BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

quinta-feira, 29 de julho de 2021

O MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO REVELADO A SÃO JOSÉ.


Pouco tempo depois do regresso a Nazaré, São José começou a reconhecer em Maria sinais evidentíssimos de gravidez e, desconhecendo ainda o aviso do Arcanjo, muito se perturbou e experimentou dor agudíssima. Todavia, persuadia-se de que tais sinais podiam proceder de enfermidade e lutava em silêncio contra as dúvidas.

Um motivo que muito o atormentava era o perigo em que se podia incorrer. Entre os hebreus, tanto o homem quanto a mulher, culpados de desonestidade, deviam então, por ordem de Deus, ser conduzidos para fora da cidade ou vila, apedrejados na estrada e abandonados sem sepultura, para salutar terror das gerações futuras.

Homem justo e santo que era, não quis manifestar nem a Maria, nem a outros, as próprias penas. O proceder sempre igual, sempre afável e humilde que Ela demonstrava, não lhe permitia absolutamente suspeitar mal. Por isso, em meio a tantas perplexidades, o santo esposo de Maria voltou-se para Deus em fervorosa oração.

Era justo, diz o Evangelista, e não podia suspeitar mal de alguém, muito menos de Maria, a quem sempre considerara a mais santa de todas as virgens.

As virtudes de Maria, a santidade insuperável de seus costumes, a aura de paraíso que n’Ela transparecia também exteriormente, não lhe permitiam a mínima dúvida quanto à sua intemerata fidelidade. Mas como explicar o estado interessante da Esposa?

Qual a causa daquele Mistério? Como devia ele proceder em tão graves dificuldades?… Comunicar à Esposa suas apreensões e pedir-lhe a explicação?… Não seria uma afronta? Mas como poderia ocultar o acontecimento quando chegasse o momento do parto? Como poderia dar por seu o filho que estava para nascer, sem faltar à verdade? Devia ele, como estava prescrito pela lei, dar-Lhe o libelo de divórcio, acusá-La como adúltera e expô-La a ser lapidada? O único meio que parecia restar-lhe era abandonar secretamente a esposa, retirar-se sozinho a algum país longínquo onde não fosse conhecido, deixando o mais nas mãos da divina Providência.

A aflição de São José chegou a tal ponto que não pode mais dissimular sua tristeza. Sentiu que lhe diminuíam as forças, e, embora não estivesse atingido por enfermidade alguma, aparecera-lhe no semblante os sinais de uma extrema aflição. E como a ninguém comunicou sua aflição nem procurou em outro lugar alívio para a dor, suas penas tornavam-se ainda mais graves e mais acerbas.

Que dor para o Coração de Maria! Quantas angústias, quantas lágrimas no segredo de seu quarto! Sabia tudo quanto se passava no coração de seu amantíssimo esposo e não encontrava meio de dar-lhe remédio. O pobre José continuava, com lágrimas, a pedir luz ao Céu e outro tanto fazia Maria; mas não chegara ainda o momento. O Senhor queria, na dor, prepará-Los para a suma consolação.

Tais são os caminhos de Deus para os seus eleitos. Grandes são as cruzes a que certas vezes estão sujeitos neste mundo, mas infinitamente maiores as consolações com que os conforta depois da prova.

* * *

Muitos autores, excessivamente precipitados, sustentam que São José suspeitou da misteriosa gravidez de Maria como efeito de adultério. Os Santos Padres, ao contrário, afirmam que, tendo Maria voltado a Nazaré e, descoberto por São José o prodígio que Deus n’Ela operara, humilde como era, julgando-se indigno de habitar com a Mãe do Messias, tomou a resolução de afastar-se.

Diz Orígenes, na primeira de suas homilias sobre o Evangelho de São Mateus: “José queria abandonar Maria porque, percebendo ter-Lhe sucedido algum grande Mistério julgava-se indigno de habitar com Ela”.

Comentando tal passagem, São Jerônimo diz quase o mesmo: “Querer abandoná-La é testemunho de José, não em suspeita, mas em favor de Maria, pois, conhecendo a ilibada castidade de sua Esposa e ficando pasmo por causa de quanto acontecera, não ousava falar do Mistério que lhe era desconhecido”.

Mais claramente ainda se exprime São Basílio: “São José conheceu que a gravidez de Maria era obra do Espírito Santo mas, não sabendo tudo primeiro com certeza, e pensando contudo em algum Mistério, julgou-se indigno de chamar-se seu esposo, e, para não ser constrangido a manifestar o fato, pensou em abandoná-La ocultamente. Mostrou pois claramente que não pensara mal d’Ela nem se tornara molesta a sua convivência, mas que já formara antes o conceito de que sua gravidez pudesse ser proveniente do Espírito Santo”.

São Bernardo explica de modo maravilhoso a supracitada passagem: “José, que era homem justo, não querendo desonrar Maria, deliberou abandoná-La ocultamente; pela razão de que, sendo justo, não quis denunciá-La; pois, assim como não seria justo se, reconhecendo-A culpada, tivesse calado, também não seria justo se, julgando-A inocente, A tivesse condenado. Sendo pois justo e não querendo denunciá-La, resolveu abandoná-La”.

E porque quis abandoná-La? Dizem os Santos Padres: José pensou em abandonar Maria porque, julgando-se indigno e pecador, pensava não mais lhe ser permitido habitar com a Esposa, cuja dignidade suma compreendia. Via os indícios da presença divina no seio de Maria, e, não podendo penetrar o Mistério, pensava em afastar-se. Será para admirar-se que José se tenha julgado indigno do consórcio com a Virgem bendita, a quem o Espírito Santo tornara fecunda, se também Isabel exclamara com grande reverência: E como mereci que venha a mim a Mãe do meu Deus?

É pois opinião dos Santos Padres que José devia raciocinar assim: E quem sou eu, para ousar deter, junto de mim, como esposa, a Mãe de meu Deus? Onde os meus méritos para habitar com tão santa criatura? Ai de mim! Se Oza foi punido com a morte por haver tocado a Arca do Antigo Testamento, que me aconteceria, se por uma só vez faltasse com o respeito a esta Arca Vivente da Nova Aliança, na qual se encerra o maná do Céu e que contém, não só a Lei, mas o próprio Legislador?

Por causa deste santo temor, desta santa reverência, e não por outro motivo, queria José afastar-se de sua Esposa.

Mas diz ainda São Bernardo: “Por que queria abandoná-La secreta e não abertamente? Para que não se investigasse a causa do abandono, para que não se lhe exigisse a razão. Que responderia àquele povo de dura cerviz, incrédulo e sempre pronto a contradizer? Se tivesse manifestado o que pensava, os argumentos em favor de sua inocência, não teriam talvez os incrédulos e pérfidos judeus escarnecido dele e apedrejado a esposa? Como acreditariam no Filho de Deus oculto no seio de Maria se depois O desprezaram quando pregava no Templo? Que não teriam feito com Ele, ainda não visível, se mais tarde não recearam matá-Lo impiamente quando poderoso por seus milagres? Por estes motivos, portanto, como homem justo, para não ser constrangido a mentir ou a difamar sua Esposa ilibada, pensou em abandoná-La secretamente”.1

O Santo passara cerca de dois meses nessa grande aflição quando, não conseguindo mais suportar tanta dor, numa tarde, preparou tudo quanto lhe podia ser necessário e determinou partir naquela mesma noite.

Todavia, antes de chegar ao grande passo, como é próprio de todas as almas justas e tementes a Deus, prostrou-se com a mais profunda humildade e confiança diante do Senhor, suplicando que lhe desse luz e conforto em determinação tão importante e dolorosíssima para o seu coração.

Sua Esposa, a quem Deus manifestara tudo quanto São José se dispunha a fazer, considerava-o de seu quarto, e cheia de compaixão, orava por ele. Deus, tendo permitido que a pena interior de José chegasse ao extremo, a uma espécie de martírio, não só para a aquisição de grandes méritos, mas também para que surgisse mais admirável o benefício da divina revelação que estava para receber, não tardou em conceder-lhe benigno socorro.

José erguera-se da fervorosa oração opresso pela dor e melancolia, e estava, mais do que nunca, decidido a levantar-se pela meia-noite para fugir sem que sua Esposa o notasse. Maria, no entanto, pedia a Deus o remédio, que solicitava com fervorosas orações, e se consolava com o pensamento de que, tendo chegado ao mais alto grau as penas de seu Esposo, a divina Misericórdia não mais tardaria a consolar um coração tão aflito.

De fato, seus santos desejos foram em breve satisfeitos. O Altíssimo enviou um Anjo para revelar a São José, enquanto dormia ainda, o grande Mistério que se realizava em sua Virgem Esposa.

E diz então São Bernardo: “A verdadeira virtude não costuma aparecer na prosperidade, antes sobressai nas adversidades, às quais se seguem depois as consolações”. Assim aconteceu com São José, pois acrescenta São João Crisóstomo: “Deus mistura aos acontecimentos tristes os alegres, e assim faz com todos os Santos, pois não permite que tenham contínuas tribulações nem contínua alegria, mas lhes entretece a vida, ora com adversidades, ora com prosperidades”.

E eis o que aconteceu a São José durante o sono. Enquanto pensava consigo nessas coisas, apareceu-lhe o Anjo do Senhor e lhe disse: José, filho de Davi, não temas conservar Maria como tua esposa, porque o Filho que terá foi concebido por obra do Espírito Santo. Dará à luz um Filho e Lhe porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo.2

Tudo isso, diz o Santo Evangelho, aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor predissera pelo profeta Isaías: “Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho. Será chamado Emanuel, que significa: Deus conosco”. Após tal visão, São José despertou do sono e, fazendo como lhe dissera o Anjo do Senhor, conservou consigo a sua Esposa.

Diz a Venerável Ágreda: “São José, informado do Mistério, revelado pelo Anjo, isto é, de que sua Esposa se tornara Mãe de Deus, entre o júbilo de sua inesperada sorte e o novo pesar que o assaltou por tudo quanto pensara e fizera até então, prostrou-se imediatamente por terra e, com humilde temor e inconcebível alegria, fez atos heroicos de humildade e de ação de graças a Deus pelo grande Mistério e por havê-lo escolhido para Esposo de tão excelsa Virgem.

Em virtude de tal acontecimento e dos atos de virtude por ele praticados na dolorosa prova, seu espírito permaneceu sereno e disposto a receber novos dons do Espírito Santo. Suas dúvidas e perturbações passadas nele estabeleceram os fundamentos de uma profunda humildade. A lembrança de quanto lhe acontecera serviu-lhe de ótima instrução para toda a vida”.

Portanto, eis banido em um instante o temor e toda dúvida do humilde esposo de Maria. O Anjo do Senhor que, segundo Santo Tomás, foi o mesmo Arcanjo Gabriel, assegura-o da realidade de quanto havia imaginado, isto é, de que Maria era a Virgem predita pelos Profetas, que desde toda a eternidade fora escolhida, pelo Senhor, para Mãe do Verbo Encarnado. Ao mesmo tempo, tranquiliza-o também, dizendo-lhe: Não temas receber Maria como tua esposa, pois, embora o seu verdadeiro Esposo seja o Espírito Santo, por obra do qual Ela concebeu, todavia foste escolhido por Ele mesmo para fazer-Lhe as vezes, como esposo terrestre de Maria, custódio de sua virgindade. Pai putativo e nutrício do Filho que Ela dará à luz, ao qual porás o nome que Lhe foi destinado: Jesus, que significava Senhor dos homens, para salvá-los de seus pecados.

São Fulgêncio assim traduz as palavras do Anjo: “José, Maria é tua legítima esposa; o Espírito Santo que te A concede, n’Ela operou o Mistério que te enche de santo terror. Mas esse Espírito de Amor não quer romper a santa união por Ele mesmo decretada. Embora haja tornado infinitamente mais precioso o tesouro a ti concedido, não quer todavia privar-te da felicidade de possuí-La. Deus, escolhendo Maria para sua Mãe, não pretende em absoluto que Ela deixe de ser tua esposa, antes A confia à tua piedade, a fim de proteger-Lhe a honra e sustentar-Lhe o divino Filho”.

Escreveu o Pe. La Broise: “Ninguém despertou do sono, mais alegre que São José, e nenhum encontro foi mais doce que o de São José e Maria na manhã daquele dia. O segredo os isolara, por um instante; agora, comunicado a ambos, renovava e multiplicava toda a felicidade de sua união e intimidade. José repetia a Maria as palavras do Arcanjo, Maria narrava a José o acontecimento da Anunciação”.

Como terão agradecido a Deus de todo coração aqueles dois bem-aventurados esposos, por havê-Los unido para tão elevado fim, por havê-Los provado para depois consolá-Los tanto. Sem a prova superada, nem José teria conhecido a virtude heroica de Maria, nem poderia Esta ter apreciado suficientemente o coração nobre e delicado de José.

Jesus seria doravante o objeto único dos pensamentos, das conversações e da expectativa dos dois esposos. Com que reverência ter-se-ão prostrado para adorá-Lo, embora ainda oculto; com ardentes suspiros terão desejado vê-Lo, estreitá-Lo ao coração e beijá-Lo!

Os santos esposos terão certamente exclamado com o profeta Isaías: “Abri-vos, ó Céus, e as nuvens façam chover o Justo por excelência; abra-se a terra e deixe aparecer o seu Salvador! Vem, ó Senhor, não tardes mais, vem destruir os pecados do teu povo. Alegra-te, ó Filha de Sião, e exulta, Filha de Jerusalém: eis que está para vir o teu Senhor e grande luz descerá sobre ti naquele dia. Eis que está para vir o grande Profeta que renovará a face de Jerusalém! Naquele dia os montes serão inundados de doçura e os vales destilarão leite e mel. Vem, ó Senhor dos Exércitos, vem e liberta-nos! Mostra-nos a tua divina face e seremos salvos.

Ó Jerusalém, ergue os teus olhos e vê o poder do teu Rei: eis que vem o Salvador para desatar as cadeias de tua escravidão. Não temas, ó Sião, eis que vem a ti o teu Deus. Sobre ti, Jerusalém, aparecerá o Senhor, e a sua glória manifestar-se-á em teu recinto. Sião, serás renovada quando vires o Justo penetrar em ti. Confortai-vos, ó pusilânimes; eis que o Senhor e Deus nosso está próximo. Jerusalém, goza, exulta com grande júbilo, porque a ti virá o teu Salvador!

Ó Senhor, inclina benigno teu ouvido às nossas súplicas e apressa-te a iluminar as nossas trevas com os esplendores de tua vinda! Ó Sabedoria, que procede da boca do Altíssimo, que abrange o universo de um a outro extremo, que tudo dispõe com força e suavidade, vem, vem depressa para ensinar-nos os caminhos da prudência! Ó Adonai, condutor da estirpe de Israel, que apareceste a Moisés na sarça ardente e no Sinai lhe deste a lei, vem agora remir-nos com teu braço poderoso! Ó raiz de Jessé, que és como sinal de salvação diante dos povos, vem libertar-nos e não tardes mais.

Ó chave de Davi e cetro da casa de Israel, que abre e ninguém pode fechar, que fecha e ninguém pode abrir, vem e liberta o teu povo escravo, sentado em um cárcere tenebroso e nas sombras da morte! Ó Oriente, esplendor da luz eterna e sol de justiça, vem iluminar os teus filhos envoltos nas trevas e na obscuridade do pecado! Ó Rei das nações, por elas tão desejado, pedra angular, vem e salva o homem que tiraste do barro! Ó Emanuel, Rei e Legislador nosso, esperança e Salvador das gentes, vem salvar-nos, Deus e Senhor Nosso! Vem, para que possamos conhecer a tua vida na terra e possamos ver depressa a salvação de todas as nações! Apressa-te, ó Senhor, e não tardes a fazer-te visível aos teus servos.

A ti, Senhor, erguemos os nossos olhos, ó vem libertar-nos, que a Ti recorremos. Teremos os olhos sempre fixos em Ti, Senhor Nosso, e suspiraremos por tua vinda, Deus e Salvador nosso. Eis que já estão para cumprir-se todas as coisas preditas pelo Anjo, vem pois, ó desejado de nossos corações! Toca as trombetas, ó Sião, e alegra-te, porque está próximo o dia do Senhor: eis que Ele vem salvar-nos a todos”.

Nesses e em semelhantes afetos terão prorrompido solicitamente aqueles dois Corações tão caros a Deus, os quais, cheios de amor de Deus e do próximo, suspiravam ardentemente pela vinda do Salvador, não só para si mesmos, mas para a salvação de todos os homens.

Os Evangelistas não mencionaram estes grandes Mistérios, nem muitos outros sucedidos à Virgem Santíssima e ao santo Esposo, porque, entre outras razões, não era conveniente por causa dos pagãos que chegavam ao Cristianismo nos primeiros tempos. A Divina Providência manteve ocultas essas coisas, para manifestá-las depois em tempos mais oportunos.

Diz a Venerável Ágreda: “São José antes de lhe ser revelado o Mistério da Encarnação, visitava raramente a sua Santíssima Esposa. Trabalhava na oficina e Maria em seu quartinho; só se reuniam para a refeição. Era tal a prudência daquelas duas santas almas que, embora confirmados em graça, por humildade julgavam de seu dever premunir-se contra os perigos que a castidade costuma encontrar em semelhantes circunstâncias.

Entretanto, a revelação do Mistério divino operou grande transformação a tal respeito. Como poderia José possuir tão próximo o Verbo Encarnado e sua divina Mãe, e não desejar sua amável presença? Tomou, portanto, o hábito de entrar frequentemente naquele céu terrestre, demorando-se ali com profunda humildade e veneração”.

Certa vez, disse a Bem-aventurada Virgem a Santa Brígida: “Asseguro-te que, antes de nossas núpcias, José, iluminado pelo Espírito Santo, soube que eu me havia consagrado a Deus pelo voto de virgindade e era pura nos pensamentos, palavras e ações. Ele me desposou somente para servir-me e considerar-me soberana. Por meu lado, vi depois, com luz divina, que, embora por disposição da Providência tivesse de aceitar um Esposo, a minha virgindade permaneceria no entanto sem mácula”.

São José, como diz Santo Agostinho, não perdeu jamais a inocência, nunca pecou, nem mortal nem venialmente. Deus extinguiu nele o estímulo da concupiscência, razão pela qual podia conversar familiar e tranquilamente com a Santíssima Virgem, sem perigo algum de incontinência.

Além disso, foi singelíssimo na obediência, grande na fé, firme na esperança, ardente na caridade. Foi de rara simplicidade e sinceridade, de singular prudência, de maravilhosa fortaleza e constância, de incrível paciência, de solícita vigilância e de exatíssimo silêncio.

Os dois santos Esposos viviam sós, sem pessoa alguma para servi-los, e agiam assim por sua profundíssima humildade e também para não manifestar as celestes maravilhas com que o Senhor os favorecia.


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Fonte: Rev. Pe. Tarcísio M. Ravina, “São José – Na Vida de Jesus Cristo, Na Vida da Igreja, No Antigo Testamento, No Ensino dos Papas, Na Devoção dos Fiéis, Nas Manifestações Milagrosas”, 1ª Parte, Cap. “O Mistério da Encarnação Revelado a São José”, pp. 40-51; Edições Paulinas, Recife/PE, 1954.

1.  S. Bernardo, Hom. II sup. Missus est.

2.  Para melhor esclarecer o sentido das palavras do Anjo, é útil recordar aqui outro uso dos hebreus. Costumavam passar os primeiros tempos do Matrimônio sob a tutela e na própria casa dos parentes próximos da esposa, antes de estabelecerem sua casa. Esta espécie de emancipação, fazia-se com uma festa de família, na qual, em presença dos parentes, confirmavam-se os compromissos nupciais: o marido era reconhecido como chefe da nova família e constituído senhor dos bens pertencentes à sua esposa. No dia determinado, todos os parentes reuniam-se na casa da esposa: o marido apresentava-se envolvido em um amplo manto e a esposa toda coberta por seu véu, e sentavam-se um ao lado do outro sob uma espécie de pavilhão. Então o marido, colocando o anel no dedo da esposa, que lhe dera no dia das núpcias, dizia: “Esta é a minha esposa segundo o rito de Moisés e de Israel”. Depois, erguendo seu manto, recobria a esposa em sinal de predomínio e proteção. Um dos parentes próximos servia o vinho e o oferecia aos esposos e aos presentes, bendizendo a Deus por haver criado o homem e a mulher e por havê-los unido pelo vínculo conjugal. Depois, lançava-se ao ar um punhado de trigo, símbolo de fecundidade, e um menino quebrava uma taça para indicar que cada alegria da vida humana é frágil e transitória. Parece muito verossímil pensar que São José tenha hesitado em cumprir este ato de predomínio sobre Aquela que considerara e respeitara como coisa mais de Deus que sua. Na dúvida, quanto ao grande Mistério da Encarnação que o Espírito Santo operara em Maria, o humilde São José estremeceu de santo terror, não ousando declarar-se publicamente pai de uma prole divina. Por isso, foi necessário que o Anjo, em nome de Deus, o tranquilizasse com as palavras: José, não temas receber contigo Maria, tua esposa. Assim, São José tornou-se Esposo e Pai pelo coração, diz Bossuet. Os homens adotam os filhos: Deus adotou um Pai. Ninguém foi pai como ele, exclama Tertuliano, e, ao assumir o título e os encargos de tão excelsa paternidade, Deus lhe deu a autoridade, o afeto e as graças convenientes ao chefe de família tão santa. Deu-lhe o afeto, para que, amando a Jesus e Maria sobre todas as coisas, Os servisse e auxiliasse com extremosa solicitude; deu-lhe a graça de guardar fielmente os tesouros que o Céu lhe confiara; representante do Pai Celeste junto à Maria e ao Filho Divino.


terça-feira, 27 de julho de 2021

DO CONHECIMENTO PRÓPRIO.


1. Não podemos ter muita confiança em nós mesmos, porque muitas vezes nos faltam a graça e o discernimento.

Pouca luz há em nós, e essa bem depressa, por negligência nossa a perdemos.

Frequentemente não advertimos, como é grande a nossa cegueira interior.

Muitas vezes são más as nossas ações e piores as nossas desculpas.

Move-nos não raro a paixão, e cuidamos que é zelo.

Censuramos nos outros pequenas faltas e desculpamos as nossas, mais graves.

Bem depressa sentimos e ponderamos o que dos outros sofremos, mas não advertimos no que de nós sofrem os outros.

Quem sinceramente examinasse as próprias ações, não julgaria com severidade as alheias.

2. O homem interior antepõe o cuidado de sua alma, a todos os demais cuidados; e quem olha para si com diligência, abstém-se facilmente de falar dos outros.

Nunca serás homem interior e devoto, se não guardares silêncio das coisas alheias e não te ocupares especialmente de ti.

Se voltares toda a tua atenção para ti e para Deus, pouco te impressionará o que perceberes em teu redor.

Onde estás quando não estás presente a ti mesmo? De que te aproveita haver percorrido tudo, se te descuidaste de ti?

Se queres ter paz e verdadeira união com Deus, despreza tudo o mais, a fim de só olhares para a tua alma.

3. Muito progresso farás, se te desembaraçares dos negócios temporais; muito afrouxarás, pelo contrário, se lhes deres importância.

Aos teus olhos nada avulte como grande ou elevado, agradável ou aceito, senão Deus somente ou o que de Deus vem.

Tem por vã toda consolação, que te vier das criaturas. A alma que ama a Deus, despreza tudo o que está abaixo de Deus.

Só Deus, eterno e imenso, que tudo enche, é consolação da alma e verdadeira alegria do coração.1


1ª Reflexão2


Tão fracos somos, que muitas vezes corremos grave risco de confundir o bem com o mal e tomar como virtude o que realmente é vício. Nunca nos desembaraçamos bastante das insinuações do amor-próprio, para julgarmos com inteira imparcialidade os nossos defeitos; inventamos pretextos para passarmos por inocentes aos olhos da nossa consciência e nenhum escrúpulo temos em censurar com rigor as ações e até as intenções dos nossos irmãos. Trazemos os olhos no que os outros fazem, aplicamos os ouvidos ao que dizem, e somos cegos e surdos a respeito do que se passa em nós, como se nenhuma responsabilidade tivéssemos da nossa vida. Queremos que os outros sofram os nossos defeitos e não desculpamos os deles. Se um nosso amigo ou conhecido está atribulado, damos-lhe conselhos acertados, que não tomamos para nós em igualdade de circunstâncias. Muito pouco sabemos do que mais nos interessa, porque não penetramos a fundo no conhecimento das nossas fraquezas.

Quantas pessoas há que, parecendo empenhadas em passar por piedosas, nada mais fazem que desacreditar a piedade? São um princípio de discórdia no seio da família, gastam em devoções vãs o tempo que deviam empregar no cumprimento das suas obrigações. Por isso mesmo, a sua ação é estéril: nem edificam com o seu exemplo, nem corrigem com as suas palavras. O remédio para este grande mal está na consideração atenta dos próprios defeitos.

Como o cego de Jericó, clamarei: “Senhor, que eu veja: filho de Davi, tende compaixão de mim”. É verdade, meu Deus, que não mereço a vossa compaixão, porque muitas e muitas vezes me tenho tornado réu da vossa justiça, transgredindo os vossos Preceitos; mas, agora estou arrependido do passado e disposto a seguir as vossas inspirações do futuro.


2ª Reflexão3


Ainda que soubesses o que há de bom e mau em cada homem, sem excetuar um só, de que serviria isto, se não te conhecesses a ti mesmo?

Ninguém te pedirá conta no dia do Juízo, da consciência dos outros, senão da tua. Deixa pois um cuidado, cujo princípio é a soberba e a malignidade, e ocupa-te de outro mais agradável a Deus e mais útil para ti: conhecer-te a ti mesmo.

Esta é a verdadeira e maior ciência do cristão: este deve ser nosso estudo de todos os instantes.

Quem melhor se conhece, mais se despreza: aflige-se de ver a chaga de seu coração, de sentir o amor-próprio que o domina, de sofrer secretos apetites que o atormentam, e neste aperto exclama com o Apóstolo: “Quem me livrará deste corpo de morte!”4

Feliz, venturoso livramento! Mas, que acharemos nós depois, se formos fiéis? A Deus, unicamente a Deus, e n’Ele, todas as coisas, toda a consolação, todo o bem. Ó minha alma, se disto não duvidas, começa desde já a desembaraçar-te do peso que te oprime, a desapegar-te da terra e de seus bens, das criaturas e de seus encantos, dize adeus ao mundo, e vive só para Jesus Cristo.


3ª Reflexão5


Os que têm bastante cuidado de sua consciência, não estão muito sujeitos ao juízo temerário. Pois, como as abelhas, vendo nevoeiros ou tempo confuso, recolhem-se em seus cortiços para resguardarem o mel, assim os pensamentos das boas almas, não saem a pousar sobre objetos emaranhados, nem entre as ações nebulosas dos próximos; mas para evitarem encontrá-las, recolhem-se dentro de seu coração, para nele guardarem, bem guardadas, as resoluções de sua própria emenda.

É costume de uma alma inútil, divertir-se no exame da vida alheia. Excetos aqueles que respondem por outros, tanto na família como na sociedade; pois, uma boa parte de sua consciência consiste em olhar e vigiar a dos outros. Façam pois com amor, seu dever e a isto se limitem nesse ponto.6


Oração


Meu Senhor, Jesus Cristo, que quisestes ser amarrado pelos malvados, quebrai as cadeias de meus pecados, e prendei-me de tal modo, pelos laços da caridade e de vossos Mandamentos, que não se extraviem as potências de minha alma e de meu corpo, para cometer coisa alguma contrária a vossa santa vontade. Amém.7


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1.  Imitação de Cristo, Livro II, Cap. V, pp. 60-61. Tradução do Pe. Leonel Franca, S.J., 4ª Edição, Livraria José Olympio editora, Rio de Janeiro/São Paulo, 1948.

2.  Imitação de Cristo, Livro II, Cap. V, pp. 93-94. Novíssima Edição, por Mons. Manuel Marinho, Editora Viúva de José Frutuoso da Fonseca, Porto, 1925.

3.  Imitação de Cristo, Presbítero J. I. Roquette, Livro II, Cap. V, pp. 109-110. Editora Aillaud & Cia., Paris/Lisboa.

4.  Rom. VII, 24.

5.  Imitação de Cristo, versão portuguesa por um Padre da Missão, Livro II, Cap. V, p. 99. Imprenta Desclée, Lefebvre y Cia., Tornai/Bélgica, 1904.

6.  São Francisco de Sales, “Introdução à Vida Devota”, IIIª Parte, Cap. XXXVIII.

7.  São Francisco de Sales, Opusc. III.


domingo, 25 de julho de 2021

JESUS OU A MENTIRA: QUAL O CAMINHO A SEGUIR?


“Manda-nos o Verbo que O amemos sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos e que testemunhemos este amor por atos, assim como Ele mesmo nos dá o exemplo. Em relação a Deus e ao próximo, devemos mostrar-nos fiéis a estes Preceitos; cada um de nós ouve este chamado. Mas quais são as almas que a ele correspondem? São aquelas que, tendo fome e sede da virtude, correm com desejos santos pelo caminho que o Cristo crucificado nos traçou. Com esta sede e estes desejos, eles se aproximam da fonte… Assim nos convida Cristo, o doce Jesus, a beber a água viva.

A outra voz que nos incita é a do Demônio… Ele traz a morte em si e eis por que nos impele a beber a água morta. Se lhe perguntares: ‘Que me darás se me entregar ao teu serviço?’, ele te responderá: ‘Far-te-ei presente do que possuo: já que vivo sem Deus, necessário te será também viver sem Ele. Estou no fogo eterno onde há choro e ranger de dentes; estou abismado nas trevas e privado de luz; perdi toda esperança e tenho por companheiros todos os condenados e supliciados. Eis o que te darei como recompensa e como consolação’…

Qual é pois o caminho que estamos convidados, consequentemente, a seguir? É a via da mentira. A mentira gera o miserável amor-próprio que te leva a amar, de forma desregrada, o fausto, a magnificência do mundo, as criaturas e a ti mesmo, sem te preocupares em perder a Deus e a beleza da tua alma. Na tua cegueira, fazes do mundo o teu Deus; como um ladrão, furtas o tempo que deverias consagrar à glória de Deus, à salvação de tua alma e ao bem dos outros, pois que o desperdiças na tua própria satisfação, concedendo a teu corpo mais bem-estar e conforto do que Deus permite… Cristo escreveu Sua doutrina no próprio Corpo; fez de Si mesmo um livro, cujas iniciais são tão grandes e rubras que o mais iletrado e menos atencioso pode, facilmente, distingui-las e compreendê-las. O Diabo coloca diante dos teus olhos o livro de teu próprio sensualismo, no qual estão escritos todos os vícios e tendências más da tua alma: a cólera, a impaciência, o orgulho, a infidelidade para com o Criador, a injustiça, a impureza, o ódio ao próximo, o gosto do pecado e o descaso pela virtude, o grosseirismo, a calúnia, a preguiça, a negligência. Se a vontade se detém neste livro, dele se impregnando e pondo em prática suas lições, segue, como um ímpio, a trilha da mentira, indicada pelo Demônio, e bebe a água morta, para seu castigo e condenação eterna”.1

Eis aqui a mensagem que Catarina devia transmitir ao mundo político como ao mundo religioso. Existem dois reinos: – de um lado, o egoísmo, o mundo, o pecado, as trevas, a morte, o Inferno; – do outro lado, o amor, a renúncia, o cumprimento do dever, a luz, a vida, o Céu. A porta de entrada para o reino da morte é o eu, Ego; a porta do reino de Deus é o Verbo, Jesus. Aquele que vive no seu eu apega-se àquilo que passa e perecerá; – aquele que se fixa em Jesus, fixa-se no imperecível e será salvo.

Esta doutrina parecia tão eminentemente verdadeira a Catarina que ela não podia deixar de pregá-la em todas as ocasiões, aos grandes e aos pequenos, “oportuna e inoportunamente” como diz o Apóstolo. “Esta mulher”, escreveu o bom tabelião Cristófano Guidini maravilhado, “pouco se preocupava em saber se o que ela dizia agradável ou não”.2 Para ela, a política, assim como todas as outras obras humanas, constituía capítulos de moral e o homem de Estado devia ser, como todos os outros homens, um imitador de Cristo. Imiscuía-se entre as repúblicas beligerantes, penetrava na Igreja corrompida, admoestando os homens a deporem as armas a fim de se darem o ósculo da paz, exortando-os a que passassem do nepotismo e da simonia à retidão e probidade, do temor dos homens ao temor de Deus, do próprio Eu a Jesus.


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Fonte: Johannes Joergensen, “Santa Catarina de Sena”, Livro Segundo, Cap. IX, pp. 142-143. 2ª Edição, Editora Vozes Ltda, Petrópolis/RJ, 1953.

1.  Carta 318.

2.  “Costei, per l’onore di Dio, non curava dispiacere o di piacere”. (Arch. Stor. Ital. IV, p. 36).


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