
1.
Considerai que de dois modos nos comunica o Senhor a sua graça
divina: consiste um deles em no-la dar segundo a disposição dos
nossos méritos, e se chama ex
opere operantis;
o outro, por sua mera liberalidade, e se chama ex
opere operato.
Ora, esta segunda espécie de graça é ainda aquela que formou boa
parte dos tesouros empregados para opulentar Maria, e lhe fizeram um
acréscimo sem igual. E porque esta graça principalmente se dá na
recepção dos Sacramentos, quem poderá compreender com que
plenitude foi conferida a Virgem, quando Ela recebeu o Batismo por
mão de seu divino Filho;
quando
recebeu a Confirmação no dia de Pentecostes com os outros
Apóstolos, mas com disposição de caridade incomparavelmente maior
do que os Apóstolos e todos os Santos juntos; quando recebeu a
Extrema-unção,
antes que saísse da terra e fosse assunta ao Céu? E, contudo, que é
tudo isto em comparação com as riquezas que no virgíneo seio se
lhe derramaram, durante os vinte e quatro anos que Ela sobreviveu à
instituição da Divina Eucaristia, e com esta se refez todos os
dias, segundo costumavam fazer aqueles primeiros fiéis, e segundo
convinha o fizesse Aquela para quem, mais especialmente do que para
todo o resto dos justos, tinha Jesus Cristo deixado no mundo esse
alimento do Paraíso? Santa Catarina de Sena, quando se apresentava
para chegar à sagrada mesa, muitas vezes viu, nas mãos do Sacerdote
que lhe devia dar a comunhão, uma grande fornalha ardente para nos
figurar o amor com que o Redentor se digna de unir-se com as nossas
almas; e o Senhor um dia à Santa Brígida disse, que Ele a nós
vinha como Esposo: Ingredior
ut Sponsus,
isto
é, todo ternura, todo finezas: e, assim sendo, que amor deveria
haver entre a Mãe divina e o seu divino Filho, todas as vezes que
Ela se achegava à bem-aventurada mesa; e que incêndio de caridade
ali de mais em mais havia de recrescer no Coração de Maria. Santa
Maria Madalena de Pazzi tal estima tinha deste alimento dos Anjos,
que costumava dizer, que uma só comunhão por si só bastava para
nos fazer santos, si para ela nos soubéssemos bem dispor. Quanto
pois, sobre si mesma se
terá exaltado a Santa Virgem, todas as vezes que recebia o seu Filho
Sacramentado, visto que, diariamente se lhe ia aumentando a
santidade, e além de toda medida, todos os dias Ela O recebia com
maior disposição, e com maior graça, do que da vez primeira O
havia recebido, quando nas virgíneas entranhas Ele se fez homem!
Há
quem assegure, que as espécies Sacramentais na Virgem não se
consumiam tão depressa pelo calor natural, como em nós outros; mas,
que íntegras permaneciam até ao outro dia, quando Ela de novo
recebia o Senhor; pelo que, era o seu Coração como que uma custódia
animada, um vivo tabernáculo do diviníssimo Sacramento; e, se isto
é verdade, que flamas de caridade devia, no seio da Virgem, excitar
aquele
Sol
incriado e que jamais descia ao ocaso? O nosso sol, nos países para
quem olha mais longamente do que para outros, tamanho calor produz
que não só às plantas, porém, mesmo as areias se abrasam. E quem
poderia dizer o ardor que no Coração de Maria produzisse aquele
Senhor, que disse: Quandiu
sum in mundo, lux sum mundi –
enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo,
desde que, ali de contínuo se mantendo, ali fazia um perpétuo dia
de caridade?
Talvez
pensais que, isto dizendo, nada mais possamos acrescentar; e contudo,
ainda estamos no princípio; e aqui também de nós se pode entender
o dito do Sábio: Cum
consummaverit homo, tunc incipiet –
Quando
o homem tiver acabado, então estará no começo,
da
mesma sorte que, ao subir uma grande montanha, quem imagina já lhe
ter escalado o cimo, descobre ainda mais alturas, a que deve
ascender. Tal espécie de graça não foi concedida à Virgem
unicamente na recepção dos Sacramentos; mas também frequentemente
no decorrer da sua vida, por ocasião dos principais Mistérios da
vida do Salvador, e dos obséquios mais consideráveis que Ela lhe
prestou, já quando O deu à luz, já quando O criou na infância, já
quando O serviu e acompanhou na maior idade. Na Conceição do Verbo
Incarnado, quando por Maria Ele se desposou com a natureza humana,
Consigo trouxe do seio da Virgem, onde se realizaram
essas bem-aventuradas núpcias, um dote tão rico, que a alguns tem
parecido que mais não se
poderia aumentar, como se a Virgem tivesse então atingido a meta da
sua perfeição.
Ora, isto conquanto não se deva admitir como verdade, todavia, nos
pode servir de medida e guia para idearmos a opulência dos dons que
Ela alcançou na Ressurreição do seu divino Filho, ou na Ascensão,
ou quando o Espírito Santo desceu sobre a Igreja, e em outros
semelhantes sucessos, nos quais, se sobre os demais Santos choviam as
graças, para a Virgem se abriam as portas do Paraíso, caindo sobre
Ela dilúvios de graça. Que mais? Deve acreditar-se que toda a vida
da Virgem fosse de contínuo entretecida de tal acréscimo de graça,
além do que era devido aos atos da sua virtude, desde que Ela
continuamente conviveu com Aquele Senhor que, por onde quer que
passasse, deixava estampados os vestígios da sua beneficência:
Pertransiit
benefaciendo –
como
ele andou fazendo o bem,
e
curando as almas com o mesmo toque com que curava os corpos, pelo que
podia dizer: Totum
hominem sanum feci –
curei
um homem em todo o seu corpo.
Quem
tão néscio será, diz Canísio,
que ponha em dúvida se a Virgem, pela contínua familiaridade do seu
Filho, e com assiduamente servi-Lo, e com o haver nutrido de seu
leite, e com tantas vezes apertá-Lo ao seio, não se tornasse de
dia em dia, pelo contato desse divino Corpo, mais divina também e
mais santa? Quis
nisi insulsus ambigat, an beata Virgo in summa, et quotidiana cum
Christo familiaritate, et per crebram divinae carnis contrectationem,
ipsa subinde sanctior, atque divinior effecta sit?
E não será, pois, dever nosso venerarmos como um abismo de graça o
Coração de Maria, erário em que se depositaram tantos tesouros?
Basta que uma vez chegue a qualquer porto uma das esquadras da Índia,
para que o enriqueça: quão rica foi a Santa Virgem, em cujo seio
tão frequentes se depunham as primeiras riquezas do Paraíso!
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Fonte:
O Sagrado Coração
de Maria Virgem –
Proposto à devoção dos fiéis, pelo Pe. João Pedro Pinamonti,
S.J., Consideração III, pp. 68-73. Tradução do Italiano, Duprat &
Comp., São Paulo/SP, 1904.
Ato
de Desagravo ao
Imaculado
Coração de Maria
Virgem
Santíssima e Mãe nossa querida, tendo mostrado um dia à Vossa
Serva o Vosso Coração cercado de espinhos, que os homens ingratos a
todos os momentos Vos cravam com blasfêmias e ingratidões, pedistes
quem Vos consolasse. Como filhos Vossos Vos queremos honrar, amar,
consolar sempre; mas hoje especialmente, ao ouvir as Vossas amargas
queixas, desejamos desagravar o Vosso maternal Coração, que a
impiedade dos homens nestes desgraçados dias ainda fere com a dura
espada de Vossas dores.
O
Vosso Jesus ainda é hoje tido por malfeitor e condenado à morte;
ainda é despojado dos seus vestidos, cuspido, flagelado e posto numa
Cruz.
E
a Vós, Virgem Dolorosíssima, como digna Mãe de Jesus, também
tratam com a mesma ingratidão.
Virgem
Santíssima, movidos pelos ardentes de amar-Vos como Mãe e promover
uma terna devoção ao Vosso Imaculado Coração, prostramo-nos a
Vossos pés, para Vos mostrarmos a pena que sentimos pela dor que os
homens Vos causam e para repararmos com os nossos obséquios e afetos
tantos pecados com que os Vossos filhos ingratos pagam as finezas do
Vosso amor.
Perdoai-lhes,
Senhora, a eles e perdoai-nos a nós todos, que se Vós nos
perdoardes, também Jesus nos perdoará.
Convertei
ao Vosso amor tantos infelizes, que cegamente vivem no erro; e em
especial, lançai os olhos Mãe misericordiosa para nós, Vossos
filhos, que queremos amar-Vos na terra cada vez mais, sendo fiéis
discípulos de Jesus com a vida verdadeiramente cristã, a fim de Vos
contemplarmos nas suaves delícias do Céu, e para isto alcançar,
lançai-nos a Vossa bênção junto com a do Vosso Jesus. Assim seja.
O
Maria, omnia mea tua sunt!
Ó
Maria, todos os meus bens são Vossos!
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