mesmo
que, no Céu, os Anjos adoram”.
Além
disso, vemos os escritores sacros e os doutores atribuírem tais
efeitos à Eucaristia que a Comunhão, para eles, implicava na
aceitação da Presença Real.
Em
seu trabalho, “A Perpetuidade da Fé”,
o grande Arnauld observa: “As
expressões: entrar em nossos corpos, introduzir-se em nós; ser
recebido em nossas entranhas; estar em nós; confundir-se
conosco; estar, corporalmente, unido a nós; estar, em nós, como um
medicamento ingerido; como o chumbo que purifica o metal com o qual o
fundem; como o fogo que ferve a água; como um pedaço de cera
amoldado a outro; como uma centelha que se comunica à palha; como o
lêvedo misturado à massa, – essas expressões, digo, nunca foram
empregadas para indicar uma união figurada ou uma comparticipação
virtual, e são mais que suficientes para provar a Presença Real”.
Arnauld
completa: Os Padres creram sempre, de um modo tão
convincente, na Presença Real que apenas os espíritos
extraordinariamente preocupados e cujas paixões tornaram-nos
incapazes de ouvir o apelo da razão, podem resistir a essa crença”.
Nenhum
testemunho menciona a Presença figurada, ou, como dizia Arnauld, a
“ausência real”.
Os
Santos Padres
não encetaram discussões
filosóficas acerca do conceito da conversão do pão no Corpo de
Cristo, como mais tarde o fez a Escolástica, mas, incansavelmente,
afirmaram o “fato”: o pão, ainda que o pareça, não é mais
pão, é o Corpo Real do Cristo que devemos crer realmente presente,
realmente dado pelo Padre e realmente recebido pelo comungante.
Alguns
observam, mesmo, que é preciso não confiar nas aparências: o que
importa não é a “aparência do fato”, mas o “fato em si”.
A
exterioridade pode mudar e sugerir uma impressão diferente da que
verdadeiramente devemos ter; porém, o “fato” é realmente o
Corpo invisível de Jesus Cristo.
O
segundo século legou-nos o testemunho claríssimo do apologista
Mártir, São Justino: “Assim como, pela palavra de Deus,
Jesus Cristo se fez carne, para a nossa salvação, esse alimento
eucarístico torna-se, pela palavra do Cristo, sua Carne e seu
Sangue, que nutrem nossa carne e nosso sangue”.
O
Bispo de Lião, Santo Irineu, que, por seu mestre São Policarpo,
recebeu os ensinamentos de São João, não se exprime de outro modo.
O mesmo se dá na África, no III século, com Tertuliano e São
Cipriano e, em Alexandria, com São Clemente e Orígenes.
A
partir do IV século os testemunhos não são mais constrangidos pela
prudência necessária em tempos de perseguição.
Em
catequeses célebres, São Cirilo de Jerusalém (†
386) explica aos neófitos:
“Uma
vez que foi o próprio Cristo quem disse do pão: ‘Isto é meu
corpo’ e do vinho: ‘Isto é meu sangue’, quem ousará duvidar e
dizer que não é seu Corpo, nem seu Sangue?”
O
grande orador de Antioquia, São João Crisóstomo (†
407), argumenta do mesmo modo: “Que importa o testemunho
dos sentidos! Pois que o Senhor disse: ‘Isto é meu corpo’,
submetamo-nos e creiamos”.
São
Basílio (†
379), São Gregório Nazianzeno (†
390), São Gregório de Nissa (†
394), no Oriente, pensam no mesmo modo. Santo Ambrósio de Milão (†
397) ensina a seus cristãos o mesmo que Santo Hilário em Poitiers
(†
366): “De veritate carnis et sanguinis non relictus est
ambigendi locus; a propósito do
Corpo e Sangue de Jesus Cristo, nenhuma dúvida é possível”.
E
assim, sem contestação
alguma, chegaremos ao século XVI; só, ou quase só, Berenger (†
1088) fará exceção.
Perante
a unanimidade da Tradição, Leibniz,
por protestante que fosse, viu-se obrigado a confessar: “Esse
dogma foi sempre admitido pela antiguidade cristã; salvo entre os
Reformados, a unanimidade nas Igrejas, sobre tal assunto, está tão
perfeitamente incontestada que nos é preciso admiti-lo também, ou
então jamais poderemos demonstrar seja o que for nesse gênero de
verdade”.
Quais
foram as pretensões dos Reformados?
Distingamos
os protestantes do Continente e os da Inglaterra.
A
doutrina dos primeiros procede de três concepções primordiais: a
de Lutero, a de Calvino e a de Zwinglio.
Lutero
jamais ousou negar a Presença Real; a Confissão de Augsburgo de
1530 expõe claramente as crenças das Igrejas: “Elas
ensinam, que o Corpo e Sangue de Cristo estão verdadeiramente
presentes na Ceia do Salvador e são distribuídas aos comungantes”.
Referindo-se a alguns exaltados, o texto acrescenta: “Elas
(as igrejas) censuram os que afirmam o contrário”.
O
próprio Lutero se gaba de interpretar as palavras do Salvador no seu
óbvio sentido: isto é o meu Corpo. “Os próprios
papistas veem-se na contingência de me louvar por haver, melhor que
eles, defendido a doutrina do sentido literal. Com efeito, estou
certo que, mesmo, que os cosessem ou derretessem juntos, jamais a
apoiariam tão seguramente quanto eu”.
Lutero reivindicava sempre, contra os adversários da Presença Real,
a verdade de sua posição. Em uma conferência realizada em
Marburgo, em 1529, tentaram estabelecer um entendimento entre todos
os reformadores; foi trabalho perdido, e Calvino escreveu a
Melanchton essas palavras melancólicas: “É de grande
importância que os séculos vindouros não tenham a menor suspeita
das divisões que existem entre nós, porque é mais do que ridículo
que, após termos rompido com todo o mundo, não nos entendamos entre
nós, desde os princípios da Reforma”.
Mas Lutero, num ponto, enganou-se: ele admitia que a Eucaristia
continha o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor, “juntamente”
com a substância do pão e do vinho. O Concílio de Trento condenou
essa crença chamada de “Coexistência”. Após a Consagração,
nada mais resta do pão e do vinho, a não ser as aparências.
Calvino, em seu Tratado sobre a Ceia (1540) seguido de sua
Instituição da Religião Cristã, refuta a Presença substancial de
Cristo, que qualifica de rebaixamento indigno do Cristo glorificado.
Entretanto,
para ele a Eucaristia não é um puro símbolo vazio; admite-a como
uma certa presença que as palavras não podem exprimir e que se
poderia chamar de dinâmica. Aliás, ele nunca se explicou
claramente, ao referir-se a esse assunto: “É um mistério
sublime de mais para ser compreendido por meu espírito ou explicado
por palavras”.
Zwinglio
repele, não só a Presença Real ensinada pela Igreja Católica,
como a dinâmica admitida por Calvino; para ele, nos elementos
eucarísticos não se deve ver senão um símbolo do Corpo de Cristo
e na Ceia, um memorial. É essa concepção simbólica a mais aceita
e sufragada pelos teólogos protestantes do Continente.
Que
seja perfeitamente impossível admitir em sentido puramente simbólico
as palavras do Salvador: Isto é o meu Corpo, demonstra-o e explica-o
admiravelmente o Cardeal Wiseman.
Alguns
objetos, observa ele, por sua própria natureza são simbólicos: uma
moeda, um retrato. Dir-se-ia: eis um cruzeiro, eis minha mãe. Outros
não o são, a não ser pelo uso: a bandeira. Quando se diz: “Saudai,
é o Brasil que passa”, todos compreendem que o verbo significa
“representa”. Por fim, um autor pode empregar, em sentido
figurado, palavras que não são simbólicas nem por definição, nem
por convenção.
A
ele compete advertir, então, àqueles que o leem ou escutam.
Na
parábola do semeador, por exemplo, Jesus dirá: o campo é o mundo.
Se
o afirmado nada tem de comum com esses três casos, não há dúvida
que o sentido deve ser o literal.
Ora,
o pão e o vinho não são, por essência, absolutamente, símbolos
do Corpo e Sangue de um homem. Não o são, também, por convenção;
jamais Cristo recorreu a esses dois elementos para representar sua
Carne e seu Sangue. E, em terceiro lugar, não dá a entender em
parte alguma que se trate de uma imagem ou de um símbolo.
Não
temos, pois, o direito de interpretar, em sentido figurado as
palavras: “Isto é o meu Corpo”
e traduzi-las por: “Isto representa meu Corpo”.
Aliás,
não são pessoas que, particularmente, se julgam autorizadas, as que
se insurgem contra a interpretação simbólica das palavras da
Consagração, mas sim o texto oficial da Igreja: O Concílio de
Trento é peremptório: “Se alguém negar que no
Sacramento da Eucaristia estejam contidos, verdadeira, real e
substancialmente o Corpo e o Sangue, com a Alma e a Divindade de
Nosso Senhor Jesus Cristo… e pretender que não estejam senão como
sinal, símbolo ou virtude…”,
acha-se fora da crença católica.
Apesar
da condenação formal do Concílio de Trento e da futilidade das
razões apresentadas para estabelecer seriamente a acepção
puramente simbólica, a maior parte dos protestantes do Continente
perseverou no erro.
Na
igreja da Inglaterra o mais numeroso contingente inclina-se para o
sentido figurado. Encontra-se, porém, em face de um núcleo próspero
que admite a Presença Real, venera-se, procurando não omitir nem um
dos ritos católicos, véu de sacrário, flores no altar, lâmpada no
santuário, enquanto que os chefes eclesiásticos recusam-se a
decidir e declaram deixar a questão ao critério de cada um.
Um
debate recente veio demonstrar como, por terem outrora rompido com o
dogma da Presença Real, os fundadores da Reforma deixaram seus
adeptos, através dos séculos, em perpétuas e dolorosas indecisões.
Referimo-nos à controvérsia do “Prayer Book” ou, para falar
claramente, da Reforma do
ritual anglicano.
Logo
que, em 1539, se consumou a ruptura com Roma, o rei da Inglaterra,
Henrique VIII, fez redigir um formulário tornado obrigatório e,
salvo dois pontos: o Papa e a Missa, relativamente bastante católico
ainda.
Pouco
a pouco, supressões consecutivas se fizeram, principalmente em
certos ritos essenciais à ordenação do Padres (daí a invalidade
das ordenações anglicanas). Sendo necessário mudar sobre a Missa
as ideias dos antigos fiéis que desejavam tornar adeptos da Reforma,
puseram abaixo os altares, que foram substituídos por mesas móveis.
Não se tratava mais, como desejavam incutir, do Calvário místico
mas, efetivamente, renovado; a Ceia tornou-se, simplesmente, uma
cerimônia comemorativa em que, apenas, se partia e distribuía o pão
bento.
No
reinado de Isabel, em 1563, o formulário foi definitivamente
redigido: “os trinta e nove artigos”
importavam, entre os mais, na supressão da Missa e da
transubstanciação.
E
assim foi até 1850. A partir dessa época reapareceram, cada vez
mais frequentemente em apreciável parte da igreja anglicana, não
somente altares, círios, sobrepelizes e ornamentos, mas também um
certo culto da Presença Real; uma “santa reserva” é conservada
em muitos tabernáculos, e as lâmpadas do santuário reaparecem e,
novamente, suas chamas vivas palpitam nos frios templos da Igreja
Reformada. Alguns anglicanos levam ainda mais longe seu culto pela
Eucaristia. Aproximam-se tanto da crença católica que,
evidentemente, seu procedimento já não está de acordo com a
doutrina oficial do Anglicanismo.
Mais
uma vez, os chefes da Igreja Reformada decidem fazer a revisão do
Manual em uso (Prayer Book). Uma comissão, nomeada em 1906, procura
os meios de, sem abandonar os antigos pontos de vista, dar uma certa
acolhida às práticas sub-repticiamente introduzidas.
Após
20 anos de trabalho, o Manual sai do prelo, aprovado pela Assembleia
de bispos, que tanta certeza tinha da aceitação incontestada do
novo texto que até já dera a ordem, prontamente executada, de nova
tiragem de 100.000 exemplares do novo Prayer-Book.
Mas
a Igreja da Inglaterra é uma Igreja do Estado, e, por conseguinte,
depende desse último – isto é, das duas Câmaras. Os “Lords”
aceitaram o novo texto, mas
os “Comuns” vetaram-no, rejeitando o formulário.
Sem
se aperceber da servidão em que se achava uma Igreja na qual os
chefes religiosos, por conseguinte qualificados, eram desautorizados
por uma assembleia de leigos, que nada tinha de teologia, foi
decidido estudar novamente a correção e adaptação do Prayer-Book.
Essa nova modificação foi feita em um sentido mais conforme às
primitivas ideias da Reforma. As alterações feitas referiam-se, em
dois pontos, à Eucaristia – o grande motivo do debate: –
frisa-se, insistentemente, que a permissão dada para ajoelhar
durante a cerimônia da Ceia não significa um ato de adoração,
como se o pão comportasse objetivamente a Presença Real.
Precisa-se,
também, que se pode guardar a santa reserva para a comunhão dos
doentes, mas, para diferenciar dos católicos, em tabernáculos
diversos.
Como
a Igreja Católica está prevenida contra tais golpes! Além das
afirmações categóricas das Escrituras e da Tradição, Ela possui
decisões formais. Cristo, na Eucaristia, está verdadeiramente
presente e não figurada ou simbolicamente; está realmente, e não
em virtude de uma fé subjetiva ou imaginação; substancialmente,
isto é, não simplesmente pelos efeitos produzidos por uma presença
virtual.
E
essa Presença do Cristo compreende toda a sua Personalidade: a
Eucaristia contém todo o
Cristo, isto é – com
sua Alma e Divindade, seu Corpo e seu Sangue, “esse
mesmo Corpo que nasceu da Virgem Maria e está sentado à direita do
Pai”.
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Fonte:
Raul Plus, S.J., “A
Eucaristia”,
Cap.
IV, pp. 37-52. Editora Vozes Ltda, Petrópolis/RJ, 1944.