
Após
a memorável Páscoa, a vida de São José em Nazaré* foi
somente paz e felicidade contínua.
*
A Santa Casa não era um suntuoso palácio, mas uma pobre casinha que
ainda hoje se pode ver. No século IV, Santa Helena, mãe do grande
Constantino, ordenou que fosse encerrada em um belo templo, com a
seguinte inscrição: “Este
é o Santuário onde se lançou o primeiro
fundamento da salvação dos homens”.
Escreveu
São Vilibrodo que, no século VIII, os cristãos tiveram de
resgatá-lo por elevado preço, porque os infiéis queriam
destruí-lo. Em 1291, Kalil (sultão do Egito), tendo-se apoderado de
toda a Galileia com a matança de 25 mil cristãos, foi destruída a
bela Igreja de Santa Helena que encerrava a Santa Casa, e estava esta
para sofrer a mesma sorte, quando Deus ordenou aos Anjos que
a transportassem para a Dalmácia, tendo saído muito cedo para os
trabalhos do campo, viram estupefactos, à beira-mar, em um lugar
chamado Rannizza, uma casa solitária de formato oriental e colocada
sem alicerces no chão, em um local onde nunca se tinha visto nem
casas nem cabanas. Fora de si com a maravilha, correram a anunciar o
que tinham visto. Em breve se difundiu a fama do prodígio; o povo
acorreu para examinar e admirar o misterioso edifício, construído
de pedras vermelhas quadradas e unidas com cimento. Todos ficaram
admirados com a singular estrutura, com a antiguidade, e
especialmente não sabiam explicar como se mantinha ereta sem
alicerce algum.
Mas
a surpresa aumentou ao entrarem pela única porta, aberta a um lado.
À direita da porta, abria-se uma única e estreita janela.
Interiormente, as paredes achavam-se cobertas de pinturas
representando os Mistérios de Nazaré. De um lado, um altar de
pedra, encimado por uma Cruz grega. À direita do altar, uma imagem
da Santíssima Virgem com o Menino Jesus no braço; à esquerda,
perto do altar, um pequeno armário escavado na parede, contendo
alguns vasos.
O
Bispo do lugar e o governador da Dalmácia, Nicolau Frangipane,
avisados do acontecido, e desejando certificar-se da verdade do
misterioso depósito, enviaram a Nazaré algumas pessoas. Verificaram
estas, que a Casa de São José fora arrancada dos fundamentos (ainda
subsistentes); que não havia diferença alguma na natureza das
pedras daqueles alicerces, comparada à das pedras da Casa achada na
Dalmácia, nem tão pouco nas dimensões do edifício. Deram pois uma
relação autêntica, confirmada com juramento; e logo os fiéis
acorreram em multidão à Santa Casa. Os milagres operados aumentaram
cada vez mais o concurso e devoção dos fiéis.
Três
anos e meio após a sua chegada; isto é, a 10 de Dezembro de 1294, a
Santa Casa desapareceu aos olhares dos desolados dalmacianos,
transportada pelas mãos invisíveis dos Anjos para a Itália, a uma
floresta de Renacanati. Mas, como muitos ladrões contaminavam o
sagrado bosque com furtos e homicídios, a Santa Casa, oito meses
depois, abandonou a floresta profanada, e foi colocada no meio de uma
colina (agora chamada Batuorola), pertencente a dois irmãos. Sendo
estes os depositários e recebendo
grandes dons e numerosas ofertas, cederam à avareza e se deixaram
perverter. Então, a Santa Casa se retirou, quatro meses depois de
sua chegada, da colina, e, por um terceiro milagre, foi levada pelos
Anjos para o meio de uma estrada pública, que vai de Recanati até a
beira-mar, onde se encontra ainda hoje, encerrada no recinto da
Catedral.
Dizem
que nesse lugar existiu em outras épocas um Templo dedicado a alguma
falsa divindade, circundado por uma floresta de louros, razão pela
qual recebeu o nome de Loreto (laureto), como ainda se chama em
nossos dias.
A
atual Igreja de Nazaré está encerrada no convento dos franciscanos.
À esquerda, por uma escada de mármore de 17 degraus, desce-se a uma
capela subterrânea, onde se erguia a Casa da Bem-aventurada Virgem
Maria. Ao fundo, há um altar erigido no lugar onde se operou o
Mistério da Encarnação; e, sob o altar, no branco mármore do
pavimento, leem-se as palavras: VERBUM
CARO HIC FACTUM EST.
A oficina de São José foi convertida em Capela. Os cristãos de
Nazaré, ao acender de tarde as luzes, têm por hábito dizer:
Louvado seja o nome de Jesus; e os outros respondem: Sempre e pelos
séculos eternos.
Enquanto
Maria cuidava da casa, fiava, cosia, pensava nas despesas ordinárias,
ia buscar água, preparava as refeições, São José trabalhava em
sua oficina.
O
doce far niente
e o passar o tempo comodamente estirados, como costumam os orientais,
eram desconhecidos naquela casa, onde cada um costumava tomar o
repouso diário, somente depois de ganho.
Quando
a idade e as forças permitiram a Jesus ajudar o Pai nos trabalhos,
começou este a ensinar-Lhe a arte que, segundo os desígnios de
Deus, devia exercer como ação redentora.
Disse
um ilustre orador: “Observai São José. Ergue-se do leito ao
alvorecer do dia, oferece a Deus o tributo do reconhecimento e da
oração, entrega à dileta Esposa e ao Divino Menino todos os
encargos do dia, depois vai solícito à sua oficina para retomar
cada dia aquele trabalho que lhe é tão caro por amor de Jesus e de
Maria. Vede o bom Patriarca, firme na fadiga de seu pesado ofício;
interrompe-o apenas para tomar a sua escassa refeição e continua
enquanto lhe é suficiente a luz do dia. Abençoados suores,
santíssimas fadigas, não pelo desejo de acumular dinheiro, mas para
alimentar Jesus e Maria!”
A
presença de Jesus na pobre oficina suavizava o peso da fadiga do
Santo e inundava-lhe o espírito de celestial consolação. Ao ver-se
diante do Supremo Artífice do Universo sob a forma de um rapazinho,
sentia-se cheio de reverência e de ternura. Com que devoção
trabalhava junto ao seu Divino Discípulo, preparava-Lhe o trabalho,
instruía-O e observava com prazer os primeiros trabalhos!
Como
seu Coração se terá fundido em ternura e alegria, ao tomar entre
as mãos a pequenina destra do Divino Menino, para dirigi-Lo na
prática e auxiliá-Lo nas dificuldades! Admirava a diligente
perseverança de seu Celeste Discípulo, cujas mãos se enrijeciam na
constante fadiga.
No
sábado, após as funções da Sinagoga, quantas vezes terá
conduzido pela mão o Filho de seu Coração às alturas do monte,
donde Lhe terá mostrado a magnífica perspectiva do Hermon com
Cesareia de Felipe a seus pés, os contornos do Lago de Genezaré,
Cafarnaum, Betsaida; depois a fértil planície de Esdrelon com Naim,
o Carmelo e as águas azuis do Mediterrâneo a confinar com o
Céu! Aqueles nomes despertavam, na mente do jovenzinho silencioso,
tantos pensamentos; já suspirava pelo tempo de operar maravilhas e
prodígios pelas almas que O esperavam, para serem salvas. Mas tudo
isso, eram ainda um Mistério para São José.

Diz
São Lucas em seu Evangelho, que Jesus, na juventude, foi sempre
submisso aos pais. Era Deus, a Sabedoria e a Santidade em Pessoa;
todavia, na humanidade, crescia de menino a jovem, de jovem a homem.
Ora, que benigna autoridade e que bondade de Coração terá exercido
São José na família de quem era Chefe? Sabia estar-lhe submisso o
Filho de Deus e a Mãe Santíssima, por isso, mais fazia por Si, mais
servia que ordenava, e, por sua prudência e caridade, em sua pequena
família, tudo era paz, alegria, união e amor.
Um
celestial perfume de pureza alegrava aquelas sagradas paredes, entre
as quais habitavam juntos o Cordeiro Imaculado, a Rainha das Virgens
e o Seu Esposo, puro e santo como os Anjos do Céu. Maria Santíssima
depende humildemente do Esposo confiado pelo Céu para seu guia e
custódio; Jesus está submisso, qual obedientíssimo filho, a São
José e a Maria; e José não tem outra vontade senão a de Deus.
Pouco
a pouco o Menino se desenvolvia, aparecia na perfeita juventude e
finalmente homem, em todo o vigor da idade viril. E São José sempre
a contemplar a beleza do Deus humanado. Podia considerá-Lo nas suas
mais diversas ações: no sono, no brilho da alegria, do amor e da
contemplação. Quantos Mistérios terá lido naquelas pupilas! O
centro de sua existência era Jesus, o seu Salvador, o Filho, o seu
Bem, o seu Deus, e conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo era o objeto de
seu espírito, o seu trabalho, o seu desejo, todo o seu ser.
A
incompreensível humilhação do Verbo Divino conservava José na
mais profunda humildade e reverência. Quando, em vista da missão
assumida, ordenava a Jesus, interiormente O adorava com respeito
profundo. Vendo-se honrado pela obediência de seu Senhor,
considerava cada vez mais o próprio nada, cumprindo assim as
palavras do Espírito Santo: “Quanto maior fores, mais te
humilhes em todas as coisas”.
A
respeito da humildade do Santo Patriarca, diz Bossuet: “Quando
Jesus aparecer como Juiz, veremos então, à luz da glória, o que
agora não sabemos explicar na vida oculta de São José. Saberemos o
que fez e mereceu com a sua humildade nos anos vividos com Jesus, na
mais profunda obscuridade e abjeção. Tendo-se feito oculto e
pequeno, então Jesus o fará grande e o exaltará na medida da
humildade de seu Coração”.
A
Casa de Nazaré foi casa de pobres; todavia, quem não inveja a paz e
tranquilidade das Três Pessoas que a habitaram? São José, Chefe
daquela Sagrada Família, não teria certamente trocado a pequenina
casa pelo trono do mais poderoso rei da terra, e, voltando os olhos
para Jesus e para a sua puríssima Esposa, teria dito: São estes
os meus tesouros. Tenha o mundo tudo quanto estima, ama e julga
necessário para tornar feliz e contente o homem: eu, acho-me
contente e pago com Jesus e Maria. Sendo pobre, com Eles sinto-me
rico e tranquilo.
São
José possuía um Coração tão bem disposto para receber a verdade,
que a Verdade, habitando com ele, deu-lhe certamente as mais belas,
as mais santas e as mais sublimes lições. Por isso, afirmam
diversos autores célebres, que Jesus revelou ao seu Pai adotivo, ao
fim de sua vida, o grande Mistério da Santíssima Trindade, e lhe
deu a conhecer, quanto pode ser concedido a um homem, o Pai Celeste,
a Quem afetuosamente adoravam, oravam e obedeciam. Nos amplexos de
amor santíssimo que Jesus tantas vezes trocou com São José,
ter-lhe-á concedido em abundância, todos os dons e consolações
que costuma derramar nas almas humildes e castas.
A
São José foi dada a ciência de Deus; e isso nos faz compreender
que a verdadeira ciência é conhecer a Deus e amá-Lo; ensina-nos
que o caminho para alcançar esse conhecimento e amor é Jesus; Jesus
ouvido com docilidade; Jesus meditado assídua e profundamente; Jesus
estudado em Seus admiráveis exemplos; Jesus amado e servido com todo
o coração, com toda a alma e com todas as forças. Foi este o
grande segredo da santidade e da felicidade de São José na vida de
Nazaré.
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Fonte:
Rev. Pe. Tarcísio M. Ravina, da Pia Sociedade de São Paulo, São
José – na Vida de Jesus Cristo, na Vida da Igreja, no Antigo
Testamento, no Ensino dos Papas, na Devoção dos Fiéis e nas
Manifestações Milagrosas; 1ª Parte, pp. 90-95. Edições Paulinas,
Recife, 1954.