BLOG CATÓLICO PARA OS CATÓLICOS.

BLOG CATÓLICO, PARA OS CATÓLICOS.

"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

A EPIFANIA DO SENHOR, OU, A FESTA DOS REIS.

(A Igreja Celebra a 6 de Janeiro)


A Epifania, que significa: aparição ou manifestação do Salvador ao mundo, foi sempre considerada como uma das festas mais célebres e mais solenes da Igreja, já por causa dos três Mistérios que estão compreendidos nesta solenidade, já porque se considera como festa peculiar da vocação dos gentios à fé. Celebrava-se no Oriente já no século III, e penetrou no Ocidente pelos fins do século IV.

Três Mistérios celebra a Igreja nesta única festividade por ser tradição antiquíssima, que sucederam no mesmo dia, ainda que não no mesmo ano: a Adoração dos Reis; o Batismo de Jesus, por São João; e o primeiro milagre, que o Salvador fez nas bodas de Caná da Galileia. Esta palavra grega Epifania, cujo significado é aparição ou manifestação, convém perfeitamente a todos estes três Mistérios.

Manifestou-se Jesus Cristo aos Magos, os quais, seguindo a estrela miraculosa, O vieram reconhecer por seu Rei, por seu Deus, por seu Salvador, e Rei, Deus e Salvador de todo o gênero humano; manifestou-se a sua Divindade no Batismo, por meio daquela voz do Céu, que a declarou; manifestou-se a sua Onipotência no primeiro milagre que fez. Por terem sido estes os principais meios de que Deus se serviu para manifestar na terra a glória de seu Filho, a Santa Igreja reúne-os todos três sob o nome de Epifania, embora seja a Adoração dos Reis o principal objeto do Ofício, da Missa e da Solenidade deste dia.

É muito provável, que ao mesmo tempo que os Anjos anunciavam aos pastores o Nascimento do Messias na Judeia, a nova estrela O anunciasse também no Oriente.

Esta estrela foi sem dúvida observada por muitos, porque o seu extraordinário resplendor e a irregularidade do seu curso a faziam distinguir entre todas as outras; porém, somente os Magos, esclarecidos por uma luz interior, conheceram o que significava aquele fenômeno, e nem um momento hesitaram em ir procurar Aquele que a estrela anunciava.

Os orientais chamavam Magos aos seus “doutores”, como os hebreus lhes chamavam “Escribas”, os egípcios “profetas”, os gregos “filósofos”, e os latinos “sábios”. A palavra Mago na língua persa também significa “sacerdote”.

Em todas estas partes eram sumamente respeitados pelo povo, que os tinha por depositários da ciência e da religião.

A Igreja dá o nome de Reis a esses três homens ilustres, fundada nas seguintes palavras de Davi: “Os reis de Tarsis e das ilhas, lhe oferecerão presentes; os reis da Arábia e de Sabá lhe trarão dons”,1 como penhor da sua veneração, fidelidade e obediência. Funda-se além disso numa tradição antiga, a que não se pode marcar época.

Pinturas antiquíssimas deste Mistério representam-nos pessoas coroadas, com todas as insígnias da dignidade real. Acrescente-se a isto os testemunhos dos Padres mais célebres da Igreja, como Tertuliano, São Cipriano, Santo Hilário, São Basílio, São João Crisóstomo, Santo Isidoro, São Bêda, Teofilato e muitos outros.

Além disso, as nações orientais, quando os reis eram eletivos, escolhiam-nos entre os filósofos, e se eram hereditários, procuravam instruir os príncipes nas ciências, de sorte que pudessem merecer o título de sábios. Assim o observa Platão, quando trata da educação dos príncipes da Pérsia, acrescentando que principalmente a astronomia era considerada como uma ciência digna dos soberanos.

Tendo os três, que alguns chamam Gaspar, Baltasar e Melchior, observado uma estrela mais brilhante que as ordinárias, julgaram que era aquela a estrela de Jacó, anunciada pelo profeta Balaão, cujas predições conheciam bem, como sinal de um rei que havia de nascer para a salvação dos homens.

Esclarecidos ao mesmo tempo por uma luz interior, pela qual conheceram que aquele astro havia de servir-lhes de guia para encontrar o Messias, tomaram o caminho da Judeia, onde sabiam que nasceria Aquele Rei tão desejado de todas as nações. O Evangelista diz-nos só que eles vieram doo Oriente, isto é, de um país que era oriental com relação a Jerusalém e a Belém. A opinião mais verossímil, é que vieram da Arábia-Feliz, habitada pelos filhos que Abraão teve de Cetura, sua segunda mulher, a saber: Jecsan, pai de Sabá, e Madian, pai de Efa.

Isto prognosticou Davi claramente quando disse: “Que o Messias seria adorado pelos reis dos Árabes, e de Sabá, os quais lhe ofereceriam ouro da Arábia”.

Isto mesmo tinha anunciado o profeta Isaías, dizendo: “Uma inundação de camelos te cobrirá, de dromedários de Madian e de Efa; todos virão de Sabá, trazendo ouro e incenso, e anunciando o louvor ao Senhor”.2

Não favorecem pouco esta opinião os presentes que os três monarcas ofereceram a Jesus, porque o ouro, o incenso e a mirra nascem principalmente na Arábia.

Foram guiados os Magos pela estrela durante toda a viagem. Ser-via-lhes de guia este novo astro, como outrora a Coluna de Fogo ia conduzindo os Israelitas pelo deserto, quando saíram da escravidão do Egito para a terra da promissão; mas quando os três reis se aproximaram de Jerusalém, a estrela desapareceu. Por essa razão entraram naquela cidade, para se informarem do lugar onde havia nascido o novo Rei que eles vinham adorar, e cuja estrela tinham visto. Grande espanto causou ver aqueles homens, vindos de país tão distante, perguntarem por um novo Rei dos Judeus, a quem os próprios judeus não conheciam, e cujo nascimento ignoravam inteiramente. Quem mais se assustou foi o rei Herodes, que quis vê-los, para se informar minuciosamente do motivo que ali os trazia.

Cioso da sua dignidade, e temendo perder a coroa, que indignamente possuía, mandou logo que comparecessem no palácio todos os sacerdotes e escribas da lei, isto é, aqueles que tinham obrigação de explicar ao povo as Escrituras, zelando a sua interpretação e vigiando para que não se introduzisse algum erro contrário ao seu verdadeiro sentido.

Bem conhecia ele que um rei, cujo nascimento o Céu anunciava com sinais tão extraordinários, não podia ser outro senão o Messias; e por isso, reunida a assembleia dos doutores, limitou-se a dirigir-lhes estas palavras: Dizei-me: onde há de nascer o Salvador? Todos, a um voz, responderam que em Belém, pequena cidade da tribo de Judá, segundo a profecia de Miqueias, quando assegura que a desconhecida povoação de Belém, não obstante a sua pequenez, teria a glória, de que foram privadas as cidades mais ilustres, de dar um Príncipe e um Governador geral a todo o povo de Israel. Não foi necessário mais nada para encher de perturbação o ânimo e o coração daquele ambiciosíssimo príncipe, cuja crueldade era igual à imensa ambição de que estava possuído.

Desde logo resolveu mandar matar Aquele Menino, e, chamando os Magos à parte, fez-lhes muitas perguntas capciosas. Rogou-lhes principalmente que o informassem com toda a exatidão do tempo em que lhes aparecera a estrela; e, reconhecendo neles muita piedade, e exortou-os a que prosseguissem na sua viagem.

Ide, lhes disse, ide a Belém, pois é lá que há de nascer o Rei prometido, o Libertador do seu povo; informai-vos de tudo o que respeita a esse Menino, e voltai à minha corte, onde vos fico esperando com impaciência, para que me participeis o que tiverdes observado; porque eu também quero ir adorar esse Divino Monarca”. Deste modo pretendia Herodes enganá-los artificiosamente, para os fazer cair no laço que lhes estava armando.

Logo que os Magos se despediram dele e retomaram o caminho, o Senhor lhes tornou a enviar o seu resplandecente guia. A estrela que tinha desaparecido, logo que entraram em Jerusalém, apareceu de novo, logo que saíram, e conduziu-os diretamente a Belém.

Não é fácil imaginar o gozo que inundou os corações dos Magos, quando viram de novo aquele astro, e sobretudo quando o viram deter-se sobre o humilde presépio onde estava o novo Rei. Entraram, e depararam com O que buscavam. Estava o Menino nos braços de Sua Mãe, e nenhum sinal exterior O diferenciava dos outros meninos. Contudo, a mesma luz interior, que lhes deu a entender o que significava a estrela, fez com que facilmente descobrissem através daquele exterior humilde, a Augusta Majestade e a Suprema dignidade d’Aquele Deus feito homem.

Cheios de fé e respeito, prostraram-se na Sua Presença e O adoraram como Senhor Soberano do Céu e da terra, e como Salvador dos homens, e, visto que era costume do seu país, não se apresentarem nunca diante dos grandes, com as mãos vazias, ofereceram-Lhe o que lá havia de mais precioso: ouro, incenso e mirra. Então se cumpriu à letra o que Davi predissera do Messias, quando disse: “Os reis da Arábia e de Sabá lhe trarão presentes”.

Tencionavam os Santos Reis voltar por Jerusalém, mas apareceu-lhes em sonhos um Anjo do Senhor, aconselhando-os a que seguissem outro caminho, e não retornassem a Herodes, cujos maus desígnios descobriram então.

Coisa estranha! Que os estrangeiros venham de países tão remotos adorar o Salvador do mundo, e que O não conheçam os judeus, no meio dos quais acaba de nascer! Poderiam ter eles indícios mais claros da Sua vinda? Mas de que serve a luz aos que são voluntariamente cegos? Quem terá a culpa, de que Herodes não lograsse a mesma dita que os Magos? Envia-lhe Deus três Príncipes estrangeiros para que lhe anunciassem o Nascimento do Salvador do mundo na Judeia; os seus próprios doutores instruem-no com toda a clareza sobre o lugar onde o Messias nasceu.

E que efeito produzem todas estas instruções, todas estas graças, num coração ambicioso, irreligioso, ímpio? A perturbação, a velhacaria e a crueldade. Um coração puro, um coração religioso, mal vê a estrela, põe-se logo a caminho para adorar O que ela anuncia. Uma alma toda mundana, um hipócrita, faz servir a religião à sua ambição, à sua avareza insaciável.

Como é bem verdade que sempre se encontra a Deus, quando de boa fé se procura! Se não houver estrela, nem por isso faltará guia; tudo depende da retidão das nossas intenções, e da sinceridade do coração. Só a nossa malícia é que apaga ou inutiliza a luz da graça. Inutilmente brilhará, se voluntariamente fechamos os olhos. O lugar do prazer nunca o foi da virtude. Apenas os Magos se retiraram da corte do ímpio Herodes, viram reaparecer a estrela que se lhes ocultara. A volta da graça sensível não é demorada por muito tempo, mas é preciso que não desanimemos, é preciso avançar sempre e perseverar até ao fim, imitando deste modo os Magos.

Nunca, porém, apareçamos diante de Deus com as mãos vazias. A caridade, a mortificação, a piedade, são oferendas muito do Seu agrado; um coração contrito e humilhado é sempre bem recebido.

Segundo a opinião mais comum entre os Santos Padres, os Magos chegaram a Belém treze dias depois do Nascimento do Salvador. Era tempo suficiente para virem da Arábia.

Quase todos os Padres dos primeiros séculos, são de opinião que a estrela era um astro novo, cujo resplendor, como diz Santo Inácio Mártir, excedia o de todos os outros, o qual Deus tinha criado para anunciar aos homens o Nascimento do Rei dos Céus. Finalmente, é tradição constante, que estes primeiros gentios que vieram adorar O verdadeiro Deus, eram verdadeiramente reis, isto é, príncipes soberanos de uma ou de muitas cidades, como eram os da Pentápolis.

Os mais célebres Padres da Igreja são de opinião, que o Batismo do Filho de Deus, o milagre da conversão da água em vinho, e a Adoração dos Magos, tiveram lugar no mesmo dia, posto que em anos diferentes. Por esta razão a Igreja reúne estes três Mistérios numa só festa, como uma tríplice Epifania ou Manifestação, celebrando: o dia em que Jesus Cristo se manifestou aos Magos por intermédio de uma estrela; o dia em que se manifestou a São João, pelo testemunho do Seu Eterno Pai; e o dia em que se manifestou aos Discípulos por meio do seu primeiro milagre.

Tão célebre tem sido, desde os primeiros séculos da Igreja, esta tríplice festa, que, achando-se Juliano, que depois foi cognominado o Apóstata, em Viena de França, no ano de 361, não se atreveu a deixar de assistir aos divinos ofícios deste dia; o Imperador Valente, ainda que Ariano, estando em Cesaréia de Capadócia no dia da Epifania, julgou-se obrigado a assistir à Missa, juntamente, com os fiéis, persuadido de que, se o não fizesse, o teriam por ímpio.

Discorramos agora somente sobre o primeiro destes Mistérios, deixando para os dias seguintes o falar dos dois restantes.

Pelo que diz respeito aos três Reis que tiveram a felicidade de vir adorar o Salvador do mundo, observaremos que é fácil compreender a abundância de graças e dons sobrenaturais, de que foram cumulados, assim como a viva fé, a ardente caridade, o zelo puro e generoso com que regressaram as suas casas, onde morreram santamente, depois de terem anunciado as maravilhas de que haviam sido testemunhas.

É por certo, que uma graça e vocação tão singulares, uma fidelidade tão generosa e tão exata, não podiam deixar de conseguir semelhante sorte. Assim o crê a Santa Igreja, permitindo o culto que publicamente se lhes presta.

Assegura-se, que as relíquias desses primeiros heróis do Cristianismo foram transportadas da Pérsia para a Igreja de Santa Sofia de Constantinopla.

Mais tarde foram transportadas para Milão, onde estiveram, segundo Galesino, 670 anos.

Finalmente, em 1163, Frederico Barbaroxa transladou-as para a Catedral de Colônia, onde se conservam ainda hoje com singular veneração. O relicário que encerra estes santos corpos é talvez o mais belo que há no mundo.

No dia da Epifania, em Roma, a multidão vai à igreja de Ara coeli, para celebrar esta festa que fecha o ciclo das festas do Natal. Sai uma procissão da igreja, que para sobre a escadaria, donde se domina a cidade de Roma. O celebrante sobe a um estrado e, em frente do Vaticano, cuja alta silhueta se vê ao poente, faz uma cruz sobre a cidade de Roma, com o “Menino” miraculoso, cuja graciosa imagem foi solenemente coroada a 2 de Maio de 1897.

Este Santo Menino, é feito de pau de oliveira e remonta ao ano de 1647. Foi esculpido em Jerusalém por um humilde frade Franciscano. Trazido depois a Roma, tornou-se objeto de muita veneração. Tem a sua carruagem, na qual é transportado a casa dos doentes, que desejam a sua visita.


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Fonte: Pe. Croiset, “Ano Cristão”, Vol. I, dia 6 de Janeiro, pp. 72-78. Traduzido do Francês e adaptado às últimas reformas litúrgicas pelo Pe. Matos Soares, professor do Seminário do Porto. Tip. “Porto Medico”, Ltda. Porto. 1923.

1.  Ps. 71, 10.

2.  Is. 60, 6.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

SOBRE O SANTÍSSIMO NOME DE JESUS.


O nome próprio do Filho de Deus, feito verdadeiramente homem; e por conseguinte, o Nome que compreende e recopila todas as suas grandezas e excelências, é JESUS, que quer dizer SALVADOR: porque o seu ofício, o seu gosto, o seu intento em descer do Céu à Terra, e o seu fim em quantas coisas realizou e padeceu, foi salvar almas.

Pondera, minha alma (assim como souberes), algumas das inumeráveis prerrogativas deste soberano Nome. Em reverência sua, diz São Paulo, que dobram os joelhos os Céus e a terra, e o mesmo Inferno. A Santo Inácio Mártir, se lhe achou escrito no coração. O mesmo Apóstolo São Paulo O tinha tão atuado, e presente no afeto e memória, que O repete em suas Epístolas 235 vezes:1 e quando foi degolado, a sua cabeça deu na terra três saltos, repetindo a cada um, o Nome de JESUS, e abrindo onde tocou, três milagrosas fontes.



Santa Gertrudes, estando no dia da Circuncisão, rezando com grande afeto umas orações em louvor do Nome de JESUS, o Senhor se inclinou a ela, e Lhe imprimiu o mesmo Nome nos lábios, dizendo: Ecce impressiori tuo nomen dulcissimum, et dignissimum, quod palam portabis coram omnibus, et quoties ad illud proferendum, labia movebis, melos suavissimum mihi resonabis.2 Eis, aqui imprimi na tua boca o Meu digníssimo e dulcíssimo Nome, que pregarás publicamente diante de todos, e cada vez que moveres os lábios para O pronunciar, será para Mim uma música suavíssima. E acrescenta a Santa, que lhe parecia ter escrito espiritualmente com letras vivas no lábio superior, JESUS; e no inferior, JUSTUS; e entendeu que, aos que desejassem ouvir este soberano Nome, ela o proporia como JESUS, isto é, SALVADOR; mas, aos outros, o proporia como JUSTO.

O soberano Nome de JESUS, pelo valor das letras Gregas, importa o número de oitocentos e oitenta e oito; no qual se escondem dois grandes Mistérios.3 O primeiro, é o da Ressurreição, simbolizada no número oitavo, como é vulgar entre os Santos Padres; e com razão se triplica este número, guardando a mesma semelhança, para significar três Ressurreições;4 a de Cristo, e a das nossas almas da morte do pecado, por virtude de Sua graça, e a que esperamos dos nossos corpos pelo exemplar da mesma Ressurreição de Cristo. O segundo Mistério, é o da firmeza imutável da vida eterna, que esperamos; porque a unidade, é ponto; o número de dois é linha; o de quatro é superfície; o de oito já é corpo cúbico perfeito, símbolo expresso da imutabilidade do estado que esperamos. E tal é a figura da Jerusalém Celestial (onde habitam os’ Santos com Jesus, amor e glória Sua eterna), segundo viu São João, que a medira um Anjo; Longitudo, et altitudo ejus aequalia sunt.5



Mas se não te deleitas, nem moves tanto, minha alma, com o espírito dos Mistérios deste soberano Nome; mova-te a contemplá-lO por aplicação dos sentidos (como ensinou Santo Inácio de Loyola), considerando que o Nome de JESUS (como lhe chamou Prudêncio), é nossa luz, nossa honra, nossa esperança, nosso socorro certo, e descanso nos trabalhos; manjar delicioso, que satisfaz e fortalece, fragrância que rescende e alenta, fonte que rega, refrigera, lava e fertiliza; amor casto, formosura especiosa e deleite sincero.

O nomen praedulce mihi, lux, et decus, et spes, Praesidiumque meum, requies o certa laborum, Blandus in ore sapor,, fragans odor, irriguus fons, Castus amor, pulchra species, syncera voluptas.6



Colhe daqui, dois frutos principais. 1. Promover sempre com grande diligência e cuidado, o negócio de tua salvação, e da de teus próximos; pois, é coisa tão preciosa, que se encarregou deste ofício o mesmo Filho de Deus, e O tomou por seu próprio nome. 2. Invocar nos perigos, dúvidas, trabalhos, empresas, e em todo o gênero de tentações, o poderoso Nome de JESUS, que vale para todo o bem, e contra o mal, Nihil ita (diz São Bernardo) irae impetum cohibet,7 superbiae tumorem sedat, sanat livoris vulnus, restringit luxuriae fluxum, extinguit libidinis flammam, sitim temperat avaritiae, ac totius indecoris fugat pruriginem, quam nomen, JESU. Especialmente se as tentações forem de desconfiança da salvação (que em sujeitos espirituais fazem chaga no coração que arde muito), é necessário remédio, derramar-lhe em cima, como óleo o Nome do Senhor, que é salvação: Oleum effusum nemen tuum.8 E podes dizer com Santo Agostinho: O bone JESU: si ego commisi unde me damnare potes, tu non amisisti unde salvare soles.9 Ó bom JESUS: se eu cometi, por onde me podeis condenar, Vós não esquecestes por onde costumais salvar.

Ó Nome suavíssimo, Nome admirável, Nome sempre novo, sempre doce, sempre poderoso, Nome sobre todo o nome; eu Vos adoro, louvo e glorifico; eu Vos escolho, para luz em minhas perplexidades, alívio em meus trabalhos, proteção em minhas tentações, despertador de meus afetos, e fundamento de minhas esperanças. JESUS, sede para mim JESUS e salvai-me.



O azeite afugenta os parasitas asquerosos, que se criam no leito: e o Nome de Jesus (afugenta) os pensamentos torpes que se criam no ócio: Oleum effusum nomen tuum.10


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Fonte: Ven. Pe. Manoel Bernardez, Oratoriano, Luz e Calor – Obra Espiritual para os que Tratam do Exercício de Virtudes e Caminho de Perfeição”, 2ª Parte, Opúsculo III, Meditação XXXIII, 100º Ponto, pp. 404-406. Nova Edição, Lisboa, 1871.

1.  Marulus lib. 6, c. 16.

2. Insinuat Divin. piet. lib. 4, c. 5.

3. I 10, H 8 = 200; O 70, Y 400 = 200. Total 888.

4. Vide Avendan. in Amphitheatro Divinae misericordiae § 4. discurs. Isagog. À n. 26.

5.  Apoc. 21, 16.

6.  Praedentius in Apotheosi adversus Judaeos ante med.

7.  Ser. 15. super. Cant.

8.  Cant. 1, 2.

9.  In Medit. c. 39.

10.  Cant. 1, 2.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

DA FESTA DA IMACULADA CONCEIÇÃO, DA SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA.

 

CONHECIMENTO HISTÓRICO1


Quais são as principais festas da Santíssima Virgem?


As principais festas da Santíssima Virgem são as da sua Imaculada Conceição, da sua Natividade, da sua Apresentação, da sua Anunciação, da sua Purificação, da sua Compaixão (Dores) e da sua gloriosa Assunção.

Explicação: Instituindo estas diferentes festas, propôs-se a Igreja honrar as principais circunstâncias da vida da Santíssima Virgem, recordar-nos as suas sublimes virtudes e excitar-nos assim a imitá-La e a depositar n’Ela toda a nossa confiança.


É muito antiga a festa da Imaculada Conceição?


A festa da Imaculada Conceição remonta aos primeiros séculos.

Explicação: A festa da Imaculada Conceição já estava estabelecida no Oriente no século V; menciona-a Santo André de Creta, que vivia no século IV. São João Damasceno, em 721, fala da festa da Imaculada Conceição da Virgem Maria. Em uma constituição do imperador Manoel, em 1150, citada por Belzamon, lê-se que havia longo tempo que se celebrava a sua festa nas igrejas do Oriente. Encontraram-se também, em alguns antigos monumentos, vários discursos feitos em sua honra pelo imperador Leão VI, cognominado o Sábio, cujo reinado começou no fim do século IX. O Padre Perrone cita três discursos de Jorge, Arcebispo de Nicomédia, um dos quais, relativo à Conceição da Santíssima Virgem: o que prova que esta festa era muito importante nessa época nas igrejas do Oriente. No Ocidente, segundo Bento XIV e Barônio, foi Santo Anselmo, Arcebispo de Cantorbery, quem a instituiu na Inglaterra, cerca do ano 1100, por ocasião de um milagre, que referem alguns historiadores contemporâneos. Outros, dizem que se deve atribuir a origem desta festa à Igreja de Nápoles, que a celebrou no século IX. Finalmente, os escritores normandos afirmam que foi na Abadia de Bec, em Neustria, que ela começou a celebrar-se, e daí passou a Ruão. – De tudo o que acabamos de dizer, cumpre concluir, que a festa da Imaculada Conceição remonta aos primeiros séculos da Igreja, e que já estava muito propagada no Ocidente, quando o Papa Sixto IV2 ordenou, que se celebrasse em todas as igrejas. – Em 1439, o Concílio de Bale, posto que não se considere como Ecumênico, mostra-nos qual era a opinião da Igreja, antes da instituição de Sixto IV. Na sua 36ª sessão, declara que a crença da Imaculada Conceição, é pia e conforme ao culto da Igreja, à fé católica, à reta razão e às Sagradas Escrituras; que não é lícito ensinar nem pregar o contrário; e que a festa se celebraria segundo o Rito Romano; o que mostra claramente, que esta festa já existia em muitas igrejas latinas.

No século XVI, Pio V introduziu no Breviário Romano o Ofício da Imaculada Conceição, e fixou a sua festa no dia 8 de Dezembro. Gregório XVI adicionou às Ladainhas da Santíssima Virgem esta invocação: “Rainha concebida sem mácula original, orai por nós”. Finalmente, a festa da Imaculada Conceição, é por toda a parte um dos elementos da piedade católica.


Que honramos nós na festa da Imaculada Conceição?


Honramos a Santíssima Virgem preservada da culpa original, e isenta de todo o pecado.

Explicação: A bendita Alma de Maria, unindo-se ao seu Corpo, foi, pela virtude da Graça Santificante em que foi criada, preservada da culpa original. Quem teria ousado duvidar, que este belo privilégio fosse concedido a Maria? Não era ele devido à Filha de Deus Pai, à Mãe do Filho, à Esposa do Espírito Santo? Não deviam as relações íntimas, imediatas de Maria com a Santíssima Trindade, elevá-La acima da condição dos pecadores? Não convinha, com efeito, que uma Virgem destinada a ser a Mãe d’Aquele que por Sua morte havia de destruir o império do pecado, fosse isenta do pecado? Podia Aquela que havia de dar à luz o Vencedor da morte, ser sujeita ao império da morte? Era possível, finalmente, imaginar a menor mácula n’Aquela que havia de conceber e dar à luz o Santo dos Santos? “Não, não era possível, que a Mãe de Deus, fosse um só instante maculada e inimiga de Deus”.


É a crença da Imaculada Conceição um Dogma?


Sim; a crença da Imaculada Conceição da Mãe de Deus é, hoje, um Dogma.

Explicação: Desde há longo tempo, desejava o mundo católico ver no número dos Dogmas da sua fé, a crença da Imaculada Conceição da Mãe de Deus. A Igreja não ignorava os votos dos seus filhos; mas o Espírito Santo, que a dirigia, fazia-lhe diferir o cumprimento deles até o dia marcado nos eternos decretos. Este dia, para sempre, bendito e memorável chegou finalmente. A 8 de Dezembro de 1854, na presença de 200 Bispos, que acudiram de todas as partes do mundo, proclamou o Sumo Pontífice Pio IX solenemente na Basílica de São Pedro, o Dogma da Imaculada Conceição de Maria. Recebendo esta notícia, todos os fiéis cristãos exultaram e por toda a parte se felicitou Maria deste nobre privilégio, cuja certeza e revelação acabavam de ser autenticamente reconhecidas e proclamadas.


Que devemos fazer para celebrar dignamente a festa da Imaculada Conceição?


Devemos louvar a Maria, excitar em nós uma grande confiança nesta Virgem Santíssima, e imitar, quanto possível, as suas virtudes.

Explicação: 1º) Nós devemos louvar a Maria, depositando todos os dias sobre o seu altar, o tributo da nossa ternura filial, quer por meio de algumas mortificações, quer de algumas breves, mas fervorosas orações. 2º) Devemos excitar em nós, uma grande confiança nesta Virgem Santíssima: Ela é Mãe de Deus; é também nossa Mãe, nossa Advogada. 3º) Devemos imitar, quanto possível, as suas virtudes, porque é o melhor modo de A honrar e de Lhe agradar. “Quereis agradar a Maria, diz São Bernardo, imitai-A”.3



Indulgência com que a Igreja enriqueceu,

a Devoção à Imaculada Conceição.


Por um rescrito de 21 de Novembro de 1793, Pio VI, desejando afervorar os fiéis na veneração do grande Mistério da Imaculada Conceição de Maria Santíssima, concedeu 100 dias de indulgência por cada vez, que, com o coração contrito, recitarem devotamente um ou outra das seguintes jaculatórias:

Bendita seja, a Santa e Imaculada Conceição, da Bem-aventurada Virgem Maria.

Ou esta:

Foste, ó Virgem Maria, Imaculada na vossa Conceição, rogai por nós ao Pai, cujo Filho Jesus, concebido do Espírito Santo, destes à luz.

Por um Breve de 22 de junho de 1855, dignou-se sua Santidade Pio IX conceder a todos os fiéis, que, com o coração ao menos contrito, recitarem a seguinte coroinha, 300 dias de indulgência; e a quem por espaço de um mês a tiver recitado todos os dias, concedeu indulgência plenária no dia que escolher, se nele, confessando-se e comungando, orar segundo a intenção de sua Santidade.



Coroinha

em Honra da Imaculada

Conceição de Maria Santíssima4


Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.


Primeira Parte: Seja bendita, a Santa e Imaculada Conceição, da Beatíssima Virgem Maria. Recite-se 1 Pai Nosso, 4 Ave Marias e um Glória ao Pai.

Segunda Parte: Seja bendita… Recite-se 1 Pai Nosso, 4 Ave Marias e um Glória ao Pai.

Terceira Parte: Seja bendita… Recite-se 1 Pai Nosso, 4 Ave Marias e um Glória ao Pai.



EU SOU A IMACULADA CONCEIÇÃO5


Apareceu no Céu um grande sinal: Uma mulher vestida de sol, com a lua aos pés, e uma coroa de doze estrelas na cabeça”.6


A VIRGEM MARIA, por privilégio único, em atenção à sua missão divina, foi concebida sem pecado. O Demônio nunca teve poder algum sobre Ela, por ter sido isenta da mancha original. Devemos honrar de modo especial esta prerrogativa da Mãe de Deus, por ser o fundamento da sua glória. Alegremo-nos com Ela pela ventura, que teve, de ser isenta do pecado de Adão e de receber mais graças, nesse feliz momento da sua Conceição, do que os homens e os Anjos em conjunto jamais receberam.

Meditação sobre a Imaculada Conceição

1. Maria foi concebida sem pecado; foi uma graça que Deus, pode conceder-lhe, porque nada é impossível à Sua Onipotência. Rainha dos Anjos, Mãe do Salvador, encho-me de alegria, quando penso que o pecado nunca Vos entrou na Alma, e que, no momento da vossa Conceição, fostes cheia de graça. Creio, Virgem Santa, e por toda a parte defenderei, a honra da vossa Conceição Imaculada.

2. Deus devia, por uma certa conveniência, preservar Maria do Pecado Original. Eterno Pai, poderíeis permitir que a vossa Filha tão amável, a Mãe de vosso Filho, fosse, por um só momento sequer, escrava do Demônio? Poderíeis, Espírito Divino, permitir que o vosso Inimigo entrasse no Coração de vossa Esposa tão amada? E Vós, Verbo Eterno, consentiríeis em deixar profanar este Templo, em que um dia havíeis de habitar? Ó não, seria fazer injúria ao vosso amor filial só pensar nisso! Cremos, pois, com a Igreja Católica, que a Bem-aventurada Virgem Maria, por um privilégio singular de Deus, foi inteiramente preservada da mancha original, desde o primeiro instante da sua Conceição. – Atas de Pio IX.

3. Quando, depois de ter contemplado a Virgem Imaculada, olhamos para nós, quão diferentes nos encontramos de nossa Mãe! Nascemos pecadores, vivemos no crime, e estamos expostos a morrer em pecado! Mas, ó Virgem Santíssima, vinde em nosso auxílio; não haveis de querer a perda dos vossos filhos. “Quem recorre a Maria, não pode perecer; é Ela o fundamento de toda a esperança”. (São Bernardo).

Oração

Ó Deus que, pela Imaculada Conceição da Virgem, preparastes um Santuário condigno a vosso Filho, dignai-Vos, depois de A ter preservado de toda a mancha, na previsão da morte desse mesmo Filho, conceder-nos, por Sua intercessão, a graça de chegarmos até Vós, purificados de toda a culpa. Pelo mesmo Jesus Cristo vosso Filho e Senhor Nosso. Amém.


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1.  “Catecismo – Explicação Histórica, Dogmática, Moral, Litúrgica e Canônica – com a resposta às objeções extraídas das Ciências contra a Religião”, Tomo IV, Lição XXXVII, pp. 352-356; traduzida da 12ª edição de Paris por Rev. Pe. Francisco Luiz de Seabra, 3ª edição portuguesa, Livraria Chardron de Lello & Irmãos editores, Porto, 1903.

2.  Bula de 1 de Março de 1476.

3.  Si vultis et placere, aemulamini. (São Bernardo).

4.  “Manual das Missões e Devocionário Popular”, por um Presbítero da Congregação da Missão, Orações e Meditações, p. 382. 1908.

5.  “Vida dos Santos – com uma Meditação para cada dia do Ano”, pelo Pe. João Estevam Grossez, S.J., Segunda Parte, 8 de Dezembro, pp. 339-340. Edição Portuguesa. “União Gráfica”. Lisboa. 1928.

6.  Apoc. XII, 1.


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