BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quarta-feira, 7 de julho de 2021

‎NOVENA‎ EM HONRA DA SANTÍSSIMA E IMACULADA VIRGEM MARIA DO MONTE CARMELO. 1º DIA.


Aprovação da Ordem


Nihil Obstat

Fr. Romeu Peréa. O. Cam.

15 de Agosto de 1941.


Reimprimi potest

Fr. Joseph Maria Casanova

Ord. Carm. Provincialis

Recife, 18 de Agosto de 1941.


Aprovação do Prelado Eclesiástico


Nihil Obstat

Recife, 9 – XII – 1941

Pe. C. B. Barreto

Censor Diocesano


Imprimatur

Recife, 11 – 12 – 1941

† Michael

Archiepus. Olinden. Et Recifen.


________


Primeiro Dia

_______


Ao Expor-se o Santíssimo Sacramento


Hymnum


Tantum ergo sacramentum

Veneremur cernui;

Et antiquum documentum

Novo cedat ritui;

Praestet fides supplementum

Sensuum defectui.

Genitori Genitoque

Laus et jubilatio;

Salus, honor, virtus quoque,

Sit et benectio;

Procedenti ab utroque

Compar sit laudatio.

Amen.

______

Deprecação

Abri, Senhor, a nossa boca para louvar o vosso Santo Nome; purificai também o nosso coração de todos os pensamentos vãos, perversos e alheios; iluminai o nosso entendimento, inflamai a nossa vontade para que digna, atenta e devotamente possamos exercitar a presente devoção, e merecer ser ouvidos na presença de vossa Divina Majestade. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.


V. A Santa Mãe de Deus e dos Carmelitas seja conosco e sempre nos assista.

R. Amém.


V. Deus, vinde em meu auxílio.

R. Senhor, apressai-vos em socorrer-me.


V. Glória ao Pai, e ao Filho e ao Espírito Santo.

R. Assim como era no princípio, agora e sempre, por todos os séculos dos séculos. Amém.

___________

Invitatório

A Nosso Senhor Jesus Cristo, que se dignou que sua Mãe Santíssima se intitulasse, particularmente, Mãe dos Carmelitas. Vinde, adoremos.

___________


Hino


Virgem que o mundo inteiro venera,

Que a Santa Prole do nevado do Carmo

Por mãe venera, recebe estes nossos cândidos votos.


O nosso Elias divisando a Nuvem

Clamou dizendo: Vede aqui a forma

Da Mãe bendita, da preclara Virgem, Cópia certa.


Não tinha vindo do Celeste Trono

O Verbo Santo, já me protegendo

Te vejo, Nuvem, sendo de meus filhos a Próvida amante.


Também primeiro que este mundo deixes,

Um Templo Santo minha grata prole

Há de erigir-te por sinal do nosso íntimo afeto.


Do nosso Monte, rogo, não te afastes,

Mas sempre orvalha flores que cultivo;

O jardim cresça, até que teus altares floridos fiquem.


Dê-se honra ao Pai, ao Divino Filho,

A quem procede juntamente de ambos:

À Virgem Santa dê-se em todo o mundo, cânticos eternos. Amém.


Meditação


Maria simbolizada por uma nuvem,

é imitada por Elias e seus Discípulos.


PUREZA

I

Aquele Deus que desde toda a eternidade escolhera a Virgem Maria para ser, quando chegasse o tempo, a Mãe do seu Unigênito Verbo, entre as maravilhas que obrou para exaltação da mesma, não deixou em último lugar a de anunciá-La por meio de símbolos expressivos e figuras tocantes aos fiéis do Antigo Testamento. Deus ia preparando por esse modo a glorificação aqui na terra de tão excelsa criatura, por meio de um culto tão esplêndido e tão universal. Entre tão gloriosos prenúncios, merece atenção especial o que teve lugar novecentos anos antes da era evangélica, no sagrado Monte Carmelo, e pelo qual o grande Profeta Elias compreendeu por luz profética e sob o símbolo de uma pequena nuvem, os futuros destinos da Virgem Mãe, e quanto havia de ser credora do amor e veneração de todos os remidos.

Desde então Elias e seus filhos a honraram e veneraram por um modo adequado; pelo que podemos dizer desta Mãe da Sabedoria divina, o que se lê em seu sagrado Livro: – Aqueles a quem se descobrira em visão, amaram-nA assim que a viram e que descobriram as suas grandezas.

E como entre tão soberanas excelências divisara Elias também as mais eminentes virtudes, propôs-se então imitá-las e fazer com que outros as imitassem. Entre muitas delas, a pureza virginal de Maria Santíssima instigou com o atrativo de seus encantos o grande Profeta a que cultivasse tão bela virtude e a propusesse à imitação de seus discípulos, semeando assim com lírios odoríferos, o Monte mesmo em que sempre exalaram celestial fragrância as belas flores de todas as virtudes. A estes perfeitos imitadores do imortal Tesbita, alude o grande Mártir São Metódio, quando dirigindo-se a Maria Santíssima lhe disse com ênfase:

O Profeta Elias, ó Virgem Sagrada, para louvar a tua pureza virginal, como se estivesses presente, embora tardasses ainda tanto em nascer, rodeou-se como que de uma coroa de lírios odorosos de numerosos imitadores de tua pura e fervorosíssima vida.

Verás aqui, minha alma, os humildes princípios dessa Congregação santa que no Antigo Testamento iniciou a série de ilustres triunfadores da malfadada concupiscência, e que no decurso de todos os séculos havia de imitar e, por conseguinte, honrar com tão sublime culto à Virgem das virgens e Mãe do Cordeiro Imaculado.

Diminuta nascente, que semelhante à que vira Mardoqueu, o ilustre parente de Ester, transformar-se em manancial de luz de bom exemplo e em rio caudaloso de merecimentos, desaguando no mar dos gozos imarcescíveis!

– Ó Virgem, a mais pura das virgens! Fazei com que eu possa sentir continuamente os puros aromas do vosso místico Carmelo, pois que, me edificam e excitam em minha alma, saudáveis afetos de pureza e castidade. Amém.

II

Que dizes, minha alma, ao sentir esse suavíssimo odor de Cristo e de sua Mãe, esse aroma do místico lírio Jesus e da preciosa açucena Maria, que exala o privilegiado Carmelo, esse horto ameníssimo da Virgem das virgens?

Não é verdade que tanta fragrância e formosura te impelem suavemente a desejares uma pureza ilibada de alma e corpo? Não deixes pois de ouvir, ó minha alma, a doce voz de tua Mãe Imaculada, que fazendo refulgir a sua pureza sobre Elias e seus seguidores, te convida à prática de uma virtude que transforma o homem em anjo e é mais agradável a Deus do que as mais solenes homenagens.

Procura com o exercício da humildade, da oração e da mortificação, guardar diligentemente o depósito da pureza conforme o teu estado.

Não esqueças que este Escapulário, que tanto te honra no humilde de sua matéria e forma, te prega a humildade; em sua qualidade de veste de penitência, te exorta à mortificação cristã, e em sua origem celestial te diz para onde deves dirigir teus rogos, virtudes todas elas especialmente necessárias para te conservares casto entre os perigos a que está exposta a tua pureza. Ó Mãe castíssima! Já que tanto me edificas com teus exemplos e os dos filhos do teu espírito, alcança-me os socorros que me são necessários neste combate contra a rebeldia da carne e faze com que o Escapulário Santo, impregnado dos perfumes de tua pureza, me seja armadura impenetrável aos golpes do Tentador e aos atrativos do deleite sensual. Assim seja.

Oração Especial para este Dia

Ó Virgem do Carmo, Maria Santíssima, que 900 anos antes de nascerdes, quisestes escolher o sagrado Monte Carmelo para ser especialmente vosso, quando em figura de uma nuvem puríssima que o grande Profeta de Deus, Santo Elias, viu levantar-se do mar, símbolo expressivo da vossa Conceição Imaculada e Virginal Pureza, fecundastes com sua chuva toda a terra, havendo sido esse tão prematuro benefício, forte incentivo para que o Santo Profeta, instituísse em veneração e honra vossa essa tão antiga e sagrada Religião. Rogo-Vos, Senhora, me alcanceis do vosso divino Filho chuvas copiosas de auxílios, para que produza abundantes frutos de virtudes e boas obras, por cujo meio, senvindo-O com perfeição nesta vida, mereça gozá-Lo na eternidade. E consiga agora o que peço, pela vossa intercessão neste Novena; e isso mesmo, Senhora, vos suplico com toda a humildade e confiança. Amém.


* Depois da Meditação e Oração, canta-se as jaculatórias alternadamente com o povo, e reza-se o Pai Nosso, a Ave Maria e o Glória ao Pai no fim de cada jaculatória:


Senhora do Carmo

Mãe dos Carmelitas

Socorrei as almas

Que vivem aflitas.


1º – Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai.


Senhora do Carmo

Oh! Virgem Maria!

Vinde em meu socorro

Na última agonia!


2º – Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai.


No transe horrendo da morte

Valei-nos compadecida,

A fim de com vosso Filho,

Gozarmos da eterna vida.


3º – Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai.


*Findo o cântico, a música entoa e o povo repete a seguinte


Jaculatória


Glória ao Pai, e ao Filho de Maria Santíssima, ao Incriado Amor de Esposa digníssima.


* Depois entoa-se a


Ladainha da Santíssima Virgem

(Segundo o Breviário da Sacrossanta Ordem Carmelitana)


Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.


Jesus Cristo, ouvi-nos.

Jesus Cristo, atendei-nos.


Pai celeste que sois Deus, tende piedade de nós.

Filho, Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós.

Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de sois.

Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.


Santa Maria, rogai por nós.

Santa Mãe de Deus, rogai por nós.

Santa Virgem das virgens, rogai por nós.


Mãe de Jesus Cristo, rogai por nós.

Mãe da Igreja, rogai por nós.

Mãe da divina graça, rogai por nós.

Mãe puríssima, rogai por nós.

Mãe castíssima, rogai por nós.

Mãe imaculada, rogai por nós.

Mãe intacta, rogai por nós.

Mãe amável, rogai por nós.

Mãe admirável, rogai por nós.

Mãe do Bom Conselho, rogai por nós.

Mãe do Criador, rogai por nós.

Mãe do Salvador, rogai por nós.

Mãe e Decoro do Carmelo, rogai por nós.


Virgem prudentíssima, rogai por nós.

Virgem venerável, rogai por nós.

Virgem louvável, rogai por nós.

Virgem poderosa, rogai por nós.

Virgem clemente, rogai por nós.

Virgem fiel, rogai por nós.

Virgem Flor do Carmelo, rogai por nós.


Espelho de Justiça, rogai por nós.

Sede da Sabedoria, rogai por nós.

Causa da nossa alegria, rogai por nós.

Vaso espiritual, rogai por nós.

Vaso honorífico, rogai por nós.

Vaso insigne de devoção, rogai por nós.

Rosa mística, rogai por nós.

Torre de Davi, rogai por nós.

Torre de marfim, rogai por nós.

Casa de ouro, rogai por nós.

Arca da aliança, rogai por nós.

Porta do céu, rogai por nós.

Estrela da manhã, rogai por nós.

Saúde dos enfermos, rogai por nós.

Refúgio dos pecadores, rogai por nós.

Consoladora dos aflitos, rogai por nós.

Auxílio dos cristãos, rogai por nós.

Padroeira dos Carmelitas, rogai por nós.


Rainha dos Anjos, rogai por nós.

Rainha dos Patriarcas, rogai por nós.

Rainha dos Profetas, rogai por nós.

Rainha dos Apóstolos, rogai por nós.

Rainha dos Mártires, rogai por nós.

Rainha dos Confessores, rogai por nós.

Rainha das Virgens, rogai por nós.

Rainha de Todos os Santos, rogai por nós.

Rainha concebida sem Pecado Original, rogai por nós.

Rainha elevada ao céu, rogai por nós.

Rainha do sacratíssimo Rosário, rogai por nós.

Rainha da paz, rogai por nós.

Esperança de Todos os Carmelitas, rogai por nós.


Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos Senhor.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.


V. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.

R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.


Oremos: Senhor Deus, nós Vos suplicamos, que concedais aos Vossos servos, perpétua saúde de alma e de corpo; e que, pela gloriosa intercessão da Bem-aventurada sempre Virgem Maria, sejamos livres da presente tristeza e gozemos da eterna alegria. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.


Antífona


Esta é na verdade a mais prudente e formosa Abigail Carmelita, cuja cabeça se assemelha ao Carmo, e as suas mãos nos introduziram na terra do Carmelo para comermos o seu fruto e participarmos do que tem de mais delicioso. Aleluia.


V. Formosura do Carmo, Mãe dos Carmelitas.

R. Rogai por nós à Trindade Santíssima.


Oremos: Deus, que condecoraste a Ordem do Carmo com o singular título da Bem-aventurada Virgem Maria vossa Mãe, concedei propício que nós que agora nos preparamos à sua solene comemoração, fortalecidos com os seus auxílios, mereçamos gozar as eternas alegrias, em que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. R. Amém.


* Depois disto a música entoa para a adoração do Santíssimo Sacramento:


Verbum caro, Panem verum;

Verbo Carnem efficit;

Fitque sanguis Christi merum;

Et si sensus deficit,

Ad firmandum cor sincerum;

Sola fides sufficit.


V. Panem de coelo praestitisti eis.

R. Omne delectamentum in se habentem.


Oremus: Deus, qui nobis sub Sacramento mirabili passionis tuae memoriam reliquisti: tribue, quaesumus; ita nos corporis et sanguinis tui sacra mysteria venerari ut redemptionis tuae fructum in nobis jugiter sentiamus. Qui vivis et regnas in saecula saeculorum. R. Amen.


* Segue-se a bênção com o Santíssimo Sacramento, finda a qual a música entoa e o povo responde as seguintes:


Jaculatórias finais


Formosura do Carmo, sua glória e delícia,

Do formoso Amor, a Mãe de toda carícia.


São vossos ardores de chamas mui ativas;

Acendei na minha alma, suas luzes vivas.


Bem frágeis somos; mas de vosso amor confiante,

Nas trevas da morte sede a luz constante!


V. A Virgem Sagrada seja nossa Advogada.

R. Amém.


segunda-feira, 5 de julho de 2021

A EUCARISTIA – BOSSUET. 11ª PARTE.


O grande benefício de Deus:

Meditação. É a Encarnação estendida

a cada um de nós tantas vezes quantas

comungamos. O fruto da Eucaristia:

viver da vida de Jesus Cristo.


Minha alma, estabeleceste o fundamento; creste com simplicidade, por um simples ato. Expande-te agora na meditação de tamanho benefício; desenvolve-te a ti mesma tudo o que ele contém, tudo o que Jesus te deu por essas poucas palavras.

Sois, pois, a minha vítima, ó meu Salvador! Mas se eu só fizesse ver-Vos no altar e na Cruz, não saberia bastante que é a mim, que é por mim que Vos ofereceis. Mas hoje, que eu Vos como, sei, sinto, por assim falar, que foi por mim que Vos oferecestes. Sou participante do vosso altar, da vossa Cruz, do Sangue que aí purifica o Céu e a terra, da vitória que alcançastes nela sobre o vosso Inimigo, sobre o Demônio, sobre o mundo, vitória que Vos faz dizer: “O mundo Vos afligirá, mas tende ânimo, eu venci o mundo”.

Se Vos oferecestes por mim, logo me amáveis: pois por quem é que se dá a vida, senão pelos próprios amigos? Como-Vos em união com o vosso Sacrifício, por conseguinte com o vosso amor; gozo do vosso amor todo, de toda a sua imensidade; sinto-o tal qual é, sou penetrado dele.

Vós mesmo vindes pôr-me esse fogo nas entranhas, a fim de que eu Vos ame com um amor semelhante ao vosso. Ah! Vejo agora e conheço que tomastes por mim essa carne humana, que por mim lhe carregastes as enfermidades, que foi por mim que a oferecestes, que ela é minha. Tenho só que tomá-la, comê-la, possuí-la, unir-se a ela. Encarnando-Vos no seio da Santíssima Virgem, tomastes apenas uma Carne individual; agora, tomais a carne de todos nós, a minha em particular; aproveitai-Vos dela, ela é vossa; torná-la-eis como a vossa pelo contato, pela aplicação da vossa, primeiramente pura, santa, sem mácula; segundo, imortal, gloriosa; receberei o caráter da vossa Ressurreição, contanto que tenha a coragem de receber o da vossa morte.

Vinde, vinde, Carne do meu Salvador; carvão ardente, purificai-me os lábios, abrasai-me do amor que Vos entrega à morte! Vinde, Sangue que o amor fez derramar; correi no meu seio, torrente de chama! Ó Salvador! Está, pois, aqui o vosso Corpo, esse mesmo Corpo perfurado de Chagas. Uno-me a todas; foi por elas que todo o vosso Sangue escorreu por mim. Penais, morreis, passais; é aqui a vossa passagem: passo, expiro convosco. Que me é o mundo? Nada absolutamente. Estou crucificado para o mundo e o mundo para mim. Ele não me aprecia: tanto melhor para mim, contanto que eu também não o aprecie. A ruptura está feita de parte a parte; não é como quando um ama e o outro odeia; não posso sofrer o mundo, que, por seu lado, não pode sofrer-me; tal como é um morto para com outro morto, tal é o mundo para mim, e eu para o mundo.

Porém, o mundo dirá isto, dirá aquilo; o mundo dirá que eu ainda lhe quero agradar na minha separação: que importa que ele diga? “Estou pregado à Cruz de Jesus Cristo: vivo, não mais eu, mas Jesus Cristo em mim, e o que tenho de vida na carne, tenho-o na Fé do Filho de Deus que me amou e se entregou por mim”.

Se ainda sou tocado por um amor humano, vivo ainda; se odeio aquele que me odeia, vivo ainda; se sinto as injúrias, vivo ainda; se a dor me penetra, vivo ainda. Adeus, adeus; vou-me embora; não sou de nada; não sou mais de mim; “é para Jesus Cristo que vivo; é Jesus Cristo que vive em mim”.

É assim que cumpriria ser; é o fruto da Eucaristia. Oh! Como estou longe disso! Mas só por ela chegarei a isso.


_________________________________

Fonte: Jacques-Bénigne Bossuet, Bispo de Meaux, “Meditações sobre o Evangelho” – Opúsculo “A Eucaristia”, Cap. XI, pp. 55-58. Coleção Boa Imprensa, Livraria Boa Imprensa, Rio de Janeiro/RJ, 1942.


domingo, 4 de julho de 2021

DO SOFRIMENTO DAS INJÚRIAS, E DA VERDADEIRA PACIÊNCIA.


1. Jesus Cristo.1 Que dizes, filho? Considera a minha Paixão e o sofrimento dos Santos e deixa de queixar-te.

“Ainda não resististe até ao sangue”.2

Bem pouco é o que sofres em comparação de outros que passaram por tantos trabalhos, foram tentados violentamente, duramente atribulados, provados e exercitados de tantos modos.

É bom que te lembres dos sofrimentos alheios, mais pesados para que suportes mais facilmente tuas pequeninas contrariedades.

E se elas não te parecem pequenas, vê se não é isso efeito de tua impaciência.

Pequenas ou grandes, porém, esforça-te por suportá-las com paciência.

2. Quanto melhor te dispuseres a sofrer, tanto mais procederás com sabedoria e maior será o teu merecimento; a firme resolução e o hábito do sofrer tornam até mais suave o sofrimento.

Nem digas: “Não posso suportar estas coisas de tal pessoa; são ofensas que não se toleram. Injuriou-me gravemente e acusou-me de coisas que nunca me passaram pelo pensamento. De outras pessoas me resignaria de bom grado a sofrer e da maneira que julgar, devo sofrer”.

Insensato tal pensamento; em vez de considerar o que é a virtude da paciência e quem há de recompensá-la, põe-se a pesar as pessoas que ofendem e as ofensas recebidas.

3. Nem é verdadeiro sofredor, quem não quer sofrer senão o que bem lhe parece e de quem lhe apraz.

Quem possui a verdadeira virtude da paciência não olha quem o maltrata, se seu superior, igual ou inferior, se varão bom e santo ou perverso e indigno.

Mas, sem diferença de pessoas, recebe com gratidão das mãos de Deus e quantas vezes lhe aprouver, todas as adversidades que lhe acontecem e as considera grande lucro; porque não deixará Deus sem recompensa o menor mal sofrido por seu amor.

4. Aparelha-te, pois, para a luta se queres ganhar a vitória.

Sem combate, não se alcança a coroa da paciência.

Se recusas o combate, recusas a coroa.

Se desejas, porém, ser coroado, peleja com valor e sofre com paciência.

Sem trabalho, não se logra o repouso; sem luta, não se conquista a vitória.

5. Alma Fiel. Senhor, torne-se-me possível, por vossa graça, o que pela natureza me parece impossível.

Bem sabeis quão pouco posso padecer e como logo desanimo com a menor adversidade.

Fazei que eu ame e deseje ser atribulado para glória do vosso Nome; de grande proveito para minha alma é padecer e ser mortificado por vosso amor.


1ª Reflexão3



Estamos habituados a medir os males da vida pelas impressões dolorosas, que eles nos ocasionam: parece-nos que sofremos muito, porque não temos disposições para sofrer. À semelhança dos estômagos doentes, que com pouco alimento ficam enfartados, também nós com pequeninas contrariedades nos enfastiamos; porque a nossa paciência é pouca ou nula, julgamos que o nosso sofrimento é insuportável. Desviamos os olhos de nós mesmos, para não vermos os melindres do nosso amor-próprio, e atribuímos as nossas inquietações a causas exteriores: agora questionamos, porque um inferior não cumpriu as nossas ordens; logo gememos, porque nos faltaram ao respeito; mais tarde cairemos em tristeza por uma palavra, por um nada! Parece-nos que todos se conspiram para nos atribular! E quantas pessoas destas, que se têm por muito devotas e aproveitadas na virtude?

Quantas que parecem Anjos no confessionário e se mostram Demônios no seio das suas famílias?

Tudo as irrita e desgosta, não podem viver em paz com ninguém: se mandam, é para ostentarem um orgulho insofrido; se repreendem, é antes para escandalizarem que para corrigirem; se conversam, é para assoalharem as vidas alheias!

Entra a sério na tua consciência e vê se te encontras culpado neste ponto. Para se adquirir uma virtude é necessário praticá-la muitas vezes. A criancinha que vai para escola tem de repetir muitas vezes as mesmas palavras e escrever as mesmas letras, antes que se habitue a ler e escrever com facilidade e até com gosto. Assim, há de fazer o cristão na escola da paciência: há de aproveitar de boa vontade as ocasiões que Deus lhe oferece para se enriquecer de merecimentos. Com efeito, vos é necessária a paciência para que, fazendo a vontade de Deus, alcanceis o prometido.4


2ª Reflexão5



Se temos alguma vez que sofrer ao próximo, não tem ele menos que nos sofrer a nós, por isso, dizia o Apóstolo: “Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Jesus Cristo”.6

Mas dirás tu, coisas há bem difíceis a suportar. Pois bem, maior será o teu merecimento. Para isto, é que a graça nos é dada, para realizarmos com os seus auxílios o que a natureza por si só não pode fazer. Além de que, te acontece, por ventura, que Deus não tenha querido? A paciência não é pois outra coisa senão uma submissão branda e sossegada ao que Ele ordena, e sem a qual vivemos numa inquietação contínua; porque “quem resistiu a Deus e teve paz?”7

E quão paciente não deve Ele ter sido para contigo? Mete a mão em tua consciência e responde. Não tem Ele tido nada que sofrer-te, nada que perdoar-te? Sim, “o Senhor é paciente e misericordioso. Sejamos também nós pacientes e misericordiosos para com todos. O homem paciente vale mais que o homem forte, e o que domina sua alma é mais estimado que o que toma cidades. Calei-me, dizia Davi profetizando os padecimentos de Cristo, calei-me, e não abri a minha boca; e outro Profeta: Emudeceu como um cordeiro diante do tosquiador”.8

Quem ousaria depois disto murmurar, irritar-se, pagar ofensa com ofensa? Ó Jesus! Sede nosso Modelo. Vós nos ensinastes a dizer a Deus: “Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”. Eis o que pedimos todos os dias, eis o que todos os dias prometemos: e desgraçado daquele cuja oração for mentirosa!9

Ó pacientíssimo Jesus, amador fidelíssimo das almas afligidas, dai-me o dom da paciência, da resignação, da indulgência para com meus semelhantes; possa eu por vossa graça, perdoar de coração todas as injúrias que me fizerem, para por este modo poder pedir-Vos e merecer o perdão das muitas, com que Vos tenho ofendido.


3ª Reflexão10



Sofre com paciência não só as graves e principais aflições, que te sobrevierem, mas também os acessórios e acidentes que delas dependerem.

Muitos quereriam aguentar dissabores, contanto, que não os acabrunhassem. Não me aflige, diz um, o ter ficado pobre, mas isto sim: não poder servir a meus amigos, educar meus filhos e viver com decoro como eu desejaria. E outro dirá: Isto não me apoquentaria, se não fosse atribuírem-no à minha culpa.

Outro estimaria que falassem mal dele e sofrê-lo-ia com paciência, contanto que, ninguém acreditasse no maldizente. Outros há que desejam, sim, ter algum incomodo, parece-lhes, mão não total. Não se impacientam, dizem eles, de estar doentes, mas de não ter dinheiro para se tratarem, ou de serem importunos aos que os cercam.

Ora, digo eu, Filoteia, que se deve ter paciência não só de estar doente, mas de sofrer a doença que Deus quer, no lugar onde Ele quer, e entre as pessoas que Ele quer; e assim das outras tribulações. Quando vos vier moléstia, oponde-lhe os remédios que forem possíveis e segundo Deus; pois, proceder de outro modo seria tentar a divina Majestade; mas, feito isso, esperai com toda a resignação o efeito que agradar a Deus. Se Lhe apraz que os remédios vençam o mal, dar-lhe-eis graças com humildade; se porém, Lhe apraz que o mal vença os remédios, bendizei-O com paciência.11


_____________________

1.  Imitação de Cristo, Livro III, Cap. XIX, pp. 122-124. Tradução do Pe. Leonel Franca, S.J., 4ª Edição, Livraria José Olympio editora, Rio de Janeiro/São Paulo, 1948.

2.  Heb. 12, 4.

3.  Imitação de Cristo, Livro III, Cap. XIX, pp. 182-183. Novíssima Edição, por Mons. Manuel Marinho, Editora Viúva de José Frutuoso da Fonseca, Porto, 1925.

4.  Heb. 10, 36.

5.  Imitação de Cristo, Presbítero J. I. Roquette, Livro III, Cap. XIX, pp. 224-225. Editora Aillaud & Cia., Paris/Lisboa.

6.  Gál. 6, 2.

7.  Jó 9, 4

8.  Salm. 144, 8; I Tes. 5, 14; Prov. 16, 32; Salm. 38, 10; Is. 53, 7.

9.  Mat. 6, 12.

10.  Imitação de Cristo, versão portuguesa por um Padre da Missão, Livro III, Cap. XIX, pp. 190-191. Imprenta Desclée, Lefebvre y Cia., Tornai/Bélgica, 1904.

11.  São Francisco de Sales, Introdução à vida devota, 3ª Parte, C. III.


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